quinta-feira, 9 de maio de 2013

OPINIÃO - ANO XIX - Nº 207 - MAIO 2013

Reportagem do programa “Fantástico”, da Rede Globo de Televisão, conta a história do neurocirurgião americano que viveu a experiência da quase morte e diz ter estado em um lugar que lhe pareceu ser o paraíso.

 Cresce o interesse pelo tema
O fenômeno chamado “quase morte” desperta grande interesse no Brasil, especialmente depois que o assunto foi tema em um dos principais espaços de telejornalismo da Rede Globo de Televisão. A reportagem veiculada pelo programa “Fantástico” de 24 de março último - http://globotv.globo.com/rede-globo/fantastico/t/edicoes/v/apos-acordar-de-coma-neurocirurgiao-acredita-em-vida-apos-a-morte/2478070/ - destacou a história do neurocirurgião americano Alexander Eben que, após haver entrado em coma profundo, teve visões de uma espécie de paraíso, e retornou convencido de que existe vida após a morte.

Um estudioso do cérebro passa a admitir a alma
Muitas pessoas, em todas as partes do mundo, registram hoje terem vivenciado o fenômeno. O destaque dado ao caso do Dr. Alexander, no entanto, tem uma particularidade: ele é, há mais de 25 anos, um notável estudioso do cérebro humano, professor da Faculdade de Medicina de Harvard. Para o Prof. Alexander Eben, a morte sempre significou o fim de tudo. Entretanto, em novembro de 2008, teve de ser conduzido às pressas a um hospital, com fortes dores de cabeça resultantes de uma rara espécie de meningite. Levado à UTI, logo entrou em coma profundo. Seus familiares foram informados de que dificilmente sairia vivo dali. Por sete dias esteve em estado comatoso. Mas, nesse mesmo período, viveu o que definiu como “a experiência mais fantástica que um ser humano pode ter”. Embora seu cérebro não funcionasse, recorda de vivências plenamente conscientes. Primeiro em um ambiente escuro e lamacento. Em seguida, foi levado a “um vale extenso, muito verde, cheio de flores e repleto de borboletas”, como descreveu. Uma entidade, com aparência de linda mulher, aproximou-se dele dizendo que não temesse, porque ali seria amado para sempre.
O retorno de sua consciência ao corpo e as transformações que o fenômeno operou em sua vida são contados pelo Dr. Alexander em um livro que já tem tradução para o português com o título de “Uma Prova do Céu”.

 Um acordo na dimensão espiritual
A reportagem da TV Globo trouxe o relato de outras experiências do gênero ocorridas no Brasil. A jornalista Vera Tabach contou que sua mãe, em 1974, esteve três meses em coma, mas que voltou relatando uma história fantástica. Durante todo aquele período afirmava ter estado em um hospital onde era tratada muito bem, por pessoas vestidas de branco. Com elas teria feito um acordo de retornar para terminar de criar seus filhos. Disseram-lhe, então, que ela voltaria e viveria com sua família por mais 20 anos, o que efetivamente aconteceu. Exatamente 20 anos depois, em abril de 1994, a mãe de Vera faleceu, quando seus filhos já estavam todos criados. A jornalista concluiu o relato dizendo que sua mãe, antes do episódio, costumava afirmar: “Na vida, só não há jeito para a morte”. Mas, após, mudou o dito para: “Até para a morte tem jeito”.


 




Tema de todos os tempos

Nas últimas décadas têm avançado de forma espantosa os estudos sobre o cérebro humano, essa máquina admirável, composta por cerca de 86 bilhões de neurônios que se ligam por mais de 10.000 conexões sinápticas. Comparável a um pequeno computador, pesando em média 1,5 kg, o cérebro humano tem funções incríveis, jamais superadas por qualquer máquina das tantas que compõem o vasto mundo da moderna computação eletrônica.

Mas, na mesma medida em que avançam pesquisas e estudos sobre o cérebro humano, mais importância assume uma velha indagação de que se ocuparam filósofos de todos os tempos: Afinal, a consciência é um produto do cérebro, ou, ao contrário, foi a consciência que criou o cérebro? Nossa civilização é, em grande parte, produto de nossas crenças. Por séculos, a busca do conhecimento, entre nós, esteve subordinada à fé. Em dado momento, o ser humano resolveu romper com essa dependência. A ciência emancipou-se da religião. Um grande avanço em cujo bojo, no entanto, se operou um fenômeno prejudicial à busca de resposta a esta indagação. A partir da emancipação do conhecimento, tudo o que diz com a alma passou ao domínio da religião. A ciência, numa espécie de concordata promovida com os setores religiosos, cuidaria, a partir dali, das questões materiais. As espirituais, estas continuariam de competência das igrejas. Aprofundou-se, com isso, a dicotomia profano-sagrado. O espírito, desde então, não é coisa para ser investigada pela ciência. O paradigma por esta adotado é inteiramente materialista. A consciência seria um produto do cérebro, logo nada teria a ver com a alma ou espírito.

          Mas, a vida não pode ser dicotomizada entre o profano e o sagrado que, a rigor, não existem. Existe o natural. Matéria e espírito, extensão e pensamento, fazem parte da natureza a cujas leis tudo se deve conformar. A cada dia, mais cientistas admitem essa íntima conexão entre o material e o espiritual. A consciência seria um atributo do espírito, o que não implica precise este ficar subordinado ao domínio das religiões. Sem adesão a qualquer crença, alguns cientistas assumem posições de ruptura com o paradigma materialista no qual a ciência moderna precisou se inserir. O Dr. Alexander Eben, por exemplo, desde sua experiência pessoal, passou a questionar o paradigma que, até então, defendera.

Poder-se-á dizer que isso não prova a existência do espírito. Que os fisiologistas oferecem outras interpretações. Que, mesmo estando o cérebro funcionalmente morto, algumas áreas do complexo mecanismo cerebral podem ter permanecido ativas, gerando aquelas sensações. Mesmo assim, para quem passou por situações reais como as descritas pela maioria dos que vivenciaram o fenômeno da quase morte, não há explicação mais lógica do que esta: a consciência sobrevive, íntegra, independentemente do corpo físico. Trata-se. pois, no mínimo, de um tema palpitante que reclama ser discutido em todas as suas implicações. Sem reservas ou preconceitos nem da ciência nem da religião. (A Redação)

 
 
 
Por um Conceito Espírita de Deus

Às vezes quero crer, mas não consigo. É tudo uma total insensatez.  Vinicius de Moraes

A fé em Deus está em declínio. Pesquisa divulgada há cerca de um ano, encomendada pela agência de notícias Reuters, dá conta de que, no mundo todo, cresce o número de pessoas que confessam não crer em Deus. Elas já são 18% em todo o Planeta. A França lidera o ranking dos descrentes da divindade, somando 39% dos entrevistados. No Japão, 34% das pessoas ouvidas disseram às vezes acreditar, outras não, configurando um certo agnosticismo. Ou seja: quer-se crer, mas buscam-se fundamentos, razões capazes de sustentar a crença. Essas pessoas rejeitam a fé cega.

O Brasil, no entanto, segue majoritariamente crente. Na pesquisa, 84% das pessoas entrevistadas disseram crer em Deus. De maioria católica, mas com forte crescimento evangélico, o país sustenta uma cultura popular de fé no Deus bíblico, pessoal, criador de todas as coisas e protetor daqueles que lhe votam fé. Só dois países superam o nosso em número de crentes em Deus: Indonésia (93%) e Turquia (91%), ambos de cultura predominantemente muçulmana, monoteísta, e cujo Deus, também pessoal, guarda fortes características protecionistas. À sua vontade soberana e onipotente seus adoradores costumam confiar inteiramente suas vidas e destinos, convencidos de que a fé, os ritos a ela inerentes e a obediência a seus sagrados códigos, lhes garantirão sorte nesta vida e bem-aventurança no Além.

Como se vê, a concepção ainda vigente de Deus é eminentemente teísta. Nela, diferentemente da visão deísta, esconde-se um certo desprezo ao ser humano, à sua capacidade de realização por méritos e esforços próprios, ao seu potencial de crescimento, de natural evolução. Tudo está na direta dependência do voluntarismo divino. Em sua versão mais fundamentalista, o teísmo assume radical oposição aos movimentos humanistas, à laicização dos costumes, a que indivíduos e sociedades orientem suas vidas pelos ditames de sua consciência e pelo aprendizado de suas experiências.  Seus mentores defendem a ingerência da religião em todos os setores da vida humana e, se pudessem, transformariam o mundo numa grande teocracia. Supõem que, fora da religião e dos códigos mandamentais supostamente revelados por Deus a alguns profetas, não existe bondade, nem justiça, nem progresso, nem ética, nem salvação.

