terça-feira, 7 de junho de 2011

OPINIÃO - ANO XVII - N° 186 - JUNHO 2011


O Espiritismo na Mídia
 Diante da explosão midiática do espiritismo no Brasil de hoje, em que fase Allan Kardec classificaria o atual estágio de aceitação das ideias espíritas no país?


 Filmes espíritas motivaram a onda
         Primeiro foi o filme “Bezerra de Menezes – Diário de um Espírito” (2008), contando a vida de Adolfo Bezerra de Menezes, médico cearense que se tornou um ícone do espiritismo brasileiro. Vista por cerca de meio milhão de espectadores, a película abriu espaço para outras exibições que explorariam a popularidade do médium espírita Francisco Cândido Xavier, falecido em 2002 e cujo centenário de nascimento (abril/2010) motivou o lançamento de três importantes filmes tratando de sua obra e de sua vida. O primeiro foi “Nosso Lar”, que levou à tela o principal livro do médium mineiro, ditado pelo espírito André Luiz. Depois, a película “Chico Xavier”, com sua biografia. Finalmente, “As Mães de Chico Xavier” que enfocou um dos aspectos mais característicos da carreira do médium de Uberaba, ou seja, o consolo oferecido às mães de jovens desencarnados, que iam a Uberaba na busca de contato espiritual com seus filhos. Todos eles foram de grande sucesso de bilheteria, com milhões de espectadores que agora se somam a outros milhões que terminaram adquirindo os filmes em DVD.
          
     Na onda do sucesso dos filmes, muitas revistas de grande circulação, assim como programas de rádio e de televisão, realizaram reportagens e debates sobre o que consideram um dos grandes fenômenos religiosos no Brasil: o espiritismo.

          Em que período estamos?
       Em artigo publicado na Revista Espírita de dezembro de 1863, Allan Kardec projetava para o espiritismo seis períodos: o primeiro teria sido o da curiosidade, deflagrado quando dos episódios das mesas girantes que deram início às suas investigações; o período seguinte foi por Kardec denominado filosófico, quando aqueles fenômenos começaram a dar lugar à reflexão sobre suas causas e consequências; o terceiro período, vivido no momento em que era escrito o artigo, Kardec denominou como de luta, diante das perseguições vindas da Igreja e dos segmentos materialistas; sucederia ao período de luta o religioso, que, segundo supunha Kardec, seria logo superado por um período intermediário, após o qual, já no início do Século XX, despontaria o período da regeneração social, quando as ideias espíritas seriam de domínio geral, dando lugar a uma sociedade de “união, paz e fraternidade” entre todos os homens.
          Na verdade, a caminhada tem sido bem mais lenta. Tomando-se por base o Brasil, país onde o espiritismo tem maior presença social, é de se reconhecerem avanços, especialmente por força da obra do médium Francisco Cândido Xavier, agora registrada no cinema e repercutida na mídia em geral. Mas a pergunta se impõe: que fase entre aquelas previstas por Kardec é a que vivemos? Inegável que, para muitos, é ainda a primeira: a da admiração, da curiosidade diante do fenômeno. Para a grande maioria, entretanto, o espiritismo estacionou na fase religiosa, que, pelo esquema previsto por Kardec, de há muito deveria estar superada. Outros, compondo um pequeno segmento espírita, vivem claramente a fase intermediária que busca conectar as propostas doutrinárias espíritas às áreas mais importantes do conhecimento científico e do pensamento contemporâneo. Estes creem no potencial espírita de oferecer ao mundo um novo paradigma científico/filosófico/moral, capaz de renová-lo. Seria isso uma utopia? Ou ainda haverá possibilidade de resgatar esse projeto de Kardec?



      

     
     O Projeto de Kardec
       Não se pense que Allan Kardec imaginava para o Século XX fosse o mundo todo declaradamente espírita. Mas, sem dúvida, sonhava que, ao curso do século findo, o paradigma espírita estaria plenamente aceito. Quando se fala em paradigma espírita se quer referir a uma cultura de prevalência do espírito sobre a matéria, na ciência e na ética.

         O Século XX ficou para trás, caracterizado pelo avanço do materialismo e o domínio de um capitalismo selvagem. O espiritismo avançou nesse período? Que se pode esperar para o novo século cuja primeira década já se escoou?

      O Brasil tem se firmado como um significativo polo da “religião espírita”. Ou seja, no universo das crenças, o espiritismo, aqui, ganha espaço, simpatia, popularidade e respeito. Disso dão testemunho os filmes espíritas e a aura de santidade atribuída a vultos do espiritismo cristão e evangélico, como Bezerra e Chico.     Mas estamos longe da adoção de um paradigma científico, filosófico e ético-moral, fundado na realidade do espírito. Cada vez menos o mundo das crenças se interpenetra com o mundo das ciências, sejam elas físicas ou sociais. O conhecimento é, hoje, marcadamente laico. A ética também. Kardec conhecia essa tendência da modernidade e, mesmo admitindo uma curta fase religiosa para o espiritismo, previa que sua influência no mundo pós-moderno só se daria pela força de seus pressupostos científicos, filosóficos, éticos e sociais. Não há, pois, razão para euforia, diante da explosão midiática do espiritismo como religião. Colham-se os espaços eventualmente abertos para demonstrar que a proposta espírita vai muito além do fenômeno paranormal e da fé religiosa. É uma proposta consistente em termos de conhecimento e transformadora por seus conteúdos éticos. (A Redação)







Reencarnação: 
mais estudada, melhor compreendida
“Não basta que o espiritismo exista. Ele precisa ser continuadamente construído, não contra, mas apesar daqueles que o querem reduzir a mais uma seita cristã.” (Maurice Herbert Jones)

