terça-feira, 20 de maio de 2014

OPINIÃO - ANO XX - Nº 218 - MAIO 2014

A queda do catolicismo
na América Latina
Pesquisa do Instituto Latinobarometro registra queda de 80% para 67%do catolicismo entre a população da América Latina, no período de 1995 a 2013. Na maioria dos países, católicos migram para as igrejas evangélicas ou para o grupo dos “sem religião”.
         
Eram católicos, agora são evangélicos.
O Instituto Latinobarometro (Santiago, Chile) divulgou, no último mês de abril, os resultados da sondagem feita em toda a América Latina sobre religiões. Trata-se, possivelmente, da mais importante pesquisa já feita sobre crenças na América Latina.  O dado mais enfatizado mostra a acentuada queda do catolicismo nos últimos 18 anos: de 80% para 67%. No Brasil, a queda é ainda mais expressiva: apenas 63% das pessoas entrevistadas se declararam seguidoras da Igreja Romana, quando, em 1995, o índice era de 78%. Enquanto isso, registra-se uma crescente migração de crentes para as igrejas pentecostais e neopentecostais, em toda a América Latina e, especialmente no Brasil, onde os evangélicos eram 8% (1995) e hoje representam 21% da população. A queda fica ainda mais dramática na Nicarágua, onde o catolicismo perdeu 30 pontos percentuais, e também em Honduras, país em que a comunidade católica caiu de 76% para 47%: menos da metade da população que, no início do século passado, era, praticamente, toda católica.
         
Eram católicos, agora não têm religião.
Confirmando outra tendência não apenas da América como, e especialmente, da Europa, o levantamento da Latinobarometro acusou crescimento no índice dos que se dizem sem religião. No Brasil, por exemplo, esse grupo passou de 6 para 11%. No Uruguai, outro país antes cem por cento católico, 38% dos entrevistados responderam à pesquisa declarando-se sem qualquer religião. No Chile, cuja população em 1995 era constituída de 74% de católicos, hoje25% se declaram sem religião e apenas 57% seguem se afirmando católicos romanos.

Religião espírita: um pequeno contingente no mundo.
Na pesquisa do instituto chileno, não há referências ao espiritismo. Entretanto, em trabalho apresentado por Guillermo Reyes Pozo, do Centro Barcelonês de Cultura Espírita, intitulado “Retos del Espiirtismo em el Siglo XXI”, no II Encuentro Espírita Iberoamericano (Tarragona, Espanha, 1º a 4 de maio), é reproduzida pesquisa sobre crenças no mundo inteiro, publicada por The Association of Religion Data Archives (ARDA) - http://www.thearda.com/QuickLists/QuickList_125.asp - Ali, a classificação “espiritistas” aparece com o percentual de 0,2% dos habitantes pesquisados no mundo inteiro. Pela mesma fonte, os “sem-religião”, no ano da pesquisa (2005) perfaziam 12,08% da humanidade.






Tempos de laicização
A grande disputa religiosa no mundo ocidental, e particularmente na América Latina, segue sendo entre católicos e evangélicos, com visível avanço destes últimos, para cujo rebanho migram, anualmente, milhares de ovelhas do aprisco romano. Mas a pesquisa da Latinobarometro salienta que, apesar disso, cresce a popularidade do Papa argentino, Francisco. A mesma sondagem concluiu que a Igreja Católica é, hoje, a instituição com maior nível de confiabilidade, ultrapassando 60%, na maioria dos países pesquisados, percentagem só superada pela confiança na família.
 Contradição? Não, na medida em que se analisar a atuação do cardeal Bertoglio, desde que assumiu o papado. Seu discurso e sua ação em momento algum se detiveram na defesa dos dogmas da fé católica. Ao contrário, quando tomou medidas contra a corrupção do Banco Ambrosiano, ao punir a ostentação e o luxo de alguns prelados, ao combater com veemência os escândalos da pedofilia na Igreja, ao expressar tolerância e a compreensão com os homossexuais, o Papa afinou a prédica e a prática da Igreja com os anseios e as demandas da sociedade civil. A Igreja Romana, pouco a pouco, se seculariza, e, nesse processo de laicização, se distancia do dogma e do miraculoso, pontos fortes dos movimentos evangélicos. Do milagre, do mitológico, do sobrenatural e do fantástico, vão se apropriando cada vez mais as novas crenças evangélicas, especialmente nos países latino-americanos, onde crescem adubadas pelas carências sociais e no vácuo do descaso estatal com a educação. Enquanto isso, a Igreja, hábil e atenta às tendências de nosso tempo, ganha espaço com a fórmula: menos crença e mais humanismo.
Entretanto, mesmo que a Igreja minimize ou subestime as velhas questões da fé religiosa, porque superadas, subsistem na alma humana os naturais anseios pela espiritualidade. Temas como sobrevivência do espírito, sua imortalidade e evolução, passíveis de enfoque racional e científico, sempre serão objeto de íntima indagação humana, tanto de crentes como de descrentes. Nesse terreno podem se encontrar os religiosos de ontem com aqueles que duvidam ou já não são movidos pela fé, segmento que cresce aceleradamente. Esse é o terreno do espiritismo. Deixa de ser, no entanto, na medida em que ele se apresente como mais uma religião. Em tempos de laicização, é mister laicizar igualmente o espírito, enfocando-o, como propôs originariamente Allan Kardec, como o princípio inteligente do universo. Só assim, poderemos avançar, superando a minguada cifra de 0,2 por cento de partícipes dessas ideias que reputamos libertadoras e capazes de oferecer melhor compreensão acerca de Deus, do homem e do mundo. (A Redação).




Espiritismo e “espiritismos”
“O Espiritismo não encerra mistérios nem teorias secretas. Tudo nele tem de estar patente.” Allan Kardec – “A Gênese”. Introdução.

Há sensíveis diferenças entre o espiritismo que temos e o espiritismo que queremos. A ideia tem sido frequentemente expressa pelo presidente da Confederação Espírita Pan-Americana, Dante López, que a ratificou em discurso pronunciado no II Encontro Espírita Ibero-americano, ao início do fluente mês, em Salou, Catalunha, Espanha.
Quando se fala em espiritismo, costuma-se estabelecer a distinção entre doutrina e movimento. Aquela compreenderia o corpo teórico da obra proposta por Allan Kardec e que, segundo seu fundador, deveria se ampliar ao curso do tempo, incorporando aqueles conhecimentos humanos capazes de corroborar os princípios fundamentais alusivos ao espírito, sua comunicabilidade e evolução. Já por movimento espírita compreende-se o conjunto das organizações humanas envolvidas na prática e difusão das ideias espíritas.
Quem, no entanto, visita um centro, grupo ou instituição que se afirme espírita nem sempre apreenderá a distinção. Para ele, espiritismo será o que ali ele presenciar e as ideias e práticas com as quais ali tomar contato. Há, assim, um espiritismo teórico, cognoscível por aqueles que dedicarem ao seu estudo sério e à vivência da ética por ele proposta. Mas, há, de outra parte, uma gama de “espiritismos”, nem sempre ou em tudo compatíveis com o primeiro e que se fragmentam em práticas e ideias, por vezes demasiadamente esdrúxulas e, algumas, totalmente contrárias à lúcida proposta kardeciana.
Na Europa, onde, em conjunto com a Associação Internacional para o Progresso do Espiritismo – AIPE -, a CEPA promoveu, recentemente, o II Encontro Espírita Ibero-Americano, o espiritismo que floresceu e se desenvolveu rapidamente ao curso do Século XIX, experimenta hoje um forte processo de reavivamento, após ter praticamente desaparecido, em razão de duas grandes guerras e da perseguição sofrida por sangrentas ditaduras, justamente nos países onde tinha maior representatividade.
Nesse contexto, é digno de nota o esforço de núcleos e pessoas que, no Velho Continente, buscam o intercâmbio de ideias com os segmentos mais progressistas e livre-pensadores do espiritismo pan-americano. Enfrentam, fruto do criminoso processo de desprestígio do espiritismo, movido pelo establishment religioso e político por tanto tempo ali dominante, dificuldades enormes para a difusão do espiritismo, tal como o entendem e querem. O “espiritismo” com o qual se defrontam e que reside no imaginário popular não passa de um simulacro de ideias e práticas prenhes de mistério e de magia, em sentido diametralmente oposto à racionalidade kardeciana.
O Século XXI, aqui como lá, pois, nos está a oferecer imensos desafios para que se ponha no devido lugar o espiritismo que queremos, diante da imensa gama de “espiritismos” que, de fato, ainda temos, aqui e alhures. Um trabalho que só pode ser enfrentado com a união de esforços, nos moldes daquilo que alguns segmentos espíritas ibero-americanos estão fazendo.

