sexta-feira, 6 de agosto de 2010

OPINIÃO - ANO XVI - N° 177 - AGOSTO 2010


A questão da identidade espírita

Amigos da CEPA reúnem-se no II Encontro Nacional da CEPABrasil, de 3 a 6 de setembro, em Bento Gonçalves/RS, para discutir o delicado tema da identidade do espiritismo.

Quantos espíritas tem o Brasil?
Está começando mais um censo demográfico no Brasil. Teoricamente se saberá quantos espíritas existem no país. No censo de 2.000 eram 2.337.432. Nada mais que 1,38% da população. A Federação Espírita Brasileira, principal órgão congregador das instituições espíritas no país, defende a existência de um número bem maior. Hoje estima em 20 milhões de seguidores e simpatizantes da doutrina sistematizada por Kardec, o que representaria cerca de 10% da população a ser aferida no censo.

Dependendo dos parâmetros aceitos pela FEB para identificar quem é espírita, é possível que o número supere aquela estimativa. Com certeza, uma quantidade bem maior de brasileiros frequenta algum dos 12 mil centros espíritas filiados à FEB e milhares de outros não federados. A questão, no entanto, é que, provavelmente, a maioria dos frequentadores das instituições espíritas não se enquadre em uma definição teórica da condição de espírita. Talvez, inclusive, muitos colaboradores e dirigentes dessas instituições sequer aceitem todos os pressupostos teóricos postos por Allan Kardec como fundamentais da doutrina e façam deles uma mescla com dogmas das religiões cristãs.
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Um evento para discutir a questão da identidade espírita
A Associação Brasileira de Delegados e Amigos da CEPA – entidade que sustenta, no Brasil, o pensamento da Confederação Espírita Pan-Americana – discute a delicada questão da identidade espírita no II Encontro Nacional da CEPABrasil, de 3 a 6 de Setembro, no Hotel Dall’Onder, em Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha.

O Encontro, aberto à participação de todos os interessados no tema, já está com sua lotação quase esgotada. Começará na noite de 3 de setembro, às 20 h, com uma conferência do advogado e jornalista Milton R. Medran Moreira, com o tema “Espiritismo, dos Fundamentos às Consequências”, e findará na manhã de 6/9, com um painel versando justamente sobre a “Identidade do Espiritismo”, com a participação de Ademar Arthur Chioro dos Reis (médico, Santos/SP), Adão Araújo (empresário, Bento Gonçalves/RS), Marcelo Henrique Pereira (jurista, São José/SC), Luiz Signates (professor universitário, Goiânia/GO) e Cristian Macedo (historiador, Porto Alegre/RS). Nos três dias de sua realização, o Encontro apresentará conferências, painéis e mesas-redondas sobre o espiritismo, nos seus enfoques científicos, filosóficos e morais, com a participação de pensadores espíritas de diferentes Estados brasileiros e uma delegação de cerca de 20 argentinos, liderados pelo presidente da CEPA, Dante López (Rafaela/AR).
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Nossa Opinião

Antes que percamos a identidade
Inegável a forte influência do espiritismo no quadro de “crenças” do Brasil. Pesquisa Datafolha, em 2007, por exemplo, atesta que 44% dos católicos brasileiros aceitam a reencarnação, um princípio aqui popularizado pelo espiritismo e que contraria os dogmas da Igreja. Em compensação, a mesma pesquisa aponta que um universo de 64% de pessoas que se declararam “espíritas” disse crer na virgindade de Maria, mãe de Jesus, dogma católico incompatível com a racionalidade espírita. Quase a totalidade dos “espíritas” pesquisados (95%) declarou-se crente da ressurreição de Jesus, e 33% deles admitem o dogma cristão da existência de Satanás.
Tudo isso confirma que o espiritismo é uma forte presença no imaginário popular brasileiro, sem, no entanto, se constituir, em meio a essa grande massa de “crentes”, numa clara e definida proposta científica e filosófica, nos moldes estabelecidos por Allan Kardec.
Discutir isso de forma aberta, sem o preconceito da excludência ou a pretensão da titularidade da “pureza doutrinária”, é um desafio para o movimento espírita brasileiro. Até onde se podem reconhecer as naturais diferenças dos distintos segmentos, guardando a identidade comum? De quais elementos constitutivos é feito o laço que deve unir todos os espíritas?
A Associação Brasileira de Delegados e Amigos da CEPA, entidade promotora, e o Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, que organiza o evento, com a colaboração do Lar da Caridade, de Bento Gonçalves/RS , entendem que é hora de se aceitar esse desafio, antes que percamos inteiramente nossa identidade. (A Redação)
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Editorial
Um convidado muito especial
“Já podemos pensar laicamente o Espiritismo, sem angústias, nem sentimentos de culpa por não sermos mais religiosos. Sentimo-nos comprometidos com a formação de espaços destinados a expandir esse sentimento comum para que neles se exercite e se aprimore a consciência espírita livre, a cultura espírita”.
(Krishnamurti de Carvalho Dias - 1930/2001 - em “A Descoberta do Espírito”)

Nossa leitora Denize de Assis (Guarulhos/SP) enviou, mês passado, à redação de Opinião mensagem recordando que em 18 de julho, se vivo fosse, o pensador espírita carioca Krishnamurti de Carvalho Dias, nascido naquela data de 1930, completaria 80 anos. Sugeria escrevêssemos algo a respeito disso.

Às vésperas da realização do II Encontro Nacional da CEPABrasil (de 3 a 6 de setembro) mais do que registrar o aniversário de seu nascimento, cabe prestar uma homenagem de reconhecimento e de profundo afeto a “Krishna”, como era, carinhosamente, chamado por seus amigos. Ele foi, sem dúvida, uma das grandes vozes a alertar para a necessidade de se conceder melhor precisão à questão da identidade espírita, tema central do Encontro dos Amigos da CEPA do Brasil, em Bento Gonçalves, no próximo mês. Mais do que isso, foi o precursor daquilo que os amigos da CEPA propõem, hoje: um movimento espírita aberto à liberdade de pensamento e ancorado na proposta, também livremente construída, de Allan Kardec. No opúsculo “Roustaing”, lançado no Congresso da CEPA, em 2000, em Porto Alegre, Krishnamurti deixou esta lúcida mensagem:

“Com protestos de sincero respeito pelos religiosos do movimento, sejam roustainguistas ou não, com pensamentos de paz endereçados ao respeitável Roustaing, aguardo confiante em que um dia os espíritas já libertos da religiosidade e decididamente compromissados com Rivail, ainda façam isso: organizem-se em um segmento padrão de um modo não federativo, mas meramente cooperativo, consensualista, isto é, onde ninguém subordine nem seja subordinado a ninguém em pirâmides de poder, mas todos cooperem uns com os outros, horizontalmente, igualitariamente, formando um contingente alternativo ao outro, ao sistema federativo, cada qual reunindo de modo pacífico e harmonioso, as duas compreensões espíritas: os ainda religiosos e os já libertos dessa limitação, todos convivendo lado a lado”.

Nas suas “palavras finais” do trabalho “A Hora e a Vez do Segmento Padrão”, (www.cepanet.org) apresentado no Congresso de Porto Alegre, três meses antes de sua desencarnação, Krishna declarava “total e absoluta solidariedade” ao “segmento padrão” que identificava na CEPA, generosamente qualificada por ele como “luminosa”.
Luminoso é ele. Luminosas suas propostas de união e de cooperação de todos os espíritas a partir das bases fincadas por Kardec, fundamento irremovível da genuína identidade espírita. Outro, aliás, não é o objetivo do Encontro de Bento Gonçalves.

O XVIII Congresso Espírita Pan-Americano (Porto Alegre/2000), contra o qual setores organizados do movimento espírita investiram tão duramente, realizou-se em momento onde, talvez, essa consciência ainda não havia desabrochado. Busca-se, no evento de Bento Gonçalves consolidar essa proposta de um espiritismo progressista, livre-pensador, não atrelado a hierarquias religiosas, afinado com os novos tempos, capaz de tornar viável o lema kardeciano de “trabalho, solidariedade e tolerância”.
Cremos, sinceramente, ser isso possível. Mais do que possível, inadiável. Mais do que inadiável, indispensável à própria sobrevivência do espiritismo. Krishnamurti de Carvalho Dias sonhava com esse estágio. Adubada e energizada de novos nutrientes, a cepa da videira espírita há de ser revigorada, neste evento, na “capital brasileira da uva e do vinho”. Por tudo isso, ”Krishna”, com certeza, estará lá. É nosso convidado muito especial.

Krishnamurti foi uma das grandes vozes a alertar para a necessidade de se conceder melhor precisão à questão da identidade espírita.
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Opinião em Tópicos
Milton Medran Moreira

No tempo da palmatória
Não é do meu tempo. Estou ficando antigo, mas nem tanto assim. Lembro, porém, do que meus pais contavam sobre a escola no tempo deles. A palmatória era, então, instrumento disciplinar oficial em todas as salas de aula. A qualquer ato de indisciplina do aluno, o professor chamava-o ali em frente e, diante de todos os colegas, aplicava-lhe tantos golpes nas palmas das mãos quanto mais grave fosse a indisciplina.
Sem ter conhecido a palmatória, testemunhei, no seminário onde me internei dos 9 aos 15 anos, cenas que hoje levariam o padre-prefeito à cadeia, por crime de tortura a incapazes. Um dos castigos que infligia a seus tutelados era a fricção de urtiga no dorso nu. Enquanto a meninada trabalhava na roça, ele os vigiava, empunhando um galho daquela erva brava que, em contato com a pele, produz uma terrível ardência. Sem qualquer cerimônia, usava-a contra quem fizesse corpo mole no trabalho.
Nunca cheguei a sofrer essa humilhação. Mas, como penitência por alguns pecados declarados no confessionário, lembro de ter ficado de joelhos sobre grãos de milho, na sala geral de estudos, em frente a todos os demais seminaristas.

Palmadinha no bumbum
Recordo isso no momento em que é enviado ao Congresso Nacional projeto de lei que proíbe qualquer castigo físico ou humilhante, não mais na escola, onde há muito foi abolido (hoje são os alunos que torturam professores), mas no ambiente doméstico. A palmadinha no bumbum, prática a que a maioria dos pais, em todos os tempos, recorreu, como um corretivo leve, mas presumivelmente eficaz, estaria para entrar na história com o mesmo conceito de atraso e de barbárie que hoje atribuímos à palmatória do tempo de meus pais ou à urtiga e aos grãos de milho que torturavam dorso ou joelhos dos seminaristas de meu tempo.
Quando se referia aos trabalhos que teve com a educação de seus nove filhos, minha mãe costumava dizer que em mim, que sempre tivera um temperamento dócil, ela nunca precisou dar sequer uma palmada. A expressão “nunca precisou dar” permite compreender a real função geralmente atribuída à palmadinha no bumbum: a de derradeiro recurso, quando todos os outros tenham falhado. A nova legislação, se aprovada, sequer permitirá esse recurso, até aqui, tido como último.

