quarta-feira, 3 de abril de 2013

OPINIÃO - ANO XIX - Nº 206 - ABRIL 2013


Uma tumultuada relação:
Religião x Direitos Humanos
A eleição do deputado e pastor evangélico Marco Feliciano para presidir a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal reacende, no Brasil, velhas polêmicas entre direitos civis e posições teológicas fundamentalistas.

Racista e homofóbico preside CDHM
Deputado federal eleito pelo Partido Social Cristão – PSC -, Marco Feliciano (foto) é também pastor da Igreja Assembleia de Deus. Recentemente guindado à presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal, o pastor deputado vem recebendo de ativistas dos Direitos Humanos muitas críticas. Sua biografia registra episódios de manifestações explícitas de racismo e homofobia, sustentadas por suas convicções religiosas. 
Marcos Feliciano postou, certa vez, em seu twitter que “os africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé”. Para ele, a maldição bíblica lançada por Noé a seu neto Canaã “respinga sobre o continente africano, daí a fome, pestes, doenças e guerras étnicas”. Em outro post, diz que “a podridão dos sentimentos dos homoafetivos levam (sic) ao ódio, ao crime e à rejeição”.
Tão logo conhecida a eleição de Marco Feliciano para presidir a Comissão de Direitos Humanos e Minorias, protestos passaram a acontecer, tornando fortemente tumultuadas as reuniões da Comissão, na Câmara dos Deputados. Inclusive, o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil – CONIC – terminou por pedir o afastamento de Marco Feliciano da Comissão, em nota pública de repúdio a suas declarações racistas. Outras representações religiosas, no entanto, o têm apoiado, sob o argumento de que suas declarações estão perfeitamente respaldadas na Bíblia. O CONIC é composto por Igrejas cristãs mais tradicionais, como a Católica, a de Confissão Luterana e a Episcopal Anglicana do Brasil.

Enquanto isso, em Roma...
A eleição, dia 13 de março último, do cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio como novo Papa, com o nome de Francisco, abre perspectivas de mudanças na Igreja Católica. Considerado um “conservador moderado”, o novo pontífice assumiu concitando seus fiéis à retomada de valores morais ligados à doutrina cristã, mas nem sempre praticados por sua cúpula, tais como: o desapego de bens materiais, o perdão das ofensas, a tolerância e a fraternidade. Prega uma igreja pobre voltada, preferencialmente, para os pobres. Tais aspectos, se efetivamente assumidos, reaproximam a Cúria Romana da ala que defendeu a Teologia da Libertação, ostensivamente combatida pelos últimos chefes da Igreja. No campo específico dos direitos humanos, entretanto, subsistem dúvidas quanto à biografia do novo Papa. Ele é apontado por alguns biógrafos como tendo colaborado com as forças de repressão da ditadura militar em seu país. Tanto no Brasil como na Argentina, setores conservadores da Igreja prestigiaram as ditaduras militares, sob o argumento do combate ao comunismo. Já a Teologia da Libertação se caracterizou por uma forte ação contra a violação dos direitos humanos patrocinados pelos governos militares.
Presentemente, algumas práticas, como união ou casamento de pessoas do mesmo sexo, o uso de preservativos, a plena igualdade de direitos entre homens e mulheres, inclusive no seio da Igreja, a ampliação da licitude para algumas hipóteses de aborto, têm posto em confronto ativistas de direitos humanos e a Igreja Católica.  Junto a esta, mas sempre em nível bem mais ostensivo, políticos ligados a igrejas evangélicas pentecostais e neopentecostais, e que experimentam grande avanço no país, assumem posições ultraconservadoras, graças ao espaço político conquistado. É nesse contexto que se insere o Pastor Marco Feliciano, Deputado Federal eleito para presidir a CDHM.





Onde devemos nos situar?         
Valores bíblicos nem sempre combinam com direitos humanos. Ao contrário, foi sempre em nome daquilo que os religiosos classificaram como a palavra de Deus, que a Igreja, historicamente, discriminou mulheres e homossexuais, execrou etnias, provocou torturas e genocídios, assumiu claras posturas escravocratas, combateu a liberdade de pensamento e crença, condenou a separação entre Estado e Igreja, etc.
A Reforma Protestante se, de um lado, permitiu interpretações bíblicas mais livres, dando ambiente ao pluralismo religioso, por outro, abriu caminho para a formação de igrejas mais conservadoras e fundamentalistas. O fundamentalismo religioso, no atual cenário especialmente da América Latina, com destaque para o Brasil, medra e se desenvolve no seio de um amplo campo popular, onde o acesso à educação e ao esclarecimento político é ainda limitado e escasso. Aí, nascem e se reforçam lideranças políticas que se autodenominam representações de Deus. Nessa condição, e no vácuo de um fisiologismo político difícil de ser superado pelo Estado brasileiro, reeditam comportamentos diametralmente opostos a uma política de direitos humanos fundada em conceitos humanistas, conquistados, quase sempre, contra a religião.
A Igreja Católica, graças aos valores seculares e humanistas já assimilados no curso de sua longa e tumultuada história, aos poucos vai se adaptando à modernidade. Lideranças com níveis de cultura e de inserção político/social como o cardeal Bergoglio, agora guindado ao Papado, oferecem expectativas de mudanças em favor da plena aceitação e vigência de direitos humanos recém-emergentes e que combatem históricos preconceitos, alimentados pela fé religiosa.
De qualquer sorte, aqueles segmentos verdadeiramente progressistas, laicos e livre-pensadores, onde devem estar inseridos os espíritas, precisam se manter atentos para que retrocessos como os propostos pelo Deputado e Pastor Feliciano sejam, de fato, abortados. (A Redação)





Para além da Liturgia 
e do Poder
"Na religião o que há de real, essencial, necessário e eterno é o Cerimonial e a Liturgia - e o que há de artificial, de suplementar, de dispensável, de transitório é a Teologia e a Moral." - Eça de Queirós.

Fosse quem fosse, o escolhido como novo Papa, dentre os 119 cardeais participantes do conclave, naquele 13 de março, a multidão presente na Praça de São Pedro explodiria em aplausos, ao seu anúncio.
O aparecimento da fumaça branca na chaminé da Capela Sistina, em qualquer circunstância, encontra a massa em estado de quase êxtase. Gritos, choros, risos... Uma explosão de patéticas emoções é registrada, no momento em que o mais velho dos cardeais proclama “Habemus Papam”, declinando, a seguir, o nome do eleito.  A partir de então, seja ele quem for, merecerá o tratamento de “Santidade” e tudo o que em nome da fé disser, estará revestido de verdade, porque a infalibilidade o acompanhará na vida, até a morte ou até a uma eventual renúncia.
Assim foi e assim continua sendo numa sociedade movida pela espetacularização e que, segundo o pensador Wilson Garcia (leia sua crônica na última página desta edição), não sobrevive sem a presença de fortes signos icônicos. A Igreja sabe disso e, valendo-se da condição, historicamente construída, de administradora e guardiã do sagrado, utiliza-se largamente da simbologia, do fausto, do mistério e da pompa, em circunstâncias assim. Isso também é garantia de prestígio e de poder.
Estaria o Papa Francisco disposto a quebrar essas tradições? Deseja mesmo, conforme sugerem algumas de suas primeiras atitudes como novo pontífice, abrandar as pompas, reduzir o luxo, tornar, enfim, mais simples a instituição que dirige? E, se realmente o quer, conseguirá? Não estarão esses signos e práticas de tal forma entranhados na alma da Igreja e de seus fiéis a ponto de tornar impossível sua remoção? Talvez sejam, em suas instâncias superiores, bem mais fortes as correntes desejosas da manutenção deste “status quo”, em sentido contrário, pois, ao expresso desejo do novo chefe. Provavelmente, também a grande massa de fiéis prefira o luxo à pobreza, o mistério à verdade, a pompa à simplicidade. Entre nós, o carnavalesco Joãozinho Trinta celebrizou o conceito de que quem gosta de miséria é intelectual. Povo, dizia, gosta mesmo é de luxo. Valeria isso também para o autodenominado “povo de Deus”?
Todas essas questões interessam vivamente a nós, espíritas. Diversamente das igrejas e das religiões, buscamos uma espiritualidade sem ritos e liturgias, sem pompas nem sacerdotes, privilegiando a essência sobre a simbologia, o livre pensamento em vez do dogma. Reconhecemos que há, também na Igreja, setores com essa tendência. Mas até que ponto serão capazes de enfrentar todo o aparato histórico construído sob aquela pesada atmosfera? As instâncias de poder ali sobrepostas teriam levado o anterior Papa à renúncia, confessando-se sem forças para cumprir sua tarefa. Se para seu antecessor, o essencial estava na teologia e na disciplina institucional, Francisco demonstra privilegiar o exercício de virtudes como simplicidade e solidariedade.
Eça de Queirós pode ter sido demasiadamente cáustico ao afirmar ser a moral sempre secundária na religião que privilegiaria, ao contrário, o cerimonial e a liturgia. Não se duvida, entretanto, de que pompa e poder tendem a sufocar a mensagem, tal como o joio o faz com o trigo.
Só a História há de demonstrar a que norte Francisco poderá levar sua Igreja. Se sua política e os resultados concretos de suas ações contrariarem a afirmativa do autor de “O Crime do Padre Amaro”, a espiritualidade terá avançado sobre a religião. E nós, espíritas, saudaremos esse avanço.




