domingo, 4 de outubro de 2009

OPINIÃO - ANO XVI - N° 168 -OUTUBRO/2009

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MOVIMENTO ESPÍRITA - É POSSÌVEL UNIFICA-LO?
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Celebrado em 5 de outubro de 1949, o chamado Pacto Áureo completa este mês 60 anos de existência. Marco decisivo dos históricos esforços da Federação Espírita Brasileira no sentido de unificar o movimento espírita do país, a iniciativa, no entanto, está distante de unir os espíritas brasileiros.
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Cenário: II Congresso da Confederação Espírita Pan-Americana, Rio de Janeiro
Detalhe pouco conhecido e raramente referido: o Pacto Áureo foi celebrado no momento em que, no Rio de Janeiro, se realizava o II Congresso da CEPA (3 a 12/outubro/1949), e só foi possível graças a esse evento que buscava congregar espíritas de todo o continente. A presença de lideranças espíritas de diferentes Estados brasileiros na antiga Capital Federal, participantes do II Congresso Espírita Pan-Americano, presidido por Luis Postiglioni (Argentina) e secretariado por Deolindo Amorim (Brasil), propiciou a efetivação do acordo, envolvendo uniões e federações dos seguintes Estados: Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. No documento, esboçava-se a criação do Conselho Federativo Nacional (CFN), um departamento da FEB que passaria, logo após, a congregar, como órgão unificador, as federações ou uniões espíritas estaduais.

A unificação e sua complexidade
O chamado processo de unificação do movimento espírita logo se revelou complexo, evidenciando questões de difícil equacionamento, ligadas à própria natureza do espiritismo. Fundado por Allan Kardec, em meados do Século 19, o espiritismo é um movimento de ideias que parte da premissa central da imortalidade do espírito e de sua evolução pelas vidas sucessivas, a reencarnação. Kardec definiu-o como uma "ciência que trata da origem, natureza e destino dos espíritos e de sua relação com o mundo material." (O Que é o Espiritismo). Mas, inscreveu entre seus princípios a plena liberdade de interpretação e a permanente necessidade de atualização: "Marchando passo a passo com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado por ele, pois se novas descobertas lhe demonstrarem que está errado sobre um certo ponto, ele se modificará nesse ponto, e se uma nova verdade se revelar, ele a aceitará", escreveu Kardec em A Gênese. Isso acaba por afastá-lo das doutrinas estáticas, entre as quais, normalmente, se situam as religiões.

A opção da FEB

A clara opção religiosa feita pela FEB na sua concepção de espiritismo e, especialmente, algumas de suas peculiaridades doutrinárias como a adoção do roustainguismo (doutrina atribuída ao advogado francês Jean Baptiste Roustaing que, entre outras crenças, adotava a do corpo fluídico, não material, de Jesus) trouxeram dificuldades às pretensões unificacionistas e hegemônicas da FEB. Pensadores espíritas fiéis a Kardec, como José Herculano Pires, Deolindo Amorim, Leopoldo Machado e outros, sempre resistiram à hegemonia febeana, criticando sua estrutura "igrejeira". No plano institucional, igualmente, jamais se efetivou a plena integração do movimento espírita ao Conselho Federativo Nacional. Em diversos Estados, o movimento espírita segue representado por mais de uma união ou federação, embora apenas uma delas possa se filiar ao CFN. É o caso do Estado de São Paulo, onde o movimento unificacionista é representado pela União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo (USE), concorrendo, no entanto, com outras entidades de grande representatividade, como a Federação Espírita do Estado de São Paulo e a Aliança Espírita Evangélica. Em Pernambuco, além da Federação Espírita Pernambucana, registram-se a existência da Comissão Estadual de Espiritismo e da União Espírita Pernambucana. No Ceará, convivem como entidades aglutinadoras de centros espíritas a Federação Espírita do Ceará e a União das Sociedades Espíritas do Estado do Ceará. Inúmeros outros centros e grupos espíritas preferem a total independência, não se ligando a nenhuma união ou federação, o que não lhes retira a identidade espírita.
Em outra vertente, a Confederação Espírita Pan-Americana, entidade de abrangência continental, que adota uma concepção laica e livre-pensadora de espiritismo, passou a exercer forte influência no pensamento espírita brasileiro, na última década. Congregando instituições e pessoas (delegados e simpatizantes) que se distribuem por vários Estados brasileiros, a CEPA opta por definir-se como um livre movimento de ideias. Tem por base as propostas kardequianas, mas sem normatizações a suas filiadas. Dessa forma, abre mão do caráter orientador, fortemente presente no movimento unificacionista, substituindo-o pelo estímulo ao estudo, ao debate e à construção coletiva do pensamento.

NOSSA OPINIÃO

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Unificação e União
Apalavra unificação não fazia parte do vocabulário de Allan Kardec. A palavra união, no entanto, está presente em todo o seu discurso. Em nosso meio, é comum confundirem-se os dois termos, tomando-os como sinônimos. Dessa forma, se o objetivo dos esforços que culminaram com a adoção do Pacto Áureo, há 60 anos, era a união dos espíritas brasileiros, ótimo. Esse objetivo também era da CEPA que, naquele momento, celebrava seu II Congresso Pan-Americano, no Rio de Janeiro.
Na prática, o chamado projeto de unificação não tem contribuído para a união. Antes, a tem dificultado. Kardec sabia disso. Por isso, em Obras Póstumas, deixou esta clara advertência: “Pretender que o Espiritismo seja organizado, por toda a parte, da mesma maneira; que os espíritas do mundo inteiro se sujeitem a um regime uniforme, a uma única maneira de proceder; que devam esperar a luz de um ponto fixo para o qual devam voltar seus olhos, seria uma utopia tão absurda quanto pretender que todos os povos da Terra formassem um dia uma só nação, governada por um chefe único, regida pelo mesmo código de leis, adotando os mesmos costumes”. Advogava a existência de centros gerais, nos diversos países, sem que tivessem entre si “outro laço senão a comunhão da crença e a solidariedade moral, sem subordinação de uns a outros”.
Outra coisa são a união e a fraternidade entre os espíritas. Por isso, também deixou escrito Kardec: “Os diversos centros que se dedicam ao verdadeiro Espiritismo deverão dar-se as mãos fraternalmente, unindo-se para combater seus inimigos comuns: a incredulidade e o fanatismo”.
Unificação, reconheça-se, é uma exigência típica das organizações religiosas. É instrumento de obtenção e manutenção de poder. União é conceito muito mais amplo, compatível com o pluralismo, com o humanismo, onde o respeito e o diálogo criam e sedimentam vínculos de cooperação e fraternidade.
A nosso sentir, é nesse campo que devem se movimentar os espíritas.
(A Redação)
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EDITORIAL
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O QUE SOMOS E O QUE PODEREMOS SER
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A verdade é filha do tempo, não da autoridade.
Francis Bacon

Quantos centros espíritas existem no Brasil? Quantos grupos se reúnem formal ou informalmente para estudar aspectos da doutrina espírita ou praticar a mediunidade nos moldes espíritas? Quantos espíritas, enfim, há em nosso país? Com toda a certeza, nunca teremos respostas a essa indagações. Mais do que a pretensão de reunir todos os dados desse universo, o chamado Pacto Áureo, celebrado há 60 anos, sonhava em unificar todo o universo espírita brasileiro e reunir os espíritas, como o apregoa o Evangelho, em um só rebanho e um só pastor.
Inspirando-se em modelos ainda fortemente vigentes à época, e que tinham por ícones o Estado forte e a Religião centralizadora, reputava-se conveniente dotar o movimento espírita de idêntica estrutura. A intenção justificava-se não só por força daqueles modelos sociais e políticos, mas também pelo fato de o espiritismo representar uma doutrina ainda pouco conhecida da maioria dos brasileiros e que precisaria se adaptar às crenças de seu povo. Para isso, entretanto, era preciso que seus princípios e suas práticas fossem validados e orientados pela autoridade de uma instituição composta por respeitável contingente de conhecedores da doutrina, devidamente ungidos pelo “Alto”.
Os modelos hoje vigentes são outros. O pluralismo ideológico, político e religioso conquistaram o espaço que lhes criou a sociedade civil, laica e democrática. A rigidez normativa das instituições cedeu lugar a posturas e convicções, construídas a partir de fontes as mais diversificadas. O respeito à liberdade de pensamento e de associação, conquista da modernidade consolidada pela sociedade contemporânea, acabou por tornar peremptos os esquemas mais formais das décadas passadas. Fatores como afinidade, informalidade e cogestão passaram a
ter predominância na formação e no funcionamento dos agrupamentos humanos. Isso, como não poderia deixar de ser, reflete-se também no movimento espírita.
De outra parte, a melhor compreensão da doutrina espírita, graças a oportunas e históricas campanhas de estudo, reflexão e debate, fez do espírita brasileiro um sujeito mais questionador e, por isso, mais livre. Já não o satisfazem esquemas prontos e acabados, contendo verdades inquestionáveis, mesmo que oferecidas como revelações do “Alto”. A dúvida e a busca passaram a ser vistas como indispensáveis ao aperfeiçoamento do conhecimento espírita, ainda que se reconheça a existência de postulados básicos formadores de um laço capaz de unir a comunidade espírita como um todo.
São, fora de dúvida, novos ventos que sopram e que reclamam posturas e políticas diferentes daquelas que presidiram o chamado processo de unificação. Antes de organismos orientadores, guardiães da verdade e seus dispensadores, os novos tempos requerem entidades estimuladoras do debate, do congraçamento e da fraternidade.
Significativos avanços já foram conquistados no que diz com a identidade cultural do espiritismo brasileiro. Muito, no entanto, há que ser feito no sentido de uma política interna de alteridade, fraternidade, respeito e cooperação mútua. Será esse, diga-se de passagem, um forte elemento a qualificá-lo ainda mais, também para quem o vê de fora. Vivenciando, no âmago do movimento, esses valores, estaremos também descobrindo o que de mais nobre tem a oferecer a doutrina espírita. E nesse novo contexto, concluiremos, ainda, que, somados, formamos uma comunidade bem mais numerosa, rica e qualificada, do que aquela considerada como “oficial”, pelo universo do chamado movimento unificado.
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OPINIÃO EM TÒPICOS
Milton Medran Moreira
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11º Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita
Dos dez SBPEs até agora realizados por Jaci Regis e sua equipe acho que deixei de comparecer a apenas dois deles. Só não fui em razão outros compromissos inafastáveis, no Brasil ou no Exterior, especialmente ligados à CEPA, entidade que presidi por oito anos. Este ano, novamente, sou forçado a não assistir à 11ª edição daquele importante evento da cidade de Santos. Um convite da União das Sociedades Espíritas do Estado do Ceará para atividades a partir do dia 3 de outubro leva-me, e ao presidente da CEPA, Dante López, àquele Estado do Nordeste brasileiro. Como não é todo o dia que se pode deixar o extremo Sul do Brasil para visitar o Nordeste, aceitei estender por mais alguns dias a estada no Ceará, e, assim, levar a mensagem do espiritismo livre-pensador e progressista, difundido pela CEPA, aos espíritas da região. Para poder cumprir uma agenda que inclui palestras em algumas instituições locais, precisei abrir mão de viajar à Baixada Santista.