 


O novo santo                                  
Eufórica, diante da câmera de TV, a moça dizia: “Maravilha! Agora, este país vai pra frente. Teremos um santo rogando a Deus pelo Brasil!”. Ela vibrava com a canonização do Padre José de Anchieta que o Papa havia procedido por decreto, mesmo sem a comprovação de dois ou três milagres, tradicionalmente exigíveis pela Igreja, quando se trata de elevar alguém às honras do altar.
Para quem supõe a existência de um Paraíso, onde mora Deus, sentado em um trono, rodeado de anjos e santos que disputam oportunidades de audiência para lhe pedir favores, a euforia da jovem fazia todo o sentido. Como santo, Anchieta estaria, agora, mais perto do trono de Deus e com mais chance de falar com ele. Por que não rogar pelo Brasil, país que ele viu nascer?
Um deus criado pelos homens
Os homens criaram Deus a partir de velhos modelos terrenos de hierarquia e poder. Para agradá-lo, prostram-se diante de sua imagem, entoam hinos de louvor, fazem oferendas, ritos e sacrifícios. Mesmo assim, nem sempre são ouvidos. Por isso, elegem intermediários: anjos, santos e espíritos protetores. Mais próximos do Senhor, eles poderão lhe encaminhar seus preitos. Assim como a gente costuma fazer quando tem um amigo influente nas altas esferas do poder.

Mudando conceitos
Mesmo nos dizendo espíritas, quase sempre nos pegamos pensando em Deus ou estabelecendo nossas relações com ele, a partir desse velho modelo. Entretanto, a questão número 1 de O Livro dos Espíritos, ao definir Deus como “Inteligência suprema, causa primeira de todas as coisas”, nos sugere avançar sobre os conceitos judaico-cristãos para concluir que as coisas não funcionam assim. Que Deus não está exatamente sentado em um trono e não necessitamos de “pistolões” para chegar a ele. Já nos é possível o conceber Deus como a suprema Inteligência, um Pensamento, uma Energia a impregnar o Universo e a nós próprios. Manifesta-se aos homens através de leis naturais, gravadas na consciência da gente. Se observadas, essas leis trazem paz e felicidade. Nossa saúde, o êxito profissional, a harmonia familiar e social, a vida e a morte, o progresso de um povo, tudo é regido por esse conjunto de leis naturais.

Santos laicos
Quando da morte de Betinho, o grande sociólogo brasileiro que concebeu uma ampla campanha para reduzir a fome no Brasil, Carlos Heitor Cony sugeriu, numa crônica, que ele fosse canonizado. Seria o primeiro santo laico brasileiro. Acho que a sugestão do cronista não chegou ao Vaticano que, em tempos de pluralismo e de reformas do Papa Francisco, bem que poderia fazer isso com outras grandes figuras da humanidade, reconhecidamente virtuosas, mesmo não sendo católicas ou religiosas, como Mahatma Gandhi, Albert Shcweitzer, Martin Luther King e Albert Einstein.
Este último, aliás, definiu Deus como sendo “a lei e o legislador do Universo”, um conceito com o qual concorda o espiritismo. Se estivermos errados, com certeza, Deus há de perdoar Einstein e os espíritas também.

 


Nota do Editor:
Este espaço é, normalmente, destinado a artigos inéditos, escritos, quase sempre, por espíritas. Abrimos hoje uma exceção, reproduzindo excelente artigo do jornalista David Coimbra, publicado no jornal Zero Hora, do último dia 18.4 – Sexta-Feira Santa dos cristãos. A exceção se justifica diante dos conceitos plenamente coincidentes com a filosofia espírita acerca de Jesus de Nazaré.

O sal da terra
“Vós sois o sal da terra”, disse Jesus no Sermão da Montanha. “Vós sois a luz do mundo”, enfatizou, e era para os seres humanos que falava. Para nós.

Nós somos o sal da terra.
Mas não vou em frente antes de falar do meu medo. Tenho medo de religiões e ideologias, porque umas e outras são matéria de fé. São dogma. No momento em que você se torna dogmático, você tem um lado e do seu lado está o Bem, enquanto o Mal está do lado de lá. Pessoas mataram e morreram, matam e morrem por causa de religiões e ideologias. Além do mais, aquelas certezas tantas e tão sólidas fazem com que as pessoas deixem de pensar. Não precisa, já está tudo pensado, basta seguir o prescrito e dividir o mundo em dois hemisférios, sem ponderações: aqui estão os certos, lá estão os errados.

Dito isso, que fique claro: não estou falando do Jesus religioso, nesta Sexta-Feira Santa; não estou falando do Jesus cristão. Estou falando de um dos mais revolucionários filósofos morais da História, e da peça central do seu pensamento, que foi aquele Sermão.

A filosofia de Jesus é tão inovadora que nenhuma de suas igrejas compreendeu ou aplicou o seu principal ensinamento. Ninguém entendeu essa passagem:

“Não oponhais resistência ao mau; se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra. E se alguém quiser pleitear contigo para te tirar a túnica dá-lhe também a capa. (...) Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem”.

Olhando assim, você pode achar humilhante tamanha resignação. Mas Jesus não está sugerindo submissão. Ele se põe acima disso. Está dizendo, simplesmente, que não vale a pena. Ou, como já disseram os Beatles, a vida é muito curta para perder tempo com brigas e confusões. Life is very short.

O Sermão da Montanha é surpreendente. O trecho do qual Erico Verissimo colheu o título de um de seus livros “olhai os lírios do campo”, é de rara sabedoria e de construção preciosa. Jesus dizia que o homem não deve se preocupar com acumulação de riquezas. Não deve se preocupar nem com seu sustento: “A cada dia basta o seu cuidado”. Que frase! O que ele queria dizer com isso? O mesmo que falou a respeito de brigas e confusões: que se preocupar não vale a pena. Ou, usando outro clássico dos Beatles, deixe estar. Let it be.

Mas não, não vou fazer uma exegese do Sermão da Montanha a partir dos Beatles. Não seria tão superficial. O Sermão da Montanha é profundo. Algumas nesgas dele você pode levar como regra. Como quando Jesus diz que cada um julga os outros com sua própria medida. Com essa sentença, ele diz o mais importante sobre a alma humana. Diz que o Mal é o que sai da boca do homem. E é.

Não são palavras santas. São palavras sábias. Mas, de todas elas, as que mais me intrigam foram as que citei lá em cima, na abertura do texto. Como o homem pode ser a luz do mundo, se há tanta crueldade, se pais que matam filhos, como se suspeita acerca daquele pai de Três Passos?

Vinha pensando nisso, vinha intrigado com isso toda a semana, até que, na quinta-feira, minha mulher me contou um caso prosaico. Ela é arquiteta. Naquele dia, havia ligado para o eletricista com quem trabalha, um homem muito sério, muito compenetrado. Assim que atendeu, ele se desculpou: não poderia falar, porque seu filho tinha caído na escola, machucara a boca e precisava ser levado ao hospital. E então, antes que ela conseguisse perguntar como estava o menino, aquele homem sisudo começou a chorar.

Ela me relatou essa história por telefone. Eu estava na redação. Desliguei com o coração apertado, pensando naquele pai, no quanto ele deve amar seu filho e em como devia estar sofrendo com o sofrimento do menino. E, ainda na redação, fechei os olhos e roguei em silêncio para que o pequeno estivesse bem, para que em breve os dois estejam de novo sorrindo, e pensei que é por causa de pais como esse, por causa de amores como esse que, sim, vós sois a luz do mundo. Vós sois o sal da terra.
              