É natural que uma visão assim de divindade – e que é aquela acolhida pelas grandes religiões monoteístas do mundo – provoque o decréscimo da aceitação da existência de Deus. Mas aquele não é o conceito de Deus compatível com o espiritismo. Doutrina fundada primordialmente na existência do “espírito” como princípio inteligente do universo, pressupõe a existência de uma “inteligência suprema”, que também é a “causa primeira de todas as coisas” (Questão n.1 de O Livro dos Espíritos), mas destituída do caráter de pessoalidade atribuída ao Deus judaico/cristão/muçulmano. Mergulhados que estamos no relativismo, não temos condições de entender, é certo, em toda sua plenitude, esse Deus que se situaria no âmbito do Absoluto. Mas, pelos conhecimentos já amealhados, especialmente pelo grau de libertação conquistada com o revolucionário paradigma da evolução, já podemos rejeitar, sem culpas, aquele Deus das religiões. Com propriedade, escreveu Léon Denis: “A Ciência, à proporção que se adianta no conhecimento da Natureza, tem conseguido fazer recuar a ideia de Deus, mas esta se engrandece, recuando”. (“Depois da Morte”). Pensamos que a conceituação de “inteligência suprema e causa primeira” se compatibiliza com o estágio atual da ciência e do pensamento.

A filosofia espiritualista, evolucionista, progressista e humanista que configura nossa identidade espírita situa-nos como deístas, posição inspirada pela razão e não pela fé. É uma visão diferenciada daquela das religiões. Isso nos impõe o dever de zelar e agir no sentido de que a consciência popular e a cultura de nosso tempo não nos confundam com expressões retrógradas e culturalmente pobres em cuja desgastada órbita se demoram as grandes religiões ainda existentes em nosso tempo. Elas tendem a desaparecer, no mesmo ritmo em que está a decrescer a fé em Deus. Mas, isso, ao contrário do que se possa, apressadamente, concluir, não significa o triunfo do ateísmo. Parece mais sensato identificar aí a busca de um conceito mais qualificado de Deus. Ele já não cabe no espaço exíguo das religiões.

 

Justiça não é Vingança
Em tempos de discussão sobre a redução da maioridade penal, chamou atenção depoimento com o título acima, publicado na Folha de São Paulo (28/4). Sua autora: a jornalista Luiza Pastor, 56. Ela foi estuprada quando tinha 19 anos por um menor com alentada folha policial que já fora detido várias vezes por fatos semelhantes. Levada por terceiros à delegacia, reconheceu o garoto delinquente, identificado como PS, e conheceu sua história: filho de uma prostituta, era criado pela avó, evangélica,“que tentara salvar-lhe a alma à custa de muitas surras”.  A conversa que ouviu dos policiais foi de que não adiantava mantê-lo preso, coisa que, aliás, não fora pedida por ela. “Esse é dos tais que a gente prende e o juiz solta”, disseram, acrescentando: “O melhor mesmo é deixar ele escapar e mandar logo um tiro”. Não concordando com solução, Luiza foi chamada de covarde e ainda teve de ouvir: “Se está com pena dele, vai ver que gostou!”.

 Um destino implacável
Traumatizada com o fato, Luiza foi embora do país. Retornou depois de muitos anos. Agora, sempre que ouve falar em redução da maioridade penal recorda a história de PS, de quem nunca mais soube. Renova, então, a crença de que se o Estado não investir fortemente em educação dirigida a milhares de jovens em idênticas condições daquele, “teremos criminosos cada vez mais cruéis, formados e pós-graduados nas cadeias e ‘febens’ da vida”.
Se PS ainda vivesse, teria uns 50 anos, hoje. Mas, é quase certo que não vive mais. No Brasil, dificilmente alguém com seu perfil passa dos 30 anos. Morre antes, por doenças contraídas na cadeia, quando não abatido pela polícia ou em disputa com outros delinquentes.

A teoria e a prática
Teórica e tecnicamente, a redução da maioridade penal seria defensável. Um garoto de 15, 16 ou 17 anos, hoje, tem plena capacidade de entender o caráter criminoso de seus atos. Mas, na prática, de nada vai adiantar encarcerá-lo e submetê-lo às péssimas condições de nossos presídios, onde inevitavelmente se fará refém de bandos de experientes criminosos que comandam o ambiente prisional e coordenam, além de seus muros, a violência da qual todo o país se tornou igualmente refém. Sem qualquer possibilidade de aquisição de valores positivos que só o trabalho e a educação, desenvolvidos em ambiente minimante humanizado, poderiam lhe oferecer, esses garotos, que nem lar tiveram, simplesmente não têm chance de recuperação. A sociedade e o sistema os fizeram irrecuperáveis. E pena que não recupera é inócua. É vingança que nega a justiça.

Criminalidade e reencarnação
Numa concepção imediatista e materialista, a solução de “mandar logo um tiro”, sugerida pelo policial, poderia se justificar. À luz de um humanismo espiritualista, entretanto, estamos todos comprometidos uns com os outros. Criminalidade é doença da alma. E é contagiosa. O egoísmo de alguns, a injustiça social, o orgulho e a arrogância de tantos, a falta de solidariedade, são agentes desencadeadores do crime cujos efeitos atingem “culpados” e “inocentes”. Numa perspectiva imortalista e reencarnacionista, a ausência de políticas pedagógicas e de justiça social, no presente, assim como o exercício da vingança privada ou social, no lugar de uma justiça recuperadora, constituem-se em políticas a repercutirem negativamente nas sociedades do futuro. Adiar significa agravar. E já adiamos demasiadamente.

 

Allan Kardec:
Pseudônimo ou Heterônimo?

Eugenio Lara, arquiteto e designer gráfico, membro-fundador do Centro de Pesquisa e Documentação Espírita (CPDoc), fundador e editor do site PENSE - Pensamento Social Espírita [www.viasantos.com/pense]. E-mail: eugenlara@hotmail.com

 Pseudônimo (pseudónymos) é uma palavra constituída pelos componentes gregos pséudos (falso) e ônoma (nome), cuja acepção tem o sentido de ocultação da real personalidade do autor. Trata-se de um recurso normalmente usado por literatos, artistas e pessoas públicas.

O uso de pseudônimo está associado à reputação e à posteridade, à preservação da identidade do autor. O compositor brasileiro Chico Buarque, por exemplo, para driblar a censura nos anos negros da ditadura militar, usou o pseudônimo Julinho Adelaide. E o escritor francês George Sand, assim como o “outro” George, a inglesa Eliot, eram mulheres, apesar do pseudônimo masculino. Muito provavelmente não teriam tanto sucesso literário se assinassem com seu nome civil. No século 19, a literatura era de domínio quase exclusivo dos homens.

O grande escritor carioca Machado de Assis, quando escrevia crônicas de teor político mais arrojado para sua época, se escondia por trás de pseudônimos. Muitos textos que redigiu contra a abolição somente foram descobertos, como sendo de sua autoria, cerca de 40 anos após a publicação. Até então, ninguém sabia que o autor de Dom Casmurro era quem escrevia aqueles textos de sabor panfletário, assinados como “Boa Noite”.

O pseudônimo se constitui, amiúde, numa identidade secreta. Isto não significa que seja semelhante a anônimo, onde não há a identificação de uma personalidade, de alguma pessoa ou autor, como é também o caso do ghost-writer (escritor fantasma), aquele que escreve biografias, artigos e ensaios sem que seu nome apareça como autor, sem que receba os créditos. Políticos que não sabem escrever normalmente se servem de ghost-writers, para proferir seus discursos políticos e publicar artigos em jornais diários.

Pode também ser o pseudônimo um nome artístico, seja porque o nome civil, o ortônimo, soa desagradável ao ser pronunciado ou porque o nome alternativo mostra-se mais compatível com a atividade desempenhada ou com algum esquema numerológico, simbólico, como é o caso do cantor Jorge Ben Jor (Jorge Duílio Lima Meneses). José de Lima Sobrinho & Durval de Lima dificilmente fariam sucesso como dupla sertaneja se não adotassem o nome artístico Chitãozinho & Xororó. Do mesmo modo, o cantor e compositor britânico Elton John (Reginald Kenneth Dwight), o cantor brasileiro de rap Mano Brown (Pedro Paulo Soares Pereira) e o ex-beatle Ringo Starr (Richard Starkey), dentre outros.

Normalmente o pseudônimo é uma criação, uma invenção do autor, apenas um nome diferente de seu nome civil, não existente na vida real. Já o heterônimo designa outra personalidade distinta e independente, com uma biografia inventada. É um personagem fictício, como eram os heterônimos de Fernando Pessoa. Em sua obra literária, o grande poeta português lançou mão de dezenas de heterônimos para expressar a multiplicidade de sua produção poética, cada qual com biografia própria, por ele inventada. O termo heterônimo surge e se consagra com Fernando Pessoa.