O paradigma do espírito
Ausente do XI SBPE, cuja programação tenho à minha frente, devo dar um depoimento: foi-se o tempo em que a concepção de um espiritismo laico, aberto ao debate e à construção permanente do pensamento integrado a todas as áreas do conhecimento, reunia sempre os mesmos, uma meia dúzia de “gatos pingados”. O programa do evento arrola significativa listagem de expositores. Alguns deles não conheço. Provavelmente, participam pela primeira vez de um SBPE. A diversidade temática, que vai da arte à economia, da gestão do conhecimento organizacional à filosofia e à educação, mostra que é possível, sim, contribuir através do paradigma do espírito com todas as áreas do conhecimento e instâncias da vida. Era o que queria Kardec. Foi o que disseram os espíritos a ele, ao abonarem sua proposta de uma ampla abordagem das leis naturais abarcando “todas as circunstâncias da vida”(L.E.q.648).
Eventos como esse arejam o movimento espírita e vão ao encontro dos anseios de um imenso contingente de pessoas. Aquelas que superaram as amarras religiosas, mas também se negam a contemplar o fenômeno da vida por um prisma meramente biológico ou materialista.

Um conhecimento que transforma
Pessoas com essa estrutura de pensamento são, hoje, bem mais numerosas do que supomos. Por tradição ou por outras contingências sociais ou culturais, se declararão pertencentes a esta ou àquela religião. Poderão estar plenamente integradas a um centro espírita tradicional, ministrando passes ou recitando parábolas evangélicas que decoraram. Mas, no âmago de sua alma, sentem que a proposta espírita só cumprirá seus objetivos no momento em que for capaz de sair dos centros espíritas e ganhar todos os setores da vida, oferecendo um novo paradigma ao conhecimento. A famosa sentença de Karl Marx “até agora, os filósofos trataram de interpretar o mundo de diferentes maneiras, agora cabe transformá-lo” adapta-se como uma luva à proposta espírita. O espiritismo é admirável justamente por ser um conhecimento que, uma vez assimilado, conduz necessariamente à transformação pessoal e social. A religião nunca foi capaz de fazer isso porque retirou da imanência do ser a sua transformabilidade para relegá-la à transcendência: o reinado do bem e do justo não se daria, jamais, neste mundo.

Um novo tempo
Entretanto, é preciso reconhecer: as estruturas espíritas não estão preparadas a desempenhar esse papel. Não estão aparelhadas para atrair o imenso contingente de pessoas que vivem essa inquietação. Os poucos núcleos espíritas com esse perfil progressista e transformador, por sua vez, não têm demonstrado capacidade de se aglutinarem em um organismo que lhes reconheça a liberdade de criação e de autogestão. A CEPA busca preencher esse requisito. E o faz sem maiores exigências. Sem, por exemplo, impor às entidades que a ela aderem o dever de se desvincularem da rede organizacional a que estejam eventualmente filiadas. Não se faz espiritismo sem liberdade.
Vou levar essa mensagem a uma união espírita estadual que hoje congrega 58 centros espíritas no Ceará. Por isso, e creio que justificadamente, não estarei no SBPE e nem na Assembleia Geral que, naquele mesmo evento, reunirá os integrantes da Associação Brasileira dos Delegados e Amigos da CEPA no Brasil. Em diferentes latitudes geográficas, estaremos vivenciando o novo tempo que todos queremos para o espiritismo.

NOTÍCIAS

CEAK/Santos comemorou 65 anos
O Centro Espírita Allan Kardec, dinâmica instituição espírita filiada à CEPA, com sede na cidade de Santos, SP, completou, no último dia 1º de setembro 65 anos, aniversário marcado por uma série de atividades:
As atividades comemorativas iniciaram na noite de 26 de agosto, quando o jornalista José Rodrigues (na foto),um dos mais antigos colaboradores da instituição, fez emocionado relato sobre a “Comunidade do CEAK”, registrando aspectos históricos da Casa.
Na noite seguinte (27), foi a vez de Vladimir Coelho Grijó apresentar trabalho resultado de intensa pesquisa sobre a “Vida e Obra de Ernesto Bozzano”. Na noite de sexta-feira (28), Jailson Lima de Mendonça, do C.E.Ângelo Prado, de Santos, discorreu sobre o tema “Das Mesas Girantes à Transcomunicação Instrumental”.
As festividades se encerram no sábado, com atividades envolvendo todos os colaboradores da instituição, sob a denominação de “Família CEAK em Foco”.
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Presidente do CCEPA participa
do XI Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita
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Rui Paulo Nazário de Oliveira, presidente do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, depois de participar de Mesa Redonda, em Fortaleza, em 4 de outubro, atividade da CEPA em conjunto com a União das Sociedades Espíritas do Ceará, viaja a Santos/SP para assistir ao 11º SBPE. Na mesma oportunidade, Rui, que é vice-presidente da Associação Brasileira de Delegados e Amigos da CEPA, participará da Assembleia Geral daquela entidade que elegerá nova Diretoria para o biênio 2009/2010.
Do quadro de associados do CCEPA também deverá participar do SBPE e da reunião da Associação dos Amigos da CEPA, a colaboradora Margarida da Silva Nunes, hoje radicada em Florianópolis.

Medran fez pré-lançamento no CCEPA
e será o palestrante de novembro
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No último dia 13 de setembro, em almoço de confraternização na sede do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, o Diretor de Comunicação Social do CCEPA, Milton Medran Moreira, fez o pré-lançamento de seu livro “O Espírito de um Novo Tempo ou Um Novo Tempo para o Espírito” (Editora Imprensa Livre), que terá lançamento oficial na Feira do Livro de Porto Alegre, em sessão de autógrafos agendada para 7 de novembro, às 14 horas.
Medran será o palestrante da primeira segunda-feira de novembro (dia 5) às 20h30, no auditório do CCEPA, enfocando temas ligados à sua última obra, em conferência que leva o título de “Um novo tempo para o espírito”.
O novo livro de Medran já está à disposição na Livraria do CCEPA (20 reais) e, na Feira do Livro (Praça da Alfândega, de 30/10 a 15/11), poderá ser adquirido na barraca da Editora Imprensa Livre, juntamente com outras obras do autor e, também, os livros da CEPA, editados pela Imprensa Livre, sob a coordenação do CCEPA: “A CEPA e a Atualização do Espiritismo”, “Espiritismo – o Pensamento Atual da CEPA” e “Da Religião Espírita ao Laicismo, a Trajetória do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre”, de Salomão Jacob Benchaya
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ENFOQUE
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Ano da França no Brasil:
O Legado Kardequiano
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David Castilhos - Historiador
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A metade do século XIX é marcada por estranhos fenômenos. Em clubes, cabarés e lares de Paris, pessoas se reúnem em torno de mesas que se movem. O apelido pega: tables tournantes.
Diversos cientistas se interessam pelas tais mesas, entre eles Faraday e que, em 1853, publica um artigo sobre suas observações.
No entanto, o que ocorre durante este período acaba por afastar a maioria dos homens de ciência, inicialmente curiosos. Através de um sistema de comunicação chamado tiptologia (certa quantidade de batidas representavam determinados tipos, letras), as tables começam a “falar”. E elas disseram que não se movimentavam sozinhas. Sofriam impulsos das almas de pessoas que já haviam morrido.
Afastaram-se os cientistas profissionais, principalmente, tudo leva a crer, por tratar-se de elementos sob domínio da superstição e da religião: vida após a morte, manifestação de espíritos, etc.
Mais de mil anos de controle exercido pelos dogmas religiosos foram o suficiente para que o bom senso recusasse qualquer indício de retorno à superstição.
A Razão optou por abster-se das pesquisas. Era arriscado. Além do mais, existia (como ainda existe) um universo de mistérios da matéria a ser desvendado pela ciência. O sobrenatural podia esperar.
Em 1855, os fenômenos já haviam se modificado. De tables tournantes, o lápis era o instrumento que deslizava, ora em cestas de vime e pranchetas, ora nas mãos de pessoas tidas como intermediárias dos Espíritos, isto é, médiuns.
É neste contexto que surge um lionês que morava em Paris, o pedagogo e estudioso do Magnetismo Animal, Hipollyte Leon Denizard Rivail. Não era médium, mas observador dos fenômenos.
Recolhendo textos obtidos pela escrita atípica, elaborando hipóteses, organizando as experiências e abrindo questionamentos, Hipollyte dá nome à ciência por ele criada. Visto que seu objeto era o Espírito, chamou-a Espiritismo.
Obviamente, o mundo acadêmico a rejeitou.
Ao publicar seu primeiro livro de Espiritismo, Hipollyte usou um pseudônimo: Allan Kardec.
Em todas as enciclopédias é este pseudônimo que remete à definição fundador do Espiritismo, ou Doutrina Espírita.
Allan Kardec nunca esteve no Brasil, no entanto suas obras aqui chegaram rapidamente, devido à intensa relação cultural de nossa nação com a França.
Políticos, médicos, advogados, militares, artistas… eram muitos os ofícios daqueles que se dedicavam ao Espiritismo deste lado do Atlântico.
Com o tempo, no Brasil, a nascida ciência torna-se mais uma religião entre tantas de nosso solo marcado pelo misticismo. Este processo daria uma boa pesquisa. Mas, por ora, nos importa perguntar: o que Allan Kardec e sua doutrina têm de especial que, além das massas sedentas por novidades religiosas, agradou pessoas mais cultas no final do século XIX e início do século XX?.
O espiritismo tem relações com o saint-simonismo e sua busca pelo positivo. Por mais estranho que isso, hoje, nos possa parecer, Allan Kardec procurou uma análise racional de um fato que julgava como certo, real, positivo: a comunicação das almas dos mortos com os vivos.
Usou de método, ansiava por objetividade, buscava a elaboração de leis. Fez uma tentativa de retorno ao espiritual sem superstição.
Outro ponto que sugere o porquê de Allan Kardec ter caído no gosto de muitos brasileiros é o seu pensamento, ou melhor, o pensamento que resulta das suas observações, coleta de dados e, obviamente, suas reflexões.
O Espiritismo propunha o progresso da alma e, consequentemente, o progresso social.
Entendia que a reencarnação era mais lógica que uma única vida.
Defendia uma busca por progresso moral que permitiria reencarnações menos difíceis no futuro.
Além disso, os escritos mediúnicos diziam não haver céu ou inferno. A felicidade ou infelicidade, a paz de consciência ou o remorso seriam estados psicológicos metaforicamente chamados de céu ou inferno. Cada um seria o responsável por construir estes estados em si mesmo.
Se estes, entre outros pontos, agradaram a alguns, desagradaram a muitos.
Se os cientistas profissionais desdenharam Allan Kardec, os religiosos tradicionais viram suas idéias como aberrações que intentavam retirar o poder das Igrejas como tradicionais intermediárias das “coisas de Deus”. Suas obras acabaram no Index.
Seu nome e sua doutrina são citados no Brasil até hoje (mesmo que em expressões populares). Ao tentar retirar da superstição fenômenos extraordinários, criou uma doutrina sofisticada e interessante que, independente das possíveis crenças religiosas que adotemos, merece ser conhecida.