     Paulo afirmou que se Cristo não houvesse ressuscitado seria vã a fé cristã. Da mesma forma, podemos, nós, espíritas, dizer: Se a reencarnação não é uma verdade, perde sentido a filosofia espírita e pouco ou nada há de contribuir para o avanço do espiritualismo. A reencarnação é, na verdade, a expressão concreta da hipótese filosófica da imortalidade e da evolução do espírito. Compõe, assim, o núcleo central da filosofia espírita.
    Elogiável, pois, a preocupação que um amplo setor do movimento espírita tem demonstrado em torno do aprofundamento do estudo e do debate da reencarnação. No âmbito da CEPA, dois eventos realizados no Brasil priorizaram, recentemente, o debate acerca da identidade do espiritismo: o II Encontro Nacional da CEPABrasil (Bento Gonçalves/RS, setembro/2010) e o IV Fórum do Livre Pensar Espírita (João Pessoa/PB, novembro 2010). Parte-se, agora, para um aprofundamento da tese da reencarnação, um dos pilares sobre os quais se apoia e se legitima a identidade espírita.
     O XXI Congresso Espírita Pan-Americano, a se realizar em Santos/SP, de 5 a 9 de setembro de 2012, com o tema central “Perspectivas Contemporâneas da Teoria Espírita da Reencarnação” quer oportunizar ao movimento espírita pan-americano um debate atualizado e aprofundado do tema. Como uma espécie de prévia daquele grande evento que deve receber estudiosos e debatedores não apenas das Américas, mas também da Europa, a CEPABrasil, Associação Brasileira de Delegados e Amigos da CEPA, e a USEECE,  União das Sociedades Espíritas do Estado do Ceará, realizam, este mês, em Fortaleza, o V Fórum do Livre Pensar Espírita (24 a 26 de junho), tendo como temática central “Reencarnação, Lei Natural para a Espiritualização da Humanidade”.
     Neste estágio de avanço das ideias espíritas, não basta aceitar a tese da reencarnação como mero sucedâneo da fé cristã no céu e no inferno, com seus prêmios e castigos à alma, após a vida física. É preciso buscar a essência filosófico/evolucionista/progressista da hipótese palingenésica espírita, comparando-a com outras teorias religiosas, filosóficas e científicas minimamente compatíveis com os conhecimentos atuais. Poderá ser recomendável, inclusive, atualizarem-se conceitos reencarnacionistas até aqui aceitos no próprio meio espírita, mas ainda portadores de ranços teológicos judaico-cristãos já superados.
   Mais que tudo, é preciso ter coragem de avançar, reconhecendo que eventuais impregnações religiosas teimosamente cristalizadas em nossa consciência já não contribuem com o nível de exigências evolutivas atuais. Como asseverou Allan Kardec, “o que era outrora um bem (...) transforma-se num mal”. (A Gênese, Cap.III)

   Um amplo setor do movimento espírita tem demonstrado preocupação no aprofundamento do estudo e debate sobre reencarnação. 





      

          A questão das drogas

     Numa viagem que fiz à Suíça, há quase 20 anos, impressionou-me a quantidade de viciados na rua, consumindo drogas livremente, sem que a polícia ou quem quer que fosse interferisse. A guia turística nos informou que o governo não se preocupava muito com isso. Problema maior para o estado eram os alcoólatras, porque estes, diferentemente dos drogados, viviam bastante e, na velhice, se tornavam um peso morto para o poder público que teria de mantê-los com seus programas sociais, diferentemente dos consumidores de drogas, que morrem jovens.
          Uma forma desumana e bem materialista de tratar a questão. Na base dessa política governamental está a filosofia de que a morte tudo resolve e, depois dela, não há mais consequências provenientes das viciações individuais ou coletivas.

          A questão no Brasil
          Não sei como a Suíça trata do problema atualmente. Sei que, naquele tempo, quando eu recém me havia aposentado do cargo de promotor de Justiça, a questão das drogas no Brasil começava a tomar os rumos que iriam se constituir no verdadeiro flagelo para as famílias e sociedade de hoje. A lei criminal de então ainda previa pena de prisão tanto para traficantes como para viciados. A pena destes era de detenção, bem mais leve que a de reclusão prevista a quem vendesse ou traficasse. Mas já se discutia, então, a possibilidade da despenalização do consumo, reservando-se a cadeia para quem comercializasse as drogas.
          Acho que a recente legislação (2006) implantada no Brasil tratou convenientemente a questão. Já não cabe prisão ao usuário que está sujeito a medidas sócio-educativas, como admoestação verbal, obrigatoriedade de frequentar cursos, tratamento compulsório ou prestação de serviços à comunidade.

          Estaria descriminalizado o consumo?
        No âmbito jurídico, a discussão é de se a nova lei descriminalizou ou não o consumo. Alguns juristas sustentam que as medidas são ainda de efeito penal. Outros dizem que elas têm caráter meramente administrativo. E há aqueles que as definem como infração “sui generis”.
        Polêmicas jurídicas a parte, há evidências de que se estão buscando caminhos no Brasil. E de forma bastante humanizada. Diferentemente de algumas nações ricas, onde o estado vira as costas para o drogado, entregando-o à própria sorte, na medida em que permite o consumo, sem qualquer consequência legal e, pior, na expectativa de que ele morra logo.

          Um caminho longo
      Pessoalmente, penso que a solução do grave flagelo do consumo de drogas no país poderá ir se resolvendo exatamente através desta política: menos penalização e mais tratamento e educação. Jogar o viciado na cadeia de nada adianta. Talvez piore a situação, pois quando dali sair, sem outra alternativa e em contato direto com os profissionais do tráfico, facilmente se tornará um colaborador destes.
        Como diz a questão 797 de O Livro dos Espíritos, nossas leis “mais se destinam a punir o mal depois de feito, do que cortar a raiz do mal”, acrescentando: “só a educação poderá reformar os homens, que assim não precisarão mais de leis tão rigorosas”.  Entre nós, a lei já está tomando esse caminho. Algumas iniciativas públicas e privadas também. Pena que sejam ainda muito incipientes. Há um longo caminho a percorrer.