Antropólogo faz pesquisa de Doutorado no CCEPA
O antropólogo Gustavo Ruiz Chiesa esteve durante vários dias do mês de abril acompanhando as atividades do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, tendo participado de suas reuniões de estudo, conferências públicas e sessões mediúnicas.
Gustavo (foto) defende tese sobre Ciência, Saúde e Espiritualidade na Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde reside, e, entre outras instituições espíritas de todo o Brasil, nas quais colhe material para seu trabalho acadêmico, escolheu o CCEPA para algumas de suas pesquisas.

Nossa experiência em Salou
O Centro Cultural Espírita de Porto Alegre se fez representar no II Encuentro Espírita Iberoamericano (Salou, Tarragona, Espanha - 1º a 4 de maio), por seu Presidente, Milton Medran Moreira, acompanhado da esposa Sílvia; do Secretário de sua Diretoria Executiva, Rui Paulo Nazário de Oliveira e esposa, Raquel, e também do colaborador da instituição, Moacir Costa de Araújo Lima e esposa, Lúcia Helena (na foto, a delegação de Porto Alegre).
Medran participou do Painel de abertura, juntamente com o Presidente da CEPA, Dante López, e Guillermo Reyes, do Centro Barcelonês de Cultura Espírita. Os três, durante duas horas, responderam perguntas formuladas pelo auditório sobre o tema “O Espiritismo no Século XXI”.
Moacir, juntamente com Medran e David Estany, da Associação Espírita Otus y Neran, de Tárraga, Espanha, participou do Painel “Motores del Espiritismo”, onde desenvolveu o tema “Amor, el Arte de Vivir”. No mesmo painel, Medran abordou “La Ética Espírita en el Siglo XXI”.

CCEPA Opinião – Uma referência
do espiritismo laico e livre-pensador
Diversos expositores do “Encuentro” fizeram referência ao jornal CCEPA Opinião, destacando-se Yolanda Clavijo (de CIMA-Venezuela) que expôs o tema “Vigencia del Pensamiento de Amalia Domingo Soler”. Em sua exposição, Yolanda leu trechos de editoriais do periódico editado pelo CCEPA e destacou a sintonia de sua linha editorial com as ideias de Amalia.  Também a brasileira Jacira Jacinto da Silva (São Paulo, CPDoc), no trabalho “Criminalidad y Derechos Humanos”, fez a leitura de artigo do editor deste jornal, defendendo posições humanistas no campo do direito criminal. Por sua vez, o português José Carlos Miranda Lucas (da ADESP), que, pela primeira vez participou de um evento da CEPA, disse que tomou contato com o pensamento “espírita laico”, lendo matérias aqui publicadas por Milton Medran e Jon Aizpurua. Por fim, Jacques Peccatte (Cercle Spirite Allan Kardec, Paris) recordou ter conhecido a CEPA a partir de um contato com o Diretor deste jornal.
Para o presidente do CCEPA, “o mais importante foi a rica troca de experiências com pensadores espíritas de diferentes regiões do Planeta e a plena sintonia de ideias e propósitos”.

Opinião do Leitor   

O Evangelho Segundo o Espiritismo
Como sempre brilhante o artigo de Milton Medran, agora sobre o Evangelho Segundo o Espiritismo (CCEPA Opinião – abril) "O espiritismo propõe um novo olhar sobre Deus, a vida e o universo,sem, para isso, se valer do mistério e do sobrenatural . Inserimo-nos entre os crescentes segmentos culturais que, hoje, distinguem espiritualidade de religião " .
O texto fala de forma clara e distinta , como dizia Descartes , sobre a nossa posição diante da sociedade e do mundo. Entristece-me quando leio o Reformador e em vários editoriais está escrito Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas felicito-me de caminhar em companhia como a de Medran quando se trata de pensar o espiritismo.
Roberto Rufo -Santos/SP.

O golpe militar de 64
Prezado companheiro de ideal Medran,
Preciso parabenizá-lo quanto ao valor ético do editorial apresentado no Opinião de março a respeito do golpe civil-militar de 64, fundador de anos sombrios para a nossa Pátria. Anos de necrofilia, negação de direitos civis e de legitimação do desamor entre as gentes. Ansiava ver algum periódico espírita se manifestar com a lucidez e serenidade ali registrada.
Na Revista Espírita de abril de 1860, o sr. Allan Kardec teve ensejo de publicar profunda e sintética página do Espírito Abelardo (será aquele intelectual da Idade Média que protagonizou com Eloísa uma bela história de amor negada pelo dogmatismo de antes?) onde encontramos exarado algo bem em sintonia com o editorial escrito. Ali é dito: ”O reino do constrangimento e da opressão acabou; começa o da razão, da liberdade, do amor fraterno. Não é mais pelo medo e pela força que os poderes da Terra adquirirão, de agora em diante, o direito de dirigir os interesses morais, espirituais e físicos dos povos, mas pelo amor à liberdade.”.
Vinícius Lima Lousada – Bento Gonçalves/RS.


quarta-feira, 16 de abril de 2014

OPINIÃO - ANO XX - Nº 217 - ABRIL 2014

O Evangelho Segundo o Espiritismo – 150 anos.

O Livro Número Um dos Espíritas
Cronologicamente, não foi o primeiro livro de Allan Kardec,  nem é sua mais importante obra, mas “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, que completa 150 anos, é, para a maioria dos espíritas, o principal e, às vezes, o único livro conhecido e referenciado nos Centros Espíritas.

A obra e seu contexto histórico
Desde que o espiritismo, contra a expressa vontade de seu fundador, Allan Kardec, se tornou uma religião, O Evangelho Segundo o Espiritismo tem sido visto quase como uma nova bíblia. Muito mais lido do que O Livro dos Espíritos, principal obra de Kardec, o ESE é proclamado como a base da “religião espírita”.         Por outro lado, lembra o escritor espírita Eugenio Lara (São Vicente, SP), há pensadores espíritas de mentalidade não-religiosa que contestam a obra, achando que nem deveria ter sido escrita. Para Eugenio, nenhuma dessas posições é a melhor: “O livro deve ser visto em seu contexto histórico e no conjunto da obra kardequiana. Nem bíblia, nem concessão, mas uma visão de Kardec dos ensinamentos evangélicos, a visão que ele tinha do cristianismo”. Eugenio Lara sustenta que “o contexto histórico exigiu de Kardec uma resposta à demanda do movimento espírita nascente”, e que “numa França católica, a posição espírita em relação ao cristianismo era uma necessidade, o que não faz do espiritismo uma nova religião ou teologia cristã”.
Também para o Delegado da CEPA no Rio de Janeiro, Rinaldo Paulino de Souza, o contexto histórico não só da França, mas de todo o mundo ocidental foi relevante, pois o ceticismo trazido pelo Iluminismo levava o Ocidente a perder a crença no mundo extramaterial e em Deus. Além disso, “era importante destacar as evidências da reencarnação nos livros sagrados cristãos, reforçando tal conexão com as explicações morais”, sustenta Souza.
Dentre os pensadores espíritas que entendem que O Evangelho Segundo o Espiritismo nem precisaria ter sido escrito está o pesquisador Mauro Quintella (Brasília/DF): “No lugar do OESE, eu teria feito um livro com uma coletânea das melhores proposições éticas da história da Humanidade, onde, evidentemente, poderia entrar o que é aproveitável nos Evangelhos”, disse Quintella, acrescentando que o nome desse livro teria sido “A Ética do Espiritismo”.