OPINIÃO DO LEITOR

Se o Estado não fosse laico
No movimento da fé raciocinada, onde hoje raramente as pessoas têm sido levadas a raciocinar e onde não raro a atitude de raciocinar é malvista, o artigo de Luiz Antônio de Sá “Se o Estado não fosse laico, será que os centros espíritas estariam abertos?” (CCEPA-Opinião – agosto/2009) é uma peça admirável. Com a permissão do autor, vou enviá-lo à publicação por um centro espírita de Goiânia, que me pediu um artigo para seu jornal.
Luiz Signates – Goiânia/GO

Qualidade editorial
Na condição de assinantes deste jornal, queremos cumprimentar a equipe pela qualidade das matérias mensalmente publicadas. Continuamos sendo os grandes admiradores do trabalho da equipe.
Roberto e Dora Gandres – Rio de Janeiro/RJ.

Novo ccepa Opinião
Amigo Medran: Meus cumprimentos a ti e a toda a equipe, pelo novo visual de nosso querido Opinião. Sei muito bem das dificuldades, falta de tempo e de recursos financeiros que todos enfrentam para levar adiante essa mensagem. Gostaria de transmitir a todos meu abraço e o meu orgulho de haver convivido com os amigos do CCEPA por tantos anos. Mesmo vivendo distante, preservo esse vínculo como associada da instituição e como assinante deste jornal. Um beijo afetuoso em cada um.
Margarida da Silva Nunes – Florianópolis/SC.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

OPINIÃO - ANO XVI – N°167 – SETEMBRO/2009

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QUANDO A ALMA RECORDA

Duas hipóteses de memória extracerebral em crianças, nos Estados Unidos, voltam a chamar a atenção de pesquisadores para o fenômeno exaustivamente estudado pelo psiquiatra Ian Stevenson, da Universidade da Virginia, no século passado: crianças que recordam de sua vida anterior..
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O policial que retorna na personalidade do neto“Quando você era pequena e eu era seu pai, você também fazia bagunça e eu nunca lhe bati!”, foi a surpreendente resposta dada por Ian Hagedorn (3 anos) à mãe, Maria, quando esta ameaçou bater nele se não parasse de fazer barulho.
Não seria a primeira vez que o menino de Pensacola, na Flórida, afirmaria ser a reencarnação do avô. Em outra oportunidade, perguntou à mãe qual era o nome do gatinho que ele lhe havia dado quando ela era criança:
- Maniak, respondeu Maria.
- Não, esse era o pretinho, quero saber o nome do outro, o branco – rebateu Ian, fazendo a mãe recordar que eram dois os gatinhos dados a ela pelo pai: Maniak e Boston.
O avô de Ian era um policial, morto com um tiro no peito, um ano antes de seu nascimento. A lesão atingiu-lhe uma artéria pulmonar. Ian nasceria com uma grave deficiência respiratória na mesma artéria. Precisou fazer seis cirurgias antes de completar 4 anos. Aos 5, vive sob permanente assistência médica, devido a dificuldades respiratórias congênitas.
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Morreu em acidente aviatório,
mas a paixão por aviões continua
O interesse do garoto James por aviões intrigava o casal Leiningers, de uma pequena cidade do estado de Lousiana. Desde pequenino, ele só queria falar em aeronaves. À noite, tinha pesadelos e gritava muito dizendo estar num avião que caía em chamas. O primeiro brinquedo por ele escolhido, adivinhem qual foi? Um avião, claro. Começou a fazer referências a um acidente aviatório, ocorrido muito antes de seu nascimento, na II Guerra Mundial, em 1945, dando o nome do piloto, coincidentemente também chamado James. A insistência era tanta e os dados trazidos pelo menino tão precisos que seu pai foi aos arquivos da Aeronáutica para conferir. De fato, um tenente de nome James M. Houston, de 21 anos, constava como tripulante de um avião abatido na batalha de Iwo Jima, em 3 de março de 1945.
Hoje, James Leiningers está com 11 anos. É o personagem central do livro “A Alma Sobrevivente: a reencarnação de um piloto de combate na II Guerra Mundial”, escrito por seus pais e que faz sucesso nas livrarias nos Estados Unidos. Um programa da TV ABC fez ampla reportagem com a família. Os pesadelos cessaram desde que o garoto e sua família, com a ajuda de uma terapeuta, entenderam que James era a reencarnação do jovem piloto morto na guerra.
Para conhecer um pouco mais sobre essa história real e fascinante, basta conferir www.youtube.com/watch?v=AQcegAnZwe8 . Ali, o pai do garoto afirma que antes era um cético: não acreditava em nada que se referisse à vida após a morte. Graças à experiência com seu filho, passou a ver na reencarnação a grande lei, capaz de explicar os enigmas nem sempre esclarecidos pela ciência e pela religião tradicional. (A Redação)
.Nossa Opinião
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Razão e Ciência
Já havíamos selecionado estes dois casos sugestivos de reencarnação, quando a mídia se ocupou de outro não menos expressivo. O programa Fantástico (Rede Globo, 23/8/09) exibiu reportagem com Ákrit Jáswal, conhecido como “o pequeno gênio da Índia”. Aos 7 anos, em um vilarejo da Cordilheira dos Himalaias, ele entrou para a história como o mais jovem cirurgião do mundo, ao fazer delicada cirurgia que recompôs os movimentos da mão de uma garota, vítima de graves queimaduras. Hoje, aos 16, Ákrit está formado em ciências biológicas e começa a fazer mestrado nessa área.
Casos semelhantes se multiplicam no mundo todo. A ciência não tem uma explicação plausível para o fenômeno, a menos que, definitivamente, se considere a palingênese como genuína categoria científica. Diante da multiplicidade das ocorrências e da escassez de pesquisadores dotados de autênticos espírito e método científicos, corre-se o risco de se desperdiçarem valiosos materiais de estudo. Karl E.Muller, autor de “A Reencarnação Baseada em Fatos” aponta o fenômeno da genialidade precoce como forte indício da reencarnação.
De qualquer sorte, são sempre os fatos que forçam a pesquisa científica. Especialmente quando, no meio em que ocorrem, as partes resistam às explicações fundadas no mistério e na sobrenaturalidade e busquem na razão e nas leis naturais a chave para o fenômeno. Racionalidade é sempre uma boa aliada da ciência.
(A Redação)
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Editorial
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Liberdade religiosa,
deturpação e estelionato
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Parecemos tão livres e estamos tão encadeados...
Robert Browning

"Por históricas distorções sedimentadas na cristandade,
fé, poder e dinheiro têm sido fatores difíceis de se dissociarem".


