quinta-feira, 6 de outubro de 2011

OPINIÃO - ANO XVIII - N° 190- OUTUBRO 2011

Auto-de-Fé de Barcelona – 150 anos
A 9 de outubro de 1861, na Esplanada de Barcelona, Espanha, foram queimados, por ordem do bispo local, 300 livros espíritas, legalmente importados da França. O episódio ocorrido há 150 anos passou à História como o Auto-de-Fé de Barcelona.
       
           Um verdadeiro ato inquisitorial
          Segundo uma testemunha, que enviou relato à Revista Espírita, editada por Allan Kardec, naquele dia, “às dez horas e meia da manhã, sobre a esplanada da cidade de Barcelona, no lugar onde são executados os criminosos condenados ao último suplício, e por ordem do bispo desta cidade, foram queimados trezentos volumes e brochuras sobre o Espiritismo”, devidamente arrolados pelo informante, que também registrou a presença das seguintes pessoas: “Um padre revestido das roupas sacerdotais, trazendo a cruz numa mão e a tocha na outra mão; um notário encarregado de redigir a ata do auto-de-fé; o escrevente do notário; um empregado superior da administração da alfândega; três moços (serventes) da alfândega, encarregados de manter o fogo; um agente da alfândega representando o proprietário das obras condenadas pelo bispo. Acrescentou a testemunha: “Uma multidão inumerável encobria os passeios e cobria a imensa esplanada onde se elevava a fogueira”. O relato concluiu assim: “Quando o fogo consumiu os trezentos volumes ou brochuras espíritas, o padre e seus ajudantes se retiraram, cobertos pelas vaias e as maldições dos numerosos assistentes que gritavam: Abaixo a Inquisição! Numerosas pessoas, em seguida, se aproximaram da fogueira e recolheram suas cinzas”.

            O “resto da Idade Média”
          O registro feito por Allan Kardec, na edição de novembro de 1861 da Revista Espírita, estranha que, em pleno Século 19, ainda se censurassem livros na Espanha, e que essa tarefa fosse entregue às autoridades eclesiásticas. Chamou isso de “o resto da Idade Média”. Citou a comunicação de um espírito que assim se expressou: “Hoje a retaguarda da inquisição fez seu último auto-de-fé”. Mesmo assim, previa que o acontecimento seria proveitoso ao espiritismo, pois “a perseguição sempre foi aproveitável à ideia que se quis proscrever”, já que “por aí se lhe exalta a importância, se lhe desperta a atenção, fazendo-o conhecer por aqueles que o ignoram”. De fato, décadas depois, o espiritismo teria na Espanha um extraordinário incremento, sendo um dos países onde mais se cultivaram suas ideias, até eclosão de novos eventos tirânicos, como a 1ª e 2ª Guerras Mundiais e, especialmente, a ditadura salazarista do Século 20, quando, novamente em colaboração com a Igreja Católica, o espiritismo foi reprimido e sua prática punida pelo Estado.
          Expressando sua fé na expansão das ideias espíritas, apesar das perseguições que começavam, Allan Kardec, em seu artigo, deixou esta lapidar sentença: “Podem se queimar os livros, mas não se queimam ideias; as chamas das fogueiras as superexcitam em lugar de abafá-las”, pois “quando uma ideia é grande e generosa, ela encontra milhares de peitos prontos para aspirá-la”. 



           




            A lógica episcopal
          A decisão do bispo Manuel Joaquín Tarancón y Morón, ordenando a queima dos livros espíritas apreendidos na alfândega de Barcelona fundava-se em uma lógica tão falsa quão falso é o silogismo em que se apoiou. “A Igreja Católica é universal, e sendo os livros contrários à fé católica, o governo não pode consentir que eles venham a perverter a moral e a religião de outros países”, sentenciou o prelado do alto de sua autoridade, supostamente divina e, logo, superior a qualquer razão humana.
          Estranha lógica essa que, no entanto, não se pense esteja inteiramente derrogada. Já não se queimam livros em praça pública, resultado das conquistas que a sociedade civil, a duras penas, arrancou da teocracia, em sua épica luta a favor da liberdade. Mas sempre que o dogma tenta se sobrepor à razão, e a fé pretensamente revelada pelo “Alto” busca derrogar a lei natural, gravada na consciência do espírito humano, se estará fazendo ressurgir a velha e falsa lógica responsável pelos maiores crimes contra a liberdade de pensamento.   
          A crença na posse da verdade revelada e em sua infalibilidade e imutabilidade inspiraram, ao curso da História, o desprezo à construção do pensamento e, pior, ao próprio ser humano que ousasse pensar. Dogma e humanismo são inconciliáveis. Mas, humanismo e espiritualismo podem se complementar.  Este confere àquele uma dimensão ampliada, sublimando-o.
          O espiritismo, mesmo que vulgarmente confundido com um novo sistema de fé ou como uma nova revelação religiosa, é, essencialmente, uma forma revolucionária de ver o próprio ser humano. É o humanismo na sua expressão evolutiva, progressiva e transcendente.
 Sem liberdade de pensar e investigar não se faz espiritismo. Os livros que o bispo de Barcelona mandou queimar apontavam para essa “perigosa” proposta, incompatível com a “verdade eterna e imutável" da qual o prelado se julgava guardião.  Na sua lógica e naquela que ainda impera em certos meios religiosos, inclusive espíritas, é dever de uns dizer o que os outros podem ou não podem ler. E para que certas publicações não cheguem a seus fiéis, tudo é válido: escondam-se-as, proíbam-se a circulação nos seus “templos” e, mesmo, a simples menção de seus autores. São formas simbólicas e dissimuladas de se queimar livros, jornais, revistas... e pessoas! Tudo em nome de uma lógica que cheira a sacristia, um “resto de Idade Média”, como disse Kardec. (A Redação).