Consolador Prometido? Terceira Revelação Divina?
Licenciado em Filosofia, e também Delegado da CEPA, Ricardo de Moraes Nunes (Santos/SP), concorda que as circunstâncias históricas justificavam a publicação da obra, mas lhe parece que Kardec e os espíritos foram tomados de um exagerado entusiasmo ao classificarem o espiritismo como “o consolador prometido por Jesus”. Para ele, trata-se de tese “bastante ideológica, fugindo do campo das ideias práticas tão apreciadas por Kardec”.
Já o pesquisador Augusto Araujo (Campina Grande/PB) Doutor em Ciência da Religião, vê o ESE justamente como o livro que “inaugura o período religioso do espiritismo, previsto por Kardec em 1863”. Araujo identifica ali “uma curva em direção aos temas cristãos”, o que se deve a uma razão externa: “a perseguição do espiritismo principalmente pela Igreja Católica”; e outra interna: “Kardec defende que o espiritismo seja o sucessor histórico e profético do cristianismo”.
A pensadora espírita Glória Vetter (Petrópolis/RJ) sustenta que Allan Kardec não quis um espiritismo “igrejista”, mas “cristocêntrico”. Ela não vê problema que Kardec tenha proposto que os espíritas se apoiem nos ensinamentos de Jesus ou de outros mestres: “São contributos éticos que fortalecem os espíritos, mormente daqueles carentes de força e direção”, diz.






Contextualizar é preciso
É possível que se Kardec tivesse vivido em um país árabe e, ali, fosse atraído pelos fenômenos espíritas, houvesse escrito “O Corão Segundo o Espiritismo”. Se tivesse encarnado na Índia, poderia muito bem ter publicado “O Baghavad Gita Segundo o Espiritismo” ou “Os Vedas Segundo o Espiritismo”. Os ensinos morais que deduziu dos fenômenos das mesas girantes e de seu intercâmbio com “reveladores” desencarnados estão presentes também nas grandes tradições religiosas da humanidade. Tais ensinos, mais do que meros preceitos religiosos, são expressões daquilo que Allan Kardec tratou como “lei natural”, por ele tão bem analisadas na 3ª Parte de “O Livro dos Espíritos”.
Também é possível que se viesse a encarnar na mesma França ou em outro país europeu de hoje, Rivail não sentisse a menor necessidade de publicar qualquer interpretação cristã do espiritismo. Simplesmente porque as ideias religiosas, hoje, não têm, no Ocidente cristão, o mesmo peso que ainda detinham no Século XIX.
Isso tudo submete o livro de Kardec , que completa, este mês, 150 anos, à imprescindível necessidade de contextualização. Que seja ele entendido como produto da época e, também, como depositário de certas ideias exageradamente impregnadas do catolicismo de alguns espíritos comunicantes e do próprio entusiasmo de Allan Kardec frente à nova ordem de ideias a serem desbravadas.
Escoimá-lo de certas idiossincrasias da época, do próprio autor e das entidades por ele entrevistadas é tarefa que nos cabe hoje, como imperativo mesmo da racionalidade, do bom-senso e do caráter progressivo e progressista do espiritismo. Aliás, essa é a melhor forma de nos mantermos fiéis a Kardec. Até porque, no caso do ESE, ele próprio, em sua Introdução recomendou que o tomássemos apenas como uma interpretação dos ensinos morais de Jesus, desprezando todos os restantes e míticos aspectos dos evangelhos cristãos. 
(A Redação).      





Para além das ideologias
A harmonia social não pode se estabelecer senão
obre a justiça, a bondade, a solidariedade.
Léon Denis, em “Socialismo e Espiritismo”.

A liberdade guiando o povo.  Delacroix
A passagem, em 31 de março último, do cinquentenário do golpe de Estado de 1964 oportunizou ao Brasil uma reflexão mais madura sobre aquele acontecimento e seus desdobramentos históricos.
É certo que ainda se ensaiaram pífias reencenações das “Marchas da Família com Deus pela Liberdade” que antecederam o golpe e lhe conferiram apoio de parcela da sociedade civil de então. Também é certo que, em restritos grupos, ainda se tentam justificar como necessárias à ordem ao progresso do país, coisas como a tortura, as perseguições e assassinatos políticos, a censura e todas as graves violações aos direitos humanos perpetrados por agentes do poder, naquele período.
Por outro lado, meios de comunicação, abertamente comprometidos com o grave episódio de ruptura institucional de 64 e com o prolongamento do estado exceção, apressaram-se, meio século decorrido, a reconhecer como um equívoco o apoio dado ao regime. De igual sorte, pessoas e agrupamentos políticos que, ao curso do regime de força, lhe deram suporte, contribuindo para a manutenção de um simulacro de democracia, juntam agora suas vozes àquelas da grande maioria que defende a plena transparência democrática e a soberana e inderrogável vigência do estado de direito.
Mesmo com essas contradições e com algumas tentativas de retrocesso, pode-se afirmar que a Nação brasileira está segura de que fora da democracia e do respeito aos direitos humanos não há progresso verdadeiro. Democracia é uma conquista à qual não se logra chegar sem luta a anteriores estados de barbárie e de práticas da usurpação do poder por grupos que se valeram, para tal, da força bruta ou do poderio econômico.
Os cinco séculos de história do Brasil estão marcados por duras experiências das quais se presume tenhamos emergido para um estágio onde a democracia ganha status de valor inquestionável e inatacável. Dessa última quadra de usurpação do poder por uma elite, fardada ou não, conseguimos sair graças a um bem engendrado processo de pacificação. Para tanto, foi necessária a formalização de uma anistia ampla e irrestrita que alcançou não somente aqueles que se rebelaram contra os usurpadores do poder – por eles, então, denominados “subversivos” -, como também os próprios agentes da repressão, incluindo aí torturadores e assassinos. Uma solução, sobretudo, política.
A anistia, instrumento jurídico que sepultou naturais pretensões punitivas e atitudes de revanche, não condena, entretanto, a Nação a esquecer-se de sua História. É preciso, mais do que nunca, cultivar a memória de que a experiência foi amarga e que não convém, sob inspiração ideológica de nenhum matiz, retornar a ela.
A nós, porque cidadãos, pelo fato de sermos espíritas, não é vedado simpatizar com uma ou outra ideologia e fazermos dela legítimo instrumento de atuação política. Mas, o espiritismo, que paira acima das ideologias para se caracterizar como genuína filosofia, não recomenda a radicalização, a polarização ideológica, e se opõe à crença de que numa ou noutra ideologia residam, com exclusividade, a verdade, a virtude e o progresso.
Em nossa atuação como cidadãos espíritas, devemos, pois, acima de tudo, zelar para que, em nome de qualquer ideologia, não se violem os princípios de dignidade humana, de honradez, de solidariedade e de respeito que devemos uns aos outros. Esses valores são patrimônio do espírito, conquistas por ele obtidas num lento processo evolutivo que trouxe nossa espécie da barbárie à civilização, despertando em nós, na contemporaneidade, a consciência da cidadania.
Cidadania e espiritismo são genuínos valores da modernidade que não podem se contrapor.

Como cidadãos espíritas, zelemos para que, em nome de qualquer ideologia, não se violem os princípios de dignidade humana.
  
                   




O Evangelho Segundo o Espiritismo
Confesso que não é a obra de Kardec que mais aprecio. De longe, minha preferência é por O Livro dos Espíritos. Mas, sou muito reconhecido ao Evangelho Segundo o Espiritismo, a primeira das obras básicas que li, estimulando-me a conhecer todas as demais e outras muitas publicações complementares. Foi um longo parto de ideias que, alguns anos depois, fez nascer em mim a identidade espírita.
Acho que já contei esta história aqui: Uma senhora, já desencarnada, cujo nome costumo citar com particular respeito, Clementina Benson, presenteou-me, há cerca de 40 anos, com um exemplar do ESE, acompanhado de carinhosa dedicatória. Guardo-o até hoje, com carinho, em minha biblioteca. O livro teve o mérito inicial de me encaminhar ao “espiritismo cristão”, categoria em que, então se classificava – e ainda hoje, creio, com ela se identifica – a maioria dos espíritas brasileiros.

A fé cristã
Penso, agora, que nós, espíritas, não temos o direito de nos declararmos cristãos. Fazendo-o, usurpamos um qualificativo que  foi sendo gestado ao curso de 2.000 e que conformou um conjunto de crenças religiosas totalmente distanciadas da proposta filosófica espírita. Especialmente após o esforço desenvolvido durante o Século XX pelas igrejas cristãs, denominado ecumenismo cristão, alguns dogmas religiosos passaram a delimitar, com clareza, o que significa ser cristão. O principal desses dogmas é o da divindade de Jesus Cristo e sua condição de Salvador da humanidade, antes condenada pelo pecado original. Está aí a essência do cristianismo. E isso nos coloca à margem desse movimento religioso que chegou ao Século XXI fragmentado em milhares de igrejas e seitas, mas preservando uma fé básica comum da qual não compartilhamos.