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A liberdade de crença é uma das grandes conquistas da modernidade. Por longos 1000 anos, estivemos, no âmbito da cristandade, condenados a professar um único sistema de fé. Naquele 31 de outubro de 1517, o monge agostiniano Martinho Lutero afixou na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg as 95 teses questionando alguns dogmas e práticas da Igreja de Roma. Seria o marco inicial da Reforma Protestante, graças à qual a cristandade do Século XVI e seguintes se libertaria do jugo da crença única.
Desde então, têm se multiplicado por todo o mundo as igrejas cristãs. Algo positivo, pois, preservados alguns dogmas fundamentais com os quais todas elas comungam, abriu-se o leque do pluralismo religioso, estimulando-se, teoricamente, a liberdade de pensamento. Mas, por históricas distorções sedimentadas na cristandade, fé, poder e dinheiro têm sido fatores difíceis de se dissociarem. Mesmo que, ao curso de toda a história das igrejas, almas nobres, fiéis à autêntica mensagem de Jesus de Nazaré, hajam combatido aquela espúria associação, o certo é que a proliferação das igrejas, notadamente nos últimos 50 anos, tem se orientado justamente por essa fórmula. É ela a própria garantia de seu êxito.
As bases a sustentarem o modelo desse cristianismo de nosso século partem dos seguintes pressupostos: a fé é inquestionável, pois se funda na própria palavra de Deus; o poder emana diretamente da autoridade divina, a serviço da qual cada uma dessas igrejas afirma estar; o dinheiro empregado na “obra de Deus” retornará ao doador, multiplicado em bens de consumo, saúde, prosperidade e venturas no amor, benesses só concedidas aos crentes. Estes, por acréscimo, ainda obterão a salvação eterna.
O marketing empregado se afina com a economia de mercado, adotada por uma sociedade ainda movida por políticas excludentes, onde uns poucos são agraciados pelos bens da vida e muitos outros condenados à marginalidade. Enquanto esse modelo perdurar, as Igrejas cultivadoras da teologia da prosperidade seguirão crescendo, à custa de vítimas incautas ou de espíritos atrasados, presos às malhas do egoísmo e da ignorância. A grande motivação para a adesão a esse sistema de fé é o apelo que se faz a um sonhado “upgrade” social e econômico.
Poderão se inscrever essas práticas nos modernos postulados da liberdade de crença? Com certeza não. Trata-se, antes, de um verdadeiro estelionato da fé, astuciosamente engendrado, no seio da sociedade moderna e de suas garantias de liberdade de pensamento e crença. O modelo defrauda tanto os magnânimos projetos dos reformadores religiosos, como dos humanistas, livre-pensadores e laicos, que, no nascer da modernidade, ousaram contestar coisas como vendas de indulgências, autoritarismo e corrupção religiosa.
.Opinião em Tópicos
Milton Medram Moreira.
Um território para a IURD?
Muito tem se falado no crescimento da Igreja Universal do Reino de Deus, exportada do Brasil para praticamente todos os países da América Latina e com forte influência também nos Estados Unidos. Pois, então, imaginemos esta hipótese: o bispo Edir Macedo recebe do governo americano uma área em pleno coração de Miami e lá instala o Estado da IURD. Reconhecida a soberania do novo estado pela ONU, Macedo estaria habilitado a fazer tratados com os demais países do mundo.
Absurdo? Claro. Impensável nos tempos de hoje. Seria o estado teocrático, regido por leis religiosas, a se valer das prerrogativas conquistadas pela sociedade laica e civil e, por aí, se imiscuindo, via direito internacional, no ordenamento jurídico de outras nações.

O Estado do Vaticano
Cada vez que um acordo ou tratado internacional é celebrado entre um país democrático e o Estado do Vaticano é mais ou menos isso que acontece. Desde 1929, como resultado do Tratado de Latrão, celebrado entre Mussolini e Pio XI, um território de pouco mais de um quilômetro quadrado, incrustado no coração de Roma, sede administrativa da Igreja Católica, constituiu-se em nação independente, reconhecendo-se no chefe daquela igreja poderes políticos antes exercidos sobre os diversos Estados Pontifícios, espalhados pela atual Itália. Se, naquele momento, o confinamento do poder temporal do Papa ao minúsculo território, era um avanço no processo de laicização da lei e do poder, hoje a simples presença de um estado teocrático no contexto do direito internacional representa uma incômoda ingerência da religião sobre a política dos povos. Um estado teocrático, embora politicamente institucionalizado, é sempre um estado religioso, regido não pelo consenso dos valores humanos, mas por dogmas imutáveis impostos pela fé.

A Lei Geral das Religiões
Só às vésperas de sua apreciação pela Câmara Federal, é que a opinião pública teve a atenção voltada para o chamado Estatuto Jurídico da Igreja Católica no Brasil, um acordo celebrado entre Lula e Bento XVI em novembro do ano passado. Por meio dessa concordata, consagram-se alguns privilégios à Igreja Católica, no campo do ensino religioso em escolas públicas, no reconhecimento do casamento religioso e sua anulabilidade a partir das leis canônicas, na isenção de tributos a ministros religiosos e na proteção pública de bens da Igreja.
Um tratado internacional celebrado entre dois chefes de Estado não pode ser modificado pelo Legislativo. Ou é aprovado ou rejeitado inteiramente. As demais igrejas lideraram um movimento de rejeição, alegando privilégios a uma crença em detrimento das outras. Para resolver o impasse, criou-se, ligeirinho, uma outra lei, batizada de Lei Geral das Religiões. O que fez esta? Simplesmente estendeu a todas as demais igrejas as prerrogativas concedidas ao Estado do Vaticano.

O acordão
Dia 27 de agosto último, em votação simbólica, depois de brevíssima discussão, o tratado Lula/Bento XVI foi aprovado na Câmara. Antes da votação, um deputado evangélico, autor do projeto de lei que estende o acordo às demais igrejas, esfregava as mãos, dizendo: “Está tudo acertado. Nós aprovamos o projeto deles e eles aprovam o nosso.” (O Globo, on- line – 27/8). Quer dizer: agora é assim, privilégios concedidos a uma religião devem ser dados a todas as demais. E como não há limites e nem critérios para a criação de igrejas, a fé volta a reinar soberana, ameaçando a vigência dos valores humanistas e republicanos. Na prática, igreja alguma precisa instituir um Estado, como a Santa Sé, para garantir sua presença na formulação das leis. É a volta do Estado teocrático por vias transversas.
É verdade que, uma vez consolidado o acordão na Câmara, resta a esperança de que o Senado o barre. Uma bela oportunidade, aliás, de o Senado Federal começar a resgatar sua credibilidade perante a opinião pública nacional.
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Notícias.
Alteridade e fraternidade tiveram
qualificado Seminário
.“O espiritismo requer instituições protetoras da liberdade
e não fiscalizadoras do pensamento".

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Com esse e outros conceitos estimulando a fraternidade, a alteridade e o cultivo da liberdade de pensamento no meio espírita, Luiz Signates conduziu, na tarde de 16 de agosto, o Seminário Espiritismo e Fraternidade, no Instituto Espírita 3ª Revelação Divina, de Porto Alegre. Jornalista e Doutor em Comunicação, Signates é professor da Faculdade de Comunicação Social da Universidade Federal de Goiás.
Quase uma centena e meia de espíritas gaúchos participaram do evento. O Centro Cultural Espírita de Porto Alegre esteve presente com cerca de 10 de seus integrantes, entre eles o ex-presidente da CEPA, Milton Medran Moreira. Ao início dos trabalhos foram chamados à mesa o presidente do CCEPA, Rui Paulo Nazário de Oliveira e uma integrante da Diretoria da Federação Espírita do Rio Grande do Sul. Na oportunidade, o presidente do IETRD, Aureci Figueiredo Martins fez menção à presença do companheiro Salomão Jacob Benchaya, ressaltando tratar-se de uma figura marcante da história do movimento espírita gaúcho, por haver introduzido, quando de sua passagem pela FERGS, o Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita.
Após cerca de quatro horas de exposição e debate, o evento foi encerrado com uma apresentação de peças líricas cantadas pelo tenor Pedro Szobot, da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre. (Na foto, Signates, Aureci, Rui Paulo e Salomão)

Sociedade de Estudos Espíritas Vida -
cultura e modernidade em Pelotas
O Diretor de Comunicação Social do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, Milton Medran Moreira, teve a oportunidade de conhecer, no último dia 29 de agosto, as modernas e amplas instalações da Sociedade de Estudos Espíritas Vida, da cidade de Pelotas/RS. Ali, proferiu conferência sobre o tema "Conhecer para Transformar" para cerca de 150 pessoas, antecedida de uma apresentação do coral da Universidade Federal de Pelotas.
Juntamente com sua esposa, Sílvia, Medran retornou entusiasmado com o interesse e a participação dos frequentadores da instituição que tem entre seus dirigentes o casal Eduardo Born e Maria Cristina Vargas (na foto, juntamente com Milton Medran) . A casa, com apenas 10 anos de existência, desenvolve qualificado programa doutrinário e cultural e costuma convidar, como expositores, pensadores dos mais diferentes segmentos espíritas.
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Homero no CCEPA falará sobre
Determinismo e Livre-Arbítrio

A conferência mensal da primeira segunda-feira de outubro no CCEPA estará a cargo do advogado e líder espírita pelotense Homero Ward da Rosa.

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sábado, 8 de agosto de 2009

OPINIÃO - ANO XVI - N° 166 - AGOSTO/2009

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Uma tarde para refletir sobre
Espiritismo e Fraternidade
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Agosto/16 - Domingo - das 13h30 às 18h30
Luiz Signates, um dos mais qualificados pensadores espíritas do
Brasil, ministra o seminário sobre “Espiritismo e Fraternidade”
no IETRD com a participação de integrantes do Centro Cultural
Espírita de Porto Alegre.


