quinta-feira, 11 de junho de 2009

OPINIÃO ANO XV - Nº 164 – JUNHO 2009

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O VEGETARIANISMO EM DEBATE
A carne no banco dos réus
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Participantes da Lista da CEPA na Internet discutem a questão do vegetarianismo sob a perspectiva espírita, a partir de texto do comunicador Ivan René Franzolin.
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O texto de Franzolin
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Um artigo do comunicador espírita Ivan René Franzolin postado na lista de discussão da CEPA pelo debatedor Paulo Cesar (DF) e que pode ser lido em sua íntegra no blog http://blog-espiritismo.blogspot.com/2009/05/e-o-vegetarianismo.html - provocou, no último mês de maio, interessante debate no grupo. Em seu artigo, originariamente publicado em A Voz do Espírito, Franzolin, que se declara “vegetariano há vários anos”, sustenta: “Embora o Espiritismo não recomende diminuir a matança de animais para nossa alimentação, o conteúdo de seu ensino, baseado no amor e na bondade, deixa evidente que esse será um passo no caminho da nossa evolução”.
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Reportando-se à questão 723 de O Livro dos Espíritos onde Kardec indaga dos espíritos se “a alimentação animal é, com relação ao homem, contrária à lei da Natureza”, lembra o articulista que a primeira frase da resposta foi: “Dada a vossa constituição física, a carne alimenta a carne, do contrário o homem perece”. Mas, questiona Franzolin: “Como teria sido a resposta caso ele tivesse perguntado se o homem deveria se preparar para um dia deixar de comer carne”. Recolhe, então da resposta “que a alimentação carnívora é parte do processo evolutivo e natural do homem”, mas que isso vale apenas “até um instante de sua evolução” e que esta, segundo alguns vegetarianos, já teria sido alcançada “para aqueles mais evangelizados”.
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Segundo o artigo, os conhecimentos da época em que os espíritos deram aquela resposta a Kardec não permitiam incitar o homem a uma mudança de sua alimentação carnívora, sem prejuízo à saúde. Mas que “a situação atual apresenta diferenças muito favoráveis à alimentação vegetariana, aumentando consideravelmente as opções dessa dieta”. Mesmo defendendo a alimentação vegetariana, Franzolin, em seu artigo, destaca: “Independente da análise quanto ao tipo de alimento que ingerimos, se faz necessária a eliminação dos excessos e de qualquer postura que nos coloque próximo da posição de quem vive para comer, ao invés de comer para viver”.
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A alimentação vegetariana ganha cada vez mais adeptos, não por motivos religiosos, mas como opção saudável e porque existem hoje alternativas que suprem os nutrientes encontrados na carne.
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Argumentos contrários e favoráveis no grupo de discussão
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A tese vegetariana, que tradicionalmente encontra defensores e opositores no meio espírita, também na Lista da CEPA motivou argumentos em ambos os sentidos. O debatedor Vital Ferreira (SP) questionou argumento também presente no artigo de que em Nosso Lar, obra psicografada por Chico Xavier, “os habitantes foram compelidos a deixarem o hábito de comer carne”. Pergunta se, com isso, o articulista “está dizendo que os espíritos comem carne”.
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A partir dessa observação, o debatedor Marcus (Salvador/BA) contestou a própria existência de animais na erraticidade, evocando, para tanto, O Livro dos Espíritos. Por sua vez, Sérgio Maurício (Salvador/BA) fez críticas à posição dos vegetarianos que, em seu discurso, “se consideram mais evoluídos”. Para ele é arrogância achar que uma opção alimentar é caminho ou não para evolução espiritual. Diz o debatedor: “Não tenho nada contra ou a favor de opções alimentares, pois penso firmemente que isso não tem absolutamente nenhuma importância no desenvolvimento espiritual”. E acrescenta: “Achar que um animal tem mais vida do que uma planta é, no mínimo, um entendimento bem particular e ideologicamente interessado do conceito de vida”.
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Paulo Cesar (DF) sustentou no debate que a alimentação carnívora gera compromissos cármicos, sob o entendimento de que fazemos os animais sofrerem “e há uma lei de retorno”. Também participante da lista, Israel Agudelo, de Bogotá, Colômbia, saudou a discussão do tema “tão importante para aqueles que vemos os animais como irmãos e não como meio de alimentação”.
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NOSSA OPINIÃO
SEM CULPA
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Costumes alimentares, tanto quanto os de outros aspectos da vida humana, são mutáveis. Se recuarmos no tempo, vamos encontrar o homem primitivo abrigado em grutas de pedra, comendo a carne crua dos animais que saíra a caçar. Nosso organismo, hoje, por certo não suportaria os alimentos que eram, então, por ele ingeridos.

O hábito de comer carne que, diferentemente de nossos antepassados, aprendemos a cozer ao fogo, juntando-lhe condimentos que a transformam em delicadas iguarias, continua, em nosso tempo, sendo uma das principais bases da alimentação humana. Assim mesmo, diversamente do que ocorria no século 19 (época em que os espíritos deram a entender a Kardec que ela era praticamente indispensável à alimentação humana), hoje existem outras opções de cardápio capazes de suprir os nutrientes presentes na carne. Ademais, costumam-se associar, presentemente, ao consumo da carne riscos de doenças como o câncer, distúrbios cardíacos e, inclusive, a redução da expectativa de vida.

Aspectos dessa natureza têm levado, hoje, muitas pessoas a reduzir ou, mesmo, a abandonar o consumo da carne, substituindo-a, no entanto, por outros tipos de nutrientes que a agricultura e a engenharia alimentar modernas põem à disposição do consumidor. Dessa forma, tornar-se vegetariano já não resulta de convicções religiosas ou de escrúpulos espiritualistas, mas aqueles que o fazem são, via de regra, movidos por razões de saúde. Numa visão inspirada na filosofia espírita, que contempla o homem como um ser integral - corpo/mente/perispírito/espírito -, a saúde material tem, também, importantes repercussões espirituais. Essa linha de raciocínio abre espaço a uma visão mais sistêmica da vida, levando em conta aspectos ecológicos e de respeito a todas as formas de vida.