Religião e espiritualidade
 Perdemos com o fato de sermos excluídos do rebanho cristão? Penso que não. Ganhamos. Em tempos de prevalência da razão sobre a fé, do laicismo sobre o fideísmo, do secular sobre o eclesiástico, a proposta espírita tende a ganhar espaço na medida em que se distancia do campo religioso. Defendemos o advento de um novo paradigma de conhecimento a partir da existência do espírito, sua imortalidade e evolução. Isso está no campo da filosofia. Foge inteiramente dos mistérios da fé e busca conexões com diversificadas áreas do conhecimento humano que podem ir da física à psicologia, das ciências da saúde à ética, da astronomia ao direito. O espiritismo propõe um novo olhar sobre Deus, a vida e o universo, sem, para isso, se valer do mistério e do sobrenatural. Inserimo-nos entre os crescentes segmentos culturais que, hoje, distinguem espiritualidade de religião.

ESE – 150 anos
O fato de nos situarmos fora do cristianismo e não constituirmos uma religião não nos afasta de Jesus de Nazaré, que, diga-se de passagem, não é o mesmo Jesus Cristo, terceira pessoa da Santíssima Trindade dos cristãos. O livro que Dona Clementina me doou, naquele longínquo ano de 1974, começou a me ensinar a distinguir um do outro. Tempos depois, ao mergulhar na leitura da 3ª parte de O Livro dos Espíritos, obra fundamental da filosofia espírita, eu iria identificar nos ensinos e nas parábolas do jovem carpinteiro de Nazaré, lidas no ESE, uma interpretação, apropriada a seu tempo, daquilo que Allan Kardec denominaria simplesmente leis naturais.
O Evangelho Segundo o Espiritismo, que neste mês completa 150 anos, foi, para mim, o primeiro passo de uma caminhada que sigo percorrendo. Como não apreciá-lo?





Espiritismo: o consolador prometido?
Amely B. Martins – Bióloga – Membro da ASSEPE, João Pessoa/PB.

Tudo é relativo!
O conceito da relatividade proposto por Einstein trouxe um grande avanço não apenas no âmbito científico, através do abalo ao mecanicismo de Newton, mas também trouxe e ainda traz avanço para a humanidade e para o homem.
Através da relatividade nada é absoluto, nada é único, nenhum conceito é estático. E, desta forma, os paradigmas tendem a ser menos engessados e, mais facilmente, ampliados ou substituídos.
É justamente neste sentido relativo que devemos entender a palavra consolador, bem como todo o seu significado.
Segundo o dicionário Aurélio, consolar é aliviar ou suavizar a aflição, o sofrimento ou o padecimento, é dar lenitivo, suavizar, mitigar, além de proporcionar sensação agradável ou de prazer a algo ou alguém.
A partir da própria definição já podemos perceber o quanto é relativa a aplicação do termo. Afinal, diferentes pessoas, em diferentes situações, se sentem consoladas, também, de formas diferentes.
Não é possível haver, portanto, um consolador absoluto para toda a humanidade, visto que a grande diversidade de necessidades, opiniões e anseios dos homens faz com que estes precisem também de consolação diversa.
Atribuem a Jesus a promessa de enviar um consolador para a humanidade, e muitos homens se utilizam desta suposta promessa para dogmatizar suas próprias crenças e excluir outras. Mas aí está um grande equívoco. Afinal, tudo o que consola alguém verdadeiramente, levando a uma evolução e melhora interior, tem o consentimento de Jesus e de todos os espíritos bons que querem o bem da humanidade.
Não importa a origem, e sim o efeito consolador que determinado conhecimento ou ação proporcionam. Como exemplo, podemos citar a lei de amor ao próximo, defendida por quase todas as correntes religiosas ocidentais e orientais. Quando aplicada, a lei de amor traz consolo para quem a pratica ou está envolvido nela, e isto independe da crença religiosa do praticante.
Crer que o espiritismo é “o consolador prometido por Jesus”, se é que Jesus realmente prometeu um consolador, é restringir o espiritismo, pelo fato de julgá-lo tão completo que pode consolar a toda a humanidade. É cair na falsa pretensão de que o espiritismo é a doutrina salvadora que irá consolar a todos os homens, é dogmatizar, é engessar seus princípios, negando sua própria evolução.
Realmente, os princípios espíritas são capazes de trazer consolo às pessoas que se interessarem por eles. Realmente, a doutrina espírita traz conhecimentos relativamente novos, principalmente para o ocidente, e, por muitas vezes, uma discussão mais aprofundada sobre assuntos há muito existentes. Mas isso não faz da doutrina o único agente de consolação da humanidade.
Desta forma, voltamos ao início da discussão, através da percepção de que o consolo é relativo, assim como é relativo também o agente consolador, e que o espiritismo é sim uma doutrina consoladora, mas não o único agente consolador da humanidade.


Reflexão acerca da aceitação
Paulo Cesar Fernandes – Santos/SP.

 Estava em prece, bem agora.
 E durante esse processo, um número imenso de pessoas passou por minha lembrança. De início, os familiares, passando por amigos dos mais diversos locais. Inclusive da primeira empresa da área de informática em que trabalhei, onde aprendi muita coisa com um gerente paciente e bom, não apenas comigo, mas com todos.
Ao pensar em todas essas pessoas de quem gosto, e cuja ausência já se perde no tempo, uma frase do Pai Nosso me veio à mente, e definiu de forma clara a postura correta diante dessas perdas naturais da vida: "Seja feita a tua vontade/Assim na Terra..."
Pois a saudade bate. E bate forte. Principalmente lembrando de tantos benfeitores, no curto espaço desta encarnação. Saudade e gratidão a todos.
Hoje, eu não vejo a frase ensinada por Jesus, se assim o foi, como um elemento de submissão. A nada e a ninguém. Mas, muito pelo contrário, uma postura de compreensão da Vida e das Leis Naturais regentes de cada momento dessa mesma Vida.
Compreender os fenômenos existenciais é estar cada vez mais em conformidade com essas Leis. E o fato de não nos aborrecermos ou revoltarmos ante cada novo fato, cada novo desafio, ou cada nova perda é um elemento engrandecedor da nossa forma de viver.
Aonde nos leva a revolta?
Em todas as circunstâncias da vida, a revolta apenas promove a perda de nossa energia. Uma energia capaz de ser positivamente utilizada.
Revolta, ódio, inveja, orgulho, vaidade são fenômenos interiores capazes de nos roubar muita, mas muita energia mesmo. E na economia existencial vale a pena pensar um pouco mais nisso. Dotar nosso viver de uma  outra forma de encarar cada um dos problemas.
Nem tudo é tão feio quanto nos parece no primeiro momento. Se algo novo se apresenta, e o medo faz menção de chegar, aguardemos.
O tempo, se mantivermos a serenidade, tem a capacidade de abrir novas perspectivas de um momento para outro. O impossível, num estalo, acaba possível, viável e de fácil ordenamento.
“Por que não pensei logo nisso?” Quem nunca usou essa expressão?
Seja por uma solução por nós mesmo encontrada, ou trazida por uma pessoa amiga.
Dado o conhecimento do espírito e de sua imortalidade, nem a morte é capaz de destruir o equilíbrio de nosso viver.
Sabemos. Nossos corpos são finitos. Mas nós já viemos de outras, e seguiremos para outras oportunidades de aperfeiçoamento através da encarnação.
Assim. Peito aberto para a Vida. Confiança. Positividade.
A nossa trajetória é ascensional. E todos somos inacabados. Todo novo desafio, tão somente nos acrescentará. Essa é a Lei.