     

   Rumo a Fortaleza
   O presidente, Rui Paulo Nazário de Oliveira, o Diretor de Comunicação Social, Milton Medran Moreira e a Diretora Social da instituição, Sílvia Pinto Moreira, na foto, compõem a delegação do CCEPA que, juntamente com Margarida Nunes (Florianópolis), associada do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, participará do V Fórum do Livre Pensar Espírita, em Fortaleza, de 24 a 26 de junho. Antes do evento, na noite de 23, Milton Medran fará palestra no Grupo Espírita Auxiliadores dos Pobres, sede da União das Sociedades Espíritas do Estado do Ceará, a convite dos organizadores do Fórum.


       Moacir fala no CCEPA em julho
     O Professor Moacir Costa de Araújo Lima é o conferencista convidado pelo Centro Cultural Espírita de Porto Alegre para a atividade da primeira segunda-feira de julho, dia 4. O físico e escritor gaúcho falará sobre o tema “Espiritismo, um caminho para a felicidade”.
       Sempre na primeira segunda-feira do mês, o CCEPA oferece uma conferência pública, às 20h30, com entrada franca.





  




Analisando crítica à Carta da CEPABrasil
Vital Cruvinel - Engenheiro de Computação, membro da Associação Caminhos para o Espiritismo, São Carlos / SP, moderador da lista de debates da CEPA.

          Em meu blog - http://divagando-hipotese-espirita.blogspot.com/ - publiquei a Carta de Posicionamentos da CEPABrasil por considerá-la muito adequada à forma como entendo e vivo o espiritismo. Mas, claro, outras pessoas podem considerar justamente o contrário, especialmente por não concordar com o aspecto laico do espiritismo.
        Entre estas pessoas está o escritor e palestrante espírita Sergio Aleixo do Rio de Janeiro
em seu blog - http://ensaiosdahoraextrema.blogspot.com - ele faz uma crítica contundente à carta. Por outro lado, a crítica contém alguns pontos obscuros, como vou procurar esclarecer.
        Sergio inicia suas críticas pelo uso na carta da palavra 'início' em associação à fase inicial laica representada por uma resolução do Congresso Espírita Internacional de 1888. Ele "corrige" o texto da carta informando que o 'início' do espiritismo data de 1857. Mas, a sua interpretação do texto é que está equivocada. Uma leitura desapaixonada mostrará que o autor da carta desejou demonstrar que a proposta laica tem suas origens numa fase inicial do Espiritismo quando o movimento espírita brasileiro ainda era inexpressivo. Ou seja, não desejou que a interpretação fosse a do "ponto inicial" do Espiritismo.
       De qualquer forma, o autor se equivoca ainda ao contrapor uma proposta laica com a ideia de um laço fraterno baseada no ensino moral de Jesus. Aliás, Jesus não é exclusividade das religiões. Qualquer ciência ou filosofia pode valorizar a ética de Jesus, pode apresentá-lo como um modelo sem, com isso, ser considerada religiosa.
Mais a frente, o autor tenta novamente encontrar alguma inconsistência no discurso cepeano quanto ao questionamento de conceitos espíritas. Vejam o que está escrito na carta:

         5.3 - A CEPA não questiona os princípios fundamentais do espiritismo – existência de Deus, imortalidade da alma, comunicabilidade entre encarnados e desencarnados, reencarnação, pluralidade dos mundos habitados e evolução infinita. Todavia, poderão ser questionados conceitos e interpretações a eles referentes expressos na literatura espírita por autores encarnados ou desencarnados ou que se tornaram correntes entre os espíritas;
Agora vejam o que Sergio escreveu:

     Asseguram que “a CEPA não questiona os princípios fundamentais do Espiritismo”, embora propalem que “poderão ser questionados conceitos e interpretações a eles referentes, expressos na literatura espírita” [5.10].

      Provavelmente Sergio deixou que suas ideias preconcebidas falassem mais alto. Em outras palavras, os conceitos fundamentais do espiritismo não são questionados pela CEPA, mas são questionadas as interpretações que qualquer um de nós faz destes conceitos fundamentais. Por exemplo, é evidente que o espírita não questiona a existência da reencarnação, mas tem o direito de questionar uma possível reencarnação no mundo espiritual.
    Ao contrário do que Sergio diz, a busca de atualização do espiritismo não significa considerar Kardec como uma corrente atrasada. Kardec nunca deixará de ser o fundador do espiritismo e ele próprio desejava que o espiritismo continuasse em constante processo de atualização.
      O crítico Sergio tenta subliminarmente imputar à CEPA o desejo de ser avalista de uma atualização ou revisão do Espiritismo. Mas, na carta está explícito que não é esse o seu desejo, conforme se observa, por exemplo, no seguinte ponto: 

      5.10 – A CEPA não alimenta o propósito de efetuar, com exclusividade, a revisão pontual da Doutrina Espírita. Pretende, sim, estimular um processo de reflexão entre os espíritas com vistas a assegurar o futuro e a permanência do espiritismo;

       Também não deveria causar espanto ao Sergio a ideia de que o consenso deve acontecer entre os encarnados e desencarnados. Ora, os encarnados são espíritos tanto quanto os desencarnados. Não foi assim que Kardec nos ensinou?!

       E causa muito espanto a mim que Sergio seja contra a ideia de respeitar as diferenças nas interpretações feitas pelos agrupamentos espíritas. Por acaso deveria ser diferente? Respeito não significa concordância, mas dar ao outro o direito de ter a sua própria interpretação.
Para o espírita que tem uma postura religiosa é compreensível que fique chocado ante a questionamentos do trabalho empreendido por Kardec. Mas Kardec não pediu para ser venerado e nem considerá-lo infalível. Os cepeanos, entre os quais me incluo, têm o direito de questionar a tentativa demasiada de conciliar os conceitos espíritas com a teologia católica.

      Talvez na época de Kardec fosse mesmo necessário reinterpretar os textos bíblicos e evangélicos para que os católicos tivessem a oportunidade de refletir sobre os "novos" conceitos espíritas. Mas, hoje em dia, essa reinterpretação pode estar fazendo mais mal do que bem. Quantos não são os espíritas que ainda acham que Jesus veio nos salvar de nossos pecados?