É possível que, num lapso semelhante àquele que nos separa hoje do tempo em que surgiu o espiritismo, o consumo da carne venha a ser drasticamente reduzido ou até abandonado. Convém, entretanto, que as mudanças ocorram sem a intercorrência de condenações, remorsos ou autoflagelos carregados de ameaças, culpas ou medos. A vida flui e se aprimora a partir do avanço do conhecimento acerca de nós próprios e do mundo que nos rodeia. Se os preceitos religiosos, ontem, assumiam formas imperativas a regular nossos hábitos pessoais, os tempos de hoje colocam-nos à disposição conhecimentos e alternativas capazes de permitir que, com liberdade, tracemos projetos de vida úteis ao nosso desenvolvimento físico, psíquico e espiritual: sem culpas e com vistas à nossa felicidade e daqueles que nos rodeiam ou que virão depois de nós. (A Redação)
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Leia ainda nesta edição:
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· A busca da identidade apesar das barreiras. O editorial da pág.2 destaca o esforço da CEPA, instituição da qual é o CCEPA filiado, em promover, através de seus Congressos, a convivência e a busca de uma identidade capaz de unir espíritas de diferentes perfis.
· “Sou humano e nada do que é humano me é estranho” – A frase do ex-bispo Lugo, repetindo Terêncio, é mote para a coluna Opinião em Tópicos de nosso editor Milton Medran Moreira, na pág.3.
· Participe do Café Cultural do CCEPA. Será na tarde de 27 deste mês na sede de nossa instituição. Veja na pág.3.
· Os fundamentos éticos e sociais do espiritismo nunca estiveram tão atuais como agora. Quem afirma é o economista e jornalista espírita José Rodrigues, no artigo Na Teologia do Mercado, nunca há o bastante, uma análise econômica e social a partir da filosofia espírita, em Enfoque da última página
· A CEPA não adotará a Proposta do Modelo Kardecista de Jaci Regis como tema central do Congresso de Santos. Nota oficial do Conselho Executivo da entidade, publicada em América Espírita, encartado nesta edição, explica as razões.
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EDITORIAL
A Busca da Identidade apesar das barreiras
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O mais sólido e mais duradouro traço de união entre os seres é a barreira
(Pierre Reverdy)

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Atualizar o espiritismo e avançar em conceitos não suficientemente contemplados na obra de Allan Kardec é desafio permanente que, ontem, hoje e sempre, tem envolvido os chamados grupos progressistas do movimento espírita. Não se pode, entretanto, perder de vista que o movimento, como um todo, é plural. O pluralismo deriva justamente da heterogeneidade cultural e das diferentes experiências vividas pelas pessoas e instituições que compõem o grande mosaico mundial chamado espiritismo. Serão essas diferenças barreiras intransponíveis? Salvo melhor juízo, não.
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Mais agudamente, nos últimos anos, o movimento espírita vem apresentando com clareza e com perfis muito bem definidos, dois blocos que se autodefinem como religioso um e laico o outro. O Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, entidade da qual este jornal é intérprete, de há muito que optou por uma visão laica e livre-pensadora de espiritismo, entendendo ser este o perfil mais fiel às bases propostas, no Século 19, pelo insigne fundador do movimento, Allan Kardec. Por isso, há cerca de 15 anos, decidiu filiar-se à Confederação Espírita Pan-Americana, CEPA, organização que, ao curso de mais de 60 anos de vida, demonstrou vocação livre-pensadora, laica e progressista, sem jamais abandonar o espírito essencial da proposta kardequiana.
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Mesmo sustentando algumas ideias que se chocam com o pronunciado religiosismo e misticismo de grande parte do movimento espírita mundial, a CEPA busca manter com todo o movimento, independentemente das características de cada entidade ou agente, uma relação afetuosa e produtiva, entendendo que, somando esforços, todos podemos contribuir com o avanço dos princípios básicos do espiritismo.
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Especialmente através de seus Congressos, a Confederação Espírita Pan-Americana tem buscado essa interlocução com todo o movimento espírita mundial. A par disso, aqueles eventos guardam o nítido escopo de, acolhendo contribuições plurais, desbravar caminhos que levem à permanente e efetiva atualização doutrinária e, quiçá, a uma mais clara identidade cultural do movimento como um todo. Os Congressos da CEPA são, ao mesmo tempo, expressões cálidas de confraternização e instrumentos de avanço conceitual e doutrinário do espiritismo.
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A nota oficial que a CEPA publica na primeira página do boletim América Espírita, encartado, como de praxe, neste jornal, ratifica essa disposição com vistas ao próximo Congresso da entidade, a ser realizado em Santos/SP, no próximo ano de 2012. Como os vinte anteriores Congressos já celebrados pela instituição, este objetiva ser um evento de congraçamento entre todos os espíritas, e o desenvolvimento de sua temática promete ser, de acordo com a tradição institucional, mais uma contribuição coletivamente construída em prol do aprimoramento doutrinário do espiritismo.
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O Centro Cultural Espírita de Porto Alegre que, com a presença pessoal de cinco de seus associados, assistiu e participou da reunião em que se produziu aquela manifestação, na cidade de Buenos Aires, no último mês de maio, ratifica-a aqui e cumprimenta os dirigentes da CEPA pelo oportuno, firme, fraterno e genuinamente espírita pronunciamento.
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Os Congressos da CEPA são, ao mesmo tempo, expressões cálidas de confraternização e instrumentos de avanço conceitual e doutrinário do espiritismo.
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OPINIÃO EM TÓPICOS
Milton R. Medran Moreira
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Lugo e Terêncio
Lugo não se escondeu. E mais: não escondeu sua condição humana, quando, acossado pelas tantas notícias de paternidade a ele atribuídas no pleno exercício do episcopado, declarou publicamente: “Sou humano e nada do que é humano me é estranho”. Repetiu, assim, embora sem citar a autoria, famosa sentença do dramaturgo e poeta romano Terêncio: “humo sum, humani nil a me alienum puto”.
Nenhum reparo, pois, à atitude do político e administrador Fernando Lugo. Comportou-se como ser humano, detentor de virtudes e defeitos, capaz do cometimento de acertos e erros. E, acima de tudo, uma vez assumidos estes últimos, de repará-los, como já o fez, ao reconhecer a paternidade de uma das crianças cuja mãe trouxera a público a denúncia.

O cidadão, o padre e o bispo
Se não cabem censuras ao cidadão Fernando Lugo, talvez o mesmo não se possa dizer com relação ao padre Lugo, membro, quando dos episódios a ele atribuídos, de uma ordem religiosa que impõe aos seus integrantes, e estes aceitam e professam, votos de pobreza, obediência e castidade. Mais incompreensíveis se tornarão ainda os fatos se considerarmos protagonizados por dom Lugo, representante direto e autoridade máxima, em sua diocese, de uma organização religiosa que impõe ao seu clero, por ele ali chefiado, a abstinência total do sexo e a própria renúncia ao casamento.