         

Deus nos livre!
Circulou na Internet, numa das listas de debates de que participo, um texto com o título de “Deus nos livre de um Brasil Evangélico”. O artigo vinha assinado por Ricardo Gondim, um sujeito que eu não sabia quem era. Fui ao Google e fiquei sabendo: Trata-se de um ex-pastor evangélico, que, lá pelas tantas, resolveu deixar o movimento. O motivo da ruptura, segundo declarou na oportunidade, era que não admitia pertencer a “qualquer tradição, escola ou cânone” que cerceassem sua “capacidade de arrazoar”, ou que lhe impusessem a “obediência servil”. Dissera, ainda, que passaria a admitir unicamente “a consciência” como capaz de “chancelar” sua vida. Um ato de coragem para quem, até então, estivera engessado pelos dogmas bíblicos e aprisionado a algumas ideias retrógradas que seguem fazendo a cabeça de quantidade cada vez maior de gente, neste país já profetizado como “coração do mundo” e que está, mesmo, se transformando em “pátria dos evangélicos”.
         
O Brasil evangélico
No artigo que agora caiu na rede, Gondim, já fora do movimento, diz ver com muita apreensão esse avanço evangélico no país. Pergunta: Como seriam, num Brasil evangélico, tratados um Ney Matogrosso, Caetano Veloso ou Maria Gadu? Que destino teriam poesias sensuais como “Carinhoso”, de Pixinguinha, ou “Tatuagem”, de Chico? Nas Universidades, teoriza o autor, seria proscrito Darwin, se proibiria a leitura de Nietzsche e de Derrida. A política, a exemplo do que já ocorre com a bancada evangélica, seria dominada pelo fisiologismo. A cultura morreria, porque manifestações folclóricas como a do bumba-meu-boi e do frevo não caberiam dentro do estado teocrático evangélico.

Vai passar...
Alguns companheiros debatedores fizeram comentários com o mesmo tipo de preocupação. Aqui no meu cantinho, fiquei quieto, mas pensei: Bobagem! Isso não vai acontecer no Brasil. O Ocidente cristão está imunizado contra o estado teocrático. A História não volta para trás, malgrado as iniciativas nesse sentido. Elas produzem efeito nas camadas mais carentes social e culturalmente, porque adotam um formato compatível com a sociedade de consumo. O apelo de que você aceita “Jesus como único Senhor e Salvador” e, a partir daí, a fortuna, o amor, o poder, a saúde e tudo o mais que deseja deste mundo lhe caem aos pés, tem se mostrado eficiente. Multidões são, assim, arrebanhadas. Ambiente ideal para políticos oportunistas.
Mas, isso vai passar. Há uma parte boa da sociedade, com forte poder de reação. É a que protesta, por exemplo, contra a eleição de um deputado pastor à presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal. Mas, esse marketing religioso tende a enfraquecer ao natural. Como dizia o velho Lincoln: “Pode-se enganar a todos por algum tempo; pode-se enganar alguns por todo o tempo; mas não se pode enganar a todos o tempo todo”.

Laicismo e humanismo
O progresso das ideias e dos costumes é uma coisa avassaladora. Há uns 30 anos, quando passou a se intensificar essa onda pentecostalista no Brasil, as crentes andavam com saias pelas canelas e cabelos descendo à cintura. Agora, que as Igrejas comandam televisões e patrocinam grandes shows musicais, seus hábitos também se secularizam, tragados pela modernidade. A tendência da sociedade moderna, e, logo, do Estado, é a total laicização. Está aí o novo Papa dizendo, da sacada de seus aposentos: “Bom dia”, “bom almoço”, no lugar de “Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo”. É a sociedade laica, e não as religiões, que pautam os costumes e o comportamento de nosso tempo. Se as religiões quiserem sobreviver, terão que se dobrar à laicidade dos costumes, das ideias, do discurso e também da moral. Esta se aprimora na medida em que se liberta do sagrado, da revelação, e é reconhecida como naturalmente humana e universalmente válida. É nesse contexto que uma espiritualidade fundada na razão e no livre-pensamento desbravará caminhos.
Espiritualistas livre-pensadores e humanistas, não temamos. O futuro nos pertence!






A Notícia

FEB editará tradução – O Novo Testamento
Haroldo Dutra Dias, tradutor de “O Novo Testamento”, obra lançada no ano de 2010 e esgotada, assinou contrato com a Federação Espírita Brasileira para cessão dos direitos autorais e patrimoniais da obra “O Novo Testamento (Evangelhos e Atos)”, a qual será lançada pela Editora FEB na segunda quinzena do próximo mês de abril. A assinatura do documento, com Haroldo e o presidente interino da FEB Antonio Cesar Perri de Carvalho, ocorreu no último dia 16 de fevereiro durante reunião do Núcleo de Estudo e Pesquisa do Evangelho da FEB, do qual o tradutor é coordenador.

Fonte: http://www.febnet.org.br/blog/geral/pesquisas/nepe/feb-editara-traducao-o-novo-testamento/

A crônica

Crônica do sagrado
WGarcia
(Wilson Garcia é escritor e jornalista. Mestre em Comunicação e Mercado,
Professor da Faculdade Maurício de Nassau, Recife, PE.)

Sérgio mora em São Paulo, mas o vejo sempre pelo Skype... Ontem, achei-o um pouco desenxabido, daquele tipo que fica olhando para o lado como quem quer fugir de uma conversa mais franca.
Interessante, o virtual já se misturou com o real de tal maneira que as pessoas estão repetindo na imagem o comportamento que expressam no face-a-face e o virtual está tão high definition que se torna quase natural perceber essa nova realidade.
Sem me conter, indaguei: que há contigo?
Desculpou-se três vezes, antes de abrir-se. Estava decepcionado, pois acredita na mudança, na necessidade da mudança, no dever da mudança, no movimento que implica mudança já que a roda da evolução só gira para frente.
Não entendi, disse.
Enfim, desabafou: hoje li a notícia do fechamento pela FEB do contrato para a publicação da Bíblia. Isto é o fim de toda minha esperança de transformação no destino da velha instituição. No que devo acreditar, qual é o significado do novo se o novo repete o velho?
Ouvi-o por cerca de dez minutos, a desenrolar o seu imenso corolário de justificativas. E vi sua face tensa, triste, doída.
-Não precisa repetir-me os seus avisos, falou-me. Agora entendo.
Sérgio calou-se. Foi minha vez de falar.
O problema do novo é o novo. É difícil representá-lo, ser o porta-voz dele, encarná-lo. Onde está o novo? No espírito? Mas o espírito para ser o novo não pode ser apenas retórica e argumentos.
O problema do homem que se autoproclama representante do novo é deixar-se ver apenas em sua complexidade imagética: nos olhos, na face, na expressão corporal, detalhes do visível recortado iconicamente.
O discurso do homem-imagem pode ser o discurso da esperança, mas quando a realidade o confronta vê-se que a esperança dele não é a do homem novo. A imagem padece de conformidade com (ao negar) a realidade, e não a nega apenas pelo conteúdo ilusório que lhe é próprio, mas pela ilusão acrescida, deliberada, intencional.
O novo não é naturalmente inclusivo, não está nem faz parte por ser o novo. Sua inclusão se dá pela ação que decorre da convicção firmada. O discurso é a promessa, que a imagem incorpora magistralmente, e muito mais no cotidiano tecnológico de nosso tempo.
Quando o homem-imagem-discurso descobre o prazer da fantasia e a espetacularização o projeta socialmente, apodera-se da ilusão imagética para aumentar o fascínio do outro, alimentando-a com a retórica do novo, da mudança, infundindo no outro a falsa esperança.
É por isso que o homem-imagem não pode mais prescindir desse signo icônico. Sem ele, ver-se-ia despido, nu, transparente e nem sempre o nu é arte.
Há duas maneiras de interpretar a imagem: uma mais segura e muito difícil, decorre da análise semiótica e para ser realizada exige especialização; outra, mais fácil e também mais dolorosa, chega-nos pelos veios pedregosos da desilusão. É quando a realidade contorna a imagem e se mostra em sua própria nudez.
O homem-imagem sabe que está sempre em perigo, pois participa de um jogo onde a imagem persegue a realidade e a realidade só se deixa aprisionar em seus nacos mutáveis. Quando um flagrante do real é registrado, no instante seguinte a realidade já não é mais aquela.
A imagem sobrevive na duração, a realidade existe para além do tempo. A primeira resulta intencional, a segunda está acima de qualquer suspeita.
Quando, pois, o homem-imagem, apesar de comprometido na origem com o novo, age para manter o velho como a FEB ao propor-se a editar a Bíblia, meu caro Sérgio, o que deixa à mostra? A impossibilidade de dominar a realidade.
Ah, não se esqueça de uma coisa: a ilusão é elemento intrínseco à imagem e não à realidade.