Expulsar ou Educar?
Os piores demônios desse mundo estão dentro de seu coração e é ali que você trava as grandes batalhas de sua vida.   Sergio Siqueira
É grande a afluência aos rituais de “expulsão dos demônios”. Partindo do pressuposto de que todos os males pessoais - da doença aos infortúnios no amor, e do desemprego aos insucessos econômicos - derivam de uma avassaladora e irresistível influência demoníaca, pastores, apóstolos, bispos e missionários, nos templos, na TV e no rádio, valem-se de barulhentos rituais para, supostamente, libertar seus fiéis – ou candidatos a fiéis – da influência dos “encostos” ou espíritos malévolos que só existem para fazer o mal.
          Diferentemente da interpretação espírita, os demônios das religiões cristãs são seres perpetuamente voltados ao mal. A influência por eles exercida sobre pessoas e grupos tem por exclusiva finalidade trazer-lhes sofrimento, e, por conseguinte, fortalecer o reinado do mal. Ensina a teologia que estão os demônios em constante luta contra o bem, comandado este pelo “Senhor Jesus”.
A partir dessa visão maniqueísta, arrogam-se as religiões o poder de dar combate aos “espíritos malévolos”, numa disputa, palmo a palmo, cujo êxito ou fracasso se medirá pelo número de almas salvas ou condenadas, numa conta a ser definitivamente fechada no dia do Juízo Final.
          Tais crenças já trouxeram muito mal à humanidade. Infundiram a ideia de que estamos sempre submetidos a forças exteriores, misteriosas e poderosas, e que, sem o auxílio das religiões e a incondicional submissão às suas regras e rituais, forçosamente seremos dominados pelas potências do mal. Por si próprio, o ser humano nada é e nada pode. Para se liberar da influência dos espíritos maus, capazes de infernizar sua vida, aqui e no além, terão, necessariamente, de recorrer à autoridade religiosa que, com poderes especiais para expulsá-los, devolverá àquele que crê – e só a este - o bem estar, a saúde, o amor e a riqueza.
          Fosse essa a realidade, onde não existissem exorcismos, rituais de expulsão de espíritos malignos, jamais reinaria a prosperidade, a concórdia, o bem, a justiça, a ordem e a paz interior e social. Sociedades laicas, inevitavelmente, seriam manobradas pelas forças do mal, a partir do além.
          O espiritismo aceita a realidade da influência espiritual para o bem ou para o mal. Admite, inclusive, que se possa interferir diretamente, graças ao fenômeno da comunicabilidade dos espíritos e da relação destes com os encarnados, na educação e no esclarecimento de entidades espirituais temporariamente dominadas pela vontade de prejudicar seres encarnados. Mas, nesse mister, o que o espiritismo  busca, acima de tudo, é mostrar a encarnados e desencarnados que seu processo de crescimento e de sanidade moral e física depende precipuamente de sua ação, de seu comportamento afinado com bem e o progresso, individual e coletivo.
          No imaginário popular, sabe-se, persiste a ideia de que o espiritismo é, essencialmente, uma prática capaz de afastar os “maus espíritos”, embora por processos reconhecidamente diferenciados daqueles das igrejas. Mesmo assim, e para que a doutrina espírita não seja confundida ou igualada à concepção que aquelas guardam acerca dos “espíritos maus”, é preciso investir cada vez mais na ideia de que espiritismo é educação. Educação para a vida e para a liberdade.
Necessário é deixar claro que o que chamamos de desobsessão difere dos rituais cristãos de “expulsão dos demônios” não apenas no método e na forma. Sua diferença principal radica na visão libertadora que o espiritismo tem acerca da natureza, origem e destino dos espíritos. Evolução e progresso são leis que atingem todos os espíritos, estejam eles estagiando no mundo material ou fora dele. Nessa perspectiva, não há o mal eterno e se uma luta é travada entre o bem e o mal, esta tem por campo a intimidade da consciência. Isso é educação fundada em uma filosofia libertadora.
         






Istambul, agosto/2011
No último dia 29 de agosto, estávamos, Sílvia e eu, em Istambul, encerrando um roteiro turístico de três semanas, que começara ali mesmo e se estendera por outras regiões da Turquia e Grécia. Desde que lá chegáramos, sabíamos que os muçulmanos viviam o mês do Ramadã, período em que os seguidores de Maomé fazem jejum diariamente. Algo como a Semana Santa dos cristãos, pelo menos de antigamente (nunca vou me esquecer da contrição que tomava conta de minha mãe, naquele tempo, quando, rigorosamente, deixava de comer carne na Quaresma e jejuava em todas as sextas-feiras do período). Existe isso ainda entre os católicos? Se há, com certeza, não é igual ao Ramadã muçulmano, mesmo na Turquia, o país mais laico dentre eles.