Em defesa do ex-padre e ex-bispo, se poderá alegar que, no momento em que renunciou àqueles títulos, fê-lo por haver chegado, intimamente, à descrença da validade axiológica das regras a que estivera, até então, jungido. Percebendo que não pode haver uma moral para o clérigo e outra para o secular, teria concluído, em determinado momento, que a prática do sexo não é condenável e que, antes, é um direito e uma saudável necessidade do ser humano. Mas, não parece que assim pense ele. Tanto que, publicamente, rogou perdão, reservando-se, ainda, a fazer o acerto de contas com seus confessores, em quem, pois, segue reconhecendo o divino dom de reintegrá-lo no perdido estado de graça.
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O divino e o humano
Ambiguamente, pois, o “homo sum” de Terêncio vale para o cidadão, mas não é aplicável ao clérigo. Este, por uma misteriosa abstração teológica, mais do que renunciar ao sexo e até ao casamento, renuncia à sua própria humanidade. Aí está a grande contradição da religião que a faz intrinsecamente irreconciliável com o nosso tempo: essa arbitrária divisão da vida entre o sagrado e o profano, entre o divino e o humano. Até onde vai o divino e onde começa o humano? Em que segmentos da vida e da morte incidem os mistérios divinos e em quais outros se podem aplicar os avanços, sempre crescentes, do conhecimento e da ética desenvolvidos pela fantástica experiência do espírito humano?
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Consciência e vida
Não parece mais ajustado buscarem-se as razões divinas na mais fascinante obra que conhecemos: a consciência? Nela não estarão refletidas, de forma diáfana e universal, todas as leis contidas na natureza?
Terêncio, mais de 100 anos antes de Cristo, já percebera o que os humanistas viriam proclamar na modernidade ocidental: que o homem é a medida de todas as coisas. Ou seja, que sem compreender o humano, jamais teremos a consciência do divino. E que, pois, é um equívoco querer separar um do outro, já que tudo é consciência e tudo é vida
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NOTÍCIAS
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Luiz Signates no CCEPA
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O pensador espírita Luiz Signates, jornalista e professor universitário, esteve em visita ao Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, na segunda-feira, dia 11 de maio.
Signates, que reside em Goiás, atuando como professor na Faculdade de Comunicação Social da Universidade Federal daquele Estado, tem vindo ao Rio Grande do Sul para cumprir atividades em curso de pós-doutorado em sua área junto à Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS, como professor convidado.
Na noite de 11 de maio, aproveitou para visitar o CCEPA, que, segundo disse, havia muito tempo desejava conhecer, pois admira a história e a influência exercida pela entidade no contexto espírita do Brasil e do mundo. Participou, naquela noite, do Grupo de Conversação Espírita, atividade das segundas-feiras, no CCEPA. Os integrantes do grupo aproveitaram para questionar Signates sobre vários aspectos ligados a ideias de pluralismo e alteridade no meio espírita, temas que têm sido objeto de vários trabalhos daquele intelectual goiano.
Aproveitando o tempo em que Luiz Signates ainda permanecerá no Rio Grande do Sul, o Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, por seu Departamento de Eventos, está programando a realização de um Seminário a ser conduzido por ele sobre “Espiritismo e fraternidade: o diálogo como realização do amor ao próximo". O evento será aberto ao público, especialmente espírita, e, provavelmente, será realizado no próximo mês de agosto. Os interessados poderão obter informações futuras no blog do CCEPA: http://www.ccepa.blogspot.com/ .
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Salomão foi o palestrante de junho
Prosseguindo na sua programação de conferências públicas na primeira segunda-feira de cada mês, sempre às 20h30, o Centro Cultural Espírita de Porto Alegre ofereceu, na noite de 1º de junho corrente, a palestra “Fundamentalismo e Alteridade”, com o vice-presidente da Casa, Salomão Jacob Benchaya.
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dia 27 tem Café Cultural no CCEPA
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No próximo dia 27 de junho, sábado à tarde, o Centro Cultural Espírita de Porto Alegre realizará seu II Café Cultural. O primeiro foi realizado por esta mesma época, no ano passado.
O Café Cultural objetiva reunir os amigos do CCEPA em delicioso café, acompanhado de atividades artísticas e culturais. Fique atento no nosso blog.




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Vem aí novo Curso de Iniciação ao Espiritismo.
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Agora na tarde das quartas-feiras
O novo CIESP será ministrado por Donarson Floriano Machado. +