O expositor
Luiz Signates é jornalista, professor da Faculdade de Comunicação e Biblioteconomia da Universidade Federal de Goiás, mestre em comunicação pela Universidade de Brasília e doutor em comunicação pela Escola de Comunicação e Arte da Universidade de São Paulo. Presentemente, ministra curso de pós-graduação na Universidade do Vale do Rio do Sinos (São Leopodo/RS). No meio espírita, foi vice-presidente de comunicação social da Federação Espírita do Estado de Goiás, colaborador da ABRADE e da CEPA.
Intelectual e pensador fecundo, Signates tem se destacado no meio espírita por defender ideias de alteridade e diálogo entre todos os segmentos espíritas, independentemente das siglas e organizações institucionais. Em artigo publicado no livro “Espiritismo: O Pensamento Atual da CEPA” (Ed.Imprensa Livre/2002), sob o título de “Nós não é o plural de eu” destaca que “não é incomum, nos meios filosóficos e religiosos, falar-se de fraternidade...de modo antifraterno”, e acrescenta: “No espiritismo brasileiro, por exemplo, a maioria das atitudes de 'defesa da pureza doutrinária' inclui-se no caso em que a prática da fala acaba negando os seus próprios conteúdos, deixando-os vazios de consistência ética”.
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Público alvo
O seminário é organizado e sediado por uma entidade filiada à Federação Espírita do Rio Grande do Sul: o Instituto Espírita Terceira Revelação Divina, cuja atuação tem se inspirado em uma visão sempre aberta ao pluralismo e ao diálogo. A partir do momento em que foi anunciado o evento, o Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, filiado à Confederação Espírita Pan-Americana, mobilizou seus dirigentes e associados para dele participarem. Dessa oportuna iniciativa espera-se uma participação efetivamente plural, alteritária e voltada ao diálogo e à vivência da autêntica fraternidade espírita.
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A programação
Além da programação temática com Signates, divulgada pelo IETRD e que reproduzimos abaixo, está sendo anunciada uma breve apresentação do tenor Pedro Szobot, da OSPA – Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, com músicas de seu repertório com acompanhamento de playback.
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13h30 Recepção Recepção aos participantes
13h45 Abertura Apresentações
14h Palestra/ Jesus e a alteridade: a singularidade
Diálogo do Sermão da Montanha
15h Palestra/ Kardec e a alteridade: o exemplo do
Diálogo codificador para a ética espírita.
16h Lanche Intervalo de 30 minutos
16h30 Palestra/ Saberes e religiosidades: a fraternidade
Diálogo como experiência de ouvir e aprender
17h30 Palestra/ Espiritismo e globalização: a inserção social
Diálogo espírita como fator de transformação humana
18h30 Encerramento - Palavras finais.
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Nossa opinião
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Há 15 anos defendemos esta idéia.
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Este periódico completa 15 anos com esta edição. Nascido em um momento de definições e afirmações dentro do movimento espírita, tornou-se porta-voz de uma instituição que privilegia o livre-pensamento e a prática de sua expressão, no meio espírita, em clima de fraternidade e respeito.
Por isso, no momento em que celebramos mais este aniversário e introduzimos algumas modificações neste mensário, voltando, inclusive, a disponibilizá-lo em papel branco, como originariamente, gratifica-nos abrir esta edição com a notícia de um evento que trata de fraternidade na seara espírita. Fazendo-o, aproveitamos a oportunidade para reafirmar o verdadeiro papel deste modesto periódico: o de estimular o conhecimento e a vivência do espiritismo, em todos os seus aspectos e consequências.
“Não se pode legitimamente falar de espiritismo sem praticar sua ética”, escreveu Signates no livro “Espiritismo: o pensamento atual da CEPA”.
Muito mais que uma palavra, fraternidade é um valor a ser vivenciado, no meio espírita. E para vivenciá-lo é fundamental que se abram espaços de encontro, convivência e diálogo.
Cumprimentamos o Instituto Espírita Terceira Revelação Divina – IETRD – pela feliz iniciativa. O Centro Cultural Espírita de Porto Alegre – CCEPA – lá estará para participar ativamente. E este periódico, para documentar o evento, como uma de suas pautas, na abertura de seu 16º ano de vida.
(A Redação)
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Editorial

Ética na Política
“Ética nada mais é que reverência pela vida”
Albert Schweitzer

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Um manifesto firmado por cerca de uma dezena de instituições nacionais ligadas ao Direito, difundido pela Internet, convocava para um Fórum pela Ética na Política, e marcava um encontro para o dia 27 de julho, no Pacaembu, em São Paulo, denominado “Reunião com os Operadores do Direito”.
O grupo, declarando não ter presidente ou diretores, mas apenas coordenadores, está impulsionando a criação de um movimento para mobilizar a sociedade civil, formadores de opinião e cidadãos em geral “para pôr fim à degradação do Senado, reduzir drasticamente seu orçamento e o número de funcionários da instituição e lutar por uma reforma política que propicie a democratização do poder público, maior controle sobre parlamentares e dirigentes, maior transparência e etc.”.
Ao produzirmos este editorial não tínhamos ainda conhecimento do resultado do encontro. Assim mesmo, pela iniciativa e em face da manifestação de, pelo menos, uma liderança espírita, no caso o professor e jurista Marcelo Henrique Pereira, Assessor Administrativo da ABRADE – Associação Brasileira de Divulgadores Espíritas – pareceu-nos importante fazer o presente registro. Em sua manifestação, destaca, com propriedade Marcelo Henrique: “Ao contrário do que alguns possam pensar, os temas que estão na ordem do dia são fundamentais e imprescindíveis quanto à mobilização e a participação dos espíritas, construindo uma sociedade melhor, materialmente falando, além, é claro, dos componentes de caráter espiritual propriamente ditos”. Com esse argumento, promete colocar à apreciação de seus companheiros da ABRADE, “a aproximação e o envolvimento da entidade nessa feliz iniciativa”.
Há alguns momentos na história de uma nação que, mesmo sendo eminentemente políticos, provocam demandas que extrapolam ou até contrariam interesses radicais de seus organismos políticos. Esses organismos, aliás, por injunções da própria democracia, tendem a criar estruturas de poder distanciadas do interesse público e cujo distorcido objetivo central passa a ser a criação de privilégios a seus integrantes. É nesses momentos que entidades verdadeiramente livres e voltadas ao bem comum devem agir politicamente. Os organismos espíritas, segundo abalizadas conclusões, teriam se omitido em momentos de graves violações aos direitos fundamentais e à democracia deste país. Diferentemente, a maçonaria e importantes segmentos progressistas da Igreja, apenas para citar duas vertentes, levantaram a voz e agiram concretamente contra a opressão, o autoritarismo e a ditadura, em momentos oportunos.
Este é um momento oportuno. Não para responsabilizar apenas um homem, por mais que esteja ele vinculado às práticas corporativistas contra as quais a sociedade verbera, em uníssono. Mas, fundamentalmente, para contribuir com o aprimoramento institucional, punindo-se, sim, eventuais culpados, e, especialmente, criando-se mecanismos políticos mais funcionalmente sujeitos ao controle social, à transparência e à ética pública.
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Opinião em Tópicos
Milton Medran Moreira
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A divergência dos gênios
Os gênios também divergem. Discípulos dissentem de seus mestres. Aconteceu entre Platão e Aristóteles com suas respectivas teorias do conhecimento. Platão defendia a tese das ideias inatas. Para ele, a alma, e só ela, era detentora do conhecimento. Seu mais famoso discípulo discordou. Aristóteles cunhou a frase que aprendi nos velhos tempos de latim: “Nihil est in intelelectu quod non prius fuerit in sensu” (nada está no intelecto que não tenha primeiro passado pelos sentidos). Ou seja: é pela visão, pelo tato, pelos sentidos corporais, enfim, que adquirimos o conhecimento. Sem experienciar nada aprendemos. Diferente de seu mestre para quem “aprender é recordar”, ou seja, é acessar o imenso universo das ideias que deixamos lá fora da caverna, onde estamos acorrentados e permaneceremos enquanto nossa alma não se libertar do corpo.

O pintor cego
Estou recorrendo aos dois gênios da Grécia Antiga para tentar desvendar um mistério de nossos dias. Na Turquia, não muito distante, pois, da pátria onde se deu esse embate intelectual, um homem chamado Esref Armagan encanta e confunde o mundo. Encanta porque pinta maravilhosamente bem. Uma pintura leve, cheia de cores, de gramados muito verdes, de casinhas multicoloridas com vasos de flores nas janelas e passarinhos pousando nelas. Confunde porque esse homem nasceu cego. Nunca enxergou. Sua relação com tudo o que o rodeia dá-se preferentemente pelo tato. Para pintar seus quadros toca nas flores, nas plantas, nas pessoas e, depois, reproduze-as com os acréscimos que sua alma de artista é capaz de criar.

A alma na pós-modernidade
De sua alma, eu falei? Bem, aí é que a coisa pega. O mundo pós-moderno está muito mais para aristotélico do que platônico. A alma dos filósofos idealistas, que foram tantos e tão ricos, da antiguidade à modernidade, já não conta para a ciência dos neurônios e dos bits que, juntos, pretendem explicar todas as maravilhas dos homens e das máquinas. A neurociência localiza no cérebro a sede e a causa de cada emoção, de cada gesto e comportamento, do bem e do mal. E nessa ditadura neuronial não sobra lugar para a alma. Esta, antes liberta no vasto mundo das ideias, agora é propriedade exclusiva das religiões. Prisioneira do dogma, foi encerrada no quarto escuro do mistério.
Platão não teria dúvida. O pintor que nasceu sem os olhos nem sempre teria sido cego. Sua alma, viajora do tempo, antes de aprisionar-se ao corpo, percebera e retivera as imagens que hoje pinta. Para os neurocientistas, no entanto, há um campo no cérebro onde se formam as imagens captadas pela visão. Quem não enxerga, como Esref, pode suprir isso com os outros sentidos, especialmente o tato, formando, naquela mesma área cerebral, as imagens que consegue reproduzir com seu pincel.

A síntese
Só não consigo entender como Esref, sem ver, pinta o gramado de verde, as flores com suas cores originais, os telhados vermelhos com a neve branca. Ou melhor, consigo, sim. Para isso, preciso harmonizar as relações Platão/Aristóteles: sim, é a alma que conhece, como disse um; sim, o conhecimento chega pelas percepções sensoriais, como afirmou outro. A síntese dessas duas afirmativas à primeira vista antagônicas, se dá pela lei das vidas sucessivas e pelas reminiscências que delas guarda a alma ou espírito. Uma lei em tudo racional, capaz de interpretar o fenômeno Esref. Mas para aceitá-la será preciso enfrentar dois dogmas da pós-modernidade: o de que a alma não existe, e o de que se, vá lá, possa existir, é coisa que deve ser aprisionada no quarto escuro do mistério e da fé.
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Notícias

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CCEPA na campanha contra as drogas
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Com o tema “Reflexão sobre a Prevenção ao Uso de Drogas”, palestra proferida pela psicóloga Mariana Canellas Benchaya, na noite de 3 de agosto, o Centro Cultural Espírita de Porto Alegre aderiu às campanhas que se desenvolvem no Estado contra o uso de drogas. O cartaz que divulgava a palestra mensal, sempre realizada na primeira segunda-feira do mês, às 20h30, tomou como chamada o bordão que vem sendo utilizado pela Rede Brasil Sul de Comunicação “Crack nem pensar”.
Em sua palestra, a psicóloga convidada, espírita, integrante do CCEPA, fez abordagens envolvendo aspectos psicológicos, espirituais e pedagógicos do tema. Estiveram presentes cerca de 100 pessoas. Antecedendo a palestra, na noite de 28 de julho, Mariana foi entrevista pelo comunicador Bibo Nunes, na TV Ulbra, sobre o tema que desenvolveria.
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“Conhecer para Transformar”
Palestra de Medran em Pelotas
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Milton Medran Moreira, Diretor de Comunicação Social do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, proferirá palestra pública, na cidade de Pelotas/RS, na tarde de 29 de agosto, na Sociedade de Estudos Espíritas Vida. O trabalho, que acontece a partir das 15h, propõe uma abordagem espírita do conhecimento e suas implicações ético-morais, com interlocução com os dirigentes, colaboradores e freqüentadores da instituição.
A Sociedade Vida está situada na Rua Santa Cruz, 601, Pelotas, e o evento, como de praxe na instituição, é gratuito. Haverá, entretanto, um posto de arrecadação de leite longa vida para distribuição a famílias carentes.
A colaboração é espontânea.
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Enfoque
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Se o Estado não fosse laico, será que os
Centros Espíritas estariam abertos?