Estudo e Caridade – 87 anos
A Sociedade Espírita Estudo e Caridade, tradicional instituição espírita da cidade de Santa Maria/RS, mantenedora da obra social “Lar de Joaquina” completa, dia 13 de abril, 87 anos de existência.
Como parte das comemorações alusivas ao aniversário da SEEC, o presidente do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, Milton Medran Moreira, foi convidado a proferir palestra, na tarde de sábado, 12/4, naquela instituição sobre o tema “Consequências Sociológicas da Reencarnação”, trabalho apresentado por Medran, por ocasião do Congresso Espírita Pan-Americano de Santos, SP, em 2012.
A palestra é pública e inicia às 18h.

A Presença do CCEPA
em Tarragona, Espanha
O Centro Cultural Espírita de Porto Alegre estará representado no II Encuentro Espírita Iberoamericano, em Salou, Tarragona, Espanha, que acontece de 1º a 4 de maio, sob os auspícios da Asociación Internacional para el Progreso del Espiiritismo – AIPE – e Confederação Espírita Pan-Americana (CEPA).
O presidente do CCEPA, Milton Medran Moreira, que viaja à Espanha, ao final deste mês, acompanhado de sua esposa Sílvia, será um dos integrantes do painel de abertura do evento. No painel inaugural do “Encuentro”, se abordará o tema “Las Instituciones Espíritas em el Siglo XXI”. Deste mesmo painel participarão: Dante López (Argentina), Presidente da CEPA, e Guillermo Reyes (Espanha), do Centro Barcelonês de Cultura Espírita.
Medran terá uma segunda participação no “Encuentro”, abordando o tema “A Ètica Espírita no Século XXI”, no sábado, 3 de maio. Deste mesmo painel, participará o colaborador do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, Moacir Costa de Araújo Lima, com o tema “Amor, a Arte de Viver”.
Também o ex-presidente do CCEPA, e seu atual Secretário, Rui Paulo Nazário de Oliveira, acompanhado da esposa, Raquel, participará do II Encuentro Espirita Iberoamericano, de Salou, Tarragona, cuja temática central será “El Espiritismo del Siglo XXI”.






Civilização e barbárie
Sobre a análise feita em “Opinião em Tópicos” de Milton Medran Moreira (“Civilização e Barbárie), na edição de março, gostei muito. É assim mesmo que penso.
Maria Rosa Soares – Praia Grande, SP.

(comentário feito no site Espiritbook, que reproduz a coluna)

sábado, 22 de março de 2014

OPINIÃO - ANO XX - Nº 216 - MARÇO 2014

Crianças e a Vida antes da Vida
Pesquisadora da Universidade de Boston publica estudo sugerindo que crianças demonstram um forte senso de que existiam antes de serem concebidas.
Imortalidade e preexistência
Embora a noção da sobrevivência do espírito após a morte seja um conceito teológico hígido dentro do cristianismo, a ideia da preexistência espiritual é rejeitada pelas religiões cristãs. Esta última hipótese até foi sustentada por Pais da Igreja como Plotino, Orígenes e outros neoplatônicos do Século III da era cristã. Terminou, contudo, sendo sumariamente eliminada pela Igreja de Roma, em sucessivos concílios. Igualmente, nunca foi aceita pelas Igrejas Reformadas. Assim, o cristianismo, de forma praticamente unânime, prega que Deus cria o corpo e a alma simultaneamente. Por isso mesmo, não se pode atribuir uma influência cultural à noção encontrada em crianças sobre a existência nelas de alguma forma de consciência, sentimentos e desejos antes da concepção e nascimento.
Em contrapartida, recente estudo publicado pela equipe da doutora Natalie Emmons, da Universidade de Boston, na revista científica Child Development, sugere que crianças, tanto aquelas educadas em ambiente cristão, como na cultura indígena, demonstram claras intuições da existência de sentimentos e emoções que antecedem a vida física. Estaríamos diante de um conhecimento intuitivo, sem qualquer conotação cultural? A conclusão do estudo é nesse sentido.
A pesquisa
A pesquisa da Universidade de Boston teve como foco a possível existência de alguma forma de consciência antes da vida física. A equipe da Dra. Emmons entrevistou 283 crianças de duas culturas distintas no Equador: a primeira urbana e católica, e a segunda rural e indígena, da tribo Shuar. Segundo a Dra. Débora Kelemen (foto), que também assinou o trabalho, a noção da pré-vida ficou bastante evidente em ambos os grupos, pela interpretação das respostas dadas a partir da exibição de desenhos de mães antes da gravidez, durante a gestação e já com a presença do bebê, após o parto. Pelas respostas e comentários das crianças, o estudo identificou nelas a presença de emoções e desejos anteriores à gestação materna.
A equipe conclui o trabalho afirmando que há nas crianças um sentimento de que elas de alguma forma viviam antes de seus corpos existirem e que isso corresponderia a um “padrão cognitivo universal”, presente no ser humano, independente de cultura, raça ou religião, embora possa desaparecer na idade adulta.
Para saber mais:
Acesse o site onde o histórico e a metodologia da pesquisa estão detalhados:

        



Intuição x Cultura
Versasse a pesquisa da Universidade de Boston sobre crença em Deus ou na sobrevivência do espírito após a morte, caberia a hipótese de que os resultados fossem “contaminados” por noções culturais. Crianças, desde a mais tenra idade, são suscetíveis a incorporar crenças e costumes familiares ou de seu entorno social. Mas o estudo tinha como foco um princípio ainda pouco aceito no Ocidente. Tanto a população urbana do Equador, arraigadamente católica, como a cultura indígena do interior do país, não têm entre suas crenças a de que a consciência individual preexista à vida biológica. Esse dado dá maior credibilidade à pesquisa e, por outro lado, sustenta a conclusão de que as respostas fornecidas pelas crianças são intuitivas.
A intuição é uma forma de conhecimento. Para Einstein, ela é o único caminho para o conhecimento das leis do universo. É possível que as grandes descobertas e invenções que mudaram a história da Humanidade tenham se originado de intuições, só posteriormente racionalizadas e submetidas ao chamado processo lógico de conhecimento.
Mesmo concordando com Einstein ou com Bergson acerca da importância da intuição, é de se convir que a cultura dos povos é tecida por múltiplos fios ligados a interesses sociais, econômicos, religiosos e políticos. De tal forma se alinhavam e se organizam esses interesses que, facilmente, acabam por sufocar intuições e obscurecer aquilo que filósofos idealistas denominam conhecimentos inatos. A pesquisa aqui comentada classificou a noção da preexistência da consciência como um possível conhecimento inato obscurecido por fatores culturais ligados a crenças religiosas ou ao materialismo. Dogmas religiosos, assim como os ideológicos e políticos, terminam por engessar o conhecimento e a ciência de um tempo.
Felizmente, no próprio meio acadêmico, têm se aberto janelas para a adoção de novos paradigmas de conhecimento que rompem com o reducionismo materialista, ali ainda dominante. Seriam sinais precursores de uma nova era, a Era do Espírito, a iluminar a próxima fase da cultura humana? (A Redação).




Valores, Princípios e Ideais
“Não abrirei mão dos valores, princípios e ideais
que forjaram o que sou”.
Ministro Arthur Chioro (do discurso de posse no Ministério da Saúde).

