quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

OPINIÃO - ANO XIX - Nº 204 -JAN/FEVEREIRO 2013

Abolição da Pena de Morte:

Um Século e Meio de Luta

A histórica posição espírita
Em meados do Século 19, a pena de morte era adotada praticamente por todos os países da Terra. Na Europa, modelo de civilização ocidental, apesar da influência do Iluminismo do século anterior, todos os países, inclusive a França, berço do espiritismo, ainda a adotavam. Allan Kardec tinha posição radicalmente contrária à pena capital. Por isso, em seu diálogo com as entidades espirituais, em O Livro dos Espíritos, com a redação final, dada à sua segunda edição (1860), questionou-as sobre quando a pena de morte desapareceria das legislações humanas. Os espíritos responderam que ela iria desaparecer “incontestavelmente” e sua supressão assinalaria “um progresso da Humanidade”. Acrescentaram, entretanto, que sua abolição só aconteceria “quando os homens forem mais esclarecidos”, em “época muito distante de vós”.
O primeiro país europeu a suprimir a pena de morte foi Portugal (1876), quase duas décadas depois daquela previsão. Na ocasião, Victor Hugo, famoso romancista francês, e também adepto da doutrina espírita, em manifestação pública, saudou a iniciativa, dizendo: “Está a pena de morte abolida nesse nobre Portugal, pequeno povo que tem uma grande história”. O escritor felicitou os portugueses dizendo que davam exemplo à Europa que, certamente, o imitaria, pois “a liberdade é uma cidade imensa da qual todos somos concidadãos”.
 
A situação hoje
Nas últimas décadas, se registrou significativo avanço na supressão da pena de morte no mundo. A formação da União Europeia redundou na normatização de sua não aplicação entre os países membros. Hoje, nenhum deles a aplica, por força da Convenção Europeia dos Direitos Humanos que recomenda sua proibição no âmbito dos países da UE.
Os Estados Unidos da América do Norte, mesmo enfrentando a oposição de mais de 50% de sua população que, em sucessivos plebiscitos, ainda se manifesta pela manutenção da pena capital, tem registrado avanços na supressão da pena ou na não execução de réus já condenados. Dados de 2012 indicam que apenas nove estados realizaram execuções de condenados no ano findo. Foi o menor número em duas décadas. É verdade que a maioria dos estados norte-americanos ainda mantém a pena de morte em suas legislações (33 dos 50). Connecticut a aboliu em 2012, tendo sido o quinto estado a fazê-lo nos últimos cinco anos, depois de Illinois, Nova Jersey, Novo México e Nova York. Outros quatro estados, Carolina do Norte, Carolina do Sul, Indiana e Virgínia, não decretaram nenhuma pena de morte durante o ano passado, embora a mantenham em suas legislações.  Um plebiscito levado a efeito na Califórnia, em novembro de 2012, por margem muito apertada manteve a pena capital, mas os 47% de eleitores que votaram por sua supressão, fazem campanhas contínuas pela não aplicação da pena, com significativos êxitos práticos.
Desde o questionamento de Kardec, em O Livro dos Espíritos, mais de 120 nações em diferentes regiões e culturas aboliram a pena de morte. Mas ela é ainda largamente aplicada em países como China, Coreia do Norte, Japão, Arábia Saudita, Singapura, Irã e outros. Na maioria dos casos, os crimes apenados com a pena capital estão ligados à intolerância religiosa, sexual ou ideológica.

 

 
 
 
Pena de morte. Até quando?
Humanismo e pena de morte são incompatíveis. Quando se confere valoração intrínseca ao ser humano, é inconcebível que o Estado lhe suprima a vida. Seu dever primordial há de ser, em qualquer circunstância, preservar-lhe o direito fundamental de viver. Nas hipóteses da violação de regras de convivência social por parte do indivíduo, é dever do Estado puni-lo. Entretanto, em situação alguma, a pena poderá afetar a vida e a dignidade humanas, e sempre terá como escopo principal sua reeducação, seu tratamento (se esse for o caso), sua readequação à vida digna e sua reinserção na sociedade, sob a indeclinável proteção estatal.

Espiritualismo e pena de morte também são incompatíveis. Quando se reconhece no ser humano a lídima e essencial identidade espiritual a caracterizar sua natureza, a vida material ganha dimensões de verdadeira sacralidade, a ninguém se reservando o direito de suprimi-la. Mesmo assim, um considerável número de execuções capitais, em algumas regiões do mundo, está ligado à desobediência de normas de nítido caráter religioso, provindas não da lei natural, mas de pretensas revelações divinas.

À luz da filosofia espírita, a lei divina, que é a mesma lei natural, jamais autoriza a penalização com a morte. Por mais distorcida que seja a personalidade humana e por mais bárbaro o delito perpetrado, a sociedade em que aquele espírito veio a reencarnar detém o múnus de contribuir com o projeto evolutivo desse indivíduo. No lapso em que aquela alma compuser a sociedade humana, esta se investe do dever de zelar por sua educação, sua dignidade e sua sobrevivência. A humanidade é uma grande família e como tal deve se comportar.

Espiritismo e humanismo se irmanam, dessa forma, histórica e filosoficamente, na luta pela total supressão da pena de morte. Talvez, agora, ela já não esteja tão distante de nós. (A Redação)
 

 

 
 
 
Globalização, Fraternidade
e Dignidade

 “Os homens hão de trocar dogmas e rancores por abraços, roçando o nariz sobre a linha imaginária das fronteiras.” – Luiz Coronel.
   