CCEPA – 77 Anos
Neste mês de abril, o Centro Cultural Espírita de Porto Alegre (ex-Sociedade Espírita Luz e Caridade) completa 77 anos de fundação.
Será uma oportunidade para quem quiser conhecer as origens, a história, as ideias e as transformações vividas por esse núcleo do pensamento espírita, fundado no ano de 1936, no tradicional bairro porto-alegrense do Menino Deus, onde até hoje está situado. Na noite de 19 de abril (sexta-feira), às 20h, uma mesa redonda, coordenada pelo presidente do CCEPA, Milton Medran Moreira, e da qual participarão seus mais antigos dirigentes, Maurice Herbert Jones e Salomão Jacob Benchaya, vai marcar o evento. O encontro é aberto a todos os interessados.
Além dos associados e colaboradores do CCEPA, já asseguraram presenças: Dante López, presidente da CEPA e esposa; Gustavo Molfino (3ºvice-presidente da CEPA); Mauro de Mesquita Spínola (2º vice-presidente); Alcione Moreno (presidente da CEPABrasil); e mais os delegados da CEPA: Jacira Jacinto da Silva (São Paulo), Homero Ward da Rosa e esposa (Pelotas), José Budó e esposa (Santa Maria) e Margarida Nunes (Florianópolis). Todos estarão participando, no sábado, dia 20, de uma reunião administrativa conjunta da CEPA e CEPABrasil, que terá por sede o Centro Cultural Espírita de Porto Alegre.

Atividades Públicas de Abril e Maio no CCEPA
Além da sessão comemorativa ao aniversário da instituição (dia 19, às 20h), o Centro Cultural Espírita realiza, no mês de abril, as seguintes atividades também abertas ao público:

Dia 1º - 20h30 – Conferência “Fenômenos Paranormais”, a cargo de Aureci Figueiredo Martins;
Dia 17, 15h – Conferência “Espiritismo e Ciência”, com Salomão Jacob Benchaya.

Segue aberto à participação de estudiosos do espiritismo, nas sextas-feiras, às 15 horas, o grupo formado para o Estudo Analítico de O Livro dos Espíritos, uma reflexão crítica e atualizada, coordenada por Salomão Benchaya, da principal obra de Allan Kardec.

No dia 6 de maio, às 20h30, e também dia 15/5, às 15h, você está convidado a assistir à conferência do Prof. Moacir Costa de Araújo Lima “Quântica, Espiritualidade e Saúde”, no auditório do CCEPA, com sessões de autógrafos de seu livro que leva o mesmo nome.






Depois da tragédia (1)
Sobre a matéria de capa de CCEPA-Opinião de março, depois de tantas mensagens irracionais tentando dar a interpretação espírita à tragédia de Santa Maria, eu aguardava a criteriosa análise de vocês. Imaginei que não deixariam sem resposta. Bom texto, como sempre.
Eneida Barreto Pereira – Santos/SP

Depois da tragédia (2)
Todas as edições do jornal “Opinião” são muito instrutivas e boas. Mas, na edição de março, vocês se superaram.
As análises profundamente esclarecedoras sobre as causas da tragédia de Santa Maria ajudam, e muito, na correta compreensão da Doutrina Espírita, resgatando-a de interpretações equivocadas sobre a Lei de Causa e Efeito. No fundo, essas inconsistências refletem os dogmas cristãos que aprisionam em culpas, tudo muito distante da boa lógica kardecista.
Foram também oportunas e sensatas, as considerações sobre o novo Papa e o milenar cerimonial que o elegeu. Que venha o novo, não apenas nas necessárias reformas morais, mas também nas antiquadas práticas vaticanas. Um abraço grato por sempre aprender com vocês!
Nícia Cunha – Cuiabá/MT                                                                       

Simplesmente, humano
Caro Medran, gostaria de parabenizá-lo pelo excelente artigo sobre a renúncia de Bento XVI (“Simplesmente, humano”), publicado no jornal Zero Hora e que foi, também, editorial de CCEPA Opinião de março. Aproveito para cumprimentar o Centro Cultural Espírita pela ótima diagramação de seu blog – www.ccepa.blogspot.com .
Grato, igualmente, pela oportunidade de expor minhas reflexões (artigo A Crise da Civilização Atual) a um público tão especial e seleto, como o é o dos leitores deste jornal.
Gláucio Grijó – Brasília/DF.

domingo, 10 de março de 2013

OPINIÃO - ANO XIX - Nº 205 - MARÇO 2013


Hora de apurar causas e responsabilidades
Depois da tragédia
Após o incêndio da Boate Kiss que vitimou cerca de 240 jovens, a maioria deles universitários, na cidade gaúcha de Santa Maria/RS, sob forte pressão social o Poder Público apura as causas da tragédia prometendo responsabilizar todos os culpados. Enquanto isso, surgem no meio espírita teses conectando o dramático episódio a culpas coletivas do passado a serem resgatadas pelas vítimas. Seria essa uma interpretação legitimamente espírita?

Auschwitz-Santa Maria?
Quem vislumbra, invariavelmente, em tragédias como a de 27 de janeiro, um nexo direto de culpa das vítimas com o evento e seus detalhes aponta dois dados concretos que parecem ir além de mera coincidência: 1º - o incêndio da casa noturna aconteceu justamente no Dia da Memória do Holocausto; 2º - o gás responsável pela intoxicação das vítimas era o mesmo utilizado pelos nazistas nos campos de concentração onde ocorreu o genocídio de milhões de judeus, na primeira metade do Século XX.
A tese do resgate coletivo por obra de meticulosa ação da “espiritualidade”, que reúne, num mesmo lugar, criminosos de ontem para se tornarem vítimas de iguais sofrimentos causados a terceiros em outras encarnações, já foi levantada, diversas vezes, no meio espírita brasileiro. A mais conhecida consta de psicografia de Chico Xavier de texto atribuído ao espírito Humberto de Campos. Veio à tona em 1961, quando do incêndio de um circo em Niterói, RJ, do qual foram vítimas mais de 500 pessoas, a maioria crianças. Pela versão, todos os mortos de Niterói estariam comprometidos por terem participado do martírio em massa de cristãos, também pelo fogo e também num circo, do Império Romano, então governado por Marco Aurélio, no ano de 177.
Da mesma forma, o incêndio do Edifício Joelma (São Paulo/1974) ganhou idêntica versão, atribuindo-se às suas vítimas culpas contraídas como partícipes das Cruzadas.

Manuel Porteiro: tese é contrária à lucidez espírita.
O argentino Manuel S. Porteiro, em sua apreciada obra “Espiritismo Dialético” levantou séria oposição à tese de que “aquele que sofre é porque fez sofrer anteriormente os demais” e que, assim, “necessita de sofrimento para purgar o mal feito”. Para ele, “dar por originários de existências anteriores todos os males, todos os abusos, desmandos, crimes, desigualdades e iniquidades que se contemplam no mundo”, é mais do que uma falsa interpretação, indica “falta de lucidez na consciência dos que assim creem e supõem”. O introdutor da sociologia espírita sustenta que o espiritismo não nos autoriza a crer “na série infinita de causas e efeitos”. Para ele, a doutrina espírita não autoriza interpretar que “o mal deva emendar-se com o mal, a injustiça com a injustiça, a ofensa com a ofensa, porque a lei de causalidade espírita não é unilateral, mas bilateral, isto é, um dano recebido pode ser corrigido por quem o faz com um bem equivalente, sem necessidade de sofrer o mesmo mal”.
Sobre o tema, a pedagoga espírita brasileira Dora Incontri disponibilizou em sua página na Internet - http://doraincontri.com/2013/01/28/reflexoes-espiritas-sobre-a-tragedia-de-santa-maria/ - artigo rejeitando a tendência no meio espírita de dar, nesses casos, “respostas fechadas, apressadas, categóricas, deterministas”. Considera a existência de “muitas variáveis nesse processo: por exemplo, estamos sempre agindo e, portanto, sempre temos o poder de modificar efeitos do passado”. Para ela, “dores nem sempre são efeitos do passado, mas sempre são motivos de aprendizado”.