O fim do Ramadã
Naquela noite, o povo estava todo na rua. As casas que vendem iguarias feitas de amêndoas, pistaches, mel e outras delícias da região regurgitavam de gente. O jejum estava terminando. Nos dias seguintes, as famílias se visitariam para saborear os tradicionais doces turcos. Durante os dias em que ali estivéramos, nos chamou atenção a enorme frequência de populares às mesquitas. Ficavam horas fazendo orações. Em volta daqueles monumentais templos, gente deitada nos bancos, com ar sofrido. Tinham de passar o dia todo sem comer, sem fumar, sem fazer sexo, sem beber, inclusive água. Só à noite quebrariam levemente o jejum para recomeçá-lo no outro dia. Assim, tinha sido por todo o mês de agosto. Agora, finda a penitência, era tempo de comer, de beber, de gozar tudo aquilo a que renunciaram por quatro semanas.

          As religiões e o sacrifício
          Todas as grandes tradições religiosas impõem períodos de abstinências e penitências a seus fiéis para lhes ensinar a dominar as paixões. Não há religião sem sacrifício, escreveu Mahatma Gandhi. Elas partem da premissa de que os gozos da vida são o caminho do pecado, que, por sua vez, leva à condenação. Afastando-nos do prazer, elas querem nos salvar.
Será assim mesmo? Talvez elas tenham uma parcela de razão, na medida em que o ser humano não haja encontrado ainda o caminho da moderação, do equilíbrio.

Os inventores do pecado
De repente, a Praça Taxsim, onde estávamos, é invadida por viaturas de onde descem dezenas, centenas de policiais fortemente armados que se espalham pelo centro da cidade: “Algum atentado?”, pergunto. “Não”, me responde um popular: “As pessoas hoje bebem muito para compensar o tempo em que não podiam fazê-lo, e, por isso, precisam ser vigiadas”.
Pergunto a mim mesmo: terá valido a pena sacrificarem-se por tantos dias para, depois, se entregarem aos excessos?
          Pecado é deixar de gozar as coisas boas da vida, com a moderação e o equilíbrio que ela exige de nós, todos os dias. Possivelmente, no dia em que o ser humano tiver assimilado isso, não necessite mais de religiões, e estas terão assimilado a admoestação de Chico Buarque de Holanda: “Você que inventou o pecado, ora faça o favor de desinventar”.






 A ética e os interesses pessoais
 Mário Molfino, advogado e escritor argentino. Diretor     
da Sociedad  Espiritismo Verdadero – Rafaela /AR.

          Um grande dilema que se encontra em constante interação é o problema da ética e sua relação com o interesse pessoal.
          Em muitas ocasiões, as atitudes e as formas de manifestação individual e social parecem obedecer mais aos interesses do que à ética, tomando-se esta expressão como sinônimo de moral. Pensa-se que a ética é somente uma moldura, um padrão que nos é imposto de fora para dentro e não um referencial da consciência.
          Necessário é, inicialmente, reconhecer o outro, perceber-lhes as necessidades, as limitações e, muitas vezes, as carências, não apenas materiais, mas também emocionais, para que sejamos capazes de transcender nosso próprio horizonte e dar testemunho de solidariedade e trabalho responsável.
          Desde Aristóteles, se repete, exaustivamente, que a virtude é a disposição adquirida para fazer o bem. Virtude é, pois, o esforço para comportar-se bem.
          As chamadas virtudes morais fazem com que um homem pareça mais humano ou melhor que o outro e constituem nossos valores morais encarnados e vividos em interação contínua com o semelhante, como expressava Montaigne
          A maturidade de uma pessoa é assinalada pela capacidade de apreciar a natureza da dor e das necessidades alheias.
          É indubitável que toda a ação começa a partir de um ser que pensa, em primeiro lugar em si mesmo, e que, obviamente, não se porá contra si próprio. Entretanto, a transformação da forma de ver e de se conduzir tem suas raízes no reconhecimento do próximo, superando os interesses pessoais e, às vezes, egoístas.    
          Immanuel Kant sustentava que embora não exista prêmio para as boas ações, a recompensa do agir moral é ele próprio, é o sujeito se saber possuidor de uma ética do comportamento. E é justamente aqui que se faz necessário analisar o conceito de Bem comum, como ponto de partida do indivíduo em direção a seus semelhantes.
          O significado do “comum” tem sua origem no ponto em que dois paralelos deixam de sê-lo e se tocam.
          O Bem comum é o bem estar dos indivíduos enquanto membros de uma comunidade social o política, ou seja, o conjunto dos valores que os indivíduos necessitam e que, entretanto, só podem buscar e, efetivamente obter, em forma conjunta, numa relação social regida pela concórdia. Ali, interesses e ações deixam de ser individuais para se converterem em plurais, solidários e participativos levando à concretização da ideia de Justiça.
          O bem não é para ser contemplado, mas ali está por se fazer, por ser plasmado em atos humanos. Já o esforço para comportar-se no sentido do bem se define na conquista da Virtude.
          Observa-se, assim, que existe uma dinâmica que começa com ação e o interesse pessoal, nutre-se do conceito de bem comum, ou seja, a conduta não afeta o semelhante, nem vulnera aspectos que fazem a vida em comunidade. Finalmente, a reiteração de ações nesse sentido culmina na Virtude.
          Céticos sustentam que por de trás de toda ação moral há um interesse pessoal. Indubitavelmente, em muitos casos é assim mesmo. Mas, igualmente, na natureza humana são abundantes ações que fogem dessas circunstâncias e não são por elas explicáveis.
              Há no ser humano matizes de consciência social, de respeito ao próximo e à vida em sociedade. Eles asseguram que interesses pessoais podem conviver com o Bem comum, alimentando o círculo virtuoso da generosidade, do altruísmo e da bondade. Tudo convergindo para um clima de convivência mais harmônica e um desenvolvimento político e social mais justo e equitativo.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  
 