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Luiz Antônio Sá
Professor de filosofia, fundador e coordenador da
LEPPLE - Liga de Estudos Progressivos e Práticas à Luz do Espiritismo e delegado da CEPA - Confederação Espírita Pan-Americana
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Depois de uma exposição sobre problemas sociais que promovemos em um centro espírita, ao final tivemos uma breve parte de interação com o público ali presente, que pode tecer comentários e fazer perguntas. Nessa ocasião uma participação me chamou particular atenção. Foi uma colocação feita por um presidente de centro espírita, que disse o seguinte: “Na sociedade há muitos problemas porque o governo não incentiva as religiões. Infelizmente o Estado é laico.” Ao que, posteriormente, respondemos, e o fizemos, inicialmente indagando: “Se o Estado não fosse laico, será que os centros espíritas estariam abertos?”
Na condição de espíritas que somos, proclamadores de uma fé raciocinada, já não podemos nos permitir determinados enganos, como o de confundir laicismo com ateísmo, ou achar que ser laico é ser inimigo das religiões.
A condição de Estado laico diz respeito tão somente a uma forma de governo que não possui uma religião como sendo oficial, ou seja, é onde o Estado não toma partido religioso, o que não quer dizer propriamente que esse Estado seja inimigo das crenças religiosas. Como exemplo disso temos o Brasil, que é um Estado laico, mas garante aos cidadãos em sua Constituição a liberdade de crença.
Para continuar refletindo sobre esse assunto, é bom também voltarmos um pouco no tempo e olhar a história das religiões. No Brasil, em um passado ainda bem recente, no século XIX, quando a primeira Constituição brasileira ainda oficializava o catolicismo como a religião do Estado, dificilmente se conseguia registrar a existência de um grupo ou templo de outra denominação religiosa. Para se ter uma ideia, o primeiro núcleo espírita do Brasil, o Grupo Familiar de Espiritismo, fundado em 1865, em Salvador - BA, pelo Sr. Luís Olímpio Teles de Menezes, no ano de 1871 teve seu pedido de registro como sociedade religiosa negado, registrando-se posteriormente como uma sociedade científica, o que especificamente para a doutrina espírita não foi ruim, uma vez que esta forma de registro foi perfeitamente concordante com a “autêntica” definição de espiritismo estabelecida por Allan Kardec. Este, claramente, o define como sendo uma “ciência e uma filosofia espiritualista de consequências morais”.
Mas e os outros grupos? Os protestantes, judeus, mulçumanos, budistas, hinduístas, pessoas adeptas aos cultos indígenas, cultos africanos etc.. Será que nesse período algum grupo assim poderia se registrar como uma entidade religiosa e poderiam eles se expressar abertamente em suas ideias e crenças? Evidentemente que não!
Recuando mais no passado a história traz marcas ainda mais perversas de constrangimento, de intolerância e violência sobre aqueles que se declaravam seguidores de outras religiões, ou mesmo sobre aqueles que não seguiam a nenhuma religião, que é outro direito que foi e continua sendo muitas vezes negado e mal interpretado.
Diante do exposto lançamos as perguntas: se o Estado não fosse laico, será que os centros espíritas estariam abertos? Ou ainda, se o Estado fosse teocrático, ou seja, tivesse uma determinação religiosa outra qualquer, mas permitisse a existência de outras crenças, será que desfrutaríamos da mesma liberdade que temos hoje, de abrir as portas das casas espíritas para o público, de declararmo-nos espírita, de registrarmos instituições, de promovermos eventos, de divulgarmos, enfim, o espiritismo através das diferentes mídias? Eu particularmente acredito que não!
Se o Estado fosse teocrático, muitas coisas seriam tolhidas, não só no universo religioso, mas também no campo da filosofia, das ciências e das artes. E não me venham dizer que um Estado teocrático seria capaz de tolher somente as coisas ruins, pois o passado e o presente deixam clara essa incapacidade. Geralmente, o pensamento teocrático caracteriza-se por considerar quase tudo que existe ruim, escapando pouca coisa a esse julgamento. Logo, muitas coisas efetivamente boas e essenciais para o progresso da humanidade deixariam de existir.
Portanto, não nos iludamos, colocando em dúvida aquilo que a duras penas já foi conquistado. Para não ficarmos sujeitos a cair em terrível retrocesso.
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Opinião do Leitor

Vegetarianismo

Oportuna a matéria sobre vegetarianismo (Opinião, junho). Nos próximos 100 anos pessoas razoavelmente informadas não mais comerão carne. Os espíritas bem que poderiam se antecipar. Edy S.Roland – São Paulo/SP.

O que é o Espiritismo
Com a reportagem “Kardec e os Princípios Fundamentais”, recordando os 150 anos do livro “O que é o Espiritismo” (julho/09) vocês deixam muito claro que Kardec não desejava mesmo que o espiritismo fosse uma religião. Os padres, combatendo-o, é que fizeram dele uma nova crença. Para mim, espiritismo é essencialmente uma filosofia.
Laurindo F.de Giuliani – Teresópolis/RJ

quinta-feira, 9 de julho de 2009

OPINIÃO ANO XV - N° 165 - JULHO DE 2009

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Kardec e os Princípios Fundamentais
Há 150 anos, Allan Kardec lançava “O Que é o Espiritismo”. Seu
objetivo: combater as “ideias falsas”, concebidas “a priori” por
aqueles que não conheciam os “princípios fundamentais da Ciência”
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O lançamento
Na “Revista Espírita” de julho de 1859, seu diretor, Allan Kardec, noticiava o lançamento de “O Que é o Espiritismo”. Apresentava-o como “um resumo que permitirá, numa leitura rápida, apreender o conjunto dos princípios fundamentais da Ciência”. Justificando tratar-se, efetivamente, da exposição dos fundamentos de uma proposta científica, alheia a qualquer tipo de revelação religiosa, sublinhava seu autor, no anúncio de lançamento: “Aqueles que, depois dessa curta exposição, julgarem o assunto digno de sua atenção, poderão aprofundar-se com conhecimento de causa”.
Dois anos haviam se passado da edição inaugural de “O Livro dos Espíritos”, obra fundamental da doutrina espírita (abril de 1857). Kardec, como editor da “Revista Espírita”, recebia dos mais diversos quadrantes do mundo cartas questionando-o sobre temas espíritas. Seu objetivo com aquela nova obra era, como ali consignava, “apresentar, num quadro a resposta a algumas perguntas fundamentais, que nos são dirigidas diariamente”. Assim, dizia, a obra contribuiria para que fossem afastadas aquelas “ideias falsas que adquirimos a priori sobre aquilo que não conhecemos”. Terminava Kardec a matéria pedindo “o concurso de todos os amigos dessa ciência, auxiliando a divulgação desse curto resumo”.

A preocupação com a identidade espírita
O opúsculo então lançado se caracterizaria justamente por fixar com clareza a verdadeira identidade do espiritismo. Já na introdução, define-o sucintamente como “uma ciência que trata da natureza, da origem e do destino dos espíritos e de suas relações com o mundo material”. Mas, para chegar à definição, em breve preâmbulo, esclarece que, sendo “uma ciência de observação”, o espiritismo é, ao mesmo tempo, uma “doutrina filosófica”, aduzindo: “Como ciência prática, consiste nas relações que se podem estabelecer com os Espíritos; como filosofia, compreende todas as consequências morais que decorrem dessas relações”.
Todo o pequeno livro, lançado há exatos 150 anos, utilizando-se especialmente de diálogos – o primeiro deles com o “crítico”, o segundo com o “visitante” e o terceiro com o “padre - envolve conceitos precisos, embasados em fatos e na razão. Dos fatos e da razão Kardec extrai, com maestria e didática, consequências morais, identificando estas com o próprio ensino moral de Jesus, mas recusando, expressamente, fazer dessa doutrina uma nova religião
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Nossa Opinião

A paixão não raciocina
Se quiséssemos resumir em poucas palavras o objetivo e o conteúdo de “O Que é o Espiritismo”, lançado há 150 anos, poderíamos dizer simplesmente que ali Kardec quis deixar claras duas ideias fundamentais:
1ª – A de que o espiritismo é uma ciência que tem por objeto o estudo do espírito, sua natureza imortal, sua comunicabilidade e sua evolução infinita;
2ª – Que o conhecimento dessa ciência conduz o ser humano a uma nova postura ética individual e coletiva (filosofia moral).
Salientando a importância dessas duas ideias, Kardec diz ao padre, no diálogo ali inserido: “O Espiritismo não era mais que simples doutrina filosófica”, mas, “a própria Igreja o desenvolveu, apresentando-o como um temível inimigo”. E finaliza: “Foi ela (a Igreja), enfim, que o proclamou como nova religião. Uma demonstração de inépcia, pois a paixão não raciocina”.
Mostrava Kardec, com meridiana clareza, que não concebera o espiritismo para ser uma nova religião e que essa classificação o desagradava Sua estrutura de ciência experimental com consequências filosófico-morais não comportava questões de fé e muito menos paixões suscitadas pelas disputas religiosas.
Mas, como diria, pouco depois, Léon Dénis, discípulo de Kardec, o espiritismo seria o que dele fizessem os homens. E os homens, levados pela Igreja, dele fizeram uma religião a mais.
Uma coisa é identificar essa realidade fática. Condição, aliás, indispensável para modificá-la. Outra, bem diferente, é conformar-se com ela. Nós estamos entre aqueles que não se conformam. (A Redação)

Editorial
Um momento singular
“...é preciso que a moralidade vença numericamente”
(Allan Kardec, “As Aristocracias”, em “Obras Póstumas”)

O Brasil vem assistindo a uma torrente de escândalos que acontecem em sua mais alta Casa Legislativa. O Senado Federal, instituição que, no ideal republicano, deveria abrigar homens probos, experientes, voltados à defesa das prerrogativas dos Estados que os elegeram, tem se mostrado um dispensador de privilégios inconfessáveis. Por meio de uma excrescência jurídica, os “atos secretos”, nomearam-se cargos em comissão, concederam-se vantagens, pagaram-se mordomias, remuneraram-se prestadores de serviços particulares com verbas públicas, desbaratam-se, enfim, milhões de reais dos cofres públicos.

