segunda-feira, 7 de março de 2011

Opinião - Ano XVII - n. 183 – Março 2011


Escher: “Ao desenhar, sinto-me como um médium espírita”

Por Eugenio Lara, jornalista e arquiteto, editor do site PENSE - Pensamento Social Espírita [www.viasantos.com/pense]

     Maurits Cornelis Escher (1898-1972), um dos artistas mais instigantes do século 20, agora poderá ser apreciado pelos brasileiros. A mostra "O mundo mágico de Escher”, com 95 gravuras, ficará em cartaz de janeiro a março no Rio de Janeiro e depois seguirá para Brasília e São Paulo, com possibilidade de se estender ao sul do País. Mais conhecido por suas gravuras fantásticas, esse artista holandês nos surpreende quando se trata de lidar com o espaço tridimensional em suporte bidimensional. São imagens que surgem a partir de outras, se reencontram em metamorfoses, em espaços impossíveis, criando paradoxos visuais: a ilusão de ótica como ferramenta de trabalho.
     Aos 21 anos, Escher trocou o estudo da arquitetura pelas artes gráficas. Passou a se interessar pela divisão regular do plano em figuras geométricas e a ilusão de ótica em seus desenhos depois que visitou, em 1922, na região de Alhambra, uma mesquita da cidade de Granada, Espanha. Ele ficou impressionado com os mosaicos decorativos daquele castelo mouro do século 14, com imagens entrelaçadas que se sobrepõem umas às outras, formando padrões geométricos inusitados, singulares. Toda sua obra é marcada pelo uso de formulações visuais e composições surpreendentes, que exploram, de modo similar, os mesmos recursos abstratos dos artistas árabes, proibidos pelo Alcorão de criarem representações gráficas figurativas.
    Apesar de ter sido um péssimo aluno em álgebra e aritmética, nos primeiros anos escolares, em suas gravuras nota-se a presença marcante da matemática, da perspectiva e da geometria descritiva. Vários estudos científicos foram realizados para analisar sua produção artística. De modo intuitivo, Escher concebia sua obra como se estivesse com um teodolito, um astrolábio, uma calculadora à mão: “Nas minhas gravuras eu tento mostrar que vivemos em um mundo belo e ordenado, e não em um caos sem regras. Tenho grande prazer em confundir dimensões, plana e espacial, ignorar a gravidade”.
     Apesar de muitas de suas obras terem sido expostas em museus de ciência ao invés de galerias de arte, Escher não se considerava um artista no sentido convencional, muito menos um matemático: “acabei no domínio da matemática, embora eu não tenha absolutamente nenhuma formação em ciências exatas”. Segundo o gravurista holandês, sua obra o aproxima mais dos matemáticos do que de seus colegas artistas: “apesar de eu achar ‘artista’ um termo bastante embaraçoso, eu sou um artista gráfico, de coração e alma”.
     Poucos sabem que sua gravura mais conhecida, Relatividade (1953), serviu de fonte de inspiração para o design de abertura da novela Top Model, da TV Globo, de 1989. Assim como em algumas cenas da série cinematográfica Harry Potter e do filme Labirinto - A Magia do Tempo. Várias de suas gravuras foram usadas como ilustração no primeiro número do Caderno Cultural Espírita, editado pela Livraria Cultural Espírita, de Santos-SP, em 1987.
       Desde que observava estrelas no céu, quando criança, com o telescópio presenteado pelo pai, Escher passou a compreender intuitivamente a perspectiva de ponto de fuga único, bem como a técnica dos reflexos. Ao longo de sua carreira manteve sempre o interesse pelas formas e alegorias gráficas surreais, pelas composições enigmáticas e insólitas. Certa vez afirmou que se sentia possuído pelas formas que criava: “Ao desenhar, sinto-me como um médium espírita, controlado pelos entes que incorporo. É como se eles próprios decidissem a forma em que desejam aparecer.”

Fonte:
MARTÍ, Silas - Rio recebe gravuras fantásticas de Escher, in Folha de S. Paulo, Ilustrada, de 19/01/2011.
M.C. Escher - The Official Website [http://www.mcescher.com].

   Opressão, Progresso e Espiritualidade
      Todo poder excessivo é destruído pelo seu próprio excesso.
      Casimir Delavigne

          O início do ano foi marcado por uma sequência de revoltas populares, queda de ditaduras e sérios abalos a outros regimes autoritários do mundo árabe. A partir da derrubada de Zine El Abadine Ben Ali, o povo da Tunísia pôs fim a uma ditadura que já completara 23 anos. A mesma sorte teria, logo, o ditador Hosni Mubarak, do Egito, ao ser apeado do poder que detinha havia 30 anos. Seguiram-se levantes populares, com maior ou menor êxito, no Iêmen, Jordânia, Síria, Irã, Bahrein, Líbia, Marrocos e Kuwait.
          Diferentemente do mundo ocidental, cristão, todos esses países têm como religião preponderante, quando não oficial e de culto obrigatório, o islamismo. Politicamente, são regidos por governos fortes, onde são escassos, frágeis, ou mesmo inexistentes, o reconhecimento e a prática das garantias de liberdade constitucionalmente asseguradas nas nações do Ocidente. Agora, como numa onda avassaladora, aquelas populações clamam e lutam por democracia, caminho único à conquista da plena cidadania fundada na liberdade humana.
          É comum entre nós a afirmação de que o Ocidente conquistou o moderno estado de Direito graças à assimilação e ao desenvolvimento das propostas cristãs. Não se pode esquecer, no entanto, que o humanismo e o Iluminismo, movimentos inspiradores da democracia moderna, tiveram justamente no cristianismo real e institucionalizado o grande adversário e opositor das ideias de liberdade. A conquista do estado de Direito foi, a rigor, o resultado de uma dura luta do laicismo e do secularismo contra a religião, marcando o advento da modernidade.
          É muito cedo para se afirmar que os países do bloco árabe/islâmico estejam inaugurando seu Iluminismo. Até porque, entre os opositores das ditaduras agora contestadas, existem segmentos religiosos fundamentalistas que aspiram transformar algumas dessas ditaduras civis ou militares em novas teocracias muçulmanas. De qualquer sorte, o vigor demonstrado e o parcial êxito atingido indicam um movimento, ainda que lento, no caminho da democracia e das liberdades. A busca desses valores, antes de se inspirar em revelações religiosas, nasce da própria condição humana. O espírito, chama divina que alumia a trajetória da consciência rumo à perfeição e à plenitude, é o grande agente das transformações políticas, sociais e éticas. A humanidade, toda ela, em qualquer segmento cultural, étnico ou sistema de crenças, goza, intrinsecamente, do direito à liberdade de pensar, de crer ou descrer, de agir, de escolher seus caminhos, entre erros e acertos que redundarão sempre em ricas experiências.
        A opressão, seja religiosa, seja ideológica, invariável resultado do orgulho e do egoísmo de uns poucos em detrimento de outros, tem sido, na história dos povos, o maior obstáculo ao progresso cultural, social e espiritual do gênero humano. Mas, um dia ela termina. Não resiste à vocação progressista e à força do espírito.
A busca da democracia e das liberdades, antes de se inspirar em revelações religiosas, nasce da própria condição humana.