A função da lei
Pode parecer radical demais a medida. Especialmente quando, como no caso de minha mãe, a palmadinha só era dada, de fato, como recurso derradeiro. E, isto é o mais importante, sem qualquer sentimento de raiva, mas com o objetivo único de educar.
Assim mesmo, acho que devemos apoiar a iniciativa. Toda a lei se reveste do chamado caráter geral e abstrato. Geral, porque atinge a todos, indistintamente. Abstrato porque não é feita para contemplar a situação concreta de uma pessoa, mas visa a disciplinar todas as situações enquadradas, teoricamente, numa hipótese. Não há dúvida de que, sob o pretexto de educar, muitos pais abusam dos meios corretivos e descarregam em seus filhos toda sua agressividade e todas suas frustrações. Para ser pai e mãe não se exigem concretamente quaisquer condições de maturidade psicológica ou de equilíbrio emocional. A lei poderá, de alguma forma, servir de freio, pela ameaça da sanção, a pais e mães despreparados para o delicado ofício de educar.

O diálogo
Tão mais complexo se apresenta o ato de educar quanto melhor formos capazes de avaliar o patrimônio trazido pelo educando de outras experiências de vida. Minha mãe, que não tinha qualquer noção acerca da preexistência do espírito, entendia, no entanto, que filhos apresentam diferenças inatas que exigem distinção de tratamento. No atual estágio do conhecimento humano, não se poderia, ainda, colocar esse paradigma, genuinamente espírita, como pressuposto da educação. A uma conclusão, no entanto, podemos todos chegar, diante do avanço dos conceitos da psicologia, da pedagogia e do humanismo: nada substitui o diálogo no processo da formação do caráter e aquisição de valores éticos. O castigo físico foi tido, por longo tempo, como a forma mais eficiente de corrigir defeitos e educar. Mas deixa marcas que, a médio e longo prazo, deformam, sem, de fato, contribuir para a educação do indivíduo. O projeto de lei ora em discussão pode ser, em nosso país, o prelúdio de um novo tempo, no sempre delicado campo das relações pais e filhos.
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Notícias
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Grupo do CCEPA estuda tese acadêmica
sobre experiências mediúnicas
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O Grupo de Estudo coordenado por Valdir Ahlert, que se reúne às quintas-feiras à noite, no Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, durante os três últimos meses ocupou-se de estudar uma tese acadêmica apresentada pelo médico psiquiatra Alexander Moreira de Almeida, do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. O trabalho “Fenomenologia das Experiências Mediúnicas, Perfil e Psicopatologia de Médiuns Espíritas” foi apresentado para a obtenção do título de Doutor em Ciências, na área de Psiquiatria. O relato do estudo, pelo grupo do CCEPA, foi feito no auditório do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, na noite de 14/7 pelos integrantes do mesmo: Valdir Ahlert, Magali Ceroni Guerra, Walmir Gambôa Schinoff, Beatriz Urdangarin, Magnólia da Rosa, Luiz Almir Pinheiro Almeida e Ivânio Rogério Oliveira.

Um dos objetivos do trabalho do Dr, Alexander foi estudar o perfil sociodemográfico e a saúde mental de 115 médiuns espíritas da cidade de São Paulo, analisando o histórico de suas experiências mediúnicas e sua adequação social. A conclusão da pesquisa mostrou que, ao contrário do afirmado em algum tipo de literatura científica, os médiuns estudados, tem escolaridade e renda acima da média da população e baixo nível de transtorno dissociativo ou psicótico. Após a apresentação da tese, o Dr.Alexander Moreira de Almeida concedeu entrevista à Folha Espírita (São Paulo/agosto 2005), onde destaca o dado apresentado em pesquisas de opinião segundo o qual, a adesão ao espiritismo no Brasil tem crescido na medida em que aumenta o nível de escolaridade da população e que, dentre os segmentos religiosos no Brasil, o espiritismo é o que apresenta os melhores níveis sociais e de escolaridade. Na entrevista, Alexander também destaca que muitos intelectuais difundiram a ideia, “sem bases em pesquisas sólidas, de que religiosidade era algo associado à ignorância, culpa, infelicidade e imaturidade psicológica”, mas, destaca, com dados de sua pesquisa com médiuns espíritas, que a prática da mediunidade, no meio espírita, “está associada e melhores indicadores de saúde e bem-estar”. Interessados em conhecer a íntegra da tese podem encontrá-la em http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/5/5142/tde-12042005-160501/ .
Na foto, Luiz Almir, Magnólia, Magali, Valdir (coordenador) e Ivânio, integrantes do Grupo de Estudos que, juntamente com Beatriz e Walmir, estudou a tese de doutorado de Alexander.
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Em setembro não tem conferência. Tem Encontro em Bento
Como sempre acontece, na primeira segunda-feira do mês, neste 2 de agosto, temos conferência pública no Centro Cultural Espírita de Porto Alegre (20h30min – Rua Botafogo, 678). Rogério Hipólito Feijó Pereira é nosso convidado para falar sobre “Estrutura do Cérebro – Comando do Espírito”.
Em setembro, excepcionalmente, não haverá conferência. A equipe do CCEPA estará em Bento Gonçalves, participando do II Encontro Nacional da CEPABrasil, que enfoca a temática central “Espiritismo – A Questão da Identidade”, com a participação de pensadores espíritas de diversos Estados brasileiros. Há, ainda, poucas vagas para esse evento. Interessados podem procurar o CCEPA ou comunicar-se com Tereza, pelo e-mail terezasama@hotmail.com.br
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Enfoque

A Lenda do Chico/Kardec
Eugenio Lara
Arquiteto e designer gráfico, membro-fundador do Centro de Pesquisa e Documentação Espírita (CPDoc), fundador e editor do site Pense – Pensamento Social Espírita [www.viasantos.com/pense]. Autor dos livros em edição digital Racismo e Espiritismo, Milenarismo e Espiritismo e Os Celtas e o Espiritismo.
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"Quando a lenda se torna realidade, publica-se a lenda".
[Frase do editor do jornal “Shinbone Star” ao senador Ransom Stoddard, personagens do filme “Quem Matou o Facínora” (1961), de John Ford]
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Há lendas de todos os tipos: lendas urbanas, religiosas, folclóricas, históricas. Mas lenda espírita é algo que não havia imaginado. Vejo que isso existe mesmo e, amiúde, surge e ressurge na imprensa espírita, na internet, no cotidiano do movimento espírita. Oradores, médiuns e dirigentes espíritas são os grandes mentores desse tipo de coisa. Mas afinal, o que é uma lenda? E lenda espírita, existe isso?
Lenda é uma história fantasiosa, algo bem próximo do mito, parte integrante da tradição de todos os povos. Da lenda para a realidade, a distância é abissal, incomensurável. Quem convive com o poder e o vivencia sabe muito bem disso. Criam-se lendas, mitos, coisa folclórica a todo instante. A versão distorcida da realidade vira lenda. Uma ideia errônea, uma interpretação deturpada, enviesada dos fatos, se for sistematicamente repetida, de modo sutil ou insidioso, com o tempo acaba adquirindo o status de verdade. A mídia mal-intencionada usa e abusa desse recurso e os fofoqueiros de plantão sabem bem como isto funciona. A imprensa marrom sobrevive às custas desse tipo de expediente.
O mito e a lenda, em seu sentido mais nefasto, surgem quase como a fofoca, o mexerico, a maledicência, a informação plantada, o factóide. É a filtragem criada pelo imaginário. Um processo complexo que desafia antropólogos e historiadores.
Já a lenda legítima, que se desenvolve ao longo do tempo, tanto quanto o mito, esta sim é coisa séria. Historiadores, sociólogos e antropólogos, notadamente os estudiosos da religião, procuram decifrar os mitos e lendas de determinada civilização. O formato mitológico, mítico de interpretação da realidade, serve então de estudo na montagem de um quebra-cabeça que os aproxime da verdade dos fatos. Trata-se de um objeto de estudo fundamental para o entendimento de nossa própria história.
Enquanto que a lenda inventada, tatuada, plantada, concebida e gestada na mente de pessoas fascinadas, sedentas de poder e de glória, de legitimidade, torna-se perigosa, desprezível, porque pouco tem de inocência, de boa intenção. Desse tipo de gente, o umbral está cheio...
Triste constatar que uma nova lenda espírita ressurge no seio do espiritismo. A de que Chico Xavier tenha sido a reencarnação de Allan Kardec, confirmando assim a profecia de seu então protetor, o espírito Zéfiro, que afirmou ao fundador do espiritismo, em 1857, que ele reencarnaria no século vindouro, no século 20.
Não há indícios de que Rivail tenha reencarnado no século passado. Todavia, a quantidade de candidatos a esse posto é enorme. Eu mesmo já conheci uma meia dúzia dessa gente mentirosa e arrogante, que se acha o Druida de Lyon numa nova edição, a fim de granjear para suas ideias obtusas o status de filosofia respeitável. E para não ficar somente no lero-lero, cito duas personalidades não muito conhecidas. Uma delas surgiu no ABC e chama-se Osvaldo Polidoro (1910-2000), o criador do chamado Espiritismo Divinista. Toda sua doutrina se alicerça na lenda de que Polidoro tenha sido a reencarnação de Kardec. O que Herculano Pires já escreveu sobre essa personalidade atormentada foi suficiente. Não é necessário perder tempo com ela. Cito apenas como informação.
Um outro caso, surgido em Niterói-RJ, é o do filho de Kardec. Sim, isso mesmo, o filho de Allan Kardec reencarnado, cuja primeira obra denomina-se Eu Conheci Allan Kardec Reencarnado. Trata-se de Erasto de Carvalho Prestes (1926-2009), a quem certa vez recebi em minha casa e participou de algumas edições do Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita. Ele considera seu pai como o próprio Kardec, que deixou uma obra ainda por ser publicada. E o será, segundo ele, lançada no momento propício, conforme a vontade do “plano espiritual superior”...
Existem outros kardequinhos candidatos à notoriedade, à legitimidade artificial, criadores de doutrinas, de sistemas e que, acobertados por uma falsa humildade, se escondem por trás de supostas revelações de espíritos tão confusos e pseudossábios quanto eles. Essa de que o Chico seja Kardec é de doer. Se o jornalista Boris Casoy fosse espírita ele bradaria o seu bordão: “isto é uma vergonha!”.
Curiosamente, em torno dessa polêmica, poucos ousaram perguntar ao Chico se ele era realmente o Kardec. E quando perguntaram, negou veementemente: “Não, não sou. Não tenho nenhuma semelhança com aquele homem corajoso e forte”. Esse testemunho encontra-se em um livro escrito pelo estudioso e escritor espírita, Wilson Garcia, intitulado Chico, Você é Kardec? que praticamente esgota o assunto e coloca uma pá de cal nessa contenda ridícula.
E, por infortúnio do saudoso Freitas Nobre, um dos maiores mentores dessa nova lenda é justamente sua viúva, Marlene Rossi Severino Nobre. É difícil acreditar que uma pessoa que sempre se mostrou plena de seriedade acredite nessa tolice. A folha de serviços desta companheira é admirável, no entanto, ela praticamente joga na sarjeta seu currículo espírita em prol dessa lenda cretina e inútil.
Nessas situações, pouco importam os fatos. Pouco importa se Chico Xavier negou ser o Kardec reencarnado. Pouco importa se a lenda é mais interessante do que o fato. Já que é assim, fiquemos com a lenda. É o que essa gente faz.
Por ignorância ou interesse suspeito, os espíritas foram, ao longo do tempo, abraçando lendas e mitos em torno de Kardec, dos espíritos e do espiritismo. É um processo sociológico e antropológico complexo de se apreender. Todavia, quando alguém tenta demonstrar o contrário da lenda ou do mito, o que há é a marginalização, o despeito ou mesmo a perseguição silenciosa e “fraterna”, tudo em nome da religião, do evangelho, do amor e da caridade, e que assim seja...
Reconheço que as palavras nesse breve artigo são incisivas. Mas para lidar com mitos e lendas inventadas é necessário mesmo ser um pouco áspero. Senão essa coisa cria raiz, começa a germinar e se não cortarmos a cabeça logo de cara, o que teremos é um novo Ovo da Serpente. Aí então será tarde demais...
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Opinião do Leitor