No meio espírita, o uso de pseudônimo é bastante comum: Irmão Saulo (Herculano Pires), Max (Bezerra de Menezes), Vinícius (Pedro Camargo), Karl W. Golstein (Hernani Guimarães Andrade), Horácio (Jaci Regis), Fortúnio (Joaquim Carlos Travassos), Mínimus (Antônio Wantuil de Freitas) etc.

No caso de Denizard Rivail, é curioso observar que o nome Allan Kardec, ao contrário dos pseudônimos normais, não foi inventado, não surgiu de sua imaginação. Foi emprestado de uma de suas supostas existências, o que dota o nome, de certo modo, com as mesmas características de um heterônimo, ou seja, tem vida própria, possui uma biografia. O nome Allan Kardec, segundo a tradição aceita pelos espíritas, designa um druida, personalidade que teria vivido entre os celtas, ao tempo de Júlio César na conquista da Gália. É um nome real, de um personagem que supostamente teria existido, podendo se constituir, portanto, num heterônimo.

Todavia, o nome Allan Kardec é mesmo um pseudônimo, é assim que se caracteriza. Devido à sua origem, poderíamos classificá-lo como um semi-heterônimo, porque possui características verossímeis à personalidade de Denizard Rivail, considerando-se no caso, obviamente, que haveria um fio de continuidade existencial, palingenética entre o suposto druida Allan Kardec e o pedagogo Hippolyte Léon Denizard Rivail, reencarnado em Lyon, França, em 3 de outubro de 1804.

Pela abrangência de seu significado, talvez a expressão mais adequada às características do pseudônimo Allan Kardec seja o atual termo nickname (apelido, alcunha). Aplicada em chats, em salas de bate-papo na internet, essa palavra inglesa é usada para identificar os internautas entre si. Normalmente o nick é cheio de caracteres estranhos, que pululam e poluem a interface dos chats no Orkut, Facebook, no Messenger (MSN), nas chamadas redes sociais.

O pseudônimo pode surgir de um apelido, de um cognome, normalmente com sentido pejorativo, mas que também pode representar uma forma de exaltação. Seria um epíteto, alcunha ou codinome. Também conhecido como apodo ou antonomásia, termo este que caracterizaria, por exemplo, a expressão Druida de Lyon, concedida a Allan Kardec. Se tem sentido afetivo, normalmente no meio familiar, nas relações interpessoais, é denominado de hipocorístico. O apelido de Gabi, dado por Denizard Rivail a sua esposa, Amélie Boudet, é um autêntico hipocorístico.

 



Aniversário do CCEPA até doces de Pelotas teve


Uma singela comemoração marcou a passagem dos 77 anos do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, na noite de 19 de abril. Presenças muito caras como Dante López e esposa Mónica com Gustavo Molfino  (Argentina); Mauro de Mesquita Spínola, Jacira Jacinto da Silva e Alcione Moreno (São Paulo); José Dorneles Budó (Santa Maria); Margarida da Silva Nunes (Florianópolis); e Homero Ward da Rosa e Regina (de Pelotas, que, gentilmente trouxeram os famosos doces de sua cidade para a comemoração) deram especial toque de confraternização e de troca de ideias com dirigentes, colaboradores e amigos do CCEPA.

ABRADE resgata o papel de Kardec

Numa iniciativa de seu assessor administrativo, Marcelo Henrique Pereira, a Associação Brasileira de Divulgadores Espíritas – ABRADE -, no mês de Kardec, abril, inseriu em sua home-page uma série de artigos de pesquisadores e especialistas espíritas “sobre o verdadeiro papel de Allan Kardec na Codificação Espírita”, em homenagem aos 156 anos de O Livro dos Espíritos. Você pode conferir os artigos de Carlos de Brito Imbassahy, Carlos Antônio Fragoso Guimarães, Milton Medran Moreira, Marcelo Henrique Pereira, Paulo R. Santos, Mário Lange de S.Thiago, Astolfo Olegário Oliveira Filho e Marcus Vinicius de Azevedo Braga, acessando: http://www.abrade.com.br/site/index.php?pag=cat&show=35 .

 Conferências públicas de junho no CCEPA

O ex-presidente do CCEPA, Donarson Floriano Machado, será o palestrante convidado que, nos dias 3 de junho, 2ª feira às 20h30 e 19 de junho, 4ª feira às 15h, desenvolverá o tema: “A Questão Social no Espiritismo”.

 

 


A Crônica do Sagrado
Não importa se o Sérgio existe. (“A Crônica do Sagrado” de WGarcia, Opinião n.206).  Chama a atenção o artigo do Wilson Garcia, pois ele dá uma tacada certeira no falso de uma sociedade pautada na imagem. E nunca na realidade dos fatos. Na essência das pessoas. No que importa.
O velho não é só a FEB. Velha é a falsidade, permeando todos os vãos e entrevãos de nossa sociedade.
A “Sociedade do Espetáculo” do Guy Debord está em toda a parte, e sem falar disso, Garcia trata do assunto com uma sagacidade interessante: “O problema do novo é o novo”.
Essa frase, por si só, já é todo um programa de estudos. Permitindo a transversalidade de leituras e múltiplas interpretações.
Quando liga a imagem à ilusão, desfere o golpe fatal.
Número 206. Uma vez mais recebo uma agradável surpresa. Todo o jornal está excelente!

Paulo Cesar Fernandes - pcfernandes1951@bol.com.br -  www.portalfernandes.blogspot.com – www.pourkardec.blogspot.com – Santos/SP.

Agradecimento
Caros companheiros de ideal – Em primeiro lugar, agradecemos a remessa regularmente feita de seu jornal, do qual somos assinantes. É uma publicação muito apreciada por nós. Ao mesmo tempo, estamos solicitando a suspensão da remessa, por algum tempo, pois estamos de mudança. Logo estejamos estabelecidos, entraremos em contato com vocês.    Uma vez mais, gratos por todo esse tempo em que nos prestigiaram. Nossos parabéns pelo excelente trabalho. Desejamos tudo de bom e perseverança na tarefa.
Cordial e fraternalmente,

Doris e Roberto Gandres – Rio de Janeiro/RJ.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

OPINIÃO - ANO XIX - Nº 206 - ABRIL 2013


Uma tumultuada relação:
Religião x Direitos Humanos
A eleição do deputado e pastor evangélico Marco Feliciano para presidir a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal reacende, no Brasil, velhas polêmicas entre direitos civis e posições teológicas fundamentalistas.

Racista e homofóbico preside CDHM
Deputado federal eleito pelo Partido Social Cristão – PSC -, Marco Feliciano (foto) é também pastor da Igreja Assembleia de Deus. Recentemente guindado à presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal, o pastor deputado vem recebendo de ativistas dos Direitos Humanos muitas críticas. Sua biografia registra episódios de manifestações explícitas de racismo e homofobia, sustentadas por suas convicções religiosas. 
Marcos Feliciano postou, certa vez, em seu twitter que “os africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé”. Para ele, a maldição bíblica lançada por Noé a seu neto Canaã “respinga sobre o continente africano, daí a fome, pestes, doenças e guerras étnicas”. Em outro post, diz que “a podridão dos sentimentos dos homoafetivos levam (sic) ao ódio, ao crime e à rejeição”.
Tão logo conhecida a eleição de Marco Feliciano para presidir a Comissão de Direitos Humanos e Minorias, protestos passaram a acontecer, tornando fortemente tumultuadas as reuniões da Comissão, na Câmara dos Deputados. Inclusive, o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil – CONIC – terminou por pedir o afastamento de Marco Feliciano da Comissão, em nota pública de repúdio a suas declarações racistas. Outras representações religiosas, no entanto, o têm apoiado, sob o argumento de que suas declarações estão perfeitamente respaldadas na Bíblia. O CONIC é composto por Igrejas cristãs mais tradicionais, como a Católica, a de Confissão Luterana e a Episcopal Anglicana do Brasil.