     Férias (quase) sem internet
          Pelo menos, por dois meses do ano, sou catarinense. Há cerca de 25 anos, em janeiro e fevereiro, me recolho à minha casa de praia em Balneário Gaivota, no Sul de Santa Catarina.  Vai comigo meu laptop que, por lá, só me permite mesmo acessar a internet de forma precária, por linha telefônica. Contento-me em acessar meus e-mails, forma que já está ficando antiga, mas que para mim ainda é o que de mais moderno oferece a tecnologia da comunicação.
          Férias quase sem internet limitam bastante a interface com o mundo globalizado, mas, em compensação, deixam muito mais espaço para a leitura de livros, esse veículo bem mais antigo, que as gerações mais novas vão se desacostumando a manusear. Aliás, até nós, mais vividos, tendemos a reduzir o contato com eles, seduzidos pelas mídias que nos chegam via telas dos celulares, dos computadores, dos tablets e dos iPads.

          Férias com muitos livros
          Levei comigo uma pilha de livros. Resolvi, por exemplo, averiguar porque Augusto Cury tem sido, no Brasil, esse fenômeno que já vendeu mais de 12 milhões de livros. Dele li “O Vendedor de Sonhos”, um romance que, como ficção, exagera numa história destituída de qualquer verossimilhança. Em compensação, trabalha muito bem propostas de vida que quebram com a rotina, com o egocentrismo e com o apego ao material, ao poder e ao consumismo exacerbado de nosso tempo. Também fiz incursões pela física quântica aplicada ao que já se chamou de metafísica. A excelente obra de Amit Goswami, “Deus não está morto”, traça interessantes caminhos para a formulação de um conceito moderno de Deus, da imortalidade do espírito, dos corpos mais ou menos densos de que se serve a consciência, da reencarnação e de outros temas comuns ao espiritismo.
          Ficou na prateleira e volta comigo para a cidade “Eu aos Pedaços”, de um dos melhores cronistas brasileiros, Carlos Heitor Cony, minha próxima leitura.

          Os gêmeos Jesus e Cristo
          Mas de todas minhas leituras de verão, esta me fascinou: “O bom Jesus e o infame Cristo”, do britânico Philip Pullman. Sem conhecer o autor, comprei atraído pelo título. Não me arrependo. Com raro brilhantismo, conta a história de dois gêmeos: Jesus e Cristo. O primeiro é aquele do Sermão da Montanha, o filho do carpinteiro, da vida sem artifícios nem milagres, da sintonia com o belo e o natural. O segundo, bem o segundo é o filho de Deus das religiões cristãs, o que foi concebido sem pecado, o rei dos reis, o fazedor de milagres, o salvador da humanidade, o destinatário das pompas e circunstâncias do cristianismo institucionalizado. Vale a pena. É uma leitura rápida e agradável.

      Chico no Carnaval
          Por conta de minha “alienação internáutica” no período, não me inteirei bem da polêmica sobre uma homenagem que a Escola de Samba Viradouro prestaria a Chico Xavier, no Carnaval carioca, dedicando-lhe um carro alegórico. Sei que o fato gerou frisson entre espíritas mais conservadores. O Carnaval é legítima expressão da cultura popular. Chico popularizou o espiritismo, no Brasil, transformando-o numa religião de massas, a terceira mais importante do país. Sem conhecer o projeto da Viradouro (escrevo antes do Carnaval), não deveria palpitar sobre o assunto. Mas, em princípio, não vejo qualquer desrespeito ao médium e ao espiritismo brasileiro na homenagem.
  

             Adilson Marques no CCEPA

           Em trânsito pela capital gaúcha, o educador Adilson Marques (São Carlos/SP), visitou o Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, na noite de 13 de janeiro último. A convite do Diretor do Depto. Doutrinário do CCEPA, Salomão Benchaya, Adilson, autor de vários livros sobre espiritualismo e doutor em antropologia pela USP, esteve dialogando com integrantes dos grupos de estudos que desenvolviam, durante as férias, um programa especial de estudos, nas noites de quintas-feiras. Abordando o tema “Cultura de Paz e Mediunidade – 10 anos de pesquisa”, Adilson fez interessantes relatos ligados ao “Projeto Homo Spiritualis”, por ele coordenado. Deu especial destaque a uma série de entrevistas por ele realizadas, através de um médium, com suposta entidade espiritual que se apresenta como “Pai Joaquim de Aruanda”, em São Carlos e que resultou em 28 horas de gravação, sendo boa parte do material sobre umbanda, religião medianímica em que os “pretos-velhos” se manifestam.

   Certificado de Reconhecimento para “CCEPA Opinião”
     Recebemos: “Prezado Milton Medran, pela excelência do jornalismo produzido/praticado, segue anexo nosso Certificado de Reconhecimento 2010 para você emoldurar e pôr na parede da Redação do conceituado mensário espírita gaúcho.
 Paz, saúde e prosperidade espiritual para todos nós em 2011!
Carlos Antonio de Barros – Jornalista – FENAJ 1938 – ANESPB Press – Agência de Notícias Espíritas da Paraíba.”

         
     CCEPA/Novo Horizonte construindo o intercâmbio
          A mais antiga casa espírita de Capão da Canoa, Litoral gaúcho, a Sociedade Espírita Novo Horizonte, no balneário de Capão Novo, realizou, durante o verão 2011, programação especial, que contou com destacada participação do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre. No dia 17 de janeiro, realizou-se uma mesa redonda com dirigentes e trabalhadores de ambas as instituições sobre temas relevantes do espiritismo e do movimento espírita. Seguiu-se uma palestra pública do ex-presidente do CCEPA, Donarson Floriano Machado, sobre Leis Morais, numa visão espírita. Em 15 de janeiro, foi palestrante Salomão Jacob Benchaya, dirigente do CCEPA, abordando o tema “Alteridade”.
          A S.E.Novo Horizonte, em período de veraneio, recebe a visita de espíritas de diferentes cidades do Rio Grande do Sul e de outras regiões que gozam férias no Litoral gaúcho. Em sua programação deste verão, foram, também, palestrantes os oradores Moacir Costa de Araújo Lima e Cristian Macedo.
Na foto iIntegrantes do CCEPA em sua visita à S.E.Novo Horizonte, de Capão Novo.