Nossa incipiente democracia tem sido, frequentemente, violada por escândalos dessa ordem. Seria ingênuo supor seja isso novidade. Quanto mais recuarmos no tempo, mais identificaremos a presença de sanguessugas do erário público. Por milênios, os mais fortes e os mais hábeis, ora valendo-se da força bruta, ora invocando pretensos direitos divinos, ou de sangue, ou de raça, ou de corporação, assenhorearam-se dos bens comuns e espezinharam os direitos inerentes a todos.

O postulado de que “todo o poder emana do povo e em seu nome será exercido” é uma conquista recente da sociedade que está longe de ser inteiramente praticada. É verdade, já somos capazes de exercitar com plenitude a cidadania na hora de eleger nossos representantes. Mas estamos distantes de poder fiscalizá-los convenientemente e nos sentimos impotentes de lhes evitar os desmandos.

O momento é singular. A plena democracia permitiu-nos fortalecer os organismos políticos. Com os poderes que lhe concedemos, a classe política criou uma formidável estrutura corporativista. Disso decorre que os honestos e bem-intencionados que lá chegam deparam-se com um forte mecanismo protecionista que nem sempre lhes possibilita agir em favor da moralização.
Em contrapartida, talvez nunca como hoje, a sociedade civil esteve tão mobilizada. Nunca a imprensa apontou tão cruamente as mazelas do poder político. Também, inegavelmente, acentua-se o senso ético na consciência do povo. Está começando uma revolução em prol da transparência, da moralidade e da punibilidade dos malversadores do interesse público. O povo se sente traído e compreende que as raízes dessa traição se nutrem no lodaçal de uma imoralidade cultivada e tolerada por muito tempo e que precisa ser contida.

Entretanto, toda a corrupção pública, mesmo a que se institucionaliza e assume ares de legalidade, é gestada na consciência do ser humano. Vale dizer, produze-a o espírito imperfeito, aquele que, segundo os mensageiros da espiritualidade, é ainda dominado pelo orgulho e o egoísmo. Mais do que nunca, a quem, como nós, foi possível a compreensão das leis da vida fundadas na imortalidade e na evolução do espírito cabe investir no processo de educação integral do ser humano.

Resgatar a essencialidade espiritual do homem implica também em demonstrar que há um único caminho para a felicidade, em qualquer plano e estágio: o do esforço pela transformação ética e moral. Não se atingem patamares de justiça, estabilidade política e social, correta administração da coisa pública, sem que esses valores se encontrem ancorados na consciência moral de cada cidadão: de eleitores e eleitos, de governantes e governados.

Convém, enfim, ter presente sempre que o bem e o mal são escolhas do ser humano. Que valores públicos gestados pelos ideais republicanos exigem de cada indivíduo um assentimento e uma participação que não se esgotam no voto e reclamam a ação concreta em favor do bem comum. Viver é, sobretudo, conviver, aprendendo a fazer da convivência um ideário de justiça, solidariedade e fraternidade. Seja qual for nossa posição no contexto social.

Toda a corrupção pública, mesmo a que se institucionaliza e assume ares de legalidade, é gestada na consciência do ser humano.

Opinião em Tópicos
Milton R. Medran Moreira

O Pequeno Buda
No filme “O Pequeno Buda”, com Keanu Reeves, um menino americano conhece um grupo de monges tibetanos que asseguram ser ele a reencarnação de um mestre budista. Sob a incredibilidade inicial, pais e filho partem rumo ao país asiático onde se deparam com crenças e formas de vida muito distintas das suas e da própria maneira de vida do Ocidente.
Monges budistas costumam percorrer o mundo atrás de sinais que caracterizariam a reencarnação de mestres do passado. Essas crianças por eles identificadas como tulkus (mestres reencarnados), depois de convencidos e doutrinados seus pais, terminam sendo afastadas da família para se submeterem a uma rigorosa vida monástica. Tudo sob a crença de que são seres predestinados que, já na encarnação anterior, teriam dado sinais a respeito de onde haveriam de reencarnar para, dali, serem levados a mosteiros nos quais irão se preparar para uma nova missão búdica.

Um Buda brasileiro
Inclusive no Brasil já surgiu um desses pequenos budas: Michel Lenz Calmanovitz, hoje conhecido como o lama Michel Rimpoche. Desde os 12 anos, esse paulista, nascido em 1981 de pai judeu e mãe presbiteriana, vive num monastério no Sul da Índia. Ainda muito pequeno, contrariando as tradições religiosas de seus genitores, começou a falar em coisas como a busca da iluminação, a roda das reencarnações, a supressão de desejos e paixões, e não descansou enquanto não viajou à Índia e ao Nepal com seus pais. Lá terminou sendo reconhecido como reencarnação de um grande mestre tibetano, pediu para envergar paramentos de lama e, em 1994, terminou por se internar num mosteiro, onde vive sob um rígido regime de estudos, orações e trabalho.

O Buda rebelde
Mas, nem sempre as coisas acontecem sob esse mesmo figurino. A edição nº 2117 da revista Veja publicou reportagem contando a história do espanhol Osel Hita Torres que, na década de 70, aos 4 anos, foi reconhecido como um tulku. Seus pais eram budistas e receberam a notícia como um presente dos céus. Permitiram que o garoto fosse levado a um mosteiro no Norte da Índia, onde foi criado com a dureza exigível de um legítimo Buda. Só que Torres não aguentou. E, aos 18 anos, época em que desejos e paixões, normalmente, falam mais alto que a busca da iluminação, terminou deixando o monastério. Hoje, com 24, circula por Hollywood, onde fez faculdade de cinema e já atuou como assistente de produção de um filme. Dias atrás, entrevistado, o “ex-Pequeno Buda” se queixou da violência que teria sofrido na sua infância, ao ser retirado da companhia dos pais para ser internado no monastério. Diz não ter saudade alguma dos tempos em que foi mantido afastado do mundo, rezando e estudando filosofia budista.

A proposta espírita
Teriam os monges que identificaram Torres como um Buda errado o diagnóstico? Ou será que alguém que, numa encarnação, conquista essa chamada “iluminação búdica” não terá, mesmo, mais direito a ter desejos, a ser simplesmente humano? E como tal, viver a vida de um novo jeito, conviver com a cultura e a família na qual reencarna, adaptar-se ao mundo que o rodeia, trabalhar no que gosta e encontrar outras formas de realização pessoal?

É comum entre nós conferir a esses modelos espiritualistas de outros quadrantes uma certa aura de superioridade. E, no entanto, a filosofia espírita, como proposta afinada com o mundo moderno, condena o ascetismo, estimula e valoriza os laços de família e vê o mundo, com seus desafios e contradições, como cenário ideal para o progresso do espírito na convivência com o diferente e na plena vivência do pluralismo. Na verdade, o espiritismo é uma revolucionária proposta de dessacralização e desmitificação do mundo, sob a ótica da imortalidade e da reencarnação, vistas como leis naturais.
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Notícias
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CCEPA e CVV VALORIZANDO A VIDA
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Mantendo a tradição, o Centro Cultural Espírita de Porto Alegre recebe mais uma vez o Centro de Valorização da Vida, Posto de Porto Alegre, para a realização em suas instalações da 9ª SEMANA DE VALORIZAÇÃO DA VIDA – 28/31 de julho 2009.

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Programação, aberta ao público:

Dia 28 de julho- Terça- feira
20 horas: Palestra: CVV- Uma Proposta de Vida
Palestrante: Coordenação do Posto

Dia 29 de julho- Quarta-feira
20 horas: Palestra: Saúde e Espiritualidade
Palestrante: José Camargo, Cirurgião Torácico, Diretor Médico do Hospital Dom Vicente Scherer, Chefe do Serviço de Transplante Pulmonar da Santa Casa
(FOTO JOSÉ CAMARGO)
Dia 30 de julho- Quinta-feira
20horas: Palestra: Psicopatia no mundo atual
Palestrante: Camila Chaves, Médica Psiquiatra do Serviço de Psiquiatria do Hospital de Clínicas-POA

Dia 31 de julho- Sexta-feira
20 horas: Palestra: A Nova Ciência e a Fé Valorizando a Vida
Palestrante: Moacir Costa de Araújo Lima, Professor, Advogado e Escritor

21h e 30 min -.Encerramento - Confraternização: 39 anos do Posto- CVV- POA.

Donarson foi o conferencista de julho
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Com o tema “O Espiritismo e os Pobres”, Donarson Floriano Machado, ex-presidente do CCEPA, foi o conferencista do mês, na primeira segunda-feira de julho.
Prosseguindo a série de conferências oferecidas ao público pelo Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, na segunda-feira, 3 de agosto, às 20h, a psicóloga Mariana Canellas Benchaya abordará o tema “Refexão sobre a prevenção ao uso de drogas”.
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Café Cultural do CCEPA com sabor e arte
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O II Café Cultural do CCEPA, realizado no sábado, 27 de junho, na sede da instituição em Porto Alegre, reuniu cerca de uma centena de pessoas em torno de uma saborosa mesa de café, seguido de momentos de arte e lazer.
Na parte musical, o Coral Vila Assunção, sob a regência do maestro Vicente Casanova, brindou o público com canções eruditas e populares de seu repertório. Depois de uma descontraída declamação de um poema de humor por Milton Bittencourt e Walmir Schinoff, vários integrantes do grupo do Coral fizeram apresentações musicais individuais.
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Afirmação espírita
José Rodrigues*

Discussões e apreensões sobre o substantivo “espiritismo” e o adjetivo “espírita” têm nos desafiado. É salutar que isso aconteça, como fruto do caráter libertário do espiritismo, em nome do qual há ampla diversidade de entendimento e práticas, por paradoxal, após os avanços conceituais sobre o velho espiritualismo, o mesmerismo, o magnetismo, com diversas denominações, até o novo-espiritualismo. Allan Kardec conseguiu, por um método próprio, construir um conjunto de saberes a que deu o nome de espiritismo e o de espírita, aos seus seguidores.
Essa trademark inscrita por Allan Kardec no mercado de ideias e do conhecimento balizou o nascimento de nova abordagem de um mundo, antes especulativo, impreciso e, não raro, manipulado, para outro, dimensionado, comprovado e sujeito ao método investigativo. No limite da argumentação, trata-se de uma propriedade intelectual da pessoa física nascida Hippollyte Leon, o professor Rivail.
Dentre esses fatos, hoje, pela cor branca de meus cabelos, ofereço aos companheiros, um pouco de história, pois desde os anos de minha juventude dediquei parte substancial de meu tempo à causa espírita, em momentos bem diversos do atual.