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ENFOQUE
Na teologia do mercado, nunca há o bastante
José Rodrigues
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Os fundamentos éticos e sociais do espiritismo nunca estiveram tão atuais como no presente. Todo o discurso apresentado pelos espíritos, a partir dos meados do Século XIX, é calcado no que muito mais tarde se chamaria de desenvolvimento sustentável, desde que compreendidos os limites da natureza e os nossos.
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Há que se refletir sobre acontecimentos contemporâneos e recentes, em torno da viabilidade do planeta, quanto do comportamento humano, visto em suas relações sociais, para melhor se avaliar a contribuição do pensamento espírita, antecipado no tempo, ante as reais necessidades do homem e do meio. Para tanto, citem-se apenas dois itens da agenda mundial, o clima, ameaçado pelo aquecimento fora de proporções e a crise financeira, deflagrada pela economia norte-americana, com transbordamento internacional. Diagnósticos de um e de outro têm como base a ação humana, seja pela desabalada ânsia de consumo, no caso, desigual, ou pela ambição desmedida de uma elite que se julga sábia, despreocupada com o próximo.
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No item do consumo, a economia mundial vinha vivendo um ciclo de autêntica farra, sem exceção do Brasil, com valorização acelerada dos imóveis, maior entupimento das vias públicas por veículos, todos a provocarem maior demanda de bens naturais. Mas como se diz em jargão da economia “todo avião que sobe, desce”, as curvas ascendentes fizeram um ‘joelho’ e declinaram. Foi o soluço da Terra. O substrato desse comportamento foi o apoio de um sistema financeiro enganoso, com gente muito bem paga atrás do balcão a vender ilusões.
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Esses picos e vales são tidos como normais pelos economistas, mas resultam de um primado filosófico, o da aceitação das diferenças de classes. De fato, sob uma visão social e moral, guardadas as justificativas advindas de catástrofes climáticas (o que hoje também se atribui à ação humana), são práticas nas quais predomina a mais valia denunciada por Marx.
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Neste ponto introduzimos o pensamento espírita que define os conceitos de necessário e útil, afinal, o desafio que enfrentamos em nossas buscas. Disseram os espíritos que “só o necessário é útil”, complementando com “o supérfluo nunca o é”. Daí decorrem verdadeiras alfinetadas dos espíritos sobre o mau uso dos bens da Terra e às equivocadas acusações às nossas carências. “A terra produziria sempre o necessário, se o homem soubesse contentar-se com o necessário. Se ela não lhe basta a todas as necessidades, é que emprega no supérfluo o que poderia ser aplicado no necessário”.
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Esse homem que conhecemos quer trocar de carro a cada ano, de computador a cada semestre, quer que a bolsa de valores trabalhe para si, está com peso acima do saudável, desperdiça o tempo pelo ócio imerecido, deixa-se enganar pela competição consumista que ‘vende’, por exemplo, os aventureiros da Fórmula 1 como semideuses e ainda pretende um mundo de equilíbrio. Essa equação não fecha.
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Contrapõe-se que o mundo, ainda que a duras penas, venha fazendo seus ajustes. Dos 3,0 bilhões que éramos por volta de 1960, chegamos aos 6,6 bilhões no presente. Poderemos alcançar os 9,0 bilhões em 2050. É preocupante, na medida em que os países classificados como desenvolvidos já apresentem baixíssima taxa de avanço populacional, até mesmo decréscimo, como Japão, (-0,02% ao ano) e Alemanha, 0,07%, enquanto os países em desenvolvimento ou subdesenvolvidos nos quais estão 75% da população mundial, têm taxas de crescimento até acima de 2%, para a média mundial de 1,17%. A brasileira é de 1,26%, face a 3,0% há 40 anos.
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A nossa sorte é que Malthus errou. O pastor anglicano (1766-1834) que chegou a pregar a abstinência sexual dos pobres, para não engrossarem o contingente de mal-alimentados, não previu o avanço tecnológico, que tem multiplicado a produtividade agrícola em taxas superiores à do aumento da população. A safra de grãos brasileira, nos últimos 17 anos, cresceu mais de 146%, ante uma área plantada de 24%. Ao mesmo tempo, a taxa de fecundidade, da ordem de 5,8 filhos por mulher, na década de 1970, já está em torno de 2,0.
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Esses dados não nos livram de duras desigualdades no planeta, ainda com cerca de 22% de analfabetos, 800 milhões de subnutridos e menos de um por cento com acesso à internet, para ficarmos apenas nestes itens. Com esse quadro de investida à natureza e de insensibilidade humana, cabe um chamado de Harvey Cox*. Ele assim direciona: “Um mestre zen japonês certa vez disse a seus discípulos, enquanto expirava em seu leito de morte: ‘aprendi uma só coisa na vida: o quanto é o bastante’. Ele não encontraria lugar no templo do mercado, pois para este, o Primeiro Mandamento é nunca há o bastante”.

(*) Professor e teólogo da Universidade de Harvard (EUA), em The Market as God (1999). Também citado por Ricupero (FSP/14.07.02).

José Rodrigues
, jornalista e economista, um dos coordenadores do site Pense-Pensamento Social Espírita. Integra o Centro Espírita Allan Kardec, de Santos/SP.
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OPINIÃO DO LEITOR
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Espiritismo ante a eutanásia
Só um abraço ao colunista Milton Medran Moreira pelo “Opinião em Tópicos” de abril (“O espiritismo ante a eutanásia”). Sensibilidade rara, clareza... tudo o que admiro nos seus artigos.
Maria Pia, São Paulo, SP - mp_macedo@hotmail.com

Filosofia Penal dos Espíritas
Temos a satisfação de informar que o livro "Filosofia Penal dos Espíritas" (Estudo de Filosofia Jurídica) está postado no Pense-Pensamento Social Espírita. O autor, professor Fernando Ortiz, da Universidade de Havana, dedica a obra a César Lombroso. Tradução de Carlos Imbassay e Apresentação de Deolindo Amorim.
Antropólogo, etnólogo, sociólogo, jurista e linguista, Ortiz é cubano, nascido em 16 de julho de 1881. É considerado um dos maiores intelectuais da América Latina. Escreveu mais de 100 obras sobre os mais variados temas.O original é de 1951.
O espaço de quase 60 anos, não tira a atualidade da obra.

Abraços. Eugenio Lara e José Rodrigues, coordenadores do Pense.www.viasantos.com/pense

quinta-feira, 7 de maio de 2009

OPINIÃO - ANO XV - EDIÇÃO N° 163 DE MAIO DE 2009

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TRANSCOMUNICAÇÃO NA UNIVERSIDADE
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Pesquisadora Sonia Rinaldi prepara-se para apresentar tese de mestrado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo sobre transcomunicação. Em entrevista, sustenta que não há fenômeno mais concreto para comprovar cientificamente a vida após a morte do que a transcomunicação instrumental.

O que é transcomunicação
A paulistana Sonia Rinaldi, que há mais de 20 anos, pesquisa o fenômeno, conceitua a transcomunicação instrumental como “um recurso que permite a comunicação entre encarnados e desencarnados por meio de aparelhos eletrônicos” (entrevista publicada no site do Instituto de Pesquisas Projeciológicas e Bioenergéticas, maio/2005 – http://www.ibp.org.br/br/). Segundo afirmava na entrevista, a transcomunicação “pode ser utilizada como prova científica de que realmente a morte não existe”.
Para Sonia e seus colaboradores do Instituto de Pesquisas Avançadas em Transcomunicação Instrumental, segundo consta em ampla reportagem recentemente publicada na revista eletrônica Nova E -http://www.novae.inf.br/site/modules.php?name=Conteudo&pid=1242 – “o assunto nada tem a ver com religião, apesar de falar em vida após a morte”. Por isso mesmo, Sonia se mostra otimista com a oportunidade agora surgida. Ela vai defender, a partir deste ano, uma tese de mestrado na PUC – Pontifícia Universidade Católica, de São Paulo, na qual pretende comprovar que, após a morte do corpo físico, a consciência sobrevive.