   

    
   
   Falemos sobre   
   Espiritismo e  Mediunidade
Hermas Culzoni (foto) foi presidente da Confederação Espírita Pan-Americana, por um longo período (de 1975 a 1990). Residente na cidade de Rafaela, Província de Santa Fé, Argentina, colaborou ativamente com a Sociedad Espiritismo Verdadero, durante praticamente toda sua vida. Aos primeiros dias do último mês de janeiro, aos 86 anos de idade, sofreu um infarto do qual resultaria sua desencarnação, em 27.2.2011. Poucos dias antes, enviara à redação deste jornal, o artigo que a seguir publicamos, com tradução de nosso editor Milton Medran Moreira. Um lindo depoimento sobre suas experiências espíritas, especialmente no campo da mediunidade.

          Espiritismo e Mediunidade são dois temas que estão perfeitamente identificados e unidos por uma realidade da prática natural.
          O Espiritismo, criado por Kardec, é conhecido na humanidade. Alguns consideram-no uma nova religião. Outros uma filosofia. E há aqueles que o têm como uma ciência. Tudo isso é de relativa importância. Para o autor deste artigo não existe a menor dúvida da realidade do mundo espiritual e sua permanente inteiração com o mundo corporal.
          Já há 70 anos, de forma ininterrupta, venho assistindo  a sessões mediúnicas de intercâmbio com uma grande variedade de espíritos de diferentes ordens morais e intelectuais, em uma instituição espírita fundada no ano de 1928. Além disso, durante o exercício da presidência da CEPA, de 1975 a 1990, tive oportunidade de visitar quase todos os países da América, assistindo a muitas sessões mediúnicas, com uma diversidade de médiuns de diferentes culturas, como são os povos da América.
          Pude, assim, compreender que o Espiritismo como doutrina não é praticado como o aconselham os espíritos nos livros de Allan Kardec. Também o exercício da mediunidade não é feito com a disciplina, a delicadeza e a dedicação recomendadas por Kardec.
          Apesar disso, os espíritos seguem se comunicando no uso de seu livre arbítrio e da lei de afinidade moral e intelectual com os diferentes médiuns, em cumprimento à lei universal de progresso da qual também a codificação de Allan Kardec é uma manifestação.
          A qualidade das comunicações dos espíritos nessas sessões é variada. Muitas delas deixam a desejar no que se refere ao aporte de novas idéias. Às vezes, em razão da falta de conhecimento dos médiuns, Em outras ocasiões, por carência das pessoas que os acompanham e dirigem. Não obstante, se observarmos com atenção as manifestações, teremos a certeza de que SÃO ESPÍRITOS.
          Também assisti durante muitos anos a sessões mediúnicas organizadas a partir de critérios de moral e intelectualidade e fundamentadas na recomendação do Espírito da Verdade no livro “O Evangelho Segundo o Espiritismo” de Allan Kardec: “Espíritas, amai-vos, este é o primeiro ensinamento. Instrui-vos, este é o segundo.
          Tais comunicações têm uma profundidade que as destaca do resto por sua qualidade e pelo aporte de conhecimento e são as que recomendo.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Opinião - Ano XVII - n. 182 – Jan/Fev 2011

Jaci Regis 1932/2010

Depois dele, o espiritismo
nunca mais será o mesmo

Alguns dados biográficos
Em 13.12.2010, aos 78 anos de idade, desencarnou, na cidade de Santos/SP, Jaci Regis, um dos mais fecundos e polêmicos pensadores da história do espiritismo no Brasil e no mundo.
Alguns dados biográficos
Nascido em Florianópolis, SC, em 30/10/1932, Jaci Regis viveu na cidade de Santos/SP, desde 1947. Economista, jornalista e psicólogo, trabalhou por 30 anos, até aposentar-se, na Petrobrás. No movimento espírita, desde a década de 40, integrou-se ao segmento jovem, liderando a Mocidade Espírita Estudantes da Verdade – MEEV - ainda hoje existente - do Centro Espírita Allan Kardec (CEAK), de Santos.
Aliando, com igual denodo e combatividade, sua condição de pensador e estudioso do espiritismo com a de batalhador das causas sociais, assumiu, ainda na década de 60, a direção da Comunidade Assistencial Espírita Lar Veneranda, modelar instituição que atende crianças e mães e que foi por ele presidida por 32 anos.
Jaci Regis foi um dos fundadores da União Municipal Espírita de Santos e, nessa condição, dirigiu, por 23 anos, o jornal “Espiritismo e Unificação”. Na década de 80, liderou históricas divergências com o segmento evangélico do espiritismo e intensificou seu trabalho em prol do que chamou de “espiritização”, em confronto com o que o movimento espírita habitualmente denomina de “evangelização”. O jornal “Abertura”, por ele fundado em 1987 e do qual foi diretor e editor até seu falecimento, tornou-se o mais importante porta-voz do segmento livre-pensador, progressista e não-religioso do espiritismo. Criou, em 1989, o Simpósio Nacional do Pensamento Espírita, depois chamado de Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita, realizado de dois em dois anos. Em 1999 funda o ICKS-Instituto Cultural Kardecista de Santos."
  Escritor fecundo, publicou dezenas de obras, entre as quais “Amor, Casamento e Família”, “A Mulher na Dimensão Espírita”, “Uma Nova Visão de Homem e de Mundo” e “Introdução à Doutrina Kardecista”.
Casado com Palmyra Regis, havia mais de 50 anos, deixou 6 filhos, muitos netos e uma bisneta. A maioria de seus familiares está intimamente vinculada ao espiritismo, seguindo-lhe as ideias e contribuindo com suas iniciativas.

Uma personalidade marcante
Em biografia publicada no site “Espiritnet”, há alguns anos, Ademar Arthur Chioro dos Reis, vice-presidente da CEPA, qualifica-o como “uma das personalidades mais marcantes do Espiritismo, um homem que conseguiu questionar e abalar as estruturas do movimento espírita oficial, introduzindo a crítica fundamentada numa obra profunda, contundente, consistente, contra-hegemônica e, portanto, profundamente polêmica”.
Na página final deste periódico, publicamos os trechos principais do último discurso por ele pronunciado em evento da CEPABrasil, em Bento Gonçalves/RS. Ali, Jaci sintetiza o pensamento que sustentou nos últimos anos de sua vida: a necessidade de desvincular o espiritismo das estruturas cristãs, dando lugar ao “Espiritismo pós-cristão” que inaugura a “Ciência da Alma”.
 







