terça-feira, 30 de novembro de 2010

OPINIÃO – ANO XVII – N.181- DEZEMBRO 2010.

Jesus Cristo
e Jesus de Nazaré
 Cristãos do mundo inteiro comemoram, nesta época, o nascimento de Jesus Cristo, personagem que pouco se identifica com a figura humana e histórica de Jesus de Nazaré

A fé que une os cristãos
Em sua festejada obra “Revisão do Cristianismo”, J. Herculano Pires sustenta a existência de um “abismo entre Jesus de Nazaré, filho de José e Maria, nascido em Nazaré, na Galileia, e Jesus Cristo, nascido da Constelação da Virgem na Cidade do Rei Davi, em Belém da Judeia, segundo o mito hebraico do Messias”.
O cristianismo, cujas comemorações mais importantes são o Natal (nascimento) e a Páscoa (ressureição), tem toda sua dogmática fundada no “Mito Jesus Cristo”, segunda pessoa da Santíssima Trindade, Deus feito homem para salvar a humanidade do pecado original, cometido por Adão e Eva ao desobedecerem as ordens de Jeová, no Paraíso. É, pois, a crença na figura emblemática do “messias”, “salvador”, “redentor” da humanidade que identifica e une todas as organizações cristãs do Oriente e do Ocidente, fazendo do cristianismo, ao lado do judaísmo e do islamismo, uma das três grandes religiões monoteístas do planeta. Pela fé cristã, o Deus único desdobra-se em três pessoas: o Pai, o Filho (Jesus Cristo) e o Espírito Santo.

Crenças e igrejas – o fator de desunião
Mesmo preservando, ao longo de 2.000 anos, a fé fundamental na divindade de Jesus Cristo, Deus que encarna, morre e ressuscita para salvar a humanidade, o cristianismo, ao curso da história, fragmenta-se em um sem número de segmentações. Até o Século XI, a Igreja Católica Apostólica Romana reinou soberana sobre todos os cristãos. Foi quando ocorreu o 1° grande cisma, dando origem à Igreja Cristã Ortodoxa do Oriente, hoje com duas vertentes: a grega e a russa. Com Martinho Lutero, no Século XVI, a Igreja Católica sofre seu 2° grande cisma. A chamada Reforma Protestante abre caminho para um número ilimitado de igrejas que, hoje, se espalham pelo mundo todo. No ano de 2001, a World Christian Encyclopedia, publicação da Oxford University Press, Inc. (Nova York) registrava a existência de 33.830 denominações cristãs. Nos últimos anos, especialmente na América Latina, a expansão do pentecostalismo e do neopentecostalismo tem propiciado a criação de centenas de pequenas e grandes igrejas cristãs, com liturgias, ordenamentos e crenças diferentes, embora com um elo comum: a fé no que Herculano denominou de Cristo Mitológico, figura que não se confunde, segundo advertiu em sua obra, com o personagem histórico Jesus de Nazaré. Hoje podem girar em torno de 50.000 as denominações cristãs no mundo todo.
O Espírito de Jesus
Na obra onde estabelece com nitidez a distinção entre Jesus de Nazaré e Jesus Cristo, Herculano Pires assinala também: “A Civilização Cristã, nascida em sangue e em sangue alimentada, não possui o Espírito de Jesus”, mas apenas “o corpo mitológico do Cristo, morto e exangue”.
Antes dele, no Século XIX, Allan Kardec, embora não objetivando a criação de mais uma religião cristã, incursionara pelo resgate do que Herculano denominaria “o Espírito de Jesus”. Para que isso fosse possível, advertiu Kardec, necessitaríamos abstrair tudo o que as religiões cristãs consagraram como sendo verdades inquestionáveis acerca da vida material, dos dogmas, assim como dos milagres e profecias a Jesus Cristo atribuídas. E que dos evangelhos dos cristãos ficássemos apenas com o ensino moral de Jesus (Introdução de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”). Kardec sabia ser essa a única forma de superar o mito e resgatar o espírito.
Amplos setores do movimento espírita mundial ainda não atentaram para o significado da advertência kardeciana. Por isso, insistem em manter o espiritismo como mais uma entre as milhares de religiões cristãs. Com efeito, muitos centros espíritas se parecem mais com templos do que com núcleos de estudo, conhecimento e aprimoramento intelecto-moral, objetivo central do espiritismo. Suas práticas pouco diferem dos ritos, das liturgias de curas, cânticos, rezas, pregações e louvações que caracterizam as igrejas. O cenário preserva e nutre velhos clichês mentais trazidos de encarnações passadas. Sobre Jesus, por exemplo, com facilidade, o espírita cristão seguirá vendo-o como o messias, o “cristo”, miraculosamente concebido pelo Espírito Santo, nascido de uma virgem, na manjedoura, crucificado e morto para resgatar nossos pecados.
E, no entanto, é tempo de vê-lo como o homem, o espírito lúcido que aqui, um dia, encarnou para iluminar consciências, semear, cultivar, vivenciar e impulsionar a grande mensagem do amor universal. (A Redação)
Mensagem do Presidente 
Final de Ano
Todas estas mudanças (...) não são frutos apressados, mas constituem-se no resultado de incessantes permutas elaboradas e desenvolvidas, nos dois planos da vida, entre aqueles que mais se preocupam e se dedicam à casa. (Mensagem do espírito Joaquim Cacique de Barros, ditado à médium Elba Jones, no CCEPA, em 05.04.1986)

Chegamos ao final de 2010, e embora isso represente apenas uma virada no calendário, visto que a vida e as coisas continuarão naturalmente seu curso, cabe uma palavra de avaliação do que a nossa instituição viveu neste ano que finda e uma rápida projeção para o novo ano.
O Centro Cultural Espírita de Porto Alegre deu prosseguimento ao seu propósito de congregar pessoas dispostas a conhecer o Espiritismo ou a aprofundar seus conhecimentos através do estudo, do debate, da reflexão, dentro do grupo de estudos e nos eventos e reuniões envolvendo todos os trabalhadores da casa, compartilhando experiências. É de salientar, neste ponto, a promoção de encontros periódicos intergrupos (reunindo os grupos noturnos, às quintas-feiras, e os grupos diurnos, às quartas-feiras). E também a realização de seminários mensais, igualmente integrando os grupos, oportunidade em que se escolhia previamente um tema para debate. Esta dinâmica revelou-se eficiente e satisfatória para o fim objetivado.
Merece especial menção a efetivação do II Encontro Nacional da CEPA-Brasil, em Bento Gonçalves, de 03 a 06 de setembro. O CCEPA aceitou o convite da CEPA-Brasil e assumiu a execução deste grande e significativo evento, que reuniu espíritas deste e de outros Estados, contando ainda com a presença de companheiros da Argentina. A tarefa exigiu, mais uma vez, esforço e doação por parte da Comissão Organizadora composta por companheiros do CCEPA, com a decisiva colaboração do Lar da Caridade, da cidade anfitriã. E o resultado foi sucesso total.

Certamente, impulsionados pela nossa união e pelo nosso entusiasmo para o estudo e para a vivência da filosofia espírita, persistiremos neste propósito, esperando que 2011 nos propicie felizes realizações. 
Rui Paulo Nazário de Oliveira, Presidente do CCEPA. 

