segunda-feira, 9 de junho de 2014

OPINIÃO - ANO XX - Nº 219 - JUNHO 2014

Temas de vanguarda

O Espiritismo do Século XXI
A abordagem de temas como meio ambiente, sexualidade, justiça social, ética e ideologias, no II Encontro Espírita Ibero-Americano, realizado na Espanha, pode estar sinalizando para um novo período a ser vivido pelo espiritismo internacional: a melhor integração com outros movimentos mundiais voltados ao humanismo e ao progresso ético, político e social da humanidade.

O (bom) exemplo de Salou
Os segmentos mais progressistas do movimento espírita da Europa e das Américas, embora minoritários relativamente ao tradicional movimento religioso, revelam a tendência de se inaugurar um novo período na abordagem de temáticas em eventos espíritas. No II Encontro Espírita Ibero-Americano, que aconteceu na cidade de Salou, Tarragona, Espanha, no início de maio último, painéis como “Espiritismo e Sociedade”, “Espiritismo e Problemática Social” e “Espiritismo e Consciência” abriram espaço para temas de palpitante atualidade, vistos a partir de fundamentos espíritas. No primeiro desses painéis, Gustavo Molfino (Rafaela, Argentina) abordou “Responsabilidade social e ambiental do espírito na sociedade atual”; Mauro de Mesquita Spínola (São Paulo, Brasil) enfocou “O espiritismo combate as injustiças sociais”; e Jacques Peccatte (Paris, França) falou sobre “O papel do espiritismo moderno em nossas sociedades”.
No painel “Espiritismo e Problemática Social”, desfilaram temas como: “Sexualidade e Espiritismo” (Alcione Moreno – São Paulo/Brasil); “Criminalidade e Direitos Humanos” (Jacira Jacinto da Silva – São Paulo/Brasil) e “A essência da mensagem do espiritismo como resposta aos desafios atuais do ser humano” (Oscar Garcia – La Palma, Espanha).
A partir do tema “Espiritismo e Consciência”, Maria Cristina Zaina (Curitiba/Brasil) abordou conceitos modernos distinguindo “Pecado e Erro”. No mesmo painel, Mauro Barreto (La Palma, Espanha) enfocou “Espiritualidade e Consciência” e Nieves Granero (Valencia/Espanha) fez atualizada reflexão sobre “Ser Consciente”. Já o painel “Motores do Espiritismo” oportunizou que se discutissem temas como amor, ética e ideologias, a partir dos vetores do pensamento contemporâneo. Assim, Moacir Araújo Lima (Porto Alegre/Brasil) abordou “Amor, a arte de viver”; Milton Medran Moreira (Porto Alegre/Brasil) enfocou “A ética espírita no Século XXI” e David Estany (Tárrega/Espanha): “A crise do materialismo”.
O papel do centro espírita no mundo moderno foi tema do painel “Inserção Social do Espiritismo”, onde José Carlos Miranda Lucas (Óbidos, Portugal) tratou do “Centro Espírita no Século XXI”; José Arroyo (Porto Rico) reportou-se a históricas inserções espíritas em temas políticos e sociais de seu país e o engajamento atual na campanha contra a implantação da pena de morte; e Victor da Silva (Caracas/Venezuela) abordou “O grande objetivo do espiritismo”, a partir de uma visão laica e livre-pensadora.
O próprio enfoque de temas clássicos, como a mediunidade, mereceu, em Salou, uma abordagem voltada ao desafio das mudanças: Dante López (Rafaela, Argentina) falou sobe “Os desafios da mediunidade frente ao Século XXI”; Gláucia Lima (Lisboa, Portugal) tratou de aspectos psiquiátricos relacionados à mediunidade, em “Mediunidade: caminho ou transtorno?”; e Leonor Leal (Alcoçaba, Portugal) trouxe “Provas científicas da fluidoterapia”.

Homenagens e Caminhada pela Paz
Três figuras importantes do espiritismo latino-americano e espanhol que, em seu respectivo tempo, contribuíram para a atualização doutrinária e a inserção do espiritismo na cultura foram recordadas: Jaci Régis, teve sua vida e obra exposta por Alexandre Cardia Machado (Santos/Brasil); Josep Casanovas Llardent, fundador do Centro Barcelonês de Cultura Espírita, recebeu a homenagem de David Santamaría; e Amalia Domingo Soler foi recordada por Yolanda Clavijo (Caracas, Venezuela), que sustentou a plena vigência do pensamento da grande dama do espiritismo espanhol.  
Ao final do Encontro, os participantes fizeram uma Caminhada pela Paz que se estendeu pela linda orla marítima da cidade mediterrânea da Catalunha. 