Enquanto isso, em Roma...
A eleição, dia 13 de março último, do cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio como novo Papa, com o nome de Francisco, abre perspectivas de mudanças na Igreja Católica. Considerado um “conservador moderado”, o novo pontífice assumiu concitando seus fiéis à retomada de valores morais ligados à doutrina cristã, mas nem sempre praticados por sua cúpula, tais como: o desapego de bens materiais, o perdão das ofensas, a tolerância e a fraternidade. Prega uma igreja pobre voltada, preferencialmente, para os pobres. Tais aspectos, se efetivamente assumidos, reaproximam a Cúria Romana da ala que defendeu a Teologia da Libertação, ostensivamente combatida pelos últimos chefes da Igreja. No campo específico dos direitos humanos, entretanto, subsistem dúvidas quanto à biografia do novo Papa. Ele é apontado por alguns biógrafos como tendo colaborado com as forças de repressão da ditadura militar em seu país. Tanto no Brasil como na Argentina, setores conservadores da Igreja prestigiaram as ditaduras militares, sob o argumento do combate ao comunismo. Já a Teologia da Libertação se caracterizou por uma forte ação contra a violação dos direitos humanos patrocinados pelos governos militares.
Presentemente, algumas práticas, como união ou casamento de pessoas do mesmo sexo, o uso de preservativos, a plena igualdade de direitos entre homens e mulheres, inclusive no seio da Igreja, a ampliação da licitude para algumas hipóteses de aborto, têm posto em confronto ativistas de direitos humanos e a Igreja Católica.  Junto a esta, mas sempre em nível bem mais ostensivo, políticos ligados a igrejas evangélicas pentecostais e neopentecostais, e que experimentam grande avanço no país, assumem posições ultraconservadoras, graças ao espaço político conquistado. É nesse contexto que se insere o Pastor Marco Feliciano, Deputado Federal eleito para presidir a CDHM.





Onde devemos nos situar?         
Valores bíblicos nem sempre combinam com direitos humanos. Ao contrário, foi sempre em nome daquilo que os religiosos classificaram como a palavra de Deus, que a Igreja, historicamente, discriminou mulheres e homossexuais, execrou etnias, provocou torturas e genocídios, assumiu claras posturas escravocratas, combateu a liberdade de pensamento e crença, condenou a separação entre Estado e Igreja, etc.
A Reforma Protestante se, de um lado, permitiu interpretações bíblicas mais livres, dando ambiente ao pluralismo religioso, por outro, abriu caminho para a formação de igrejas mais conservadoras e fundamentalistas. O fundamentalismo religioso, no atual cenário especialmente da América Latina, com destaque para o Brasil, medra e se desenvolve no seio de um amplo campo popular, onde o acesso à educação e ao esclarecimento político é ainda limitado e escasso. Aí, nascem e se reforçam lideranças políticas que se autodenominam representações de Deus. Nessa condição, e no vácuo de um fisiologismo político difícil de ser superado pelo Estado brasileiro, reeditam comportamentos diametralmente opostos a uma política de direitos humanos fundada em conceitos humanistas, conquistados, quase sempre, contra a religião.
A Igreja Católica, graças aos valores seculares e humanistas já assimilados no curso de sua longa e tumultuada história, aos poucos vai se adaptando à modernidade. Lideranças com níveis de cultura e de inserção político/social como o cardeal Bergoglio, agora guindado ao Papado, oferecem expectativas de mudanças em favor da plena aceitação e vigência de direitos humanos recém-emergentes e que combatem históricos preconceitos, alimentados pela fé religiosa.
De qualquer sorte, aqueles segmentos verdadeiramente progressistas, laicos e livre-pensadores, onde devem estar inseridos os espíritas, precisam se manter atentos para que retrocessos como os propostos pelo Deputado e Pastor Feliciano sejam, de fato, abortados. (A Redação)





Para além da Liturgia 
e do Poder
"Na religião o que há de real, essencial, necessário e eterno é o Cerimonial e a Liturgia - e o que há de artificial, de suplementar, de dispensável, de transitório é a Teologia e a Moral." - Eça de Queirós.

Fosse quem fosse, o escolhido como novo Papa, dentre os 119 cardeais participantes do conclave, naquele 13 de março, a multidão presente na Praça de São Pedro explodiria em aplausos, ao seu anúncio.
O aparecimento da fumaça branca na chaminé da Capela Sistina, em qualquer circunstância, encontra a massa em estado de quase êxtase. Gritos, choros, risos... Uma explosão de patéticas emoções é registrada, no momento em que o mais velho dos cardeais proclama “Habemus Papam”, declinando, a seguir, o nome do eleito.  A partir de então, seja ele quem for, merecerá o tratamento de “Santidade” e tudo o que em nome da fé disser, estará revestido de verdade, porque a infalibilidade o acompanhará na vida, até a morte ou até a uma eventual renúncia.
Assim foi e assim continua sendo numa sociedade movida pela espetacularização e que, segundo o pensador Wilson Garcia (leia sua crônica na última página desta edição), não sobrevive sem a presença de fortes signos icônicos. A Igreja sabe disso e, valendo-se da condição, historicamente construída, de administradora e guardiã do sagrado, utiliza-se largamente da simbologia, do fausto, do mistério e da pompa, em circunstâncias assim. Isso também é garantia de prestígio e de poder.
Estaria o Papa Francisco disposto a quebrar essas tradições? Deseja mesmo, conforme sugerem algumas de suas primeiras atitudes como novo pontífice, abrandar as pompas, reduzir o luxo, tornar, enfim, mais simples a instituição que dirige? E, se realmente o quer, conseguirá? Não estarão esses signos e práticas de tal forma entranhados na alma da Igreja e de seus fiéis a ponto de tornar impossível sua remoção? Talvez sejam, em suas instâncias superiores, bem mais fortes as correntes desejosas da manutenção deste “status quo”, em sentido contrário, pois, ao expresso desejo do novo chefe. Provavelmente, também a grande massa de fiéis prefira o luxo à pobreza, o mistério à verdade, a pompa à simplicidade. Entre nós, o carnavalesco Joãozinho Trinta celebrizou o conceito de que quem gosta de miséria é intelectual. Povo, dizia, gosta mesmo é de luxo. Valeria isso também para o autodenominado “povo de Deus”?
Todas essas questões interessam vivamente a nós, espíritas. Diversamente das igrejas e das religiões, buscamos uma espiritualidade sem ritos e liturgias, sem pompas nem sacerdotes, privilegiando a essência sobre a simbologia, o livre pensamento em vez do dogma. Reconhecemos que há, também na Igreja, setores com essa tendência. Mas até que ponto serão capazes de enfrentar todo o aparato histórico construído sob aquela pesada atmosfera? As instâncias de poder ali sobrepostas teriam levado o anterior Papa à renúncia, confessando-se sem forças para cumprir sua tarefa. Se para seu antecessor, o essencial estava na teologia e na disciplina institucional, Francisco demonstra privilegiar o exercício de virtudes como simplicidade e solidariedade.
Eça de Queirós pode ter sido demasiadamente cáustico ao afirmar ser a moral sempre secundária na religião que privilegiaria, ao contrário, o cerimonial e a liturgia. Não se duvida, entretanto, de que pompa e poder tendem a sufocar a mensagem, tal como o joio o faz com o trigo.
Só a História há de demonstrar a que norte Francisco poderá levar sua Igreja. Se sua política e os resultados concretos de suas ações contrariarem a afirmativa do autor de “O Crime do Padre Amaro”, a espiritualidade terá avançado sobre a religião. E nós, espíritas, saudaremos esse avanço.




         

Deus nos livre!
Circulou na Internet, numa das listas de debates de que participo, um texto com o título de “Deus nos livre de um Brasil Evangélico”. O artigo vinha assinado por Ricardo Gondim, um sujeito que eu não sabia quem era. Fui ao Google e fiquei sabendo: Trata-se de um ex-pastor evangélico, que, lá pelas tantas, resolveu deixar o movimento. O motivo da ruptura, segundo declarou na oportunidade, era que não admitia pertencer a “qualquer tradição, escola ou cânone” que cerceassem sua “capacidade de arrazoar”, ou que lhe impusessem a “obediência servil”. Dissera, ainda, que passaria a admitir unicamente “a consciência” como capaz de “chancelar” sua vida. Um ato de coragem para quem, até então, estivera engessado pelos dogmas bíblicos e aprisionado a algumas ideias retrógradas que seguem fazendo a cabeça de quantidade cada vez maior de gente, neste país já profetizado como “coração do mundo” e que está, mesmo, se transformando em “pátria dos evangélicos”.
         
O Brasil evangélico
No artigo que agora caiu na rede, Gondim, já fora do movimento, diz ver com muita apreensão esse avanço evangélico no país. Pergunta: Como seriam, num Brasil evangélico, tratados um Ney Matogrosso, Caetano Veloso ou Maria Gadu? Que destino teriam poesias sensuais como “Carinhoso”, de Pixinguinha, ou “Tatuagem”, de Chico? Nas Universidades, teoriza o autor, seria proscrito Darwin, se proibiria a leitura de Nietzsche e de Derrida. A política, a exemplo do que já ocorre com a bancada evangélica, seria dominada pelo fisiologismo. A cultura morreria, porque manifestações folclóricas como a do bumba-meu-boi e do frevo não caberiam dentro do estado teocrático evangélico.