    Por outro lado, não significa que esses questionamentos impeçam os cepeanos de valorizarem toda a obra kardeciana, incluindo aí O Evangelho Segundo o Espiritismo. Aliás, tal valorização fica clara no tópico 8 da carta. É uma pena que Sergio e outros críticos da CEPA continuem procurando "pegadinhas" para dizer que a CEPA não aceita o Evangelho.
    Como já havia dito anteriormente os cepeanos respeitam a grande maioria dos espíritas que acha adequado nos dias de hoje associar a palavra espiritismo à palavra cristianismo. Mas também os cepeanos desejam o mesmo respeito ao acharem que essa associação é inadequada; e que existem bons argumentos para considerá-la assim.
       A crítica de Sergio sobre a maneira de os cepeanos entenderem a palavra 'cristianismo' revela que muitos espíritas ainda pensam ser necessário tomar para si o Jesus das igrejas cristãs, isto é, de dizer para os não-espíritas que todos eles estão equivocados (não são cristãos). Já passou da hora de todos nós espíritas atentarmos para o ensino moral de Jesus como o próprio Kardec salientou na introdução do seu Evangelho.
     É lamentável que os críticos da CEPA, como o Sergio, não compreendam a postura equilibrada dos cepeanos em não colocar, a priori, o espiritismo num lugar superior a outras fontes de conhecimento. De outra forma, nós estaríamos sendo presunçosos e sectários.
      De toda sorte, temos que respeitar a opinião de todos, inclusive a opinião do Sergio de que a proposta cepeana nos "levará a desnaturação e morte do Espiritismo". Mas, é de se perguntar: acaso essa postura sectária nos há de levar a lugar diferente disso? 



    

      
      O flagelo das drogas 
     e a descriminalização
        Minha discordância com o que Eugenio Lara escreveu sobre a descriminalização do uso de drogas (Enfoque/maio), especificamente em um ponto: chamar a cannabis sativa de “droga leve“, comparando-a com “um copo de vinho, ou um bom cigarro...“. Impressiona-me o fato de que um jornal que se preza como um defensor do aspecto científico do Espiritismo endosse tal comentário, sem fazer uma pesquisa bibliográfica mínima sobre um tema científico e social tão pungente. Um tema eminentemente médico, que deveria ser tratado por profissionais da área, especialmente daqueles que trabalham com a psiquiatria e o abuso de drogas. Fora de uma abordagem séria, um texto de tal tipo, escrito em termos “filosóficos“ e genéricos, serve apenas para desorientar, apesar do aparente espírito libertário. Recomendaria aos editores, bem como ao autor do escrito, que consultassem bibliografia da área psiquiátrica. Um estudo importante que demonstra o aumento do risco de esquizofrenia pelo uso da cannabis está sendo publicado, podendo a referência ser conferida antecipadamente no pubmed entrez: Cannabis use in young people: The risk for schizophrenia, de Casadio, Fernandes C, Murrayb RM, et al. a ser publicado no Neuroscience and Behavioral Reviews. Parece-me arriscado a um jornal espiritualista apostar numa atitude condescendente e relativista num tema tão grave, envolvendo a saúde mental das pessoas, especialmente dos jovens.
         Dr. Jorge Luiz dos Santos, M.D. e Ph.D – Porto Alegre.

     Nota do editor: Os artigos publicados na secção “Enfoque” deste jornal não refletem, necessariamente, a opinião do periódico ou da instituição que o edita, mas são de exclusiva responsabilidade de quem os assina. A propósito, no editorial da edição de maio, “Opinião e Consciência”, deixamos consignado: “Aqui, trabalhamos com opinião, não exatamente com orientação. E com isso todos nos enriquecemos formando nossas opiniões pessoais, de maneira livre, consciente e responsável.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

OPINIÃO - ANO XVII - N° 185 - MAIO 2011

Livre Pensar Espírita 
começando a fazer história!

          Tudo começou em João Pessoa
          Um evento organizado pela ASSEPE – Associação de Estudos e Pesquisas Espíritas de João Pessoa/PB, e patrocinado pela Associação Brasileira de Delegados e Amigos da CEPA – CEPABrasil - , em abril de 2008, recebeu a denominação de Fórum do Livre Pensar Espírita. Grupos filiados à CEPA – Confederação Espírita Pan-Americana -, no Brasil, gostaram do nome e decidiram adotá-lo para uma série de eventos que, desde então, têm se realizado em diferentes pontos do país, onde existem núcleos ligados à CEPA. Com isso, o Fórum da ASSEPE, de 2008, lançado para ser o único com aquele nome, acabou por incorporar o ordinal “1º”. A partir de então, a CEPABrasil elegeu a expressão livre pensar como ideia chave na ação a favor do progresso do pensamento e da modernização do movimento espírita.

          Quatro edições já foram realizadas
          Até aqui foram realizados:
            1º Fórum do Livre Pensar Espírita – João Pessoa/PB – 25 e 26 de abri/2008. Tema: “A Evolução do Pensamento Kardecista”.
          2º Fórum do Livre Pensar Espírita – Pelotas/RS – 17 a 19 de outubro/2008. Tema: “A Reencarnação”.
       3º Fórum do Livre Pensar Espírita – Guarulhos/SP – 5 a 7 de junho/2009 – Tema: “Espiritismo, Saúde Mental e Cidadania”.
        4º Fórum do Livre Pensar Espírita - João Pessoa/PB - 12 a 14 de novembro/2010 - Tema: "A Construção da Identidade Espírita de Kardec aos dias atuais".
          Por sua vez, os centros espíritas da Baixada Santista ligados à CEPA realizam, anualmente, no mês de abril o seu Fórum do Livre Pensar que, este ano, cumpriu sua 6ª edição.
          Para integrar os participantes de todas essas atividades, que têm caráter regional, a CEPABrasil promove, de dois em dois anos, um Encontro Nacional. O primeiro deles foi realizado em Itapecerica da Serra (SP), enfocando o tema Consciência (2008) e o segundo, em 2010, em Bento Gonçalves/RS, tratou da questão da Identidade do Espiritismo. Com essa gama de atividades, os grupos brasileiros ligados à CEPA consolidam-se como um segmento de vanguarda no movimento espírita brasileiro.
                                                                                                                                                                                                                                                                                  
