sexta-feira, 1 de outubro de 2010

OPINIÃO - ANO XVII - N° 179 - OUTUBRO 2010

.
Carta de Posicionamentos consolida
Pensamento da CEPA no Brasil

Declarando-se “laica”, mas não “antirreligiosa”, a CEPA no Brasil propõe uma visão moderna de espiritismo, recusando qualificá-lo como “cristão” ou como a “3ª revelação divina”.

Um terreno neutro em questões religiosas
O documento aprovado no II Encontro Nacional da CEPABrasil (Bento Gonçalves/RS, 3 a 6 de setembro 2010) defende que conceitos como “3ª Revelação Divina”, “Consolador Prometido” ou “Revivescência do Cristianismo Primitivo” não se ajustam a uma visão moderna da teoria espírita e são de natureza sectária e excludente. Reafirma, no entanto, a importância do pensamento de Jesus de Nazaré cujos conceitos de validade universal estão expressos em linguagem e parâmetros compatíveis com a modernidade na 3ª parte de “O Livro dos Espíritos”. A carta esclarece que “laico não é antirreligioso” é apenas “arreligioso”, ou seja “um terreno neutro em questões religiosas”.
.
Atualização, união e compromisso social espírita
Reafirmando todos os princípios fundamentais do espiritismo – existência de Deus, imortalidade da alma, comunicabilidade entre encarnados e desencarnados, reencarnação, pluralidade dos mundos habitados e evolução infinita - o documento aprovado pela Associação Brasileira de Delegados e Amigos da CEPA enfatiza a necessidade de atualização permanente do espiritismo, como recomendara Kardec.
A carta ratifica a posição da CEPA no sentido de que as instituições espíritas cultivem e estimulem a liberdade de pensamento, de ação e de autogestão. Advoga o pluralismo de ideias em torno do essencial, entendendo que o vigente modelo de “unificação”, com a supremacia de um pensamento único, conflita com o caráter livre-pensador do espiritismo. Deplora a submissão a pretensas determinações da chamada “espiritualidade superior”, discurso que confunde o espiritismo, “transformando-o numa doutrina evangélica, religiosa, com algum suporte na obra de Kardec, mas sem a racionalidade por ele proposta”. Vinculando o espiritismo às “correntes mais avançadas do pensamento humanista e social”, o documento convida os espíritas a uma ação efetiva em prol da democracia, da paz, da igualdade social, da preservação do meio ambiente e contra todas as formas de autoritarismo e corrupção.
Para saber mais: a íntegra da Carta de Posicionamento da CEPABrasil pode ser lida no site http://www.cepainfo.org/

Nossa Opinião
Espiritismo, necessariamente progressista

Não vês (...) que te renovas todo o dia, no amor, na tristeza, da dúvida, no desejo, que és sempre outro, que és sempre o mesmo.” O poema de Cecília Meireles, lembrado na conferência de abertura do II Encontro Nacional da CEPABrasil, bem que pode ser a síntese dos esforços dos companheiros ali reunidos.
A maioria deles já pertenceu e até já dirigiu instituições estanques, presas a uma cartilha inalterável e inquestionável de conceitos e procedimentos. Lá, reproduziram modelos cristalizados em suas almas, nutrindo corpos institucionais supostamente investidos da atribuição de guardiões da verdade. Esta teria como fonte a própria divindade, revestida, pois, de caráter absoluto. Os intérpretes dessa verdade, assim chamados “espíritos superiores”, só intermediados por médiuns rigorosamente fieis àquele “status quo” institucional, seriam a instância única a homologar todo e qualquer desdobramento conceitual.
Uma releitura dos princípios fundamentais espíritas, inteiramente aceitos pelos companheiros presentes em Bento Gonçalves, conduziu-os a uma postura diferenciada. Renovar, entendem, é fazer-se outro, preservando sua mesma identidade. É reconhecer-se essencialmente humano, por suas dúvidas, sua falibilidade e, especialmente, por seus desejos de mudança.
Uma instituição que congrega espíritas com esse perfil e reconhece, precipuamente, a condição humana de seus colaboradores, encarnados ou desencarnados, mesmo que o objeto de seus esforços seja a busca dos valores eternos e imutáveis, é um segmento merecedor da qualificação de progressista. Adjetivo do qual não pode prescindir o espiritismo. (A Redação).

Editorial
Uma orquestra muito afinada
A música é a linguagem dos espíritos.
Khalil Gibran

A figura da orquestra foi sugerida, pela primeira vez, no Congresso de Porto Alegre (2000), como símbolo dos esforços do segmento espírita congregado pela CEPA. Mensagem ditada pelo espírito Manuel S.Porteiro à médium Yolanda Polimeni, na ocasião, enfatizava:
“Nota a nota compõe-se a sinfonia. Assim, no grande concerto da vida universal, cada nota representa um pensamento que procura a verdade e o amor como expressão da harmonia.
Cantar num só coro não significa entoar o mesmo tom, a mesma voz, no mesmo tempo. Ao contrário, o coro se compõe de vozes, de sons diversos, de tons variados para que expressem a beleza.
O Espiritismo é como a canção universal, entoa as notas da ciência, da filosofia e do amor para compor a harmonia dos que buscam as verdades que conduzirão o espírito humano a dimensões não imagináveis, mas de imensa felicidade”.
Quatro anos após, no Congresso de Rafaela, Porteiro parece continuar a mensagem de 2000, ditando à mesma médium estas frases:
“Vejo que os músicos afinam seus instrumentos e ensaiam a melodia. A orquestra está pronta para executar a canção e a canção será bela. Será uma canção de amor que inundará todos os corações, que fará todos felizes e nos permitirá sorrir, porque fizemos a nossa parte. Cantemos, amigos, cantemos esta bela canção que se chama Trabalho, Tolerância e Fraternidade”.
Talvez não por mera coincidência, agora, no II Encontro Nacional da CEPABrasil, ao ser pedido a Sandra Regis que organizasse uma atividade lúdica de encerramento, ela ensaiou em tempo recorde e convidou todos os participantes a cantarem em coro “A Orquestra”, uma linda canção, por ela adaptada do cancioneiro argentino.
Depois, em depoimento a este jornal, Sandra, que regeu por muitos anos o coral do Centro Espírita Allan Kardec, de Santos, comentou a experiência que consiste em separar as várias vozes, cada uma delas imitando um instrumento de uma orquestra. Diz Sandra: “O resultado é sempre maravilhoso! É um exemplo de que podemos ter ‘melodias’ diferentes, mas sempre encontramos notas iguais no decorrer da melodia e, ao final, entoaremos a mesma nota, alcançado nosso uníssono harmônico”.
Ao enfrentar o tema da identidade do espiritismo, o II Encontro Nacional da CEPABrasil tinha exatamente esse propósito: estimular a união dos espíritas, a partir da harmonia sugerida pelas leis universais que constituem a base filosófica comum a todos eles. Kardec chamou isso de “comunhão de pensamento”. Essa harmonia é tecida de várias notas, de tons e semitons que ecoam nos diferentes cenários onde se cultivam as ideias espíritas.
Pensamos apenas que há uma pauta da qual não nos é lícito sair, se pretendemos continuar nos afirmando espíritas. Com esse evento, os núcleos brasileiros que se identificam com a CEPA desejaram contribuir buscando explicitar essa pauta. Para que sobre ela todos os espíritas sigam compondo, plural e harmonicamente, a melodia dessa mensagem universal chamada espiritismo. Se logramos algum avanço só o tempo poderá dizer.
A harmonia é tecida de várias notas, mas há uma pauta da qual não nos é lícito sair, se pretendemos continuar nos afirmando espíritas.

Opinião do leitor
Recebimento de CCEPA Opinião
Como responsável pela parte administrativa da Sociedade Espírita Novo Horizonte, comunico aos senhores nossa Caixa Postal, de número 114, para onde deverá continuar sendo enviado o jornal. Nossa intenção é a de continuar recebendo CCEPA Opinião, pois entendemos a importância dessa entidade no aprofundamento dos estudos espíritas. Mais uma vez agradecemos a gentileza do envio. Gostaríamos de cada vez mais estreitar o nível de comunicação com essa entidade. Assim, solicitamos a gentileza de sempre que tiverem novidades (como, por exemplo, a realização do II Encontro Nacional da CEPABrasil e outras atividades), que, por favor, nos informem, pois teremos o maior interesse em participar.
Carlos Cesar Machado Alves
Vice-Presidente Da Sociedade Espírita Novo Horizonte – Capão Novo – Capão da Canoa/RS

Opinião em Tópicos
Milton R.Medran Moreira

Nosso Lar
Escrevo esta coluna quando se fecham as duas primeiras semanas de exibição do filme Nosso Lar. Um sucesso de bilheteria. Cerca de 2 milhões de brasileiros já assistiram ao filme. No momento em que você ler este comentário, o número poderá ter dobrado. Os espíritas, de modo geral, andam eufóricos. Depois do êxito do filme Chico Xavier, a produção de Wagner de Assis está contribuindo para tornar ainda mais popular a mensagem de Emmanuel/André Luiz, base do espiritismo cristão que ganhou milhões de adeptos neste Brasil, Coração do Mundo e Pátria do Evangelho (ou será dos evangélicos?). Há uma forte campanha para que “Nosso Lar” seja o candidato brasileiro ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Tenho estado atento a tudo o que dele se fala, no meio espírita ou fora dele.

A crítica
Minha amiga Nícia Cunha viu e não gostou. Na lista da CEPA, comentou na forma franca como é de seu estilo. Acha que a dimensão espiritual foi mostrada como “um umbral escuro, nojentamente enlameado e com espíritos sofredores feridos, vagando sem rumo”. Na colônia espiritual que deu nome à obra, “todo mundo piegas, com aqueles camisolões brancos, falas professorais, sem argumentação lógica”. A tônica presente, segundo Nícia, é a de sempre: “Mais tarde você compreenderá tudo”.
A crítica especializada, de maneira geral, tem elogiado os efeitos especiais, muito bem utilizados, à moda hollyoodiana. Mas não tem poupado críticas ao caráter piegas da produção. Na Folha de São Paulo, o crítico Gustavo Fioratti comenta que “retratar o mundo dos mortos com um cenário cheio de flores, gramados ensolarados e cheio de personagens que usam roupas esvoaçantes é apostar num velho clichê”. (Folha Ilustrada – 3/9).