 Em João Pessoa 
No IV Fórum do Livre Pensar Espírita (João Pessoa 12 a 14/11/10), dei depoimento fazendo esta reflexão: minha geração e eu, no meio espírita, tivemos o privilégio de vivenciar importantes mudanças que começam a produzir frutos maduros. Metaforicamente falando, pode-se dizer que assistimos ao processo de transição da modernidade para a pós-modernidade espírita. Integrantes de um movimento bem comportado, disciplinado, que tinha, até a década de 80 do século passado, a unificação como valor primordial, desencadearam, em seu próprio meio, uma importante revolução de ideias cujos resultados agora se fazem sentir mais concretamente.
 Sempre que nos permitimos pensar livremente, dentro de um grupo, contribuímos para a eclosão de um processo de fragmentação e de segmentação, características próprias da pós-modernidade. É natural que isso gere intranquilidade, no meio onde esse processo acontece. Não há progresso sem transgressão. 
  Os movimentos hegemônicos
  As religiões têm horror a esse processo. As ditaduras e todos os movimentos hegemônicos também. Entre nós, o processo de arejamento é, comumente, visto como artimanha “das trevas”. Muito se disse e ainda se diz, no meio espírita brasileiro, que o grupo laico ou livre-pensador são os “inimigos internos” do espiritismo.
 Pensar e fazer pensar gera desacomodação. Ser livre não é tão fácil assim. A maioria de nós chegou ao espiritismo proveniente de estruturas religiosas marcadamente dogmáticas e autoritárias. Apenas trocamos de religião, reproduzindo velhos modelos. Trocar de religião é relativamente fácil. Substituímos a “igreja” ou a “instituição” à qual devíamos prestar obediência por outras estruturas hegemônicas. Se, de repente, nos pomos ou somos postos fora delas experimentamos uma sensação inicial de solidão e isolamento. O sistema passa a nos ver como na irregularidade, na ilegitimidade, na “heresia”. Se sua casa espírita não é “federada” não é “espírita”. “Cuidado com ela!”, dirão alguns
  A união dos espíritas
  De que forma se poderá manter uma estrutura organizacional fiel à proposta espírita e capaz de, efetivamente, unir os espíritas? Reconhecendo-lhes o direito de pensar livremente, tendo por base os princípios basilares do espiritismo. Facultando-lhes a livre associação a quantas entidades desejarem. Renunciando ao princípio da autoridade de orientar o movimento, substituindo-o pelo estímulo ao debate e à construção plural de ideias. Não importa que divirjamos sobre questões adjetivas ou procedimentais, desde que estejamos de acordo nas questões substantivas chamadas por Kardec de “credo espírita”, o “laço” que nos deve unir.
Os últimos eventos promovidos pela CEPABrasil, em Bento Gonçalves e em João Pessoa, provaram que, mesmo divergindo, se formos capazes de nos reconhecer mutuamente como titulares dessas prerrogativas, nos unimos mais. E passamos, também, a nos amar muito mais.
     O futuro do espiritismo  
  Às vésperas de completar 70 anos de vida, 30 dos quais dedicados prioritariamente à difusão e à vivência das ideias espíritas, saúdo o advento dessa fase pós-moderna do espiritismo que começa a se esboçar. Isso poderá levar a uma certa desinstitucionalização. Ao reencontrar-se com o livre-pensamento, onde Allan Kardec, claramente, quis inseri-lo, o espiritismo vai ao encontro de todas as ideias generosas que o moderno humanismo plasmou e sustenta. Referi isso, em meu depoimento em João Pessoa.
 Quando – e esse deve ser o objetivo de todos os espíritas – conseguirmos a plena simbiose entre espiritualismo e humanismo, talvez nem haja mais espaço para um movimento espírita ou, mesmo, para centros espíritas, nos moldes hoje existentes. Muitos poderão interpretar isso como a derrocada do espiritismo. E, no entanto, aí mesmo é que se terá atingido o que Léon Denis chamou de “o reinado do espírito”.


Jesus para o Espiritismo
          Marcelo Henrique, articulista e dirigente espírita, mestre em Direito,            Delegado da CEPA em São José, SC.

Toda tentativa de analisar o personagem Jesus sob a ótica espírita principia pelo questionamento de Kardec aos Espíritos, aposto no item 625, de O livro dos espíritos, sobre o modelo ou guia para a Humanidade planetária. A resposta, na competente tradução do Professor Herculano Pires é "Vede Jesus". Obviamente, não estamos falando de Jesus Cristo, o mito inventado pela religião cristã oficial (Catolicismo) e reproduzido por todas as que lhe sucederam no tempo, um ser meio homem meio divino, filho único (?) de Deus ou integrante do dogma da Santíssima Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo), como apregoam as liturgias.
Falamos do homem, cujos registros físicos (históricos) são mínimos, mas que teria vivido há pouco mais de dois mil anos, no Oriente Médio, dono de uma filosofia de vida própria e que marcou a história humana ao ponto de dividi-la entre antes e depois de sua passagem. Jesus de Nazaré, este o seu nome. Mas é este o Jesus apresentado nas instituições espíritas? É este o Jesus referenciado nas obras pós-kardecianas, sobretudo aquelas de origem mediúnica? Cremos que não! Há uma diferença muito grande entre a realidade e a imagem que foi construída - muito fortemente em função da influência das religiões sobre o arquétipo coletivo.
Alguns dos problemas mais graves na abordagem "espírita" de Jesus já principiam pela gravidez de Maria (dita Santíssima pela tradição religiosa e, portanto, submetida a uma gestação sem ato sexual, sob a interferência do Espírito Santo), o que levou à consideração de que o carpinteiro seria um agênere, posto que detentor de um corpo não-físico, mas fluídico, porquanto não teria ele suportado as dores e lacerações a que foi submetido, na paixão e crucificação.
Tais teorias nunca seriam concordes à Filosofia Espírita, porque representariam a negação dos mínimos princípios ou fundamentos básicos espiritistas. Maria e José, tidos como pais de Jesus, tiveram um relacionamento normal - como o de qualquer casal - e Jesus, inclusive, teve vários irmãos, sendo o primogênito da prole (vide a passagem "Quem são minha mãe e meus irmãos", a propósito). De uma gestação, portanto, natural e "normal", decorreu um corpo físico muito parecido com o nosso, guardadas as proporções decorrentes do distanciamento temporal entre os nossos dias e os de dois milênios atrás.Como a fábula cristã enquadra situações aparentemente sobrenaturais (como diversas passagens evangélicas relacionadas aos feitos de Jesus e, também, todo o tétrico relato das torturas a que teria sido submetido desde sua prisão, no Horto das Oliveiras até sua crucificação no Gólgota), muitas delas teriam sido construídas e moldadas pelos doutores da Igreja, interessados na construção de um super-homem, mítico e até mitológico, dotado de superpoderes ilimitados.
Jesus foi um homem "normal" e "comum", em relação às suas características físicas. Sua distinção em relação aos demais homens (daquele tempo e até hoje), evidentemente, pertence ao plano moral, das virtudes e das características egressas de sua evolutividade espiritual. Seu principal traço é o de uma moralidade bem acima da média da população terrena de todos os tempos conhecidos, daí porque os Espíritos o teriam sugerido como referência (não a única, fique bem claro) para a esteira de progresso espiritual compatível com este orbe.
Mas, ainda que distante da maioria dos homens em termos de moralidade, não deixou de "participar" da vida encarnada como a grande maioria de nós. Sentiu dores, sofreu decepções, alegrou-se com situações favoráveis, teve amigos e relacionou-se SIM sexualmente com uma mulher - provavelmente Maria de Magdala, de cuja relação teria nascido uma criança, como, aliás, vários escritores - entre os quais, mais presentemente, Dan Brown - já referenciaram.
 Incrível é que, em muitas instituições espíritas, que deveriam se pautar pela "fé raciocinada", pelo exame lógico de todas as situações e circunstâncias e pela abordagem livre e baseada nos princípios espíritas, se verifique um certo ar "pudico" quando o assunto vem à baila, como se uma (muito) provável experiência conjugal e sexual de Jesus de Nazaré pudesse diminuir o alcance de sua missão e papel perante os homens. Uma abstinência da simbiose energético-sexual não seria, nem de longe, "natural" e oportuna. Ademais, todos nós que, sob a esteira da dicção espiritual contida no item sublinhado da obra pioneira, nos espelhamos em Jesus para a construção de nossa senda evolutiva, ao buscarmos conhecer melhor o intercâmbio das relações humanas, sabemos que a sexualidade é um vértice de aprendizado espiritual e, antes de tudo, uma necessidade humana, rumo ao equilíbrio.
Mas há os que, não tão ingenuamente, pensam o contrário e tentam "importar" para o Espiritismo visões que pertencem aos dogmas das igrejas. Estes ainda não se tornaram espíritas!
O Rio Grande na Paraíba
  Duas instituições espíritas gaúchas filiadas à CEPA contribuíram, com expositores, na realização do IV Fórum do Livre Pensar Espírita, de 12 a 14 de novembro último, em João Pessoa/PB. Rui Paulo Nazário de Oliveira e Milton Medran Moreira, do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, participaram no painel “Espiritismo em Movimento”. A delegação do CCEPA contou ainda com a participação de seus associados Beatriz Urdangarin, Margarida Nunes (de Florianópolis,SC) e Sílvia Moreira. Por sua vez, a Sociedade Espírita Casa da Prece, de Pelotas, enviou dois representantes: Homero Ward da Rosa, expositor no painel “O Que é o Espiritismo”, e sua esposa Regina.
  A delegação gaúcha ao evento de João Pessoa foi integrada também por Maria Leonor, do Instituto Espírita Terceira Revelação Divina (Porto Alegre).