A tese
Na entrevista, concedida ao jornalista Manoel Fernandes Neto, a pesquisadora sustenta que “nenhum fenômeno é mais concreto - e, portanto, suscetível de toda sorte de análises e investigação, como requer a Ciência - do que a Transcomunicação Instrumental – ou seja, a comunicação com o Outro Lado da Vida através de gravações em computador e vídeo”.
Sônia classifica o fato de sua tese haver sido aceita na PUC como uma “nova rota para nossa pesquisa”, pois “levar a Transcomunicação ao meio acadêmico é coisa que jamais ocorreu na História”. A tese terá por título “Transcomunicação: Interconecctividade entre Múltiplas Realidades e a Convergência de Ciências para a Comprovação Científica da comunicabilidade Interplanos.
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Um estudo multidisciplinar
Relata Sonia Rinaldi que enfrentou sérias dificuldades para alcançar esse objetivo: “Chegaram a me chamar na PUC para eu mudar minha tese, mas não aceitei”, diz.
Afirma que sua proposta é de uma “megatese multidisciplinar”, com a participação de engenheiros, físicos e matemáticos – todos com doutorado, para que eles e não a autora da tese avaliem, dentro dos parâmetros requeridos pela ciência, que o fenômeno é real: “A minha parte é levantar a ocorrência do fenômeno – a deles será endossar a autenticidade e – dentro das possibilidades –, tentar explicá-lo”, justifica.
Sonia Rinaldi vai apresentar tese de mestrado sobre transcomunicação na PUC de São Paulo.

Para saber mais:
O site oficial do Instituto de Pesquisas Avançadas em Transcomunicação Instrumental é http://www.ipati.org/.
- A entrevista completa com Sônia Rinaldi pode ser lida em
http://www.novae.inf.br/ .
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NOSSA OPINIÃO
Tempo de quebrar preconceitos

Há um século e meio atrás, quando, na França, editava seus livros e a Revista Espírita, Allan Kardec guardava a convicção plena de que, em poucos anos, graças à pratica da mediunidade, acompanhada esta por um sério estudo dos homens de ciência, o fenômeno da sobrevivência do espírito haveria de estar cientificamente comprovado.
O período situado entre o fim do Século XIX e todo o Século XX foi pródigo em fenômenos mediúnicos e não foram poucos os homens de ciência que sobre eles se debruçaram, pessoalmente abonando sua autenticidade. Crookes, Zöllner, Myers, Aksakov, Bozzano, Geley, Guimarães Andrade e dezenas de outros, enfrentando, alguns, sua própria inicial incredulidade, acabaram por reunir provas cabais da ocorrência da comunicação entre os planos material e espiritual. Nem por isso a ciência deixou de ser materialista.
Por força do paradigma ainda vigente, questões que dizem com a vida após a morte são relegadas ao domínio da fé, insuscetíveis de serem examinadas à luz da pesquisa científica. O espírito e suas manifestações, por uma arbitrária decisão da contemporaneidade, estão engessados à religião, e os próprios religiosos fazem questão que assim o seja, aprisionando no domínio de suas mais íntimas crenças os temas que se convencionou definir como sagrados. Sobre eles não devem incidir nem a razão, nem a experiência científica.
O trabalho de Sonia Rinaldi na PUC São Paulo, não mais pela mediunidade convencional, mas pela intervenção direta dos espíritos via equipamentos eletrônicos, é mais uma tentativa de furar esse bloqueio. Conseguirá? Einstein afirmou ser mais fácil quebrar um átomo do que um preconceito. O átomo já foi quebrado, dividido e subdividido. Estará chegando a hora de quebrar o preconceito ainda vigente relativo ao espírito?
(A Redação)
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Editorial
ESPIRITISMO - UMA DENOMINAÇÃO ADEQUADA

O nome é em certo sentido a própria coisa; dar nome às coisas é conhecê-las e apropriar-se delas; a denominação é o ato da posse espiritual. (Miguel de Unamuno)
Não é de hoje que os estudiosos e cultivadores do espiritismo preocupam-se com o imenso caudal de distorções a que foi ele submetido. Criado como uma “ciência que trata da natureza, origem e destino do espírito e de suas relações com o mundo material” (Definição de Allan Kardec em “O que é o Espiritismo”), o espiritismo chamou a si, para dele ocupar-se como uma realidade cientificamente observável e comprovável, o fenômeno do espírito, suas manifestações e consequências.
Fazer ciência, diversamente do que praticar uma religião, exige, acima de tudo, liberdade de pensamento e de ação, distanciamento de dogmas e preconceitos de qualquer espécie. Por isso mesmo, a liberdade foi um valor destacado e prestigiado em toda a obra de Kardec. Como tantas vezes afirmou, o espiritismo não seria um fechado sistema de fé, mas um campo aberto à investigação que, no entanto, em momento algum, poderia distanciar-se da ética, do bom-senso e da razão, consubstanciados na lei natural.
Contudo, as questões alusivas ao espírito, por força das crenças e dos mitos que historicamente o cercaram, sempre foram, e continuam sendo, um terreno fértil para nele medrarem o misticismo, as crendices e práticas as mais esdrúxulas e irracionais. O espiritismo não ficou infenso a esse tipo de influência, fácil de nele penetrar até mesmo em razão de sua qualificação como um movimento livre-pensador. Por conta da interpretação de que, ao lado de seus reconhecidos aspectos científico e filosófico, poderia nele se vislumbar também um aspecto religioso, transformaram-no simplesmente em mais uma seita cristã. Herculano Pires, eminente pensador espírita brasileiro, registra em seu “Curso Dinâmico de Espiritismo”: “O que impediu a expansão do Espiritismo na Europa do século passado (Séc.XIX), de maneira a poder renovar a velha concepção de mundo ainda dominante, foi simplesmente seu aspecto religioso. Como o Cristianismo Primitivo, o Espiritismo foi acolhido com ansiedade pelas camadas pobres da população que o converteram por toda a parte numa nova seita cristã”.
Exatamente por constatarem e lamentarem essa triste distorção, honestos e irrequietos pensadores espíritas, em diferentes momentos, chegaram a propor alguns neologismos, substitutivos da palavra “espiritismo”, para melhor qualificar esse movimento de ideias que, bem mais do que uma ciência, se desenvolveu - de acordo com o que, aliás, pretendia Kardec - como uma nova e sempre progressiva e progressista visão de universo, de homem e de mundo. Cada vez, entretanto, que se somam esforços em busca de uma adequada denominação para esse movimento de ideias, termina-se por concluir, quase num consenso, que não há melhor designação do que aquela que lhe deu Kardec: espiritismo. E que, se há, não convém aos verdadeiros espíritas renunciar ao rico patrimônio até aqui construído sob esse nome, apesar dos que sobre ele se equivocam, distorcem-no e até o envergonham.
Não se pode deixar de reconhecer que é hora de retificar rumos. Que é tempo de se expungir do campo doutrinário espírita crendices e visões distorcidas que afetaram, inclusive, respeitáveis instituições autodenominadas gestoras do movimento espírita. Que já não é mais tempo de confundir a ciência, a filosofia e a ética do espiritismo com a religião cristã, tão distantes e radicalmente opostos estão os postulados teóricos de um e de outra. Mas, para tanto, é preciso reconhecermo-nos como verdadeiros espíritas, dispostos a preservar esse rico patrimônio chamado, originária e originalmente de espiritismo. Esta, aliás, é uma boa denominação. Tão boa e tão eloquentemente fiel aos objetivos de seu fundador que não convém de substituí-la por outra. Até porque não será nada fácil encontrá-la.
Cada vez que se somam esforços em busca de uma nova denominação para esse movimento de ideias, conclui-se não haver outra melhor do que espiritismo.
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OPINIÃO EM TÓPICOS
Milton R. Medran Moreira