Batas ou jeans?
Em áudio veiculado no site da Folha, Fioratti diz não entender porque nessas colônias espirituais, mostradas em novelas e filmes do gênero, nunca chove. E o que mais o intriga é por que um espírito desencarnado tenha de andar sempre com aquelas batas “em tons pastéis, variando entre o bege e o lilás”. Pergunta: que mal teria se eles se apresentassem com uma calça jeans bem cortada ou uma minissaia?
Claro que o cineasta e nem o autor das novelas da Globo não podem levar as culpas disso. É assim mesmo que as obras espíritas vêm, sistemática e invariavelmente, retratando o mundo espiritual. Aí cabe uma importante reflexão espírita: no fundo, a ideia de imortalidade que o espiritismo prega, modelada por obras mediúnicas dos anos 40, pouco se afastou do estereótipo céu/inferno/purgatório, do catolicismo.

Estereótipos
“Nosso Lar”, “Brasil, Coração do Mundo e Pátria do Evangelho” e tantas outras obras mediúnicas que moldaram o espiritismo brasileiro podem não passar de meras criações de ficção de seus autores espirituais. Ou será proibido fazer ficção na espiritualidade? Mesmo, contudo, que o famoso livro de André Luiz retrate um lugar real, uma colônia situada no espaço espiritual do Rio de Janeiro, por que deveremos tomá-la como uma realidade universal? No mundo material, também há colônias religiosas onde seus habitantes andam de batas, longos camisolões, batinas ou hábitos. Nem por isso, a Terra é um grande mosteiro ou um imenso Vale do Amanhecer. Cabe a nós, espíritas, derrubar esses estereótipos. Meta na formação de nossos médiuns, engajados em uma concepção laica, humanista e universalista da realidade espiritual. Quando isso for possível, hão de emergir, sim, em profusão, colônias espirituais onde seus habitantes trajam jeans bem cortados e minissaias. E nem por isso deixarão de dar sua contribuição ética à humanidade encarnada.

Notícias

O chá que une o útil ao agradável

Desde o último mês de julho, o Centro Cultural Espírita de Porto Alegre – CCEPA – encontrou uma forma criativa de integração de seus grupos de estudo. Por iniciativa da dirigente Eloá Popoviche Bittencourt, bimensalmente é organizado um chá/café após as reuniões de estudo ou seminários, das quartas-feiras à tarde. Salomão Jacob Benchaya, Diretor Doutrinário da Casa classifica o chá das quartas como “confraternativo/arrecadativo”. Com o patrocínio de alguns associados e da Padaria Santo Antônio (Av.Getúlio Vargas, 178, Bairro Menino Deus) é possível oferecer, mediante a colaboração de 5 reais, um agradável lanche que oportuniza o encontro e a confraternização entre os membros do CCEPA, além de aliviar o sempre necessitado Caixa da Instituição.
.
Ecos do II Encontro em Bento Gonçalves
Quem não pôde participar do II Encontro Nacional da CEPABrasil, organizado pelo Centro Cultural Espírita de Porto Alegre e patrocinado pela Associação de Delegados e Amigos da CEPA no Brasil, poderá ter um relato resumido do que ali foi discutido. No próximo dia 4 de outubro, no espaço destinado à conferência mensal da primeira segunda-feira do mês, Salomão Benchaya vai comentar o evento e sua temática.


.
Enfoque
Antiga e velha, mas ainda tão nova
Wilson Garcia, escritor, jornalista e professor universitário, Recife/PE
Codificador, autor, criador e até mesmo inventor são alguns dos termos utilizados para designar a relação de Allan Kardec com a Doutrina Espírita. Às vezes em tom de crítica à popularização do adjetivo codificador, que sem dúvida encontrou espaço maior no campo do movimento, às vezes por conta de estudos sérios que buscam compreender a doutrina lançada a público a partir de 1857, na França.
O mineiro Augusto Araújo tem debatido pelas listas da Cepa este e outros temas vinculados aos seus interesses de estudo, enquanto produz sua tese de doutoramento baseada “na leitura e interpretação da obra de Allan Kardec"1. Tem ele reiterado em algumas oportunidades não ser adepto do espiritismo, mas suas intervenções têm revelado sempre respeito e admiração e recebido por parte dos listeiros grande atenção e interesse, além do espaço de discussão bastante profícuo.
No texto que fez publicar no jornal Opinião abaixo mencionado, Araújo expõe suas razões histórico-metodológicas pelas quais entende ser Allan Kardec o autor da doutrina dos espíritos, preferindo este termo aos demais. Baseia-se num raciocínio lógico em que compara as produções filosóficas atribuídas aos pré-socráticos e aquela realizada por Allan Kardec no século XIX. Lamenta o desaparecimento das fontes utilizadas por Kardec (as comunicações dos espíritos), razão pela qual se sente impedido de reconhecer a face “científica” do espiritismo. Ou seja, já não se tem mais condições de analisar comparativamente o pensamento dos autores espirituais e o de Kardec no seu trabalho de produção da doutrina.
Por mais que os espíritas profundamente ciosos de suas crenças justifiquem a pouca importância que atribuem a isso, na opinião de que o conhecimento que a doutrina oferece tem valor maior, afirmando mesmo às vezes que é o que interessa, não se pode negar os fatos. Isso não diminui o valor do espiritismo, absolutamente, mas a lacuna deixada pelo desaparecimento das fontes primárias impede um trabalho mais amplo de análise comparativa. O caminho aí, portanto, embora não estacione, bifurca-se.
A questão da codificação-autoria levantada por Araújo permite outros raciocínios. O termo “codificador”, bastante criticado por alguns, não está em oposição ao que se conhece em comunicação na contemporaneidade. O termo sofreu desgastes, é verdade, com seu uso generalizado por incorporar outras significações, como, por exemplo, a ideia implícita de que o codificador foi apenas um ordenador cuja participação não passou deste limite, o que conferiria maior autoridade às mensagens originais e colocaria Kardec no papel de intermediário isento.
Em sua significação semântica o termo codificar é empregado para designar a ação de produzir mensagem através do código linguístico que deverá ser “decodificado” pelo destinatário. Em princípio, todo emissor é um codificador e todo destinatário é um decodificador. Mas a ideia de uma comunicação circular nos leva à compreensão de que emissor e destinatário se alternam nestas duas posições, ou seja, Kardec foi decodificador quando estudou as mensagens e codificador quando as ordenou. Nesse processo, evidentemente, sua intervenção deixou as marcas da sua individualidade mostradas pelas evidências.
Assim, Kardec terá sido um codificador ativo, participante e, como é consenso entre os espíritas, autorizado pelas fontes. Se na ausência dos documentos originais contendo as mensagens se afirmará que ele, Kardec, é o autor, para os espíritas deverá ser visto como co-autor, ou seja, o material fornecido pelas fontes espirituais recebeu a impressão do pensamento de Kardec.
Mesmo que Kardec tivesse sido uma espécie de coordenador passivo, ainda assim suas marcas estariam presentes no produto final, porque selecionar e ordenar o material implica em tomar decisões e fazer opções, incluir e excluir, dar voz e retirar a voz, o que, em última palavra, significa participar do e definir o produto final.
Kardec, porém, foi muito além disso. Foi também intérprete das vozes espirituais, liderou um processo, produziu questionamentos, direcionou temas, solucionou contradições, superou dilemas, concordou e discordou até chegar a um ponto consensual com as fontes espirituais.
Talvez aqui devamos tocar na transcrição que Araújo faz de um dos diversos trechos em que Kardec fala sobre a sua participação na obra doutrinária, texto que serve a Araújo para reforçar sua convicção sobre a posição autoral de Kardec. Ei-lo.
“Da comparação e da fusão de todas as respostas, coordenadas, classificadas, e muitas vezes retocadas no silêncio da meditação, foi que elaborei a primeira edição de O Livro dos Espíritos, entregue à publicidade em 18 de abril de 1857.”
Araújo questiona o emprego do verbo “retocar” como tradução do francês “remanier”, entendendo que maior precisão haveria se fosse usado o verbo reparar, modificar ou refazer. Apesar das justificativas etimológicas oferecidas por Araújo, parece-me que em nenhum desses casos, ou seja, o emprego de qualquer dos verbos sugeridos ou a manutenção do verbo escolhido pelo tradutor não resolveria a questão da intencionalidade de Kardec.
Não há como dimensionar a ação de Kardec em relação às mensagens por ele comparadas e fundidas, senão especular. Aqui, com certeza, o desaparecimento dos originais se torna mais significativo de ponto de vista do interesse do pesquisador, ao impossibilitar qualquer avanço no desejado estudo comparativo.
O que significa, de fato, comparar, fundir e retocar “no silêncio da meditação”? Qual é a extensão disso em relação às ideias e respostas dadas pelos autores espirituais? A declaração de Kardec tem o objetivo simples de chamar para si a responsabilidade do produto final ou vai além? Qualquer resposta objetiva aqui será mera conjectura.
Estou curioso com a tese que o Augusto Araújo está produzindo e pelo que tenho acompanhado deverá apresentar boa contribuição à compreensão do espiritismo. Da mesma forma, estou convicto de que a questão codificador-autor deveria ser vista com mais naturalidade, na perspectiva de que como codificador é também co-autor e como co-autor é ainda assim o codificador de uma mensagem tão complexa quanto extraordinária.
1 Jornal Opinião, p4, Porto Alegre, julho de 2010.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

OPINIÃO - ANO XVII - N° 178 - SETEMBRO 2010

.
Bem-Vindos a Bento Gonçalves!

Começa na cidade gaúcha de Bento Gonçalves, capital brasileira da uva e do vinho, o Encontro dos Delegados e Amigos da CEPA no Brasil. Com a temática “Espiritismo – A Questão da Identidade”, o Encontro discute aspectos ligados à natureza, à história e à inserção do espiritismo na cultura humana.