           
           S.E. Casa da Prece, Pelotas, 35 anos
          A Sociedade Espírita Casa da Prece, completou 35 anos de fundação, em 09 de abril deste ano. Em comemoração ao seu aniversário, a instituição pelotense filiada à CEPA está promovendo reflexões sobre a influência do espiritismo no mundo contemporâneo. Uma série de palestras se sucederá até março de 2012. 
          Convidado pelo presidente da Casa da Prece, Homero Ward da Rosa, o editor deste jornal, Milton Medran Moreira, lá estará proferindo palestra, no próximo dia 15 de outubro, às 18h, com o tema “Espiritismo em Tempos de Inquietação”.

            CCEPA organiza caravana ao XII Simpósio
       Brasileiro do Pensamento  Espírita
           Cerca de 15 integrantes do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre – CCEPA – estão se mobilizando com vistas à participação no XII SBPE – Santos/SP, de 11 a 14 de outubro. O grupo está sendo coordenado pelo vice-presidente do CCEPA, Salomão Jacob Benchaya, que também participará do evento.
          Companheiros do interior da Capital ou interior do Estado que queiram se juntar à caravana, podem entrar em contato com o CCEPA, através do e-mail ccepars@gmail.com . Deseja-se conciliar horários de voos para possibilitar a contratação de transporte até Santos. O ICKS, organizador do Simpósio, tem convênio com o Hotel Praiano para hospedar os participantes do SBPE, com valores de 385 reais o apartamento duplo e 360 para triplo, incluindo inscrição e café da manhã, para os três dias do evento. Maiores informações pelo e-mail  ickardecista@terra.com.br .

  
Conexão com Espíritos – o tema de novembro

          Aureci Figueiredo Martins foi o palestrante da primeira segunda-feira de outubro, dia 3, no Centro Cultural Espírita, com o tema: “Fundou Jesus Alguma Religião?”
          Prosseguindo no programa de conferências públicas mensais, no próximo dia 7 de novembro, às 20h30, ocupará a tribuna do CCEPA o Professor Ascêncio Balaguez, com o tema “Conexão com Espíritos”. A entrada é franca.

        


          


         
          
         Lucidez e seriedade do CCEPA Opinião
Parabéns aos editores de CCEPA Opinião, pelos artigos lúcidos, sérios, de conteúdo inteligente, sempre compatíveis com os ensinamentos da Doutrina dos ESPÍRITOS, codificada por Allan Kardec que, na época, era um espírito encarnado, portanto um espírito também..
Paz e Esperança.
Manuel F. J. de Macedo – Bragança Paulista/SP

O mundo dos espíritos
Sobre “Nossa Opinião” do mês de agosto, "O indefinível mundo dos espíritos", permita-me discordar, pois as informações contidas nas obras de Paramahansa Yogananda e outros iogues contemporâneos, e nas psicografias de André Luiz, Patrícia e tantos outros espíritos-espíritas já são suficientes para se definir bastante o mundo dos espíritos.
Obrigado e uma abraço,

Antonio Baracat - Inconfidentes, MG.

Entrevista do editor de CCEPA Opinião
 Felicito-os pela excelente entrevista com Milton Medran Moreira, “O Espiritismo e as Questões de Nosso Tempo” - http://www.viasantos.com:80/pense/arquivo/1347.html . O conteúdo rico e consciencioso de suas respostas foi realmente um regalo para meu espírito, sequioso de compreender o espiritismo na sociedade de hoje, globalizada e multicultural. Em França, dirijo, há 18 anos, a Associacion Parisienne d’Etudes Spirites (APES), com ativa participação no movimento espírita francês. O posicionamento de Medran, relativo às questões de nosso tempo, não é em nada diferente do que tentamos sustentar no estudo e práticas espíritas na França. Autorizados pelo editor, desejamos traduzir a entrevista para o francês, divulgando-a em nosso site: http://www.apes.asso.fr/ .

Anita Becquerel – Presidente de APES – Paris, França.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

OPINIÃO - ANO XVIII - N° 189 - SETEMBRO 2011

Novo Mapa das Religiões no Brasil revela:

Queda do catolicismo e crescimento dos evangélicos e dos sem-religião
Embora o IBGE não tenha ainda disponibilizado os dados relativos ao censo oficial de 2010 sobre religião, o Centro de Políticas Sociais (CPS) da Fundação Getúlio Vargas (FGV) acaba de divulgar pesquisa esboçando o novo mapa das religiões no país, com dados levantados em 2009.

          Catolicismo em queda livre
          O Brasil já foi um país quase 100% católico. No primeiro registro censitário, de 1872, 99,72% dos brasileiros se declaravam católicos. A partir de então, em cada levantamento, o número se reduzia, enquanto se ampliava a presença de outras crenças no cenário religioso do país. Foi, no entanto, nas décadas de 1980 e 1990 que mais se acentuou a queda, numa proporção de 0,5 a 1 ponto percentual por ano. Assim, em 1980 o número de católicos era de 89%, caindo para 83,3% em 1991. O censo do IBGE de 2.000 registraria um índice de 73,89% de católicos no Brasil. Agora, o levantamento da FGV acusa mais uma sensível queda: apenas 68,4% dos brasileiros, ouvidos na pesquisa feita em 2009, se declararam católicos.