No último mês de dezembro completaram-se dois anos do início de um importante movimento mundial, batizado como Primavera Árabe. Recorde-se: ao final de 2010, um jovem tunisiano ateou fogo ao próprio corpo em protesto às condições de vida de seu país. Desfechava-se ali uma onda de protestos que, com o apoio das redes sociais da Internet, se espalharia pela região, a partir da Tunísia, onde o presidente Zine el-Abdine Bem Ali teve de fugir para a Arábia Saudita.

Os protestos ganhariam, logo, outros países da Ásia e do norte da África, como a Argélia, a Jordânia, o Iêmen e o Egito. Neste último, onde o movimento popular conseguiu derrubar um presidente que, havia mais de 30 anos, governava com mão de ferro o país, a situação se agravou nos últimos meses. O novo governante, Mohamed Mursi, apoiado por setores fundamentalistas islâmicos, adotou política tida por muitos de seus concidadãos como autoritária e de inspiração teocrática. Estariam se abrindo, assim, caminhos para graves retrocessos em sentido oposto aos objetivos democráticos, libertários e laicos motivadores da nova ordem.

Deste e de outros episódios de resistência a movimentos de origem e caráter eminentemente populares, na região, pode-se deduzir o quão dura é a luta pela democracia e pela liberdade. Velhos regimes oligárquicos e religiosos agarram-se ferrenhamente ao poder. Resistem o quanto podem, e com métodos às vezes violentos, aos naturais anseios de cidadania liberta da prepotência e do autoritarismo.

O progresso dos povos, comprova-se uma vez mais, não se dá da forma linear e contínua, como sonhado pelos movimentos populares em cujo seio se dão essas iniciativas de ruptura em prol de novo regime fundado na democracia e na liberdade. Há algumas décadas, na onda do que se convencionou chamar de globalização, inaugurou-se, é certo, um clima favorável à aproximação das nações e dos povos, a partir de regras comuns tendo por base a fraternidade e a dignidade humana. Importantes resultados no campo do respeito aos direitos humanos, à convivência fraterna e pacífica entre os diferentes, já foram obtidos em todos os quadrantes da Terra. Apesar de ser uma das tendências de nosso tempo, esse, no entanto, é um movimento que encontra sérias barreiras em algumas culturas de tradição autoritária.

Pensar em termos de globalização não significa alimentar a utopia da formação da nação única a reunir toda a humanidade. Como assinala a questão 789 de O Livro dos Espíritos, a “diversidade de costumes e necessidades”, ou seja, as tantas, tão ricas e diferenciadas culturas dos povos, marcam suas nacionalidades com características próprias que devem ser preservadas. Entretanto, a cooperação entre povos e nações, a solidariedade mundial, fundada nos universais princípios de liberdade e dignidade humana, devem ser metas continuamente buscadas para que todos possam viver “felizes e em paz”, na expressão usada pelos interlocutores espirituais de Allan Kardec, na referida questão da obra fundamental da filosofia espírita.

 
 
 
 
 
 
A idosa maltratada
Em tempos de câmeras que tudo captam, o Brasil inteiro se revoltou com uma cena registrada na TV. Uma senhora de quase cem anos foi flagrada sob cruéis maus-tratos de uma cuidadora (?) e de uma doméstica. Entrevistado, o marido de uma das torturadoras defendeu-a dizendo que a idosa tinha um gênio muito difícil: “Se fosse uma criança” – acrescentou – “levaria umas palmadinhas e pronto, mas, como se trata de uma pessoa velha...”.
Fiquei a pensar: agora que as pessoas estão vivendo muito mais, quantos idosos, pelo Brasil e pelo mundo, devem estar sofrendo nas mãos de maus filhos, ou pela ação de cuidadores inescrupulosos ou despreparados, em casa ou em asilos? Às vezes, não é nada fácil lidar com eles. Pessoas de gênio difícil, irascíveis ou mal-humoradas, quando envelhecem tendem a agravar esses desvios de personalidade ou de conduta. Quem não tiver muito jeito e paciência, dificilmente saberá administrar a teimosia ou o mau-humor delas e se julgará autorizado a castigá-las, como o faria com uma criança.
Estoicos e cínicos
A frágil velhinha foi vista, em rede nacional, recebendo sopapos das duas mulheres e, depois, derrubada, grosseira e displicentemente, quando pediu para que a colocassem na cadeira de rodas.
Suponho não ser esse o caso daquela idosa, mas, tem gente, sim, que colhe na velhice, como colherá na espiritualidade, os resultados de seu agir odioso, soberbo e egoístico durante a vida. Os familiares se afastam. A falta de amigos isola-as. Ficam literalmente sós, carentes do afeto que não deram aos outros.
Seja como for, são sempre revoltantes os maus-tratos infligidos a idosos, não é mesmo? Pois, saiba que antigas correntes filosóficas muito focadas nesses nexos de causa e efeito da vida, simplesmente pregavam que a gente não deve se preocupar com o sofrimento alheio. Era o caso, na velha Grécia, dos estóicos e dos cínicos. A vida, sustentavam eles, sempre nos dá o que nós próprios a ela tenhamos oferecido. Assim, que trate cada um de viver de acordo com os ditames naturais da vida. Que sejamos, em uma palavra, virtuosos, agindo em consonância com o “logos” universal. E, em consequência, seremos recompensados pelos mecanismos da vida. Ao natural.
A lei natural
A filosofia grega, especialmente o estoicismo, legou à modernidade as bases do direito natural, tão caro e tão fundamental ao espiritismo, assim como ao naturalismo que nos ajudou a emergir da teocracia medieval. Mas, o espiritismo, tanto quanto o humanismo contemporâneo, seria um simulacro de doutrina, incompatível com as tendências modernas da solidariedade humana, se preservasse esse modo de pensar de estóicos e cínicos da velha Grécia.  Quando levamos em consideração apenas a lei de causa e efeito, nos tornamos indiferentes ao sofrimento humano. Perdemos a noção da gratidão, da solidariedade, da fraternidade, da tolerância e da alteridade, fatores igualmente presentes na lei natural, bálsamos que a vida nos disponibiliza, habilitando-nos, assim, à sublime tarefa de minorar a dor alheia.
 Espiritismo e cristianismo
O espiritismo, não sendo uma religião cristã, mas uma filosofia universalista e humanista, herdou do cristianismo esse profundo e radical amor ao semelhante. Tão radical que recomenda pagar o mal com o bem. Bem entendida a luminosa filosofia de Jesus de Nazaré, esse valor deveria ser a essência do cristianismo, seu próprio fator de identificação. Paradoxalmente, os cristãos preferiram definir sua identidade não a partir dessa condição, mas pela crença comum em dogmas que contrariam e derrogam alguns dos mais elementares princípios da lei natural.