II Encontro Nacional da CEPABrasil
3 a 6 de Setembro de 2010
Gente da boa cepa na terra dos vinhedos



























Editorial

Não ao Preconceito e à Discriminação

O preconceito é um fardo que confunde o passado, ameaça o futuro e torna o presente inacessível.
Maya Angelou (poetisa norte-americana)

Expressão vigorosa da modernidade, o espiritismo, como proposta filosófica e social, rechaça toda a forma de preconceito e discriminação calcados em diferenças de raça, religião, sexo ou ideologia.
No momento em que é escrito este editorial, todo o mundo civilizado protesta contra a iminente execução de uma mulher iraniana, Sakineh Mohammadi Ashtiani, condenada à morte por apedrejamento, por suposto adultério. Em uma de suas raras oportunidades de se manifestar, através de um porta-voz, Sakineh declarou: “Estou condenada porque sou mulher”. E fez um apelo dramático: “Não permitam que meus filhos assistam à minha execução”.
O caso Sakineh é apenas mais um. Tornou-se emblemático em face da mobilização da comunidade internacional e motivou, inclusive, o oferecimento de asilo político pelo Brasil à mulher condenada. Casos semelhantes ocorrem em diferentes quadrantes do mundo, sem que sobre eles recaiam os holofotes da imprensa internacional. No mesmo Irã, está por ser executado Ebrahim Hamidi, sob a acusação de prática do homossexualismo. Episódios idênticos acontecem, habitualmente, no Afeganistão, na Nigéria, no Paquistão, na Arábia Saudita e em outras teocracias muçulmanas.
A teocracia cristã não agiu diferente. Nos seis séculos em que vigorou a Inquisição, estima-se que 9 milhões de pessoas tenham sido vítimas do Tribunal do Santo Ofício. Destas, cerca de 70% seriam mulheres. Sobre elas pesava a acusação genérica de “bruxaria”, envolvendo comportamento sexual e heresias que, segundo os inquisidores, lhes eram inspirados pelo demônio, com o qual elas, por serem mulheres, estariam sempre mancomunadas. Para os autores do famoso livro “O Martelo das Bruxas”, manual oficial de tortura, julgamento e execução aplicável às mulheres, estas tinham estreita convivência com o demônio “porque Eva nasceu de uma costela torta de Adão e, logo, nenhuma mulher pode ser reta”. Com essa ideologia, talvez jamais se houvesse institucionalizado a igualdade de direitos entre o homem e a mulher, no Ocidente, não fosse a reação laica que, a partir do Iluminismo, foi retirando o poder civil da Igreja até separá-la inteiramente do Estado.
O espírito não tem sexo, segundo princípio adotado pelo espiritismo. Em seu processo evolutivo, independentemente de sua conformação biológica ou psíquica a um ou outro pólo sexual, o espírito desbrava os caminhos que conduzem ao estado de liberdade de pensar e de agir. Sua vocação libertária leva-o, fatalmente, a insurgir-se contra o poder religioso e contra as formas de autoritarismo que levantam e sustentam os muros do preconceito e da discriminação. Conhecimento e responsabilidade individuais, conquistas do espírito, reclamam liberdade de pensamento e de ação, dentro dos parâmetros de uma ética universal, assectária e igualitária.
O processo civilizatório desenvolve-se em ritmo e tempos diferenciados, nos distintos quadrantes da Terra. Mas, a opressão e o poder discriminatório frequentemente resistem ao tempo, escudados em supostos valores religiosos, claramente apartados da autêntica espiritualidade. O espírito, em qualquer tempo ou lugar, é o verdadeiro agente transformador da História, impulsionado pelas leis maiores do Amor e da Justiça. Estas um dia, necessariamente, regerão todos os povos, pela força do espírito.
Todo o mundo civilizado protesta contra a iminente execução da mulher iraniana, Sakineh Mohammadi Ashtiani.

Opinião do Leitor

Blog do CCEPA
Parabéns ao Centro Cultural Espírita de Porto Alegre por seu blog, muito interessante e instrutivo (www.ccepa.blogspot.com). Muito legal! Não conhecia o Centro Cultural Espírita. Eu estudo na Sociedade Espírita Allan Kardec, no centro de Porto Alegre. Mas acho muito interessante conhecer mais e aprender mais sobre espiritismo com outras pessoas e instituições Muito legal!
Thaís Bastos – Porto Alegre.

Opinião em Tópicos
Milton Medran Moreira

A identidade espírita

A lapidar afirmação de Kardec de que “se reconhece o verdadeiro espírita por sua transformação moral e pelo esforço que empreende para dominar suas imperfeições” mostra com clareza o objetivo do espiritismo: promover a transformação moral do ser humano, instrumentalizá-lo no processo de seu aprimoramento ético. Acerca dessa nobre missão do espiritismo não cabem dúvidas e não parece haja discordâncias entre todos os espíritas sinceros.
O que, talvez, nem sempre e nem todos percebamos é que, sendo esse o objetivo do espiritismo, não é isso, exatamente, o que o individualiza. Pelo menos, não foi essa a proposta conceitual de seu ilustre fundador e codificador que o definiu como uma “ciência que trata na natureza, da origem e do destino dos espíritos e de sua relação com o mundo material”.

A concreta realidade do espírito
Mais de 150 anos depois do nascimento do espiritismo, o grande desafio que se nos apresenta é o mesmo que foi objeto da preocupação central de Kardec: demonstrar com clareza a existência do espírito imortal como realidade concreta. Convencido o homem de sua verdadeira natureza espiritual, de sua imortalidade, de sua evolução por meio das vidas sucessivas, estará de posse do instrumental necessário à compreensão e à vivência das leis morais que lhes são consequência. Essa moral, por ser a expressão das leis naturais, não objetiva a criação de uma nova religião ou sistema de crença, mas de um novo paradigma de conhecimento para a humanidade. Daí a afirmativa de Kardec, tão desprezada e concretamente rejeitada por amplos setores do movimento espírita: “o verdadeiro caráter do Espiritismo é o de uma ciência e não de uma religião”.

A ciência do espírito
Está em curso no Brasil mais um censo. Logo, como já ocorreu há 10 anos atrás, se estará revelando um universo cada vez maior dos que se declaram “sem religião”. A falência das religiões deriva precisamente do fato de terem elas se arvorado em normatizadoras da vida moral do homem, sem cooperar, e até opondo obstáculos, à livre investigação do conhecimento. Não se aprimora a moral sem se investir no conhecimento. É o desenvolvimento da inteligência, e logo, do exercício desta na aquisição de conhecimentos, o que qualifica moralmente o ser humano: “o fruto não pode vir antes da flor”, disseram os espíritos na questão 791 de O Livro dos Espíritos. A grande e revolucionária proposta kardeciana é o desenvolvimento da ciência do espírito. Isso não a desvincula de seu objetivo ético. Antes, é seu inafastável pressuposto.

O espiritismo ante a pós-modernidade
Em nosso meio, já se fizeram memoráveis campanhas no sentido de que está na hora de espiritizar ou de kardequizar o movimento espírita. Agora, o II Encontro Nacional da CEPABrasil (Bento Gonçalves, 3 a 6 de setembro) elege como tema a questão da identidade do espiritismo. Esses movimentos que ganham força, consistência e importantes adesões, nas últimas décadas, retratam a inquietação de um amplo setor do movimento espírita. Busca-se para o espiritismo uma identidade que se esboçou com muita clareza na modernidade, mas que se multifacetou na pós-modernidade. Há quem prefira ver no espiritismo um grande estuário sincrético onde desemboquem todas as tendências espiritualistas. Bonito! Mas seria o fim de sua identidade. Para evitar isso é preciso voltar à proposta original de Kardec, acrescida e enriquecida de tudo o que a possa atualizar, confirmando-lhe os fundamentos. As consequências advirão, com certeza. Como o fruto que sobrevém à flor.

Notícias

À Leda, nosso carinho

Às vésperas de completar 40 anos de serviços ao Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, Leda Beier foi alvo de carinhosa homenagem dos dirigentes do CCEPA. Na noite de 7 de agosto, foi-lhe entregue placa materializando o reconhecimento da instituição, no momento em que Leda deixa de coordenar grupo de estudos da Casa. Tendo ingressado na antiga S.E.Luz e Caridade (hoje CCEPA), em 1971, Leda, já no ano seguinte, passou a dirigir grupos de estudos e mediúnicos, atividade exercida até este ano, quando, por questões de saúde de familiares, precisou retirar-se. Acompanhou e apoiou todas as históricas mudanças do CCEPA, tendo ocupado sua vice-presidência, na gestão 98/99.
Leda Beier segue vinculada à instituição, onde dirige o Departamento de Ação Social. Na tardes de terças-feiras, coordena grupo de senhoras que confecciona costuras para pessoas necessitadas, nas dependências do CCEPA. Sobre sua participação de quase 40 anos nas atividades doutrinárias do CCEPA, Leda declarou, emocionada, ao receber a homenagem: “Aqui entrou uma Leda e hoje sai outra, bem diferente. Se algo dei de mim a esta Casa, posso dizer que dela recebi muito mais”.

Na foto, Elba Jones (D) após entregar a Leda (D) placa de reconhecimento de seus companheiros dirigentes do CCEPA.

As relações espírito/cérebro

A conferência mensal da primeira segunda-feira do mês, no Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, esteve a cargo do empresário Rogério Hipólito Feijó Pereira, na foto. Com bagagem adquirida em estudos e congressos realizados nos últimos anos tendo como objeto o fascinante tema do cérebro humano, Feijó, tem sido um pesquisador e expositor do assunto no meio espírita.
No trabalho apresentado no auditório do CCEPA, no último dia 2 de agosto, sob o título de “Estrutura do cérebro – comando do espírito”, o conferencista sustentou o princípio espírita de que a extraordinária estrutura cerebral humana é comandada pelo espírito. A partir do conceito do neuropsiquiatra americano John Ratoy, segundo o qual no cérebro “não há um centro de decisão”, e com base em outras importantes pesquisas, o conferencista salientou que mente e cérebro são coisas distintas e que a mente (ou espírito) é o agente responsável pelo comando da complexa estrutura cerebral

Seminários internos no CCEPA
O Departamento de Estudos Doutrinários do CCEPA, desde o mês de junho último, vem realizando Seminários com a participação dos grupos de estudo das quartas-feiras, à tarde, e das quintas-feiras, à noite, para debate de temas escolhidos previamente. Já foram discutidos os seguintes temas: "Livre-arbítrio e determinismo", "Flagelos destruidores" e "Identidade do Espiritismo". Os dois primeiros temas foram objeto de palestras públicas, respectivamente de Homero Ward da Rosa e Aureci Figueiredo Martins, discutidos e ampliados, pelos grupos, posteriormente. O tema “Identidade do Espiritismo” preparou o Encontro dos Amigos da CEPA, que acontece este mês em Bento Gonçalves.