O Paradoxo Jaci
A frase que dá título à reportagem ao lado foi tomada de empréstimo de artigo escrito por Eugenio Lara, logo após o desencarne de Jaci Regis e publicado no site www.viasantos.com/pense. Não é nenhum exagero dizer-se que o espiritismo, depois de Jaci, nunca mais será o mesmo. Ainda que jamais citado pelos amplos setores evangélicos do espiritismo hegemônico, de onde sua palavra, seus livros e seus pensamentos foram banidos, Jaci é o grande artífice do maior processo de renovação do espiritismo brasileiro.
Há algo de paradoxal no fenômeno Jaci Regis: embora seu discurso e sua atuação sejam genuinamente espíritas, sua vida e sua obra foram marcadas pela incompreensão no meio espírita. Depois de décadas buscando a renovação e o progresso das ideias, características por ele tidas como essenciais ao espiritismo, Jaci encerrou sua trajetória propondo a estruturação de novo movimento. Neste, por sua proposição inicial, o próprio termo “espiritismo” seria substituído por “doutrina kardecista”. Ultimamente, propunha um “espiritismo pós-cristão” voltado, precipuamente, à comprovação da imortalidade do espírito, inaugurando a Ciência da Alma.
Mesmo que nem todos aceitemos o caminho da ruptura radical e do recomeço, é inegável que o “espiritismo real”, antes disso, rompeu com as propostas originais de Kardec. Jaci nunca se conformou com isso e nos deixa uma inquietante pergunta: ainda é possível mudar ou será mesmo necessário recomeçar?
(A Redação)

 







O combate à corrupção
“Não haverá compromisso com o desvio e o malfeito.”
Dilma Rousseff – Presidenta do Brasil

A imprensa destacou aspectos importantes do discurso de posse da nova presidenta. Determinada e esperançosa, ela reafirmou metas que buscam consolidar o trabalho de seu antecessor: o combate à pobreza, o desenvolvimento econômico e social, o respeito às liberdades e à democracia. Mas, igual destaque talvez não tenha sido dado a um compromisso fundamental para o atual estágio vivido pela Nação: o combate corajoso e implacável à corrupção. E, no entanto, Dilma, na foto, verbalizou-o com lágrimas nos olhos, o que sugere provenha da alma, antes de cingir-se a meras e protocolares palavras.
Mesmo tendo deixado o poder ostentando o singular índice de aprovação da ordem de 87%, o Governo Lula, entre tantos, significativos e reconhecidos, avanços, não se mostrou suficientemente capaz de um combate efetivo a essa chaga que sangra e envergonha o país. Ao declarar-se “rígida na defesa do interesse público” e ao prometer que “a corrupção será combatida permanentemente”, garantindo seu respaldo pessoal para que os órgãos de controle e investigação atuem “com firmeza e determinação”, Dilma Rousseff foi ao encontro de um dos mais caros anseios da população brasileira. A corrupção tem sido apontada, em importantes pesquisas de opinião pública, como um dos grandes problemas brasileiros.
Os chamados “valores republicanos”, síntese da moderna eclosão de inconformidade e insubmissão ao Absolutismo, não podem, jamais prescindir da mais acendrada ética no trato da coisa pública. Não há verdadeiro progresso onde não reinem, soberanas, as leis da Justiça e da Ética.
É certo que nem tudo pode o governo. A corrupção é mal da alma, é desvio do espírito apegado ao materialismo. Mas, também é carência de educação e é leniência na investigação e na aplicação estatal da justiça. Aí a responsabilidade governamental. Responsabilidade que a nova presidenta assumiu, respaldada pelo voto da maioria e pela esperança de todos os brasileiros.
Não há verdadeiro progresso onde não reinem, soberanas, as leis da Justiça e da Étic









Ateus saindo do armário
Há uns 20 anos, visitei uma praia chamada Venice, na Califórnia. Havia ali uma série de barraquinhas, abrigando ativistas, crentes e propagandistas das mais diferentes causas. Via-se um pouco de tudo: gente fazendo campanhas ecológicas, religiosos pregando a Bíblia, ciganas lendo mãos e videntes prevendo o futuro. Foi ali, também, que, pela primeira vez, vi um movimento organizado de ateus com cartazes reivindicando respeito às suas ideias e distribuindo panfletos a quem passasse. Os ateus, num país onde o fundamentalismo cristão tem, ainda hoje, um peso significativo, começavam, ali, a “sair do armário”. Protestavam contra as impregnações teístas da sociedade organizada e reivindicavam, mais do que um Estado laico, um Estado ateu.
Só agora parece que esse mesmo movimento começa a ter presença mais atuante no Brasil, especialmente depois que o apresentador Datena, da TV Bandeirantes, foi processado por ter vinculado o ateísmo ao banditismo, à criminalidade.

O Deus das religiões
Na verdade, começa a ser moda dizer-se ateu. Artistas, escritores, cronistas, intelectuais, especialmente depois de alguns best-sellers sobre ateísmo, encorajam-se a proclamar sua não-crença numa divindade. Mas, invariavelmente, quando se referem a Deus o fazem a partir dos conceitos de divindade criados pelas religiões. O deus pessoal judaico-cristão, o deus criador de todas as coisas, que fez tudo do nada, é, de fato, totalmente incompatível com a ciência moderna e com o senso comum das pessoas medianamente informadas. Definitivamente, não há lugar para ele na cultura da modernidade e da contemporaneidade.

Conceito espírita de Deus
O espiritismo propõe um conceito de Deus que vai muito além daquele criado pelas religiões. Ao dizer que “Deus é a inteligência suprema e a causa primeira de todas as coisas”, o espiritismo desantropomorfiza-o e o apresenta como a grande Consciência Universal. Esse conceito é compatível com as tendências da ciência moderna. Amit Goswami, um dos mais proeminentes físicos da atualidade, no seu livro “O Universo Autoconsciente”, sustenta que o universo seria matematicamente inconsistente sem a presença de uma inteligência superior. Ele prognostica que, neste século, Deus deixará de ser um tema das religiões para tornar-se uma questão das ciências.

Espírito e Consciência
Não faz sentido reduzir Deus a uma crença. Ele não é uma questão de fé. Também não é a questão central do espiritismo, embora este se constitua numa filosofia deísta. A grande questão do espiritismo é o ESPÍRITO. Por isso mesmo, Jaci Regis desencarnou propondo que o espiritismo se tornasse a verdadeira “ciência da alma”.
 O dia que dispusermos de um sólido conjunto comprobatório da realidade do espírito, de sua sobrevivência após a morte e de sua essencialidade como consciência humana, estaremos abrindo caminho para a compreensão de consciências sobre-humanas e, daí, a uma Consciência Universal, acima da qual não se possa conceber qualquer outra inteligência.  







 O último discurso
Em setembro de 2010, três meses antes de desencarnar, Jaci Regis compareceu como painelista ao II Encontro Nacional da CEPABrasil, em Bento Gonçalves/RS. Diferentemente do que costumava fazer, leu um discurso previamente escrito. Sua proposta: levar o espiritismo para uma nova fase, a do “Espiritismo pós-cristão”, consubstanciada na “Ciência da Alma”. A seguir, trechos do histórico pronunciamento de Jaci.