 

 
 
 
Coletividade e Universalidade do Ensino Espírita – uma reflexão necessária.

 Geylson Kaio  Psicólogo clínico,-presidente da ASSEPE – Associação de Pesquisas e Estudos Espíritas de João Pessoa.
     
A coletividade do ensino dos Espíritos é um conceito importantíssimo para o Espiritismo, embora pouco ou quase nada utilizado pelos espíritas. O controle universal do ensino dos espíritos foi considerado por Allan Kardec, como o fundamento de autoridade da Doutrina. Na introdução do Evangelho Segundo o Espiritismo, ele afirma: “Se a doutrina espírita fosse uma concepção puramente humana, ela teria por garantia senão as luzes daquele que a tivesse concebido; ora, ninguém neste mundo teria a pretensão fundada de possuir só para si a verdade absoluta”.  
Estando a segurança do conhecimento espírita fundamentado na representatividade coletiva dos Espíritos, onde se revelaram novas verdades e princípios universais tocantes às mais diversas questões, o Espiritismo estabelece que o critério de verdade destes ensinamentos está na concordância das revelações espontâneas, por diversos médiuns, em diversos lugares do planeta.

Repensando este critério com um olhar metodológico de caráter acadêmico, encontraremos muitos inconvenientes no que se refere à garantia de verdade assegurada ao ensino espírita. Em matéria de ciência, toda pesquisa séria precisa passar pelas provas de fidedignidade e de previsibilidade antes de se lhe atribuir critério de verdade. O critério de verdade das ciências acadêmicas é um conceito amplo e relativo, não absoluto, pois a qualquer momento, época ou nova pesquisa, podem-se rever os conceitos e restabelecer nova ordem a estudos anteriormente fundados. É o ciclo natural das ciências para assegurar o crescimento e a continuidade das pesquisas, pois nada está no fim e o novo sempre vem.

Mesmo com todo o rigor cientifico da atualidade e a tecnologia desenvolvida, sabemos que não é tão simples derrubar ou desconstruir uma teoria e fundar outra em seu lugar, sem que anos e até séculos, possam realizar tais mudanças. Nas ciências humanas, o problema é ainda maior, porque suas pesquisas têm como objeto de estudo o próprio homem, e neste caso, a previsibilidade fica bastante comprometida, pois o ser humano é imprevisível.

Dificilmente, numa pesquisa com base nas ciências humanas, o cientista irá testar suas hipóteses na totalidade de seu objeto de estudo. Geralmente, retira-se uma amostra que representa parte do universo totalizante e realiza-se a pesquisa,  cujo objetivo final é a confirmação das hipóteses estabelecidas anteriormente ou sua negação enquanto verdade.

Quanto mais quantitativa for uma pesquisa, mais condições de previsibilidade ela tem e mais segurança se estabelece em relação a tais estudos. Quanto mais qualitativa for uma pesquisa, menos previsibilidade poderá ocorrer, pois o que se procura medir na pesquisa qualitativa são os atributos de valor, certo e errado, bom e mal, justo e injusto, verdadeiro e falso, etc., atribuindo características aos objetos pesquisados.

Portanto, o controle e a medição das pesquisas científicas na área acadêmica são distintos, variando de acordo com o objeto de estudo e a metodologia aplicada.

Desta forma, poderíamos questionar o método de controle universal do ensino dos espíritos, sob o fundamento de que os espíritos compõem a humanidade fora do corpo físico e habitam a dimensão espiritual do ser. Eles não possuem todo o saber e nem todos estão em condições de oferecer uma analise apurada da realidade extracorpórea. Que eles se agrupam uns aos outros por afinidades diversas. Que pelas diferenças existentes uns dos outros, eles poderão prestar uma informação diversa de um outro, relativizando o ensino espiritual. Mas o fato deles existirem e poderem se comunicar conosco, abre uma gama de possibilidades novas em matéria de conhecimentos gerais e específicos, referentes ao mundo dos espíritos. Mesmo tendo sido confirmados diversos princípios da Doutrina Espírita por este método, vale salientar, que em nenhum momento Kardec abdicou da lógica e do bom senso para avaliar as informações que chegavam do novo mundo. E neste caso, o critério da lógica, do bom senso e da experimentação, sobrepuja o critério da concordância universal do ensino dos espíritos. 

Assim, podemos verificar a dificuldade que foi para Allan Kardec e seus Espíritos colaboradores, tornar válidos estes novos conhecimentos espirituais. Kardec atribuiu à universalidade do ensino dos Espíritos a força do Espiritismo, bem como, a causa de sua rápida propagação. No entendimento dele, essa doutrina não tem nacionalidade, não tem culto particular e nem foi imposta por nenhuma classe social, demonstrando o seu grande trabalho de fraternidade universal, onde os Espíritos receberiam os destaques pela divulgação e transmissão dos mesmos princípios. Talvez por esse motivo Kardec tanto se preocupou com os rumos que a Doutrina Espírita tomaria no futuro.