O pastor e a Paixão
Estávamos na praia no sábado, véspera da Páscoa. Acordei cedo e liguei o rádio. Um pastor falava sobre os mistérios da Semana Santa. Dizia que a Sexta-Feira da Paixão era uma data triste porque ali Satanás havia vencido Jesus. Mas que a Páscoa marcava a vitória de Cristo e por isso tinha de ser comemorada. Ele morrera para nos salvar e ressuscitara. Mas que devíamos permanecer vigilantes porque o diabo era muito tinhoso e poderia obter outras vitórias conquistando nossas almas. Depois, começou a deitar falação sobre a criação do mundo, a expulsão do Paraíso, perorando o sermão com esta preciosidade: “A ciência quer colocar o início do mundo para muito antes disso. Mas não creiam. É mais uma artimanha de Satanás. Tudo o que contraria a Bíblia é falso”. Fiquei pensando: como, em pleno Século XXI, podem subsistir concepções típicas da Idade Média? E gente, muita gente, que ainda segue essas crendices!
A Páscoa faz mal
Depois do café, fui conferir as mensagens no computador. Na lista da CEPA, um texto vigoroso da amiga Nícia Cunha. Seu título: “A Páscoa faz mal”. “Não só pelo excesso de chocolate”, dizia, mas “o mal muito mais insidioso que a Páscoa faz é essa insânia mundial, chamada de fé, amor a Deus e às tradições, agora mostradas ao que seguem crendo nas “versões cristãs montadas ao longo dos séculos para torná-las submissas”. Pessoas simplórias que “caminham em intermináveis procissões, seguem andores com imagens de Jesus morto, mutilado, e de sua mãe dolorosa, vestida de roxo. Movem-se ajoelhadas em pedras, praticam autossuplícios com instrumentos medievais de tortura, crucificam-se de verdade. Tudo para se penitenciarem”. Aí, Nícia pergunta: “Mas penitenciarem-se de quê, meu Deus?” e complementa: “Cvivo pela televisão e pela Internet”. Minha amiga estava indignada com as imagens chocantes protagonizadas por pessoas de boa-fé riminosos não são, certamente, pois se o fossem, ali não estariam. A imensa maioria destas pessoas já vive na tortura da pobreza, na escuridão da mente estreita, da fé irracional que as leva a ter medo de Deus, inclinando-as a bajulá-lo e com ele praticar barganhas”.
O pecado original
Fiquei pensando: é bem possível que o pastor evangélico da rádio do meu pequeno balneário ainda creia que o mundo foi feito por Deus, do nada, há cerca de 6.000 anos atrás. E que, no 6º dia, como diz a Bíblia, tenha criado Adão e, de sua costela, tirado Eva. Afinal, o pastor de minha praia não deve ter sequer o curso primário. Faz muito sentido para ele que o primeiro casal tenha mesmo sucumbido à tentação da serpente e comido do fruto proibido. Daí o pecado original, a expulsão do Paraíso e toda a maldição divina ao ser humano, só remissível pela terceira pessoa da trindade, encarnada, oferecendo-se como “cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo”.
Agora, o que não entra na minha cabeça é que papas, bispos, teólogos ilustres e ilustrados, sigam baseando toda sua teologia nesses mitos. São meras alegorias, dizem uns. Mas, convenhamos, alegorias que só nos afastam da racionalidade e que contrariam frontalmente as verdades científicas. Tire-se o pecado original da teologia cristã e não sobra nada a justificar todos os demais dogmas, da criação à redenção. Desmorona tudo.
Religião também faz mal
Para Nícia, a “exploração da culpa coletiva” - aquela que tem sua matriz justamente no dogma do pecado original – ainda hoje serva “para subjugar os fiéis às normas e hierarquias da classe sacerdotal”. Mesmo considerando que se devam respeitar todas as crenças, sustenta que “é necessário tirar das religiões o privilégio acrítico, pois nenhuma outra manifestação humana está livre de criticas, seja no campo conceitual, autoral ou de costumes”,
Ou seja, Nícia propõe que tratemos as ideias religiosas com mesmo rigor racional com que tratamos todas as demais manifestações humanas. E tem razão. Em nome da liberdade de crença, temos, inclusive os espíritas, nos omitido da tarefa de mostrar os absurdos que se pregam em nome da fé. Kardec chamou a atenção para isso em “O Céu e o Inferno”, ao afirmar que a religião “apropriada, ao início, aos conhecimentos limitados do homem”, tornou-se ultrapassada por não acompanhar o progresso e com isso contribui para o aumento dos incrédulos.
Compete a nós demonstrar que espiritualidade não é o mesmo que religião. E que esta, quando não iluminada pelas luzes da razão e do progresso, também faz mal.

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NOTÍCIAS
Encontro com Jaci e Marcelo Henrique em tarde de aniversário
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A tarde de sábado, 25 de abril, reuniu no Centro Cultural Espírita de Porto Alegre os dirigentes da instituição e associados mais comprometidos com as diversas atividades da Casa com os companheiros Jaci Regis, do Instituto Cultural Kardecista de Santos e Marcelo Henrique, assessor administrativo da ABRADE – Associação Brasileira de Divulgadores Espíritas.
Jaci visitou o CCEPA com o objetivo de detalhar aos dirigentes da Casa o seu “Modelo Conceitual da Doutrina Kardecista”, documento que reúne ideias que, nos últimos anos, aquele dirigente santista tem exposto em vários escritos e pronunciamentos e que terminam por propor novos rumos, a partir de uma postura laica. Em debate que se seguiu à exposição, vários membros do CCEPA se manifestaram apoiando os fundamentos trazidos por Jaci, embora com rejeição à designação “doutrina kardecista”. Do encontro participaram também os dirigentes da S.E.Casa da Prece, de Pelotas: Dora Helena, Homero Ward e esposa Regina, Octaviano e esposa Suedi.
A segunda parte do encontro esteve a cargo de Marcelo Henrique Pereira (São José/SC) que visitou o CCEPA acompanhado de Júlia, sua esposa. Marcelo fez exposição sobre a reestruturação da ABRADE que acaba de substituir o modelo presidencialista adotando novo formato de gestão colegiada. Marcelo Henrique finalizou sua exposição com um convite ao CCEPA para que participe desse esforço renovador da ABRADE associando-se a ela. O convite foi bem aceito pelo grupo presente que irá submetê-lo à Assembléia Geral da instituição.