          Fortaleza sediará o 5º Fórum, em junho
         O V Fórum do Livre Pensar Espírita acontece de 24 a 26 de junho próximo, em Fortaleza, capital do Ceará. A União das Sociedades Espíritas do Estado do Ceará – USEECE – que, recentemente, aderiu à CEPA, organiza o evento da Associação Brasileira de Delegados e Amigos da CEPA. O tema central será: “Reencarnação, Lei Natural para a Espiritualização da Humanidade”. Segundo a presidenta da CEPABrasil, a médica paulista Alcione Moreno (foto), “a temática eleita por nossos amigos cearenses é muito oportuna, pois o tema reencarnação será, depois, aprofundado, no Congresso Pan-Americano da CEPA, que acontece em Santos/SP, em setembro do próximo ano”. Segundo ela, “vista sem ranços religiosos e liberta dos preconceitos da ciência materialista, a reencarnação oferece uma rica fonte de aplicações no campo do conhecimento e da ética social e individual”, por isso, “é um tema que convida a um enfoque realmente livre-pensador”.
          No boletim “América Espírita”, encartado nesta edição, a programação completa do Fórum de Fortaleza, cujas inscrições ainda estão sendo recebidas no site http://livrepensarespirita.com.br/.




            


          
              Por que livre pensar?
      Quem adotou o espiritismo como uma nova religião poderá experimentar alguma dificuldade em qualificar-se como um livre-pensador. Dogmas, de qualquer natureza, não combinam com livre-pensamento. Uma doutrina tida como pronta e acabada não se coaduna com o livre-pensamento.
          Allan Kardec escreveu que o espiritismo não é “uma nova fé cega substituindo a outra fé cega”, não é “uma nova escravidão de pensamento sob uma nova forma”. Ele “estabelece como princípio que antes de crer é preciso compreender”. (Revista Espírita – fev/1867). Por isso mesmo, não hesitou em classificar, ali, o espiritismo como uma proposta francamente livre-pensadora, tomando a expressão “livre- pensamento” como “livre exame, liberdade de consciência, fé raciocinada”, que simboliza “a emancipação intelectual, a independência moral, complemento da independência física”. Segundo Kardec, “o que caracteriza o livre pensador é que pensa por si mesmo e não pelos outros”, e que “neste sentido, o livre-pensamento eleva a dignidade do homem”, fazendo dele “um ser ativo, inteligente, em vez de uma máquina de crer”.
          Por tudo isso, e porque o espiritismo, como todo o conhecimento, nunca estará pronto, exigindo uma permanente ação construtiva, é preciso pensar e agir com responsabilidade, mas também com liberdade. Construir sobre os firmes alicerces lançados por Kardec e seus interlocutores espirituais é a tarefa que hoje se impõe aos espíritas autenticamente progressistas e livre-pensadores. (A Redação)



        




      
        Opinião e consciência
            O homem livre é dono de seus pensamentos e escravo de sua consciência.
                                                                                                                           Aristóteles
          
      Mandamentos religiosos são impositivos: “não matarás”, “não cometerás adultério”. Algumas religiões descem a detalhes que balizam os hábitos alimentares, sociais, familiares e políticos das pessoas: não fumar, não ingerir bebidas alcoólicas ou determinados tipos de carne, usar vestidos e cabelos longos, votar em determinado partido, etc.
          O ser humano inteligente e cioso daquilo que lhe é bom ou lhe é prejudicial, aos poucos, se liberta das imposições religiosas e passa administrar a vida e a interagir com o mundo a partir dos valores ditados por sua consciência. O espiritismo é uma filosofia libertadora que tem por fim conduzir o espírito à plenitude desse estágio. Liberdade de pensar e de agir são conquistas paulatinas que ampliam a consciência crítica perante a vida, o mundo, a sociedade e suas cada vez mais complexas estruturas.
          Por isso mesmo, diante de aspectos polêmicos, ainda não consensualizados pela sociedade, espíritas também podem divergir entre si, embora igualmente inspirados em valores genuinamente espíritas.
          No mês passado, este jornal publicou na secção “Enfoque” bem fundamentado artigo de um pensador espírita posicionando-se contrário a toda e qualquer descriminalização da droga, seja esta qual for. Nesta edição, outro pensador, não menos brilhante, acena com a teoria da descriminalização como política capaz de combater o uso da droga. Um e outro, contudo, veem na drogadição um flagelo. O primeiro sustenta que o materialismo é sua principal causa. O segundo aponta a educação como a ferramenta ideal para combatê-la. Na base, pois, valem-se ambos de princípios filosóficos espíritas para debelar as causas desse flagelo.
          Este pequeno mensário cultiva o pluralismo de ideias, sem nunca afastar-se dos princípios fundamentais do espiritismo. Prova-o esta edição, pelas razões já expostas e por uma ampliação do espaço, ao lado, destinado à interlocução com o leitor. Aqui, trabalhamos com opinião, não exatamente com orientação. E, com isso, todos nos enriquecemos, formando nossas opiniões pessoais, de maneira livre, consciente e responsável.
Liberdade de pensar e de agir são conquistas que ampliam a consciência crítica perante a vida.