Allan Kardec estabeleceu duas formas básicas de controle dos ensinamentos espirituais: a razão, com uma lógica rigorosa baseada nos dados positivos, somados ao bom senso; e a concordância no ensino dos Espíritos. Acreditava que essa unanimidade faria desaparecer as teorias errôneas, contraditórias e os sistemas excêntricos fora da verdade. “Não é porque um princípio nos é ensinado que ele é para nós a verdade, mas porque recebeu a sanção da concordância”. Percebemos que não é unicamente pelas revelações espontâneas dos espíritos que se atribuirá o critério de verdade, mas também pelo uso da razão e do método científico.

O que chamou mais minha atenção com relação a este assunto, após leitura pausada sobre o tema, é que o sábio Allan Kardec coloca a garantia da autoridade e da força do Espiritismo na concordância espontânea das revelações, ou seja, os Espíritos, espontaneamente, comunicam-se com os homens, revelam os princípios da Doutrina e são unânimes nesses princípios. Formam uma opinião universal, um conjunto harmônico, “... um acordo de todas as vozes do céu...”. Talvez por um apego a esta recomendação, grande parte dos espíritas mostram-se contrários a um processo de atualização do Espiritismo. Mesmo sem entender o que vem a ser esta atualização,  posicionam-se contrários a tudo o que possa denotar mudanças, sem que venha espontaneamente dos espíritos superiores.

Várias questões se levantam no tocante à validade desse controle universal do ensino dos Espíritos e vários são os caminhos que a ciência acadêmica utiliza para validar suas pesquisas. Mas o importante aqui é reconhecermos que Allan Kardec sabia do grau de dificuldade existente no estudo dos fenômenos espíritas, na validação deste conhecimento e tentou proteger a Doutrina Espírita dos possíveis desvios teóricos que se levantariam para invalidar sua mancha e seu desenvolvimento. Com isso, passando o controle dos princípios ao concurso das manifestações espirituais em concordância umas com as outras, poderia preservar o Espiritismo dos inconvenientes e contradições no futuro, não o deixando a mercê de orientações e alterações de uma única opinião pessoal.

Ao mesmo tempo em que tal metodologia condiciona o Espiritismo a um acordo universal dos Espíritos e a uma lógica rigorosa de análise por parte dos pesquisadores, verificamos que o desenvolvimento contínuo de tal conhecimento, sua atualização permanente a aplicação deste método de controle está suspenso pela grande parte dos Espíritas, por falta de vontade e do espírito de ciência que animou os pesquisadores do século XIX. Entendendo que a atualização contínua do Espiritismo deva ser realizada pelos espíritos superiores e não pelos estudiosos do espiritismo, parte dos espíritas contraria as próprias recomendações de Kardec, ao afirmar que o Espiritismo é uma Doutrina progressista e deve acompanhar o desenvolvimento científico da humanidade.

Finalizo estas reflexões, considerando a postura do mais importante pensador do Espiritismo Allan Kardec, frente às obras espíritas que publicou. Ele sempre demonstrou uma sabedoria, um bom senso, uma racionalidade e uma humildade invejáveis em relação à maioria dos homens cultos e letrados da sua época, bem como da atualidade. “Nosso papel pessoal, no grande movimento das ideias que se prepara pela ação do Espiritismo, e que começa a se operar, é o do observador atento que estuda os fatos para pesquisar sua causa e deduzir-lhe as consequências”.

Essa postura desinteressada no tocante ao Espiritismo revela o grande homem que foi Allan Kardec, nos levando a segui-lo, enquanto pensador iluminado e a não transformarmos o Espiritismo num caldeirão de verdades e mentiras. Sua posição e seu papel neste grande movimento de ideias garantiu a preservação do Espiritismo enquanto ciência filosófica que investiga as relações existentes entre os Espíritos e os homens.

 

 
 
 
 
2013 é Ano de Simpósio em Santos
Histórica criação do pensador espírita Jaci Regis, o Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita acontece de dois em dois anos, na cidade de Santos, promovido pelo ICKS – Instituto Cultural Kardecista de Santos.

De 25 a 27 de outubro deste ano, terá lugar o XIII SBPE, na antiga sede do ICKS, e as inscrições já estão abertas. Inscrições antecipadas terão redução de valor, segundo informa, com detalhes o blog da instituição: http://icksantos.blogspot.com.br/. Confira.

Um tema para março: Jesus no Espiritismo
As duas conferências públicas do mês de março no Centro Cultural Espírita de Porto Alegre estarão a cargo do presidente da instituição, o advogado e jornalista Milton Medran Moreira (foto). Tema: “Jesus no Espiritismo”.
Marcando o reinício da programação de palestras públicas do CCEPA na 1ª segunda-feira (à noite) e na terceira quarta-feira (à tarde), Medran enfocará aquela temática, em conferências abertas a todos os interessados e com entrada franca, nas seguintes datas: - Dia 4.3.2013 (segunda-feira), às 20h30 e dia 20.3.2013 (quarta-feira), às 15h00. Local: Auditório do CCEPA, na Rua Botafogo, 678, Bairro Menino Deus, Porto Alegre.


De Porto Alegre a João Pessoa
Cerca de 10 integrantes do CCEPA já providenciaram inscrição para o III Encontro da CEPABrasil, em João Pessoa, de 30 de maio a 2 de junho. Também se espera uma delegação da cidade de Pelotas.
Interessados em se agregar à delegação dos gaúchos à Paraíba podem fazer contato com ccepars@gmail.com .