Comemorados os 73 anos do CCEPA
Na tarde em que recebeu Jaci e Marcelo Henrique, o Centro Cultural Espírita de Porto Alegre comemorou também seu 73º aniversário, transcorrido no dia 12/4. No intervalo entre uma e outra exposições dos convidados, foi servido o bolo de aniversário, acompanhado de salgadinhos e refrigerantes.
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MEDRAN ENCERRA CURSO DE INICIAÇÃO NO CCEPA
Na quinta-feira, 14 de maio, o Diretor de Comunicação Social do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, Milton Medran Moreira encerra o Curso de Iniciação ao Espiritismo 2009, promovido pelo Centro Cultural Espírita de Porto Alegre.
Ministrado em cinco módulos, nas quintas-feiras à noite, o curso tratou dos seguintes temas: 1) O Que é o Espiritismo (a cargo de Maurice Herbert Jones); 2) Sobrevivência, Imortalidade e Evolução do Espírito (Carlos Grossini); 3) A Comunicação Mediúnica (idem); 4)Pluralidade das existências e dos mundos habitados (Medran).
O CIESP é coordenado pelo Departamento de Eventos do CCEPA, sob a coordenação de Salomão Jacob Benchaya.
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Enfoque
ESPIRITISMO E CIÊNCIA
Gilberto Schoereder *

O desenvolvimento científico e tecnológico trouxe uma série de ingredientes importantes para as pesquisas relacionadas ao mundo espiritual. Ainda não se atingiu o ponto ideal nas investigações, mas a aproximação com a ciência tem se mostrado como o caminho mais adequado.
Muitos pesquisadores do espiritismo, espíritas e não-espíritas, entendem que não são realizados experimentos científicos suficientes relativos ao assunto. Na verdade, essa aproximação com a ciência foi um dos preceitos básicos apresentados por Kardec e é uma busca incessante da maior parte dos espíritas.
No entanto, sendo as experiências suficientes ou não, não resta dúvida de que existem muitas pessoas procurando estreitar essa ligação, procurando novos métodos de pesquisa e experimentação científica, assim como de comprovação dos fenômenos ligados ao espiritismo. Exemplos claros dessa busca são os trabalhos do dr. Ian Stevenson, nos EUA, e as pesquisas relacionadas à transcomunicação instrumental que, no Brasil, tem Sonia Rinaldi como destaque.
Desde que os fenômenos começaram a se tornar mais populares, em meados do século XIX, inúmeros cientistas dedicaram seu tempo e esforços para tentar registrar, mensurar e determinar parâmetros cientificamente aceitáveis para eles. A Sociedade Psíquica da Inglaterra foi um dos pontos centrais dessas pesquisas, realizando dezenas, senão centenas de experiências. Desse empreendimento originaram-se tanto as pesquisas parapsicológicas atuais, quanto as que se encontram mais ligadas ao espiritismo propriamente dito.
Mas, hoje, muitos espíritas reclamam que essas mesmas experiências, já com mais de cem anos de vida, continuam sendo apresentadas como referência e comprovação dos fenômenos, o que não é mais aceitável tendo em vista a evolução da ciência e da própria tecnologia que pode ser aplicada nas investigações.
A realização de experimentos com transfotos, transcomunicações, experiências de quase-morte, reencarnação, terapia de vidas passadas e algumas aproximações entre a ciência moderna e as ideias espíritas, mostra que existem, de fato, pessoas e grupos procurando renovar esse aspecto do espiritismo. O problema maior, parece, é a dificuldade em fazer com que esses esforços sejam reconhecidos pela chamada “ciência oficial”.
Em muitos casos, também, as pesquisas são realizadas por grupos autônomos, não reconhecidos pela ciência e, mesmo quando os resultados apresentados são muito interessantes, as pesquisas não são absorvidas pelos grandes centros de pesquisa, como as universidades, não ganhando o “status de credibilidade” e visibilidade necessários no mundo acadêmico.

Reencarnação
Uma pesquisa que chamou a atenção do mundo acadêmico foi a do dr. Ian Stevenson, médico psiquiatra que, por 37 anos pesquisou possíveis casos de reencarnação, viajando o mundo inteiro à procura de relatos e evidências, coletando histórias de crianças que afirmam terem recordações de vidas passadas.
Dr. Stevenson ouvia o que as crianças tinham a dizer, guardava as informações importantes referentes a lugares e pessoas com as quais elas teriam entrado em contato numa vida anterior, e se dirigia a esses locais para nova coleta de dados, que comparava com os anteriores. As crianças não se encontravam sob hipnose – um aspecto que é bastante combatido, por exemplo, quando se fala de regressão a vidas passadas – e as informações podiam, em geral, ser facilmente comprovadas, uma vez que elas não se referiam a épocas muito distantes como o antigo Egito.

Tom Shroder, editor do jornal The Washington Post, escreveu o livro Almas Antigas relatando sua experiência com o dr. Stevenson, a quem acompanhou em suas peregrinações pelo mundo. Segundo ele, uma das coisas que chamaram sua atenção no trabalho do cientista foi a forma minuciosa com que ele checa todas as informações. Além disso, percebeu que cientistas de vários países tinham o dr. Stevenson em alta consideração, ainda que o assunto que ele tratava fosse considerado “difícil”. Claro que não se trata de uma postura que se estende a toda a comunidade científica: alguns colegas o consideraram um precursor, por estar pesquisando a reencarnação sob bases científicas e enfrentando um verdadeiro tabu; outros se colocaram totalmente contrários às pesquisas, e até mesmo à idéia de se pesquisar um assunto como esse.