O Autor da Doutrina dos Espíritos
Parabéns ao Augusto Araújo pelo poder de síntese e argumentação no artigo “Allan Kardec: O Autor da Doutrina dos Espíritos?” (Opinião 176). A analogia entre os fragmentos dos filósofos gregos da antiguidade e o trabalho de Kardec nos obriga rever o conceito comum de Filosofia. Ao dimensionar Kardec como autor da obra espírita, o artigo nos remete a sua prática de manipulação de ideias coletivas. Ideias coletivas não são integralmente de ninguém, mas representativas de um momento histórico e ambiente social determinados. Desta forma, a própria intenção kardequiana de encontrar a opinião universal dos Espíritos fica redimensionada e negada. Se Kardec compartilhasse um olhar mais relativista do mundo, próprio do século XXI pós-moderno, talvez colocasse outro título e traçasse outra meta para seu empreendimento.

Leopoldo Daré ,médico, Ribeirão Preto – SP.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

OPINIÃO - ANO XVI - N° 176 - JULHO 2010

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Uberaba – “a cidade dos espíritos”

Com o título de “A Cidade dos Espíritos”, a revista Veja de número 2170, de 23.6.2010, publicou reportagem sobre as peregrinações a Uberaba feitas por pessoas que desejam comunicar-se com familiares desencarnados. A matéria também comenta divergências entre espíritas uberabenses sobre possíveis comunicações “post-mortem” atribuídas a Chico Xavier.

Mais centros espíritas que igrejas
Apontada pela revista Veja como a “capital mundial do espiritismo”, a cidade mineira de Uberaba, onde Francisco Cândido Xavier viveu a maior parte de sua vida, teria hoje mais de 100 centros espíritas e apenas 54 igrejas católicas. Referindo-se ao espiritismo como uma doutrina “cuja característica mais divulgada é a possibilidade da comunicação entre vivos e mortos”, a revista destaca que Uberaba, mesmo depois da morte de Chico, é referência para quem busca estabelecer “uma ponte com a vida após a morte”. Descreve que “nos fins de semana, ônibus de visitantes circulam pela cidade à procura das sessões públicas de psicografia”. Sobre o perfil dessas pessoas, diz a matéria: “Quem vai aos centros espíritas quase sempre passou por grande trauma envolvendo a morte”. Geralmente perderam “de forma trágica ou inesperada um filho, os pais ou um irmão”. Classifica a comunicação como um “ritual”, onde “o médium se comunica com esses parentes falecidos, recebe deles uma mensagem e a transcreve no papel”.
Sobre o fato de algumas cartas trazerem referências a situações que seriam apenas do conhecimento de parentes, a revista coloca dúvida. Os repórteres teriam testemunhado que os médiuns fazem “previamente uma pequena entrevista com o interessado em receber a carta”. "É um encontro muito rápido, não mais de um ou dois minutos”, diz o médium Carlos Antônio Baccelli, do Lar Espírita Pedro e Paulo, um dos mais visitados pelos turistas. Para ele, isso é necessário para estabelecer a sintonia, e “Chico também tinha esse tipo de conversa preliminar”.

Chico Xavier estaria se comunicando?
A polêmica divide espíritas de Uberaba
Outro ponto destacado pela matéria de Veja refere-se a possíveis mensagens enviadas por Chico Xavier/espírito. Desde sua desencarnação, em junho de 2002, diversos médiuns afirmam receber mensagens suas, em várias partes do país. Entre estes estão Celso de Almeida e Carlos Bacelli, dirigentes de centros espíritas de Uberaba, ambos com livros publicados contendo presumíveis mensagens de Chico. No entanto, o filho adotivo deste, Euripedes Higino dos Reis, nega autenticidade a essas supostas psicografias. Relata que seu pai adotivo fez com ele um pacto segundo o qual qualquer mensagem que enviasse, após sua morte, teria um código, só conhecido por Eurípedes e por duas outras testemunhas presentes, quando da conversa entre ambos. Para Eurípedes nenhuma das mensagens até agora publicadas contém esse código. Outros, no entanto, sustentam que espíritos superiores, do nível de Francisco Cândido Xavier, não emitem códigos secretos e que a forma de se reconhecer a autenticidade de suas possíveis comunicações, segundo a doutrina espírita, está na superioridade de seu conteúdo. A polêmica divide as lideranças espíritas de Uberaba, classificada pela reportagem como “a cidade dos espíritos”.

Nossa opinião

Os peregrinos de Uberaba
Inegável a importância do trabalho entre nós desenvolvido por Chico Xavier. Podendo, tal como o fez no início de sua trajetória mediúnica, colocar seus dotes a serviço da melhor literatura, atraindo a atenção de exigentes críticos, optou, no entanto, por dedicar-se, preferentemente, à consoladora tarefa da intermediação de mensagens de caráter pessoal. Amenizou, com isso, a dor de centenas ou milhares de corações.
Pouco provável, no entanto, que uma centena de centros espíritas, na mesma cidade, passe a contar, de repente, com um imenso contingente de médiuns dotados da mesma e rara faculdade. Especialmente se considerarmos as naturais dificuldades de comunicação de espíritos chegados a outras dimensões em circunstâncias igualmente trágicas. A reportagem de Veja sugere que, em Uberaba, se está praticando uma espécie de “espetáculo” mediúnico, em nível de “atacado” e com fins proselitistas. Seria lamentável e dolorosa para o espiritismo a confirmação dessa suspeita. Mesmo que não configurada a hipótese, no entanto, o vai-e-vem de milhares de pessoas peregrinando por centros espíritas com o objetivo único de “ouvir os mortos” já sinaliza uma grave distorção dos verdadeiros fins de uma instituição espírita. Leva, ademais, e com facilidade, a que se distorça a própria identidade cultural do espiritismo, a se ver dos conceitos emitidos pela reportagem. Justo agora, quando outros setores do espiritismo, como aqueles que se reunirão no II Encontro Nacional da CEPABRASIL (3 a 6 de setembro próximo em Bento Gonçalves/RS), investem fundo na tarefa de estudar, debater e, talvez, propor o que entendam seja a genuína identidade do espiritismo!
Ambientes coletivos assim, onde haja, provavelmente, carência de vigilância e exacerbado mediunismo, descurando-se dos demais e superiores valores espíritas, favorecem o personalismo e o polemismo estéril, circunstâncias igualmente sugeridas pela reportagem.
Chico, onde estiver, não deve estar gostando nada disso!
 (A Redação).

Editorial

Ficha limpa – um imperativo ético

O homem já reformou muitas leis e ainda reformará muitas outras. Espera!
(resposta dos espíritos à questão 797 de O Livro dos Espíritos)

A democracia brasileira avançou um pouquinho mais, no mês passado. Nossos ideais de ética e de integridade na política, igualmente, experimentaram, em tese, um avanço. Foi aprovada legislação vedando a candidatura a cargos públicos de pessoas que já tenham sido condenadas criminalmente em decisão prolatada ou confirmada por algum órgão jurisdicional colegiado. É o que se convencionou denominar de “ficha limpa”, exigível de candidatos a cargos eletivos.
É verdade que, no mesmo momento em que é redigido este editorial, a vedação começa a receber, em juízo, interpretações mais brandas, em nome do princípio da presunção de inocência aplicável a condenações ainda sem trânsito em julgado. Vale, no entanto, o esforço e a repercussão no legislativo de um anseio de todos quantos aspiram por uma política honesta, exercida por homens realmente probos.
O Brasil tem passado por experiências amargas por conta da corrupção que campeia em amplos setores políticos. É preciso dispormos de uma legislação capaz de assegurar, tanto quanto possível, que só homens e mulheres de moral ilibada e honestamente voltados ao bem comum, possam submeter seus nomes a cargos eletivos. O Livro dos Espíritos lamenta o fato de que, normalmente, as leis humanas “mais se destinam a punir o mal depois de feito, do que a cortar a raiz do mal” (q.796). No caso brasileiro, a situação é ainda pior. O que se tem presenciado é que, nem depois de praticados, os grandes crimes políticos têm recebido punição. Nossa legislação favorece a procrastinação dos julgamentos, retardando ou tornando infindável sua trajetória. A impunidade, infelizmente, tem servido de estímulo a que políticos desonestos sigam sua trajetória pública.
Mas também é verdade que se não houver corrupção por parte do eleitor não haverá igualmente lugar para políticos corruptos se elegerem. Por isso mesmo, ainda que a legislação e os processos moralizadores no âmbito público tardem, restará sempre a oportunidade de o eleitor fazer a sua criteriosa seleção, elegendo somente candidatos detentores, subjetiva e objetivamente, de “ficha limpa”. Essa condição, a de deter, na ordem pessoal ou pública, uma ficha realmente limpa não é atribuível apenas aos políticos. É exigência ética de todo o cidadão. E a ética está na base do processo democrático.

Opinião do Leitor

José Rodrigues
Apenas hoy (14.6.20010) recibo Opinião de Enero-febrero 2010 y marzo 2010. Además de todo lo bueno que hay allí, me informo del fallecimiento de José Rodrigues.
No lo sabía. Me entristece profundamente. Era una de los espíritas más cultos y decididamente librepensadores de Brasil. Era un admirador entusiasta de Porteiro. Es una tristeza que a medida que enevejecemos vamos despidiendo a tantos compañeros que han partido antes que nosotros a la espiritualidad.
Jon Aizpúrua – Caracas, Venezuela.

