domingo, 4 de novembro de 2012

OPINIÃO - ANO XIX - Nº 202 - NOVEMBRO 2012


A mediunidade no laboratório:
Instituto americano pesquisa
vida após a morte
No ano de 2008, no Estado do Arizona, USA, um grupo de cientistas americanos de diferentes formações resolveu unir esforços em torno do estudo e da pesquisa da interação corpo/mente/espírito. Surgiu, assim, o Instituto Windbridge, organismo que, presentemente, tem como principal área de estudos a questão da sobrevivência da consciência após a morte, realizando importantes pesquisas sobre a mediunidade.

Nascimento, morte, renascimento
Quem acessar o site do Instituto Windbridge - http://www.windbridge.org/  - vai se deparar com um logo que, de imediato, traduz sua proposta.  É o triplo espiral – ou triskele  – , visto pela primeira vez em culturas célticas e que, segundo explicação do mesmo site, pode significar: terra-mar-céu, passado-presente-futuro, ou, ainda, nascimento-morte-renascimento. É, justamente, essa última equação, a que se refere às jornadas do espírito humano, no corpo ou fora dele, mantendo a mesma individualidade ou “consciência”, o tema que mais tem ocupado os cientistas integrantes do organismo. Concreta e objetivamente, o Instituto Windbridge estuda o espírito, sua sobrevivência e manifestações.

Uma equipe multidisciplinar
Integram o Conselho Consultivo do Instituto Windbridge mais de uma dezena de reconhecidos cientistas e pesquisadores, como: o psiquiatra Jim B.Tucker, MD, da Universidade de Virgínia, continuador das pesquisas sobre reencarnação iniciadas por Ian Stevenson; Stephen E.Braude, PhD, Presidente do Departamento de Filosofia da Universidade de Maryland; Etzel Cardeña, PhD, do Centro de Investigação em Psicologia da Consciência da Universidade de Lund; John Palmer, PhD, Editor do Jornal de Parapsicologia e Diretor de Pesquisa Rhine Research Center, entre vários outros.
Coordena a equipe de pesquisadores a Dra. Julie Beischel, PhD (foto), fundadora do Instituto e sua Diretora de Pesquisas. Doutora em Farmacologia e Toxicologia, com especialização em Microbiologia e Imunologia, Julie, desde 2008, com o auxílio de diversas bolsas e financiamentos, tem realizado importantes pesquisas no campo da mediunidade.

Métodos científicos aplicados à mediunidade
Entrevistada por Elaine Cristina Vieira (Barcelona, ES), em matéria recentemente publicada pela revista eletrônica O Consolador - http://www.oconsolador.com.br/ano6/281/especial.html -, Julie Beischel dá detalhes sobre as pesquisas que estariam demonstrando “que há vida após a morte”.  São utilizados três métodos para estudar o fenômeno da mediunidade: o proof-focused, que acusaria se os médiuns estão dando a informação correta; o process-focused, avaliando a experiência dos médiuns durante a comunicação espiritual; e o applied-research, que cuida dos benefícios trazidos à sociedade humana pela mediunidade. Para a pesquisadora americana os resultados até aqui obtidos “confirmam a hipótese de que o espírito sobrevive à morte”.
Julie diz se utilizar do método científico do “quíntuplo-cego”, que evita resultados tendenciosos. Por esse método, nem o examinado, nem o examinador, sabem das variáveis do estudo. São usadas cinco pessoas diferentes para ajudar na análise dos dados sem que nenhuma delas saiba de que trata o estudo. Informa a pesquisadora: “Com médiuns certificados pelo Instituto Windbridge, podemos demonstrar que as informações dos médiuns sobre familiares já mortos são exatas e, além do mais, os médiuns não têm nenhum conhecimento prévio sobre a família e o desencarnado”.  Preocupada com a plena adequação de suas pesquisas aos parâmetros científicos atuais, Julie Beischel declara: “Este paradigma de pesquisa é ideal porque o fenômeno da mediunidade é facilmente replicável e podemos trazer a mediunidade ao laboratório”.




Ciência e Ética do Espírito
Reduzido à sua expressão mais sintética, o espiritismo não é mais do que o estudo do espírito. A “ciência da alma”, como, ao fim de sua vida física, propunha Jaci Regis fosse ele renomeado.
Allan Kardec, mesmo conferindo especial dimensão aos aspectos morais do espiritismo, quando tratou de defini-lo deixou consignado ser ele “a ciência que trata da natureza, origem e destino dos espíritos e de suas relações com o mundo material”.
A partir disso, pode-se, sem se incorrer em qualquer impropriedade, dizer que quem, como no caso do Instituto Windbridge, se ocupa de questões relativas ao espírito, sua sobrevivência e comunicação, está, de certo modo, fazendo espiritismo. Mesmo que aqueles cientistas jamais tenham tomado contato com o espiritismo ou com a obra de Allan Kardec, estarão, rigorosamente, trabalhando no mesmo projeto do qual Kardec foi o grande precursor, na modernidade contemporânea.
Todo o esforço do insigne Mestre de Lyon foi no sentido de que as questões relativas ao espírito fossem tratadas à luz da ciência tal como entendida no seu tempo ou à luz de seus futuros desdobramentos. Ainda que insistam em reduzi-lo à condição de fundador de uma nova religião cristã, Kardec foi, na verdade, o primeiro sistematizador da ciência do espírito.
Ver o espiritismo a partir desse ângulo em nada diminui seu revolucionário potencial ético e transformador. Na visão que ele oferece de homem e de mundo, o progresso ético e moral da humanidade se dá justamente pelo conhecimento.
Privilegiar o conhecimento, dissociando-o do moralismo religioso, será, em qualquer circunstância, trabalhar pelo progresso moral do ser humano. Mormente quando, rompendo-se com o reducionismo materialista, se tem a coragem de colocar o espírito como objeto de estudo e de pesquisa científica. (A Redação)





Prêmio Nobel da Paz

Em 12 de outubro último, foi anunciado, em Oslo, Noruega, que  o Prêmio Nobel da Paz de 2012 fora atribuído à União Europeia (UE), pelo papel fundamental exercido na implantação da paz no continente e por ter oferecido os alicerces da estabilidade nos países oriundos do antigo bloco comunista, após a unificação da Alemanha.
A notícia foi, de imediato, eleita, pelo editor deste jornal, como tema de seu editorial do mês. Foi quando recebemos  um artigo de nosso colaborador Néventon Vargas, da Associação de Estudos e Pesquisas Espíritas da Paraíba – ASSEPE – na mesma linha da abordagem que desejávamos fazer. Por isso, aqui o reproduzimos, adotando-o como opinião deste periódico. Escreveu Néventon:

“Posso afirmar que nunca fui um entusiasta do Prêmio Nobel e nem mesmo costumo acompanhar de perto as propostas e escolhas dos laureados, porque considero muito duvidosos os critérios utilizados, que no geral têm forte conotação política. Mas festejo a premiação da UE porque não elege nenhuma personalidade específica, mas um bloco de nações dispostas a pôr fim a um círculo vicioso de pendengas que se arrastam por longo tempo. Privilegiam desta forma os valores universais da paz, da conciliação e reconciliação, da democracia e dos direitos humanos.
De simples relações econômicas, passando pela criação da Comunidade Econômica Europeia (CEE) e com a nova denominação a partir de 1993, a União Europeia passou a atuar em muitas outras áreas, ratificando os propósitos de cooperação mútua para a definitiva implantação da paz e da prosperidade. Não tem ainda, evidentemente, a eficiência e a unanimidade desejada, mas deve se fortalecer conforme cresçam as evidências de que somente com união se conseguirá superar todos os obstáculos.
Vem o prêmio num momento crucial, quando se coloca em dúvida sua capacidade em administrar a profunda crise econômica global que afeta fortemente alguns países e põe em risco sua estabilidade e a própria sobrevivência.
Seja qual for o rumo da crise, já se tem como positivos os princípios geradores e norteadores das relações entre as nações europeias, que propicia um mercado comum suficientemente forte e capaz de impulsionar a economia e vencer o capital puramente especulativo. Muito mais do que isso, entretanto, vislumbro na aproximação das nações e antes mesmo das relações sociais, uma profunda transformação no comportamento individual, em que cada um valoriza mais o homem, diminuindo as distâncias entre as pessoas dos diferentes países, fazendo mais tênues as linhas fronteiriças, embora se ouçam ruídos esparsamente de alguns egoístas renitentes, insatisfeitos com o ir e vir de estrangeiros ao seu derredor, concorrendo às mesmas vagas de trabalho.
A UE, calcada na experiência milenar dos povos europeus, que passou pelos mais diversos conflitos, nos dá exemplo para a construção de um mundo melhor. Mas não o que idealizam alguns, com a supremacia de uma nação sobre as demais e com a instituição de um “presidente do mundo”, e sim com a primazia dos valores democráticos, com a autonomia das nações e a forte participação de seus parlamentos junto ao parlamento maior.
Afinal, todos “navegamos” no mesmo planeta, nascemos do mesmo humo e a nossa essência sobreviverá no mesmo espaço universal, onde não há proprietários e nem privilegiados. Onde não somos donos senão dos nossos próprios destinos.
Assim, caminhamos para ações mais altruístas, em que o sentimento nativista não seja embargo para estendermos as mãos aos outros povos e nem o orgulho nacionalista impeça a humildade para aceitarmos, agradecidos, o auxílio externo nos momentos de dificuldade, cientes de que o nosso bem é o bem comum, tal como o fortalecimento de uma nação europeia é benefício para toda a União Europeia e o desta, para o mundo todo”.

A UE, calcada na experiência milenar dos povos europeus, nos dá exemplo para a construção de um mundo melhor.






A Igreja e a mediunidade
Estive, por estes dias, assistindo na Internet à entrevista do comunicador espírita Alamar Régis com o padre Miguel Fernandes Martins, da cidade de Sobradinho  DF. (http://www.youtube.com/watch?v=eaTPSAx2BT4&feature=related).
Sabe-se o quanto são comuns, no meio clerical ou nas ordens religiosas, os fenômenos mediúnicos. Eclodem já no ambiente doméstico de famílias muito religiosas. Desconhecedores, no âmbito familiar, de outras opções espiritualistas, esses médiuns naturais são encaminhados para seminários ou conventos. Ali, a questão da mediunidade ou será tratada como coisa do demônio ou, dependendo da “santidade” e da piedosa submissão do agente, será interpretada como fenômeno miraculoso, capitalizado, então, pela Igreja como comprobatório das verdades eternas de que se proclama detentora. Assim tem sido por séculos, no histórico contexto de poder da Igreja em nossa cultura.

O padre espírita
O entrevistado de Alamar avaliou melhor o fenômeno. Entendeu tratar-se de uma faculdade natural. Assimilou alguns conceitos transmitidos pela entidade que diz incorporar: frei Fabiano de Cristo, um espírito bastante conhecido e prestigiado nos segmentos espíritas cristãos. Mas, nem por isso, Miguel deixou de ser padre. Passou a se qualificar como um “padre espírita”. Claro que isso lhe valeu reprimendas e discriminação nos meios eclesiásticos. Entretanto, e já que os tempos atuais levaram a Igreja, para poder sobreviver, a adotar um multifacetado pluralismo, o clérigo de Sobradinho talvez esteja inaugurando um novo segmento clerical. Ou seja, ao lado de categorias já muito conhecidas, como a dos padres cantores, dos padres carismáticos, dos padres aeróbicos e dos tantos sacerdotes pop-stars, celebrantes das showmissas, pode estar surgindo este novo segmento: o dos padres espíritas.
Espiritismo impregnado de catolicismo
O fenômeno não chega a ser uma novidade. Henrique Rodrigues, quando entre nós, costumava dizer que o espiritismo, no Brasil, estava dominado por padres e freiras. O irreverente escritor e conferencista espírita se referia às tantas e destacadas entidades espirituais de forte impregnação católica que, do outro lado, assumiram a orientação do movimento espírita deste “Brasil, Coração do Mundo e Pátria do Evangelho”.  Essa orientação foi aceita pela turma do lado de cá, e entendida como a mais ajustada à alma do povo brasileiro. Talvez até o fosse, nos primórdios do espiritismo por aqui, quando praticamente 100% da população era católica.  Pergunta-se: ainda será ou já está na hora de reverter essa situação, diante do perfil predominantemente laico da sociedade dos dias atuais?
Cheiro de sacristia
Temos a tendência de festejar a adesão à chamada “fé espírita” desses padres que continuam padres. Vá lá que seja esse o único caminho inicialmente possível a pessoas com forte impregnação religiosa! Mas, no fundo, elas alimentam um sonho: o de que a Igreja se transforme e passe a aceitar oficialmente a mediunidade e até a reencarnação, como sugeriu o padre de Sobradinho. Seu desejo é permanecer nessa sonhada igreja “espírita”, renovada, mas ainda católica, apostólica, romana. O entrevistado de Alamar, vestindo batina, posando entre imagens de santos e mostrado distribuindo a comunhão a seus fieis, materializa a previsão de Allan Kardec de que, à margem do espiritismo, surgiriam seitas adotando alguns de seus princípios, sem, no entanto, assimilar sua genuína natureza doutrinária. 
Nas conclusões de O Livro dos Espíritos, Kardec projetava um espiritismo em condições de assumir “o direito de cidadania entre os conhecimentos humanos”. Decididamente, para tanto, terá que se libertar desse cheiro de sacristia. Coisa que, pelo jeito, ainda levará algum tempo.






Ciência Espírita
e colaboração interexistencial

Vinícius Lousada
Educador e pesquisador, editor do blog www.saberesdoespirito.blogspot.com

O Espiritismo sob um ponto de vista novo
Quando Allan Kardec começou a publicar a Revista Espírita passou a fazer circular de forma mais sistemática a produção em torno de um novo campo de pesquisas: o da investigação positiva em torno do Espírito.
No contexto das academias, os cientistas se pautavam no paradigma positivista ou no espírito positivo, advogado por Comte, que pretendia superar os estados teológicos e metafísicos do pensamento humano, configurando-se num olhar investigativo guindado à apreciação sistemática dos fatos existentes.
Conforme a perspectiva adotada por esse ícone do positivismo, uma lei geral do movimento fundamental da humanidade remetia ao entendimento de que as teorias científicas deveriam aproximar-se cada vez mais da considerada realidade dos objetos de estudo, numa pretensão de verdade, controle e exatidão. Em toda a sua obra, onde partilhava os saberes da Ciência do Infinito, Kardec ressaltava o caráter científico do Espiritismo procurando firmá-lo e difundi-lo através da rigorosidade metodológica que o seu quefazer de pesquisador do invisível exigia.
Ao afirmar que o Espiritismo é uma ciência positiva (1), Allan Kardec queria que a Doutrina Filosófica dos Espíritos fosse apreciada por um novo prisma. Pois, segundo ele, o Espiritismo é a ciência que se ocupa, pela observação e controle do fenômeno espírita, das relações entre o mundo visível e invisível, tendo revelado com o elemento espiritual uma das leis da natureza ignorada pela ciência materialista até então: a ação do Espírito sobre a matéria.
Assim, atendendo aos critérios das ciências positivas do século XIX, sendo elaborado na observação de fatos e não em especulações hipotéticas, o Espiritismo um dia adquiriria cidadania entre as demais.
  