Segundo Salomão Jacob Benchaya,na foto, Diretor do Departamento, “além de aprofundar o questionamento acerca do espiritismo, esses seminários possibilitam a maior integração entre os membros do CCEPA”.
.

Epiritismo: o consolador prometido?

Amely B. Martins, bióloga, educadora espírita e membro da ASSEPE – Associação de Estudos e Pesquisas Espíritas de João Pessoa (PB) -, compõe o painel “Espiritismo e Ciência” na programação do II Encontro Nacional da CEPABrasil (conferir na capa deste jornal).

Tudo é relativo!
O conceito da relatividade proposto por Einstein trouxe um grande avanço não apenas no âmbito científico, através do abalo ao mecanicismo de Newton, mas também trouxe e ainda traz avanço para a humanidade e para o homem.
Através da relatividade nada é absoluto, nada é único, nenhum conceito é estático. E desta forma os paradigmas tendem a ser menos engessados, e mais facilmente ampliados ou substituídos.
É justamente neste sentido relativo que devemos entender a palavra consolador, bem como todo seu significado.
Segundo o dicionário Aurélio, consolar é aliviar ou suavizar a aflição, o sofrimento ou o padecimento, é dar lenitivo, suavizar, mitigar, além de proporcionar sensação agradável ou de prazer a algo ou alguém.
A partir da própria definição já podemos perceber o quanto é relativa a aplicação do termo, afinal, diferentes pessoas, em diferentes situações se sentem consoladas também de formas diferentes.
Não é possível haver, portanto, um consolador absoluto para toda a humanidade, visto que a grande diversidade de necessidades, opiniões e anseios dos homens faz com que estes precisem também de consolação diversa.
Atribuem a Jesus a promessa de enviar um consolador para a humanidade, e muitos homens se utilizam desta suposta promessa para dogmatizar suas próprias crenças e excluir outras. Mas aí está um grande equívoco, afinal tudo o que consola alguém verdadeiramente, levando a uma evolução e melhora interior tem o consentimento de Jesus e de todos os espíritos bons, que querem o bem da humanidade.
Não importa a origem, mas sim o efeito consolador que determinado conhecimento ou ação proporcionam. Como exemplo, podemos citar a lei de amor ao próximo, defendida por quase todas as correntes religiosas ocidentais e orientais. Quando aplicada, a lei de amor traz consolo para quem a pratica ou está envolvido nela, e isto independe da crença religiosa do praticante.
Crer que o espiritismo é “o consolador prometido por Jesus”, se é que Jesus realmente prometeu um consolador, é restringir o espiritismo, pelo fato de julgá-lo tão completo que pode consolar a toda humanidade. É cair na falsa pretensão de que o espiritismo é a doutrina salvadora que irá consolar a todos os homens, é dogmatizar, é engessar seus princípios, negando sua própria evolução.
Realmente os princípios espíritas são capazes de trazer consolo às pessoas que se interessarem por eles, realmente a doutrina espírita traz conhecimentos relativamente novos, principalmente para o ocidente, e por muitas vezes uma discussão mais aprofundada sobre assuntos há muito existentes. Mas isso não faz da doutrina o único agente de consolação da humanidade.
Desta forma voltamos ao início da discussão, através da percepção de que o consolo é relativo, assim como é relativo também o agente consolador, e que o espiritismo é sim uma doutrina consoladora, mas não o único agente consolador da humanidade.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

OPINIÃO - ANO XVI - N° 177 - AGOSTO 2010


A questão da identidade espírita

Amigos da CEPA reúnem-se no II Encontro Nacional da CEPABrasil, de 3 a 6 de setembro, em Bento Gonçalves/RS, para discutir o delicado tema da identidade do espiritismo.

Quantos espíritas tem o Brasil?
Está começando mais um censo demográfico no Brasil. Teoricamente se saberá quantos espíritas existem no país. No censo de 2.000 eram 2.337.432. Nada mais que 1,38% da população. A Federação Espírita Brasileira, principal órgão congregador das instituições espíritas no país, defende a existência de um número bem maior. Hoje estima em 20 milhões de seguidores e simpatizantes da doutrina sistematizada por Kardec, o que representaria cerca de 10% da população a ser aferida no censo.

Dependendo dos parâmetros aceitos pela FEB para identificar quem é espírita, é possível que o número supere aquela estimativa. Com certeza, uma quantidade bem maior de brasileiros frequenta algum dos 12 mil centros espíritas filiados à FEB e milhares de outros não federados. A questão, no entanto, é que, provavelmente, a maioria dos frequentadores das instituições espíritas não se enquadre em uma definição teórica da condição de espírita. Talvez, inclusive, muitos colaboradores e dirigentes dessas instituições sequer aceitem todos os pressupostos teóricos postos por Allan Kardec como fundamentais da doutrina e façam deles uma mescla com dogmas das religiões cristãs.
.
Um evento para discutir a questão da identidade espírita
A Associação Brasileira de Delegados e Amigos da CEPA – entidade que sustenta, no Brasil, o pensamento da Confederação Espírita Pan-Americana – discute a delicada questão da identidade espírita no II Encontro Nacional da CEPABrasil, de 3 a 6 de Setembro, no Hotel Dall’Onder, em Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha.

O Encontro, aberto à participação de todos os interessados no tema, já está com sua lotação quase esgotada. Começará na noite de 3 de setembro, às 20 h, com uma conferência do advogado e jornalista Milton R. Medran Moreira, com o tema “Espiritismo, dos Fundamentos às Consequências”, e findará na manhã de 6/9, com um painel versando justamente sobre a “Identidade do Espiritismo”, com a participação de Ademar Arthur Chioro dos Reis (médico, Santos/SP), Adão Araújo (empresário, Bento Gonçalves/RS), Marcelo Henrique Pereira (jurista, São José/SC), Luiz Signates (professor universitário, Goiânia/GO) e Cristian Macedo (historiador, Porto Alegre/RS). Nos três dias de sua realização, o Encontro apresentará conferências, painéis e mesas-redondas sobre o espiritismo, nos seus enfoques científicos, filosóficos e morais, com a participação de pensadores espíritas de diferentes Estados brasileiros e uma delegação de cerca de 20 argentinos, liderados pelo presidente da CEPA, Dante López (Rafaela/AR).
.
Nossa Opinião

Antes que percamos a identidade
Inegável a forte influência do espiritismo no quadro de “crenças” do Brasil. Pesquisa Datafolha, em 2007, por exemplo, atesta que 44% dos católicos brasileiros aceitam a reencarnação, um princípio aqui popularizado pelo espiritismo e que contraria os dogmas da Igreja. Em compensação, a mesma pesquisa aponta que um universo de 64% de pessoas que se declararam “espíritas” disse crer na virgindade de Maria, mãe de Jesus, dogma católico incompatível com a racionalidade espírita. Quase a totalidade dos “espíritas” pesquisados (95%) declarou-se crente da ressurreição de Jesus, e 33% deles admitem o dogma cristão da existência de Satanás.
Tudo isso confirma que o espiritismo é uma forte presença no imaginário popular brasileiro, sem, no entanto, se constituir, em meio a essa grande massa de “crentes”, numa clara e definida proposta científica e filosófica, nos moldes estabelecidos por Allan Kardec.
Discutir isso de forma aberta, sem o preconceito da excludência ou a pretensão da titularidade da “pureza doutrinária”, é um desafio para o movimento espírita brasileiro. Até onde se podem reconhecer as naturais diferenças dos distintos segmentos, guardando a identidade comum? De quais elementos constitutivos é feito o laço que deve unir todos os espíritas?
A Associação Brasileira de Delegados e Amigos da CEPA, entidade promotora, e o Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, que organiza o evento, com a colaboração do Lar da Caridade, de Bento Gonçalves/RS , entendem que é hora de se aceitar esse desafio, antes que percamos inteiramente nossa identidade. (A Redação)
.
Editorial
Um convidado muito especial
“Já podemos pensar laicamente o Espiritismo, sem angústias, nem sentimentos de culpa por não sermos mais religiosos. Sentimo-nos comprometidos com a formação de espaços destinados a expandir esse sentimento comum para que neles se exercite e se aprimore a consciência espírita livre, a cultura espírita”.
(Krishnamurti de Carvalho Dias - 1930/2001 - em “A Descoberta do Espírito”)

Nossa leitora Denize de Assis (Guarulhos/SP) enviou, mês passado, à redação de Opinião mensagem recordando que em 18 de julho, se vivo fosse, o pensador espírita carioca Krishnamurti de Carvalho Dias, nascido naquela data de 1930, completaria 80 anos. Sugeria escrevêssemos algo a respeito disso.

Às vésperas da realização do II Encontro Nacional da CEPABrasil (de 3 a 6 de setembro) mais do que registrar o aniversário de seu nascimento, cabe prestar uma homenagem de reconhecimento e de profundo afeto a “Krishna”, como era, carinhosamente, chamado por seus amigos. Ele foi, sem dúvida, uma das grandes vozes a alertar para a necessidade de se conceder melhor precisão à questão da identidade espírita, tema central do Encontro dos Amigos da CEPA do Brasil, em Bento Gonçalves, no próximo mês. Mais do que isso, foi o precursor daquilo que os amigos da CEPA propõem, hoje: um movimento espírita aberto à liberdade de pensamento e ancorado na proposta, também livremente construída, de Allan Kardec. No opúsculo “Roustaing”, lançado no Congresso da CEPA, em 2000, em Porto Alegre, Krishnamurti deixou esta lúcida mensagem:

“Com protestos de sincero respeito pelos religiosos do movimento, sejam roustainguistas ou não, com pensamentos de paz endereçados ao respeitável Roustaing, aguardo confiante em que um dia os espíritas já libertos da religiosidade e decididamente compromissados com Rivail, ainda façam isso: organizem-se em um segmento padrão de um modo não federativo, mas meramente cooperativo, consensualista, isto é, onde ninguém subordine nem seja subordinado a ninguém em pirâmides de poder, mas todos cooperem uns com os outros, horizontalmente, igualitariamente, formando um contingente alternativo ao outro, ao sistema federativo, cada qual reunindo de modo pacífico e harmonioso, as duas compreensões espíritas: os ainda religiosos e os já libertos dessa limitação, todos convivendo lado a lado”.