Moacir faz a última conferência

do ano noCCEPA


  Neste mês de dezembro, a tradicional palestra da primeira segunda-feira do mês (dia 6, segunda-feira, às 20h30) no Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, estará a cargo do Professor Moacir Costa de Araújo Lima, físico e escritor que acaba de lançar o livro “Consciência Criadora”. Moacir autografará seu livro aos interessados, após a conferência.




Opinião do leitor
Kardec retocou?  
Sobre os artigos em Enfoque de Augusto Araújo (julho/10) e de Wilson Garcia (outubro 10), não encontrei  em Obras  Póstumas (Minha iniciação ao Espiritismo) declaração de Allan Kardec de ter “retocado” comunicações de Espíritos.  Retocando as respostas dos Espíritos (para corrigir ou melhorar)  estaria AK contradizendo a declaração veiculada na Revista Espírita 1858, pag. 5, assim: "...Fazemos anotar, a esse respeito, que esses princípios são aqueles que decorrem do próprio ensinamento dado pelos Espíritos, e que faremos, sempre, abstração das nossas próprias ideias”. Já cumpri 89 anos  e agora, depois de participar das atividades da Soc. Espírita Kardecista durante 50 anos, há dois anos,pedi "aposentadoria".  Entretanto, continuo participando de pequeno grupo de estudos do Espiritismo , com reuniões semanais. Na leitura do Opinião surpreendeu-nos a expressão "retocar" e daí a nossa impertinência na busca de esclarecimentos a respeito,sem o propósito de polemizar, nem mesmo de curiosidade.  Desde que assisti, aqui, palestra de Jaci Regis, na década de 70 ou 80, aprendi a diferenciar a Doutrina Espírita do Espiritismo brasileiro (religioso). Considero-me, por isso, um livre-pensador.
                  Cordialmente,  João José GuedesSantos/SP                                  

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

OPINIÃO – ANO XVII – N.180 - NOVEMBRO 2010.