              Um grande manicômio...
          Apavorada como, de resto, ficamos todos, ante a tragédia de Realengo, quando um jovem invadiu uma escola e matou 12 adolescentes, uma senhora me disse: “O mundo se tornou um grande manicômio!”.
          Alguma razão se pode conceder àquela mulher, se atentarmos para os índices revelados pela Associação Brasileira de Psiquiatria. De acordo com a ABP, só no Brasil existem cerca de 17 milhões de portadores de transtornos mentais graves. Seriam 9% da população brasileira. A incidência, bem maior, em países desenvolvidos, como, por exemplo, os Estados Unidos, de episódios semelhantes a este que comoveu o Brasil, leva a supor que o índice mundial seja bem superior.
          ...ou uma grande escola?
          Ainda assim, nós, espíritas, preferimos conceber o mundo como uma grande escola. Lançando um olhar retrospectivo pela História, não será difícil concluir que quanto mais recuarmos no tempo, mais insano se apresenta o mundo. Por séculos, fomos governados por verdadeiros mentecaptos, escondidos atrás de sua condição nobiliática, protegidos por seu sangue azul ou por um direito pretensamente divino. A loucura era institucionalizada e os genocídios e guerras santas tinham o respaldo de um Direito torto, fundado em privilégios e no desprezo ao que hoje reputamos como os mais comezinhos direitos humanos. Não é nenhuma alucinação admitirmos que os celerados de ontem devam estar novamente entre nós, rematriculados na grande escola terrena buscando o aprendizado da convivência, do respeito ao próximo, da tolerância e do amor, únicos remédios a lhes sanar as chagas da alma. 
             A reencarnação
          A reencarnação se apresenta como pedagógico sistema de justiça e de reabilitação, fatores não vislumbrados no materialismo inconsequente ou no dogmatismo utópico que prega um sistema de bem-aventuranças eternas ou de castigos sem remissão. Entretanto, a mesma racionalidade filosófica que nos leva a admitir o retorno ao cenário antes violentado por um delirante ator, também impõe aos demais partícipes do drama da vida o dever de contribuírem para um “remake” capaz de levar a um final feliz.  Não é à toa que estamos compartilhando o mesmo palco.

          Regeneração
        Não interessa saber que causas pretéritas concorreram, ou não, para fazer de Wellington Menezes de Oliveira o insano capaz de provocar o horrível atentado. Tudo o que se disser sobre isso,  ou de eventuais encadeamentos entre ele e as vidas que ceifou, não passará de mera especulação. Uma única coisa interessa: a sociedade chamada a acolher, pela lei do retorno, espíritos que danificaram gravemente seu psiquismo, tem o dever de contribuir para sua regeneração. Uma única célula doente compromete todo um organismo. O organismo social capaz de diagnosticar a existência de um número tão expressivo de células enfermas, como as da estatística, se faz conivente com tragédias assim se não oferecer àqueles infelizes o tratamento digno e a inserção social. Esse é o grande desafio proposto pela lei da reencarnação, e não a pura e simples revanche, vitimando inocentes, por conta de “resgates passados”, como sugerem canhestras interpretações que sempre aparecem após tragédias dessa dimensão.















O dia 23 de abril último, registrou 75 anos de existência do nosso Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, 45 dos quais dedicados à busca de um espiritismo restaurado à sua essência dinâmica e livre-pensadora, tão insistentemente estimulada pelo seu fundador Allan Kardec.
Foi  a partir dos anos oitenta que, com clareza maior, definiu-se o modelo que mais se ajustava aos anseios do nosso pequeno, mas corajoso, grupo. A partir daí avançamos com mais desenvoltura na construção de um espiritismo "emancipado de místicos e milagreiros, ainda mercadores de indulgências, que elegeram um Jesus, quase sempre triste com os nossos pecados, passivo e estático, que eles adoram sem compreender a dinâmica de sua mensagem libertadora", na imagem do espírito J. Cacique de Barros em mensagem de aprovação e estímulo de 4 de abril de 1986.
Como era de se esperar, considerando a natureza conservadora do espiritismo brasileiro, a reação não tardou. Foi surpreendentemente virulenta já que partiu de antigos companheiros de luta e aprendizado. Fomos vilipendiados, excomungados e tivemos que caminhar sozinhos por compreender que a natureza libertadora e progressista  da visão espírita de homem e de mundo nos convida a entender que não basta que o espiritismo exista ele precisa se continuadamente construído, não contra, mas apesar  daqueles que o querem reduzir a mais uma seita cristã.
Para o pequeno, mas fortemente unido, grupo de trabalhadores a lição relembrada mais uma vez naquele 23 de abril foi que, a aventura da liberdade tem custo elevado, porém altamente compensador.
Depois de tantos anos de convivência e estudo, nada define melhor a postura do nosso grupo diante do pensamento espírita do que o lema, cunhado por nosso companheiro Maurice Herbert Jones, que temos adotado há muitos anos:
"Sabemos pouco, não temos certezas definitivas mas ousamos buscar".

A data foi comemorada em singela confraternização entre os membros da instituição, na reunião da Oficina de Trabalhadores de 25/4.

 
      Psicologia e Espiritualidade:
        A conferência de junho
        Na primeira segunda-feira de junho (6) a conferência mensal do CCEPA estará a cargo do psicólogo Luís Augusto Sombrio: “Psicologia e Espiritualidade”, às 20h30, com entrada franca.







   O Flagelo das Drogas e a Descriminalização
         Eugenio Lara (São Vicente, SP), arquiteto e jornalista, fundador e editor do site PENSE - Pensamento Social Espírita [www.viasantos.com/pense.