   




Um Novo Tempo
Muitos dos temas apresentados no II Encontro Espírita Ibero-Americano já o haviam sido no XXI Congresso Espírita Pan-Americano, de Santos, em 2012. Reprisá-los ou ampliá-los no cenário espírita europeu é indicativo de que há, lá e aqui, segmentos interessados em dar um passo a frente na abordagem da teoria espírita e suas consequências.
No artigo “Período de Luta” (Revista Espírita, dezembro/1863), Allan Kardec prognosticava que, após um período religioso, seguido de uma fase intermediária, as ideias espíritas tenderiam a ganhar o mundo, propiciando o que denominou “Período de Regeneração”.  
Para o fundador do espiritismo, esse processo haveria de ser mais rápido e seria alcançado já nos primórdios do Século XX, por conta do avanço da compreensão mundial acerca da proposta espírita. Percalços como duas grandes guerras mundiais, o incremento de regimes de força, o consequente sufocamento de liberdades individuais, fizeram dessa caminhada algo bem mais lento. O próprio espiritismo, na sua feição mais conhecida, resignou-se em se apresentar ao mundo apenas como uma nova religião, estratégia que já não faz sentido, num mundo pluralista, laico e livre-pensador.
Mais do que se desejar a expansão do espiritismo como uma doutrina religiosa ou moral regeneradora da humanidade, quase messiânica, a melhor estratégia, neste momento, parece ser a de harmonizar suas propostas com as tantas tendências progressistas de um mundo em transformação.
Cabe demonstrar a quem de nós se aproxima que estamos de acordo com os grandes movimentos em favor da paz, da democracia, das liberdades, do avanço das ciências, do pluralismo e, enfim, da felicidade humana. E que nossos fundamentos filosóficos, todos eles, dão suporte racional a esses objetivos. Parece ser esta, hoje, a melhor estratégia, felizmente bem compreendida por um segmento espírita, ainda pequeno, mas com enorme potencial de expansão, porque afinado com a consciência de um novo tempo. (A Redação).
                    
         



E por falar em lógica
“Todas as escrituras sagradas(...) ‘encerram os germens de grandes verdades’. Nos livros do Cristianismo, que incluem os livros fundamentais do Judaísmo, esses germens aparecem de maneira mais acessível a nós, por se dirigirem especialmente ao nosso tempo, através do processo histórico da evolução cristã”.  (J.Herculano Pires, em “O Espírito e o Tempo”) ]

Com o título de “A interpretação que excede a lógica”, o artigo de WGarcia, em “Enfoque” – pag.4 -, tece algumas críticas ao texto “Contextualizar é preciso”, de nossa edição de maio, mês do 150º aniversário do livro “O Evangelho Segundo o Espiritismo”.
Como é da política deste mensário, acolhemos e, na medida em que o permita seu exíguo espaço, publicamos opiniões divergentes das nossas, desde que bem fundamentadas e capazes de contribuir com o debate espírita, características sempre presentes nos textos do ilustre subscritor do aludido artigo.
Permitimo-nos, entretanto, convidá-lo, e a nossos demais leitores, para uma releitura daquele pequeno editorial, não para que se concorde ou se deixe de concordar com ele, mas apenas com a pretensão de refutar a crítica central a ele lançada: a de ausência de lógica.
Não será demais recordar a velha lição aristotélica a partir da qual identificamos em um raciocínio a presença ou a ausência de lógica. A velha fórmula “Todo o homem é mortal; Sócrates é homem; Logo, Sócrates é mortal” propõe desdobrarmos o raciocínio em duas premissas - a maior e a menor - das quais resulte uma conclusão.
O artigo “Contextualizar é preciso” pode, perfeitamente, ser submetido ao esquema proposto. Senão, vejamos: Partiu da premissa de que todas as grandes tradições religiosas contêm princípios de uma moral universal, classificada pelo espiritismo como “lei natural” (premissa maior).  Complementou considerando que o cristianismo é uma das grandes tradições religiosas, na qual estavam Kardec e muitos de seus interlocutores espirituais mergulhados (premissa menor). E finalizou por dizer que o cristianismo, como outras tantas, é uma tradição religiosa na qual estão contidos importantes elementos constitutivos da lei natural (conclusão). É possível, pois, que Aristóteles vislumbrasse alguma lógica na argumentação exposta.
Mais do que isso, o que afirmou o pequeno artigo? Que “O Evangelho Segundo o Espiritismo” deve ser visto e analisado no contexto cultural em que viveram Kardec e aqueles espíritos de forte impregnação cristã e católica que contribuíram para sua publicação. Em momento algum se afirmou que “a figura de Jesus, as ligações com o cristianismo e outros aspectos desse mesmo tema” sejam iniciativas isoladas de “O Evangelho Segundo o Espiritismo” ou que não estejam “amparadas na obra básicas”, que é “O Livro dos Espíritos”.
Sem a menor dúvida, a França do Século 19, berço de Kardec e ambiente cultural de todo o conjunto de sua obra, estava impregnada de ideias cristãs e, especialmente, católicas. Sem qualquer dúvida, também, o lúcido espírito de Kardec delas partiu, no planejamento e execução de sua obra, para dali extrair os valores permanentes que compõem a moral universal apregoada pelo espiritismo. Sem querer fazer da proposta espírita uma religião, buscou no cristianismo aqueles valores éticos identificados como “eternos e imutáveis”.
Subsiste, no entanto, a indagação: se em outra cultura estivesse, ou se, mesmo nos dias de hoje, e no próprio Ocidente, se dispusesse a reescrever as obras fundamentais do espiritismo, Allan Kardec escreveria “O Evangelho Segundo o Espiritismo”? E se o escrevesse, seria com as mesmas impregnações culturais ali presentes? Pensamos que não. As premissas que colocaria em seu silogismo bem que poderiam ser outras. Que, no entanto, levariam às mesmas conclusões. Porque estas tendem a ser universais.
Mas, isso é apenas uma opinião. A nossa opinião. Que, aqui, ratificamos inteiramente. E o fazemos como mero exercício intelectual, pois que a História está posta e não há como modificá-la. Podemos, entretanto, interpretá-la, seguindo a lógica que nos pareça a melhor.