          Sem-religião e evangélicos: tendência de crescimento
          O novo mapa das religiões desenhado pela Fundação Getúlio Vargas confirma a tendência já registrada no censo de 2000: evangélicos, englobando os tradicionais, os pentecostais e os neopentecostais, de um lado, e os sem-religião, de outro, seguem a tendência de crescimento.
No censo de 2.000, 15,4% dos brasileiros disseram-se evangélicos. A pesquisa agora divulgada registra um percentual de 20,2% desse segmento religioso que é o que mais cresce. O estudo enfatiza ainda o fato de a religião, no Brasil, se haver tornado “um produto de exportação”, sendo comum assistirem-se a programas evangélicos, apresentados por brasileiros, em canais de televisão de “países tão distintos como Índia, México e Nicarágua”.
Relativamente aos sem religião, o censo de 2.000 já registrara um expressivo crescimento com o percentual de 7,4%.  A nova pesquisa da FGV mostra uma leve queda desse percentual: 6,72% declararam não pertencer a qualquer religião. Mesmo assim, houve um crescimento desse segmento tomando-se por base anterior pesquisa da própria FGV, em 2003, onde 5,3% haviam se declarado sem religião.
 Espiritualistas/espíritas: um contingente pequeno, mas     diferenciado pela maior escolaridade
A pesquisa insere os espíritas dentro de um segmento maior, definido genericamente como “espiritualistas”. Vital Cruvinel (São Carlos/SP), coordenador do Grupo de Discussão da CEPA, na Internet, postou na lista alguns dados por ele extraídos do estudo da FGV, sobre a evolução numérica desse segmento, nas últimas décadas. Assim ,diz, “entre os brasileiros, os espiritualistas representavam 1,12% em 1991, 1,35% em 2000, e 1,65% em 2009”. Desse último percentual os espíritas participam com 1,59% e ocupam a quinta posição no ranking das denominações religiosas”, segundo apurou Vital.
Dado significativo, entretanto, continua sendo o de que, dentre os diferentes segmentos religiosos, os espiritualistas/espíritas são os que maior escolaridade apresentam Registra Vital Cruvinel, com base na pesquisa: “Entre os espiritualistas 73,9% têm 8 anos ou mais de estudo”, e comenta: “Este é o maior percentual entre todos os agrupamentos religiosos”.
Para saber mais:  http://www.fgv.br/cps/religiao




Espiritualistas e livre-pensadores
Genericamente, o termo “espiritualista” deveria alcançar todas as religiões. Indica a aceitação da natureza espiritual do ser, o que, teoricamente, é comum a todas as religiões. Sabe-se que não é assim, entretanto. O mundo pós-moderno, pouco a pouco, abandona a fé religiosa. Se, no Brasil, por exemplo, quase 70% da população ainda se diz católica, não é mais pela crença nos dogmas fundamentais daquela fé, mas meramente por tradição e convenção social. Nem o crescimento acelerado das novas crenças evangélicas está a indicar uma busca de espiritualidade. Trata-se, claramente, de uma religião “de mercado”, com forte apelo ao progresso material, à conquista de posições econômicas, sociais e políticas, seguindo as regras um mundo competitivo. A fé por ela apregoada não é mais que meio para o sucesso. Daí seu exitoso crescimento.
Já a tendência de crescimento dos “sem-religião” inspira-se no desejo de liberdade, de libertação do dogmatismo e de consolidação do livre-pensamento. Esse segmento não deve, necessariamente, ser visto como em posição contrária ao espiritualismo. Livres pensadores e arreligiosos podem, perfeitamente, ser espiritualistas, e frequentemente o são.
Eis aí um sutil elo de ligação entre as categorias que as pesquisas denominam, respectivamente, “sem-religião” e “espiritualistas”. Juntas, elas talvez apontem para uma tendência dos novos tempos: a espiritualidade desvinculada da fé religiosa. No entanto, para que, na prática, elas se aproximem, será fundamental desvincular espiritualismo, e, pois, o próprio espiritismo, de religião.
Esse é um desafio para o nosso tempo. Fundamental à própria identidade do espiritismo e sua inserção no mundo contemporâneo. As pesquisas parecem indicar que não há mais espaço para a expansão do espiritismo, dentro do setor religioso. Este é ou formalista e dogmático, ou mercadológico e imediatista. Convenhamos que nenhuma dessas características serve ao espiritismo, uma filosofia genuinamente espiritualista, adogmática e livre-pensadora, cujo real crescimento se mede pela libertação de consciências e não pelo número de aderentes formais. (A Redação)