 
 
 
 
A corrupção punida
Tomara que o registro feito por este jornal, na edição de dezembro, da punição de altas personalidades da política e dos meios empresariais do governo, por atos de corrupção, lavagem de dinheiro, etc., possa ser lido, daqui a algumas décadas, como uma história que passou e deixou bons resultados. Mas, só haverá moralidade pública quando cada brasileiro tiver consciência de que o mal produzido por ele, além de atingir a sociedade, traz resultados danosos para ele próprio, como espírito imortal, construtor de sua felicidade e daqueles que o rodeiam.
            Amaro Melquisedeque Cunha – Gravataí/Rs.

CEPABrasil no CNS
É muito importante para todos os espíritas brasileiros essa conquista da CEPA, que vem sendo preservada, da presença no Conselho Nacional de Saúde.
Trata-se de contribuição pública prestada por um organismo espírita em favor de todos os brasileiros, numa área onde há tantas carências e tanto desrespeito aos direitos fundamentais dos cidadãos mais necessitados.
            Anelise Fritchen ParodeCampinas/SP. 

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

OPINIÃO - ANO XIX - Nº 203 -DEZEMBRO 2012

Será o fim de uma era?

A corrupção punida

O final de 2012 chega trazendo aos brasileiros sinais concretos de êxito na punição judicial de atos de corrupção política. Estará o julgamento do “mensalão” marcando o fim de uma era e o início de novos tempos para a política no Brasil?


 O maior julgamento da História

Ao encerrarmos esta edição ainda não tinha findado o julgamento da Ação Penal 470, popularmente conhecida como “mensalão”.  Já estavam fixadas, no entanto, embora suscetíveis de alteração, as penas de 25 dos 38 denunciados deste processo criminal que entra para a História como a maior ação penal já enfrentada pelo Supremo Tribunal Federal do país. Consumindo cerca de 50 sessões do Pleno da Corte Suprema brasileira, de agosto a dezembro, transmitidas ao vivo por importantes redes de televisão, o processo é o mais longo e volumoso de todos quantos passaram por aquele tribunal.

Nomes importantes e penas severas

Entre os apenados constam nomes importantes da política e do empresariado brasileiro: deputados, banqueiros, dirigentes partidários e ex-titulares de cargos elevados no governo da República. Condenados pela maioria dos integrantes do Supremo Tribunal Federal por crime de corrupção ativa e passiva, evasão de divisas, formação de quadrilha, gestão fraudulenta e lavagem de dinheiro, alguns deles sofreram penas superiores a 40 anos de reclusão e milhares de reais em multa. Na reta final do julgamento, o Ministro Relator, Joaquim Barbosa, determinou que todos os condenados, mesmo sem o trânsito em julgado do processo, entregassem seus passaportes, como garantia de que não deixarão o país, frustrando, dessa forma, o futuro cumprimento das penas.

A dúvida do povo: eles irão mesmo para a cadeia?

A condenação de pessoas destacadas do cenário político, social e econômico do país, gerou, em princípio, um clima de euforia.  Contudo, há muito, vige no Brasil a crença popular de que “rico não vai para a cadeia” e que os chamados “crimes do colarinho branco” sempre restam impunes. Prolatada a decisão condenatória do Supremo, subsiste, entre o povo, um misto de confiança e de descrença que se materializa nesta indagação: Eles irão mesmo para a cadeia? Especialistas preveem uma sucessão de recursos protelatórios que poderão retardar o trânsito em julgado da decisão ou, mesmo, determinar a prescrição de crimes, ou seja, a extinção da punibilidade pelo decurso do tempo.






Fim de um tempo

Místicos, astrólogos e crentes de velhas teses sobre o fim do mundo preveem acontecimentos estranhos para este dezembro de 2012. Ocorrerão, segundo dizem, com data e hora aprazadas, catástrofes que levarão a radicais mudanças planetárias. Fim dos tempos, para muitos. Início de uma nova era, para outros.

Desde que o mundo é mundo transformações geológicas e sociais, físicas e culturais, se sucedem em processos mais ou menos rápidos. Nós, espíritas, chamamos isso simplesmente de evolução. Mudanças, em qualquer circunstância, pedem tempo, exigem correção de rumos e, quando envolvem atitudes humanas, requerem conscientização. “Natura non facit saltus” -  a natureza não dá saltos – já diziam os romanos.

Dezembro passará e a vida dos humanos seguirá seu rumo. Sem sobressaltos. Mesmo assim, neste canto planetário, esta quadra parece assinalar mudanças que seu povo, de há muito, vem acalantando e preparando. Há uma consciência generalizada a reclamar novos padrões comportamentais nas relações entre governantes e governados, entre os que detêm poderes políticos ou econômicos e aqueles que destes dependem.

O processo judicial do chamado “mensalão” é um marco visível dessa ânsia de transformações políticas, sociais e econômicas inspiradas em uma imensa sede de ética, de equidade e justiça.

O povo, em sua simplicidade, acha que tudo se resolverá com o encarceramento, e por muitos anos, de alguns usurpadores do poder político e econômico. Vale considerar, no entanto, que eles apenas repetiram velhas práticas enraizadas em uma cultura que, hoje, dá mostras de saturação. Ocorra o que ocorrer com eles, entretanto, e mesmo que, eventualmente, burlem os visíveis mecanismos de justiça, já lhes sobreveio e lhes continuará sobrevindo o amargo e natural resultado de seus erros. Episódios como estes têm profunda repercussão no íntimo tribunal da consciência de seus agentes. Para eles e para a Nação, ademais, estes acontecimentos históricos hão de ter efeito altamente pedagógico. Nada têm de apocalípticos. Não são, como alguns chegam a interpretar, indícios do final dos tempos. Claramente, contudo, compõem um quadro a caracterizar o fim de um tempo prenunciando um novo amanhecer.
 