Nas suas “palavras finais” do trabalho “A Hora e a Vez do Segmento Padrão”, (www.cepanet.org) apresentado no Congresso de Porto Alegre, três meses antes de sua desencarnação, Krishna declarava “total e absoluta solidariedade” ao “segmento padrão” que identificava na CEPA, generosamente qualificada por ele como “luminosa”.
Luminoso é ele. Luminosas suas propostas de união e de cooperação de todos os espíritas a partir das bases fincadas por Kardec, fundamento irremovível da genuína identidade espírita. Outro, aliás, não é o objetivo do Encontro de Bento Gonçalves.

O XVIII Congresso Espírita Pan-Americano (Porto Alegre/2000), contra o qual setores organizados do movimento espírita investiram tão duramente, realizou-se em momento onde, talvez, essa consciência ainda não havia desabrochado. Busca-se, no evento de Bento Gonçalves consolidar essa proposta de um espiritismo progressista, livre-pensador, não atrelado a hierarquias religiosas, afinado com os novos tempos, capaz de tornar viável o lema kardeciano de “trabalho, solidariedade e tolerância”.
Cremos, sinceramente, ser isso possível. Mais do que possível, inadiável. Mais do que inadiável, indispensável à própria sobrevivência do espiritismo. Krishnamurti de Carvalho Dias sonhava com esse estágio. Adubada e energizada de novos nutrientes, a cepa da videira espírita há de ser revigorada, neste evento, na “capital brasileira da uva e do vinho”. Por tudo isso, ”Krishna”, com certeza, estará lá. É nosso convidado muito especial.

Krishnamurti foi uma das grandes vozes a alertar para a necessidade de se conceder melhor precisão à questão da identidade espírita.
.
.
Opinião em Tópicos
Milton Medran Moreira

No tempo da palmatória
Não é do meu tempo. Estou ficando antigo, mas nem tanto assim. Lembro, porém, do que meus pais contavam sobre a escola no tempo deles. A palmatória era, então, instrumento disciplinar oficial em todas as salas de aula. A qualquer ato de indisciplina do aluno, o professor chamava-o ali em frente e, diante de todos os colegas, aplicava-lhe tantos golpes nas palmas das mãos quanto mais grave fosse a indisciplina.
Sem ter conhecido a palmatória, testemunhei, no seminário onde me internei dos 9 aos 15 anos, cenas que hoje levariam o padre-prefeito à cadeia, por crime de tortura a incapazes. Um dos castigos que infligia a seus tutelados era a fricção de urtiga no dorso nu. Enquanto a meninada trabalhava na roça, ele os vigiava, empunhando um galho daquela erva brava que, em contato com a pele, produz uma terrível ardência. Sem qualquer cerimônia, usava-a contra quem fizesse corpo mole no trabalho.
Nunca cheguei a sofrer essa humilhação. Mas, como penitência por alguns pecados declarados no confessionário, lembro de ter ficado de joelhos sobre grãos de milho, na sala geral de estudos, em frente a todos os demais seminaristas.

Palmadinha no bumbum
Recordo isso no momento em que é enviado ao Congresso Nacional projeto de lei que proíbe qualquer castigo físico ou humilhante, não mais na escola, onde há muito foi abolido (hoje são os alunos que torturam professores), mas no ambiente doméstico. A palmadinha no bumbum, prática a que a maioria dos pais, em todos os tempos, recorreu, como um corretivo leve, mas presumivelmente eficaz, estaria para entrar na história com o mesmo conceito de atraso e de barbárie que hoje atribuímos à palmatória do tempo de meus pais ou à urtiga e aos grãos de milho que torturavam dorso ou joelhos dos seminaristas de meu tempo.
Quando se referia aos trabalhos que teve com a educação de seus nove filhos, minha mãe costumava dizer que em mim, que sempre tivera um temperamento dócil, ela nunca precisou dar sequer uma palmada. A expressão “nunca precisou dar” permite compreender a real função geralmente atribuída à palmadinha no bumbum: a de derradeiro recurso, quando todos os outros tenham falhado. A nova legislação, se aprovada, sequer permitirá esse recurso, até aqui, tido como último.

A função da lei
Pode parecer radical demais a medida. Especialmente quando, como no caso de minha mãe, a palmadinha só era dada, de fato, como recurso derradeiro. E, isto é o mais importante, sem qualquer sentimento de raiva, mas com o objetivo único de educar.
Assim mesmo, acho que devemos apoiar a iniciativa. Toda a lei se reveste do chamado caráter geral e abstrato. Geral, porque atinge a todos, indistintamente. Abstrato porque não é feita para contemplar a situação concreta de uma pessoa, mas visa a disciplinar todas as situações enquadradas, teoricamente, numa hipótese. Não há dúvida de que, sob o pretexto de educar, muitos pais abusam dos meios corretivos e descarregam em seus filhos toda sua agressividade e todas suas frustrações. Para ser pai e mãe não se exigem concretamente quaisquer condições de maturidade psicológica ou de equilíbrio emocional. A lei poderá, de alguma forma, servir de freio, pela ameaça da sanção, a pais e mães despreparados para o delicado ofício de educar.

O diálogo
Tão mais complexo se apresenta o ato de educar quanto melhor formos capazes de avaliar o patrimônio trazido pelo educando de outras experiências de vida. Minha mãe, que não tinha qualquer noção acerca da preexistência do espírito, entendia, no entanto, que filhos apresentam diferenças inatas que exigem distinção de tratamento. No atual estágio do conhecimento humano, não se poderia, ainda, colocar esse paradigma, genuinamente espírita, como pressuposto da educação. A uma conclusão, no entanto, podemos todos chegar, diante do avanço dos conceitos da psicologia, da pedagogia e do humanismo: nada substitui o diálogo no processo da formação do caráter e aquisição de valores éticos. O castigo físico foi tido, por longo tempo, como a forma mais eficiente de corrigir defeitos e educar. Mas deixa marcas que, a médio e longo prazo, deformam, sem, de fato, contribuir para a educação do indivíduo. O projeto de lei ora em discussão pode ser, em nosso país, o prelúdio de um novo tempo, no sempre delicado campo das relações pais e filhos.
.
Notícias
.
Grupo do CCEPA estuda tese acadêmica
sobre experiências mediúnicas
.
O Grupo de Estudo coordenado por Valdir Ahlert, que se reúne às quintas-feiras à noite, no Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, durante os três últimos meses ocupou-se de estudar uma tese acadêmica apresentada pelo médico psiquiatra Alexander Moreira de Almeida, do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. O trabalho “Fenomenologia das Experiências Mediúnicas, Perfil e Psicopatologia de Médiuns Espíritas” foi apresentado para a obtenção do título de Doutor em Ciências, na área de Psiquiatria. O relato do estudo, pelo grupo do CCEPA, foi feito no auditório do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, na noite de 14/7 pelos integrantes do mesmo: Valdir Ahlert, Magali Ceroni Guerra, Walmir Gambôa Schinoff, Beatriz Urdangarin, Magnólia da Rosa, Luiz Almir Pinheiro Almeida e Ivânio Rogério Oliveira.

Um dos objetivos do trabalho do Dr, Alexander foi estudar o perfil sociodemográfico e a saúde mental de 115 médiuns espíritas da cidade de São Paulo, analisando o histórico de suas experiências mediúnicas e sua adequação social. A conclusão da pesquisa mostrou que, ao contrário do afirmado em algum tipo de literatura científica, os médiuns estudados, tem escolaridade e renda acima da média da população e baixo nível de transtorno dissociativo ou psicótico. Após a apresentação da tese, o Dr.Alexander Moreira de Almeida concedeu entrevista à Folha Espírita (São Paulo/agosto 2005), onde destaca o dado apresentado em pesquisas de opinião segundo o qual, a adesão ao espiritismo no Brasil tem crescido na medida em que aumenta o nível de escolaridade da população e que, dentre os segmentos religiosos no Brasil, o espiritismo é o que apresenta os melhores níveis sociais e de escolaridade. Na entrevista, Alexander também destaca que muitos intelectuais difundiram a ideia, “sem bases em pesquisas sólidas, de que religiosidade era algo associado à ignorância, culpa, infelicidade e imaturidade psicológica”, mas, destaca, com dados de sua pesquisa com médiuns espíritas, que a prática da mediunidade, no meio espírita, “está associada e melhores indicadores de saúde e bem-estar”. Interessados em conhecer a íntegra da tese podem encontrá-la em http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/5/5142/tde-12042005-160501/ .
Na foto, Luiz Almir, Magnólia, Magali, Valdir (coordenador) e Ivânio, integrantes do Grupo de Estudos que, juntamente com Beatriz e Walmir, estudou a tese de doutorado de Alexander.
.
Em setembro não tem conferência. Tem Encontro em Bento
Como sempre acontece, na primeira segunda-feira do mês, neste 2 de agosto, temos conferência pública no Centro Cultural Espírita de Porto Alegre (20h30min – Rua Botafogo, 678). Rogério Hipólito Feijó Pereira é nosso convidado para falar sobre “Estrutura do Cérebro – Comando do Espírito”.
Em setembro, excepcionalmente, não haverá conferência. A equipe do CCEPA estará em Bento Gonçalves, participando do II Encontro Nacional da CEPABrasil, que enfoca a temática central “Espiritismo – A Questão da Identidade”, com a participação de pensadores espíritas de diversos Estados brasileiros. Há, ainda, poucas vagas para esse evento. Interessados podem procurar o CCEPA ou comunicar-se com Tereza, pelo e-mail terezasama@hotmail.com.br
.
Enfoque