Há 10 anos
Não olheis para o céu à procura de sinais anunciadores, pois não o vereis (...)  Olhai, porém, à vossa volta, entre os homens, e lá os encontrareis”. (“Regeneração da Humanidade”, Obras Póstumas, de Allan Kardec.)
Fatos marcantes na vida de todos nós são sempre relembrados com detalhes precisos de tempo, lugar e circunstâncias. Assim foi com o 11 de Setembro de 2001. Cada cidadão minimamente conectado com o mundo, com certeza, saberá dizer onde estava, o que fazia e como tomou conhecimento do trágico atentado às torres gêmeas do World Center de Nova York, naquele fatídico dia.
Quem sabe, simbolicamente, aquele episódio da mais grotesca estupidez humana, ocorrido no 9º mês do 3º milênio da era cristã, possa ser visto, mais adiante, como o parto de um novo tempo das relações humanas e internacionais. Afinal, como diz a questão 785 de O Livro dos Espíritos, “no mundo moral, como no mundo físico, do mal pode surgir o bem”. Não há dúvida, entretanto, que as raízes desse brutal episódio foram adubadas por milenares sentimentos de ódio e intolerância nascidos de preconceitos raciais, culturais e religiosos. Seus efeitos imediatos, e que ainda se arrastam, assumiram proporções tão danosas e irracionais como o próprio atentado. A partir dele, incrementou-se a ação bélica norte-americana, inspirada em resquícios da ideologia fundamentalista cristã. Logo ocorreriam as invasões do Afeganistão (2001) e do Iraque (2003). Uma onda de terror, em diferentes partes do globo, foi se espalhando, rapidamente. Em 2004, bombas foram detonadas em Madri. No ano seguinte, em Londres, um grave atentado ao transporte público foi perpetrado por muçulmanos britânicos protestando pela colaboração do Reino Unido às campanhas militares dos Estados Unidos no mundo árabe. Por diferentes motivos, atos terroristas semelhantes ocorreriam também em Moscou, motivados pela ocupação russa à Chechênia. O Planeta, enfim, foi tomado pela insanidade. O terror começou a mudar a face do mundo. Uma onda de pânico, de desconfianças mútuas, de insegurança, marcariam a década. Tudo em decorrência direta do atentado, o que lhe aumenta o significado histórico conferindo-lhe, quem sabe, a condição de marco inicial de um novo tempo.
Somos, enfim, partícipes de um tempo singular da História. Fundamentalismos políticos e religiosos, intolerância, desrespeito aos princípios mais fundamentais da dignidade humana, vez por outra, rompem as barreiras do bom senso e se sobrepõem a todos os valores civilizatórios até aqui construídos e normatizados. Vivemos num mundo de valorações éticas desiguais, e, assim, profundamente heterogêneo. Determinados indivíduos e coletividades mostram-se ainda incapazes de assimilar aqueles valores positivos, filosoficamente concebidos pela História, e que já são naturalmente vivenciados por outras pessoas e agrupamentos.
Talvez seja exatamente essa heterogeneidade o que melhor identifica os chamados mundos “de provas e expiações”. Episódios tão trágicos bem que poderão ser, também, as dores do parto de uma nova civilização. Um dia o humanismo terá que suplantar a fé irracional. A filosofia nascida da crença nos valores intrínsecos do espírito humano e de sua destinação à solidariedade, ao afeto, à igualdade de direitos e deveres, um dia terá que se sobrepor aos fanatismos políticos e religiosos geradores das guerras e do terrorismo.
Impossível esquecer o 11 de Setembro de 2001. Será para todo o sempre um fato marcante da história do Planeta. Bem melhor que não houvesse acontecido. E não teria, de fato, ocorrido não fosse a insensatez dos homens. Foi obra deles e não de Deus. Já que aconteceu, entretanto, tomara que seus efeitos sejam minimamente úteis ao sonhado processo de regeneração da humanidade. Regeneração que, também, não há de vir como um presente dos céus. Dependerá da ação livre e consciente dos seres humanos. O homem escreve sua história.
    
         



         


O dilema de Kardec
          Allan Kardec foi um homem de seu tempo. A ideia fundamental do século em que viveu era a do progresso. Todas as grandes filosofias do Século XIX, do espiritualismo ao socialismo, passando pelo positivismo, alimentavam inabalável crença no progresso da humanidade. O socialismo via na luta do proletariado o caminho para uma sociedade mais justa. O positivismo vislumbrava no conhecimento científico a extirpação da ignorância e da superstição. Já o espiritismo, aplicando as leis da evolução à trajetória do espírito, definia a sociedade humana como em contínua ascensão ética.
          Mesmo defendendo, teoricamente, o princípio do sucessivo aprimoramento moral da humanidade, Kardec, entretanto, se deparava com um aparente dilema. Diante das chagas morais de seu tempo, questionou: “A perversidade do homem é imensa. Pelo menos do ponto de vista moral, não parece que ele recua, em vez de avançar?” (q.784 L.E.)

          O excesso do mal
          Na resposta ao dilema kardeciano, os espíritos buscaram serená-lo: “Enganas-te”, disseram-lhe, acrescentando: “Observa bem o conjunto e verás que ele (o homem) avança, pois melhor compreende o que é mal, e dia a dia vai corrigindo os abusos. É preciso que o mal chegue ao excesso, para tornar compreensível a necessidade do bem e das reformas”.
          Com a resposta, os interlocutores espirituais de Allan Kardec mostravam que a evolução moral da humanidade não é linear, nem homogênea. Que, não exatamente de acordo com o ideal do Século XIX, o progresso viria, sim, mas a custa de duros golpes e de alguns retrocessos que só confirmariam a necessidade de avançar.

          Antes e depois de Kardec
          Antes dele, a chamada civilização ocidental passara pela violência das teocracias. Mancomunados, reis e papas disseminaram o ódio, com suas guerras santas. As cruzadas, a inquisição, o absolutismo, a escravidão, a violação sistemática dos direitos fundamentais do ser humano, marcaram os séculos que precederam a vida de Kardec. Depois dele, duas sangrentas guerras mundiais, o holocausto, a destruição atômica, a guerra fria, o terrorismo. Mas, em contrapartida, os esforços mundiais em prol do Estado Democrático de Direito, da união das nações com base no respeito às diferentes culturas e crenças, da luta pela emancipação das minorias, da libertação feminina, da ecologia, dos estatutos em defesa das crianças, idosos, deficientes. Mesmo com esses avanços, a presença avassaladora do crime organizado e a corrupção política são fatos que conduzem à generalizada descrença no progresso humano.