 


Vivemos mais e melhor

“Em verdade vos digo: a Natureza não é imprevidente, o homem é que não sabe moderar o seu modo de viver”. (Questão 705 de O Livro dos Espíritos).

 O IBGE acaba de divulgar dados sobre a expectativa de vida dos brasileiros. Vivemos mais e melhor. Em média, hoje, o brasileiro vive até os 74 anos de idade. Um avanço significativo. Nos últimos 50 anos, nossa expectativa de vida aumentou 25,4 anos. Só no período entre 2010 e 2011, a esperança de vida de alguém nascido no Brasil ganhou mais três meses e 22 dias. Reduziu-se também, consideravelmente, a taxa de mortalidade infantil.

Quanto deverá viver, em média, um brasileiro que nascer no novo ano? Oitenta, noventa, cem anos? Estamos aprimorando conhecimentos e colocando-os em prática na área da alimentação, da medicina preventiva e curativa, do exercício físico, do saneamento. Isso é progresso. Progresso moral, bem entendido. Não foi por outra razão que Allan Kardec arrolou a Lei de Conservação entre as dez leis morais submetidas à apreciação e discussão dele com seus interlocutores espirituais.

 Por tempos, impingiram-nos a ideia de que o planeta onde vivemos era um “vale de lágrimas”. Nossa passagem por aqui outra finalidade não tinha que não a de solvermos culpas que nem nossas eram, pois resultantes de um mítico pecado original. Atribuíamos à divindade a autoria de uma iníqua lei segundo a qual a pena passaria de pai para filho, geração após geração, até o final dos tempos. A sombra da culpa coletiva ou individual ainda nos persegue. Exemplo disso: a crença numa hecatombe destruidora a atingir a Terra e a maioria de seus “indignos” habitantes, ainda neste último mês de um ano onde tivemos tantos ganhos, como aqueles apontados nas primeiras linhas deste editorial.

É certo que não vivemos em nenhum paraíso terrestre. É preciso, no entanto, saber olhar para trás com discernimento e sensatez. O pressuposto dessa capacidade nasce da ideia generosa da evolução, uma das mais significativas conquistas do homem moderno. Por evidente, essa lei geral universal não se aplica exclusivamente ao vasto universo dos átomos, células e compostos orgânicos de que somos feitos. Preside também a formação e o desenvolvimento da consciência que se situa nos domínios do espírito e sua interação com a matéria. E é, justamente, sabendo olhar para trás que estaremos capacitados a avaliar o progresso do espírito humano.

O exercício contínuo e sensato dessa retrospecção, tendo por objeto a fascinante aventura humana nos faz otimistas perante a vida. Otimistas e esperançosos. Olhando o passado, nos capacitamos a vislumbrar o potencial humano na construção de um futuro cada vez mais saudável, equânime, justo e feliz.

Não fosse assim, a vida não teria sentido algum.

 

 



Carlos Ayres Britto     


Com a aposentadoria compulsória do ministro Carlos Ayres Britto, ao completar 70 anos de idade, o Supremo Tribunal Federal perde uma das figuras mais extrordinárias que já passou por aquela Corte. Comecei a admirar esse jurista, poeta e humanista, há alguns anos atrás quando ele foi relator de uma ação em que se pedia a declaração de insconstitucionalidade da lei autorizando pesquisas com células-tronco embrionárias. Opondo-se, com altivez e independência, a organismos religiosos contrários à pesquisa, Ayres Brito chancelou a constitucionalidade da lei, em voto brilhante onde prioriza fatores como o interesse público e o compromisso estatal com a felicidade humana e com o desenvolvimento da ciência,  sempre que estes conflitam com questões de fé.


Almas congeladas
Na oportunidade, publiquei no jornal Zero Hora (edição de 9.4.08) o artigo “Almas Congeladas”, apoiando a decisão do ministro. Afirmei ali, acerca da crença de que num aglomerado de células humanas, descartadas e guardadas em congelador, pudessem estar presentes espíritos: “Almas congeladas só podem povoar o mundo mítico de seres que preferem também congelar a fé, mas que não têm o direito de obstaculizar o avanço da ciência. Mormente quando esta contribui para a felicidade humana”.

Recebi, na oportunidade, atencioso telefonema pessoal do ministro, cumprimentando-me pelo artigo e revelando que se sentia confortado diante da posição de um espiritualista em favor da pesquisa. Disse-me que talvez eu não pudesse imaginar o quanto de pressões e de hostilidades estava sofrendo, vindas de religiosos, por conta de sua posição.

Espiritualista
Em seu telefonema, Ayres Britto nada me referiu sobre suas convicções filosóficas, mas suspeitei que estava falando com um homem com fortes inclinações espiritualistas. Agora, quando de sua aposentadoria, o jurista, em entrevista à Folha de São Paulo (caderno Ilustríssima de 14/11/12), falou amplamente sobre esses aspectos de sua vida. Revelou ser vegetariano e dedicar-se à prática de meditações diárias, “que infundem uma dose de espiritualismo na rigidez habitual da ciência jurídica”.  Prega ideias de que “é preciso expulsar de si o ego para que o espaço dentro de você seja preenchido pelo universo, pelo Cosmos, pela existência, que outros preferem dizer por Deus”. Sobre física quântica, área que também tem estudado, revelou, na entrevista, que esta, segundo lhe parece, “confirma tudo o que os espiritualistas afirmam”.