Reencarnação e justiça
Tenho dito sempre: uma das questões que me aproximou do espiritismo e de sua filosofia, quando já adulto e já nas lides do Direito, foi a relação que percebi entre reencarnação e justiça. De formação cristã e católica, nunca conseguira aceitar racionalmente o dogma das penas eternas. Talvez meu “eureka” tenha se dado no momento em que, pela primeira vez, li a questão 171 de O Livro dos Espíritos, apontando como base racional da reencarnação o que os espíritos classificavam como “justiça divina”. Da resposta dos espíritos, chamou-me especial atenção esta frase: “Não te diz a razão que seria injusto privar, para sempre, da felicidade eterna todos aqueles cujo aprimoramento não dependeu deles próprios?” Vislumbrei na sentença um toque de humanismo que percebia ausente da teologia cristã: a de que a vida de relação é bem mais complexa do que o mero sentido de “certo e errado” adotado pelas religiões. E que decretar a bem-aventurança ou a danação eternas de um espírito a partir de um presumível acerto ou erro seria a mais ignóbil expressão de injustiça.

A primeira palestra
A primeira palestra que fiz num centro espírita, quando ainda sequer me declarava seguidor do espiritismo, teve por tema “A justiça divina e a justiça humana”. Foi na Cruzada dos Militares Espíritas da cidade de Bagé, onde eu era Promotor de Justiça, na década de 70 do século passado. Decorridos tantos anos, minhas reflexões já não mais se fundam nessa visão dicotômica e maniqueísta: justiça divina x justiça humana. Busco perscrutar nas leis sábias da vida um sentido de justiça que se aperfeiçoa, etapa após etapa, por força da evolução dos seres. É certo que, num mundo desigual como o nosso, provisoriamente, podem triunfar as injustiças. Mas, nossa capacidade de indignação, que também se aprimora, etapa após etapa, é o combustível que nos leva a agir no sentido da redução gradativa das injustiças. Numa perspectiva reencarnacionista, pois, não é justo que se tome como errado um comportamento individual alheio, atribuindo-lhe uma pena matematicamente proporcional à lesão praticada. Como sugerem as entidades entrevistadas na questão 171, a consciência acerca do mal cometido nem sempre depende do próprio agente. Frequentemente deriva do entorno em que vive e de erradas estruturas sociais à sua volta. Seu aprimoramento não está a depender dele próprio. Logo, puni-lo não faz sentido.

A justiça cósmica
A justiça cósmica deve ser mais inteligente que os mecanismos crime-castigo por nós adotados e que, numa primeira e equivocada visão palingenésica, terminamos por atribuir também à reencarnação. Em uma palavra, a primeira tendência – que foi também a minha e devo tê-la explicitado na palestra de Bagé – é de substituirmos as penas eternas da teologia cristã por um rigoroso “olho por olho, dente por dente” reencarnatório. Mas, reencarnação, mais que tudo, é instrumento de progresso. O progresso, é certo, não se opera sem alguma dor. A dor do aprendizado, também é certo, é fruto de nossas deficiências. Tudo o que fazemos em sentido contrário à lei natural produz sofrimento. Entretanto, os mecanismos inteligentes da justiça natural não se comprazem com a vingança. Se, no mundo espiritual há espíritos vingativos, como gostam de mostrar certos “romances espíritas”, é equivocado chamarmos isso de justiça divina. Serão eles tão carentes de educação quanto os que, aqui, cometem crimes inspirados na vindita.