Resquícios de ira divina

Rejeitar interpretações lineares como a de “quem com ferro fere com ferro será ferido” está longe de se constituir numa recusa ao princípio filosófico da causalidade espírita. Na base da lei de causa e efeito está o princípio de que todo o mal gera sofrimento a quem o praticou. Mas a dor tem um sentido pedagógico. Leva à conscientização e à mudança. A forma mais humana de o espírito resgatar o mal é fazendo o bem. Não é sofrendo o mesmo mal que fez a outros, num círculo vicioso que não teria fim. Isso também vale para a sociedade. O gênero humano, nos milhares de anos de sua evolução, tem aprendido, sucessivamente, com seus erros.

É um acinte à sua memória ver os jovens vitimados pela tragédia de Santa Maria como bandidos, merecedores de uma pena de puro caráter retributivo. Eram quase todos estudantes dedicados, bons filhos, amorosos e honestos. Alguns sacrificaram a vida buscando salvar outros. Deixaram um rastro de dor e saudade. Além disso, a morte de um ente querido é mais dolorosa para quem fica do que para quem parte. Pergunta-se: também seus pais, irmãos, avós, namorados, amigos, todos estariam pagando dívidas contraídas como nazistas? A nação, que sofreu junto, estaria coletivamente comprometida? 

É racional crer na justiça como fator de reabilitação do espírito. Mas não com mecanismos tipo “olho por olho, dente por dente”, resquício de “ira divina”. Preferível ver tragédias assim como efeitos de outra causa: a imprevidência humana.

Mas a lei é dinâmica. A dor que hoje parece insuportável, amanhã será superada. E terá ensinado. Já não cometeremos os mesmos equívocos. A reencarnação tem por fim educar. Não é castigo. É chance de corrigir erros. Ainda que com dor.  
(A Redação).




Simplesmente, humano.
“É uma pessoa que não tem nada de inquisidora, extremamente afável, gentil, absolutamente tranquila”. (Leonardo Boff, sobre Bento XVI, 2005)

Só o tempo ou, quiçá, nem ele, poderá revelar à História todas as razões que levaram o Papa Bento XVI à renúncia de seu pontificado. Demitir-se de um cargo para o qual foi eleito vitaliciamente e que alça seu titular, no imaginário popular e por força da fé e da tradição, à distinguida condição de “representante de Deus na Terra”, é gesto tão singular quanto surpreendente.
Da instituição por ele dirigida reconhece-se, mundialmente, sua força e poder. Mesmo que a História lhe haja imputado, ao curso dos tempos, a autoria de graves violações aos mais caros valores civilizatórios, seus dirigentes e fiéis chamam-na de “santa”. E, conquanto da lista de seus sumos pontífices, constem nomes a quem se atribuem atos da mais abjeta imoralidade e flagrante injustiça, o titular do cargo, recebe, em qualquer circunstância, o tratamento de “Santidade”.
O adjetivo que antecede a nominação da Igreja Católica Apostólica Romana e o tratamento reverencial reservado a seu sumo pontífice, justificam os teólogos, não se vinculam exatamente ao procedimento institucional e pessoal eventualmente adotado por um por outro, mas da missão sacrossanta de que estariam investidos. Em tese, pois, estariam ungidos da perfeição e das virtudes divinas, mas, na prática, como qualquer pessoa ou instituição, sujeitam-se aos erros pertinentes à humana imperfeição.
Difícil entender essa contradição fora do dualismo sagrado/profano. Por muito tempo, enquanto vigia no mundo a crença na existência de uma “ordem divina” em inconciliável contraste com a “ordem humana”, aquela incorrupta, esta corrompida por força do “pecado original”, havia lugar para esse fatal e insuperável maniqueísmo. Dentro dessa concepção, uma única instituição poderia se arrogar o privilégio da origem divina que a faria ponte entre os céus e a Terra. Mas, composta que é de homens, justificava-se fosse, ao mesmo tempo, santa e pecadora, virtuosa e devassa, sem que, com isso, perdesse  autoridade e credibilidade.
 A modernidade, no entanto, sem que, talvez disso se apercebesse claramente a Igreja, foi, pouco a pouco, superando o maniqueísmo sagrado/profano, divino/humano, substituíndo-o simplesmente pelo natural. O fenômeno universal é regido por leis naturais, que abarcam o físico e o moral, o material e o espiritual. Não é preciso tirar Deus dessa nova concepção de universo. Ele aí está presente como “inteligência suprema e causa primeira de todas as coisas”, consoante tenta defini-lo O Livro dos Espíritos (1857).  Mas, para esse Deus não há pessoas e nem instituições privilegiadas, acima do bem e do mal. “Criados” todos simples e ignorantes, porque resultantes de um longo processo evolutivo, tornamo-nos capazes de nos reconhecer mutuamente como iguais em direitos e obrigações, sujeitos a erros e acertos e subordinados a uma mesma lei universal. Somos, no plano e no estágio em que nos encontramos, simplesmente, humanos. Como humanas serão todas as instituições que formos capazes de criar.
É nesse contexto que o velho conceito de santidade vai dando lugar ao de humanidade. Descobre-se, pouco a pouco, que toda a virtude, antes tida por revelação divina a alguns intermediários privilegiados, está, de fato, ínsita na própria natureza humana, como fagulha da divindade que a tudo deu origem e que a tudo alcança. Na medida em que essa consciência se faz comum entre homens e mulheres, percebe-se que não há mais lugar para distinções entre uns e outros e nem para outorgas representativas da divindade, com leis que assegurem privilégios sejam esses por crença, sexo, ideologia ou etnia.
Essa mesma consciência de humanidade que a todos nos submete a princípios éticos universais é avassaladora. Pouco a pouco, derruba, em todos os quadrantes, as mais resistentes autocracias e aristocracias. Instituições, grupos raciais, políticos ou religiosos que teimam em preservar seus membros da censura imposta por regras que a civilização e a modernidade tornaram mundialmente cogentes, mais cedo ou mais tarde, terão de se submeter a esse tratamento igualitário de que buscaram se furtar. É o tempo da humanização que está um passo à frente da santificação.
Sem ser exatamente um santo, título que, talvez, até o incomodasse, Joseph Ratzinger entendeu, quem sabe antes de seus pares, que é simplesmente um homem e que humana é, simplesmente, a instituição que dirigiu. Seria esse o móvel de sua renúncia?




         

           Resgates coletivos
Muitos espíritas – eu, entre eles, – têm imensas dificuldades em aceitar a tese dos resgates coletivos de espíritos presumivelmente autores de chacinas e genocídios do passado. A versão retorna sempre após as grandes tragédias. Para lhe dar crédito, teremos de admitir fatores que, me parece, fogem inteiramente da racionalidade espírita (embora seja justamente a racionalidade da lei de causa e efeito o argumento de seus defensores.).        Não parece racional que grupos tão grandes de espíritos aceitem ou sejam compelidos a reencarnar juntos, num mesmo país ou cidade, para, juntos, embarcarem em um voo, irem a um circo, ou uma boate, com o objetivo predeterminado de, lá, morrerem exatamente da mesma forma como, em algum lugar do passado, tiraram a vida de outras pessoas. Tragédias e martírios meticulosamente preparados, coordenados e executados por “espíritos superiores” para que sejam cumpridos os desígnios da “justiça divina”

          Reencarnação, um processo complexo que objetiva o progresso
A reencarnação, penso, é um processo complexo, onde nossas faltas e dores de consciência também contam para a tomada de eventuais decisões nossas e dos espíritos chamados a contribuir com nosso progresso. Mas, quando se fala em consciência de nossos erros e imperfeições, está se admitindo, por consequência, uma relativa capacidade de avaliar a nocividade do mal feito e de planejar sua reparação da forma mais inteligente possível. Não é nada inteligente, e, sob os modernos parâmetros de justiça, também nada humano, que se cominem ao faltoso penas de caráter inteiramente retributivo.  Punições que atingirão centenas, milhares ou, talvez, milhões de outras pessoas. Isso lembra a suma injustiça do pecado original judaico-cristão que penaliza não apenas o primeiro casal, mas toda sua descendência. Se para o cristianismo o pecado original só logrou ser redimido pelo sofrimento de “Nosso Senhor Jesus Cristo”, para essa versão melhorada de “justiça divina”, os grandes crimes de ontem só podem ser resgatados pelos próprios pecadores, vitimados por desastres aéreos, incêndios, deficiências físicas que o ser humano e a sociedade sequer poderão evitar, porque pré-agendados em seu mapa de provas e expiações.