          Capacidade de indignação
          É possível que o mal não tenha chegado ainda ao excesso. Mas, por todo esse tempo, desenvolvemos, coletivamente, uma acurada capacidade de indignação que reclama por mudanças, inclusive em nós próprios. A experiência está mostrando que não há outro caminho ao progresso que não o da ética. Isso é avanço, e muito significativo. Os espíritas não podemos compactuar com a conclusão apressada de que o mundo está perdido e de que o ser humano se degrada. Atentos às observações dos espíritos a Kardec, aprendamos a olhar o conjunto e, a partir dele, vislumbrar um futuro necessariamente melhor. Não deixemos que o patrimônio legado pelo Século XIX, onde se consolidou o humanismo e se desenvolveu a crença no progresso, se perca. Justamente agora, que já somos capazes de aquilatar os efeitos nocivos do mal e já temos, em profusão, meios capazes de dar voz à nossa indignação.




     


     
     Na primeira segunda-feira do mês, 
     você é nosso convidado
          A atividade da primeira segunda-feira de setembro no CCEPA oportunizou interessante debate sobre a corrupção, suas causas e consequências. A partir da exposição de Donarson Floriano Machado do tema da noite – “Corrupção: como combatê-la? A contribuição espírita”, vários participantes contribuíram com suas opiniões.
          Na primeira segunda-feira de cada mês, às 20h30, o auditório do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre (Rua Botafogo, 678) abre suas portas ao público para uma atividade especial. O expositor do mês de outubro (dia 3 – data que assinalará o 207º aniversário de nascimento de Allan Kardec) será Aureci Figueiredo Martins, dirigente do Instituto Espírita 3ª Revelação Divina – IETRD – de Porto Alegre.

      Questões da atualidade na ótica 
      de um pensador espírita
                       
           O site “PENSE – Pensamento Social Espírita” – www.viasantos.com/pense – acaba de disponibilizar novas e interessantes matérias sobre temas correlatos a espiritismo e questões sociais. Com o título “O Espiritismo e as Questões de Nosso Tempo”, Eugenio Lara publica longa entrevista com o editor deste jornal, advogado e jornalista Milton Medran Moreira, que aborda temas polêmicos como as relações entre espiritismo e justiça, espiritismo e comunicação social, relações homoafetivas, casamento homossexual e as propostas de Jaci Regis, envolvendo o que chamou de “espiritismo pós-cristão”.
          No site foram inseridos também trabalhos de: Amilcar Del Chiaro Filho (Espiritismo e Sociedade), Ciro Pirondi (A Filosofia Espírita e as Fronteiras do Conhecimento); Ricardo Nunes (Consciência, Virtude e Liberdade sob a Perspectiva da Tradição Filosófica Ocidental e do Espiritismo); e Reinaldo Di Lucia (Fundamentos da Ética Espírita).
          A entrevista com Medran pode também ser lida no blog do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre: www.ccepa.blogspot.com .


O Patinho Feio

 Eugenio Lara, arquiteto e jornalista, é editor do site PENSE-Pensamento Social Espírita [www.viasantos.com/pense] e membro-fundador do CPDoc - Centro de Pesquisa e Documentação Espírita.      E-mail: eugenlara@hotmail.com