Uma ciência interexistencial
Sendo uma ciência cujo método foi elaborado por Kardec, o Espiritismo pelo próprio era definido como uma produção coletiva e progressiva. Aliás, ele jamais se intitulou o seu fundador querendo para si os louros de sua dedicação apesar da historiografia registrar, de forma inequívoca, a fundação desse campo de pesquisas pelo Prof. Rivail.
Ocorre que Kardec tinha a percepção de que as inteligências invisíveis capazes de interagirem de forma objetiva e subjetiva com o mundo material foram permitindo o registro e o controle científico de suas intervenções, dentro de uma programática superior que definia a desopacização do mundo espírita aos olhos das criaturas domiciliadas na carne.
Desse modo, o mestre foi ajustando, no processual de seu quefazer, seus pressupostos teóricos e metodológicos ao objeto de estudo, apontando uma obviedade por demais atual, ao menos no campo das ciências humanas, donde provenho: há de se considerar que a especificidade de certo objeto científico demanda uma metodologia e técnicas de investigação específicas para a apreensão do mesmo.
Essa atitude de Kardec fez com que sua pesquisa se diferenciasse e muito de outras que lhe precederam, pois, ao admitir as escolhas, a vontade, os limites e as possibilidades evolutivas das individualidades espirituais na produção das manifestações inteligentes e materiais, alargou o horizonte da investigação de modo a evitar que se enquadrasse o fenômeno espírita às estruturas conceituais rígidas e se descartasse os dados que os instrumentos, produzidos no âmbito de um paradigma materialista, comumente consideravam inválidos.
O que caracterizaria um avanço epistemológico para o campo das ciências da alma, em pleno século XIX, embora admirado pela aposta na experimentação, foi compreendido inicialmente por Richet (2), o fundador da Metapsíquica, por credulidade exagerada como, talvez, também teriam imaginado outros pesquisadores que não se aprofundaram na produção de Kardec.
Enfim, os Espíritos igualmente pautaram o trabalho científico de Kardec a partir de suas manifestações que, em pleno tempo de elogio à razão e à experimentação, organizaram verdadeira invasão ao mundo dos denominados vivos afetando os horizontes culturais da Ciência à Religião.
E, no que tange à composição do conteúdo filosófico do Espiritismo o mestre Allan Kardec teve o cuidado de estabelecer dois critérios de exame: o da razão e o do controle universal do ensino dos Espíritos.
A razão, ou o bom senso, era adotada como filtro principal, afastando o conhecimento produzido, em regime de colaboração entre médiuns, Espíritos e Kardec, de qualquer mescla com superstições ou dogmas.
O segundo critério, o do controle universal, demonstra que o Espiritismo não é fruto de uma concepção individual, da opinião de um sábio ou um Espírito, apenas. Aliás, característica marcante do fazer científico consiste no regime de colaboração, de partilha de saberes mediante a comunicação de métodos, experiências, dados e análises nos diferentes campos de pesquisa, ou seja, a produção coletiva.

Para levar a efeito tal controle, Kardec se utilizava de variados médiuns e Espíritos, entre comunicações espontâneas e evocações, para apreender a solução de diversos problemas filosóficos e questões sobre o mundo dos Espíritos a fim de comparar, após a análise severa da razão, o conteúdo daquelas e, com base na concordância coletiva, estabelecer os princípios da Doutrina Espírita.

 ESTUDANDO KARDEC
“Se há um meio de chegar à verdade, seguramente é pela concordância e pela racionalidade das comunicações, auxiliadas pelos meios que temos à nossa disposição para constatar a superioridade ou a inferioridade dos Espíritos. Ao deixar de ser individual para se tornar coletiva, a opinião adquire um maior grau de autenticidade, já que não pode ser considerada como resultado de uma influência pessoal ou local. Os que ainda se acham em dúvida terão uma base para fixar as ideias, porquanto será irracional pensar que aquele que em seu ponto de vista está só, ou quase só, tenha razão contra todos.” (3)

Notas:
(1) KARDEC, Allan. O espiritismo é uma ciência positiva. In: KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos. Ano sétimo – 1864. Trad. Evandro Noleto Bezerra. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2008, P. 434.
(2) MAGALHÃES, Samuel Nunes. Charles Richet: o apóstolo da ciência e do espiritismo. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2007, p. 160.
(3) KARDEC, Allan. Controle do Ensino Espírita. In: KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos. Ano sétimo – 1862. Trad. Evandro Noleto Bezerra. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2008, P. 36






Uma tarde com Padre Landell de Moura
O Centro Cultural Espírita de Porto Alegre recebeu, na tarde de 17 de outubro, o escritor e pesquisador Ivan Dorneles Rodrigues, autor de obras biográficas de um dos maiores gênios da História do Rio Grande do Sul e do Brasil: o Padre Roberto Landell de Moura (1861/1928), a quem se devem importantes invenções no campo da comunicação, e, por isso, tido como pioneiro da radiocomunicação e de outros experimentos que levariam ao surgimento do rádio e da televisão.
Em palestra pública, no auditório do CCEPA, Ivan destacou aspectos importantes da vida, da obra e da vasta cultura de Landell de Moura, incluindo a pesquisa de fenômenos paranormais e estudos sobre espiritismo.

Ao final da palestra, Ivan Dorneles fez a entrega ao presidente do CCEPA, Milton Medran Moreira, de materiais escritos e audiovisuais sobre o padre cientista gaúcho, para o acervo da biblioteca da instituição.

Palestras públicas no CCEPA
Seguem as palestras públicas da 1ª segunda-feira de cada mês (às 20h30) e da 3ª quarta-feira (15h) no auditório do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre. Para os meses de novembro e dezembro estão programadas as seguintes palestras, inteiramente abertas ao público

Dia 5/11 (20h30) - Palestra de Aureci Figueiredo Martins (foto): “Sócrates, Precursor do Espiritismo”;

Dia 21/11 (15h) – Palestra de Maurice Herbert Jones: (título);

Dia 03/12 (20h30) – Palestra de Rui Paulo Nazário de Oliveira: (título);

Dia 19/12 (15h) – Palestra de Salomão Jacob Benchaya: “Transição Planetária ou Fim do Mundo?”

Desencarna Cecilia Rocha
Retornou ao mundo espiritual, na madrugada no dia 5 de novembro, no Centro de Tratamento Intensivo do Hospital Santa Marta, no Distrito Federal, a incansável servidora da causa espírita, especialmente da Evangelização Espírita de Crianças e Jovens, a gaúcha Cecília Rocha , 93 anos de idade.









Congresso da CEPA
Acompanhamos com grande interesse todos os informes relacionados com o XXI Congresso Espírita Pan-Americano.
Foi um trabalho importantíssimo, queridos companheiros. Já estamos vivendo, graças a Deus, a hora das grandes e impostergáveis mudanças  de  alguns conceitos até aqui estratificados no imaginário espírita.  Graças a Deus, à coragem e  ao dinamismo de todos vocês. Um grande abraço e muita paz.
Adão Araújo – Bento Gonçalves/RS.

“Eu sei por que isso acontece”
Sobre a coluna “Opinião em Tópicos”, do mês de outubro. Por incrível que pareça, a frase  “Eu sei por que isso acontece”, no meio espírita, se tornou um grande "tumor". Em muitos atendimentos fraternos, a frase entrou no lugar do aconchego e no lugar dos ouvidos silenciosos para  com as dores do próximo. O "eu sei porque isso acontece", virou teoria, astúcia na oratória, títulos em palestras e "justificativas" para discursos empolados em defesa de uma doutrina. Bom que estejamos repensando nossas próprias atitudes.
Marta Valéria Nunes Bastos – Niterói, RJ.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

OPINIÃO - ANO XIX - Nº 201 - OUTUBRO 2012



Carta de Santos, documento oficial do XXI Congresso Espírita Pan-Americano, propõe uma visão dinâmica da reencarnação. Destaca os fins pedagógicos e progressistas da palingênese espírita, aptos a oferecer um novo paradigma de conhecimento à Humanidade.