Espiritualismo e religiões
Perguntado se tinha religião, o entrevistado respondeu: “católica, só que, de 20 anos para cá, me tornei um espiritualista”.

A resposta é emblemática. Hoje, há uma clara oposição entre espiritualidade e religião. As religiões abandonaram a ideia do espírito. Sucumbiram ante o desprezo que a cultura materialista vota à hipótese da existência do espírito como identidade fundamental do ser consciente. Teoricamente, toda a religião deveria ser espiritualista. Na prática isso não ocorre. Como escreveu John A. Sanford, os teólogos modernos “falam muito sobre salvação e pouco sobre alma”, Isso dá a sensação de que o que deve ser salvo é “o ego com todos os seus desejos e esforços egoísticos”.

Só um espiritualismo humanista e laico, aberto aos avanços da ciência, pode resgatar a ideia fundamental do espírito, em um novo paradigma que não é nem o da teologia nem o do materialismo. Ayres Britto está claramente inserido nesse paradigma dos tempos que amanhecem.
 






Cristianismo x Espiritismo

Eugenio Lara, arquiteto e designer gráfico, editor do site PENSE - Pensamento Social Espírita [www.viasantos.com/pense], membro-fundador do Centro de Pesquisa e Documentação Espírita (CPDoc) e autor do livro Breve Ensaio Sobre o Humanismo Espírita. E-mail: eugenlara@hotmail.com

Correlações entre Cristianismo e Espiritismo sempre provocam controvérsias históricas. Até hoje, espíritas cristãos, religiosos não se entendem com espíritas laicos, livres-pensadores. Ora, será que Allan Kardec imaginava os conflitos, cisões e o descompasso que haveria entre os espíritas em função dessas controvérsias? Quais motivos o levaram a interpretar o Cristianismo?

Na Revista Espírita, Kardec reafirma o caráter científico e experimental da Doutrina, conforme a definição de O Que é o Espiritismo (1860), bem aplicada n’O Livro dos Médiuns (1861). Todavia, a partir de O Evangelho Segundo o Espiritismo (1864), dedica-se à hermenêutica, à exegese dos evangelhos e vincula o Espiritismo à teologia judaico-cristã como a Terceira Revelação, o Consolador prometido pelo Cristo. Kardec chega a admitir, sutilmente, que O Espírito de Verdade seria Jesus, contrariando o que afirmara em Instruções Práticas Sobre as Manifestações Espíritas (1858), quando revelou que esse espírito fora um grande filósofo da Antiguidade.

Não há como negar a vinculação ao Cristianismo, a começar pela terminologia adotada na Kardequiana. A tal “questão religiosa” nasce com Roustaing e é reafirmada por Kardec devido à adesão ao Cristianismo, mesmo tendo negado várias vezes que o Espiritismo fosse religião.

Muitas são as interpretações dessa postura de Kardec. Há quem imagine que ele fundou um neocristianismo. Para outros, fez concessão à Igreja ao escrever obras interpretativas da teologia cristã. Para muitos, o Espiritismo é o Cristianismo redivivo, sua revivescência.

Ora, não houve concessão alguma ao Cristianismo, à Igreja, senão o comportamento de Kardec seria outro. Ele não era um sujeito frouxo, inseguro. Basta ver a polêmica que travou com Chesnel. Por outro lado, é equivocada a tese de que Kardec desejava fazer do Espiritismo uma forma sofisticada de Cristianismo, de que ele, sem querer querendo, fundou uma nova religião cristã. Essa leitura é correta em relação ao roustainguismo ou à Igreja Mórmon, porém nunca em relação à Doutrina. E além do mais, o Espiritismo não adota a Bíblia como texto fonte. Este fato, por si só, o exclui do rol das religiões cristãs. O Espiritismo não é um Cristianismo.

É preciso contextualizar essa questão. A atitude de Kardec representa a resposta à demanda social e cultural de seu tempo. A partir de 1860, desloca-se de Paris e viaja por toda a França, Bélgica, Suíça a fim de atender aos apelos dos novos grupos espíritas que nasciam. Em sua cidade natal, Lyon, polo industrial similar ao nosso atual ABC, Kardec deu de cara com muitos operários, gente simples, de mãos calejadas, semianalfabeta. Isso deve ter sido algo inusitado e muito marcante, surpreendente mesmo para alguém acostumado a um público com outro perfil, mais elitista e sofisticado.

A Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas era composta por membros da elite, da nata da sociedade. Os novos grupos periféricos, por sua vez, possuíam perfil mais modesto, com particularidades outras e a influência tenaz do Cristianismo, porque formados por adeptos recém-saídos da Igreja ou que ainda a frequentavam. A propósito, para Kardec, podia-se ser espírita sem rejeitar o catolicismo, sem deixar de ter alguma religião. Tal orientação não é gratuita.

Os livros que escreveu, a partir de O Evangelho, visam atender à necessidade de se vislumbrar, no próprio Cristianismo, elementos interpretativos da Doutrina, não somente da experimentação, do empirismo mediúnico, mas também de sua filosofia e teoria de valores. Ele entendia, inclusive, que o Espiritismo teria a missão de oferecer à Igreja a sustentação de seus dogmas, além de funcionar como o “traço de união” entre ciência e religião.

Oportuno lembrar que no século 19, devido ao avanço econômico, da ciência e dos costumes, as religiões perdem terreno, adeptos e o poder que sempre tiveram, porque são inimigas da modernidade, do progresso. Pois o Espiritismo nasce, justamente, em pleno surgimento da modernidade, em meio à crise das religiões e procura dar conta de questões onde elas fracassaram, especialmente a cristã. Daí o esforço de Kardec em escrever obras que atendessem a essa demanda, constatada em sua excursão doutrinária. Não foi nenhum tipo de concessão, nem houve intenção de se fundar uma nova religião cristã ou instituir “A Religião”.