          A obra de Humberto de Campos na psicografia de Chico
- Ah! – hão de dizer alguns – mas a fonte dessa explicação é fidedigna, pois consta de psicografia de Chico Xavier de insuspeita autoria espiritual de Humberto de Campos.
Tenho um respeito muito grande por Chico e, confesso: ao me tornar espírita, devorei e apreciei demais todas as obras a ele ditadas pelo Irmão X ou Humberto de Campos. Com o mesmo estilo leve, coloquial, elegante, que fez dele, quando encarnado, um dos grandes cronistas brasileiros, Humberto, na espiritualidade, continuou sendo um talentoso contador de histórias. Com elas, buscava transmitir aos leitores do lado de cá conceitos de imortalidade e reencarnação, que ele só foi conhecer no lado de lá. E o fazia, é claro, utilizando-se da ficção e de metáforas com as quais tão bem manejam contistas e cronistas. “Crônicas de Além Túmulo”, “Contos e Apólogos”, “Reportagens de Além Túmulo” e, naturalmente, a bíblia do espiritismo cristão brasileiro, “Brasil, Coração do Mundo e Pátria do Evangelho”, são exemplos vivos da ficção e da metáfora a serviço de uma causa ou, neste último exemplo, a serviço de uma política institucional espírita-cristã.

          Livre-arbítrio e autoderminação onde ficam?
É nesse contexto que interpreto versões como as que apontam as vítimas do incêndio do Gran Circus Norte-Americano (Niterói, 1961) como autores da morte dos cristãos num circo romano. Ou os jovens mortos na Boate Kiss (Santa Maria, 2013), como nazistas responsáveis pelo holocausto judeu. Pura ficção.  Metáforas que ajudam na transição da crença das penas eternas para a da reencarnação punitiva, meramente retributiva. Mas, irracional. Até porque a se crer que tudo está previamente determinado, todas as precauções contra as grandes tragédias, todos os esquemas de segurança, as cautelas pessoais, serão inócuos. Será, enfim, a revogação do livre-arbítrio, do engenho e da criatividade humana e do princípio da autodeterminação do ser e da sociedade, caras conquistas do espírito imortal em sua caminhada evolutiva




A Crise da Civilização Atual
Gláucio Coelho Grijó, Enfermeiro pós-graduado em Saúde Pública; Bacharel em Comunicação, Ex-presidente da Mocidade Espírita Estudantes da Verdade – MEEV – Santos-SP.
 
Não podemos mais permitir que grupos e homens inescrupulosos, com sua loucura pelo lucro, comandem a sociedade e a nossa forma de viver, onde o dinheiro compra tudo, inclusive o tempo, a consciência e honra.

Vivemos neste começo de século em um mundo extremamente conturbado e, acima de tudo, em crise. Crises financeiras, nas estruturas sociais e de valores. Segundo o sociólogo e filósofo Edgar Morin (2012), o capitalismo financeiro, sua dominação e o fanatismo étnico-racial são graves males da atualidade. Além destes, poderíamos incluir o dinheiro - ditando quase todas nossas relações -, o hiperconsumismo, o individualismo das pessoas, a aceleração do ritmo em nossas vidas e a constatação de que os avanços tecnológicos não tornaram nossas vidas mais tranquilas e indolores.
No atual cenário as empresas transnacionais não param de crescer e engolir os concorrentes em todo o planeta, aumentando ainda mais a riqueza de seus acionistas majoritários em contrapartida ao crescente abismo entre os mais ricos e o restante da população. Com a desculpa de “reduzir os custos” e “aumentar a produtividade” os norte-americanos e europeus deslocaram sua produção manufatureira para a Ásia, onde prevalecem os baixos salários, câmbio desvalorizado e alta produtividade, aponta L.Gonzaga Belluzo (2012). Junto à concorrência desleal dos produtos chineses geraram a destruição dos pequenos artesãos, do operariado organizado e a quebra das pequenas fábricas em todo o mundo, com reflexos acentuados nos Estados Unidos, Europa e em nosso país. Essas holdings e transnacionais, juntamente com os governos dos países mais “ricos” e “desenvolvidos” tratam o meio-ambiente com total desrespeito, basta constatar o fracasso da Rio+20.
A crise americana e europeia tem, em grande parte, origem nas políticas neoliberais e no sistema financeiro que entrou em parafuso entre 2007-2008, e não apenas na má condução dos Estados e nas conquistas e direitos sociais que os países europeus promoveram no pós-guerra. As medidas de “austeridade” impostas aos mais endividados e “gastadores”, como se sabe, estão massacrando os europeus, principalmente do sul, agravando ainda mais os conflitos étnico-raciais, com aumento excessivo do desemprego, e o que é pior, gerando uma ausência de perspectiva de futuro para grande parte das pessoas.
A cada dia temos a sensação de que o tempo passa mais depressa, temos sempre que estar “ocupados” e “produtivos”. O economista e romancista Fernando Trias de Bes (2006) sustenta
que há três tipos de aceleração que se combinam: a aceleração técnica (internet, smartfones, etc.), a aceleração social (troca-se mais de emprego, mudam-se os objetivos), e a aceleração do ritmo de vida (dorme-se menos, fala-se mais rápido, compartilha-se menos com os mais próximos). As comunicações, segundo ele, são cada vez mais intermediadas por celulares e outros. Entretanto, se conectar e se comunicar não são o mesmo, alerta o escritor argentino Sergio Sinay (2012). Segundo ele “A comunicação é o oposto, pois requer presença, compromisso, maturidade, exige que a pessoa encare o mundo, os riscos do encontro e do desencontro”. Isso exige mais tempo, e parece que as pessoas não querem “perdê-lo”. Aproveitá-lo “ao máximo” é a lógica da rentabilidade da atividade econômica, onde o “concorrente não dorme jamais” se estendem a todos os ramos de nossas vidas, explica Bes. Fazer o que realmente nos dá prazer e satisfação, sem a preocupação com o retorno financeiro - como ler este artigo-, parece impossível ou antiprodutivo.
A busca pelo prazer sexual desenfreado, o culto exagerado ao corpo, o hiperconsumismo, o abuso de álcool - principalmente entre os jovens - são valores a todo o momento estimulados pela publicidade e pelos meios de comunicação, sejam através dos livros, novelas, filmes, videoclipe e reality shows.
O dinheiro dita quase todas as nossas relações, afirma Georg Simmel (1978) Segundo este sociólogo alemão: “O dinheiro esvazia o núcleo das coisas, transforma objetos tangíveis em mercadorias comuns, a exemplo a consciência e a honra, que até então não se podia comprar”. A corrupção é um exemplo disso. Seja nas empresas privadas ou no poder público, ela reflete uma doença social.   Para Morin “A humanidade está ameaçada por toda essa loucura da busca pelo lucro, por toda essa insanidade fanática”.  
Isto posto, podemos chegar à conclusão que atravessamos um momento de intensa crise existencial. Nós, espíritas e humanistas, não podemos deixar que grupos e homens com interesses escusos e egoísticos ditem como devemos nos comportar, pensar, sonhar e viver. Não podemos admitir que o dinheiro e o lucro pessoal sejam o fim de tudo. Precisamos marcar espaço no cenário político e nos meios de comunicação, seja na TV, rádio, imprensa ou mídias sociais. Urge mostrarmos nossa visão de mundo, porque outras instituições, grupos econômicos e igrejas – principalmente as pentecostais e neopentecostais - estão cada vez mais tomando um espaço importante na sociedade e, principalmente, nos campos midiático e político-partidário. Algumas com ideias extremamente reacionárias e conservadoras, o que é mais preocupante.
Gostaria de propor uma reflexão. Qual nosso papel na atual crise? Que tipo de sociedade queremos para viver? Acredito que já é hora de refletirmos seriamente sobre isto, porque nesse debate estamos ficando para trás. 




Presidentes da CEPA e da CEPABrasil
visitarão CCEPA
Abril é o mês de aniversário do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre. Um ato singelo, programado para a noite de 19/4 irá marcar o 77º ano de fundação da antiga Sociedade Espírita Luz e Caridade, hoje CCEPA.  Uma mesa redonda com dirigentes da instituição recordará episódios da vida institucional da tradicional Casa Espírita da Rua Botafogo.
A reunião será pública e contará com a presença de dirigentes da CEPA e da CEPABrasil que virão a Porto Alegre para um encontro com cepeanos gaúchos e de outras partes do Brasil, para discutir questões administrativas. De Rafaela, Argentina, virão Dante López, presidente da CEPA, e sua esposa Mónica, juntamente com Gustavo Molfino (3º vice-presidente) e sua esposa Carina. De São Paulo, virá Alcione Moreno, presidente da CEPABrasil, e também Mauro de Mesquita Spínola, 2º vice-presidente da CEPA, e Jacira Jacinto da Silva, assessora jurídica e delegada da CEPA na capital paulista. De Pelotas, já confirmaram presença: Homero Ward da Rosa e esposa Regina.
Estão programadas reuniões administrativas da CEPA e da CEPABrasil para todo o dia de sábado (20), na sede do CCEPA. Serão bem-vindos todos os delegados da CEPA, especialmente, do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, assim como dirigentes de instituições espíritas ligadas à CEPA, no Brasil e Argentina.  