A questão das drogas é um dos temas mais polêmicos e perturbadores da atualidade. Não há um consenso quanto à política mais eficiente a ser adotada para eliminar esse flagelo, que aflige não somente a sociedade brasileira, mas o mundo todo. A proibição não resolve o problema. De início, a descriminalização, certamente, é o melhor caminho, pois se trata de uma questão de saúde pública, muito mais do que uma questão criminológica.
       Na história da humanidade, nunca existiu uma cultura ou civilização que não usasse drogas. Desde as cavernas até hoje elas fazem parte da nossa vida, seja no popular cafezinho, no chimarrão, no chá de coca, no pó de guaraná, na aspirina, nos calmantes e estimulantes, nos anabolizantes e remédios para emagrecer ou dormir.
    Nas culturas arcaicas, nos povos ditos primitivos, o uso de substâncias entorpecentes sempre esteve associado ao ritual religioso, aos ritos de passagem, no culto aos deuses. O tabaco era de uso comum entre os ameríndios (o “cachimbo da paz”), assim como o peiote, cogumelos, o ópio em outras culturas, todas elas desconhecedoras da overdose, do tráfico e da toxicomania. As pitonisas gregas profetizavam inebriadas por gases advindos de uma fenda subterrânea. Nossos índios aspiram a raspa do curare em sua zarabatana, para reencontrar os espíritos da floresta. No Santo Daime, religião sincrética surgida das entranhas do Espiritismo, o consumo da ayahuasca, droga alucinógena, é feito de modo controlado, como uma forma de autoconhecimento.
     O álcool, uma das drogas mais antigas e devastadoras, faz parte de quase todas as culturas, desde o vinho até a aguardente, das bebidas destiladas às fermentadas. Da vodca ao saquê, da cerveja ao conhaque, cada nação tem em seu patrimônio algum tipo de bebida alcoólica, como marca de sua identidade cultural.
      Até na Bíblia podemos observar o consumo do vinho, como no incesto das filhas de Lot, que o embebedaram para engravidar, bem como no escândalo do patriarca Noé em um dos porres mais notórios da história bíblica, logo após o Dilúvio e a celebração da nova aliança com Jeová. Por outro lado, o vinho foi tomado como bebida sagrada pelo cristianismo, desde o primeiro milagre de Jesus de Nazaré nas bodas de Canaã, quando transformou água em vinho, até a celebração final com os discípulos na Última Ceia, regada a pão e vinho. E não nos esqueçamos de que o símbolo do Espiritismo é o ramo da videira.
       Nossa civilização perdeu o sentido primordial, arcaico do uso de substâncias que alteram a percepção mental. Do uso sábio e controlado, partiu-se para o abuso. Hoje, tornou-se um gravíssimo problema de saúde pública, em escala mundial.
Nas décadas anteriores, a droga era de difícil acesso, muito cara, uma exceção, algo secreto, usada na alcova, como forma de expansão da mente, de experiência subjetiva, transcendental ou então, uma atitude contrária ao despotismo, ao autoritarismo, coisa também da malandragem, da contravenção ingênua. Tinha um sentido pretensamente revolucionário, de contestação até experimental, como nas pesquisas psicodélicas de Timothy Leary com o LSD, o ácido lisérgico, nos anos 1960. Todavia, as mortes por overdose de Janis Joplin, Jim Morrison, Jimi Hendrix, Brian Jones etc. revelaram a face negra do consumo indiscriminado das drogas, o lado obscuro da contracultura, do movimento hippie.
     A toxicomania é, na realidade, a ponta do iceberg, apenas um sintoma de muitos problemas sociais de ordem moral, psicológica, próprios de nossa época. Nos últimos 30 anos tornou-se um flagelo, um monstro devorador. As drogas viraram uma coisa banal, amplamente difundida e de fácil acesso, mas com outra conotação, outro significado.
     Hoje seu consumo se banalizou completamente. Compra-se crack, cocaína, heroína, drogas pesadas, em qualquer esquina. Quase toda cidade tem sua cracolândia. O tráfico virou um poder paralelo, com representantes no Congresso, na Câmara dos Deputados, com a cumplicidade da polícia e da sociedade.
         Não há outra saída senão a educação, processo a longo prazo, mas duradouro, eficiente, através de cursos, campanhas informativas, publicações instrutivas, palestras etc. Por trás de todo esse consumo indiscriminado de drogas está o egoísmo, pois ele é o grande algoz, está presente na raiz de todas as viciações, já afirmara Allan Kardec. Segundo o pensador espírita Jaci Regis, em Comportamento Espírita (cap. 5), esse mesmo egoísmo “comercializa a droga, a distribui entre crianças e jovens. Doura a pílula amarga do cigarro, pela fantasia da propaganda, forçando a imitação pelos mais fracos. Torna elegante e parte integrante da alegria e da dor, o consumo de bebidas de alto teor alcoólico. Monta cassinos, cria loterias, o jogo do bicho, o carteado.”
      No entanto, não é somente pelo viés do egoísmo que as pessoas usam drogas. Ora, por que então as pessoas se drogam? Por que somente alguns se viciam?
Cada qual tem suas motivações particulares, singulares. Normalmente, os viciados são pessoas com um “buraco negro” na alma, extremamente carentes, frágeis, existencialmente vazias, com graves problemas reencarnatórios, familiares, pessoais, dominadas pelo estresse dos dias de hoje. A droga preenche esse vazio e leva ao vício, à necessidade mental, psicológica de sair de si mesmo, de se autodestruir, de se entrar em um mundinho particular, todo seu. É a fuga existencial. O dependente químico é, sobretudo, uma pessoa carente, incapaz de se autoadministrar. E eles, felizmente, são minoria. A grande maioria, mesmo experimentando, não estaciona no uso irresponsável de substâncias tóxicas.
       Não se pode colocar no mesmo balaio o traficante e o usuário. É por isso que, em termos imediatos, somos totalmente a favor da descriminalização, de uma alteração radical na legislação para o consumo de drogas leves, como a maconha, por exemplo, a mais popular de todas elas. A experiência de países como a Holanda, Portugal e, mais recentemente, a Argentina, precisa ser considerada. A legalização de algumas substâncias, como o são o álcool e o fumo, talvez seja uma opção, a fim de se tentar acabar com o mercado negro, com o império do tráfico. O usuário não será mais tratado como criminoso.
    Para o Espiritismo, o maior prejuízo no uso indiscriminado de drogas é a perda da liberdade: “Já não é senhor do seu pensamento aquele cuja inteligência se ache turbada por uma causa qualquer e, desde então, já não tem liberdade. Essa aberração constitui muitas vezes uma punição para o Espírito que, porventura, tenha sido, noutra existência, fútil e orgulhoso, ou tenha feito mau uso de suas faculdades.” (O Livro dos Espíritos, q. 847 - FEB. Grifo nosso).
      Em nosso entender, como diz o provérbio latino: “O abuso não desmerece o uso”. Se há os que abusam do álcool, isto não significa que não se possa apreciar um bom vinho, uma champanhe, uma boa cachaça, com moderação e bom senso. Se há aqueles que arrebentam seu pulmão fumando um ou mais de dois maços de cigarro por dia, isto não quer dizer que não possamos apreciar um bom charuto cubano ou baiano, um cachimbo com fumo bem aromatizado ou mesmo um cigarrinho de palha de milho, com um bom fumo de rolo, lá do Tietê.
      Nesta polêmica questão, repetimos, o melhor caminho é a educação, moral e informativa. Neste sentido, a contribuição ética do Espiritismo é inestimável, extremamente rica, a fim de se buscar uma saída para esse flagelo em que se transformou o consumo de drogas em todo o mundo.