Opinião em Tópicos
Milton Medran Moreira

Romances espíritas
O perfil da maioria dos espíritas brasileiros foi desenhado a partir dos chamados “romances espíritas”. Eles frequentam os espaços nobres de todas as grandes livrarias do país. No imaginário popular - e dos próprios livreiros - são o que de mais representativo há da literatura espírita. Sua trama é quase sempre a mesma: uma encarnação pautada por erros, ódios e orgulho, seguida de outra onde o espírito, em circunstâncias adversas e com muito sofrimento, resgata as faltas da anterior experiência.
A fórmula é um avanço relativamente às concepções religiosas tradicionais. Introduz a ideia da reencarnação. Desmitifica o poder das religiões. Desloca para a consciência e para a ação do indivíduo seu processo de transformação e crescimento. Propicia uma releitura dos dogmas cristãos do céu e do inferno, retirando deste a condição de eternidade e substituindo-a pela ideia do caráter transitório da pena. Por tudo isso, acaba por atrair crentes que vislumbram ali uma forma mitigada da clássica vingança divina, base da teologia judaico-cristã. Mas, por outro lado, inculca na consciência do indivíduo um exacerbado sentimento de culpa e a ideia de que somente pelo sofrimento será possível superá-la.

Mandatários divinos
Presentes também, e invariavelmente, nesses relatos da ficção espírita a ação maléfica e presumivelmente corretiva de entidades espirituais, encarnadas ou desencarnadas, “predestinadas” a desempenhar o papel de verdugo do espírito em recuperação. É o “mal necessário”, a “justiça divina” valendo-se da maldade, da vingança e do ódio humanos como instrumento de punição e de retificação.
Nessa mesma linha, o mundo espiritual aonde chega a alma atormentada pela culpa é, igualmente, povoado de “agentes da justiça divina”. Investidos de um verdadeiro mandato divino, a eles tudo é facultado em termos de aterrorizar o espírito que aporta nas “zonas umbralinas”. Humilham-no, jogando em sua cara censuras e vilipêndios, recordando-lhes os erros cometidos e atormentando-os por sua prática. A ideia é sempre a mesma: só sofrendo idênticas dores àquelas infligidas a outrem, o espírito pode alcançar sua regeneração.

Justiça divina x justiça humana
Se essas concepções estão corretas e se tais instrumentos de retificação são adequados à recuperação de um espírito culpável, tudo o que a humanidade construiu até agora, em termos de justiça e humanismo não passa de um tremendo equívoco. Por milênios, e sob o império das teocracias, procedíamos exatamente como agem, segundo a referida literatura, os “agentes da justiça divina”, encarregados da retificação de espíritos culpados. Tínhamos como base fundamental da justiça o princípio do “olho por olho, dente por dente”. Em nome de Deus, não hesitávamos em torturar, esconjurar e matar quem não procedesse segundo o que concebíamos como “lei divina”. Chegamos a usar como pretexto, a alegação de que o mesmo fogo que matava o corpo libertaria o espírito. Daí as fogueiras em que sacrificamos os adoradores de deuses falsos e os hereges, supondo-nos, invariavelmente, autorizados pelo Velho ou pelo Novo Testamento.
Só no instante em que nos rebelamos contra o poder religioso conseguimos, a duras penas, nos libertar desse jugo, construindo novos valores sobre os quais repousam as leis e seus mecanismos de execução. O humanismo, a democracia, o Estado de Direito são genuínas conquistas do espírito contra a religião que, antes, o aprisionara.

Humanismo já!
Esses mesmos ventos libertadores, ao que parece, não sopram nas colônias espirituais para onde migram nossas almas, sempre vergadas por alguma culpa, depois da morte. Pelo menos é o que se depreende das tramas apresentadas como “literatura espírita”. O que aqui consideramos vingança, fator que sempre agrava um delito, lá é apontado como justa contraprestação retificadora. Atos aqui puníveis como ofensivos à dignidade e aos direitos alheios são, lá, erigidos a normatizações da justiça divina para cuja execução é indispensável o concurso de verdugos, promovidos à condição de agentes da vontade de Deus.
Também a reencarnação, nesses folhetins, dificilmente é apresentada como etapa vitoriosa, conquistada por esforços anteriores do espírito em evolução, mas como pesado fardo a ser por ele arrastado em resgate aos erros antes cometidos.
De duas uma: ou nossos médiuns psicógrafos só conseguem acessar tramas vividas em mundos psíquicos bem mais atrasados do que aquele aqui construído, ou está na hora de modernizarmos e democratizarmos as colônias espirituais que nos esperam após a desencarnação. Em ou em outro caso, a palavra de ordem deve ser: humanismo já!

Notícias

Léo Indrusiak e as relações espiritismo/ecologia
Em palestra proferida no Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, na noite de 5 de julho, o pensador e dirigente espírita Léo Indrusiak, diretor do Instituto Espírita Terceira Revelação Espírita – IETRD – e ex-presidente da USE Sul, União das Sociedades Espíritas da região sul (Porto Alegre), abordou as relações entre espiritismo e ecologia. O conferencista chamou a atenção para a o fato de as propostas espíritas e ecológicas haverem nascido simultaneamente na Europa do Século 19 e que O Livro dos Espíritos, editado em 1857, aborda diversas questões ecológicas.
Para Indrusiak, na foto, uma das causas pelas quais o espiritismo não alcançou, na contemporaneidade, a mesma repercussão da ecologia deve-se ao fato de haver sido tomado como uma religião: “O espiritismo não é uma religião, embora muitos espíritas e, inclusive, instituições espíritas o vejam como tal”, declarou Léo Indrusiak, na conferência. Ao final, abriu espaço para debates, onde vários assistentes contribuíram com outras reflexões sobre o tema.

Léo Indrusiak: O espiritismo só não tem a mesma repercussão da ecologia porque foi tomado como uma religião.

Em agosto o conferencista é Rogério Hipólito
Dando prosseguimento à sua programação de palestras públicas mensais, sempre na primeira segunda-feira do mês, o convidado do CCEPA, em 2 de agosto, é o empresário porto-alegrense Rogério Hipólito Feijó Pereira. Seu tema: “Estrutura do Cérebro – Comando do Espírito”.
A atividade acontece às 20h30min, no auditório do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, na Rua Botafogo, 678, Bairro Menino Deus.

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Escritor paranaense visita CCEPA
O advogado e escritor João Carlos de Freitas, de Curitiba/PR, espírita militante e participante da lista de debates da CEPA, esteve, na noite de 6 de junho último, em visita ao Centro Cultural Espírita de Porto Alegre.
João Carlos, que, em seu Estado, desenvolve atividades culturais ligadas a movimentos populares, lançou recentemente o livro “Colorado – A primeira escola de samba de Curitiba”, obra editada pela Fundação Cultural de Curitiba. Em sua visita, o intelectual paranaense fez entrega ao presidente do CCEPA, Rui Paulo Nazário de Oliveira (foto ao lado), de um exemplar de seu livro, destinado à biblioteca da instituição.
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Enfoque

ALLAN KARDEC: O AUTOR DA DOUTRINA DOS ESPÍRITOS?

Augusto Araujo
Doutorando em Ciência da Religião (PPCIR/UFJF).
Contato: acdaraujo@gmail.com

Da comparação e da fusão de todas as respostas, coordenadas, classificadas, e muitas vezes retocadas no silêncio da meditação, foi que elaborei a primeira edição de O Livro dos Espíritos, entregue à publicidade em 18 de abril de 1857. (Allan Kardec)1

Quem quer que tenha tido em mãos um livro de história da filosofia deve ter notado que logo nos primeiros capítulos são apresentadas as doutrinas filosóficas dos chamados filósofos “pré-socráticos” ou “fisiólogos”. O que, talvez, poucos saibam é que não existe, a rigor, a doutrina filosófica de Tales de Mileto, ou de Heráclito de Éfeso, por exemplo. De fato, a maioria dos textos de que dispomos desses pensadores é insuficiente para se afirmar a existência de tal doutrina. O que se tem são fragmentos (frases, pedaços de frases, às vezes, uma única palavra) citados ou parafraseados por outros autores e filósofos. Uma lista tão variada que inclui pensadores como o grego Aristóteles e o cristão e pai da Igreja Clemente de Alexandria; e tão extensa que cobre o período desde o século IV a.C. até o século VI d. C.
Assim, se tomarmos Heráclito como exemplo, é preciso que se diga que não há o livro "Sobre a natureza"2, a ele atribuído. Nem sabemos ao certo se ele escreveu mesmo um livro; ou, em caso afirmativo, se era esse mesmo seu título. Aquilo que nos manuais de história da filosofia é apresentado como a doutrina de Heráclito é tão somente uma interpretação arbitrária dos fragmentos encontrados e catalogados3 . No século XX, o filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976) demonstrou que, dependendo da ordem em que os fragmentos são considerados ou organizados, ou dos pressupostos filosóficos assumidos na leitura desses fragmentos, diferentes interpretações se estabelecem. E, dessa forma, as interpretações serão sempre arbitrárias, uma vez que nem a obra original nós temos para comparar e verificar a validade delas 4.
Agora, se, num exercício de analogia, olharmos de maneira isenta para o modus operandi de Allan Kardec (1804-1869) veremos que se passa algo muito semelhante ao que acontece com os historiadores da filosofia no caso acima. Kardec, ao publicar suas obras sempre insistiu que a doutrina não era sua, mas dos Espíritos. No entanto, a confiar ainda nos relatos de Kardec, como se dá esse procedimento de “codificação” da doutrina dos Espíritos? Ele tem fragmentos de ensinos que vêm de fontes diversas e tem de arbitrariamente "codificá-los", ordená-los. E o faz. Nós não podemos verificar se essa interpretação é a mais adequada porque não temos acesso às fontes kardecianas (especificamente não temos acesso ao conteúdo bruto das comunicações por ele interpretadas). Esse impedimento metodológico de verificação tem me impedido de caracterizar o espiritismo como uma ciência.
Em outras palavras: penso que afirmar a existência da "doutrina de Heráclito" nas interpretações dos fragmentos a ele atribuídos, e afirmar que existe uma doutrina dos espíritos na interpretação das comunicações recebidas por Kardec, possui o mesmo grau de incerteza. Ora, como afirma o próprio Kardec na frase citada acima: “Da comparação e da fusão de todas as respostas, coordenadas, classificadas, e muitas vezes retocadas no silêncio da meditação, foi que elaborei a primeira edição de O Livro dos Espíritos, entregue à publicidade em 18 de abril de 1857”. O original diz: "C'est de la comparaison et de la fusion de toutes ces réponses coordonnées, classées et maintes fois remaniées dans le silence de la méditation, que je formai la première édition du Livre des Esprits qui parut le 18 avril 1857" (o grifo é meu).
Aqui gostaria de fazer um breve comentário sobre a escolha do uso do verbo “retocar” para traduzir o francês “remanier”. Não que esta tradução esteja equivocada, em minha opinião ela apenas enfraquece o sentido original do termo francês. A etimologia do verbo “remanier” remete a “manier” que tem o sentido primeiro de “manipular”, tocar com as mãos. Daí que o Dictionnaire de l’Académie Française (6eme Édition, 1835), defina o verbo “remanier” como: manipular novamente, reparar, modificar, refazer. Ou, ainda, segundo o Dictionnaire Poche Larousse (2008): mudar a composição, modificar. No contexto dessa pequena observação, uma tradução mais precisa talvez fosse: "Da comparação e da fusão de todas estas respostas coordenadas, classificadas e muitas vezes reparadas (modificadas, refeitas) no silêncio da meditação, que eu formei a primeira edição do Livro dos Espíritos, o qual apareceu a 18 de abril de 1857".
Uma última analogia, talvez esclareça melhor meu posicionamento. Embora o trabalho de pesquisa que venho realizando, e que culminará na publicação de minha tese de doutoramento, se baseie todo na leitura e interpretação da obra de Allan Kardec, e neste trabalho não se encontre nada que Kardec não tenha dito e pensado, há que se concordar que se trata de meu trabalho e não de Kardec. Penso que não importa se as fontes de uma pesquisa sejam os Espíritos ou um pensador “de carne e osso”; se alguém compila, classifica, modifica, edita, interpreta suas fontes, ele é o autor.