Outro aspecto é o fato de que o Espiritismo, apesar de definido como filosofia espiritualista, não dialoga com boa parte da tradição filosófica ocidental. Ou seja, a conexão direta não é com Platão, Aristóteles, Espinosa, Kant, Hegel etc., mas sim com o humanismo iluminista, o espiritualismo em geral, com o Spiritualism norte-americano e inglês, com o espiritualismo filosófico (Leroux, Reynaud, Lessing), os utópicos (Fourier, Cabet, Saint-Simon) e, inclusive, com a cultura celta: gaulesa e bretã.

A busca do diálogo com o judaico-cristianismo surge da necessidade cultural, religiosa na França do século 19. O Cristianismo não tinha aí a mesma força que na Espanha (vide o Auto de Fé de Barcelona), mas era a religião hegemônica. Se Kardec não fosse homem de prestígio, amigo de Napoleão III e outros maçons, de membros influentes da elite francesa, a Igreja esmagaria o Espiritismo, que teria abortado logo de início.

Kardec sabia que haveria divergências, cisões, por isso redigiu o Projeto 1868 e delineou rumos seguros à organização do Espiritismo como movimento social. O Período Religioso, imaginado por ele na sua prospecção cartesiana da propagação espírita, não tem o sentido de laço, de elo, de comunhão entre os espíritas. O religioso aí é no sentido religioso mesmo, sem trocadilho. É religioso com significado de culto. Senão, segundo a acepção que aplicava ao termo religião, ele deveria denominar esse período de Religionário, usando-o no sentido de laço (religion). Kardec vislumbrou que após esse Período Religioso, impregnado pelo Cristianismo, haveria outro, de transição, até o Espiritismo assumir integralmente sua vocação natural de “influência sobre a ordem social”, no Período de Regeneração Social.

Como se vê, a conexão entre Cristianismo e Espiritismo é um tema complexo, exige conhecimento histórico, de filosofia, teologia, antropologia e muitas áreas outras. Não basta somente conhecer a Kardequiana, é preciso situa-la em seu contexto histórico. Muitas polêmicas e divergências poderiam ser amainadas se os espíritas se dedicassem a esse tipo de leitura, ao invés de ficar garimpando na Kardequiana, aqui e ali, palavras de Kardec acerca dessa questão.


 



Fim de ano no CCEPA

Uma animada confraternização reuniu, na noite de 1º de dezembro, associados, colaboradores e familiares do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre para celebrar o final de um novo ano.

O encontro teve por local o salão de festas do Condomínio onde reside a associada Magnólia da Rosa: a segunda, a partir da esquerda, na foto  com a vice-presidente, Eloá Bittencourt, a diretora social, Sílvia Moreira e o presidente Milton Medran Moreira.

 Na oportunidade, o presidente da instituição agradeceu a colaboração de todos, graças à qual foi possível manter acesas as propostas de um espiritismo livre-pensador e humanista, que identificam a tradicional casa espírita da Rua Botafogo.

 Palestras de Dezembro no CCEPA

No dia 3 de dezembro, aconteceu a última palestra publica mensal noturna do ano no Centro Cultural Espírita de Porto Alegre. Esteve a cargo de um de seus diretores, o promotor de Justiça aposentado, Ruy Paulo Nazário de Oliveira, com o tema “A Cultura do Natal na Visão de um Espírita”. A partir de março de 2013, voltará essa atividade reservada para as 20h30 da primeira segunda-feira de cada mês.

No próximo dia 19/12, será a vez de Salomão Jacob Benchaya, Diretor Doutrinário do CCEPA, ocupar a tribuna do auditório da Rua Botafogo, 678, para abordar o tema: “Transição Planetária ou Fim do Mundo?”. Será às 15 horas, com entrada franca. Essa atividade, interrompida no período de férias, também retorna em março, sempre na 3ª quarta-feira de cada mês.

 

 


Sobre padres espíritas

Em sua Opinião em Tópicos (novembro 2012), Milton Medran Moreira destaca, a respeito da influência católica no Espiritismo brasileiro: “Essa orientação foi aceita pela turma do lado de cá, e entendida como a mais ajustada à alma do povo brasileiro. Talvez até o fosse, nos primórdios do espiritismo por aqui, quando praticamente 100% da população era católica. Pergunta-se: ainda será ou já esta na hora de reverter essa situação, diante do perfil predominantemente laico da sociedade dos dias atuais?".

Eu responderia que talvez até já tenha passado um pouquinho da hora! Porém, para realizar esse intento, "hay que tener mucha coraje", tal como Medran e mais alguns valorosos companheiros. Mas, o futuro é esse. Penso que todas as religiões, tal como as conhecemos, um dia desaparecerão. Restará, felizmente, no Ser Humano  plenamente desenvolvido, um profundo sentimento de  RELIGIOSIDADE.

Um grande abraço e muita paz!

Adão Araújo – Bento Gonçalves/RS.

 Entrevista com Nilton Starnini

É sempre bom receber o Opinião. O número 201 (outubro/2012), por exemplo, me trouxe uma notícia muito boa: a entrevista com Nilton Starnini, presidente da USE Distrital da Baixada Santista. Sempre achei que pensar diferente é criativo. Sou mais enriquecido pelos que pensam diferente de mim. Os que acatam minhas ideias sem pensar não me permitem revisão de conceitos.

Paulo Cesar Fernandes – Santos/SP.