Vai passar...
Alguns companheiros debatedores fizeram comentários com o mesmo tipo de preocupação. Aqui no meu cantinho, fiquei quieto, mas pensei: Bobagem! Isso não vai acontecer no Brasil. O Ocidente cristão está imunizado contra o estado teocrático. A História não volta para trás, malgrado as iniciativas nesse sentido. Elas produzem efeito nas camadas mais carentes social e culturalmente, porque adotam um formato compatível com a sociedade de consumo. O apelo de que você aceita “Jesus como único Senhor e Salvador” e, a partir daí, a fortuna, o amor, o poder, a saúde e tudo o mais que deseja deste mundo lhe caem aos pés, tem se mostrado eficiente. Multidões são, assim, arrebanhadas. Ambiente ideal para políticos oportunistas.
Mas, isso vai passar. Há uma parte boa da sociedade, com forte poder de reação. É a que protesta, por exemplo, contra a eleição de um deputado pastor à presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal. Mas, esse marketing religioso tende a enfraquecer ao natural. Como dizia o velho Lincoln: “Pode-se enganar a todos por algum tempo; pode-se enganar alguns por todo o tempo; mas não se pode enganar a todos o tempo todo”.

Laicismo e humanismo
O progresso das ideias e dos costumes é uma coisa avassaladora. Há uns 30 anos, quando passou a se intensificar essa onda pentecostalista no Brasil, as crentes andavam com saias pelas canelas e cabelos descendo à cintura. Agora, que as Igrejas comandam televisões e patrocinam grandes shows musicais, seus hábitos também se secularizam, tragados pela modernidade. A tendência da sociedade moderna, e, logo, do Estado, é a total laicização. Está aí o novo Papa dizendo, da sacada de seus aposentos: “Bom dia”, “bom almoço”, no lugar de “Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo”. É a sociedade laica, e não as religiões, que pautam os costumes e o comportamento de nosso tempo. Se as religiões quiserem sobreviver, terão que se dobrar à laicidade dos costumes, das ideias, do discurso e também da moral. Esta se aprimora na medida em que se liberta do sagrado, da revelação, e é reconhecida como naturalmente humana e universalmente válida. É nesse contexto que uma espiritualidade fundada na razão e no livre-pensamento desbravará caminhos.
Espiritualistas livre-pensadores e humanistas, não temamos. O futuro nos pertence!






A Notícia

FEB editará tradução – O Novo Testamento
Haroldo Dutra Dias, tradutor de “O Novo Testamento”, obra lançada no ano de 2010 e esgotada, assinou contrato com a Federação Espírita Brasileira para cessão dos direitos autorais e patrimoniais da obra “O Novo Testamento (Evangelhos e Atos)”, a qual será lançada pela Editora FEB na segunda quinzena do próximo mês de abril. A assinatura do documento, com Haroldo e o presidente interino da FEB Antonio Cesar Perri de Carvalho, ocorreu no último dia 16 de fevereiro durante reunião do Núcleo de Estudo e Pesquisa do Evangelho da FEB, do qual o tradutor é coordenador.

Fonte: http://www.febnet.org.br/blog/geral/pesquisas/nepe/feb-editara-traducao-o-novo-testamento/

A crônica

Crônica do sagrado
WGarcia
(Wilson Garcia é escritor e jornalista. Mestre em Comunicação e Mercado,
Professor da Faculdade Maurício de Nassau, Recife, PE.)

Sérgio mora em São Paulo, mas o vejo sempre pelo Skype... Ontem, achei-o um pouco desenxabido, daquele tipo que fica olhando para o lado como quem quer fugir de uma conversa mais franca.
Interessante, o virtual já se misturou com o real de tal maneira que as pessoas estão repetindo na imagem o comportamento que expressam no face-a-face e o virtual está tão high definition que se torna quase natural perceber essa nova realidade.
Sem me conter, indaguei: que há contigo?
Desculpou-se três vezes, antes de abrir-se. Estava decepcionado, pois acredita na mudança, na necessidade da mudança, no dever da mudança, no movimento que implica mudança já que a roda da evolução só gira para frente.
Não entendi, disse.
Enfim, desabafou: hoje li a notícia do fechamento pela FEB do contrato para a publicação da Bíblia. Isto é o fim de toda minha esperança de transformação no destino da velha instituição. No que devo acreditar, qual é o significado do novo se o novo repete o velho?
Ouvi-o por cerca de dez minutos, a desenrolar o seu imenso corolário de justificativas. E vi sua face tensa, triste, doída.
-Não precisa repetir-me os seus avisos, falou-me. Agora entendo.
Sérgio calou-se. Foi minha vez de falar.
O problema do novo é o novo. É difícil representá-lo, ser o porta-voz dele, encarná-lo. Onde está o novo? No espírito? Mas o espírito para ser o novo não pode ser apenas retórica e argumentos.
O problema do homem que se autoproclama representante do novo é deixar-se ver apenas em sua complexidade imagética: nos olhos, na face, na expressão corporal, detalhes do visível recortado iconicamente.
O discurso do homem-imagem pode ser o discurso da esperança, mas quando a realidade o confronta vê-se que a esperança dele não é a do homem novo. A imagem padece de conformidade com (ao negar) a realidade, e não a nega apenas pelo conteúdo ilusório que lhe é próprio, mas pela ilusão acrescida, deliberada, intencional.
O novo não é naturalmente inclusivo, não está nem faz parte por ser o novo. Sua inclusão se dá pela ação que decorre da convicção firmada. O discurso é a promessa, que a imagem incorpora magistralmente, e muito mais no cotidiano tecnológico de nosso tempo.
Quando o homem-imagem-discurso descobre o prazer da fantasia e a espetacularização o projeta socialmente, apodera-se da ilusão imagética para aumentar o fascínio do outro, alimentando-a com a retórica do novo, da mudança, infundindo no outro a falsa esperança.
É por isso que o homem-imagem não pode mais prescindir desse signo icônico. Sem ele, ver-se-ia despido, nu, transparente e nem sempre o nu é arte.
Há duas maneiras de interpretar a imagem: uma mais segura e muito difícil, decorre da análise semiótica e para ser realizada exige especialização; outra, mais fácil e também mais dolorosa, chega-nos pelos veios pedregosos da desilusão. É quando a realidade contorna a imagem e se mostra em sua própria nudez.
O homem-imagem sabe que está sempre em perigo, pois participa de um jogo onde a imagem persegue a realidade e a realidade só se deixa aprisionar em seus nacos mutáveis. Quando um flagrante do real é registrado, no instante seguinte a realidade já não é mais aquela.
A imagem sobrevive na duração, a realidade existe para além do tempo. A primeira resulta intencional, a segunda está acima de qualquer suspeita.
Quando, pois, o homem-imagem, apesar de comprometido na origem com o novo, age para manter o velho como a FEB ao propor-se a editar a Bíblia, meu caro Sérgio, o que deixa à mostra? A impossibilidade de dominar a realidade.
Ah, não se esqueça de uma coisa: a ilusão é elemento intrínseco à imagem e não à realidade.





CCEPA – 77 Anos
Neste mês de abril, o Centro Cultural Espírita de Porto Alegre (ex-Sociedade Espírita Luz e Caridade) completa 77 anos de fundação.
Será uma oportunidade para quem quiser conhecer as origens, a história, as ideias e as transformações vividas por esse núcleo do pensamento espírita, fundado no ano de 1936, no tradicional bairro porto-alegrense do Menino Deus, onde até hoje está situado. Na noite de 19 de abril (sexta-feira), às 20h, uma mesa redonda, coordenada pelo presidente do CCEPA, Milton Medran Moreira, e da qual participarão seus mais antigos dirigentes, Maurice Herbert Jones e Salomão Jacob Benchaya, vai marcar o evento. O encontro é aberto a todos os interessados.
Além dos associados e colaboradores do CCEPA, já asseguraram presenças: Dante López, presidente da CEPA e esposa; Gustavo Molfino (3ºvice-presidente da CEPA); Mauro de Mesquita Spínola (2º vice-presidente); Alcione Moreno (presidente da CEPABrasil); e mais os delegados da CEPA: Jacira Jacinto da Silva (São Paulo), Homero Ward da Rosa e esposa (Pelotas), José Budó e esposa (Santa Maria) e Margarida Nunes (Florianópolis). Todos estarão participando, no sábado, dia 20, de uma reunião administrativa conjunta da CEPA e CEPABrasil, que terá por sede o Centro Cultural Espírita de Porto Alegre.

Atividades Públicas de Abril e Maio no CCEPA
Além da sessão comemorativa ao aniversário da instituição (dia 19, às 20h), o Centro Cultural Espírita realiza, no mês de abril, as seguintes atividades também abertas ao público:

Dia 1º - 20h30 – Conferência “Fenômenos Paranormais”, a cargo de Aureci Figueiredo Martins;
Dia 17, 15h – Conferência “Espiritismo e Ciência”, com Salomão Jacob Benchaya.

Segue aberto à participação de estudiosos do espiritismo, nas sextas-feiras, às 15 horas, o grupo formado para o Estudo Analítico de O Livro dos Espíritos, uma reflexão crítica e atualizada, coordenada por Salomão Benchaya, da principal obra de Allan Kardec.