A Lenda do Chico/Kardec
Eugenio Lara
Arquiteto e designer gráfico, membro-fundador do Centro de Pesquisa e Documentação Espírita (CPDoc), fundador e editor do site Pense – Pensamento Social Espírita [www.viasantos.com/pense]. Autor dos livros em edição digital Racismo e Espiritismo, Milenarismo e Espiritismo e Os Celtas e o Espiritismo.
.
"Quando a lenda se torna realidade, publica-se a lenda".
[Frase do editor do jornal “Shinbone Star” ao senador Ransom Stoddard, personagens do filme “Quem Matou o Facínora” (1961), de John Ford]
.
Há lendas de todos os tipos: lendas urbanas, religiosas, folclóricas, históricas. Mas lenda espírita é algo que não havia imaginado. Vejo que isso existe mesmo e, amiúde, surge e ressurge na imprensa espírita, na internet, no cotidiano do movimento espírita. Oradores, médiuns e dirigentes espíritas são os grandes mentores desse tipo de coisa. Mas afinal, o que é uma lenda? E lenda espírita, existe isso?
Lenda é uma história fantasiosa, algo bem próximo do mito, parte integrante da tradição de todos os povos. Da lenda para a realidade, a distância é abissal, incomensurável. Quem convive com o poder e o vivencia sabe muito bem disso. Criam-se lendas, mitos, coisa folclórica a todo instante. A versão distorcida da realidade vira lenda. Uma ideia errônea, uma interpretação deturpada, enviesada dos fatos, se for sistematicamente repetida, de modo sutil ou insidioso, com o tempo acaba adquirindo o status de verdade. A mídia mal-intencionada usa e abusa desse recurso e os fofoqueiros de plantão sabem bem como isto funciona. A imprensa marrom sobrevive às custas desse tipo de expediente.
O mito e a lenda, em seu sentido mais nefasto, surgem quase como a fofoca, o mexerico, a maledicência, a informação plantada, o factóide. É a filtragem criada pelo imaginário. Um processo complexo que desafia antropólogos e historiadores.
Já a lenda legítima, que se desenvolve ao longo do tempo, tanto quanto o mito, esta sim é coisa séria. Historiadores, sociólogos e antropólogos, notadamente os estudiosos da religião, procuram decifrar os mitos e lendas de determinada civilização. O formato mitológico, mítico de interpretação da realidade, serve então de estudo na montagem de um quebra-cabeça que os aproxime da verdade dos fatos. Trata-se de um objeto de estudo fundamental para o entendimento de nossa própria história.
Enquanto que a lenda inventada, tatuada, plantada, concebida e gestada na mente de pessoas fascinadas, sedentas de poder e de glória, de legitimidade, torna-se perigosa, desprezível, porque pouco tem de inocência, de boa intenção. Desse tipo de gente, o umbral está cheio...
Triste constatar que uma nova lenda espírita ressurge no seio do espiritismo. A de que Chico Xavier tenha sido a reencarnação de Allan Kardec, confirmando assim a profecia de seu então protetor, o espírito Zéfiro, que afirmou ao fundador do espiritismo, em 1857, que ele reencarnaria no século vindouro, no século 20.
Não há indícios de que Rivail tenha reencarnado no século passado. Todavia, a quantidade de candidatos a esse posto é enorme. Eu mesmo já conheci uma meia dúzia dessa gente mentirosa e arrogante, que se acha o Druida de Lyon numa nova edição, a fim de granjear para suas ideias obtusas o status de filosofia respeitável. E para não ficar somente no lero-lero, cito duas personalidades não muito conhecidas. Uma delas surgiu no ABC e chama-se Osvaldo Polidoro (1910-2000), o criador do chamado Espiritismo Divinista. Toda sua doutrina se alicerça na lenda de que Polidoro tenha sido a reencarnação de Kardec. O que Herculano Pires já escreveu sobre essa personalidade atormentada foi suficiente. Não é necessário perder tempo com ela. Cito apenas como informação.
Um outro caso, surgido em Niterói-RJ, é o do filho de Kardec. Sim, isso mesmo, o filho de Allan Kardec reencarnado, cuja primeira obra denomina-se Eu Conheci Allan Kardec Reencarnado. Trata-se de Erasto de Carvalho Prestes (1926-2009), a quem certa vez recebi em minha casa e participou de algumas edições do Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita. Ele considera seu pai como o próprio Kardec, que deixou uma obra ainda por ser publicada. E o será, segundo ele, lançada no momento propício, conforme a vontade do “plano espiritual superior”...
Existem outros kardequinhos candidatos à notoriedade, à legitimidade artificial, criadores de doutrinas, de sistemas e que, acobertados por uma falsa humildade, se escondem por trás de supostas revelações de espíritos tão confusos e pseudossábios quanto eles. Essa de que o Chico seja Kardec é de doer. Se o jornalista Boris Casoy fosse espírita ele bradaria o seu bordão: “isto é uma vergonha!”.
Curiosamente, em torno dessa polêmica, poucos ousaram perguntar ao Chico se ele era realmente o Kardec. E quando perguntaram, negou veementemente: “Não, não sou. Não tenho nenhuma semelhança com aquele homem corajoso e forte”. Esse testemunho encontra-se em um livro escrito pelo estudioso e escritor espírita, Wilson Garcia, intitulado Chico, Você é Kardec? que praticamente esgota o assunto e coloca uma pá de cal nessa contenda ridícula.
E, por infortúnio do saudoso Freitas Nobre, um dos maiores mentores dessa nova lenda é justamente sua viúva, Marlene Rossi Severino Nobre. É difícil acreditar que uma pessoa que sempre se mostrou plena de seriedade acredite nessa tolice. A folha de serviços desta companheira é admirável, no entanto, ela praticamente joga na sarjeta seu currículo espírita em prol dessa lenda cretina e inútil.
Nessas situações, pouco importam os fatos. Pouco importa se Chico Xavier negou ser o Kardec reencarnado. Pouco importa se a lenda é mais interessante do que o fato. Já que é assim, fiquemos com a lenda. É o que essa gente faz.
Por ignorância ou interesse suspeito, os espíritas foram, ao longo do tempo, abraçando lendas e mitos em torno de Kardec, dos espíritos e do espiritismo. É um processo sociológico e antropológico complexo de se apreender. Todavia, quando alguém tenta demonstrar o contrário da lenda ou do mito, o que há é a marginalização, o despeito ou mesmo a perseguição silenciosa e “fraterna”, tudo em nome da religião, do evangelho, do amor e da caridade, e que assim seja...
Reconheço que as palavras nesse breve artigo são incisivas. Mas para lidar com mitos e lendas inventadas é necessário mesmo ser um pouco áspero. Senão essa coisa cria raiz, começa a germinar e se não cortarmos a cabeça logo de cara, o que teremos é um novo Ovo da Serpente. Aí então será tarde demais...
.
Opinião do Leitor

O Autor da Doutrina dos Espíritos
Parabéns ao Augusto Araújo pelo poder de síntese e argumentação no artigo “Allan Kardec: O Autor da Doutrina dos Espíritos?” (Opinião 176). A analogia entre os fragmentos dos filósofos gregos da antiguidade e o trabalho de Kardec nos obriga rever o conceito comum de Filosofia. Ao dimensionar Kardec como autor da obra espírita, o artigo nos remete a sua prática de manipulação de ideias coletivas. Ideias coletivas não são integralmente de ninguém, mas representativas de um momento histórico e ambiente social determinados. Desta forma, a própria intenção kardequiana de encontrar a opinião universal dos Espíritos fica redimensionada e negada. Se Kardec compartilhasse um olhar mais relativista do mundo, próprio do século XXI pós-moderno, talvez colocasse outro título e traçasse outra meta para seu empreendimento.

Leopoldo Daré ,médico, Ribeirão Preto – SP.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

OPINIÃO - ANO XVI - N° 176 - JULHO 2010

.
Uberaba – “a cidade dos espíritos”

Com o título de “A Cidade dos Espíritos”, a revista Veja de número 2170, de 23.6.2010, publicou reportagem sobre as peregrinações a Uberaba feitas por pessoas que desejam comunicar-se com familiares desencarnados. A matéria também comenta divergências entre espíritas uberabenses sobre possíveis comunicações “post-mortem” atribuídas a Chico Xavier.

Mais centros espíritas que igrejas
Apontada pela revista Veja como a “capital mundial do espiritismo”, a cidade mineira de Uberaba, onde Francisco Cândido Xavier viveu a maior parte de sua vida, teria hoje mais de 100 centros espíritas e apenas 54 igrejas católicas. Referindo-se ao espiritismo como uma doutrina “cuja característica mais divulgada é a possibilidade da comunicação entre vivos e mortos”, a revista destaca que Uberaba, mesmo depois da morte de Chico, é referência para quem busca estabelecer “uma ponte com a vida após a morte”. Descreve que “nos fins de semana, ônibus de visitantes circulam pela cidade à procura das sessões públicas de psicografia”. Sobre o perfil dessas pessoas, diz a matéria: “Quem vai aos centros espíritas quase sempre passou por grande trauma envolvendo a morte”. Geralmente perderam “de forma trágica ou inesperada um filho, os pais ou um irmão”. Classifica a comunicação como um “ritual”, onde “o médium se comunica com esses parentes falecidos, recebe deles uma mensagem e a transcreve no papel”.
Sobre o fato de algumas cartas trazerem referências a situações que seriam apenas do conhecimento de parentes, a revista coloca dúvida. Os repórteres teriam testemunhado que os médiuns fazem “previamente uma pequena entrevista com o interessado em receber a carta”. "É um encontro muito rápido, não mais de um ou dois minutos”, diz o médium Carlos Antônio Baccelli, do Lar Espírita Pedro e Paulo, um dos mais visitados pelos turistas. Para ele, isso é necessário para estabelecer a sintonia, e “Chico também tinha esse tipo de conversa preliminar”.