Vem aí o XXI Congresso Espírita Pan-Americano

Reencarnação: o grande tema 
do Congresso da CEPA
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                 Reencarnação hoje moldando ideias para o futuro
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       O XXI Congresso Espírita Pan-Americano, que se realiza em Santos, SP, no período de 5 a 9 de setembro de 2012, definiu como seu tema central Perspectivas contemporâneas da Teoria Espírita da Reencarnação. Apesar de abordar a reencarnação a partir de uma visão contemporânea, “não se pretende revisar as obras de Allan Kardec ou de qualquer outro autor”, esclarece a proposta da Comissão Organizadora, aprovada pelo Conselho Executivo da CEPA, no recente Encontro de Bento Gonçalves.  Deseja-se abrir espaço ao “esforço de reflexão, releitura e novas proposições, empreendido por pensadores espíritas ao longo do período que antecede a sua realização”. O objetivo é “lançar ideias para o futuro, capazes de fomentar a necessária evolução do pensamento espírita, em particular aquelas que possam trazer objetivas contribuições para melhoria da sociedade a partir dos valores éticos depreendidos da filosofia espírita”, esclarece o documento.
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               Um tema sob diferentes enfoques
        A temática central Perspectivas contemporâneas da Teoria Espírita da Reencarnação irá se desdobrar em três grandes eixos dos quais deverão se ocupar os expositores convidados:
1 - As diferentes teorias reencarnacionistas: convergências e singularidades face à teoria espírita;
2 - A reencarnação sob a perspectiva da atualização do espiritismo: novas teorias, modelos conceituais, o problema da linguagem e pesquisas contemporâneas sobre a reencarnação;
3 - A contribuição da cosmovisão reencarnacionista para o desenvolvimento ético do indivíduo e das coletividades.
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           Um fórum de temas livres aberto aos interessados
         Como é hábito no âmbito da CEPA, o XXI Congresso Espírita Pan-Americano, além dos trabalhos de expositores convidados, abrirá espaço a todos os interessados que desejem oferecer sua livre contribuição ao desenvolvimento das ideias espíritas. O Fórum de Temas Livres, com regulamento a ser oportunamente divulgado, estará aberto a espíritas do mundo inteiro, dando-se preferência a trabalhos que apresentem correlação com o tema central.
 Uma grande equipe de espíritas da Baixada Santista, liderados pelo vice-presidente da CEPA, Ademar Arthur Chioro dos Reis, prepara a programação desse evento que promete ser marcante para o espiritismo pan-americano.
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Nossa Opinião
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Um tema, seus enfoques e objetivos
       No Brasil, sempre que se fala em reencarnação, fala-se em espiritismo. No imaginário popular, reencarnação e espiritismo são quase sinônimos. É compreensível. Na cultura de um país de origem e tradição radicalmente católicas, a tese reencarnacionista só passou a ter alguma relevância quando aqui aportaram as primeiras ideias espíritas, na segunda metade do Século 19.
      Catolicismo e reencarnação, obviamente, são visões que se contrapõem. Nem por isso, deixou de vicejar, por aqui, esse formidável sincretismo católico/espírita que moldou a religião espírita ou o espiritismo cristão e evangélico. Neste, diferentemente do espiritualismo anglo-saxão, de forte influência protestante, a crença na reencarnação é um dos pilares a sustentar o edifício doutrinário. Esse mesmo modelo espírita/cristão/reencarnacionista estendeu influências pela América Latina toda, ao encontro da cultura, também católica, herdada da terra-mãe Espanha.
      O Congresso da CEPA, em 2012, pretende colocar o que se entende como uma visão genuinamente espírita de reencarnação frente às demais vertentes, científicas, filosóficas ou religiosas, que cultivam ou estudam a hipótese palingenésica ou a têm como questão de fé.  Deseja fazê-lo, justamente, tomando como referência a obra original de Kardec, mas abrindo, a partir daí, uma ampla conexão com tudo o que se pensou, se escreveu, se expôs e se experienciou desde que a França do Século 19 foi sacudida por essa ideia filosoficamente revolucionária para o mundo dito cristão.
    Os olhos da CEPA, com esse evento e respectiva temática, voltam-se para duas preocupações que lhe são inerentes: a permanente atualização do espiritismo e a contribuição ética e cultural que a cosmovisão espírita/reencarnacionista pode legar à humanidade. Um excelente tema conjugado com um nobre objetivo. (A Redação)
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Editorial
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Uma mulher na presidência
O homem tem um farol: a experiência, a mulher tem uma 
estrela: a esperança.    Victor Hugo
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           O Brasil terá uma mulher na presidência. Mesmo se deplorando alguns desvios éticos da campanha eleitoral recém finda, temos suficientes razões para saudar os avanços atingidos em mais esse capítulo do processo democrático. A vontade popular, limpidamente aferida em uma eleição insuspeita nos seus aspectos formais, manifestou sua preferência. E esta recaiu, pela primeira vez, na História, em uma mulher. O que tem, no mínimo, um forte componente simbólico.
         Recorde-se que, há pouco mais de 70 anos, as mulheres, no Brasil, sequer podiam votar. Só a partir dos anos 30 do século passado, começou a lhes ser reconhecido, no país, o direito de participarem do processo democrático. Assim mesmo, e se casadas, só poderiam fazê-lo com expressa autorização marital. O voto feminino livre de qualquer restrição foi conquista só obtida em 1946, ano anterior ao nascimento de Dilma Rousseff, agora eleita presidenta do Brasil. Quase um século antes, O Livro dos Espíritos, sintonizado com os ideais democráticos, libertários e republicanos, apregoava o princípio da plena igualdade de direitos entre homens e mulheres (questão 822). Assim mesmo, e refletindo, também aí, o espírito da época, assinalava que igualdade de direitos não significava, necessariamente, igualdade de funções: “É preciso que cada um esteja colocado no seu lugar”, disseram os espíritos a Kardec, acrescentando:  “Que o homem se ocupe do exterior e a mulher do interior, cada um segundo sua aptidão”.
      Eram tempos em que a cultura do Ocidente ainda resguardava a mulher quase exclusivamente para as atividades do lar, à maternidade, à educação dos filhos e à prestação de assistência ao marido, de quem era dependente. Cabia ao varão, “chefe da família”, prover o sustento da mulher e da prole, enfrentando a dureza de que se revestiam quase todas as atividades profissionais, notadamente as do operariado.
          As conquistas femininas de hoje habilitam-na, teórica e praticamente, a todos os níveis de funções e profissões. Nem isso, entretanto, retira da mulher aquilo que mais a caracteriza: sua sensibilidade, sua capacidade de cultivar os valores classificados pelos espíritos como pertinentes ao “interior”. Aí se inserem, fundamentalmente, os sentimentos de justiça, de fraternidade, de solidariedade, de tolerância, compaixão e afeto.   A alma feminina, seja por condicionamentos biológicos, culturais ou espirituais, tende a hierarquizar acendrados valores afetivos e éticos.   
         A aspiração de todos, neste momento, é de que a futura presidenta do país deixe fluir de sua alma feminina todo esse manancial de energias, acumuladas histórica e culturalmente, na intimidade do lar, canalizando-as em favor da grande família brasileira. Há muito o que consertar no interior desta imensa casa que a nós todos pertence. Passado o período eleitoral, por outro lado, também é hora de todos prestigiarem aqueles que a vontade soberana das urnas sufragou. Vamos trabalhar juntos, em paz, com dignidade, honestidade e confiança.   O resgate da plena dignidade política, ainda tão vilipendiada, passa, necessariamente, pela esperança e pela colaboração de todos.          
                                