Diferentemente das corporações religiosas, sindicalistas e econômicas, o movimento espírita no Brasil jamais se interessou em formar blocos políticos objetivando a conquista de parcelas de poder.  Isso não significa alienação política dessa fatia significativa de brasileiros. Ao contrário, as pesquisas que segmentam a população a partir das assim chamadas “crenças” dos entrevistados revelam que o contingente espírita no Brasil é justamente aquele de maior escolaridade e de mais efetiva inserção política e social do país.
Toda a visão social e política do espiritismo, no entanto, tem como base sólida uma filosofia que, partindo da realidade do espírito como consciência individual, pugna pelo progresso do ser e da coletividade fundamentado em uma ética de validade universal. Nesta, valores como democracia, transparência, justiça, liberdade, igualdade e fraternidade são tidos como bens soberanos e inegociáveis.  O bem comum, a felicidade geral da nação, nessa perspectiva, tornam-se objetivos centrais de toda a atuação política e administrativa dos agentes detentores do poder estatal.
Por isso mesmo, sempre que um espírita, que não o seja meramente de fachada, mas por convicção e por vivência individual e social, assume posição de destaque no cenário da política e da administração pública, não é o espiritismo, mas a sociedade como um todo, que tem motivos para se regozijar. 
O novo Ministro da Saúde do Brasil, Doutor Ademar Arthur Chioro dos Reis, traz em sua biografia familiar e social a marca da autenticidade espírita. Nascido de família espírita, engajou-se no movimento kardecista desde sua infância. Foi líder de mocidade, dirigente de seu centro espírita, teve e tem destacada atuação no campo da cultura espírita. No âmbito da Confederação Espírita Pan-Americana, entidade da qual foi vice-presidente por largo período, encontrou o terreno ideal para trabalhar com ideias inovadoras. Ali, vem se destacando graças a uma fecunda contribuição ao projeto permanente de atualização do espiritismo. Atualizar, para ele e para a CEPA, significa manter o grande projeto kardeciano em plena sintonia e em aberta colaboração com todos os movimentos culturais, políticos, sociais e científicos que se movam a partir de ideais de progresso e humanismo, visando à felicidade do ser humano.
Quem acompanhou seu discurso de posse no Ministério da Saúde - http://portalsaude.saude.gov.br/images/pdf/2014/fevereiro/03/DISCURSO-DE-POSSE-CHIORO.pdf - pôde sentir o profundo idealismo desse jovem médico e a centralidade de suas preocupações com temas de candente atualidade como: prevenção à mortalidade infantil e materna; combate ao câncer, à AIDS, à dengue, ao tabagismo, às drogas ilícitas; tratamento e assistência aos doentes psiquiátricos, e tantos outros desafios de sua área, neste país tão gigantesco e com tantas carências no campo da saúde pública. Quem, no entanto, conhece pessoalmente, o novo Ministro da Saúde, como é o caso de seus parceiros espíritas ligados à CEPA e à CEPABrasil, sabe de seu efetivo dinamismo e da permanente concretude de suas ações no sentido daquilo que ele classifica como seu compromisso “radical” em defesa da vida  e da dignidade do ser humano. Como assinalou em seu pronunciamento, “viver com saúde e liberdade, ser protagonista de nossas próprias vidas é um direito de cada um de nós, independente de cor, sexo, orientação sexual, ser portador de deficiência, de transtorno mental, ou qualquer outra situação. Simplesmente porque somos seres humanos, somos cidadãos”.
Numa cultura onde nem sempre o discurso corresponde às reais intenções, poderá a maioria da população entender essas palavras como meramente protocolares do novo Ministro Arthur Chioro. Para quem, no entanto, como nós, conhece a alma e o coração do amigo e irmão Ademar, fica a convicção de que ele, no elevado cargo a que foi guindado, realmente, jamais abrirá mão dos valores, princípios e ideais que forjaram aquilo que ele é.
Atuar em setor da política e da administração pública de tamanha abrangência, como o é aquele em cuja titularidade foi investido nosso Ademar, implica, necessariamente, em adequar-se a projetos que extrapolam o mero idealismo pessoal. A adesão a um projeto político e administrativo pressupõe o comprometimento com um plano governamental onde decisões pessoais necessitam submeter-se a instâncias situadas fora do estrito campo individual. Mesmo assim, a condição de ministro de governo, justamente de um setor que envolve necessidades vitais do cidadão e das comunidades, oferece ao agente público uma oportunidade ímpar para o exercício daquelas qualidades inscritas no seu personalíssimo patrimônio intelectual e moral. Isso, sem dúvida, faz a diferença tratando-se de um personagem com as qualidades do novo Ministro da Saúde, já testadas em outros cargos ocupados e testemunhadas por todos quantos com ele pessoalmente e familiarmente conviveram, em especial seus amigos e companheiros espíritas.
          No exercício do elevado cargo que esse companheiro acaba de assumir, onde, sem poder fazer tudo o que idealiza e deseja, terá de eleger prioridades e escolher opções politicamente adequadas, devem acompanhá-lo o apoio e as vibrações de todos os homens e mulheres de bem, e, particularmente, da comunidade espírita do Brasil.

   O novo Ministro da Saúde traz em sua biografia familiar e social
  a marca da autenticidade espírita.


         



Barbárie e civilização
Tem coisas que a gente entende, mas não pode justificar. Talvez uma boa forma de distinguir civilização de barbárie venha daí. Ou seja: o ser civilizado é capaz de entender os atos de barbárie. Entretanto, diante dos valores coletivamente conquistados e individualmente introjetados, não há como justificá-los.
Este início de ano, no Brasil, tem se caracterizado por alguns exemplos bastante significativos desse embate entre civilização e barbárie. No Rio de Janeiro, um garoto de 15 anos ao ser apanhado por populares numa tentativa de assalto, foi amarrado a um poste, sem roupa, e ali deixado por várias horas. A notícia correu o país e, logo, logo, em vários outros pontos, aconteceram cenas semelhantes: suspeitos de roubos foram linchados por populares que se dizem cansados da impunidade com que são tratados presumíveis delinquentes que infestam nossas cidades.
Justiceiros e vândalos
Há alguns sinais de que o estado de barbárie tenta se sobrepor  ao estado de Direito. Sem mostrar o rosto, representantes de grupos organizados de “justiceiros” já dão entrevistas detalhando seu “modus operandi” para o cumprimento sumário da “justiça” que dizem não ser feita pelo Estado. De outra parte, na onda de manifestações democráticas que reclamam legítimos direitos ainda sonegados à maioria dos cidadãos do país, vândalos destroem o patrimônio público e privado e atentam contra a vida de inocentes, como foi o caso recente que matou um cinegrafista da TV Bandeirantes. Com esse episódio, inclusive, começam a se levantar dados apontando para a existência de grupos organizados que aliciam e remuneram pessoas, com o único intuito de espalhar o terror e a destruição. Nesse caso, não dá sequer para entender, muito menos para justificar.
Ontem e hoje
Não faltam, diante de episódios como os que estamos a assistir, vozes pregando a iminência do caos. “Nunca houve tanta violência”, dizem. “Nunca o ser humano foi tão mau”, apregoam. Um retrospecto, por menos aprofundado que seja, da História, mostra que não é bem assim. Não é por outra razão que se qualificam como “medievais” procedimentos que o Estado ou a religião adotavam como regras contra o indivíduo, há não mais de 300, 400 ou 500 anos atrás. Não por outro motivo, classificamos como “bárbaras” as relações familiares ou sociais, vigentes em eras mais recuadas de nosso processo evolutivo. O reconhecimento dos atributos de “cidadania” é coisa muito recente, na nossa civilização. Pessoas com algumas dezenas de anos de vida, como é o meu caso, viveram, todos e sem exceção, tempos de muito mais injustiça produzida pelo Estado, pela sociedade, pelas famílias e pelos indivíduos, do que nos tempos de hoje.
Progresso é lei
À luz do espiritismo, progresso é lei. O simples reconhecimento dos direitos individuais e sua institucionalização nos estatutos legais dos países democráticos, como o nosso, representam avanços morais de relevante significado. São conquistas do Espírito na sua saga em busca da justiça, da felicidade, da harmonia social e da paz para todos. É preciso, porém, acreditar na capacidade de os entes sociais que nós próprios integramos se organizarem politicamente e darem cumprimento aos sentimentos de justiça que gritam na alma de cada um. Transformar esses genuínos sentimentos em atos individuais de punição ao infrator – a chamada “justiça pelas próprias mãos” – é transmudá-los em atos de abjeta vingança, compatíveis com a barbárie e em sentido oposto à civilização. Aplaudir os que assim fazem é igualar-se a eles, engrossando o caudal de insanidades, incompatíveis com os avanços já obtidos. É preciso, hoje, dar ao tempo o tempo que nós próprios, ontem, desperdiçamos.

 


A Questão das Biografias
Eugenio Lara - Editor do PENSE - Pensamento Social Espírita [www.viasantos.com/pense], membro-fundador do Centro de Pesquisa e Documentação Espírita (CPDoc) e autor do livro Breve Ensaio Sobre o Humanismo Espírita. E-mail: eugenlara@hotmail.com/.