Uma síntese da contribuição de cerca de 50 trabalhos
Provavelmente, nunca na história do espiritismo mundial um evento tenha examinado o fenômeno da reencarnação de forma tão abrangente como o XXI Congresso Espírita Pan-Americano, promovido pela CEPA, na cidade de Santos/SP, de 5 a 9 de setembro último. Foram: três mesas redondas, composta cada uma delas de três expositores; uma conferência pública; 37 trabalhos no Fórum de Temas Livres e uma Oficina Temática em grupos com participação ativa de todos os congressistas. Resultado de tão vasta contribuição, a Carta de Santos sintetizou o que se pode chamar de uma visão moderna, livre-pensadora e progressista da reencarnação. Marcando posição, o documento destaca: “Diferentemente de antigas crenças, como a da metempsicose, ou de algumas concepções ainda vigentes em doutrinas reencarnacionistas que se dizem inspiradas no cristianismo, no hinduísmo ou em outras concepções religiosas do mundo atual, a palingênese espírita defende que o espírito reencarna para progredir e não para resgatar culpas”.

Estatísticas e experiências abonam a reencarnação
O documento faz referência às estatísticas comprobatórias da crescente aceitação da tese reencarnacionista no mundo inteiro. Alude também a pesquisas de episódios de recordações espontâneas de prováveis vidas passadas, especialmente em crianças, assim como à larga utilização de hipnoses regressivas e fenômenos mediúnicos sugerindo a reencarnação. Experiências sérias nessas áreas já oferecem rico manancial de estudos com bom suporte fático à teoria reencarnacionista. A Carta de Santos identifica nessas manifestações um movimento que vem ao encontro da proposta racional espírita, numa perspectiva contemporânea, progressista, laica e livre-pensadora.
Um novo paradigma e não mais um artigo de fé

 Com esses fundamentos, o documento entende que “é possível, no presente estágio cultural da Humanidade, apresentar a teoria reencarnacionista espírita como um novo paradigma filosófico e científico a merecer a apreciação, o estudo, o aprofundamento da pesquisa e a aplicação prática em todas as áreas do conhecimento e do agir humano”. Para tanto, contudo, será preciso oferecê-la “não mais como um artigo de fé religiosa, mas como conhecimento capaz de dotar o indivíduo e a sociedade de responsabilidade pessoal e coletiva sobre o progresso individual e social”. Temas como justiça social, ambientalismo, paz e fraternidade são apontados na carta como objetivos naturalmente viáveis, a partir do paradigma reencarnacionista.
Para conhecer o inteiro teor da Carta de Santos, acesse o site da CEPA – www.cepainfo.org - ou o blog da CEPABrasil www.cepabrasil.blogspot.com.br/.
  




Em vez de culpa, responsabilidade
Há quem julgue que se abstraindo o fator culpa-castigo da reencarnação, se a estará descaracterizando como instrumento de realização da justiça. Não é assim. Importa é substituir-se, mesmo que gradativamente, o velho conceito de culpa pelo de responsabilidade.

Errar é da natureza da alma humana, na busca do conhecimento. Mesmo assim, o erro sempre gera sofrimento. Nesse sentido, é correto afirmar que não há evolução sem dor. No processo de aprendizagem do espírito, toda e qualquer violação à lei natural, gravada que está ela na consciência mais íntima do ser, gera desconforto, inquietação, mal-estar. Tal estado psíquico provoca o impulso pela retificação. Eis o caminho do aprendizado. É nesse contexto que está inserida a reencarnação.

Já fomos, em outras eras, mais simplórios nessa reflexão. Criamos conceitos como “olho por olho, dente por dente”, “quem com ferro fere, com ferro será ferido”. Depois, a reencarnação punitiva. Era o inato desejo de justiça buscando caminhos. O cristianismo, com os conceitos de recompensa ou castigos eternos, admitira como possível o estado de felicidade que o “pecado original” teria derrogado. Mas, a bem-aventurança cristã alcançaria alguns apenas: os beneficiados pela graça. O moderno conceito de reencarnação está sintonizado com a vocação humana pelo crescimento. Cresce-se com o exercício do amor e do serviço, do trabalho e da solidariedade, da responsabilidade pessoal e social em prol da evolução e da felicidade a que todos temos direito.

Reconhecemos, em síntese, que crescer é um processo doloroso. Estaremos, no entanto, acrescendo a essa caminhada um inútil pedágio, se insistirmos em cultivar na alma humana o sentimento da culpa, como indispensável à evolução. Basta-lhe o senso da responsabilidade. Dela dotado, o espírito, saberá, encarnação a encarnação, melhor escolher alternativas, libertas do sentimento de autovingança. A ideia de que somente sofrendo o mesmo mal por nós cometido há de nos libertar da dor, além de expressar conceito divorciado dos nobres objetivos da vida, inocula no espírito perigoso vírus autodestrutivo. Gera estado patológico de difícil tratamento. Cria o círculo vicioso do mal que, assim, é promovido a instrumento de justiça.
Preferível aliar-se Justiça ao Amor e à Caridade, como nos propõe O Livro dos Espíritos. (A Redação).




Tempo de julgar
“O dinheiro é para o crime o que o sangue é para a veia.“
(Ministra Cármen Lúcia, do STF, no julgamento da Ação Penal 470)

Democracia só se aperfeiçoa com a prática. Justiça só será eficiente quando atingir a todos, indistintamente. O Estado Democrático de Direito, conquista da modernidade, vive, entre nós, ainda, um incipiente processo de maturação.
Por séculos, embora gritasse nas entranhas da alma popular uma imensa sede de justiça, os poderosos, empregando a força bruta, calcada nas riquezas usurpadas, subvertiam a ordem natural e impunham a submissão do mais fraco. Do direito da força a sociedade migrou para sistemas que consagraram o poder dos mais astutos, dos que desenvolveram a inteligência, mas não o senso moral. Guardava-se, quando muito, a aparência do direito, mas vivia-se distante da verdadeira justiça. A política, em nosso meio, ainda vive sob o estigma dessa fase. Dela herdou a preservação de odiosos privilégios, engendrados em formalismos aparentemente legais, mas feitos com o intuito de burlar a justiça. Ao lado de homens probos que buscam na política formas de realização do bem comum, outros, os maus políticos, violam despudoradamente a lei apostando na impunidade. Abrigam-se, muitas vezes no generoso regaço do próprio sistema legal, ainda imperfeito.

Mesmo que se reconheçam, nos dias que correm, fortes ações em prol da moralidade pública, o direito e a justiça ainda são gravemente violados por muitos daqueles que juraram defendê-los. Por trás disso, está sempre a ambição, expressão mais forte do egoísmo e do exacerbado materialismo. Nesse cenário, é gratificante se ver em curso um processo voltado a produzir radicais transformações. Quem sabe, estamos no limiar de uma nova fase da história institucional do país. Diferentemente do desejável, essa etapa não nos chega, ainda, pela rejeição, via voto eleitoral, de políticos indignos de seus cargos. A democracia ainda incipiente, aliada à deformação moral - por que não? – de considerável parcela do próprio eleitorado, nos obriga a conviver com políticos corruptos ou corrompidos pela ação nefasta de setores econômicos comprometidos com a criminalidade. As transformações sonhadas por homens e mulheres de bem, estão chegando, ao que parece, pela ação decisiva da própria Justiça, agora melhor aparelhada para punir atos de corrupção.

No momento em que é escrito o presente editorial, embora ainda distante de uma decisão final, o Supremo Tribunal Federal sinaliza pela aplicação de severas condenações, senão à totalidade, à maioria dos envolvidos no episódio de monumentais desvios de recursos públicos que passou a ser conhecido como “mensalão”. Essas sinalizações enchem de esperanças o povo brasileiro, autorizando, desde já, a interpretação de que o exercício da política, em nosso país, terá, nesse episódio, um divisor de águas. Nossa história política se dividirá entre antes e depois do “mensalão”. 