Que a futura presidenta deixe fluir de sua alma feminina todo esse manancial de energias acumuladas histórica e culturalmente.   
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Opinião do Leitor
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Uma orquestra muito afinada
          Esplêndido o texto do editor de CCEPA Opinião, para o editorial de outubro. Parabéns, Milton, pela sensibilidade e pela qualidade do texto.
       Acho que estamos em sintonia. Não é incrível eu ter escolhido, antes de ler seu texto, exatamente aquelas duas mensagens ditadas por Manuel Porteiro, incluindo-as para análise no webcurso - www.cpdocespirita.com.br/moodle  - no módulo de que sou tutor, sobre mediunidade?
Ademar Arthur Chioro dos Reis – Santos/SP
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II Encontro Nacional da CEPABrasil
       O II Encontro Nacional da CEPABrasil foi vibrante, inquietante, desafiador. Lá, todos puderam expressar livremente suas ideias. E estas revelaram a pluralidade de entendimento que enriquece os debates durante os congressos, encontros e fóruns da CEPA.
          Mas, não se pense que o grupo de cepeanos se perde no emaranhado de tantas vozes, aparente ou efetivamente dissonantes. Não! A Carta de Posicionamentos (matéria da reportagem de capa de CCEPA Opinião de outubro) aponta um rumo...Todavia, não impede questionamentos em torno daquelas ideias. Toda essa dinâmica mostra um Espiritismo intenso, fecundo, que acompanha a evolução do tempo, do homem, das ideias, como queria Allan Kardec.
         Cumprimento e agradeço o grupo do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre que, com o apoio do Lar da Caridade, de Bento Gonçalves e da CEPABrasil organizou com todo o cuidado o Encontro. Desde a chegada à saída os participantes foram acompanhados, com muita atenção e afeto, pela equipe de organização.
Homero Ward da Rosa – Sociedade Espírita Casa da Prece, Pelotas/RS.   
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Opinião em Tópicos
Milton Medran Moreira
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               Religião e política
               A Nação sempre sai fortalecida de uma eleição. Independentemente do partido ou do grupo político que vencer. Todo o pleito deixa lições importantes que, ali adiante, ajudarão a fortalecer e aprimorar o processo democrático. Oxalá as recentes eleições tenham preparado melhor o Brasil para administrar de forma racional e coerente esse fenômeno, tão crescente quanto desconectado da realidade moderna: a influência do “poder religioso” no comportamento dos políticos em tempo de eleições.
               No segundo turno das eleições presidenciais, assistimos ao embate de dois líderes políticos absolutamente descompromissados, por sua biografia e por suas visões de mundo, com os dogmas das religiões. Nem por isso, a religião deixou de influenciar no comportamento de ambos e, quiçá, tenha sido até fator relevante no resultado das eleições.
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               A máscara da religião
          É importante e fundamental reconhecermos que o laicismo, o livre-pensamento, a ciência e a política fizeram e fazem muito mais pela humanidade que as organizações religiosas. Os bons políticos sabem disso. Os dois que se enfrentaram neste pleito merecem a qualificação de “bons políticos”. Se não o fossem não teriam se credenciado ao cargo máximo da Nação. Os discursos de um e de outro, no entanto, perderam a coerência e o que de melhor poderiam oferecer ao debate, a partir do momento em que resolveram ceder a algumas pressões do poder religioso. Esse poder somente subsiste num Estado laico porque os políticos o insuflam. Porque lhes prestam homenagens, adequando-lhes seus discursos e comparecendo a cultos, missas e procissões, não por força de uma fé sincera, mas por mera conveniência eleitoreira. Isso deslustra a política e abastarda uma campanha eleitoral. Mascara o próprio pensamento e as intenções dos candidatos, por melhores que sejam.
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               A questão do aborto
              Fosse pela vontade das igrejas, até hoje uma mãe que consente num aborto praticado para preservar sua vida deveria parar na cadeia, antessala do inferno para onde iria depois da morte. Da mesma forma, a jovem estuprada que recorre à pílula do dia seguinte com o intuito de interromper possível gravidez decorrente desse ato de violência. Aliás, fosse se dar atenção às normas da Igreja, até hoje não teria sido implantado o divórcio no Brasil. Que saudade da coerência e da altivez de um político do quilate de Nelson Carneiro que jamais se dobrou ao poder eclesiástico, muito mais forte e poderoso que hoje, há 50 anos atrás, quando começou sua pregação divorcista num país que o considerava grave pecado. É fundamental, num Estado laico, que se respeite a liberdade de crença. Mas é indispensável que os crentes tenham a humildade e a sensatez de reconhecerem que suas crenças particulares podem lhes servir, mas não lhes dão o direito de erigi-las a regras impostas compulsoriamente a uma sociedade inteira.
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           Pressões ilegítimas
        O aborto envolve uma gama tal de situações que não pode ser visto apenas como uma questão religiosa que acaba sempre por demonizá-lo. Eu sou espírita. Adoto, filosoficamente, o entendimento de que o espírito preexiste à vida física e que a encarnação representa uma singular oportunidade de progresso. Isso gera em mim algumas concepções a respeito da vida, com as quais livremente me comprometo. Uma delas é a de ver no aborto um sério obstáculo à vida. Mas, tenho também a obrigação de conjugar essas convicções com outros aspectos da existência. Com a dignidade e com a viabilidade da vida física, por exemplo. Ou com as políticas a serem desenvolvidas no campo da saúde pública, onde o aborto clandestino provoca um sem número de mortes e mutilações. Ou, ainda, com a trágica consequência social que representa tratar-se o aborto apenas como um caso de polícia ou de criminalização. As questões que digam com as minhas íntimas e pessoais convicções, ou com a fé de quem a tem, são patrimônios de cada um. Pode-se até propor seu compartilhamento com outros, pela força da razão, da experiência e da compaixão. Mas, ninguém tem o direito de fazer delas instrumento de pressão política.  Nem os políticos o têm de se submeterem a essa pressão.
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Notícias
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No CCEPA, Grupos estudam 
Carta de Posicionamentos da CEPABrasil
          Por iniciativa do Diretor de Estudos Doutrinários do CCEPA, Salomão Jacob Benchaya, os grupos de estudos da instituição, iniciaram no mês de outubro, o estudo e a discussão da Carta de Posicionamentos da CEPABrasil, aprovada no II Encontro Nacional, em Bento Gonçalves.
       Os grupos, que se reúnem nas quartas-feiras, às 15h, e nas quintas, às 20h30, realizaram, respectivamente, um primeiro seminário sobre o tema, na tarde de 27/10 e noite de 28, para a discussão dos dois tópicos iniciais do documento: “Natureza e Identidade do Espiritismo” e “Obras Básicas”. A carta deixa claro o posicionamento sobre espiritismo e movimento espírita das pessoas e instituições brasileiras ligadas ao movimento da CEPA e pode ser lida na íntegra no site oficial da CEPA: http://www.cepainfo.org/sitio/.
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Livros da CEPA/CCEPA 
na Feira do Livro de Porto Alegre
        Livros publicados pela Editora Imprensa Livre, contendo o pensamento da CEPA ou de integrantes do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre poderão ser encontrados na 56ª Feira do Livro de Porto Alegre, onde aquela editora ocupa a Barraca de nº 70. A Feira do Livro é o mais importante evento do gênero no Estado e, este ano, acontece na Praça da Alfândega, de 29 de outubro a 15 de novembro, oferecendo livros com descontos especiais.
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Professor Moacir lança livro na Feira
        O físico e escritor Moacir Costa de Araújo Lima, colaborador do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre e habitual conferencista dos eventos da CEPA, lança mais uma obra na 56ª Feira do Livro de Porto Alegre, com uma conferência e sessão de autógrafos. Título de seu novo livro: “Consciência Criadora”.
      Abordagens como: “Tudo é matéria ou tudo é consciência?”, “Por que o conhecimento aliado ao amor traz a verdadeira sabedoria?”, “Estamos preparados para vivenciar o grande momento da redescoberta da alma?”, enfocadas no livro, serão temas de conferência do Professor Moacir, às 16h do dia 6/11, sábado, no Salão dos Jacarandás do Memorial RS. Às 17h30min do mesmo dia, o autor terá sessão de autógrafos no Pavilhão Central da Feira.
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 Enfoque
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Iluminismo e espiritismo
Paulo Cesar Fernandes
Jornalista, integra o Centro Espírita Allan Kardec, Santos/SP
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       Da história da filosofia, temos que o pensamento grego, no tocante ao agir do homem, tomava como modelo de perfeição o cosmos. Este, em sua harmonia e correção de movimentos, definia as diretrizes de conduta.
      A chegada do Cristianismo trouxe outro modelo ao homem comum. O Cristo, estabelecido como tal, era “como um de nós”, possível de ser seguido. Este modelo operou por séculos mantendo sob o tacão de grande autoritarismo toda a civilização ocidental.
      Errou exatamente aí.
   As ideias renovadoras emergentes dentro da instituição eram deixadas de lado, visando seu esquecimento com o tempo. Técnica presente em toda estrutura autoritária, incapaz de se contrapor ao novo pela força interior das ideias que defende.
     Algumas ideias surgidas no seio da Igreja, por sua veracidade, sua pujança, e pelo prestígio de seus defensores no universo cultural ocidental de seu tempo, trouxeram grande mal estar à própria instituição. Foi o caso de Giordano Bruno: pluralidade dos mundos habitados; reencarnação; encadeamento dos seres da natureza, etc. Sua morte na fogueira, em 1600, afirmou não apenas seu caráter integro, uma vez que jamais renegou suas ideias.         Foi, segundo penso, um fato emblemático da derrocada de uma era e viabilização da abertura de um processo de maturação de ideias, capazes de colocar o homem na ribalta do conhecimento; isto, através de sua racionalidade.
        Descartes foi um marco, mas também um catalisador das ideias renovadoras, as quais se imporiam pela ordem natural das coisas como gostava de dizer Kardec.
Copérnico, em 1543, com As revoluções das órbitas celestes; Descartes, em 1644, com Princípios de Filosofia; Principia mathematica de Newton, em 1687, e as obras de Galileu, em 1632, trouxeram uma revolução sem precedentes na história da Humanidade.
       Kant, foi o primeiro pensador a se dar conta da envergadura das mudanças ocorridas no âmbito do pensamento.
        Esse grupo de espíritos de qualidade que se somou a Kardec na tarefa de estruturação do arcabouço teórico do espiritismo, nenhum deles colocara em dúvida a existência de Deus.           Daí a força de tal ideia no contexto geral da obra espírita.
       Só a partir de Nietzsche, alguns setores da intelectualidade mundial foram se abrindo à possibilidade de um mundo sem Deus. Pensadores com tanta preocupação ética quanto os gregos ou os cristãos. Suas obras assim bem o demonstram.
     Penso que as mãos de Nietzsche trouxeram à humanidade o primeiro momento do verdadeiro livre pensar. E muito lhe devemos, bem como a seus seguidores como os componentes da corrente culturalista da Escola de Frankfurt (Theodor Adorno, Erich Fromm,  etc.).
         Hoje, plantados no seguro conceito da imortalidade do espírito e na liberdade advinda de tantos outros pensadores não espíritas, estamos diante da possibilidade de fundar um novo código de postura ética, bastante diferente do código cristão, uma vez que se estrutura em ideias proscritas pelos cristão, ideias de racionalidade (Descartes; Rousseau e Kant) e prenhes de liberdade (Nietzsche; Michel Foucault; Jean-François Lyotard; etc.).
Serão novos tempos para o pensar espírita, tempos de despojamento de qualquer anti alguma coisa.
         Talvez tempos de criatividade.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