Dificuldades
Dr. Ian Stevenson também tem uma postura incomum entre os cientistas, criticando a postura da ciência em muitos casos. “Para mim”, ele diz, “tudo em que os cientistas acreditam agora está aberto a mudanças, e eu fico consternado ao perceber que muitos cientistas aceitam o conhecimento atual como algo imutável”. Ele lembra que, no passado, os hereges que negassem a existência das almas eram queimados; hoje, os cientistas “queimam” aqueles que afirmam que as almas existem.
Shroder levanta algumas questões pertinentes no que diz respeito à relação da ciência com temas como a reencarnação. Uma é que esse tipo de pesquisa não permite que se faça uma investigação em laboratório, uma vez que estamos nos referindo a fenômenos ou declarações espontâneas. “Tais casos”, ele explica, “só podem ser investigados como se faria com um crime, ou um processo legal – com entrevistas, cruzando informações de várias testemunhas com evidências documentadas. Embora isso possa ser feito com bastante cuidado, alguém sempre pode descartar o caso como ‘evidência fantasiosa’ e, portanto, não confiável”.
Também faltam evidências sobre quaisquer mecanismos através dos quais a reencarnação de tornaria possível, e o próprio dr. Stevenson não afirma possuí-las ou que possa detectar a alma com instrumentos objetivos. Junta-se a isso o já conhecido conservadorismo da ciência, “uma tendência de não encarar com seriedade qualquer evidência que desafie o atual entendimento de como o mundo funciona”.
As dificuldades são reais, uma vez que, para a ciência, o que conta é a experimentação, a existência de provas conclusivas e a possibilidade de repetir experimentos em ambientes diferentes. O problema surge quando se fala da maioria dos fenômenos paranormais, mas dr. Stevenson – como outros pesquisadores da área, inclusive o brasileiro Hernani Guimarães Andrade – sabe que para tratar desses assuntos é preciso agir e pensar de maneira heterodoxa, caso contrário não se chega a lado algum.

Tecnologia Para o Além
A utilização de novas tecnologias nas investigações do mundo espiritual começou, na verdade, no final do séc. XIX, com ninguém menos do que Thomas Alva Edison (1847-1931). Afirma-se que Edison, que desenvolveu a lâmpada, inventou o fonógrafo, em 1877, movido pelo desejo de gravar a voz de sua falecida mãe, o que não conseguiu principalmente devido à precariedade do aparelho.
Já em 1936, o físico Oliver Lodge (1851-1940), um dos precursores da radiocomunicação, afirmou que os progressos na área da eletrônica tornariam possível desenvolver um aparelho que captasse a voz dos mortos. Essa “previsão” começou a se tornar realidade em 1959, quando o psíquico sueco Friedrich Jurgenson conseguiu gravar em fita o que chamou de “vozes paranormais” ou “psicofonia”. Ele chegou a isso por acaso, quando gravava cantos de pássaros num bosque e, ao ouvir a reprodução, percebeu murmúrios semelhantes a vozes humanas. A partir daí, realizou uma série de experiências tentando tornar aquelas vozes mais nítidas, conseguindo identificar mensagens e informações em vários idiomas.
O psicólogo Konstantin Raudive deu seqüência aos experimentos, realizando milhares de gravações de vozes; e outros pesquisadores conseguiram aprimoramentos dos aparelhos, como foi o caso do engenheiro austríaco Franz Seidl, com seu psychofon, e do norte-americano George Meek, com o spirocom.
Entretanto, para a brasileira Sonia Rinaldi, esses aparelhos já estão ultrapassados. Sonia é coordenadora da Associação Nacional dos Transcomunicadores e, provavelmente, a maior autoridade nacional em transcomunicação. Ultimamente, a comunicação com os espíritos tem sido feitas por meio de computadores e aparelhos bem mais sofisticados, que eliminam a possibilidade de interferência externa. As gravações de vozes em computador são realizadas sem microfone, com o registro sendo feito diretamente no hardware. Da mesma forma, no computador também podem surgir imagens. Utiliza-se um tubo de raios catódicos e não uma televisão, que poderia captar imagens emitidas aqui mesmo da Terra. Para obter a credibilidade necessária, Sonia envia os resultados desses contatos realizados através de aparelhos para uma análise rigorosa de especialistas de universidades, e os laudos técnicos são colocados à disposição de quem se interessar.

Busca Incessante
O próprio George Meek já havia sugerido que os sistemas eletromagnéticos não seriam uma ponte confiável com o mundo dos espíritos, que deveria possuir um tipo de energia ainda desconhecido para nós. A parapsicologia segue por um caminho semelhante ao analisar a questão, entendendo que a transcomunicação pode estar sendo feita por meio de um tipo de energia mental, psíquica ou espiritual, que ainda não conseguimos captar, medir e estudar convenientemente, por não possuirmos a aparelhagem necessária.
Muitos dizem, ainda, que o fenômeno diz respeito à própria mente humana, atuando no ambiente que a cerca. Assim, as mensagens poderiam estar vindo dos vivos, e não dos mortos. Seja como for, mesmo no ambiente espírita a transcomunicação não é aceita de forma incontestável, mas é considerada a proposta cientificamente mais bem embasada até agora, e pode ser o caminho para se estabelecer uma relação com o mundo dos espíritos que não dependa da intermediação dos médiuns.
Também foi pensando no estabelecimento dessa ponte entre os dois mundos que Geraldo Medeiros também começou a se dedicar às chamadas transfotos, que ele define como “a capacidade ou a possibilidade que um filme fotográfico tem de se sensibilizar com a exposição, captando uma imagem que não estaria dentro do contexto visual normal daquele cenário”.
O fato é que, muitas vezes, têm-se tirado fotos em que aparecem imagens estranhas, geralmente pontos de luz ou imagens esbranquiçadas, e até mesmo imagens de pessoas já falecidas. O que Medeiros procurou fazer é obter um controle mais rigoroso dessas fotos, justamente porque é comum se dizer que não existe um controle científico adequado. “Operamos dentro de um ambiente totalmente controlado”, ele explica. A máquina fotográfica é colocada dentro de uma sala sem pessoas, isolada eletrônica e termicamente, evitando influências externas. O resultado é a obtenção de imagens que não deveriam estar ali, como se existisse a presença de alguém no local.
Para muitos cientistas, isso pode não parecer suficiente, mas todas essas pesquisas que estão sendo realizadas mostram, no mínimo, que um fenômeno importante está ocorrendo, e que merece mais atenção.
Para a maioria dos investigadores ligados ao espiritismo, os resultados obtidos não só podem como devem ser entendidos como provas da existência de outras dimensões de existência, e as dificuldades no contato com essas dimensões devem ser creditadas à nossa incapacidade em acessá-las.
Seguindo essa linha de raciocínio, portanto, é uma questão de tempo até que se desenvolvam os instrumentos e conhecimentos mais adequados para esse desafio.

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