Concomitantemente, realizam-se, neste mês de outubro, no Brasil inteiro, eleições para os cargos executivos e legislativos municipais. É a vez de o povo julgar diretamente os pretendentes ao exercício de cargos públicos no âmbito de suas comunidades. Exercido que for esse direito com critérios verdadeiramente republicanos, estaremos, preventivamente, pondo nossos municípios a salvo da corrupção e das más administrações. É a democracia promovendo a justiça antecipada. Só essa estreita comunhão entre povo e estado, ancorados todos em valores autenticamente éticos, garantirá a construção de uma sociedade verdadeiramente justa e feliz. 
     Nossa história política se dividirá entre antes e depois do “mensalão”






As surpresas do Congresso
O XXI Congresso Espírita Pan-Americano (Santos/SP, 6 a 9 set.) foi realmente inovador e instigante. Das tantas surpresas reservadas aos congressistas, uma delas começou com a apresentação ao plenário de esquete teatral tendo por cenário um aeroporto. Personagens como: o passageiro com medo da queda do avião; membros de uma família em constante conflito; o geniozinho que tudo sabia de música, mas se negava a aprender espanhol; o deficiente que pedia esmola; e, finalmente, a faxineira que observava tudo e comentava baixinho: “Eu sei por que isso acontece”. 
Depois, todos os participantes do Congresso, em pequenos grupos, ocuparam diversas salas de aula da Universidade Santa Cecília para comentar a pequena peça teatral. Durante as discussões, outra surpresa: irrompia na sala um pequeno grupo vocal, entoando “Canto do Povo de um Lugar”, de Caetano Veloso, entremeado de versos de Fernando Pessoa e outros modernistas. Um clima em tudo e por tudo humano, para discutir um dos aspectos mais fascinantes da vida: a reencarnação.

Mitos que envolvem a reencarnação
Além de reunir espíritas de diferentes países em clima de muita fraternidade e troca de experiências, o que, por si só, já justificaria o evento, o Congresso da CEPA em Santos foi importante marco de quebra de mitos criados em nosso meio em torno da reencarnação.
No Ocidente, e, especialmente, na América Latina, o espiritismo detém quase que o monopólio da temática reencarnacionista, pelo menos em nível mais popular. Isso termina conferindo aos espíritas uma certa “autoridade” para “explicar” os fenômenos da vida a partir da reencarnação. Resulta daí que todos e quaisquer acontecimentos, os da vida pessoal, os de cunho social ou, até mesmo, os fenômenos meteorológicos, tendem a ser interpretados, por muitos espíritas, a partir de um rígido esquema de causa e efeito espirituais, onde, frequentemente, a culpa está presente, impondo a necessidade de dolorosos resgates.

“Eu sei por que isso acontece”
A vida, no entanto, é bem mais rica, mais dinâmica e tem objetivos muito maiores do que aqueles supostamente vistos pela faxineirinha do aeroporto que dizia saber o porquê de tudo o que ocorria em sua volta. Um acidente biológico ou aéreo que ceifa vidas, a riqueza ou a pobreza, a genialidade ou a ignorância: episódios da vida que, em qualquer circunstância, podem somar para a evolução e o progresso, sem que estejam, necessariamente, ligados a anteriores causas reencarnatórias. É preciso mudar o foco. O grande objetivo da reencarnação é o aprendizado. Viver é sempre uma aventura que comporta erros ou acertos, eventos planejados ou casuais, fatos minuciosamente articulados ou resultantes de meros acidentes. O importante é que, no fim – se é que há um fim -, tudo dará certo. Mais importante ainda: com o conhecimento amealhado pelo espírito, vida após vida, cada um vai ampliando seu livre-arbítrio e se tornando o verdadeiro artífice do próprio destino, substituindo culpa por responsabilidade.

Doutrinário, mas não doutrinante
O que não se constitui em surpresa no Congresso de Santos foi a constatação de que, no espiritismo brasileiro e mundial, há um crescente segmento cada vez mais voltado a quebrar tabus. Essas pessoas estão dispostas à construção de ideias com participação coletiva. Como muito bem referiu Eugenio Lara, citando José Rodrigues, no vídeo que homenageava este juntamente com Jaci Regis, os congressos devem ser doutrinários e não doutrinantes. Um congresso espírita doutrinário é o que possibilita essa troca de ideias livres entre pessoas que estudam, refletem e crescem juntas, a partir de propostas kardecianas. Um congresso doutrinante será aquele que, simplesmente, transmite verdades prontas, acabadas e imutáveis. Aquelas que viram ou já viraram mitos.
 

Presidente da USE/Santos,
no Congresso da CEPA:
“Juntos podemos fazer muito mais".

Atendendo convite formulado pela Comissão Organizadora do XXI Congresso Espírita Pan-Americano, o Presidente da USE Santos – União das Sociedades Espíritas de Santos, Nilton Starnini (foto), compareceu ao ato inaugural do evento e à reinauguração da Praça Allan Kardec. Naquele ato público que teve a participação do Prefeito Municipal da cidade, foi descerrada uma placa alusiva à realização do Congresso da CEPA. Além do presidente da Comissão Organizadora do Congresso, Ademar Arthur Chioro dos Reis, fizeram uso da palavra, na oportunidade, o Presidente da CEPA, Dante López, o Prefeito Municipal, João Paulo Tavares Papa, e o Presidente da USE/Santos.

Em seu discurso, Starnini, que representa, na região, a União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo, integrante do Conselho Federativo Nacional da Federação Espírita Brasileira, consignou que aquele era um momento “por demais significativo e muito importante” para o movimento espírita da região, já que duas instituições, USE e CEPA, “que carregam a bandeira do Espiritismo, estão, finalmente, se colocando lado a lado, novamente”. Proclamando que “juntos, podemos fazer muito mais”, Starnini frisou em seu pronunciamento: “Estamos hoje virando as páginas do passado e passamos a escrever as páginas do presente, com amor, compreensão, respeito ao livre pensar, como nos exemplificou o próprio Sr.Allan Kardec”.
Por iniciativa de Salomão Jacob Benchaya, da equipe de redação deste jornal, após o evento, foi feita com Nilton Starnini a entrevista que a seguir reproduzimos:

Opinião - Sua presença no XXI Congresso Espírita Pan-Americano foi unanimemente interpretada como uma atitude genuinamente espírita em favor da união e da fraternidade. Gostaríamos que falasse sobre os motivos que o levaram a participar do evento.
Starnini -  Além da nossa presença ter refletido a minha vontade pessoal e de toda a diretoria da USE - Intermunicipal de Santos, não poderíamos deixar de aplicar, em concreto, os preceitos de fraternidade que divulgamos em nossas atividades espíritas. Nossa presença no XXI Congresso da CEPA sela uma aproximação que se pautará no respeito aos pensamentos e às ideias de ambas as  entidades, sem que percamos nossas identidades doutrinárias. Dessa forma, poderemos divulgar a doutrina espírita segundo nossas convicções, mas sem causar à sociedade a impressão de uma separação insuperável entre duas entidades que, na realidade, representam a mesma verdade, aquela revelada pelo Sr. Allan Kardec.

Opinião - De parte de seus companheiros da Administração da USE como foi interpretada sua iniciativa?
Starnini - Não foi uma decisão isolada do presidente da USE - Intermunicipal de Santos. Ela foi debatida e unanimemente aprovada, não só pela diretoria, mas também pelas Casas Espíritas que se fizeram representar na reunião em que deliberamos sobre a nossa presença.

 Opinião - Qual sua impressão a respeito do Congresso da CEPA realizado em Santos?
 Starnini - Toda iniciativa de divulgação da doutrina espírita, em qualquer de seus aspectos, é para nós muito bem vinda e homenageada, sobretudo porque se constitui em uma das principais finalidades da USE, que está consagrada em nossos estatutos sociais e nas palavras do Emérito Codificador.