CCEPA estuda O Livro dos Espíritos
O Centro Cultural Espírita de Porto Alegre está criando um grupo com o objetivo de realizar o estudo analítico de O Livro dos Espíritos. 
Segundo o idealizador da atividade, Salomão Jacob Benchaya, Diretor de Estudos e Eventos do CCEPA, o Grupo de Estudo Analítico de O Livro dos Espíritos (GEALE) “é destinado a estudiosos da doutrina fundada por Allan Kardec que tenham interesse numa apreciação crítica dessa obra básica da filosofia espírita num contexto de atualização”.
O grupo se reunirá às sextas-feiras, das 15 às 16h30min, a partir de 8 de março. 


Próximas conferência no CCEPA
 - Na terceira 4ª feira deste mês de março, (20/4, às 15h), Milton Medran Moreira, presidente do CCEPA, discorre sobre "Jesus No Espiritismo".

 - Na primeira seguna-feira de abril, (1º/4,às 20h30), Aureci Figueiredo Martins é o conferencista convidado do CCEPA para falar sobre "Fenômenos Paranormais".

Entrada franca.






Não perder a esperança
O dia em que um espírita perder a esperança é porque algo deu errado em tudo isso. Quero sugerir aos leitores de Opinião um texto escrito para amigos de toda HispanoAmerica. Colocado no Facebook. Aberto. Evidentemente não falo de Espiritismo. Variações sobre um mesmo tema apenas. Confira em:
http://pourkardec.blogspot.com.br/2013/01/o-mundo-possivel-vira.html
            Abraços a todos
 Paulo Cesar Fernandes – Santos/SP.

A idosa maltratada
Sobre “Opinião em Tópicos” (jan/fev), dizem as escrituras sagradas que a verdadeira religião é uma fé sem mácula e o amor ao próximo. Aqueles que são adeptos do espiritismo verdadeiro que prega somente o bem ou a espiritualidade com amor, estudiosos da vida com sinceridade e zelo, integram essa verdadeira religião que religa intimamente o homem a Deus e que é totalmente baseada nos ensinamentos de Cristo.
A lei de causa e efeito se cumpre na medida certa. Nem mais nem menos. Deus é justo. Ninguém passa por algo, seja “bom” ou “ruim”, sem que haja necessidade. Ao opinarmos  sobre o episódio da idosa que foi espancada, devemos fazê-lo sob a ótica espiritual e não por emoções estritamente humanas, ignorando a verdade de que somos espíritos, trazemos nossos créditos e débitos e todo um planejamento reencarnatório de outras vidas
Luciano Cordeiro – Mogi das Cruzes/SP.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

OPINIÃO - ANO XIX - Nº 204 -JAN/FEVEREIRO 2013

Abolição da Pena de Morte:

Um Século e Meio de Luta

A histórica posição espírita
Em meados do Século 19, a pena de morte era adotada praticamente por todos os países da Terra. Na Europa, modelo de civilização ocidental, apesar da influência do Iluminismo do século anterior, todos os países, inclusive a França, berço do espiritismo, ainda a adotavam. Allan Kardec tinha posição radicalmente contrária à pena capital. Por isso, em seu diálogo com as entidades espirituais, em O Livro dos Espíritos, com a redação final, dada à sua segunda edição (1860), questionou-as sobre quando a pena de morte desapareceria das legislações humanas. Os espíritos responderam que ela iria desaparecer “incontestavelmente” e sua supressão assinalaria “um progresso da Humanidade”. Acrescentaram, entretanto, que sua abolição só aconteceria “quando os homens forem mais esclarecidos”, em “época muito distante de vós”.
O primeiro país europeu a suprimir a pena de morte foi Portugal (1876), quase duas décadas depois daquela previsão. Na ocasião, Victor Hugo, famoso romancista francês, e também adepto da doutrina espírita, em manifestação pública, saudou a iniciativa, dizendo: “Está a pena de morte abolida nesse nobre Portugal, pequeno povo que tem uma grande história”. O escritor felicitou os portugueses dizendo que davam exemplo à Europa que, certamente, o imitaria, pois “a liberdade é uma cidade imensa da qual todos somos concidadãos”.
 
A situação hoje
Nas últimas décadas, se registrou significativo avanço na supressão da pena de morte no mundo. A formação da União Europeia redundou na normatização de sua não aplicação entre os países membros. Hoje, nenhum deles a aplica, por força da Convenção Europeia dos Direitos Humanos que recomenda sua proibição no âmbito dos países da UE.
Os Estados Unidos da América do Norte, mesmo enfrentando a oposição de mais de 50% de sua população que, em sucessivos plebiscitos, ainda se manifesta pela manutenção da pena capital, tem registrado avanços na supressão da pena ou na não execução de réus já condenados. Dados de 2012 indicam que apenas nove estados realizaram execuções de condenados no ano findo. Foi o menor número em duas décadas. É verdade que a maioria dos estados norte-americanos ainda mantém a pena de morte em suas legislações (33 dos 50). Connecticut a aboliu em 2012, tendo sido o quinto estado a fazê-lo nos últimos cinco anos, depois de Illinois, Nova Jersey, Novo México e Nova York. Outros quatro estados, Carolina do Norte, Carolina do Sul, Indiana e Virgínia, não decretaram nenhuma pena de morte durante o ano passado, embora a mantenham em suas legislações.  Um plebiscito levado a efeito na Califórnia, em novembro de 2012, por margem muito apertada manteve a pena capital, mas os 47% de eleitores que votaram por sua supressão, fazem campanhas contínuas pela não aplicação da pena, com significativos êxitos práticos.
Desde o questionamento de Kardec, em O Livro dos Espíritos, mais de 120 nações em diferentes regiões e culturas aboliram a pena de morte. Mas ela é ainda largamente aplicada em países como China, Coreia do Norte, Japão, Arábia Saudita, Singapura, Irã e outros. Na maioria dos casos, os crimes apenados com a pena capital estão ligados à intolerância religiosa, sexual ou ideológica.

 

 
 
 
Pena de morte. Até quando?
Humanismo e pena de morte são incompatíveis. Quando se confere valoração intrínseca ao ser humano, é inconcebível que o Estado lhe suprima a vida. Seu dever primordial há de ser, em qualquer circunstância, preservar-lhe o direito fundamental de viver. Nas hipóteses da violação de regras de convivência social por parte do indivíduo, é dever do Estado puni-lo. Entretanto, em situação alguma, a pena poderá afetar a vida e a dignidade humanas, e sempre terá como escopo principal sua reeducação, seu tratamento (se esse for o caso), sua readequação à vida digna e sua reinserção na sociedade, sob a indeclinável proteção estatal.

Espiritualismo e pena de morte também são incompatíveis. Quando se reconhece no ser humano a lídima e essencial identidade espiritual a caracterizar sua natureza, a vida material ganha dimensões de verdadeira sacralidade, a ninguém se reservando o direito de suprimi-la. Mesmo assim, um considerável número de execuções capitais, em algumas regiões do mundo, está ligado à desobediência de normas de nítido caráter religioso, provindas não da lei natural, mas de pretensas revelações divinas.

À luz da filosofia espírita, a lei divina, que é a mesma lei natural, jamais autoriza a penalização com a morte. Por mais distorcida que seja a personalidade humana e por mais bárbaro o delito perpetrado, a sociedade em que aquele espírito veio a reencarnar detém o múnus de contribuir com o projeto evolutivo desse indivíduo. No lapso em que aquela alma compuser a sociedade humana, esta se investe do dever de zelar por sua educação, sua dignidade e sua sobrevivência. A humanidade é uma grande família e como tal deve se comportar.

Espiritismo e humanismo se irmanam, dessa forma, histórica e filosoficamente, na luta pela total supressão da pena de morte. Talvez, agora, ela já não esteja tão distante de nós. (A Redação)
 

 

 
 
 
Globalização, Fraternidade
e Dignidade

 “Os homens hão de trocar dogmas e rancores por abraços, roçando o nariz sobre a linha imaginária das fronteiras.” – Luiz Coronel.
   
No último mês de dezembro completaram-se dois anos do início de um importante movimento mundial, batizado como Primavera Árabe. Recorde-se: ao final de 2010, um jovem tunisiano ateou fogo ao próprio corpo em protesto às condições de vida de seu país. Desfechava-se ali uma onda de protestos que, com o apoio das redes sociais da Internet, se espalharia pela região, a partir da Tunísia, onde o presidente Zine el-Abdine Bem Ali teve de fugir para a Arábia Saudita.