OPINIÃO - ANO XVII - N° 179 - OUTUBRO 2010

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Carta de Posicionamentos consolida
Pensamento da CEPA no Brasil

Declarando-se “laica”, mas não “antirreligiosa”, a CEPA no Brasil propõe uma visão moderna de espiritismo, recusando qualificá-lo como “cristão” ou como a “3ª revelação divina”.

Um terreno neutro em questões religiosas
O documento aprovado no II Encontro Nacional da CEPABrasil (Bento Gonçalves/RS, 3 a 6 de setembro 2010) defende que conceitos como “3ª Revelação Divina”, “Consolador Prometido” ou “Revivescência do Cristianismo Primitivo” não se ajustam a uma visão moderna da teoria espírita e são de natureza sectária e excludente. Reafirma, no entanto, a importância do pensamento de Jesus de Nazaré cujos conceitos de validade universal estão expressos em linguagem e parâmetros compatíveis com a modernidade na 3ª parte de “O Livro dos Espíritos”. A carta esclarece que “laico não é antirreligioso” é apenas “arreligioso”, ou seja “um terreno neutro em questões religiosas”.
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Atualização, união e compromisso social espírita
Reafirmando todos os princípios fundamentais do espiritismo – existência de Deus, imortalidade da alma, comunicabilidade entre encarnados e desencarnados, reencarnação, pluralidade dos mundos habitados e evolução infinita - o documento aprovado pela Associação Brasileira de Delegados e Amigos da CEPA enfatiza a necessidade de atualização permanente do espiritismo, como recomendara Kardec.
A carta ratifica a posição da CEPA no sentido de que as instituições espíritas cultivem e estimulem a liberdade de pensamento, de ação e de autogestão. Advoga o pluralismo de ideias em torno do essencial, entendendo que o vigente modelo de “unificação”, com a supremacia de um pensamento único, conflita com o caráter livre-pensador do espiritismo. Deplora a submissão a pretensas determinações da chamada “espiritualidade superior”, discurso que confunde o espiritismo, “transformando-o numa doutrina evangélica, religiosa, com algum suporte na obra de Kardec, mas sem a racionalidade por ele proposta”. Vinculando o espiritismo às “correntes mais avançadas do pensamento humanista e social”, o documento convida os espíritas a uma ação efetiva em prol da democracia, da paz, da igualdade social, da preservação do meio ambiente e contra todas as formas de autoritarismo e corrupção.
Para saber mais: a íntegra da Carta de Posicionamento da CEPABrasil pode ser lida no site http://www.cepainfo.org/

Nossa Opinião
Espiritismo, necessariamente progressista

Não vês (...) que te renovas todo o dia, no amor, na tristeza, da dúvida, no desejo, que és sempre outro, que és sempre o mesmo.” O poema de Cecília Meireles, lembrado na conferência de abertura do II Encontro Nacional da CEPABrasil, bem que pode ser a síntese dos esforços dos companheiros ali reunidos.
A maioria deles já pertenceu e até já dirigiu instituições estanques, presas a uma cartilha inalterável e inquestionável de conceitos e procedimentos. Lá, reproduziram modelos cristalizados em suas almas, nutrindo corpos institucionais supostamente investidos da atribuição de guardiões da verdade. Esta teria como fonte a própria divindade, revestida, pois, de caráter absoluto. Os intérpretes dessa verdade, assim chamados “espíritos superiores”, só intermediados por médiuns rigorosamente fieis àquele “status quo” institucional, seriam a instância única a homologar todo e qualquer desdobramento conceitual.
Uma releitura dos princípios fundamentais espíritas, inteiramente aceitos pelos companheiros presentes em Bento Gonçalves, conduziu-os a uma postura diferenciada. Renovar, entendem, é fazer-se outro, preservando sua mesma identidade. É reconhecer-se essencialmente humano, por suas dúvidas, sua falibilidade e, especialmente, por seus desejos de mudança.
Uma instituição que congrega espíritas com esse perfil e reconhece, precipuamente, a condição humana de seus colaboradores, encarnados ou desencarnados, mesmo que o objeto de seus esforços seja a busca dos valores eternos e imutáveis, é um segmento merecedor da qualificação de progressista. Adjetivo do qual não pode prescindir o espiritismo. (A Redação).