 Opinião - Qual sua opinião sobre o caráter que a CEPA imprime ao espiritismo, por ela tratado como uma proposta laica e livre-pensadora?
 Starnini - A CEPA cumpre seu necessário papel junto àqueles que compartilham com o pensamento de uma proposta laica para a doutrina espírita. Nós respeitamos profundamente as diferenças porque sabemos que elas ensejam o debate. Através dos debates surgem as grandes ideias e soluções para situações controvertidas. O debate de ideias faculta aos intérpretes alinharem-se a esta ou àquela corrente de pensamento, segundo suas convicções. Esta é a verdadeira liberdade, uma das leis morais mais revelantes expostas por Kardec.De nossa parte, não podemos nos divorciar do aspecto religioso da doutrina espírita, que está assentado no Código Moral de Jesus, porquanto estamos mergulhados nesse convencimento íntimo, que vem complementar, sentimental e emocionalmente, o maravilhoso arcabouço científico e filosófico que a doutrina nos oferece.

 Opinião - Que mensagem v. endereçaria aos líderes espíritas brasileiros?
 Starnini - Que nos respeitemos mutuamente e nos somemos combatendo as angústias, as aflições e os conflitos íntimos que encontram morada nas consciências humanas, através de uma mensagem de despertamento para os reais valores da vida, sedimentados no espírito imortal.





Ecos do Congresso da CEPA
Com a participação de diversos integrantes do CCEPA, presentes no Congresso da CEPA, duas palestras públicas tiveram como tema a repercussão daquele evento espírita internacional. Na tarde de 19 de setembro (15h) e na noite de 1º de outubro (20h30), no auditório do Centro Cultural Espírita, o presidente da instituição, Milton Medran Moreira (foto) fez uma síntese do evento espírita de Santos. Antes, Salomão Jacob Benchaya, Diretor do Departamento Doutrinário, projetou algumas fotos tomadas no Congresso e detalhou aspectos de sua organização formal.
Para Medran, que participou de todos os eventos oficiais da CEPA, desde 1996, “este foi o melhor Congresso e marcou, com clareza e objetividade, o pensamento progressista da CEPA acerca do importante tema da reencarnação”. Acrescentou que “provavelmente, na história do espiritismo, nunca um congresso tratou tão amplamente do tema reencarnação como este”.

A contribuição de Santa Maria/RS
ao Congresso de Santos
Além da participação dos nomes referidos em nossa edição passada, pertencentes ao Centro Cultural Espírita de Porto Alegre e S.E. Casa da Prece (Pelotas), na programação de trabalhos do XXI Congresso Espírita Pan-Americano (Santos/SP, 6 a 9 de setembro), também a cidade gaúcha de Santa Maria contribuiu com o evento.
Integrantes da S.E. Estudo e Caridade, daquela cidade, Carmen Marchetti e Glória de Lourdes Chagas (foto) apresentaram, no Fórum de Temas Livres, trabalho com o título de- “A Odisséia de um Espírito que se tornou ovóide”.

Em novembro, palestra: Maneiras de Pensar
O expositor e dirigente espírita Aureci Figueiredo Martins (foto) é o convidado do CCEPA para a conferência pública da primeira segunda-feira de novembro (dia 5, às 20h30). Sob o título “Maneiras de Pensar”, Aureci abordará a evolução do pensamento ingênuo e acrítico para a racionalidade crítica. A entrada é franca e todos são bem-vindos.





Emiliana de Mesquita Spinola
Agradeço, em nome da família Spinola, do Centro de Estudos Espíritas José Herculano Pires e do CPDoc, a bela homenagem póstuma prestada à nossa querida Emiliana de Mesquita Spinola na edição de agosto do Boletim América Espírita, deixando registrada a bela marca de trabalho e simpatia que ela deixou para todos nós.
Mauro de Mesquita Spinola, diretor-conselheiro do Centro de Estudos Espíritas José Herculano Pires – São Paulo/SP.

Senso IBGE e artigo
Parabenizo-lhes pela edição de agosto desse jornal, seja pela análise do senso do IBGE que faz o seu editor, seja pelo belíssimo artigo de Lourenço Sanches, de alto teor reflexivo.
Tomo a liberdade de propor um artigo no sentido de contribuir com o Opinião se julgarem oportuno.
Vinícius Lima LousadaBento Gonçalves/RS.

N.R. Em “Enfoque” da próxima edição, publicaremos o artigo “Ciência Espírita e Colaboração Interexistencial”, de Vinicius Lousada.

Senso crítico e compreensão libertadora
Parabéns pelos excelentes artigos do Opinião. O Espiritismo carece de olhares tão pertinentes quanto o de vocês. O senso crítico e a busca por uma compreensão mais libertadora que se nota é fundamental para o desenvolvimento da Doutrina. Muito bom.
Adenáuer Novaes – Salvador/BA.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

OPINIÃO - ANO XIX - Nº 200 - SETEMBRO 2012


Começa o Congresso da CEPA

Reencarnação:
o grande tema de Santos

De 5 a 9 deste mês de setembro, a bela cidade brasileira de Santos/SP recebe espíritas e pesquisadores de vários países do mundo, em um Congresso que marca a história do Espiritismo. Tema central: Perspectivas Contemporâneas da Teoria Espírita da Reencarnação.



Um espaço privilegiado
Para o médico santista Ademar Arthur Chioro dos Reis, presidente da Comissão Organizadora do XXI Congresso Espírita Pan-Americano, a ser inaugurado neste 5 de setembro, o evento “é um espaço privilegiado para a continuidade do processo de atualização do espiritismo, necessidade expressa no pensamento de Kardec e nas deliberações do XVIII Congresso da CEPA, de 2.000, em Porto Alegre”.

O empresário argentino Dante López, neste Congresso, completa seu mandato na presidência da Confederação Espírita Pan-Americana. Para ele, o evento de Santos, é mais uma oportunidade de se trabalhar por uma “visão atualizada dos princípios básicos espíritas e levar essa mesma visão a todos aqueles que estão buscando um sentido transcendente de vida”.

Uma contribuição ao debate livre de ideias
Talvez nunca, na história do espiritismo, o tema reencarnação tenha merecido enfoques tão amplos e diversificados como neste XXI Congresso Espírita Pan-Americano. Com pensadores convidados, do Brasil (Araci Negreiros Araújo, Mauro de Mesquita Spínola, Reinaldo di Lucia e Milton Medran Moreira); da Argentina (Raúl Drubich, Alejandro Ruiz e Gustavo Molfino; da Venezuela (Jon Aizpúrua e Félix José Veja Ortega) e dos Estados Unidos (Yvonne Crespo Limoges), uma conferência pública e três mesas redondas se ocuparão exclusivamente do tema “reencarnação”, sob enfoques históricos, filosóficos, científicos, sociológicos e éticos.

Além disso, cerca de quarenta trabalhos comporão o Fórum de Temas Livres (confira a relação no boletim América Espírita), espaço sempre aberto, nos eventos da CEPA, à contribuição de pensadores de todo o mundo. A maioria deles versará também sobre reencarnação ou temas correlatos. Expositores de diversos países da América e da Europa inscreveram trabalhos para esse espaço livre e que serão submetidos à apreciação e ao debate do plenário.
A cidade de Santos se prepara
para receber até 500 participantes
Segundo informa o presidente da Comissão Organizadora, a estrutura do Congresso está preparada para receber até 500 participantes: “Serão implementadas inovações que permitirão maior participação dos congressistas”, diz Ademar, acrescentando: “Estamos trabalhando para que cada participante leve de Santos uma inesquecível lembrança de momentos enriquecedores, afetivamente significativos em sua vida”. “Nossa cidade é bela, charmosa e aconchegante, com infraestrutura moderna, capaz de sediar um evento desse porte com muita qualidade”, conclui o médico santista, vice-presidente da CEPA e que  coordena as atividades de uma grande equipe, integrada por colaboradores de oito instituições espíritas da região, todas filiadas à Confederação Espírita Pan-Americana. Detalhes podem ser vistos no site: www.congressocepa2012.com.br/ .

 

 Fazemos parte dessa história
No momento em que se realiza o histórico Congresso da CEPA no Brasil, este periódico atinge sua 200ª edição. No seu 19º ano de circulação mensal, o modesto porta-voz do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre buscou ser, igualmente, testemunha e intérprete de um novo jeito de se difundir e de se contribuir para o desenvolvimento do espiritismo.