Chico Xavier estaria se comunicando?
A polêmica divide espíritas de Uberaba
Outro ponto destacado pela matéria de Veja refere-se a possíveis mensagens enviadas por Chico Xavier/espírito. Desde sua desencarnação, em junho de 2002, diversos médiuns afirmam receber mensagens suas, em várias partes do país. Entre estes estão Celso de Almeida e Carlos Bacelli, dirigentes de centros espíritas de Uberaba, ambos com livros publicados contendo presumíveis mensagens de Chico. No entanto, o filho adotivo deste, Euripedes Higino dos Reis, nega autenticidade a essas supostas psicografias. Relata que seu pai adotivo fez com ele um pacto segundo o qual qualquer mensagem que enviasse, após sua morte, teria um código, só conhecido por Eurípedes e por duas outras testemunhas presentes, quando da conversa entre ambos. Para Eurípedes nenhuma das mensagens até agora publicadas contém esse código. Outros, no entanto, sustentam que espíritos superiores, do nível de Francisco Cândido Xavier, não emitem códigos secretos e que a forma de se reconhecer a autenticidade de suas possíveis comunicações, segundo a doutrina espírita, está na superioridade de seu conteúdo. A polêmica divide as lideranças espíritas de Uberaba, classificada pela reportagem como “a cidade dos espíritos”.

Nossa opinião

Os peregrinos de Uberaba
Inegável a importância do trabalho entre nós desenvolvido por Chico Xavier. Podendo, tal como o fez no início de sua trajetória mediúnica, colocar seus dotes a serviço da melhor literatura, atraindo a atenção de exigentes críticos, optou, no entanto, por dedicar-se, preferentemente, à consoladora tarefa da intermediação de mensagens de caráter pessoal. Amenizou, com isso, a dor de centenas ou milhares de corações.
Pouco provável, no entanto, que uma centena de centros espíritas, na mesma cidade, passe a contar, de repente, com um imenso contingente de médiuns dotados da mesma e rara faculdade. Especialmente se considerarmos as naturais dificuldades de comunicação de espíritos chegados a outras dimensões em circunstâncias igualmente trágicas. A reportagem de Veja sugere que, em Uberaba, se está praticando uma espécie de “espetáculo” mediúnico, em nível de “atacado” e com fins proselitistas. Seria lamentável e dolorosa para o espiritismo a confirmação dessa suspeita. Mesmo que não configurada a hipótese, no entanto, o vai-e-vem de milhares de pessoas peregrinando por centros espíritas com o objetivo único de “ouvir os mortos” já sinaliza uma grave distorção dos verdadeiros fins de uma instituição espírita. Leva, ademais, e com facilidade, a que se distorça a própria identidade cultural do espiritismo, a se ver dos conceitos emitidos pela reportagem. Justo agora, quando outros setores do espiritismo, como aqueles que se reunirão no II Encontro Nacional da CEPABRASIL (3 a 6 de setembro próximo em Bento Gonçalves/RS), investem fundo na tarefa de estudar, debater e, talvez, propor o que entendam seja a genuína identidade do espiritismo!
Ambientes coletivos assim, onde haja, provavelmente, carência de vigilância e exacerbado mediunismo, descurando-se dos demais e superiores valores espíritas, favorecem o personalismo e o polemismo estéril, circunstâncias igualmente sugeridas pela reportagem.
Chico, onde estiver, não deve estar gostando nada disso!
 (A Redação).

Editorial

Ficha limpa – um imperativo ético

O homem já reformou muitas leis e ainda reformará muitas outras. Espera!
(resposta dos espíritos à questão 797 de O Livro dos Espíritos)

A democracia brasileira avançou um pouquinho mais, no mês passado. Nossos ideais de ética e de integridade na política, igualmente, experimentaram, em tese, um avanço. Foi aprovada legislação vedando a candidatura a cargos públicos de pessoas que já tenham sido condenadas criminalmente em decisão prolatada ou confirmada por algum órgão jurisdicional colegiado. É o que se convencionou denominar de “ficha limpa”, exigível de candidatos a cargos eletivos.
É verdade que, no mesmo momento em que é redigido este editorial, a vedação começa a receber, em juízo, interpretações mais brandas, em nome do princípio da presunção de inocência aplicável a condenações ainda sem trânsito em julgado. Vale, no entanto, o esforço e a repercussão no legislativo de um anseio de todos quantos aspiram por uma política honesta, exercida por homens realmente probos.
O Brasil tem passado por experiências amargas por conta da corrupção que campeia em amplos setores políticos. É preciso dispormos de uma legislação capaz de assegurar, tanto quanto possível, que só homens e mulheres de moral ilibada e honestamente voltados ao bem comum, possam submeter seus nomes a cargos eletivos. O Livro dos Espíritos lamenta o fato de que, normalmente, as leis humanas “mais se destinam a punir o mal depois de feito, do que a cortar a raiz do mal” (q.796). No caso brasileiro, a situação é ainda pior. O que se tem presenciado é que, nem depois de praticados, os grandes crimes políticos têm recebido punição. Nossa legislação favorece a procrastinação dos julgamentos, retardando ou tornando infindável sua trajetória. A impunidade, infelizmente, tem servido de estímulo a que políticos desonestos sigam sua trajetória pública.
Mas também é verdade que se não houver corrupção por parte do eleitor não haverá igualmente lugar para políticos corruptos se elegerem. Por isso mesmo, ainda que a legislação e os processos moralizadores no âmbito público tardem, restará sempre a oportunidade de o eleitor fazer a sua criteriosa seleção, elegendo somente candidatos detentores, subjetiva e objetivamente, de “ficha limpa”. Essa condição, a de deter, na ordem pessoal ou pública, uma ficha realmente limpa não é atribuível apenas aos políticos. É exigência ética de todo o cidadão. E a ética está na base do processo democrático.

Opinião do Leitor

José Rodrigues
Apenas hoy (14.6.20010) recibo Opinião de Enero-febrero 2010 y marzo 2010. Además de todo lo bueno que hay allí, me informo del fallecimiento de José Rodrigues.
No lo sabía. Me entristece profundamente. Era una de los espíritas más cultos y decididamente librepensadores de Brasil. Era un admirador entusiasta de Porteiro. Es una tristeza que a medida que enevejecemos vamos despidiendo a tantos compañeros que han partido antes que nosotros a la espiritualidad.
Jon Aizpúrua – Caracas, Venezuela.

Opinião em Tópicos
Milton Medran Moreira

Romances espíritas
O perfil da maioria dos espíritas brasileiros foi desenhado a partir dos chamados “romances espíritas”. Eles frequentam os espaços nobres de todas as grandes livrarias do país. No imaginário popular - e dos próprios livreiros - são o que de mais representativo há da literatura espírita. Sua trama é quase sempre a mesma: uma encarnação pautada por erros, ódios e orgulho, seguida de outra onde o espírito, em circunstâncias adversas e com muito sofrimento, resgata as faltas da anterior experiência.
A fórmula é um avanço relativamente às concepções religiosas tradicionais. Introduz a ideia da reencarnação. Desmitifica o poder das religiões. Desloca para a consciência e para a ação do indivíduo seu processo de transformação e crescimento. Propicia uma releitura dos dogmas cristãos do céu e do inferno, retirando deste a condição de eternidade e substituindo-a pela ideia do caráter transitório da pena. Por tudo isso, acaba por atrair crentes que vislumbram ali uma forma mitigada da clássica vingança divina, base da teologia judaico-cristã. Mas, por outro lado, inculca na consciência do indivíduo um exacerbado sentimento de culpa e a ideia de que somente pelo sofrimento será possível superá-la.

Mandatários divinos
Presentes também, e invariavelmente, nesses relatos da ficção espírita a ação maléfica e presumivelmente corretiva de entidades espirituais, encarnadas ou desencarnadas, “predestinadas” a desempenhar o papel de verdugo do espírito em recuperação. É o “mal necessário”, a “justiça divina” valendo-se da maldade, da vingança e do ódio humanos como instrumento de punição e de retificação.
Nessa mesma linha, o mundo espiritual aonde chega a alma atormentada pela culpa é, igualmente, povoado de “agentes da justiça divina”. Investidos de um verdadeiro mandato divino, a eles tudo é facultado em termos de aterrorizar o espírito que aporta nas “zonas umbralinas”. Humilham-no, jogando em sua cara censuras e vilipêndios, recordando-lhes os erros cometidos e atormentando-os por sua prática. A ideia é sempre a mesma: só sofrendo idênticas dores àquelas infligidas a outrem, o espírito pode alcançar sua regeneração.

Justiça divina x justiça humana
Se essas concepções estão corretas e se tais instrumentos de retificação são adequados à recuperação de um espírito culpável, tudo o que a humanidade construiu até agora, em termos de justiça e humanismo não passa de um tremendo equívoco. Por milênios, e sob o império das teocracias, procedíamos exatamente como agem, segundo a referida literatura, os “agentes da justiça divina”, encarregados da retificação de espíritos culpados. Tínhamos como base fundamental da justiça o princípio do “olho por olho, dente por dente”. Em nome de Deus, não hesitávamos em torturar, esconjurar e matar quem não procedesse segundo o que concebíamos como “lei divina”. Chegamos a usar como pretexto, a alegação de que o mesmo fogo que matava o corpo libertaria o espírito. Daí as fogueiras em que sacrificamos os adoradores de deuses falsos e os hereges, supondo-nos, invariavelmente, autorizados pelo Velho ou pelo Novo Testamento.
Só no instante em que nos rebelamos contra o poder religioso conseguimos, a duras penas, nos libertar desse jugo, construindo novos valores sobre os quais repousam as leis e seus mecanismos de execução. O humanismo, a democracia, o Estado de Direito são genuínas conquistas do espírito contra a religião que, antes, o aprisionara.