Os protestos ganhariam, logo, outros países da Ásia e do norte da África, como a Argélia, a Jordânia, o Iêmen e o Egito. Neste último, onde o movimento popular conseguiu derrubar um presidente que, havia mais de 30 anos, governava com mão de ferro o país, a situação se agravou nos últimos meses. O novo governante, Mohamed Mursi, apoiado por setores fundamentalistas islâmicos, adotou política tida por muitos de seus concidadãos como autoritária e de inspiração teocrática. Estariam se abrindo, assim, caminhos para graves retrocessos em sentido oposto aos objetivos democráticos, libertários e laicos motivadores da nova ordem.

Deste e de outros episódios de resistência a movimentos de origem e caráter eminentemente populares, na região, pode-se deduzir o quão dura é a luta pela democracia e pela liberdade. Velhos regimes oligárquicos e religiosos agarram-se ferrenhamente ao poder. Resistem o quanto podem, e com métodos às vezes violentos, aos naturais anseios de cidadania liberta da prepotência e do autoritarismo.

O progresso dos povos, comprova-se uma vez mais, não se dá da forma linear e contínua, como sonhado pelos movimentos populares em cujo seio se dão essas iniciativas de ruptura em prol de novo regime fundado na democracia e na liberdade. Há algumas décadas, na onda do que se convencionou chamar de globalização, inaugurou-se, é certo, um clima favorável à aproximação das nações e dos povos, a partir de regras comuns tendo por base a fraternidade e a dignidade humana. Importantes resultados no campo do respeito aos direitos humanos, à convivência fraterna e pacífica entre os diferentes, já foram obtidos em todos os quadrantes da Terra. Apesar de ser uma das tendências de nosso tempo, esse, no entanto, é um movimento que encontra sérias barreiras em algumas culturas de tradição autoritária.

Pensar em termos de globalização não significa alimentar a utopia da formação da nação única a reunir toda a humanidade. Como assinala a questão 789 de O Livro dos Espíritos, a “diversidade de costumes e necessidades”, ou seja, as tantas, tão ricas e diferenciadas culturas dos povos, marcam suas nacionalidades com características próprias que devem ser preservadas. Entretanto, a cooperação entre povos e nações, a solidariedade mundial, fundada nos universais princípios de liberdade e dignidade humana, devem ser metas continuamente buscadas para que todos possam viver “felizes e em paz”, na expressão usada pelos interlocutores espirituais de Allan Kardec, na referida questão da obra fundamental da filosofia espírita.

 
 
 
 
 
 
A idosa maltratada
Em tempos de câmeras que tudo captam, o Brasil inteiro se revoltou com uma cena registrada na TV. Uma senhora de quase cem anos foi flagrada sob cruéis maus-tratos de uma cuidadora (?) e de uma doméstica. Entrevistado, o marido de uma das torturadoras defendeu-a dizendo que a idosa tinha um gênio muito difícil: “Se fosse uma criança” – acrescentou – “levaria umas palmadinhas e pronto, mas, como se trata de uma pessoa velha...”.
Fiquei a pensar: agora que as pessoas estão vivendo muito mais, quantos idosos, pelo Brasil e pelo mundo, devem estar sofrendo nas mãos de maus filhos, ou pela ação de cuidadores inescrupulosos ou despreparados, em casa ou em asilos? Às vezes, não é nada fácil lidar com eles. Pessoas de gênio difícil, irascíveis ou mal-humoradas, quando envelhecem tendem a agravar esses desvios de personalidade ou de conduta. Quem não tiver muito jeito e paciência, dificilmente saberá administrar a teimosia ou o mau-humor delas e se julgará autorizado a castigá-las, como o faria com uma criança.
Estoicos e cínicos
A frágil velhinha foi vista, em rede nacional, recebendo sopapos das duas mulheres e, depois, derrubada, grosseira e displicentemente, quando pediu para que a colocassem na cadeira de rodas.
Suponho não ser esse o caso daquela idosa, mas, tem gente, sim, que colhe na velhice, como colherá na espiritualidade, os resultados de seu agir odioso, soberbo e egoístico durante a vida. Os familiares se afastam. A falta de amigos isola-as. Ficam literalmente sós, carentes do afeto que não deram aos outros.
Seja como for, são sempre revoltantes os maus-tratos infligidos a idosos, não é mesmo? Pois, saiba que antigas correntes filosóficas muito focadas nesses nexos de causa e efeito da vida, simplesmente pregavam que a gente não deve se preocupar com o sofrimento alheio. Era o caso, na velha Grécia, dos estóicos e dos cínicos. A vida, sustentavam eles, sempre nos dá o que nós próprios a ela tenhamos oferecido. Assim, que trate cada um de viver de acordo com os ditames naturais da vida. Que sejamos, em uma palavra, virtuosos, agindo em consonância com o “logos” universal. E, em consequência, seremos recompensados pelos mecanismos da vida. Ao natural.
A lei natural
A filosofia grega, especialmente o estoicismo, legou à modernidade as bases do direito natural, tão caro e tão fundamental ao espiritismo, assim como ao naturalismo que nos ajudou a emergir da teocracia medieval. Mas, o espiritismo, tanto quanto o humanismo contemporâneo, seria um simulacro de doutrina, incompatível com as tendências modernas da solidariedade humana, se preservasse esse modo de pensar de estóicos e cínicos da velha Grécia.  Quando levamos em consideração apenas a lei de causa e efeito, nos tornamos indiferentes ao sofrimento humano. Perdemos a noção da gratidão, da solidariedade, da fraternidade, da tolerância e da alteridade, fatores igualmente presentes na lei natural, bálsamos que a vida nos disponibiliza, habilitando-nos, assim, à sublime tarefa de minorar a dor alheia.
 Espiritismo e cristianismo
O espiritismo, não sendo uma religião cristã, mas uma filosofia universalista e humanista, herdou do cristianismo esse profundo e radical amor ao semelhante. Tão radical que recomenda pagar o mal com o bem. Bem entendida a luminosa filosofia de Jesus de Nazaré, esse valor deveria ser a essência do cristianismo, seu próprio fator de identificação. Paradoxalmente, os cristãos preferiram definir sua identidade não a partir dessa condição, mas pela crença comum em dogmas que contrariam e derrogam alguns dos mais elementares princípios da lei natural.

 

 
 
 
Coletividade e Universalidade do Ensino Espírita – uma reflexão necessária.

 Geylson Kaio  Psicólogo clínico,-presidente da ASSEPE – Associação de Pesquisas e Estudos Espíritas de João Pessoa.
     
A coletividade do ensino dos Espíritos é um conceito importantíssimo para o Espiritismo, embora pouco ou quase nada utilizado pelos espíritas. O controle universal do ensino dos espíritos foi considerado por Allan Kardec, como o fundamento de autoridade da Doutrina. Na introdução do Evangelho Segundo o Espiritismo, ele afirma: “Se a doutrina espírita fosse uma concepção puramente humana, ela teria por garantia senão as luzes daquele que a tivesse concebido; ora, ninguém neste mundo teria a pretensão fundada de possuir só para si a verdade absoluta”.  
Estando a segurança do conhecimento espírita fundamentado na representatividade coletiva dos Espíritos, onde se revelaram novas verdades e princípios universais tocantes às mais diversas questões, o Espiritismo estabelece que o critério de verdade destes ensinamentos está na concordância das revelações espontâneas, por diversos médiuns, em diversos lugares do planeta.

Repensando este critério com um olhar metodológico de caráter acadêmico, encontraremos muitos inconvenientes no que se refere à garantia de verdade assegurada ao ensino espírita. Em matéria de ciência, toda pesquisa séria precisa passar pelas provas de fidedignidade e de previsibilidade antes de se lhe atribuir critério de verdade. O critério de verdade das ciências acadêmicas é um conceito amplo e relativo, não absoluto, pois a qualquer momento, época ou nova pesquisa, podem-se rever os conceitos e restabelecer nova ordem a estudos anteriormente fundados. É o ciclo natural das ciências para assegurar o crescimento e a continuidade das pesquisas, pois nada está no fim e o novo sempre vem.

Mesmo com todo o rigor cientifico da atualidade e a tecnologia desenvolvida, sabemos que não é tão simples derrubar ou desconstruir uma teoria e fundar outra em seu lugar, sem que anos e até séculos, possam realizar tais mudanças. Nas ciências humanas, o problema é ainda maior, porque suas pesquisas têm como objeto de estudo o próprio homem, e neste caso, a previsibilidade fica bastante comprometida, pois o ser humano é imprevisível.

Dificilmente, numa pesquisa com base nas ciências humanas, o cientista irá testar suas hipóteses na totalidade de seu objeto de estudo. Geralmente, retira-se uma amostra que representa parte do universo totalizante e realiza-se a pesquisa,  cujo objetivo final é a confirmação das hipóteses estabelecidas anteriormente ou sua negação enquanto verdade.