Já naquele tempo, pouco depois da metade do século passado, quando era generalizado o conceito de religião, fazíamos série de exceções para “a religião espírita”, que não continha isto e aquilo, para diferençar das demais. Um esforço hercúleo. Era um núcleo coeso, trabalhador e idealista. Nas semanas espíritas, para a sua divulgação, preparavam-se faixas para colocar nos postes e entre árvores da cidade; afixavam-se cartazes, com cola que nós mesmos preparávamos cozinhando farinha de trigo. Escrevíamos notícias para jornais e por ocasião das palestras, vendíamos livros. Acolhíamos oradores em nossas casas, para baratear os custos. Só gente religiosa era capaz disso.

Dentre nossas inconformações, havia, à época, um episódio marcante: a Festa de Iemanjá, promovida pela União Espírita Santista, cuja líder ocupava uma cadeira na câmara municipal. Batemos de frente, várias vezes contra os umbandistas, sob o pretexto de usarem indevidamente o nome espírita. Pagamos matéria em jornal de circulação regional para definir posições e certa vez, em pleno programa de rádio daquele grupo, telefonei à emissora “denunciando” o que seria uma apropriação indébita.

Nos anos 1970 a 1990, realizei, por motivos profissionais, várias viagens a Londres, onde colhi material dos espiritualistas de lá, conheci as “churches” e os ‘mediuns’ britânicos que lidavam com o objeto espírita, a maioria com consultas pré-marcadas e mediante cobrança. Fiz entrevista com um dos líderes intelectuais da época, Maurice Barbanell, editor do Psychic News, publicada no “Espiritismo e Unificação”, então editado pela União Municipal Espírita de Santos. O destaque: a reencarnação era posta em dúvida pelo “espiritismo” inglês. Mostra que o inconformismo de hoje já extrapolava o plano nacional e de longa data.

Em um lance contemporâneo lançam-se no mesmo mercado os termos kardecismo e kardecista, propostos substitutos de espiritismo e espírita. Até então, esses termos poderiam vir como ênfase a uma ideia, encontráveis na literatura do ramo, mas agora se trata mesmo de troca. Espíritas há desconfortáveis ou mesmo envergonhados com o substantivo e o adjetivo criados por Allan Kardec, ante um sem número de distorções, sob esses suportes.

Em tempos recentes, ainda que a conexão espiritismo/religião não seja fácil de ser desfeita, pelos próprios fundamentos post-mortem do estatuto espírita, vive-se, hoje,
o melhor tempo do trato desse conhecimento, particularmente no Brasil, com irradiação para outros países, sob o generalizado conceito de espiritismo laico.
Não dá para enterrar a história e deixar de reconhecer que há importantes etapas vencidas, com diferenciações mais claras em torno do mesmo foco. A liberdade de expressão, ganhos de independência e descomprometimentos com o passado, evidenciam campos distintos entre conservadores e progressistas.

O ‘renascimento’ da CEPA, seguido da criação, por este imenso Brasil, de novas instituições direcionadas ao estudo e à pesquisa espírita, são fatos históricos, altamente positivos, ante poucas décadas atrás. Uma nova literatura, produzida pelos encarnados, afirma posições, em linguagem livre, com aproveitamento dos princípios do espiritismo. São minoria? Sim, mas quais mudanças houve no mundo que não partiram de minorias?
Novas gerações já encontram uma bandeira de pé, a de um espiritismo aberto, contraposto ao igrejismo, ao misticismo e ao sectarismo, desfrutando dos bônus do laicismo, como deve ser uma filosofia de bases científicas.

Um terceiro argumento em prol do novo estágio da ideia espírita é dado pela mídia em geral, com crescente abordagem de temas correlatos, algo que foi censurado, boicotado e proibido, em tempos idos.
Com essa plataforma, analiso o termo espírita, que significa a aceitação do espírito, de sua origem aos seus ilimitados fins. Nada há mais universal que o termo espírito e, por derivações, espiritismo e espírita. Sob uma visão de mercado, tem tudo para fácil aceitação, é um achado genial. O espírito “sopra onde quer”, é real em qualquer quadrante do mundo, como parte da natureza. Na sua essência, partidariamente apolítico, tanto pode renascer em um país democrático, quanto ditatorial; não tem carimbo nacional e tampouco precisa de visto de entrada. O espírito é, e o nome da filosofia científica que trata de sua natureza e relações com o chamado plano físico chama-se espiritismo.

O mestre de Lyon, com toda sua grandeza e sabedoria, abriu mão de substantivar-se para a história, preferindo aceitar as sugestões dos espíritos, a fim de nominar a estrutura nascente.
Detenhamo-nos, além disso, na importância do tempo. As ciências reconhecidas de hoje, várias anteriormente mescladas com outras, levaram séculos para obtenção de seus espaços próprios. Astronomia, física, química, precisaram ultrapassar estágios de crendices, experimentos arriscados, do empirismo, de teorias de curta duração, para obterem reconhecimento da academia. No campo essencialmente teórico, a filosofia, de uma elite de pensadores, engravidada por inúmeras divisões, chegou à praça pública, a ágora, para se tornar, depois, disciplina curricular desde o nível médio escolar. Assim também com a cidadania.

Sob os pontos de vista de civilização e cultura, entendo que temos muito chão a percorrer. Talvez a nossa condição de país emergente, pelo critério econômico,
reflita uma natureza ávida por mudanças, no campo das ideias. Mas, se testarmos o conhecimento do espiritismo, como o concebemos, em relação a culturas, como a européia e a asiática, que antes da chegada de Cabral já eram consideradas antigas, temos resultados pífios.
Sobre este ponto tenho um fato curioso. Refere-se a uma conversa que mantive com jornalista francês, em Londres. Cobríamos um mesmo evento, ele como correspondente de uma agência internacional de notícias. Num intervalo entre as entrevistas perguntei-lhe se, como francês, conhecia ou ouvira falar no nome Allan Kardec. Para meu espanto e até desaponto, respondeu-me que não. Ainda citei o nome do professor Rivail, com o mesmo resultado negativo. E se tratava de um jornalista. Mais recentemente, no Brasil, outro fato chamou-me a atenção, pelo vínculo com propostas de mudanças. Um atleta do Santos Futebol Clube, Adailton, foi objeto de entrevista. Em dezembro de 2008 o site do clube, reproduzido na imprensa, deu breve história do atleta, que nascera com um problema de saúde e fora curado em um centro espírita de Salvador (BA). Parte do texto, sob o título: “Espiritualismo move a fé de Adailton”, dizia: “Desde que obtive essa cura, pratico o kardecismo. Com o passar do tempo, me aprofundei na espiritualidade e fui aprendendo coisas novas. A partir do momento que conheci a umbanda, intensifiquei o estudo dessa religião e me apaixonei. Tenho certeza que tudo provem do divino, inclusive todas as religiões”. Nas fotos que ilustravam a matéria havia capas do “Evangelho segundo o Espiritismo”, do romance “Paulo e Estevão” e do “Código de Umbanda”, de Rubens Saraceni. Observei que o termo kardecismo ganhava em cidadania, mas não-passível de ser deturpado por um senso que poderá ser comum. Nesse ritmo não será surpresa se entidades deste imenso país venham a denominar-se “centro kardecista de umbanda”. Sem donos, chefias ou controles centralizados, como convém a uma filosofia, essas criações têm campo livre para se manifestar, o que não se circunscreve à umbanda.

A contraposição a esse quadro está no desenvolvimento de um espiritismo afirmativo, em ilimitados campos do conhecimento, nos quais a imortalidade e seus contornos entram como diferenciador. Teses acadêmicas recentes estão nesse caminho, ainda que com menor ênfase para o flanco científico. A fase do que “não é” deve ser substituída pela do que “é”, peso que se tira das costas para uma caminhada positiva em direção ao futuro.
Entendo que a denominação espírita kardecista, seria a mais abrangente. O kardecista reafirma uma escola, é mais rígido e definidor do seu conteúdo, mas eis que se institui uma variedade de espiritismo. E aí se colide com a trademark do fundador. Agregue-se outro fator de importância histórica. Continuadores de Kardec, antigos e contemporâneos, os Léon Denis, Delanne, Bozzano, junto a pensadores e idealistas, como Porteiro, Herculano Pires, Deolindo Amorim, que somaram nos termos espírita e espiritismo, estariam com seus fundamentos comprometidos? A partir de qual momento, e com que autoridade, se substituiriam as denominações de origem, por novas?
São algumas contribuições que julgo de interesse a esse debate. Bom é que sigamos com a liberdade de propor nomes, conceitos e métodos, lançando-os no mercado do tempo.

Kardecismo substituindo espiritismo? O mestre de Lyon, com toda sua grandeza e sabedoria, abriu mão de substantivar-se para a história, preferindo aceitar as sugestões dos espíritos, a fim de nominar a estrutura nascente.

*José Rodrigues, economista e jornalista. Coeditor do site Pense-Pensamento Social Espírita (
www.viasantos.com/pense). Preside a Ação de Recuperação Social – ARS e integra o Centro Espírita Allan Kardec, de Santos/SP.
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Opinião do Leitor

Vegetarianismo
Oportuna a matéria sobre vegetarianismo (Opinião, junho). Nos próximos 100 anos pessoas razoavelmente informadas não mais comerão carne. Os espíritas bem que poderiam se antecipar.
Edy S.Roland – São Paulo/SP.