       O que separa radicalmente o Espiritismo da grande maioria das correntes espiritualistas, especialmente as de natureza esotérica e iniciática, é a mediunidade. As correntes de origem esotérica procuram interpretar o fenômeno mediúnico descartando sua origem na ação de espíritos, de seres humanos desencarnados. Desde a teoria dos cascões astrais, da Teosofia à tese da Gnose, de que na comunicação mediúnica são os egos do “médium” que se manifestam, e não espíritos, o que observamos é sempre a tentativa de repelir o fato mediúnico, a ação dos espíritos através da mediunidade.
No cristianismo, provavelmente um dos responsáveis pela postura antiespírita dos esotéricos, não poderia ser diferente. Desde o exorcismo surgido na Idade Média às manifestações do “Espírito Santo” nas igrejas evangélicas e em cultos católicos vinculados à Renovação Carismática, podemos observar autênticos fenômenos medianímicos, que deveriam ser pesquisados e estudados pelos cientistas espíritas ou por alguém preparado que se interesse pelos fenômenos psíquicos, psicobiofísicos, “sobrenaturais”. Os cristãos abominam a prática mediúnica, “obra do Demônio”, proibida por Deus, segundo eles e entendem que os fenômenos de xenoglossia, de psicofonia, cura, vidência, são obra do Espírito Santo. É a ação de Deus, interpretada pelos católicos como a terça parte de sua manifestação sobrenatural, como se Deus fosse que nem aqueles aparelhos de som antigos, um verdadeiro três-em-um, ideia obscura e impossível de se conceber, a não ser pela via do dogmatismo.
Na Umbanda, que nasceu das entranhas do Espiritismo, a mediunidade é praticada de um modo completamente diferente do que vemos nos centros espíritas. Tanto que, apenas para diferenciar sem querer discriminar, os espíritas denominam a prática mediúnica umbandista, sem orientação doutrinária, metodológica, de mediunismo, pois no centro espírita não tem ritual, cânticos, roupa especial, apetrechos, charuto ou bebida, chiados e despachos.
No Espiritismo Religioso, cada vez menos Espiritismo e bem mais religioso, a mediunidade acaba virando a panaceia da cura, muito mais anímica do que mediúnica. O centro espírita se traveste de tenda de milagres. É o assistencialismo mediúnico, que preenche o seu papel consolador, temos de reconhecer, mas que se torna um obstáculo às pesquisas mediúnicas, à prática da mediunidade com conhecimento de causa, com base doutrinária, conforme o método kardequiano.
O inconsciente de Carl Jung (foto), também virou explicação recorrente de fenômenos insólitos como os medianímicos: tudo vem do inconsciente, do inconsciente coletivo... tese predileta do jesuíta Oscar Quevedo, ( (na foto abaixo) inimigo notório do Espiritismo. Psicólogos e psiquiatras também consideram o inconsciente como a fonte desses fenômenos, sem que se deem ao trabalho de sair de seus gabinetes, ir a campo e pesquisar a imensa gama de fatos medianímicos que ocorre em cada esquina, a todo momento, debaixo de nossos narizes.
Geneticistas e neurólogos também são candidatos à interpretação do fenômeno medianímico, seja na eleição de alguns segmentos e órgãos cerebrais, como a epífise ou o córtex cerebral, à busca do gene responsável pelos fenômenos mediúnicos, quem sabe, o gene da mediunidade, que para muitos céticos compulsivos, estaria mais para o gene da fraude, da enganação, da mistificação do que para o gene do mediunismo.
A mediunidade é o patinho feio rejeitado do espiritualismo, que o Espiritismo adotou como sua razão de ser, transformando-o num verdadeiro cisne, quando ele desliza altivamente nas águas da orientação doutrinária, fundamentada no pensamento kardequiano. Se não fosse a mediunidade não haveria Espiritismo. Não negamos seu caráter consolador. Seria uma grande burrice, exemplo de egoísmo, de grande despeito diante de tantas mazelas e dores humanas, psíquicas, desenganadas pela Medicina, passíveis de serem tratadas pela ação mediúnica.
Todavia, em nosso entender, é perfeitamente possível conciliar o caráter consolador da prática mediúnica com a experimentação, a pesquisa orientada por uma metodologia adequada ao fenômeno que está sendo estudado. Assim como Jesus de Nazaré demonstrou a vida após a morte materializando-se, mostrando-se após a crucificação a seus discípulos e pessoas de sua convivência, “vencendo a morte”, “vencendo o mundo” pela ressurreição, como acreditam os cristãos, o Espiritismo, através da mediunidade, precisa demonstrar, também, não somente para pessoas de nossa convivência, mas para todo o mundo que a vida continua e sobrevivemos à materialidade, em outra dimensão ou dimensões, cheios de vida, com todos os nossos desejos e virtudes, vícios e manias.
A vida prossegue em dimensões extrafísicas e a prova disto deverá ser demonstrada pelas pesquisas espíritas da mediunidade, da Transcomunicação Instrumental e Mediúnica, a fim de que o fato mediúnico que os espíritas admitem por convicção, deixe de ser apenas filosófico e torne-se um fato científico, como pretendia Allan Kardec em suas pesquisas pioneiras, possível de ser debatido nas academias, nas instituições científicas, em todos os meios de comunicação.
Quando a mediunidade é somente consoladora, aliena. Se ela se submete à pesquisa, ao estudo e experimentação, torna-se libertadora, digna de ser praticada em nome do Espiritismo. 
Por enquanto, trata-se de uma utopia, um sonho, que deixa de ser ilusão quando se apresenta como algo possível. A utopia não é o impossível, ela é um devir, um sonho possível, materializável. É aquilo que virá pela nossa ação, na construção de nosso sonho, de nossos ideais.


         


Espiritismo na Austrália
            Obrigado pela remessa de Opinião, que recebemos via Internet. Espero que vocês continuem enviando. Por aqui, estamos sempre nas lutas, mas caminhando. Estamos nos preparando para iniciar, no começo do ano, as atividades da Juventude Espírita Australiana e também a distribuição de sopa aos “home less”. Aqui o Espiritismo é um pouco diferente do que vivenciamos aí no Brasil. Por aqui, o que mais exige de nós é a caridade moral, porque a material é menos necessária do que no Brasil, embora haja necessitados também. Gostaria de recomendar uma visitinha à nossa home-page: www.joanadecusa.org.au .

            Meu abraço com vibrações de carinho,

            Glória Collaroy – Joana de Cusa Foundation and Franciscans Spiritist House. – Sidney Austrália.

            Caso Edisson
            Agradeço o amigo Milton Medran Moreira por ter comentado o caso do enfermeiro Edisson da Silva Castro, lá de Erechim (Opinião em Tópicos, agosto). Aproveitei o “gancho” e coloquei o tema em debate em nosso Grupo de Estudos, no Lar da Caridade, que reúne cerca de 40 pessoas, nas quartas-feiras. Foi muito proveitoso. Pudemos fazer uma excelente avaliação de a quantas anda o nosso grau de entendimento da justiça humana e da justiça divina. Muito grato e um abraço fraternal.
            Adão Araújo – Bento Gonçalves/RS