Nascido à época em que a Confederação Espírita Pan-Americana acenava para a formação de um movimento minimamente institucionalizado, capaz de reunir pensadores espíritas brasileiros empenhadosem resgatar a inteireza do ideal livre-pensador de Allan Kardec, CCEPA Opinião participou ativamente da nova fase histórica da qual o Congresso de Santos é o capítulo mais atual.
Quem reler os primeiros editoriais e o registro das agressões e atos de explícita exclusão sofridos, então, no meio espírita por este órgão e pelos integrantes da instituição que o edita, poderá medir o quanto o processo de mudança é doloroso.  Mas, isso também está passando. Mesmo que persistam sinais de rejeição, manifestados pelo silêncio e aparente desconhecimento de nosso labor, já não se registram expressões tais como: “eles não são espíritas” ou “são os inimigos internos do espiritismo”. Há, também, sinais concretos de mudanças nos meios que nos combatiam.

É em nome desse progresso de ideias – ao fim e ao cabo, ele é sempre irresistível! -, que, ao ensejo do XXI Congresso Espírita Pan-Americano, no qual estamos inseridos, convidamos a todos os espíritas realmente sinceros para um trabalho conjunto e respeitoso em prol das ideias básicas que unem. Afinal, temos muito mais coisas em comum do que divergências que justifiquem os muros divisórios levantados. O Congresso de Santos mostrará isso. Sem renunciar a esse jeito novo de fazer espiritismo. (A Redação)
  







O Congresso, a Verdade
e o Tempo

A verdade é filha do tempo, não da autoridade. Francis Bacon

Nem tudo o que for dito e exposto no XXI Congresso Espírita Pan-Americano deve ser tomado como verdade. Um congresso espírita, como qualquer conclave humano, pode ser sempre um esforço no caminho da busca da verdade, e não a pretensiosa proclamação da mesma.

Certamente é com esse ânimo que se encontrarão em Santos espíritas de diversos países do mundo. Compartilharão desse mesmo sentimento expositores e ouvintes - que ali serão também debatedores - e a própria instituição promotora do evento. A credibilidade e o respeito que a Confederação Espírita Pan-Americana está granjeando no meio espírita livre-pensador se assenta, aliás, justamente, em sua postura doutrinária. A entidade, em todos os seus eventos, tem proclamado sua inteira adesão a todos os postulados básicos do espiritismo – existência de Deus, imortalidade do espírito e sua comunicabilidade, pluralidade de existências e de mundos habitados – e a aceitação das renovadoras consequências éticas daí derivadas. Reconhece, no entanto, que todos esses princípios podem ser interpretados de diferentes formas e, sempre, estarão a reclamar ajustes e retificações, a partir dos novos conhecimentos da ciência e do avanço da própria capacidade humana de reelaborá-los e interpretá-los.

Assim é especialmente no que diz respeito ao postulado da reencarnação, tema central do Congresso da CEPA, a se realizar este mês, no Brasil. Mecanismo intimamente ligado à grande lei da evolução, por si só infinita, a reencarnação oferece um amplo horizonte de pesquisas e estudos. A programação do evento contempla todos os grandes setores do pensar e do agir humano. Convida à inserção da lei palingenética tanto no campo individual como coletivo. Contempla-a como mecanismo de aprimoramento moral do ser humano, mas também como possível inspiradora de um novo paradigma científico capaz de desbravar caminhos para o conhecimento.

Tema de tanta complexidade e de tão vastas aplicações não pode ser reduzido a um artigo de fé. Tampouco cabe ser tratado como um mandamento divino de domínio de uma instituição humana que, auto investida da condição de detentora da verdade, se arrogue a autoridade de normatizar interpretações rígidas e condutas pessoais uniformes. Não é a partir dessa postura que se caminha em busca da verdade. Esta para ser aprimorada no intelecto e no coração do homem exige deste uma certa dose de modéstia e alguma audácia inovadora.

Pensamos que a programação do Congresso da CEPA, em Santos, reflete e sintetiza esses dois requisitos, modéstia e audácia. Para quem acha que o processo de atualização do espiritismo exige que, de uma hora para outra, se elenquem verdades novas a substituírem as vigentes, convém lembrar que só o tempo é o senhor da razão. De nós o tempo exige precisamente isso: a ação responsável da busca e a prudência de não tomarmos como definitivos aqueles mesmos conceitos que, hoje, nos pareçam adequados ao tempo por nós vivido.  É também importante aceitarmos que, embora irmanados pela condição de espíritas, cada indivíduo e cada agrupamento da grande família espírita mundial vive seu respectivo tempo. Respeite-se, pois, o pluralismo natural que a própria lei da reencarnação explica. Com isso, mesmo na divergência, avançaremos no campo da fraternidade. E esse avanço, por si só, já será um valioso ganho no processo da atualização.


Espiritismo e Bíblia
Impressiona-me a preocupação de alguns autores e articulistas espíritas em buscar, invariavelmente, os fundamentos de todas as questões e interpretações espíritas na Bíblia judaico-cristã. Passam a ideia de que, se não for explicado biblicamente, o espiritismo carece de fundamentos e de credibilidade.
Reconheço que essa pode ter sido, em alguma medida, a preocupação de Allan Kardec na árdua tarefa de fazer, no Ocidente, a transição das ideias relativas ao espírito do universo da crença para o da razão. Em medida ainda maior, foi a preocupação de pioneiros do espiritismo brasileiro, como Luis Olimpio Teles de Menezes, Bezerra de Menezes e outros católicos fervorosos que, de repente, se viram tocados pelas ideias espíritas, a elas aderindo, sem, no entanto, abdicarem da fé cristã, coisa tida como de apostasia e de execrável ateísmo, naqueles tempos.  

Terreno neutro
Está mais que na hora de romper com o atavismo fideísta e nos libertarmos dessa tutela cerceadora. Em tempos onde viceja um espiritualismo pluralista, livre-pensador, cada vez mais desvinculado dos dogmas e das implicações religiosas, o espiritismo encontra amplos horizontes para se firmar como o “terreno neutro”, proposto por Kardec, onde as crenças cedem lugar à razão e onde algumas vertentes de uma ciência emergente se encaminham para o abono das propostas espíritas. É hora de aprofundar a ideia de que espiritualidade e religião são coisas diferentes. Enquanto aquela, no mundo contemporâneo, se firma como valor filosófico compartilhado por todos quantos reconhecem a primazia da consciência/espírito sobre a matéria, a religião se apresenta como intérprete de um mundo sobrenatural, capaz de derrogar, com prodígios e milagres, a lei divina ou natural. Dessa prerrogativa que lhes garante poder e fortuna, aqui, e a custódia da chave das portas do céu e do inferno, no além, as religiões não abdicam. Isso as afasta da genuína e natural espiritualidade.

Reencarnação e cristianismo
A generosa ideia da reencarnação é incompatível com o cristianismo. Essa é a tese que levo ao XXI Congresso Espírita Pan-Americano, em Santos.
 Ao estruturá-lo, dando-lhe a feição sedimentada nestes seus 2.000 anos de história, Paulo de Tarso blindou o cristianismo contra qualquer especulação reencarnacionista: “o homem está destinado a morrer uma só vez e depois disso enfrentar o juízo”. (Epístola aos Hebreus). A ideia central e inderrogável do cristianismo é a da salvação pela graça. Todo o arcabouço cristão sustenta-se no mito da queda do homem pelo pecado original e consequente necessidade de um redentor que lhe devolva, por misericórdia, e em troca da crença e da adoração, o estado de graça e a beatitude eterna. Qualquer visão de Deus, de homem e de mundo que se oponha a isso deixa de ser cristã. A reencarnação opõe-se frontalmente aos principais fundamentos bíblicos.