1 KARDEC, Allan. A minha iniciação no espiritismo. In: ______. Obras Póstumas. Rio de Janeiro: FEB, 2009. P. 353. (Trad.: Evandro Noleto Bezerra). O texto original em francês é: "C'est de la comparaison et de la fusion de toutes ces réponses coordonnées, classées et maintes fois remaniées dans le silence de la méditation, que je formai la première édition du Livre des Esprits qui parut le 18 avril 1857". (Cf.: KARDEC, Allan. Ma première initiation au espiritisme. In: ______. Oeuvres Posthumes. Union Spirite Française et Francophone. s/d. p. 128).


2 O título Péri Physeos (em grego) é um título genérico atribuído a grande parte das supostas obras dos pensadores gregos originários.


3 No início do século XX, o helenista alemão Hermann Alexander Diels (1848-1922) publicou a obra Os fragmentos dos pré-socráticos, na qual colecionou os fragmentos dos chamados pré-socráticos e os classificou, após tê-los retirado das obras onde se encontravam citados ou parafraseados. Posteriormente, Walther Kranz (1884-1960) acrescentou um comentário interpretativo aos fragmentos catalogados por Diels. Esta obra tornou-se, desde então, referência para todos os trabalhos críticos e interpretativos da filosofia antiga. A classificação DIELS-KRANZ, tornou-se normativa para todas as referências aos fragmentos.


4 Ver: HEIDEGGER, Martin. Heráclito. A origem do pensamento ocidental. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1998. (Trad.: Márcia Sá Cavalcante Schuback). Para outra interpretação, ver: BERGE, Damião. O Lógos Heraclítico. Introdução ao estudo dos fragmentos. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1969.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

OPINIÃO - ANO XVI - N° 175 - JUNHO 2010

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Pesquisas da Universidade de Yale demonstram

Bebês possuem sentimento inato de bem e de mal

Ao nascer, é o ser humano uma “tabula rasa”, totalmente destituída de conhecimento e aptidão para distinguir o certo ou o errado, como afirmava o filósofo John Locke (1632/1704)? Ou será portador de ideias inatas, onde estão contidos juízos de valor sobre o bem e o mal, como sustentara Platão (428/347 a.C)? Recentes pesquisas apontam para esta última hipótese contemplada também pela filosofia espírita.

A experiência
Na experiência coordenada pelo Centro de Cognição Infantil da Universidade de Yale (USA), bebês de seis meses de idade são levados a assistir a apresentações de fantoches com personagens do bem e do mal, encarnando heróis ou vilões. Depois, os bebês são induzidos a que escolham seus preferidos. A maioria deles aponta para os bons. Em outra experiência, os bebês assistem a um filme de animação em que uma bola vermelha com olhos tenta subir um morro. Ao mesmo tempo, um quadrado amarelo ajuda-a, empurrando por trás, e um triângulo verde tenta empurrá-la para baixo, buscando impedir a subida. Terminado o filme, as figuras geométricas são apresentadas aos bebês. Oitenta por cento deles demora-se mais tempo fixando o olhar nas figuras que representaram um papel útil nas cenas. O mesmo ocorre em experiências em que as figuras têm suas cores trocadas.

Um senso moral rudimentar
Para Paul Bloom, o professor de psicologia que coordena a equipe, há evidências de que o ser humano tem um senso moral rudimentar desde o início da vida. Já o professor Peter Willatts, da Universidade Dundee, do Reino Unido, comentando para o jornal “Telegraph” a experiência, afirmou que ela é muito apropriada para se captar a atitude mental de bebês de tenra idade: “Você não pode entrar na mente de um bebê e nem lhe fazer perguntas” – disse – “Você tem que ir no que mais atrai sua atenção”. Willatts acrescentou que hoje se sabe que, no primeiro semestre de vida, uma criança aprende muito rapidamente sobre tudo o que a rodeia, acrescentando: “É difícil separar o que já traz ao nascer daquilo que aprendeu nos primeiros meses”. Com essa afirmação, o especialista britânico mostra rejeitar a tese da “tabula rasa” de John Locke, confrontando-se também com afirmação de Sigmund Freud para quem os bebês nascem em estado de “amoralidade”, só adquirindo o senso do certo e errado por condicionamentos ao longo da vida.

Para saber mais:
Ampla reportagem sobre a experiência desenvolvida na Universidade de Yale foi publicada do New York Times, repercutida em diversos órgãos de imprensa mundial e na internet.
No site  http://mais.uol.com.br/view/1hjuf7gjt6ko/um-bebe-humano-ja-tem-nocao-de-moral-04029A3260DCC10366?types=A   você pode assistir ao vídeo registrando as experiências feitas com bebês, com texto dublado para o português.

Nossa Opinião

Preparando a Era do Espírito

A tese da preexistência do espírito à vida corporal, aliada à das múltiplas experiências encarnatórias, confere, necessariamente, uma visão revolucionária da vida.
A cultura do Ocidente, forjada a partir das crenças do cristianismo institucionalizado e, depois, desenvolvida sob uma ótica estritamente materialista, rejeita, por ambas as vertentes, de forma apriorística, aquela hipótese. O chamado paralelismo psicobiofísico, segundo o qual se desenvolvem conjuntamente o biológico e o psicológico, sendo este um epifenômeno daquele, é um dogma científico. Dogma que se casa com a religião dominante. Cristianismo e materialismo fecham questão nesse aspecto: a vida psíquica, e logo, a vida moral, considerada esta como a consciência do bem e do mal, se desenvolvem com o ser humano, a partir de sua formação biológica e das correlações sociais do nascituro com o seu meio.

O espiritismo, em uma linha de superação à dogmática cristã e de avanço dos postulados científicos vigentes, propõe que, ao nascermos já possuímos um patrimônio moral, e que isto, bem mais do que a genética e o meio, é o que nos faz diferentes uns dos outros. É possível admitir, a partir daí, que, quando encarna em um mundo como este, detentor de uma história de conquistas morais, o indivíduo já está sintonizado e integrado a esse sistema de valores, comungando com seus vigentes consensos. Platão chamava isso de ideias inatas, trazidas pelo espírito do fascinante mundo das ideias, prevalente ao mundo dos sentidos.

As experiências desenvolvidas pela Universidade de Yale, embora possam admitir outras tantas interpretações, também podem confirmar essa hipótese. Daí sua importância e seu significado como um elemento a mais a construir a ciência de um novo tempo, que, com certeza, pavimenta o advento da Era do Espírito. (A Redação).

Editorial

Vida artificial: afronta a Deus ou progresso humano?

Vós sois deuses.
Jesus de Nazaré

As primeiras manchetes na imprensa, apressadamente, anunciavam: “Laboratório norte-americano cria vida artificial”. Pouco a pouco, conferiu-se melhor precisão ao relato do feito trazido a público, no último mês de maio: cientistas do Instituto J. Craig Venter, dos Estados Unidos, sintetizaram o genoma de uma bactéria e o transplantaram ao interior de uma outra bactéria. O genoma transplantado começou a funcionar na nova bactéria, produzindo proteínas características.
Um feito, sem dúvida, extraordinário, mas que, como advertem os especialistas, ainda não teria cruzado o limiar da criação da vida artificial, considerando-se o fato de a bactéria receptora ser ainda natural. Apenas seu genoma foi retirado. O citoplasma, que é a parte líquida de uma célula, com suas substâncias próprias, ali se manteve.
De qualquer modo, pela primeira vez, o ser humano tem diante de si um organismo que não teve seu genoma formado a partir da replicação direta de um outro ser vivo. Resultou da descrição de outro organismo, que fora previamente armazenada em um computador.
A técnica desenvolvida poderá, no futuro, produzir inúmeros avanços para a humanidade: novas fontes energéticas; vacinas mais eficientes; substâncias capazes de regenerar tecidos; criação de células utilizáveis na absorção do dióxido de carbono, beneficiando o meio ambiente; produção de proteínas para a alimentação, etc. Mas, a mesma façanha científica é também apta à criação de armas biológicas destruidoras, ou de organismos capazes de provocar mutações genéticas desastrosas à raça humana, tornando-se, assim, poderosíssimo agente destruidor.
São justas, pois, tanto as esperanças acendidas com a nova descoberta, quanto as apreensões éticas ante a possibilidade de sua má utilização. Como tudo, na vida, aliás. Qualquer das descobertas humanas, da roda às modernas aeronaves, do telégrafo aos satélites ou redes mundiais de computadores, da energia a vapor à atômica, prestam-se, igualmente, ao bem e ao mal, à construção e à destruição, à evolução ou à degradação humana. Nunca como hoje, entretanto, a humanidade se preocupou tanto com a plena sintonia entre a ciência e a ética. Tanto assim que, mal se anuncia um novo avanço científico, mobilizam-se organismos internacionais e inteligências do mundo todo na busca do controle racional e ético dos recursos descobertos.
Estará aberta a probabilidade de o ser humano criar a vida, agora que já comprovou poder manipulá-la na sua intimidade? Seja como for, a hipótese, antes de representar, como o querem os fundamentalistas religiosos, uma afronta à Deus, conduz a uma melhor compreensão da grandeza potencial do homem. Ratifica, em última análise, a presença divina em nós e reveste-nos de uma responsabilidade que, em etapas já vencidas, atribuíamos ao exclusivo arbítrio dos deuses.
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Opinião em Tópicos
Milton R. Medran Moreira

Chico, o filme
Só pude assistir ao filme “Chico Xavier”, quando mais de 3 milhões de brasileiros já o haviam feito. Perdi de fazê-lo nas semanas de estreia, quando esteve em cartaz nas salas dos shopping-centers mais próximos de minha casa, em Porto Alegre. Minha sorte foi de que, em maio último, passando um fim-de-semana em Gramado, na serra gaúcha, a película estava lá sendo exibida. Assim, terminei por vê-la justamente no majestoso prédio que serve de sede ao Festival de Cinema de Gramado. O evento, a propósito, está, neste exato momento, preparando sua 38ª edição para agosto próximo, quando, naturalmente, será melhor analisado pelos especialistas o estrondoso sucesso dessa produção de Daniel Filho. Ela está batendo todos os recordes de público para um filme nacional.