Sobre o Espiritismo Cristão
“A trajetória de Kardec é sinuosa. Queria que o Espiritismo fosse uma ciência. Mas criou uma religião, sem querer que fosse religião. Na verdade, agiu como equilibrista da razão e da fé. Todavia, aceitou que o motivo central do Espiritismo era restaurar o cristianismo e implantar no mundo o Reino de Deus, utopia evangélica que está na base das aspirações místicas e irreais da humanidade ocidental, cristã.
Isso levou à afirmação do Espiritismo como o Consolador Prometido. Representava também tacitamente a certeza de que Jesus Cristo era a verdade e toda a verdade teria vertido pela sua boca. Esse Consolador simbolizaria a vinda do Senhor ao mundo, completaria todas as verdades e ficaria conosco para sempre. Era a expressão da ilusão de que, brevemente, por obra divina, haveria modificações espetaculares na face da Terra”.

Espiritismo pós-cristão
“A única saída para que o Espiritismo alcance sua originalidade e ofereça uma contribuição genuína para a sociedade é escoimá-lo do enfoque teológico da Igreja. Isto é, ser um Espiritismo pós-cristão. Esse Espiritismo pós-cristão não apenas abandonará a retórica e a teologia católica, como se organizará sugestivamente como uma ciência humana”.

A Ciência da Alma
"O Espiritismo pós-cristão se estruturará como a Ciência da Alma, à maneira de uma ciência humana, especifica e 'sui generis'.
Como Ciência da Alma, o Espiritismo abandona a ilusão de ser uma revelação divina, para ombrear-se, de forma muito especial, com o esforço das ciências humanas que surgiram para entender o ser humano, suas limitações, problemas e futuro, fora dos limites das ciências duras, físicas. Isto é, uma ciência humana cujo objeto é explicar o ser humano como uma alma, sua estrutura, sua atuação e sua evolução. Com isso, pode desenvolver um espírito crítico e explorar a realidade essencial do ser humano dentro da lei natural, da naturalidade dos processos evolutivos, através da reencarnação”.

Estrutura e organização da Ciência da Alma
“Como Ciência da Alma, o Espiritismo abandona sua pretensão autárquica de abranger todos os problemas da humanidade, mas apóia-se nos esforços das demais ciências humanas que compõem o leque das realidades e comportamentos das pessoas.
O objetivo maior será introduzir na cultura o sentido sério, basicamente defensável aos postulados puros do Espiritismo.
Terá que dispor de recursos e meios para provar, insofismavelmente, a imortalidade. O que implicará na renovação do exercício e objetivos da mediunidade, superando a fase meramente moralista e religiosa em que se situa atualmente.
Só a prova da imortalidade será a base de renovação social, humana e do pensamento humano e sustentará as teses da reencarnação e da evolução do Espírito. Numa estrutura compatível com a evolução do conhecimento humano. Como Ciência da Alma, introduzirá a noção de espiritualidade como uma busca natural, imprescindível para o equilíbrio pessoal e social, propondo positivamente o desenvolvimento ético na sociedade em mudança que vivemos”

A Ciência da Alma será kardecista
"Muitos podem questionar se num Espiritismo pós-cristão a estruturação da Ciência da Alma pode ser kardecista, dada a crítica e a reelaboração que se faz necessária do trabalho de Allan Kardec, conforme temos provado.
É kardecista na medida em que se apoiará nos alicerces básicos, puros, do pensamento doutrinário, desprezando os acessórios das interpretações e extensões contextualizadas no inicio e do tempo decorrente. O caráter da Ciência da Alma, como qualquer ciência humana será essencialmente progressivo, jamais se imobilizando no presente, apoiada somente no que for provado. Assimilará as idéias reconhecidamente justas, de qualquer ordem que seja, físicas ou metafísicas. Pois não quer ser jamais ultrapassada, constituindo isso uma das principais garantias de credibilidade”.

A íntegra do discurso de Jaci Regis no Encontro de Bento Gonçalves pode ser lida no site:
http://www.viasantos.com/pense/arquivo/1304.html   VEJA LINK NA COLUNA DA DIREITA






CCEPA confraterniza
A noite de 4 de dezembro de 2010 foi de confraternização no Centro Cultural Espírita de Porto Alegre. Sob a coordenação da Diretora do Departamento Social, Sílvia Pinto Moreira, dirigentes, colaboradores, associados do CCEPA e seus familiares reuniram-se em jantar de fim-de-ano. Foram momentos de agradecimento e de renovação de propósitos de convivência, trabalho e ação em prol dos ideais espíritas que nos unem.


CCEPA Opinião na Internet
A edição de nº 181, de dez/2010 do jornal CCEPA-OPINIÃO foi enviado, na versão PDF, a cerca de 7.000 endereços de nosso "mailing list". Isso possibilitou ao destinatário ler, quase que instantaneamente, as páginas do OPINIÃO, arquivar as matérias de seu interesse e, ainda, repassá-lo aos amigos, ampliando, assim, a massa de leitores. Os mesmos destinatários, a partir desta edição, estarão recebendo mensagem eletrônica com link que os levará ao acesso imediato de nosso periódico. Também o link do boletim encartado América Espírita, que contém matérias alusivas à CEPA e à CEPABrasil passará a ser enviado. Alguns destinatários, que não conheciam nossas publicações estão solicitando assinatura da versão impressa. A eles nossos agradecimentos por contribuírem materialmente com o prosseguimento deste projeto
No trabalho de difusão de Opinião/América Espírita via Internet estão atuando nossos companheiros Maurice H. Jones, como "web designer" e Salomão J. Benchaya na transmissão via Internet.

Intercâmbio CCEPA/Novo Horizonte
Companheiros da Sociedade Espírita Novo Horizonte, de Capão Novo, no Litoral gaúcho, estão iniciando um intercâmbio de ideias com os integrantes do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre.
No último dia 6 de dezembro, dirigentes da Novo Horizonte prestigiaram a conferência pronunciada no CCEPA pelo Professor Moacir Costa de Araújo Lima. Na ocasião, ficaram acertadas duas palestras a serem proferidas em Capão Novo por integrantes do CCEPA: dia 17 de janeiro, o palestrante será Donarson Floriano Machado, e, em fevereiro, dia 15, a palestra estará a cargo de Salomão Jacob Benchaya. Uma caravana de colaboradores do CCEPA acompanhará os conferencistas para realizarem uma mesa redonda com trabalhadores da entidade anfitriã.
 Na foto, dirigentes da S.E.Novo Horizonte, na palestra do Prof.Moacir, no CCEPA.








CCEPA Opinião eletrônico (1)
Muita paz!
Obrigada pelo envio do jornal. Vamos lê-lo com carinho, depois mandamos as nossas apreciações.  Não deixe de nos remeter bons materiais. Somos aqui de Uberaba e trabalhamos com a divulgação do Espiritismo. Continue com esse trabalho, pois é ele que alavanca os demais. Abraços,
Jane  (Editora Espírita Paulo e Estevão – Uberaba/MG)

CCEPA Opinião eletrônico (2)
Caros irmãos!! Faço parte da FERGS, e não gostaria de receber o jornal, nem online. Estudo o Espiritismo pelos polígrafos da FEB, e acho que já é o suficiente. Obrigada pela lembrança.
Nani Klepker - RS.