Humanismo já!
Esses mesmos ventos libertadores, ao que parece, não sopram nas colônias espirituais para onde migram nossas almas, sempre vergadas por alguma culpa, depois da morte. Pelo menos é o que se depreende das tramas apresentadas como “literatura espírita”. O que aqui consideramos vingança, fator que sempre agrava um delito, lá é apontado como justa contraprestação retificadora. Atos aqui puníveis como ofensivos à dignidade e aos direitos alheios são, lá, erigidos a normatizações da justiça divina para cuja execução é indispensável o concurso de verdugos, promovidos à condição de agentes da vontade de Deus.
Também a reencarnação, nesses folhetins, dificilmente é apresentada como etapa vitoriosa, conquistada por esforços anteriores do espírito em evolução, mas como pesado fardo a ser por ele arrastado em resgate aos erros antes cometidos.
De duas uma: ou nossos médiuns psicógrafos só conseguem acessar tramas vividas em mundos psíquicos bem mais atrasados do que aquele aqui construído, ou está na hora de modernizarmos e democratizarmos as colônias espirituais que nos esperam após a desencarnação. Em ou em outro caso, a palavra de ordem deve ser: humanismo já!

Notícias

Léo Indrusiak e as relações espiritismo/ecologia
Em palestra proferida no Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, na noite de 5 de julho, o pensador e dirigente espírita Léo Indrusiak, diretor do Instituto Espírita Terceira Revelação Espírita – IETRD – e ex-presidente da USE Sul, União das Sociedades Espíritas da região sul (Porto Alegre), abordou as relações entre espiritismo e ecologia. O conferencista chamou a atenção para a o fato de as propostas espíritas e ecológicas haverem nascido simultaneamente na Europa do Século 19 e que O Livro dos Espíritos, editado em 1857, aborda diversas questões ecológicas.
Para Indrusiak, na foto, uma das causas pelas quais o espiritismo não alcançou, na contemporaneidade, a mesma repercussão da ecologia deve-se ao fato de haver sido tomado como uma religião: “O espiritismo não é uma religião, embora muitos espíritas e, inclusive, instituições espíritas o vejam como tal”, declarou Léo Indrusiak, na conferência. Ao final, abriu espaço para debates, onde vários assistentes contribuíram com outras reflexões sobre o tema.

Léo Indrusiak: O espiritismo só não tem a mesma repercussão da ecologia porque foi tomado como uma religião.

Em agosto o conferencista é Rogério Hipólito
Dando prosseguimento à sua programação de palestras públicas mensais, sempre na primeira segunda-feira do mês, o convidado do CCEPA, em 2 de agosto, é o empresário porto-alegrense Rogério Hipólito Feijó Pereira. Seu tema: “Estrutura do Cérebro – Comando do Espírito”.
A atividade acontece às 20h30min, no auditório do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, na Rua Botafogo, 678, Bairro Menino Deus.

.

Escritor paranaense visita CCEPA
O advogado e escritor João Carlos de Freitas, de Curitiba/PR, espírita militante e participante da lista de debates da CEPA, esteve, na noite de 6 de junho último, em visita ao Centro Cultural Espírita de Porto Alegre.
João Carlos, que, em seu Estado, desenvolve atividades culturais ligadas a movimentos populares, lançou recentemente o livro “Colorado – A primeira escola de samba de Curitiba”, obra editada pela Fundação Cultural de Curitiba. Em sua visita, o intelectual paranaense fez entrega ao presidente do CCEPA, Rui Paulo Nazário de Oliveira (foto ao lado), de um exemplar de seu livro, destinado à biblioteca da instituição.
.

Enfoque

ALLAN KARDEC: O AUTOR DA DOUTRINA DOS ESPÍRITOS?

Augusto Araujo
Doutorando em Ciência da Religião (PPCIR/UFJF).
Contato: acdaraujo@gmail.com

Da comparação e da fusão de todas as respostas, coordenadas, classificadas, e muitas vezes retocadas no silêncio da meditação, foi que elaborei a primeira edição de O Livro dos Espíritos, entregue à publicidade em 18 de abril de 1857. (Allan Kardec)1

Quem quer que tenha tido em mãos um livro de história da filosofia deve ter notado que logo nos primeiros capítulos são apresentadas as doutrinas filosóficas dos chamados filósofos “pré-socráticos” ou “fisiólogos”. O que, talvez, poucos saibam é que não existe, a rigor, a doutrina filosófica de Tales de Mileto, ou de Heráclito de Éfeso, por exemplo. De fato, a maioria dos textos de que dispomos desses pensadores é insuficiente para se afirmar a existência de tal doutrina. O que se tem são fragmentos (frases, pedaços de frases, às vezes, uma única palavra) citados ou parafraseados por outros autores e filósofos. Uma lista tão variada que inclui pensadores como o grego Aristóteles e o cristão e pai da Igreja Clemente de Alexandria; e tão extensa que cobre o período desde o século IV a.C. até o século VI d. C.
Assim, se tomarmos Heráclito como exemplo, é preciso que se diga que não há o livro "Sobre a natureza"2, a ele atribuído. Nem sabemos ao certo se ele escreveu mesmo um livro; ou, em caso afirmativo, se era esse mesmo seu título. Aquilo que nos manuais de história da filosofia é apresentado como a doutrina de Heráclito é tão somente uma interpretação arbitrária dos fragmentos encontrados e catalogados3 . No século XX, o filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976) demonstrou que, dependendo da ordem em que os fragmentos são considerados ou organizados, ou dos pressupostos filosóficos assumidos na leitura desses fragmentos, diferentes interpretações se estabelecem. E, dessa forma, as interpretações serão sempre arbitrárias, uma vez que nem a obra original nós temos para comparar e verificar a validade delas 4.
Agora, se, num exercício de analogia, olharmos de maneira isenta para o modus operandi de Allan Kardec (1804-1869) veremos que se passa algo muito semelhante ao que acontece com os historiadores da filosofia no caso acima. Kardec, ao publicar suas obras sempre insistiu que a doutrina não era sua, mas dos Espíritos. No entanto, a confiar ainda nos relatos de Kardec, como se dá esse procedimento de “codificação” da doutrina dos Espíritos? Ele tem fragmentos de ensinos que vêm de fontes diversas e tem de arbitrariamente "codificá-los", ordená-los. E o faz. Nós não podemos verificar se essa interpretação é a mais adequada porque não temos acesso às fontes kardecianas (especificamente não temos acesso ao conteúdo bruto das comunicações por ele interpretadas). Esse impedimento metodológico de verificação tem me impedido de caracterizar o espiritismo como uma ciência.
Em outras palavras: penso que afirmar a existência da "doutrina de Heráclito" nas interpretações dos fragmentos a ele atribuídos, e afirmar que existe uma doutrina dos espíritos na interpretação das comunicações recebidas por Kardec, possui o mesmo grau de incerteza. Ora, como afirma o próprio Kardec na frase citada acima: “Da comparação e da fusão de todas as respostas, coordenadas, classificadas, e muitas vezes retocadas no silêncio da meditação, foi que elaborei a primeira edição de O Livro dos Espíritos, entregue à publicidade em 18 de abril de 1857”. O original diz: "C'est de la comparaison et de la fusion de toutes ces réponses coordonnées, classées et maintes fois remaniées dans le silence de la méditation, que je formai la première édition du Livre des Esprits qui parut le 18 avril 1857" (o grifo é meu).
Aqui gostaria de fazer um breve comentário sobre a escolha do uso do verbo “retocar” para traduzir o francês “remanier”. Não que esta tradução esteja equivocada, em minha opinião ela apenas enfraquece o sentido original do termo francês. A etimologia do verbo “remanier” remete a “manier” que tem o sentido primeiro de “manipular”, tocar com as mãos. Daí que o Dictionnaire de l’Académie Française (6eme Édition, 1835), defina o verbo “remanier” como: manipular novamente, reparar, modificar, refazer. Ou, ainda, segundo o Dictionnaire Poche Larousse (2008): mudar a composição, modificar. No contexto dessa pequena observação, uma tradução mais precisa talvez fosse: "Da comparação e da fusão de todas estas respostas coordenadas, classificadas e muitas vezes reparadas (modificadas, refeitas) no silêncio da meditação, que eu formei a primeira edição do Livro dos Espíritos, o qual apareceu a 18 de abril de 1857".
Uma última analogia, talvez esclareça melhor meu posicionamento. Embora o trabalho de pesquisa que venho realizando, e que culminará na publicação de minha tese de doutoramento, se baseie todo na leitura e interpretação da obra de Allan Kardec, e neste trabalho não se encontre nada que Kardec não tenha dito e pensado, há que se concordar que se trata de meu trabalho e não de Kardec. Penso que não importa se as fontes de uma pesquisa sejam os Espíritos ou um pensador “de carne e osso”; se alguém compila, classifica, modifica, edita, interpreta suas fontes, ele é o autor.

1 KARDEC, Allan. A minha iniciação no espiritismo. In: ______. Obras Póstumas. Rio de Janeiro: FEB, 2009. P. 353. (Trad.: Evandro Noleto Bezerra). O texto original em francês é: "C'est de la comparaison et de la fusion de toutes ces réponses coordonnées, classées et maintes fois remaniées dans le silence de la méditation, que je formai la première édition du Livre des Esprits qui parut le 18 avril 1857". (Cf.: KARDEC, Allan. Ma première initiation au espiritisme. In: ______. Oeuvres Posthumes. Union Spirite Française et Francophone. s/d. p. 128).


2 O título Péri Physeos (em grego) é um título genérico atribuído a grande parte das supostas obras dos pensadores gregos originários.


3 No início do século XX, o helenista alemão Hermann Alexander Diels (1848-1922) publicou a obra Os fragmentos dos pré-socráticos, na qual colecionou os fragmentos dos chamados pré-socráticos e os classificou, após tê-los retirado das obras onde se encontravam citados ou parafraseados. Posteriormente, Walther Kranz (1884-1960) acrescentou um comentário interpretativo aos fragmentos catalogados por Diels. Esta obra tornou-se, desde então, referência para todos os trabalhos críticos e interpretativos da filosofia antiga. A classificação DIELS-KRANZ, tornou-se normativa para todas as referências aos fragmentos.


4 Ver: HEIDEGGER, Martin. Heráclito. A origem do pensamento ocidental. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1998. (Trad.: Márcia Sá Cavalcante Schuback). Para outra interpretação, ver: BERGE, Damião. O Lógos Heraclítico. Introdução ao estudo dos fragmentos. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1969.