Quanto mais quantitativa for uma pesquisa, mais condições de previsibilidade ela tem e mais segurança se estabelece em relação a tais estudos. Quanto mais qualitativa for uma pesquisa, menos previsibilidade poderá ocorrer, pois o que se procura medir na pesquisa qualitativa são os atributos de valor, certo e errado, bom e mal, justo e injusto, verdadeiro e falso, etc., atribuindo características aos objetos pesquisados.

Portanto, o controle e a medição das pesquisas científicas na área acadêmica são distintos, variando de acordo com o objeto de estudo e a metodologia aplicada.

Desta forma, poderíamos questionar o método de controle universal do ensino dos espíritos, sob o fundamento de que os espíritos compõem a humanidade fora do corpo físico e habitam a dimensão espiritual do ser. Eles não possuem todo o saber e nem todos estão em condições de oferecer uma analise apurada da realidade extracorpórea. Que eles se agrupam uns aos outros por afinidades diversas. Que pelas diferenças existentes uns dos outros, eles poderão prestar uma informação diversa de um outro, relativizando o ensino espiritual. Mas o fato deles existirem e poderem se comunicar conosco, abre uma gama de possibilidades novas em matéria de conhecimentos gerais e específicos, referentes ao mundo dos espíritos. Mesmo tendo sido confirmados diversos princípios da Doutrina Espírita por este método, vale salientar, que em nenhum momento Kardec abdicou da lógica e do bom senso para avaliar as informações que chegavam do novo mundo. E neste caso, o critério da lógica, do bom senso e da experimentação, sobrepuja o critério da concordância universal do ensino dos espíritos. 

Assim, podemos verificar a dificuldade que foi para Allan Kardec e seus Espíritos colaboradores, tornar válidos estes novos conhecimentos espirituais. Kardec atribuiu à universalidade do ensino dos Espíritos a força do Espiritismo, bem como, a causa de sua rápida propagação. No entendimento dele, essa doutrina não tem nacionalidade, não tem culto particular e nem foi imposta por nenhuma classe social, demonstrando o seu grande trabalho de fraternidade universal, onde os Espíritos receberiam os destaques pela divulgação e transmissão dos mesmos princípios. Talvez por esse motivo Kardec tanto se preocupou com os rumos que a Doutrina Espírita tomaria no futuro.

Allan Kardec estabeleceu duas formas básicas de controle dos ensinamentos espirituais: a razão, com uma lógica rigorosa baseada nos dados positivos, somados ao bom senso; e a concordância no ensino dos Espíritos. Acreditava que essa unanimidade faria desaparecer as teorias errôneas, contraditórias e os sistemas excêntricos fora da verdade. “Não é porque um princípio nos é ensinado que ele é para nós a verdade, mas porque recebeu a sanção da concordância”. Percebemos que não é unicamente pelas revelações espontâneas dos espíritos que se atribuirá o critério de verdade, mas também pelo uso da razão e do método científico.

O que chamou mais minha atenção com relação a este assunto, após leitura pausada sobre o tema, é que o sábio Allan Kardec coloca a garantia da autoridade e da força do Espiritismo na concordância espontânea das revelações, ou seja, os Espíritos, espontaneamente, comunicam-se com os homens, revelam os princípios da Doutrina e são unânimes nesses princípios. Formam uma opinião universal, um conjunto harmônico, “... um acordo de todas as vozes do céu...”. Talvez por um apego a esta recomendação, grande parte dos espíritas mostram-se contrários a um processo de atualização do Espiritismo. Mesmo sem entender o que vem a ser esta atualização,  posicionam-se contrários a tudo o que possa denotar mudanças, sem que venha espontaneamente dos espíritos superiores.

Várias questões se levantam no tocante à validade desse controle universal do ensino dos Espíritos e vários são os caminhos que a ciência acadêmica utiliza para validar suas pesquisas. Mas o importante aqui é reconhecermos que Allan Kardec sabia do grau de dificuldade existente no estudo dos fenômenos espíritas, na validação deste conhecimento e tentou proteger a Doutrina Espírita dos possíveis desvios teóricos que se levantariam para invalidar sua mancha e seu desenvolvimento. Com isso, passando o controle dos princípios ao concurso das manifestações espirituais em concordância umas com as outras, poderia preservar o Espiritismo dos inconvenientes e contradições no futuro, não o deixando a mercê de orientações e alterações de uma única opinião pessoal.

Ao mesmo tempo em que tal metodologia condiciona o Espiritismo a um acordo universal dos Espíritos e a uma lógica rigorosa de análise por parte dos pesquisadores, verificamos que o desenvolvimento contínuo de tal conhecimento, sua atualização permanente a aplicação deste método de controle está suspenso pela grande parte dos Espíritas, por falta de vontade e do espírito de ciência que animou os pesquisadores do século XIX. Entendendo que a atualização contínua do Espiritismo deva ser realizada pelos espíritos superiores e não pelos estudiosos do espiritismo, parte dos espíritas contraria as próprias recomendações de Kardec, ao afirmar que o Espiritismo é uma Doutrina progressista e deve acompanhar o desenvolvimento científico da humanidade.

Finalizo estas reflexões, considerando a postura do mais importante pensador do Espiritismo Allan Kardec, frente às obras espíritas que publicou. Ele sempre demonstrou uma sabedoria, um bom senso, uma racionalidade e uma humildade invejáveis em relação à maioria dos homens cultos e letrados da sua época, bem como da atualidade. “Nosso papel pessoal, no grande movimento das ideias que se prepara pela ação do Espiritismo, e que começa a se operar, é o do observador atento que estuda os fatos para pesquisar sua causa e deduzir-lhe as consequências”.

Essa postura desinteressada no tocante ao Espiritismo revela o grande homem que foi Allan Kardec, nos levando a segui-lo, enquanto pensador iluminado e a não transformarmos o Espiritismo num caldeirão de verdades e mentiras. Sua posição e seu papel neste grande movimento de ideias garantiu a preservação do Espiritismo enquanto ciência filosófica que investiga as relações existentes entre os Espíritos e os homens.

 

 
 
 
 
2013 é Ano de Simpósio em Santos
Histórica criação do pensador espírita Jaci Regis, o Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita acontece de dois em dois anos, na cidade de Santos, promovido pelo ICKS – Instituto Cultural Kardecista de Santos.

De 25 a 27 de outubro deste ano, terá lugar o XIII SBPE, na antiga sede do ICKS, e as inscrições já estão abertas. Inscrições antecipadas terão redução de valor, segundo informa, com detalhes o blog da instituição: http://icksantos.blogspot.com.br/. Confira.

Um tema para março: Jesus no Espiritismo
As duas conferências públicas do mês de março no Centro Cultural Espírita de Porto Alegre estarão a cargo do presidente da instituição, o advogado e jornalista Milton Medran Moreira (foto). Tema: “Jesus no Espiritismo”.
Marcando o reinício da programação de palestras públicas do CCEPA na 1ª segunda-feira (à noite) e na terceira quarta-feira (à tarde), Medran enfocará aquela temática, em conferências abertas a todos os interessados e com entrada franca, nas seguintes datas: - Dia 4.3.2013 (segunda-feira), às 20h30 e dia 20.3.2013 (quarta-feira), às 15h00. Local: Auditório do CCEPA, na Rua Botafogo, 678, Bairro Menino Deus, Porto Alegre.


De Porto Alegre a João Pessoa
Cerca de 10 integrantes do CCEPA já providenciaram inscrição para o III Encontro da CEPABrasil, em João Pessoa, de 30 de maio a 2 de junho. Também se espera uma delegação da cidade de Pelotas.
Interessados em se agregar à delegação dos gaúchos à Paraíba podem fazer contato com ccepars@gmail.com .


 
 
 
 
A corrupção punida
Tomara que o registro feito por este jornal, na edição de dezembro, da punição de altas personalidades da política e dos meios empresariais do governo, por atos de corrupção, lavagem de dinheiro, etc., possa ser lido, daqui a algumas décadas, como uma história que passou e deixou bons resultados. Mas, só haverá moralidade pública quando cada brasileiro tiver consciência de que o mal produzido por ele, além de atingir a sociedade, traz resultados danosos para ele próprio, como espírito imortal, construtor de sua felicidade e daqueles que o rodeiam.
            Amaro Melquisedeque Cunha – Gravataí/Rs.

CEPABrasil no CNS
É muito importante para todos os espíritas brasileiros essa conquista da CEPA, que vem sendo preservada, da presença no Conselho Nacional de Saúde.
Trata-se de contribuição pública prestada por um organismo espírita em favor de todos os brasileiros, numa área onde há tantas carências e tanto desrespeito aos direitos fundamentais dos cidadãos mais necessitados.
            Anelise Fritchen ParodeCampinas/SP.