No dia 6 de maio, às 20h30, e também dia 15/5, às 15h, você está convidado a assistir à conferência do Prof. Moacir Costa de Araújo Lima “Quântica, Espiritualidade e Saúde”, no auditório do CCEPA, com sessões de autógrafos de seu livro que leva o mesmo nome.






Depois da tragédia (1)
Sobre a matéria de capa de CCEPA-Opinião de março, depois de tantas mensagens irracionais tentando dar a interpretação espírita à tragédia de Santa Maria, eu aguardava a criteriosa análise de vocês. Imaginei que não deixariam sem resposta. Bom texto, como sempre.
Eneida Barreto Pereira – Santos/SP

Depois da tragédia (2)
Todas as edições do jornal “Opinião” são muito instrutivas e boas. Mas, na edição de março, vocês se superaram.
As análises profundamente esclarecedoras sobre as causas da tragédia de Santa Maria ajudam, e muito, na correta compreensão da Doutrina Espírita, resgatando-a de interpretações equivocadas sobre a Lei de Causa e Efeito. No fundo, essas inconsistências refletem os dogmas cristãos que aprisionam em culpas, tudo muito distante da boa lógica kardecista.
Foram também oportunas e sensatas, as considerações sobre o novo Papa e o milenar cerimonial que o elegeu. Que venha o novo, não apenas nas necessárias reformas morais, mas também nas antiquadas práticas vaticanas. Um abraço grato por sempre aprender com vocês!
Nícia Cunha – Cuiabá/MT                                                                       

Simplesmente, humano
Caro Medran, gostaria de parabenizá-lo pelo excelente artigo sobre a renúncia de Bento XVI (“Simplesmente, humano”), publicado no jornal Zero Hora e que foi, também, editorial de CCEPA Opinião de março. Aproveito para cumprimentar o Centro Cultural Espírita pela ótima diagramação de seu blog – www.ccepa.blogspot.com .
Grato, igualmente, pela oportunidade de expor minhas reflexões (artigo A Crise da Civilização Atual) a um público tão especial e seleto, como o é o dos leitores deste jornal.
Gláucio Grijó – Brasília/DF.

domingo, 10 de março de 2013

OPINIÃO - ANO XIX - Nº 205 - MARÇO 2013


Hora de apurar causas e responsabilidades
Depois da tragédia
Após o incêndio da Boate Kiss que vitimou cerca de 240 jovens, a maioria deles universitários, na cidade gaúcha de Santa Maria/RS, sob forte pressão social o Poder Público apura as causas da tragédia prometendo responsabilizar todos os culpados. Enquanto isso, surgem no meio espírita teses conectando o dramático episódio a culpas coletivas do passado a serem resgatadas pelas vítimas. Seria essa uma interpretação legitimamente espírita?

Auschwitz-Santa Maria?
Quem vislumbra, invariavelmente, em tragédias como a de 27 de janeiro, um nexo direto de culpa das vítimas com o evento e seus detalhes aponta dois dados concretos que parecem ir além de mera coincidência: 1º - o incêndio da casa noturna aconteceu justamente no Dia da Memória do Holocausto; 2º - o gás responsável pela intoxicação das vítimas era o mesmo utilizado pelos nazistas nos campos de concentração onde ocorreu o genocídio de milhões de judeus, na primeira metade do Século XX.
A tese do resgate coletivo por obra de meticulosa ação da “espiritualidade”, que reúne, num mesmo lugar, criminosos de ontem para se tornarem vítimas de iguais sofrimentos causados a terceiros em outras encarnações, já foi levantada, diversas vezes, no meio espírita brasileiro. A mais conhecida consta de psicografia de Chico Xavier de texto atribuído ao espírito Humberto de Campos. Veio à tona em 1961, quando do incêndio de um circo em Niterói, RJ, do qual foram vítimas mais de 500 pessoas, a maioria crianças. Pela versão, todos os mortos de Niterói estariam comprometidos por terem participado do martírio em massa de cristãos, também pelo fogo e também num circo, do Império Romano, então governado por Marco Aurélio, no ano de 177.
Da mesma forma, o incêndio do Edifício Joelma (São Paulo/1974) ganhou idêntica versão, atribuindo-se às suas vítimas culpas contraídas como partícipes das Cruzadas.

Manuel Porteiro: tese é contrária à lucidez espírita.
O argentino Manuel S. Porteiro, em sua apreciada obra “Espiritismo Dialético” levantou séria oposição à tese de que “aquele que sofre é porque fez sofrer anteriormente os demais” e que, assim, “necessita de sofrimento para purgar o mal feito”. Para ele, “dar por originários de existências anteriores todos os males, todos os abusos, desmandos, crimes, desigualdades e iniquidades que se contemplam no mundo”, é mais do que uma falsa interpretação, indica “falta de lucidez na consciência dos que assim creem e supõem”. O introdutor da sociologia espírita sustenta que o espiritismo não nos autoriza a crer “na série infinita de causas e efeitos”. Para ele, a doutrina espírita não autoriza interpretar que “o mal deva emendar-se com o mal, a injustiça com a injustiça, a ofensa com a ofensa, porque a lei de causalidade espírita não é unilateral, mas bilateral, isto é, um dano recebido pode ser corrigido por quem o faz com um bem equivalente, sem necessidade de sofrer o mesmo mal”.
Sobre o tema, a pedagoga espírita brasileira Dora Incontri disponibilizou em sua página na Internet - http://doraincontri.com/2013/01/28/reflexoes-espiritas-sobre-a-tragedia-de-santa-maria/ - artigo rejeitando a tendência no meio espírita de dar, nesses casos, “respostas fechadas, apressadas, categóricas, deterministas”. Considera a existência de “muitas variáveis nesse processo: por exemplo, estamos sempre agindo e, portanto, sempre temos o poder de modificar efeitos do passado”. Para ela, “dores nem sempre são efeitos do passado, mas sempre são motivos de aprendizado”.





Resquícios de ira divina

Rejeitar interpretações lineares como a de “quem com ferro fere com ferro será ferido” está longe de se constituir numa recusa ao princípio filosófico da causalidade espírita. Na base da lei de causa e efeito está o princípio de que todo o mal gera sofrimento a quem o praticou. Mas a dor tem um sentido pedagógico. Leva à conscientização e à mudança. A forma mais humana de o espírito resgatar o mal é fazendo o bem. Não é sofrendo o mesmo mal que fez a outros, num círculo vicioso que não teria fim. Isso também vale para a sociedade. O gênero humano, nos milhares de anos de sua evolução, tem aprendido, sucessivamente, com seus erros.

É um acinte à sua memória ver os jovens vitimados pela tragédia de Santa Maria como bandidos, merecedores de uma pena de puro caráter retributivo. Eram quase todos estudantes dedicados, bons filhos, amorosos e honestos. Alguns sacrificaram a vida buscando salvar outros. Deixaram um rastro de dor e saudade. Além disso, a morte de um ente querido é mais dolorosa para quem fica do que para quem parte. Pergunta-se: também seus pais, irmãos, avós, namorados, amigos, todos estariam pagando dívidas contraídas como nazistas? A nação, que sofreu junto, estaria coletivamente comprometida? 

É racional crer na justiça como fator de reabilitação do espírito. Mas não com mecanismos tipo “olho por olho, dente por dente”, resquício de “ira divina”. Preferível ver tragédias assim como efeitos de outra causa: a imprevidência humana.

Mas a lei é dinâmica. A dor que hoje parece insuportável, amanhã será superada. E terá ensinado. Já não cometeremos os mesmos equívocos. A reencarnação tem por fim educar. Não é castigo. É chance de corrigir erros. Ainda que com dor.  
(A Redação).