CCEPA Opinião impresso (1)
Agradeço a cortesia/remessa de OPINIÃO (um dos melhores jornais impressos deste país que ainda não abriu os olhos para o Espiritismo).
O eletrônico ficou "atrativo". Vai levar muita gente a querer conhecê-lo no formato impresso.
E como sempre fiz, vou continuar divulgando-o em nosso PENSADOR.
Fraternal abraço,
Carlos Barros , ANESPB Press/Pensador – João Pessoa/PB.

CCEPA Opinião impresso (2)
Queridos amigos, um forte abraço a todos. Saudades dos amigos aí da linda Porto Alegre! Parabéns pela iniciativa eletrônica do jornal. Favor informar o número da conta para o depósito, pois desejo também receber o jornal de forma impressa.
Milton Medran, meus cumpimentos pelo excelente trabalho que realizou na presidência da CEPA.
Desejo divulgar mais o jornal CCEPA-OPINIÃO em alguns grupos do Estado de São Paulo (de melhor nível cultural). Para tanto, necessito de alguns  exemplares a mais. Podem enviar-me?
Feliz 2011 para todos  os companheiros espíritas das Américas! Sigamos em frente no grandioso ideal da Confederação Pan-Americana de propor o estudo e a vivência do Espiritismo  de acordo com Allan Kardec.
 Saudações pan-americanas!
Milton Felipeli (manhã de sol, aqui nas terras de Piratininga)

        

terça-feira, 30 de novembro de 2010

OPINIÃO – ANO XVII – N.181- DEZEMBRO 2010.

Jesus Cristo
e Jesus de Nazaré
 Cristãos do mundo inteiro comemoram, nesta época, o nascimento de Jesus Cristo, personagem que pouco se identifica com a figura humana e histórica de Jesus de Nazaré

A fé que une os cristãos
Em sua festejada obra “Revisão do Cristianismo”, J. Herculano Pires sustenta a existência de um “abismo entre Jesus de Nazaré, filho de José e Maria, nascido em Nazaré, na Galileia, e Jesus Cristo, nascido da Constelação da Virgem na Cidade do Rei Davi, em Belém da Judeia, segundo o mito hebraico do Messias”.
O cristianismo, cujas comemorações mais importantes são o Natal (nascimento) e a Páscoa (ressureição), tem toda sua dogmática fundada no “Mito Jesus Cristo”, segunda pessoa da Santíssima Trindade, Deus feito homem para salvar a humanidade do pecado original, cometido por Adão e Eva ao desobedecerem as ordens de Jeová, no Paraíso. É, pois, a crença na figura emblemática do “messias”, “salvador”, “redentor” da humanidade que identifica e une todas as organizações cristãs do Oriente e do Ocidente, fazendo do cristianismo, ao lado do judaísmo e do islamismo, uma das três grandes religiões monoteístas do planeta. Pela fé cristã, o Deus único desdobra-se em três pessoas: o Pai, o Filho (Jesus Cristo) e o Espírito Santo.

Crenças e igrejas – o fator de desunião
Mesmo preservando, ao longo de 2.000 anos, a fé fundamental na divindade de Jesus Cristo, Deus que encarna, morre e ressuscita para salvar a humanidade, o cristianismo, ao curso da história, fragmenta-se em um sem número de segmentações. Até o Século XI, a Igreja Católica Apostólica Romana reinou soberana sobre todos os cristãos. Foi quando ocorreu o 1° grande cisma, dando origem à Igreja Cristã Ortodoxa do Oriente, hoje com duas vertentes: a grega e a russa. Com Martinho Lutero, no Século XVI, a Igreja Católica sofre seu 2° grande cisma. A chamada Reforma Protestante abre caminho para um número ilimitado de igrejas que, hoje, se espalham pelo mundo todo. No ano de 2001, a World Christian Encyclopedia, publicação da Oxford University Press, Inc. (Nova York) registrava a existência de 33.830 denominações cristãs. Nos últimos anos, especialmente na América Latina, a expansão do pentecostalismo e do neopentecostalismo tem propiciado a criação de centenas de pequenas e grandes igrejas cristãs, com liturgias, ordenamentos e crenças diferentes, embora com um elo comum: a fé no que Herculano denominou de Cristo Mitológico, figura que não se confunde, segundo advertiu em sua obra, com o personagem histórico Jesus de Nazaré. Hoje podem girar em torno de 50.000 as denominações cristãs no mundo todo.
O Espírito de Jesus
Na obra onde estabelece com nitidez a distinção entre Jesus de Nazaré e Jesus Cristo, Herculano Pires assinala também: “A Civilização Cristã, nascida em sangue e em sangue alimentada, não possui o Espírito de Jesus”, mas apenas “o corpo mitológico do Cristo, morto e exangue”.
Antes dele, no Século XIX, Allan Kardec, embora não objetivando a criação de mais uma religião cristã, incursionara pelo resgate do que Herculano denominaria “o Espírito de Jesus”. Para que isso fosse possível, advertiu Kardec, necessitaríamos abstrair tudo o que as religiões cristãs consagraram como sendo verdades inquestionáveis acerca da vida material, dos dogmas, assim como dos milagres e profecias a Jesus Cristo atribuídas. E que dos evangelhos dos cristãos ficássemos apenas com o ensino moral de Jesus (Introdução de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”). Kardec sabia ser essa a única forma de superar o mito e resgatar o espírito.
Amplos setores do movimento espírita mundial ainda não atentaram para o significado da advertência kardeciana. Por isso, insistem em manter o espiritismo como mais uma entre as milhares de religiões cristãs. Com efeito, muitos centros espíritas se parecem mais com templos do que com núcleos de estudo, conhecimento e aprimoramento intelecto-moral, objetivo central do espiritismo. Suas práticas pouco diferem dos ritos, das liturgias de curas, cânticos, rezas, pregações e louvações que caracterizam as igrejas. O cenário preserva e nutre velhos clichês mentais trazidos de encarnações passadas. Sobre Jesus, por exemplo, com facilidade, o espírita cristão seguirá vendo-o como o messias, o “cristo”, miraculosamente concebido pelo Espírito Santo, nascido de uma virgem, na manjedoura, crucificado e morto para resgatar nossos pecados.
E, no entanto, é tempo de vê-lo como o homem, o espírito lúcido que aqui, um dia, encarnou para iluminar consciências, semear, cultivar, vivenciar e impulsionar a grande mensagem do amor universal. (A Redação)
Mensagem do Presidente 
Final de Ano
Todas estas mudanças (...) não são frutos apressados, mas constituem-se no resultado de incessantes permutas elaboradas e desenvolvidas, nos dois planos da vida, entre aqueles que mais se preocupam e se dedicam à casa. (Mensagem do espírito Joaquim Cacique de Barros, ditado à médium Elba Jones, no CCEPA, em 05.04.1986)