Editorial
Uma orquestra muito afinada
A música é a linguagem dos espíritos.
Khalil Gibran

A figura da orquestra foi sugerida, pela primeira vez, no Congresso de Porto Alegre (2000), como símbolo dos esforços do segmento espírita congregado pela CEPA. Mensagem ditada pelo espírito Manuel S.Porteiro à médium Yolanda Polimeni, na ocasião, enfatizava:
“Nota a nota compõe-se a sinfonia. Assim, no grande concerto da vida universal, cada nota representa um pensamento que procura a verdade e o amor como expressão da harmonia.
Cantar num só coro não significa entoar o mesmo tom, a mesma voz, no mesmo tempo. Ao contrário, o coro se compõe de vozes, de sons diversos, de tons variados para que expressem a beleza.
O Espiritismo é como a canção universal, entoa as notas da ciência, da filosofia e do amor para compor a harmonia dos que buscam as verdades que conduzirão o espírito humano a dimensões não imagináveis, mas de imensa felicidade”.
Quatro anos após, no Congresso de Rafaela, Porteiro parece continuar a mensagem de 2000, ditando à mesma médium estas frases:
“Vejo que os músicos afinam seus instrumentos e ensaiam a melodia. A orquestra está pronta para executar a canção e a canção será bela. Será uma canção de amor que inundará todos os corações, que fará todos felizes e nos permitirá sorrir, porque fizemos a nossa parte. Cantemos, amigos, cantemos esta bela canção que se chama Trabalho, Tolerância e Fraternidade”.
Talvez não por mera coincidência, agora, no II Encontro Nacional da CEPABrasil, ao ser pedido a Sandra Regis que organizasse uma atividade lúdica de encerramento, ela ensaiou em tempo recorde e convidou todos os participantes a cantarem em coro “A Orquestra”, uma linda canção, por ela adaptada do cancioneiro argentino.
Depois, em depoimento a este jornal, Sandra, que regeu por muitos anos o coral do Centro Espírita Allan Kardec, de Santos, comentou a experiência que consiste em separar as várias vozes, cada uma delas imitando um instrumento de uma orquestra. Diz Sandra: “O resultado é sempre maravilhoso! É um exemplo de que podemos ter ‘melodias’ diferentes, mas sempre encontramos notas iguais no decorrer da melodia e, ao final, entoaremos a mesma nota, alcançado nosso uníssono harmônico”.
Ao enfrentar o tema da identidade do espiritismo, o II Encontro Nacional da CEPABrasil tinha exatamente esse propósito: estimular a união dos espíritas, a partir da harmonia sugerida pelas leis universais que constituem a base filosófica comum a todos eles. Kardec chamou isso de “comunhão de pensamento”. Essa harmonia é tecida de várias notas, de tons e semitons que ecoam nos diferentes cenários onde se cultivam as ideias espíritas.
Pensamos apenas que há uma pauta da qual não nos é lícito sair, se pretendemos continuar nos afirmando espíritas. Com esse evento, os núcleos brasileiros que se identificam com a CEPA desejaram contribuir buscando explicitar essa pauta. Para que sobre ela todos os espíritas sigam compondo, plural e harmonicamente, a melodia dessa mensagem universal chamada espiritismo. Se logramos algum avanço só o tempo poderá dizer.
A harmonia é tecida de várias notas, mas há uma pauta da qual não nos é lícito sair, se pretendemos continuar nos afirmando espíritas.

Opinião do leitor
Recebimento de CCEPA Opinião
Como responsável pela parte administrativa da Sociedade Espírita Novo Horizonte, comunico aos senhores nossa Caixa Postal, de número 114, para onde deverá continuar sendo enviado o jornal. Nossa intenção é a de continuar recebendo CCEPA Opinião, pois entendemos a importância dessa entidade no aprofundamento dos estudos espíritas. Mais uma vez agradecemos a gentileza do envio. Gostaríamos de cada vez mais estreitar o nível de comunicação com essa entidade. Assim, solicitamos a gentileza de sempre que tiverem novidades (como, por exemplo, a realização do II Encontro Nacional da CEPABrasil e outras atividades), que, por favor, nos informem, pois teremos o maior interesse em participar.
Carlos Cesar Machado Alves
Vice-Presidente Da Sociedade Espírita Novo Horizonte – Capão Novo – Capão da Canoa/RS

Opinião em Tópicos
Milton R.Medran Moreira

Nosso Lar
Escrevo esta coluna quando se fecham as duas primeiras semanas de exibição do filme Nosso Lar. Um sucesso de bilheteria. Cerca de 2 milhões de brasileiros já assistiram ao filme. No momento em que você ler este comentário, o número poderá ter dobrado. Os espíritas, de modo geral, andam eufóricos. Depois do êxito do filme Chico Xavier, a produção de Wagner de Assis está contribuindo para tornar ainda mais popular a mensagem de Emmanuel/André Luiz, base do espiritismo cristão que ganhou milhões de adeptos neste Brasil, Coração do Mundo e Pátria do Evangelho (ou será dos evangélicos?). Há uma forte campanha para que “Nosso Lar” seja o candidato brasileiro ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Tenho estado atento a tudo o que dele se fala, no meio espírita ou fora dele.

A crítica
Minha amiga Nícia Cunha viu e não gostou. Na lista da CEPA, comentou na forma franca como é de seu estilo. Acha que a dimensão espiritual foi mostrada como “um umbral escuro, nojentamente enlameado e com espíritos sofredores feridos, vagando sem rumo”. Na colônia espiritual que deu nome à obra, “todo mundo piegas, com aqueles camisolões brancos, falas professorais, sem argumentação lógica”. A tônica presente, segundo Nícia, é a de sempre: “Mais tarde você compreenderá tudo”.
A crítica especializada, de maneira geral, tem elogiado os efeitos especiais, muito bem utilizados, à moda hollyoodiana. Mas não tem poupado críticas ao caráter piegas da produção. Na Folha de São Paulo, o crítico Gustavo Fioratti comenta que “retratar o mundo dos mortos com um cenário cheio de flores, gramados ensolarados e cheio de personagens que usam roupas esvoaçantes é apostar num velho clichê”. (Folha Ilustrada – 3/9).

Batas ou jeans?
Em áudio veiculado no site da Folha, Fioratti diz não entender porque nessas colônias espirituais, mostradas em novelas e filmes do gênero, nunca chove. E o que mais o intriga é por que um espírito desencarnado tenha de andar sempre com aquelas batas “em tons pastéis, variando entre o bege e o lilás”. Pergunta: que mal teria se eles se apresentassem com uma calça jeans bem cortada ou uma minissaia?
Claro que o cineasta e nem o autor das novelas da Globo não podem levar as culpas disso. É assim mesmo que as obras espíritas vêm, sistemática e invariavelmente, retratando o mundo espiritual. Aí cabe uma importante reflexão espírita: no fundo, a ideia de imortalidade que o espiritismo prega, modelada por obras mediúnicas dos anos 40, pouco se afastou do estereótipo céu/inferno/purgatório, do catolicismo.

Estereótipos
“Nosso Lar”, “Brasil, Coração do Mundo e Pátria do Evangelho” e tantas outras obras mediúnicas que moldaram o espiritismo brasileiro podem não passar de meras criações de ficção de seus autores espirituais. Ou será proibido fazer ficção na espiritualidade? Mesmo, contudo, que o famoso livro de André Luiz retrate um lugar real, uma colônia situada no espaço espiritual do Rio de Janeiro, por que deveremos tomá-la como uma realidade universal? No mundo material, também há colônias religiosas onde seus habitantes andam de batas, longos camisolões, batinas ou hábitos. Nem por isso, a Terra é um grande mosteiro ou um imenso Vale do Amanhecer. Cabe a nós, espíritas, derrubar esses estereótipos. Meta na formação de nossos médiuns, engajados em uma concepção laica, humanista e universalista da realidade espiritual. Quando isso for possível, hão de emergir, sim, em profusão, colônias espirituais onde seus habitantes trajam jeans bem cortados e minissaias. E nem por isso deixarão de dar sua contribuição ética à humanidade encarnada.