Chico, o homem
Nós, espíritas, com formação baseada, praticamente, na vida e na obra de Chico Xavier, tínhamos curiosidade de saber como, em duas horas de projeção, um filme iria resumir o fenômeno Chico. Com certeza, essa também foi a preocupação do autor que a expressou em duas frases exibidas na abertura da projeção: “ A história de um homem não cabe num filme. O que se pode é ser fiel à sua trajetória”. E essa fidelidade a obra cinematográfica conseguiu, sem dúvida, preservar. Especialmente porque, com rara maestria, o filme desmitifica o personagem e exibe o homem Francisco Cândido Xavier. As dúvidas e incertezas, as fraquezas e grandezas, traduzidas em cenas como seus diálogos com o padre ou no hilário episódio da adoção do uso da peruca ou, ainda, no chilique protagonizado quando pensou estar caindo o avião em que viajava, tudo isso bem retratou o homem Chico. Um feliz contraponto à imagem do santo, comumente divulgada, especialmente no meio espírita.

Chico, a bondade
Sem ser exatamente um santo, Chico, no entanto, foi um magnífico exemplo de bondade. Essa virtude, que pressupõe humanismo, tolerância e distanciamento de qualquer fundamentalismo, foi a mensagem central do filme. E, por isso, ele está sendo assistido por pessoas de todas as crenças, e, igualmente, aplaudido por homens e mulheres que não têm qualquer fé religiosa. Entre eles alguns ateus, como se declarou o próprio diretor Daniel Filho.
Sensibilidade, bondade, humanismo não são privilégios dos que têm fé. São necessidades evolutivas impregnadas na alma humana e para cujo pleno exercício, muitas vezes, a fé termina sendo um obstáculo, por conta das barreiras interpostas.

Chico, o fenômeno
Mas, fica também outra mensagem. O fenômeno espírita, seja aquele produzido em ambiente religioso, como o que impregnou a vida de Chico Xavier, seja o que ocorre em outros campos, com conotação laica, é um instigante convite à investigação da ciência e um tema que merece mais abertura de parte dos veículos de comunicação. Chico Xavier foi um fenômeno possivelmente irrepetível, no campo da mediunidade. Por cerca de 90 anos, esteve entre nós. Suscitou algumas controvérsias ligadas à dicotomia crença/não-crença. Sofreu ataques de cientistas arrogantes e de religiosos intolerantes. Acabou firmando a imagem de um homem caridoso e bom. Mas, daqui partiu sem que sua extraordinária paranormalidade fosse convenientemente investigada pela ciência humana. Seu potencial foi relegado ao terreno imponderável da sobrenaturalidade. Pena que não houvesse sido visto sob um olhar natural. Simplesmente como um homem, tal qual o viu o filme.

Notícias

Cursos Básicos de Espiritismo – o jeito novo de começar
Encerrou-se, dia 12/5, mais um Curso Básico de Espiritismo, oferecido pelo Centro Cultural Espírita de Porto Alegre. Realizado, desta vez, no período da tarde, durante cinco quartas-feiras consecutivas, e sob a coordenação de Cristian Macedo (na foto), o CBE atraiu 28 frequentadores. Depois de seu término, alguns de seus integrantes decidiram se engajar aos grupos regulares de estudos do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, formando um novo grupo do chamado Ciclo Básico de Estudos Espíritas – CIBEE – que seguirá se reunindo às quartas-feiras, às 15 h, coordenado por Cristian.

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Em junho, novo curso, à noite
Um novo Curso Básico de Espiritismo está programado para o mês de junho, a partir de 17, quinta-feira, às 20h30, ministrado por Rui Paulo Nazário de Oliveira. Com o objetivo de enfocar os princípios básicos do espiritismo, o CBE oferecerá cinco módulos, que se estenderão até o dia 17 de junho, sempre às quintas: “O que é o Espiritismo”, “Sobrevivência, imortalidade e evolução do espírito”, “Comunicação mediúnica”, “Pluralidade de existências e de mundos habitados” e “Consequências morais”. Encerrada a programação, será oportunizada aos interessados a frequência a um novo Ciclo Básico de Estudos Espíritas. O CCEPA é uma instituição espírita que privilegia o estudo do espiritismo, a partir de uma visão progressista, laica e livre-pensadora. Interessados podem fazer contato pessoal, na rua Botafogo, 678, fone (51) 32092811, também via e-mail – ccepars@gmail.com – ou, ainda, acessando o blog www.ccepa.blogspot.com .

Palestras públicas do CCEPA motivam seminário mensal
De há muito, o Centro Cultural Espírita de Porto Alegre vem oferecendo a seu público externo uma palestra pública mensal, na primeira segunda-feira de cada mês. Desde o último mês de maio, o tema da palestra vem, igualmente, propiciando material de discussão para seus grupos de estudo, reunidos nas noites de quintas-feiras. Assim, o tema “Determinismo e Livre Arbítrio”, enfocado por Homero Ward da Rosa, dia 3/5, motivou desdobramento por meio de estudos e reflexões, em seminário coordenado por Cristian Macedo, na noite de 20 de maio (quinta-feira). Também o tema “Flagelos destruidores sob a ótica espírita”, palestra de Aureci Figueiredo Martins (dia 7/6), ofereceu material a ser discutido em seminário previsto para a noite de 17/6, sob a coordenação de Valdir Ahlert. A iniciativa pretende reservar sempre a penúltima quinta-feira do mês para a realização do seminário, com discussão de material previamente enviado pelo coordenador do mês.

Léo Indrusiak fala sobre ecologia e espiritismo
O palestrante da primeira segunda-feira de julho (5, 20h30) é Léo Indrusiak, dirigente do Instituto Espírita 3ª Revelação Divina, que se ocupará do tema “Ecologia e Espiritismo”.

CPDoc reúne-se em Santos, dias 19 e 20
O Centro de Pesquisa e Documentação EspíritaCPDoc – reúne-se dia 19 deste mês, no Centro Espírita Allan Kardec, Santos/SP. Na pauta: discussão do trabalho “Os Quatro Espíritos de Kardec”, de Eugenio Lara e assuntos administrativos. O encontro prossegue no domingo, 20, em atividade conjunta com a CEPA BRASIL, oportunidade em que Alexandre Caroli Rocha fará exposição de seu trabalho “O Caso Humberto de Campos – Autoria Literária e Mediunidade”, tese de doutorado na UNICAMP. Na sequência, será discutido pelos presentes um texto de Salomão Jacob Benchaya “Espiritismo Laico e Livre-Pensador – Carta de Posicionamento”, uma proposta que circula para estudo no âmbito da CEPA BRASIL.

Enfoque

Honestidade na Política
Milton Felipeli escritor, radialista, expositor e articulista. Membro da Associação de Divulgadores do Espiritismo de São Paulo – ADE-SP. Apresentador de programas da Rede Boa Nova de Rádio. E-mail: miltonfelipeli@hotmail.com

Política é uma palavra grega e vem de politiké, ou seja, a arte de governar um estado. Poli (Polys) é designativo de muitos (a cidade, o estado, por exemplo).
Platão, um dos mais conhecidos e apreciados filósofos gregos, desenvolveu interessantes e importantes estudos sobre essa “arte de governar um estado”, introduzindo, dessa forma, a política, no estudo da filosofia, que é a mãe de todas as ciências.
A arte de governar, segundo Platão, deve ser através da aristocracia.
Aristocracia, por sua vez, significa o governo pelos melhores, (aristo + cracia). Os melhores do ponto de vista intelectual e moral, Para Platão, a política somente deveria ser exercida pelos que comprovadamente fossem os melhores.
Honra, honestidade,dignidade, fidelidade e coragem moral e todas as demais virtudes seriam as bases para a formação do político.
Conforme se pode observar, a escola política de Platão tendia para um relacionamento entre os estados em que a hierarquia selecionaria os melhores qualificados para a ocupação dos postos políticos.
No regime democrático (o governo pelo povo), é a massa popular que seleciona, pelo sistema de voto popular, os seus governantes. Logo, estes representam a aspiração, o desejo e a vontade de todos os cidadãos eleitores. A maioria dos votos populares é que determina a escolha.
O fundamento da qualidade da vontade do povo reside no conhecimento e na consciência política de todos os cidadãos, (usando o termo grego), aptos para exercer o direito do voto. A consciência política do povo depende de sua educação. A educação envolve a política. E essa matéria deveria vir desde os primeiros bancos da escola.
Para o fortalecimento político da sociedade é necessário que a criança receba aulas sobre política. E que nesses cursos sobre política para a criança sejam ensinadas as virtudes da honra, honestidade, fidelidade, dignidade e coragem moral.
Não se deve apenas reclamar da corrupção que ocorre em uma parte da classe política, posto que a desonestidade reinante não nasceu depois que os candidatos políticos foram eleitos. Já eram desonestos antes das eleições. Os que os elegeram não foram suficientemente capazes politicamente, para processar a escolha. A corrupção política, ou seja, a desonestidade política é um sintoma e um reflexo de uma enfermidade social, que pode e merece ser tratada, pelos que anseiam e agem em favor do bem e da justiça social.
A base de todas as injustiças – dizia Kardec – é o egoísmo que estimula o procedimento individualista de cada um lutar somente para si, desconsiderando as necessidades e os direitos do semelhante. A proposição do Espiritismo para a formação de uma sociedade ideal tem como alicerce o conhecimento e a ação da liberdade, da igualdade e da fraternidade.A felicidade social será alcançada quando conscientemente, os homens forem capazes de estabelecer esse programa social. Quando isso ocorrer, “os homens viverão como irmãos, com direitos iguais, animados do sentimento de recíproca benevolência; praticarão entre si a justiça; não causarão danos e, portanto, nada reclamarão um dos outros” (Obras Póstumas, in Liberdade, Igualdade e Fraternidade).