Simplesmente, humano.
“É uma pessoa que não tem nada de inquisidora, extremamente afável, gentil, absolutamente tranquila”. (Leonardo Boff, sobre Bento XVI, 2005)

Só o tempo ou, quiçá, nem ele, poderá revelar à História todas as razões que levaram o Papa Bento XVI à renúncia de seu pontificado. Demitir-se de um cargo para o qual foi eleito vitaliciamente e que alça seu titular, no imaginário popular e por força da fé e da tradição, à distinguida condição de “representante de Deus na Terra”, é gesto tão singular quanto surpreendente.
Da instituição por ele dirigida reconhece-se, mundialmente, sua força e poder. Mesmo que a História lhe haja imputado, ao curso dos tempos, a autoria de graves violações aos mais caros valores civilizatórios, seus dirigentes e fiéis chamam-na de “santa”. E, conquanto da lista de seus sumos pontífices, constem nomes a quem se atribuem atos da mais abjeta imoralidade e flagrante injustiça, o titular do cargo, recebe, em qualquer circunstância, o tratamento de “Santidade”.
O adjetivo que antecede a nominação da Igreja Católica Apostólica Romana e o tratamento reverencial reservado a seu sumo pontífice, justificam os teólogos, não se vinculam exatamente ao procedimento institucional e pessoal eventualmente adotado por um por outro, mas da missão sacrossanta de que estariam investidos. Em tese, pois, estariam ungidos da perfeição e das virtudes divinas, mas, na prática, como qualquer pessoa ou instituição, sujeitam-se aos erros pertinentes à humana imperfeição.
Difícil entender essa contradição fora do dualismo sagrado/profano. Por muito tempo, enquanto vigia no mundo a crença na existência de uma “ordem divina” em inconciliável contraste com a “ordem humana”, aquela incorrupta, esta corrompida por força do “pecado original”, havia lugar para esse fatal e insuperável maniqueísmo. Dentro dessa concepção, uma única instituição poderia se arrogar o privilégio da origem divina que a faria ponte entre os céus e a Terra. Mas, composta que é de homens, justificava-se fosse, ao mesmo tempo, santa e pecadora, virtuosa e devassa, sem que, com isso, perdesse  autoridade e credibilidade.
 A modernidade, no entanto, sem que, talvez disso se apercebesse claramente a Igreja, foi, pouco a pouco, superando o maniqueísmo sagrado/profano, divino/humano, substituíndo-o simplesmente pelo natural. O fenômeno universal é regido por leis naturais, que abarcam o físico e o moral, o material e o espiritual. Não é preciso tirar Deus dessa nova concepção de universo. Ele aí está presente como “inteligência suprema e causa primeira de todas as coisas”, consoante tenta defini-lo O Livro dos Espíritos (1857).  Mas, para esse Deus não há pessoas e nem instituições privilegiadas, acima do bem e do mal. “Criados” todos simples e ignorantes, porque resultantes de um longo processo evolutivo, tornamo-nos capazes de nos reconhecer mutuamente como iguais em direitos e obrigações, sujeitos a erros e acertos e subordinados a uma mesma lei universal. Somos, no plano e no estágio em que nos encontramos, simplesmente, humanos. Como humanas serão todas as instituições que formos capazes de criar.
É nesse contexto que o velho conceito de santidade vai dando lugar ao de humanidade. Descobre-se, pouco a pouco, que toda a virtude, antes tida por revelação divina a alguns intermediários privilegiados, está, de fato, ínsita na própria natureza humana, como fagulha da divindade que a tudo deu origem e que a tudo alcança. Na medida em que essa consciência se faz comum entre homens e mulheres, percebe-se que não há mais lugar para distinções entre uns e outros e nem para outorgas representativas da divindade, com leis que assegurem privilégios sejam esses por crença, sexo, ideologia ou etnia.
Essa mesma consciência de humanidade que a todos nos submete a princípios éticos universais é avassaladora. Pouco a pouco, derruba, em todos os quadrantes, as mais resistentes autocracias e aristocracias. Instituições, grupos raciais, políticos ou religiosos que teimam em preservar seus membros da censura imposta por regras que a civilização e a modernidade tornaram mundialmente cogentes, mais cedo ou mais tarde, terão de se submeter a esse tratamento igualitário de que buscaram se furtar. É o tempo da humanização que está um passo à frente da santificação.
Sem ser exatamente um santo, título que, talvez, até o incomodasse, Joseph Ratzinger entendeu, quem sabe antes de seus pares, que é simplesmente um homem e que humana é, simplesmente, a instituição que dirigiu. Seria esse o móvel de sua renúncia?




         

           Resgates coletivos
Muitos espíritas – eu, entre eles, – têm imensas dificuldades em aceitar a tese dos resgates coletivos de espíritos presumivelmente autores de chacinas e genocídios do passado. A versão retorna sempre após as grandes tragédias. Para lhe dar crédito, teremos de admitir fatores que, me parece, fogem inteiramente da racionalidade espírita (embora seja justamente a racionalidade da lei de causa e efeito o argumento de seus defensores.).        Não parece racional que grupos tão grandes de espíritos aceitem ou sejam compelidos a reencarnar juntos, num mesmo país ou cidade, para, juntos, embarcarem em um voo, irem a um circo, ou uma boate, com o objetivo predeterminado de, lá, morrerem exatamente da mesma forma como, em algum lugar do passado, tiraram a vida de outras pessoas. Tragédias e martírios meticulosamente preparados, coordenados e executados por “espíritos superiores” para que sejam cumpridos os desígnios da “justiça divina”

          Reencarnação, um processo complexo que objetiva o progresso
A reencarnação, penso, é um processo complexo, onde nossas faltas e dores de consciência também contam para a tomada de eventuais decisões nossas e dos espíritos chamados a contribuir com nosso progresso. Mas, quando se fala em consciência de nossos erros e imperfeições, está se admitindo, por consequência, uma relativa capacidade de avaliar a nocividade do mal feito e de planejar sua reparação da forma mais inteligente possível. Não é nada inteligente, e, sob os modernos parâmetros de justiça, também nada humano, que se cominem ao faltoso penas de caráter inteiramente retributivo.  Punições que atingirão centenas, milhares ou, talvez, milhões de outras pessoas. Isso lembra a suma injustiça do pecado original judaico-cristão que penaliza não apenas o primeiro casal, mas toda sua descendência. Se para o cristianismo o pecado original só logrou ser redimido pelo sofrimento de “Nosso Senhor Jesus Cristo”, para essa versão melhorada de “justiça divina”, os grandes crimes de ontem só podem ser resgatados pelos próprios pecadores, vitimados por desastres aéreos, incêndios, deficiências físicas que o ser humano e a sociedade sequer poderão evitar, porque pré-agendados em seu mapa de provas e expiações.

          A obra de Humberto de Campos na psicografia de Chico
- Ah! – hão de dizer alguns – mas a fonte dessa explicação é fidedigna, pois consta de psicografia de Chico Xavier de insuspeita autoria espiritual de Humberto de Campos.
Tenho um respeito muito grande por Chico e, confesso: ao me tornar espírita, devorei e apreciei demais todas as obras a ele ditadas pelo Irmão X ou Humberto de Campos. Com o mesmo estilo leve, coloquial, elegante, que fez dele, quando encarnado, um dos grandes cronistas brasileiros, Humberto, na espiritualidade, continuou sendo um talentoso contador de histórias. Com elas, buscava transmitir aos leitores do lado de cá conceitos de imortalidade e reencarnação, que ele só foi conhecer no lado de lá. E o fazia, é claro, utilizando-se da ficção e de metáforas com as quais tão bem manejam contistas e cronistas. “Crônicas de Além Túmulo”, “Contos e Apólogos”, “Reportagens de Além Túmulo” e, naturalmente, a bíblia do espiritismo cristão brasileiro, “Brasil, Coração do Mundo e Pátria do Evangelho”, são exemplos vivos da ficção e da metáfora a serviço de uma causa ou, neste último exemplo, a serviço de uma política institucional espírita-cristã.

          Livre-arbítrio e autoderminação onde ficam?
É nesse contexto que interpreto versões como as que apontam as vítimas do incêndio do Gran Circus Norte-Americano (Niterói, 1961) como autores da morte dos cristãos num circo romano. Ou os jovens mortos na Boate Kiss (Santa Maria, 2013), como nazistas responsáveis pelo holocausto judeu. Pura ficção.  Metáforas que ajudam na transição da crença das penas eternas para a da reencarnação punitiva, meramente retributiva. Mas, irracional. Até porque a se crer que tudo está previamente determinado, todas as precauções contra as grandes tragédias, todos os esquemas de segurança, as cautelas pessoais, serão inócuos. Será, enfim, a revogação do livre-arbítrio, do engenho e da criatividade humana e do princípio da autodeterminação do ser e da sociedade, caras conquistas do espírito imortal em sua caminhada evolutiva




A Crise da Civilização Atual
Gláucio Coelho Grijó, Enfermeiro pós-graduado em Saúde Pública; Bacharel em Comunicação, Ex-presidente da Mocidade Espírita Estudantes da Verdade – MEEV – Santos-SP.
 
Não podemos mais permitir que grupos e homens inescrupulosos, com sua loucura pelo lucro, comandem a sociedade e a nossa forma de viver, onde o dinheiro compra tudo, inclusive o tempo, a consciência e honra.