O cristianismo primitivo
Dizer que o espiritismo é a revivescência do cristianismo primitivo também não procede. É a negação de seu caráter moderno e progressista. A História do pensamento anda para frente e não para trás. Os primeiros cristãos, por mais generosos e solidários que fossem, tinham uma visão pobre e equivocada acerca do destino do homem e do mundo. Acreditavam no fim dos tempos, a acontecer, logo ali adiante, na geração seguinte. Só eles seriam salvos. Todos os que não fossem batizados e cressem em Jesus Cristo estariam irremediavelmente condenados. Isso também é bíblico. E cristão. Bem diferente da mensagem humanista de um certo Jesus de Nazaré que não fundou qualquer religião e nunca foi cristão.





Consolador, sim — Prometido, talvez
Néventon Vargas, membro da ASSEPE (Associação de Estudos e Pesquisas Espíritas de João Pessoa) e delegado da CEPA (Confederação Espírita Pan-Americana) em João Pessoa – PB.

Uma questão que me intriga e que se repete em minha mente constantemente é a decisão de Allan Kardec, nosso insigne mestre de Lion, ter identificado no Espiritismo a promessa feita por Jesus há dois mil anos.
Consultando o Houaiss verifiquei que o sentido da palavra “consolador”, abstendo-se, evidentemente, das conotações figuradas e religiosas, cabe perfeitamente para o Espiritismo.
Não pretendo, entretanto, fazer aqui uma defesa da adjetivação, pois isso já está feito com brilhantismo n’O Evangelho Segundo o Espiritismo e nas outras obras escritas por Kardec. Aliás, tal caráter é devidamente explorado e bem definido em toda quarta parte d’O Livro dos Espíritos, intitulada “Das Esperanças e Consolações”.
Mas, “consolador” é apenas um adjetivo que pode ser precedido de muitos substantivos. O problema começa a aparecer quando a palavra é usada como substantivo, seja para designar o Espiritismo, seja para identificar qualquer outra filosofia, ideia, pessoa, religião, etc. Qualquer uso nesse sentido o tornará absoluto, o que é incompatível com um mínimo de modéstia e humildade. Eu acrescento ainda com bastante segurança que tal designação é extremamente pretensiosa.
Uma postura dessa natureza não se encaixa na Filosofia Espírita, que é, acima de tudo, libertadora e nunca deveria nos aprisionar a dogmas e a expressões cristalizadas que comprometem o seu caráter eminentemente progressista.
Até agora, só me referi à palavra “consolador”. Agrava-se o problema quando se adjetiva o substantivo com a palavra “prometido”. Esta forma está expressa n’O Evangelho Segundo o Espiritismo, no seu capítulo 6 e a sua defesa foi feita nos itens 3 e 4 pelo próprio Kardec. Tal identificação coloca o Espiritismo como o herdeiro direto de Jesus, à revelia das religiões cristãs, criando um antagonismo totalmente desnecessário.
Respeito profundamente Allan Kardec, mas me recuso a designar o Espiritismo como “O Consolador Prometido”. Não estou afirmando que ele está errado. Estou dizendo que posso até aceitar que a Doutrina Filosófica e Moral, chamada Espiritismo, seja realmente aquilo que Jesus pensava quando, segundo a citação no Evangelho (João 14:15 a 17 e 26), disse que o Pai enviaria outro Consolador. O que não aceito é repetir e propagar isso, a exemplo das religiões salvacionistas que pregam serem a única verdade e o único caminho para a salvação.
Não precisamos despender muito tempo em pesquisas para encontrarmos inúmeros exemplos na história e até na atualidade de posturas extremamente perniciosas para a evolução da humanidade, em que nações, grupos ou indivíduos se acham detentores do poder e da verdade, únicos “escolhidos de Deus” para elevar o homem à santidade. A consequência disso tem sido o estímulo ao segregacionismo e ao preconceito que levam, invariavelmente, às guerras coletivas e individuais.
Não há dúvida que o fundador do Espiritismo é importante referência, já que propõe as bases da filosofia espírita. Seu maior mérito, entretanto, é reconhecer o seu caráter progressivo e que as aparentes contradições se desfazem pela análise do conjunto. Cabe aos espíritas dar continuidade à evolução sem buscar freneticamente encontrar a verdade nas palavras de Kardec a fim de sancionar as próprias ideias. Não há base para nos definirmos como espíritas apenas aceitando irrestritamente os escritos de Kardec. Ser espírita não é um conceito acabado, embora haja, evidentemente, um consenso mínimo entre os espíritas. Mas todos são diferentes entre si e se modificam com o tempo, não havendo autoridade que detenha o poder de definir quem é ou não espírita. Por isso nos consideramos em perfeita harmonia com o perfil do grande Rivail ao discordarmos de posturas extremamente religiosas e, pior, fundamentalistas, que interpretam de forma absoluta a expressão “consolador prometido”, transformando-a em um “dogma da fé espírita”.
É hora de o homem abrir a sua mente para as diversidades e aprender com elas. É hora de o Espiritismo rever conceitos e posturas que estejam criando obstáculos às relações humanas. Afinal, se ele não é uma seita, se os seus princípios são universais, se a sua busca constante é pela verdade, ele não é exclusividade dos espíritas. Ele é do homem para o homem, dos espíritos para os espíritos, independente de qualquer rótulo, tempo e/ou espaço.







A Contribuição do CCEPA
e dos gaúchos ao Congresso de Santos

Uma delegação de cerca de 20 companheiros do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre comparecerá ao XXI Congresso Espírita Pan-Americano de Santos, de 5 a 9 de setembro deste ano.

O presidente do CCEPA, Milton Medran Moreira será um dos expositores da mesa redonda “A Contribuição da Cosmovisão Reencarnacionista no Desenvolvimento Ético do Indivíduo e das Coletividades”. Caberá a Medran o subtema “As Consequências da Reencarnação no Plano Coletivo”.



O Diretor do Departamento Doutrinário do CCEPA, Salomão Jacob Benchaya, será coordenador da mesa redonda que desenvolve o tema “As diferentes teorias reencarnacionistas: convergências e singularidades face à teoria espírita”.


O colaborador do CCEPA, Moacir Costa de Araújo Lima apresentará trabalho no Fórum de Temas Livres, sob o título de “A Ciência Contemporânea e o Espiritismo”.
Espíritas das cidades gaúchas de Pelotas, Santa Maria e Ilópolis, como, igualmente de Florianópolis, SC, juntam-se à caravana do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre.



O dirigente da S.E.Casa da Prece, de Pelotas, Homero Ward da Rosa, também contribuirá com o Fórum de Temas Livres, abordando “Reflexões Inquietantes sobre a Reencarnação”.



Palestras de setembro e outubro no CCEPA

A palestra da primeira segunda-feira de setembro (dia 3, às 20h30) está a cargo do expositor Rogério H. Feijó Pereira, com o tema “Interligações Psíquicas na Construção do Eu”.
Na terceira quarta-feira de setembro (dia 19, 15h) e na primeira segunda-feira de outubro (dia 2, 20h30min), no espaço das palestras públicas, os participantes do Congresso de Santos repercutirão os temas ali tratados.


              



XXI Congresso da CEPA
Quero cumprimentar, através deste órgão de divulgação, todos os espíritas que estão trabalhando para a realização do XXI Congresso Espírita Pan-Americano, cuja programação tem sido publicada nesse jornal.
A ideia de se fazer um congresso versando todo ele sobre reencarnação é muito oportuna. Não frequento nenhum centro espírita e também não tenho nenhuma religião, mas acredito na reencarnação e penso que ela explica muitas aparentes injustiças e que o ditado popular de que Deus escreve direito por linhas tortas é muito verdadeiro. Penso que a diferença cultural e até socioeconômica existente entre os espíritas e os crentes de outras denominações, conforme foi destacado na matéria de capa desse jornal em sua edição passada, deriva justamente de sua capacidade de entenderem essa lei natural da reencarnação. A reencarnação realmente faz a diferença na vida das pessoas.
Fabiano Henriques de Tude – Chapecó/SC.