A polêmica acerca da regulamentação para publicação de biografias autorizadas e não-autorizadas vem se arrastando há anos no Brasil e a cada dia ganha novas nuances. Trata-se de uma questão que interessa diretamente aos espíritas porque, desde que o Espiritismo foi fundado, é tradição no meio espírita a produção de biografias.
O escritor francês Henri Sausse (1851-1928), primeiro biógrafo do pedagogo francês Hippolyte Léon Denizard Rivail, mais conhecido como Allan Kardec, foi um dos pioneiros.
De lá para cá, mais e mais biografias vem sendo publicadas. No Brasil, pode-se dizer que possuímos uma tradição espírita no campo biográfico. Carlos Imbassahy, Sylvio de Britto Soares, Antonio de Sousa Lucena, Paulo Alves Godoy, Herculano Pires, Eduardo Carvalho Monteiro, Jorge Rizzini, Zeus Wantuil etc. etc. e tantos outros nos dias atuais, contribuíram e contribuem para a construção de uma cultura espírita biográfica no Brasil. Os franceses Gaston Luce e André Moreil se destacam nesse campo, assim como Jon Aizpúrua, na Venezuela e Humberto Mariotti, na Argentina. O jornalista Marcel Souto Maior, que não é espírita, vem também se sobressaindo nesse gênero, pela publicação das excelentes biografias de Allan Kardec e Chico Xavier.
A biografia é um gênero literário que vem ganhando espaço graças à cultura do espetáculo, do culto às celebridades. O volume de biografias escritas nas últimas décadas é incalculável. Nunca houve tantos ghost-writers, nunca se produziu tanta biografia, ainda considerada gênero menor pelos críticos literários e desprezada por historiadores, que a veem mais como literatura do que como fonte histórica fidedigna.
Graças aos jornalistas e à qualidade de suas pesquisas, a biografia hoje vem conquistando no Brasil seu lugar merecido, que lhe concede o status de obra maior, equiparada a outras formas consagradas da Literatura e a estudos sérios na área da História e da Comunicação.
Esse rico processo criativo pode ser interrompido, jogando assim o gênero biográfico para as calendas, se não for aprovado o Projeto de Lei 393/11, em trâmite na Câmara, que define a plena liberdade de expressão para elaboração e publicação de biografias, sem autorização prévia, sejam de qual natureza for.
Por incrível que pareça, artistas célebres e consagrados que sempre lutaram pela liberdade (“é proibido proibir”, “a imaginação no poder”), pelos direitos civis, agora se voltam contra esses mesmos ideais, em nome da preservação absoluta da privacidade, como se fossem seres especiais, acima do bem e do mal. Apegam-se ao prolixo e aberrante artigo 20 do Código Civil, que prevê censura prévia a biografias ofensivas à honra e privacidade do biografado, um dos muitos legados perniciosos do governo Fernando Henrique Cardoso, que sancionou essa lei esdrúxula em 10 de janeiro de 2002. Tal lei contraria frontalmente o artigo 5, alínea IX da Constituição Federal de 1988, que prevê plena liberdade de expressão: “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”.
Chico Buarque, Erasmo Carlos, Caetano Veloso, Djavan, Gilberto Gil, Jorge Mautner se uniram a Roberto Carlos no Grupo Procure Saber, liderado pela empresária e promoter Paula Lavigne, ex-mulher de Caetano, para defender direitos autorais e combater a publicação de biografias não-autorizadas. O grupo rachou, não resistiu à pressão da imprensa e das redes sociais. Roberto se retirou. Erasmo saiu como entrou, mais na onda do amigo e Chico Buarque, permanece em cima do muro. Jorge Mautner e Djavan, sem se preocupar tanto assim com a privacidade, desejam mesmo é que o biografado receba uma polpuda porcentagem da venda de biografias.
Se de um lado esse episódio patético demonstra que nossos ídolos são apenas pessoas e que têm todo o direito de assumir posicionamentos mesquinhos e medíocres, por outro lado, traz à tona a questão da liberdade de expressão, condição maior da liberdade de pensamento e de consciência.
No Espiritismo, liberdade de pensamento é ingrediente imprescindível ao progresso intelecto-moral, sem o qual, permaneceríamos indefinidamente no reino da barbárie. Todo e qualquer obstáculo à liberdade de expressão, de consciência, é um golpe contra a cultura, o conhecimento e liberdades civis, é falta de caridade e de tolerância. Segundo a Filosofia Espírita “a liberdade de consciência é uma das características da verdadeira civilização e do progresso”. (Allan Kardec - O Livro dos Espíritos, q. 837).
Qualquer obstáculo à liberdade de expressão, ao progresso, deve ser repelido e, portanto, os espíritas devem se somar a essa luta e apoiar, individualmente ou através de suas instituições, esse Projeto de Lei, que define critérios claros para a publicação de biografias, evitando a censura prévia e garantindo assim a liberdade de expressão.






Reinício das Atividades do CCEPA
Na tarde do dia 12 de março, reiniciam as atividades dos Grupos de Estudos Doutrinários que se reúnem às quartas-feiras à tarde (15 horas) para estudos regulares de Doutrina Espírita, na sede do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre. As atividades estiveram suspensas no período de férias de verão de janeiro e fevereiro.
 Também, a partir deste mês de março, voltam à plena atividade as reuniões das sextas-feiras, às 15h, tendo por objeto o estudo analítico de O Livro dos Espíritos, examinado e debatido questão por questão, sempre num enfoque atualizado e livre-pensador. Este grupo é aberto também a visitantes.
A partir de abril, retornará programação de palestras públicas, uma vez por mês, nas quartas-feiras, no horário dos grupos de estudos.

Educação, Espiritualidade e Transformação Social
 A Associação Brasileira de Pedagogia Espírita (ABPE) está convidando para o  2º Congresso Internacional de Educação e Espiritualidade e o 5º Congresso Brasileiro de Pedagogia Espírita, eventos que terão lugar de 17 a 20 de abril, no Centro de Convenções Rebouças, em São Paulo.
O tema central é “Educação, Espiritualidade e Transformação Social”, contando com a presença de expositores nacionais e internacionais.
A abertura será a peça “Gandhi, um líder servidor” com João Signorelli, sendo, a seguir debatidos temas como “Espiritualidade e Educação para a Paz”, “Espiritualidade e Educação na Universidade”, “Pensamento Social Espírita”, assim como se analisará a contribuição das ideias de educadores e filósofos como Rousseau, Pestalozzi, Comenius, Paulo Freire, Rudolf Steiner e outros luminares do pensamento sobre o tema.
Para a pedagoga Dora Incontri, da Associação Brasileira de Pedagogia Espírita, que está à frente da realização desse importante evento, “o resgate da espiritualidade na Educação deve ser pensado no contexto da sociedade contemporânea, com suas injustiças, intolerâncias e exclusões, de que a escola tradicional faz parte com seu sistema formatador de consciências”. Segundo Dora, “não podemos aderir a uma suposta espiritualidade que favoreça a alienação dos prementes problemas sociais que assolam o planeta e se encaminhe pelo obscurantismo fanático e intolerante”. Assim, o evento de abril, no Centro de Convenções Rebouças, estará em busca de respostas a esta fundamental indagação:
Como fazer uma educação que contemple o ser em sua integralidade, proporcionando-lhe ao mesmo tempo a oportunidade de transcendência e a ação transformadora do mundo?

          Para mais informações: Telefone (11) 2537 8973, ou pelo e-mail: congresso@pampedia.com.br/ ou, ainda, através do site: www.educacaoespiritualidade.com/






O médium católico
Sobre o médium Pedro Siqueira (coluna Opinião em Tópicos da última edição), já o vi em entrevistas ou palestras, não lembro bem, mas ele é fantástico! A mediunidade vem com cada um desde que nascemos. Em uns mais desenvolvida que em outros. O importante é saber direcioná-la para o bem de todos e de si próprio. Por isso que se diz que mediunidade não tem religião.
Araci Silva – Santa Catarina (comentário em www.espiritbook.com.br , onde a coluna foi reproduzida).