     O trabalho dos laicos
       As publicações “CCEPA Opinião” e “América Espírita” mostram o interessante e instrutivo trabalho dos espíritas laicos, ou seja, não religiosos.
      O fato de considerar-me um espírita religioso não me impede de apreciar os excelentes trabalhos que são produzidos pela CEPA.  Nas obras dos argentinos Manuel Porteiro e Humberto Mariotti, do venezuelano Jon Aizpúrua e dos brasileiros Jaci Regis e Milton Medran Moreira a base kardecista prevalece. Evitam todos os rituais e a idolatria a Jesus. Já assisti a palestras nas quais as nossas tradicionais preces de abertura e encerramento não foram efetuadas.   Já li várias críticas construtivas ao Movimento Espírita realizadas por eles. Gostam de debates. As federações fazem “silêncio” sobre eles que são muito ativos em alguns centros de Santos e São Paulo. Conheço-os desde os anos 80, já participei de Congressos e Simpósios, tenho vários amigos entre eles.
Gilberto Guimarães da Silva – Guarulhos/SP.

     O papel de Kardec
         Reporto-me à  observação do prof. Antonio Baracat (Opinião do Leitor, março 2011), em que declara que a Doutrina Espírita é obra dos espíritos  e transcrevo escritos de Allan Kardec em "Obras Póstumas" (IDE) Projeto  1868, pag. 329: "...ora, creio que seria
útil que aquele que fundou a teoria pudesse dar-lhe, ao mesmo tempo, o impulso, porque teria mais unidade." E, adiante, na pag. 260: "Minha primeira iniciação no Espiritismo” : “ ... cabe ao observador formar o conjunto com a  ajuda de documentos recolhidos de diferentes lados, colecionados , coordenados e controlados uns pelos outro. Agi, pois, com os Espíritos, como teria feito como os homens; foram para mim, desde o menor ao maior, meios de me informar e não REVELADORES PREDESTINADOS”. (grifo de AK) Abraços.
 João José Guedes - Balneário Cassino, Rio Grande/RS.

   O Alto Preço da Irresponsabilidade
      Li com interesse o artigo de Roberto Rufo (Enfoque/abril).  O tema mobiliza minhas ideias há longo tempo. Entre os políticos que advogam a liberação e descriminalização do uso de drogas há alguns cuja opinião é certamente respeitável, mas há outros cujo julgamento está comprometido por serem, sabidamente, usuários de drogas.
    O  tráfico de drogas escancara as mazelas sócio-culturais brasileiras, não só demonstrando que a ilusão sobre o caráter dos brasileiros em situação de miséria visto como submisso e cordial não passa de embuste. E que boa parte dos filhos da classe média nacional comporta-se de modo selvagem, faltando-lhe as mínimas noções de educação para a vida que as famílias deveriam fornecer. Imaginar que a liberação ao uso de drogas resolva o problema do tráfico é de uma ingenuidade assustadora. Com que justificativa ética seria passado o trabalho sujo de sustentar o uso recreacional de drogas como cannabis, cocaína, morfina, heroína, crack, para profissionais médicos, farmacêuticos, além de donos de farmácia, ou membros do governo federal? Quais drogas seriam liberadas? Quais seriam os critérios, se mesmo a cannabis sativa, considerada “leve“ pela mídia pouco esclarecida, é agente desencadeador de esquizofrenia em indivíduos psiquicamente predispostos? Ou as drogas seriam receitadas e vendidas apenas como algum tipo de tratamento, se é que é possível tratar drogadição sem um doloroso processo de abstinência? Neste caso, a multidão de pessoas interessadas  simplesmente no uso recreacional buscaria adquirir as drogas no “mercado negro“, e o provável é que os profissionais envolvidos, incluindo o staff federal, viessem a corromper-se e manter-se-ia o tráfico. E sabendo que muitos dos consumidores são adolescentes, como iria se justificar a venda para esta população? Manter-se-ia o tráfico ilegal para os mais jovens, a não ser que algum maluco proponha que seja liberada droga para adolescentes. Um agente de saúde prescreveria drogas para jovens em idade escolar?       Não entendo como uma proposta assim possa surgir entre expoentes da política brasileira, que deveriam estar lutando para melhorar o nível do país, ao invés de tentar mascarar a realidade, empurrando o drama da selvageria cultural brasileira para debaixo do tapete.
 Dr. Jorge Luiz dos Santos, M.D. e Ph.D., pediatra e gastroenterologista pediátrico – Porto Alegre/RS.

     A atuação espírita no Conselho Nacional de Saúde e na imprensa

          Fico muito feliz com a participação efetiva dos espíritas no mundo dos vivo. Ações como essa no CNS, com a brilhante Sandra Regis à frente, aliada a editoriais de bom senso espírita no jornal Zero Hora, fazem parte do trabalho de atuarmos num mundo justo e igual.
Parabéns!
 Roberto Rufo - Santos/SP.