Chegamos ao final de 2010, e embora isso represente apenas uma virada no calendário, visto que a vida e as coisas continuarão naturalmente seu curso, cabe uma palavra de avaliação do que a nossa instituição viveu neste ano que finda e uma rápida projeção para o novo ano.
O Centro Cultural Espírita de Porto Alegre deu prosseguimento ao seu propósito de congregar pessoas dispostas a conhecer o Espiritismo ou a aprofundar seus conhecimentos através do estudo, do debate, da reflexão, dentro do grupo de estudos e nos eventos e reuniões envolvendo todos os trabalhadores da casa, compartilhando experiências. É de salientar, neste ponto, a promoção de encontros periódicos intergrupos (reunindo os grupos noturnos, às quintas-feiras, e os grupos diurnos, às quartas-feiras). E também a realização de seminários mensais, igualmente integrando os grupos, oportunidade em que se escolhia previamente um tema para debate. Esta dinâmica revelou-se eficiente e satisfatória para o fim objetivado.
Merece especial menção a efetivação do II Encontro Nacional da CEPA-Brasil, em Bento Gonçalves, de 03 a 06 de setembro. O CCEPA aceitou o convite da CEPA-Brasil e assumiu a execução deste grande e significativo evento, que reuniu espíritas deste e de outros Estados, contando ainda com a presença de companheiros da Argentina. A tarefa exigiu, mais uma vez, esforço e doação por parte da Comissão Organizadora composta por companheiros do CCEPA, com a decisiva colaboração do Lar da Caridade, da cidade anfitriã. E o resultado foi sucesso total.

Certamente, impulsionados pela nossa união e pelo nosso entusiasmo para o estudo e para a vivência da filosofia espírita, persistiremos neste propósito, esperando que 2011 nos propicie felizes realizações. 
Rui Paulo Nazário de Oliveira, Presidente do CCEPA. 

 Em João Pessoa 
No IV Fórum do Livre Pensar Espírita (João Pessoa 12 a 14/11/10), dei depoimento fazendo esta reflexão: minha geração e eu, no meio espírita, tivemos o privilégio de vivenciar importantes mudanças que começam a produzir frutos maduros. Metaforicamente falando, pode-se dizer que assistimos ao processo de transição da modernidade para a pós-modernidade espírita. Integrantes de um movimento bem comportado, disciplinado, que tinha, até a década de 80 do século passado, a unificação como valor primordial, desencadearam, em seu próprio meio, uma importante revolução de ideias cujos resultados agora se fazem sentir mais concretamente.
 Sempre que nos permitimos pensar livremente, dentro de um grupo, contribuímos para a eclosão de um processo de fragmentação e de segmentação, características próprias da pós-modernidade. É natural que isso gere intranquilidade, no meio onde esse processo acontece. Não há progresso sem transgressão. 
  Os movimentos hegemônicos
  As religiões têm horror a esse processo. As ditaduras e todos os movimentos hegemônicos também. Entre nós, o processo de arejamento é, comumente, visto como artimanha “das trevas”. Muito se disse e ainda se diz, no meio espírita brasileiro, que o grupo laico ou livre-pensador são os “inimigos internos” do espiritismo.
 Pensar e fazer pensar gera desacomodação. Ser livre não é tão fácil assim. A maioria de nós chegou ao espiritismo proveniente de estruturas religiosas marcadamente dogmáticas e autoritárias. Apenas trocamos de religião, reproduzindo velhos modelos. Trocar de religião é relativamente fácil. Substituímos a “igreja” ou a “instituição” à qual devíamos prestar obediência por outras estruturas hegemônicas. Se, de repente, nos pomos ou somos postos fora delas experimentamos uma sensação inicial de solidão e isolamento. O sistema passa a nos ver como na irregularidade, na ilegitimidade, na “heresia”. Se sua casa espírita não é “federada” não é “espírita”. “Cuidado com ela!”, dirão alguns
  A união dos espíritas
  De que forma se poderá manter uma estrutura organizacional fiel à proposta espírita e capaz de, efetivamente, unir os espíritas? Reconhecendo-lhes o direito de pensar livremente, tendo por base os princípios basilares do espiritismo. Facultando-lhes a livre associação a quantas entidades desejarem. Renunciando ao princípio da autoridade de orientar o movimento, substituindo-o pelo estímulo ao debate e à construção plural de ideias. Não importa que divirjamos sobre questões adjetivas ou procedimentais, desde que estejamos de acordo nas questões substantivas chamadas por Kardec de “credo espírita”, o “laço” que nos deve unir.
Os últimos eventos promovidos pela CEPABrasil, em Bento Gonçalves e em João Pessoa, provaram que, mesmo divergindo, se formos capazes de nos reconhecer mutuamente como titulares dessas prerrogativas, nos unimos mais. E passamos, também, a nos amar muito mais.
     O futuro do espiritismo  
  Às vésperas de completar 70 anos de vida, 30 dos quais dedicados prioritariamente à difusão e à vivência das ideias espíritas, saúdo o advento dessa fase pós-moderna do espiritismo que começa a se esboçar. Isso poderá levar a uma certa desinstitucionalização. Ao reencontrar-se com o livre-pensamento, onde Allan Kardec, claramente, quis inseri-lo, o espiritismo vai ao encontro de todas as ideias generosas que o moderno humanismo plasmou e sustenta. Referi isso, em meu depoimento em João Pessoa.
 Quando – e esse deve ser o objetivo de todos os espíritas – conseguirmos a plena simbiose entre espiritualismo e humanismo, talvez nem haja mais espaço para um movimento espírita ou, mesmo, para centros espíritas, nos moldes hoje existentes. Muitos poderão interpretar isso como a derrocada do espiritismo. E, no entanto, aí mesmo é que se terá atingido o que Léon Denis chamou de “o reinado do espírito”.


Jesus para o Espiritismo
          Marcelo Henrique, articulista e dirigente espírita, mestre em Direito,            Delegado da CEPA em São José, SC.