Opinião do Leitor

Pedofilia na Igreja
Li com interesse a coluna "Opinião em Tópicos", de Maio de 2010, do Milton Medran Moreira, a qual acompanho regularmente em função da boa qualidade.
O tema é a pedofilia na Igreja. Boas colocações, porém me parece que o problema é mais profundo que alguns padres parafílicos, pecadores, e um papa um tanto envergonhado com os descaminhos de seus curas. Há um anátema da Igreja contra a homossexualidade, um tabu entre os cristãos em geral.
A questão não se limita a uma dúzia de párocos. O drama é a posição de Igreja criada no século XI, que passou a exigir o voto de castidade de seus padres. O motivo não teve nada de espiritual, mas se relacionou, isto sim, com a possível divisão dos bens da Igreja pelos cônjuges e famílias. Um tema, enfim, de herança (Bertrand Russell. The History of Western Philosophy). Desde então, seres humanos, sexualmente desejantes, independente de sua orientação sexual, têm sido obrigados, alguns deles desde a tenra adolescência, a abrir mão do direito de expressar-se eroticamente. Uma barbárie psíquica e social, uma flagelação, na qual os impulsos sexuais dos "eunucos", desviam-se conduzindo à pedofilia. É claro que estes pedófilos, verdugos, devem ser responsabilizados judicialmente. Porém, e aí se localiza a delicada questão, a responsabilidade primordial é da instituição que os violenta. Algum deles, ao ser processado, deveria também processar a Santa Sé! O verdugo é, também, vítima.
A questão do homossexualismo, um dos fundamentos comportamentais da civilização clássica tão severamente criticado pelo fariseu Saulo, é extremamente inquietante para a Igreja. A situação homossexual associa-se à capacidade de transe, à sensibilidade estética e filosófica e à religiosidade- como se observou ao longo da história, incluindo os nativos norte-americanos, onde os “berdaches”, médiuns, são homossexuais, desempenhando papel importante na religiosidade daquelas comunidades.
Se, por um lado, pessoas com características homossexuais buscam a religião por uma tendência natural, por outro, a Igreja as mantém sob intenso controle, atuando sob a coação do medo. A aceitação de que pessoas homossexuais, adultas, possam relacionar-se de modo maduro, aceito pela Sociedade, buscando mesmo adotar crianças (e não delas abusar), para a Igreja é uma imensa perda de poder sobre o ser humano. Eu diria, mesmo, que há algo de inveja na posição de muitos poderosos da Igreja: “se eu abdiquei da minha vida, na crença de que o que eu sou é pecaminoso, como é que alguém vai viver esta orientação sexual de forma digna e livre?”.
Confundir a pedofilia católica com o homossexualismo, como tentam fazer alguns curas, é não ver que muitas vítimas dos padres são meninas, como se constatou na experiência do Presidente-bispo de um país vizinho. E como constatamos diariamente na atividade clínica.
Afetuoso abraço.
Jorge Luiz dos Santos, pediatra – Porto Alegre/RS

segunda-feira, 10 de maio de 2010

OINIÃO - ANO XVI - N° 174 - MAIO 2010

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“Segmento Padrão” começa a ser percebido

Os registros a Francisco Cândido Xavier, na grande imprensa, por ocasião de seu centenário, também consignam a existência de um espiritismo laico e livre-pensador, como contraponto à visão religiosa, assumida pelo médium de Uberaba. Estaria começando a se confirmar a previsão do pensador espírita Krishnamurti de Carvalho Dias sobre a hora e a vez do “segmento padrão”?

O espiritismo “à brasileira”

A antropóloga paulista Sandra Stoll foi entrevistada pelo caderno “Aliás” do jornal O Estado de São Paulo (18/4/10), repercutindo o sucesso do filme “Chico Xavier”, lançado em comemoração ao centenário do médium. Doutora pela USP e autora de livros e trabalhos acadêmicos sobre espiritismo, Sandra, que participou do Congresso da CEPA em Porto Alegre (2.000), descreve Chico como alguém que foi capaz de absorver do catolicismo elementos formadores da “religião espírita”, criando assim um "espiritismo à brasileira”. Para ela, baseado nos princípios e práticas do catolicismo, Chico “instaurou o que podemos chamar de uma ‘ética da santidade’, consolidada em torno da prática da caridade que exerceu por mais de 70 anos e outros valores monásticos, como a pobreza e a castidade”. Mas, a antropóloga ressalta que, ao contrário do que possa parecer, “Chico não representa unanimidade no meio espírita”, pois é questionado por setores mais comprometidos com a “tradição kardecista”.

Publicação da Editora Abril liga CEPA ao “espiritismo laico”

“Espiritismo – a trajetória de uma doutrina” foi o título de capa de Aventuras da História, publicação da Editora Abril, em março último. Toda a edição foi dedicada à história do espiritismo, uma doutrina “que se deu tão bem por aqui que surgiram várias ramificações”, escreveu Michele Veronese, redatora da revista. Matheus Laureano, presidente da Associação de Estudos e Pesquisas Espíritas de João Pessoa/PB, entrevistado, salientou: “De alguns anos para cá, novos grupos estão surgindo com uma preocupação maior em estudar o fenômeno espírita pela ótica da ciência”. Segundo ele, “muitas dessas associações se reúnem em congressos e encontros, e são vinculadas à Confederação Espírita Pan-Americana (CEPA), espécie de guarda-chuva que abarca todas elas e defende o espiritismo laico”.

A publicação relaciona outras tendências que se originaram do espiritismo: ramatismo, divinismo, apometria, racionalismo cristão, transcomunicação, ufologia espírita e umbanda, segmentos que comporiam essa “árvore de muitos galhos”, como é ali classificado o espiritismo.

Apenas uma tendência ou o genuíno “segmento padrão”?

No XVIII Congresso Espírita Pan-Americano (Porto Alegre/outubro 2.000), Krishnamurti de Carvalho Dias, autor de O Laço e o Culto, apresentou trabalho com o título de “A Hora e a Vez do Segmento Padrão” (livro A Cepa e a Atualização do Espiritismo – www.cepanet.org), sustentando que o futuro do espiritismo dependeria de assumir definitivamente esse caráter não-religioso. No livro A Descoberta do Espírito, então lançado, Krishnamurti insiste: “A condição original genuína do Espiritismo é a de ser uma ciência”, e “o que vive sendo repetido sobre ele, de que seria uma religião, não passa de um terrível equívoco de seus adeptos”, ou seja, “um boato, explorado e fomentado por seus adversários, para o neutralizar”.

Dez anos depois, constata-se um significativo avanço, dentro do meio espírita, da concepção de um espiritismo científico, filosófico/moral, resultado de uma postura progressista e livre-pensadora de muitos espíritas. Algumas, ainda escassas, referências a essa tendência começam a aparecer também na grande imprensa, tendo, como pano de fundo, exatamente as homenagens que se prestam ao homem-símbolo do espiritismo religioso. Seria um indício de que, de fato, é chegada “a hora e a vez do segmento padrão”?

Nossa Opinião
Recordando Krishnamurti
Quando surgiram as primeiras contestações ao aspecto religioso, no chamado movimento espírita “unificado”, muitos afirmaram tratar-se de uma “manobra das trevas”, objetivando acabar com o espiritismo. Krishnamurti de Carvalho Dias que, na década de 80, juntamente com o “Grupo de Santos” e alguns então dirigentes da Federação Espírita do Rio Grande do Sul, defendia a condição laica do espiritismo, já naquele tempo, sustentava o contrário: fugir da condição de religião e identificá-lo como uma proposta científica de consequências filosófico-morais, como o fizera Kardec, seria a melhor estratégia para o crescimento do espiritismo e a união dos espíritas, nos novos tempos.

Krishnamurti defendeu ardorosamente essa ideia até os últimos dias de sua vida física. Compareceu ao Congresso de Porto Alegre (outubro/2000) já em estado terminal, vítima de insidioso câncer. Corajoso e lúcido, terminou seu trabalho, dizendo: “De coração desejo isso: que nos entendamos”. Nas palavras finais de sua peça, apelava no sentido de que “nos procuremos, solidários, solícitos uns com os outros, embora as por vezes abissais diferenças”. Atribuía as divergências aos “milênios de religiosismo e religiosidade” de alguns, tendo como contraponto “apenas algumas décadas de desconfessionalização e dessacralização” de outros. Ciente de sua desencarnação breve (ela se daria em janeiro de 2001), prestou, em seu trabalho, homenagem ao que chamou de “segmento padrão”, então representado pela “luminosa CEPA cuja volta ao Brasil”, apregoou “tive a felicidade de presenciar”.

Os espíritas brasileiros ligados à CEPA buscam cultivar esse legado, convictos de que o conhecimento das bases fundamentais do espiritismo é a própria garantia de seu crescimento e da união de todos os espíritas. Por isso, elegeram como tema do II Encontro Nacional da CEPA no Brasil (Bento Gonçalves/RS, 3 a 6 de setembro/2010): “O que é o Espiritismo – A questão da identidade”. Queremos continuar merecendo a qualificação que nos outorgou Krishnamurti: segmento padrão. Para isso, só uma coisa temos de fazer: estudar, divulgar e desenvolver o espiritismo nos moldes propostos por Allan Kardec. Todos os que quiserem se somar a nós nessa tarefa serão bem-vindos. (A Redação)

Editorial

Vida e morte – novos desafios

Ninguém pode fugir ao amor e à morte
Publílio Siro

O Brasil tem um novo Código de Ética Médica. O progresso da ciência, na área da saúde, levou o Conselho Federal de Medicina a adequar suas normas às novas e sempre crescentes exigências éticas daquele ofício. Entre as demandas atuais, uma partiu desta constatação: os recursos científicos e tecnológicos hoje postos a serviço da medicina possibilitam, cada vez mais, o prolongamento da vida de pacientes portadores de doenças chamadas terminais. Enfermidades que, ainda ontem, levariam o doente à morte em poucas semanas ou meses, hoje, embora sigam classificadas como terminais, podem, graças aos chamados tratamentos paliativos, prolongar significativamente sua vida.

Ante essa realidade, não raro, o profissional da medicina se defronta com situações éticas desafiadoras. Cuidados paliativos prolongam a vida, mas nem sempre são capazes de evitar sofrimentos atrozes, tanto de ordem física como emocional e psíquica. Ou seja: há um momento em que o doente cansa do sofrimento e passa a desejar a morte. Esta também é vista pelos familiares como verdadeiro alívio. Daí a norma de conduta consubstanciada no artigo 41 do novo Código de Ética Médica: “Nos casos de doença incurável e terminal, deve o médico oferecer todos os cuidados paliativos disponíveis sem empreender ações diagnósticas ou terapêuticas inúteis ou obstinadas, levando sempre em consideração a vontade expressa do paciente ou, na sua impossibilidade, a de seu representante legal”. (grifo do editorialista).

A mesma ordem jurídica que condena a eutanásia – prática igualmente apontada como condenável em O Livro dos Espíritos (q.953) – reconhece, agora, como legítima a chamada ortotanásia, autorizando o médico a suspender os tratamentos agressivos e inúteis dispensados a portadores de doenças incuráveis e irreversíveis, desde que essa seja a vontade do enfermo ou de seu representante legal.