Vivemos neste começo de século em um mundo extremamente conturbado e, acima de tudo, em crise. Crises financeiras, nas estruturas sociais e de valores. Segundo o sociólogo e filósofo Edgar Morin (2012), o capitalismo financeiro, sua dominação e o fanatismo étnico-racial são graves males da atualidade. Além destes, poderíamos incluir o dinheiro - ditando quase todas nossas relações -, o hiperconsumismo, o individualismo das pessoas, a aceleração do ritmo em nossas vidas e a constatação de que os avanços tecnológicos não tornaram nossas vidas mais tranquilas e indolores.
No atual cenário as empresas transnacionais não param de crescer e engolir os concorrentes em todo o planeta, aumentando ainda mais a riqueza de seus acionistas majoritários em contrapartida ao crescente abismo entre os mais ricos e o restante da população. Com a desculpa de “reduzir os custos” e “aumentar a produtividade” os norte-americanos e europeus deslocaram sua produção manufatureira para a Ásia, onde prevalecem os baixos salários, câmbio desvalorizado e alta produtividade, aponta L.Gonzaga Belluzo (2012). Junto à concorrência desleal dos produtos chineses geraram a destruição dos pequenos artesãos, do operariado organizado e a quebra das pequenas fábricas em todo o mundo, com reflexos acentuados nos Estados Unidos, Europa e em nosso país. Essas holdings e transnacionais, juntamente com os governos dos países mais “ricos” e “desenvolvidos” tratam o meio-ambiente com total desrespeito, basta constatar o fracasso da Rio+20.
A crise americana e europeia tem, em grande parte, origem nas políticas neoliberais e no sistema financeiro que entrou em parafuso entre 2007-2008, e não apenas na má condução dos Estados e nas conquistas e direitos sociais que os países europeus promoveram no pós-guerra. As medidas de “austeridade” impostas aos mais endividados e “gastadores”, como se sabe, estão massacrando os europeus, principalmente do sul, agravando ainda mais os conflitos étnico-raciais, com aumento excessivo do desemprego, e o que é pior, gerando uma ausência de perspectiva de futuro para grande parte das pessoas.
A cada dia temos a sensação de que o tempo passa mais depressa, temos sempre que estar “ocupados” e “produtivos”. O economista e romancista Fernando Trias de Bes (2006) sustenta
que há três tipos de aceleração que se combinam: a aceleração técnica (internet, smartfones, etc.), a aceleração social (troca-se mais de emprego, mudam-se os objetivos), e a aceleração do ritmo de vida (dorme-se menos, fala-se mais rápido, compartilha-se menos com os mais próximos). As comunicações, segundo ele, são cada vez mais intermediadas por celulares e outros. Entretanto, se conectar e se comunicar não são o mesmo, alerta o escritor argentino Sergio Sinay (2012). Segundo ele “A comunicação é o oposto, pois requer presença, compromisso, maturidade, exige que a pessoa encare o mundo, os riscos do encontro e do desencontro”. Isso exige mais tempo, e parece que as pessoas não querem “perdê-lo”. Aproveitá-lo “ao máximo” é a lógica da rentabilidade da atividade econômica, onde o “concorrente não dorme jamais” se estendem a todos os ramos de nossas vidas, explica Bes. Fazer o que realmente nos dá prazer e satisfação, sem a preocupação com o retorno financeiro - como ler este artigo-, parece impossível ou antiprodutivo.
A busca pelo prazer sexual desenfreado, o culto exagerado ao corpo, o hiperconsumismo, o abuso de álcool - principalmente entre os jovens - são valores a todo o momento estimulados pela publicidade e pelos meios de comunicação, sejam através dos livros, novelas, filmes, videoclipe e reality shows.
O dinheiro dita quase todas as nossas relações, afirma Georg Simmel (1978) Segundo este sociólogo alemão: “O dinheiro esvazia o núcleo das coisas, transforma objetos tangíveis em mercadorias comuns, a exemplo a consciência e a honra, que até então não se podia comprar”. A corrupção é um exemplo disso. Seja nas empresas privadas ou no poder público, ela reflete uma doença social.   Para Morin “A humanidade está ameaçada por toda essa loucura da busca pelo lucro, por toda essa insanidade fanática”.  
Isto posto, podemos chegar à conclusão que atravessamos um momento de intensa crise existencial. Nós, espíritas e humanistas, não podemos deixar que grupos e homens com interesses escusos e egoísticos ditem como devemos nos comportar, pensar, sonhar e viver. Não podemos admitir que o dinheiro e o lucro pessoal sejam o fim de tudo. Precisamos marcar espaço no cenário político e nos meios de comunicação, seja na TV, rádio, imprensa ou mídias sociais. Urge mostrarmos nossa visão de mundo, porque outras instituições, grupos econômicos e igrejas – principalmente as pentecostais e neopentecostais - estão cada vez mais tomando um espaço importante na sociedade e, principalmente, nos campos midiático e político-partidário. Algumas com ideias extremamente reacionárias e conservadoras, o que é mais preocupante.
Gostaria de propor uma reflexão. Qual nosso papel na atual crise? Que tipo de sociedade queremos para viver? Acredito que já é hora de refletirmos seriamente sobre isto, porque nesse debate estamos ficando para trás. 




Presidentes da CEPA e da CEPABrasil
visitarão CCEPA
Abril é o mês de aniversário do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre. Um ato singelo, programado para a noite de 19/4 irá marcar o 77º ano de fundação da antiga Sociedade Espírita Luz e Caridade, hoje CCEPA.  Uma mesa redonda com dirigentes da instituição recordará episódios da vida institucional da tradicional Casa Espírita da Rua Botafogo.
A reunião será pública e contará com a presença de dirigentes da CEPA e da CEPABrasil que virão a Porto Alegre para um encontro com cepeanos gaúchos e de outras partes do Brasil, para discutir questões administrativas. De Rafaela, Argentina, virão Dante López, presidente da CEPA, e sua esposa Mónica, juntamente com Gustavo Molfino (3º vice-presidente) e sua esposa Carina. De São Paulo, virá Alcione Moreno, presidente da CEPABrasil, e também Mauro de Mesquita Spínola, 2º vice-presidente da CEPA, e Jacira Jacinto da Silva, assessora jurídica e delegada da CEPA na capital paulista. De Pelotas, já confirmaram presença: Homero Ward da Rosa e esposa Regina.
Estão programadas reuniões administrativas da CEPA e da CEPABrasil para todo o dia de sábado (20), na sede do CCEPA. Serão bem-vindos todos os delegados da CEPA, especialmente, do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, assim como dirigentes de instituições espíritas ligadas à CEPA, no Brasil e Argentina.  

CCEPA estuda O Livro dos Espíritos
O Centro Cultural Espírita de Porto Alegre está criando um grupo com o objetivo de realizar o estudo analítico de O Livro dos Espíritos. 
Segundo o idealizador da atividade, Salomão Jacob Benchaya, Diretor de Estudos e Eventos do CCEPA, o Grupo de Estudo Analítico de O Livro dos Espíritos (GEALE) “é destinado a estudiosos da doutrina fundada por Allan Kardec que tenham interesse numa apreciação crítica dessa obra básica da filosofia espírita num contexto de atualização”.
O grupo se reunirá às sextas-feiras, das 15 às 16h30min, a partir de 8 de março. 


Próximas conferência no CCEPA
 - Na terceira 4ª feira deste mês de março, (20/4, às 15h), Milton Medran Moreira, presidente do CCEPA, discorre sobre "Jesus No Espiritismo".

 - Na primeira seguna-feira de abril, (1º/4,às 20h30), Aureci Figueiredo Martins é o conferencista convidado do CCEPA para falar sobre "Fenômenos Paranormais".

Entrada franca.






Não perder a esperança
O dia em que um espírita perder a esperança é porque algo deu errado em tudo isso. Quero sugerir aos leitores de Opinião um texto escrito para amigos de toda HispanoAmerica. Colocado no Facebook. Aberto. Evidentemente não falo de Espiritismo. Variações sobre um mesmo tema apenas. Confira em:
http://pourkardec.blogspot.com.br/2013/01/o-mundo-possivel-vira.html
            Abraços a todos
 Paulo Cesar Fernandes – Santos/SP.

A idosa maltratada
Sobre “Opinião em Tópicos” (jan/fev), dizem as escrituras sagradas que a verdadeira religião é uma fé sem mácula e o amor ao próximo. Aqueles que são adeptos do espiritismo verdadeiro que prega somente o bem ou a espiritualidade com amor, estudiosos da vida com sinceridade e zelo, integram essa verdadeira religião que religa intimamente o homem a Deus e que é totalmente baseada nos ensinamentos de Cristo.
A lei de causa e efeito se cumpre na medida certa. Nem mais nem menos. Deus é justo. Ninguém passa por algo, seja “bom” ou “ruim”, sem que haja necessidade. Ao opinarmos  sobre o episódio da idosa que foi espancada, devemos fazê-lo sob a ótica espiritual e não por emoções estritamente humanas, ignorando a verdade de que somos espíritos, trazemos nossos créditos e débitos e todo um planejamento reencarnatório de outras vidas
Luciano Cordeiro – Mogi das Cruzes/SP.