Toda tentativa de analisar o personagem Jesus sob a ótica espírita principia pelo questionamento de Kardec aos Espíritos, aposto no item 625, de O livro dos espíritos, sobre o modelo ou guia para a Humanidade planetária. A resposta, na competente tradução do Professor Herculano Pires é "Vede Jesus". Obviamente, não estamos falando de Jesus Cristo, o mito inventado pela religião cristã oficial (Catolicismo) e reproduzido por todas as que lhe sucederam no tempo, um ser meio homem meio divino, filho único (?) de Deus ou integrante do dogma da Santíssima Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo), como apregoam as liturgias.
Falamos do homem, cujos registros físicos (históricos) são mínimos, mas que teria vivido há pouco mais de dois mil anos, no Oriente Médio, dono de uma filosofia de vida própria e que marcou a história humana ao ponto de dividi-la entre antes e depois de sua passagem. Jesus de Nazaré, este o seu nome. Mas é este o Jesus apresentado nas instituições espíritas? É este o Jesus referenciado nas obras pós-kardecianas, sobretudo aquelas de origem mediúnica? Cremos que não! Há uma diferença muito grande entre a realidade e a imagem que foi construída - muito fortemente em função da influência das religiões sobre o arquétipo coletivo.
Alguns dos problemas mais graves na abordagem "espírita" de Jesus já principiam pela gravidez de Maria (dita Santíssima pela tradição religiosa e, portanto, submetida a uma gestação sem ato sexual, sob a interferência do Espírito Santo), o que levou à consideração de que o carpinteiro seria um agênere, posto que detentor de um corpo não-físico, mas fluídico, porquanto não teria ele suportado as dores e lacerações a que foi submetido, na paixão e crucificação.
Tais teorias nunca seriam concordes à Filosofia Espírita, porque representariam a negação dos mínimos princípios ou fundamentos básicos espiritistas. Maria e José, tidos como pais de Jesus, tiveram um relacionamento normal - como o de qualquer casal - e Jesus, inclusive, teve vários irmãos, sendo o primogênito da prole (vide a passagem "Quem são minha mãe e meus irmãos", a propósito). De uma gestação, portanto, natural e "normal", decorreu um corpo físico muito parecido com o nosso, guardadas as proporções decorrentes do distanciamento temporal entre os nossos dias e os de dois milênios atrás.Como a fábula cristã enquadra situações aparentemente sobrenaturais (como diversas passagens evangélicas relacionadas aos feitos de Jesus e, também, todo o tétrico relato das torturas a que teria sido submetido desde sua prisão, no Horto das Oliveiras até sua crucificação no Gólgota), muitas delas teriam sido construídas e moldadas pelos doutores da Igreja, interessados na construção de um super-homem, mítico e até mitológico, dotado de superpoderes ilimitados.
Jesus foi um homem "normal" e "comum", em relação às suas características físicas. Sua distinção em relação aos demais homens (daquele tempo e até hoje), evidentemente, pertence ao plano moral, das virtudes e das características egressas de sua evolutividade espiritual. Seu principal traço é o de uma moralidade bem acima da média da população terrena de todos os tempos conhecidos, daí porque os Espíritos o teriam sugerido como referência (não a única, fique bem claro) para a esteira de progresso espiritual compatível com este orbe.
Mas, ainda que distante da maioria dos homens em termos de moralidade, não deixou de "participar" da vida encarnada como a grande maioria de nós. Sentiu dores, sofreu decepções, alegrou-se com situações favoráveis, teve amigos e relacionou-se SIM sexualmente com uma mulher - provavelmente Maria de Magdala, de cuja relação teria nascido uma criança, como, aliás, vários escritores - entre os quais, mais presentemente, Dan Brown - já referenciaram.
 Incrível é que, em muitas instituições espíritas, que deveriam se pautar pela "fé raciocinada", pelo exame lógico de todas as situações e circunstâncias e pela abordagem livre e baseada nos princípios espíritas, se verifique um certo ar "pudico" quando o assunto vem à baila, como se uma (muito) provável experiência conjugal e sexual de Jesus de Nazaré pudesse diminuir o alcance de sua missão e papel perante os homens. Uma abstinência da simbiose energético-sexual não seria, nem de longe, "natural" e oportuna. Ademais, todos nós que, sob a esteira da dicção espiritual contida no item sublinhado da obra pioneira, nos espelhamos em Jesus para a construção de nossa senda evolutiva, ao buscarmos conhecer melhor o intercâmbio das relações humanas, sabemos que a sexualidade é um vértice de aprendizado espiritual e, antes de tudo, uma necessidade humana, rumo ao equilíbrio.
Mas há os que, não tão ingenuamente, pensam o contrário e tentam "importar" para o Espiritismo visões que pertencem aos dogmas das igrejas. Estes ainda não se tornaram espíritas!
O Rio Grande na Paraíba
  Duas instituições espíritas gaúchas filiadas à CEPA contribuíram, com expositores, na realização do IV Fórum do Livre Pensar Espírita, de 12 a 14 de novembro último, em João Pessoa/PB. Rui Paulo Nazário de Oliveira e Milton Medran Moreira, do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, participaram no painel “Espiritismo em Movimento”. A delegação do CCEPA contou ainda com a participação de seus associados Beatriz Urdangarin, Margarida Nunes (de Florianópolis,SC) e Sílvia Moreira. Por sua vez, a Sociedade Espírita Casa da Prece, de Pelotas, enviou dois representantes: Homero Ward da Rosa, expositor no painel “O Que é o Espiritismo”, e sua esposa Regina.
  A delegação gaúcha ao evento de João Pessoa foi integrada também por Maria Leonor, do Instituto Espírita Terceira Revelação Divina (Porto Alegre).


Moacir faz a última conferência

do ano noCCEPA


  Neste mês de dezembro, a tradicional palestra da primeira segunda-feira do mês (dia 6, segunda-feira, às 20h30) no Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, estará a cargo do Professor Moacir Costa de Araújo Lima, físico e escritor que acaba de lançar o livro “Consciência Criadora”. Moacir autografará seu livro aos interessados, após a conferência.




Opinião do leitor
Kardec retocou?  
Sobre os artigos em Enfoque de Augusto Araújo (julho/10) e de Wilson Garcia (outubro 10), não encontrei  em Obras  Póstumas (Minha iniciação ao Espiritismo) declaração de Allan Kardec de ter “retocado” comunicações de Espíritos.  Retocando as respostas dos Espíritos (para corrigir ou melhorar)  estaria AK contradizendo a declaração veiculada na Revista Espírita 1858, pag. 5, assim: "...Fazemos anotar, a esse respeito, que esses princípios são aqueles que decorrem do próprio ensinamento dado pelos Espíritos, e que faremos, sempre, abstração das nossas próprias ideias”. Já cumpri 89 anos  e agora, depois de participar das atividades da Soc. Espírita Kardecista durante 50 anos, há dois anos,pedi "aposentadoria".  Entretanto, continuo participando de pequeno grupo de estudos do Espiritismo , com reuniões semanais. Na leitura do Opinião surpreendeu-nos a expressão "retocar" e daí a nossa impertinência na busca de esclarecimentos a respeito,sem o propósito de polemizar, nem mesmo de curiosidade.  Desde que assisti, aqui, palestra de Jaci Regis, na década de 70 ou 80, aprendi a diferenciar a Doutrina Espírita do Espiritismo brasileiro (religioso). Considero-me, por isso, um livre-pensador.
                  Cordialmente,  João José GuedesSantos/SP