A partir de uma visão religiosa de cunho mais ortodoxo, poder-se-ia alegar que só Deus sabe o momento da morte de alguém e que só a Ele compete fixar o instante final de sua vida física. Contrapõe-se a esse posicionamento, a ideia de que o conhecimento progressivo do fenômeno da vida e da morte, aliada aos modernos conceitos de humanismo e dignidade, legitima o ser humano a uma melhor e mais lúcida interferência nesse mesmo processo. Mais do que isso, para nós, espíritas, que temos da vida uma concepção imortalista, a morte física perde o conceito de finitude, dando passo à transição e, desta, a outras e sucessivas etapas de progresso e dignificação do espírito.

No campo da ética, é de se reconhecer nada existir melhor que a própria experiência histórica para a aferição do adequado comportamento humano frente os desafios de cada tempo. A chamada revelação religiosa que supriu, de forma compatível com seu tempo, a escassez do conhecimento humano sobre as leis da vida, deve ceder diante da razão gerada pela experiência. Isso não significa desprezo à espiritualidade. Admite-se que, na condução desse processo, está o espírito, fagulha divina ofertando luz ao agir humano. A racionalidade e os sentimentos humanos, desenvolvidos ao curso da experiência cultural e evolutiva do espírito, são, precisamente, o mais eloquente sinal da presença de Deus a iluminar a caminhada ética da humanidade.
A mesma ordem jurídica que condena a eutanásia reconhece agora como legítima a ortotanásia.

Opinião em Tópicos
Milton R. Medran Moreira

De Málaga a Roma

Após o Encontro Espírita Ibero-Americano, na Espanha, viajamos à Itália. Fui a Roma não para ver o Papa. Mas, como, na Cidade Eterna, todos os caminhos levam ao Vaticano, ao atravessarmos, Sílvia e eu, uma daquelas majestosas pontes sobre o rio Tibre, lá estava, esplendorosa, a Basílica de São Pedro. Em todas as alamedas que conduziam à entrada da Praça da Santa Sé, grupos de pessoas ofereciam ramos de oliveira aos transeuntes, em troca de doações em dinheiro. Dei-me conta que estávamos no Domingo de Ramos. Avançamos entre a multidão. Logo estaríamos em meio a milhares de pessoas do mundo todo, e, lá em cima, sentado em portentoso trono, ele, Bento XVI, em pessoa, celebrando a missa, rodeado por cardeais, bispos e padres solenemente paramentados, como convinha ao ato. Será mesmo impossível ir a Roma sem ver o Papa?

A Igreja e a pedofilia

Demos uma volta por entre a multidão. Comprei “L’Osservatore Romano” que, em sua primeira página, repercutia matéria de um bispo alemão, da região sede do, então, mais recente caso envolvendo a questão da pedofilia na Igreja. As declarações do prelado faziam ardorosa defesa de Bento XVI e de sua atuação no caso dos padres pedófilos. Segundo ele, ninguém, na história da Igreja, fizera mais que o atual pontífice, para combater essa chaga que envergonha o catolicismo. Pensei comigo: talvez até seja verdade. Durante séculos esse problema existiu. Todo mundo sabia. Não havia quem, em pequenas ou grandes cidades, não conhecesse a história de um vigário, de um confessor ou professor de escola católica que teria molestado sexualmente um coroinha, um aluno ou um catequizando. Sabia-se, mas não se falava. Num mundo que, hipocritamente, havia separado o sagrado do profano, até os mais abjetos pecados cometidos no território do sagrado eram insuscetíveis do julgamento humano. Era como se os sacralizássemos também.

O dilema do Papa

Agora, homens e mulheres maduros, animam-se a denunciar os crimes de que foram vítimas quando crianças. Bem maior há de ser o número dos que silenciaram. Talvez tenham administrado convenientemente o trauma, preferindo sepultá-lo no fundo da alma. Mas, a Igreja já não pode administrar secretamente, como antes o fazia, os frequentes casos de abuso. A sociedade laica exige que, como quaisquer outros mortais, padres e bispos sejam convenientemente julgados pelos mecanismos humanos que cuidam das questões do direito e da justiça.

Esse talvez seja o maior dilema daquele homem que vi, pensativo e absorto, sentado em majestoso trono, naquele Domingo de Ramos: reconhecer publicamente que padres e bispos são cidadãos comuns e, logo, estão sujeitos aos mesmos direitos e obrigações de todos.

Sentimento de justiça

A dura lição também há de apressar o entendimento de que, diferentemente do que se pregou por séculos, não existe uma justiça divina e uma humana. Há, sim, um sentimento de justiça que paira acima das crenças e dos sectarismos, das castas e dos privilégios. Ela está gravada na alma de cada criatura. Indica-lhe o que é certo e o que é errado. Distingue, com clareza, o bem do mal. Sua presença na consciência do ser humano, crente ou não, é, ao mesmo tempo, o mais eloquente atestado da presença de Deus no homem. Talvez, um dia, essa justiça, que alguns filósofos chamaram de direito natural, e que o espiritismo tratou como lei natural, seja capaz de reger as relações humanas, deslocando as funções das cortes de justiça para o tribunal da consciência. Mas, enquanto esse dia não chegar, não é justo que alguém, por prerrogativas de fé ou de poder, se subtraia da justiça dos homens. Ela é imperfeita, como imperfeito é o ser humano, mas é a própria garantia de nossa igualdade.

Notícias

No CCEPA, Mauro fala sobre Webcurso de Espiritismo
Em visita ao Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, na noite de 22 de abril último, Mauro de Mesquita Spínola (São Paulo), do CPDoc – Centro de Pesquisa e Documentação Espírita, discorreu, para integrantes de grupos de estudo da instituição, sobre experiência recentemente iniciada, que implantou o Curso de Espiritismo à distância, pela Internet.
O curso, inaugurado em fevereiro último, está começando seu segundo módulo – com o tema “O Mundo dos Espíritos e Reencarnação” -, tendo atraído cerca de 40 participantes, nessa experiência inicial. Mauro destacou que a base fundamental do curso é a proposta de Kardec, examinada sob perspectiva livre pensadora, numa dinâmica que busca a atuação, a interação e o compromisso de todos os participantes. Interessados encontram maiores informações no site do CPDoc: www.cpdocespirita.com.br .

Homero: “Somos o resultado de nossas escolhas”

A palestra mensal da primeira segunda-feira de maio (3), no Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, esteve a cargo de Homero Ward da Rosa, dirigente da Sociedade Espírita Casa da Prece, de Pelotas/RS.
Homero, graduado em Filosofia e em Direito, brindou o público com excelente reflexão sobre “Determinismo e Livre Arbítrio”, enfatizando a visão filosófica espírita que reconhece a liberdade do espírito humano, encarnação após encarnação, de fazer suas escolhas, no processo evolutivo.

Flagelos Destruidores” é tema de Aureci
No próximo dia 7 de junho, às 20h30, ocupará a tribuna do CCEPA, Aureci Figueiredo Martins, dirigente do Instituto Espírita Terceira Revelação Divina (Porto Alegre), discorrendo sobre o tema “Os Flagelos Destruidores sob a Ótica Espírita”.
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Enfoque

Homens de Pouca Fé
Néventon Vargas - Engenheiro Civil; Licenciado em Física; membro do Conselho Executivo da CEPA e da Assepe – Associação de Estudos e Pesquisas Espíritas de João Pessoa.
A sociedade humana no geral tem como móvel de suas ações as próprias manifestações da natureza, em que os fenômenos de causas desconhecidas são classificados de sobrenaturais, moldando-se fielmente às tendências de sacralização, criações de mitos, dogmas e rituais, transformando-se facilmente em questões de fé em detrimento do espírito perquiridor que impulsiona o progresso das ideias.

Personalidades evoluídas que passaram pela Terra realizaram prodígios incompreensíveis que até os dias atuais são considerados milagres e estão presentes no imaginário dos povos, compondo as mais diversas culturas e fazendo o gosto das religiões que se alimentam da credulidade humana.

Na infância da humanidade e no seio das culturas em que o avanço científico é precário, os fenômenos naturais corriqueiros foram e são adorados como manifestações da divindade. Sol, lua, chuva, vento, tempestades, raios e trovoadas, são as “vozes” de Deus!

Outros fenômenos tão corriqueiros como aqueles, mas menos comentados e mais temidos, são os que envolvem forças da natureza desconhecidas mesmo das sociedades mais adiantadas no conhecimento científico, uma vez que estão fora do alcance dos sentidos e equipamentos comuns.

Por outro lado, há conhecimentos avançados que já são dominados pelos mais adiantados estudiosos, cientistas e pesquisadores que estão inacessíveis ao grande público. Mas estes passaram pela fieira das conquistas progressivas oriundas das mentes luminosas de homens que superaram os limites da fé, insurgiram-se contra os dogmas e viram adiante das percepções tacanhas instituídas pela religião.

A fé científica, como a fé religiosa, impõe restrições ao livre pensamento, assentando-se em paradigmas carcomidos pela força da evolução, o que lhes destina fatalmente a derrocada total, sobre cujos escombros se poderão assentar os alicerces de novos paradigmas, construídos por indivíduos brilhantes que conseguem se sobrepor à fé. E, ao contrário do que se imagina, não são necessariamente ateus. São apenas homens despidos da fé dogmática da ciência, da filosofia, da religião ou de qualquer outro ramo do conhecimento humano.

Felizmente existem os homens de pouca fé ou fé nenhuma. Homens que admitem suas próprias limitações para assimilarem todo o potencial inserido nos fenômenos, mas sem relegá-los à ordem do sobrenatural, exatamente por perceberem que por estarem fora do alcance de seus conhecimentos e mesmo de suas cogitações filosóficas não significa que estejam alijados da natureza. Homens que se percebem individualidades insignificantes diante do contexto universal, mas que são partícipes na evolução do fragmento que lhes serve de experimento. Homens que se compreendem diante de um processo em que tudo está em tudo, o sobrenatural é nada e o nada não existe.

São homens de pouca fé, mas que sabem do potencial evolutivo da humanidade, por analogia e por extensão do seu próprio.

Opinião do Leitor

Inteligência e Moral

Ler a clareza das leis kardequianas, dentro dos meandros políticos, é uma vitória sem par, pois os ocupadores dos cargos por nós eleitos preocupam-se mais em fazer alguma coisa que em primeira mão, nos mostram serviços e trabalhos para a sociedade, mas por trás disso, há a existência de um comportamento imoral e fora dos padrões "principiais" pelos quais fomos criados absorvendo-os ao longo de nossa passagem pela terra.
O artigo “Inteligência e Moral” (editorial de CCEPA Opinião de abril) é fantástico, porque se a um tempo mostra uma nobreza inexistente a outro mostra os que não se deixam levar pelo comportamento inominável daqueles que deveriam ser nossos maiores defensores e propiciadores de benefícios sociais, morais, assistenciais, previdenciais de cada membro da sociedade.
Sandra Cardoso (manifestação postada na lista de discussão da CEPA, na Internet)