Notícias

O chá que une o útil ao agradável

Desde o último mês de julho, o Centro Cultural Espírita de Porto Alegre – CCEPA – encontrou uma forma criativa de integração de seus grupos de estudo. Por iniciativa da dirigente Eloá Popoviche Bittencourt, bimensalmente é organizado um chá/café após as reuniões de estudo ou seminários, das quartas-feiras à tarde. Salomão Jacob Benchaya, Diretor Doutrinário da Casa classifica o chá das quartas como “confraternativo/arrecadativo”. Com o patrocínio de alguns associados e da Padaria Santo Antônio (Av.Getúlio Vargas, 178, Bairro Menino Deus) é possível oferecer, mediante a colaboração de 5 reais, um agradável lanche que oportuniza o encontro e a confraternização entre os membros do CCEPA, além de aliviar o sempre necessitado Caixa da Instituição.
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Ecos do II Encontro em Bento Gonçalves
Quem não pôde participar do II Encontro Nacional da CEPABrasil, organizado pelo Centro Cultural Espírita de Porto Alegre e patrocinado pela Associação de Delegados e Amigos da CEPA no Brasil, poderá ter um relato resumido do que ali foi discutido. No próximo dia 4 de outubro, no espaço destinado à conferência mensal da primeira segunda-feira do mês, Salomão Benchaya vai comentar o evento e sua temática.


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Enfoque
Antiga e velha, mas ainda tão nova
Wilson Garcia, escritor, jornalista e professor universitário, Recife/PE
Codificador, autor, criador e até mesmo inventor são alguns dos termos utilizados para designar a relação de Allan Kardec com a Doutrina Espírita. Às vezes em tom de crítica à popularização do adjetivo codificador, que sem dúvida encontrou espaço maior no campo do movimento, às vezes por conta de estudos sérios que buscam compreender a doutrina lançada a público a partir de 1857, na França.
O mineiro Augusto Araújo tem debatido pelas listas da Cepa este e outros temas vinculados aos seus interesses de estudo, enquanto produz sua tese de doutoramento baseada “na leitura e interpretação da obra de Allan Kardec"1. Tem ele reiterado em algumas oportunidades não ser adepto do espiritismo, mas suas intervenções têm revelado sempre respeito e admiração e recebido por parte dos listeiros grande atenção e interesse, além do espaço de discussão bastante profícuo.
No texto que fez publicar no jornal Opinião abaixo mencionado, Araújo expõe suas razões histórico-metodológicas pelas quais entende ser Allan Kardec o autor da doutrina dos espíritos, preferindo este termo aos demais. Baseia-se num raciocínio lógico em que compara as produções filosóficas atribuídas aos pré-socráticos e aquela realizada por Allan Kardec no século XIX. Lamenta o desaparecimento das fontes utilizadas por Kardec (as comunicações dos espíritos), razão pela qual se sente impedido de reconhecer a face “científica” do espiritismo. Ou seja, já não se tem mais condições de analisar comparativamente o pensamento dos autores espirituais e o de Kardec no seu trabalho de produção da doutrina.
Por mais que os espíritas profundamente ciosos de suas crenças justifiquem a pouca importância que atribuem a isso, na opinião de que o conhecimento que a doutrina oferece tem valor maior, afirmando mesmo às vezes que é o que interessa, não se pode negar os fatos. Isso não diminui o valor do espiritismo, absolutamente, mas a lacuna deixada pelo desaparecimento das fontes primárias impede um trabalho mais amplo de análise comparativa. O caminho aí, portanto, embora não estacione, bifurca-se.
A questão da codificação-autoria levantada por Araújo permite outros raciocínios. O termo “codificador”, bastante criticado por alguns, não está em oposição ao que se conhece em comunicação na contemporaneidade. O termo sofreu desgastes, é verdade, com seu uso generalizado por incorporar outras significações, como, por exemplo, a ideia implícita de que o codificador foi apenas um ordenador cuja participação não passou deste limite, o que conferiria maior autoridade às mensagens originais e colocaria Kardec no papel de intermediário isento.
Em sua significação semântica o termo codificar é empregado para designar a ação de produzir mensagem através do código linguístico que deverá ser “decodificado” pelo destinatário. Em princípio, todo emissor é um codificador e todo destinatário é um decodificador. Mas a ideia de uma comunicação circular nos leva à compreensão de que emissor e destinatário se alternam nestas duas posições, ou seja, Kardec foi decodificador quando estudou as mensagens e codificador quando as ordenou. Nesse processo, evidentemente, sua intervenção deixou as marcas da sua individualidade mostradas pelas evidências.
Assim, Kardec terá sido um codificador ativo, participante e, como é consenso entre os espíritas, autorizado pelas fontes. Se na ausência dos documentos originais contendo as mensagens se afirmará que ele, Kardec, é o autor, para os espíritas deverá ser visto como co-autor, ou seja, o material fornecido pelas fontes espirituais recebeu a impressão do pensamento de Kardec.
Mesmo que Kardec tivesse sido uma espécie de coordenador passivo, ainda assim suas marcas estariam presentes no produto final, porque selecionar e ordenar o material implica em tomar decisões e fazer opções, incluir e excluir, dar voz e retirar a voz, o que, em última palavra, significa participar do e definir o produto final.
Kardec, porém, foi muito além disso. Foi também intérprete das vozes espirituais, liderou um processo, produziu questionamentos, direcionou temas, solucionou contradições, superou dilemas, concordou e discordou até chegar a um ponto consensual com as fontes espirituais.
Talvez aqui devamos tocar na transcrição que Araújo faz de um dos diversos trechos em que Kardec fala sobre a sua participação na obra doutrinária, texto que serve a Araújo para reforçar sua convicção sobre a posição autoral de Kardec. Ei-lo.
“Da comparação e da fusão de todas as respostas, coordenadas, classificadas, e muitas vezes retocadas no silêncio da meditação, foi que elaborei a primeira edição de O Livro dos Espíritos, entregue à publicidade em 18 de abril de 1857.”
Araújo questiona o emprego do verbo “retocar” como tradução do francês “remanier”, entendendo que maior precisão haveria se fosse usado o verbo reparar, modificar ou refazer. Apesar das justificativas etimológicas oferecidas por Araújo, parece-me que em nenhum desses casos, ou seja, o emprego de qualquer dos verbos sugeridos ou a manutenção do verbo escolhido pelo tradutor não resolveria a questão da intencionalidade de Kardec.
Não há como dimensionar a ação de Kardec em relação às mensagens por ele comparadas e fundidas, senão especular. Aqui, com certeza, o desaparecimento dos originais se torna mais significativo de ponto de vista do interesse do pesquisador, ao impossibilitar qualquer avanço no desejado estudo comparativo.
O que significa, de fato, comparar, fundir e retocar “no silêncio da meditação”? Qual é a extensão disso em relação às ideias e respostas dadas pelos autores espirituais? A declaração de Kardec tem o objetivo simples de chamar para si a responsabilidade do produto final ou vai além? Qualquer resposta objetiva aqui será mera conjectura.
Estou curioso com a tese que o Augusto Araújo está produzindo e pelo que tenho acompanhado deverá apresentar boa contribuição à compreensão do espiritismo. Da mesma forma, estou convicto de que a questão codificador-autor deveria ser vista com mais naturalidade, na perspectiva de que como codificador é também co-autor e como co-autor é ainda assim o codificador de uma mensagem tão complexa quanto extraordinária.
1 Jornal Opinião, p4, Porto Alegre, julho de 2010.