O esquecimento
Para quem visualiza na justiça uma função meramente retributiva, a memória do mal feito é essencial: “Estou sofrendo esta pena porque fiz aquilo”. As almas que penam no inferno de Dante são lembradas disso a cada instante. Já a reencarnação, porque instrumento de educação e progresso, e não de castigo, apaga da lembrança do espírito os fatos que, eventualmente, tenham contribuído para seu sofrimento. Não apaga, contudo, as intuições trazidas no íntimo da consciência a inspirarem a tomada do caminho retificador. Enfim, não se faz justiça sem amor. O humanismo espírita se nutre da tríade justiça/amor/caridade. Se não formos capazes de “humanizar” nossa visão de justiça, seguiremos tendo também da reencarnação um conceito distorcido. Muito próximo das penas eternas da teologia cristã.

        




Equívocos - A interpretação
que excede a lógica
WGarcia - Recife, PE

A propósito da publicação no “Opinião”, do CCEPA, mas, também, da ideia que a matéria representa, cabe um reparo amparado na lógica da doutrina que Kardec organizou e produziu, denominada Espiritismo.
A matéria diz respeito aos 150 anos de lançamento de O Evangelho segundo o Espiritismo, tão amplamente comemorados neste Brasil de nosso tempo, mas pouco, muito pouco mesmo analisada fora desse lugar comum que é o campo da religião, visto que sua lógica está para além do mero consolo e da simples aplicação da moral cotidiana.
A matéria do “Opinião” – Contextualizar é preciso – padece de um equívoco argumentativo, uma vez que deduz houvesse Kardec sido filho de uma outra cultura que não a cristã, ao seu tempo, teria escrito livro diferente para o aspecto religioso do Espiritismo. Esquece-se, contudo, da visão de conjunto necessária para compreender a posição de O Evangelho segundo o Espiritismo na doutrina de Kardec.
Talvez, ninguém melhor do que Herculano Pires tenha tido essa visão e deduzido dela a lógica do livro mencionado, lógica essa que o insere num contexto de uniformidade de vistas, de forma a constituir não apenas uma parte do conjunto, mas parte que não pode ser excluída porque deforma o todo e parte que não possui finalidade em si mesma, pois existe por conta do conjunto.
O argumento de que em outra cultura o livro seria outro exige do raciocínio um complemento: em outra cultura os Espíritos-autores seriam outros, logo as ideias também. Então, a dúvida: aquilo que é universal na doutrina seria defendido ou colocado por estes outros emissores? Os princípios fundamentais, como imortalidade, reencarnação, comunicabilidade dos espíritos, evolução, as leis naturais seriam todos integrantes elementares da obra? Haveria espaço em outras culturas para os princípios e a lógica que os une?
A questão não pode ser resumida a uma vontade de Kardec decorrente de sua submissão relativa à cultura na qual estava inserido. É o que reza Herculano Pires. A vontade de Kardec decorre do conjunto das ideias que o levou a optar por escrever um livro como sequência natural da obra iniciada em O Livro dos Espíritos e desenvolvida em O Livro dos Médiuns.
Herculano vai além: vê toda a Doutrina Espírita como sequência do conhecimento construído pela humanidade, através das civilizações. E a toma como um conjunto harmônico em que as partes se enlaçam de forma precisa, cada uma delas assumindo uma parcela da obra e a desenvolvendo, sem que haja qualquer tipo de choque com aquela que aparece na base do edifício: O Livro dos Espíritos.
Se os espíritas fizeram de O Evangelho segundo o Espiritismo o livro de maior destaque e lhe aplicaram uma importância que minimiza absurdamente o valor de O Livro dos Espíritos, numa ação irremediavelmente incoerente; e se O Evangelho segundo o Espiritismo tornou-se referência de um religiosismo exacerbado, como se o Espiritismo se resumisse a isso é uma questão para ser discutida. Outra, diferente, é ver o terceiro livro de Kardec como resultado apenas de uma situação cultural do autor, o que nos lança a um reducionismo obtuso.
Dizer que O Livro dos Espíritos é a fonte dos demais livros de Kardec é repetir o lugar-comum. Mas enfatizar que ele é o gerador dos demais para indicar que forma com eles um conjunto e que neste conjunto, independentemente de qualquer outra coisa, impera a lógica e a coerência interna é uma necessidade.
Diz o bom senso que o conjunto em referência não se refere apenas aos livros e às ideias que defendem, mas inclui, também, os autores (invisíveis e visíveis), o contexto, o tempo e o espaço dos acontecimentos. E, evidentemente, um olhar epistemológico. Qualquer conjectura, por mais legítima que seja, feita com o objetivo de apontar outras possibilidades, como essa levantada pelo “Opinião”, deveria, portanto, levar em consideração o conjunto e não uma obra isolada.
Dentro deste raciocínio, a figura de Jesus, as ligações com o cristianismo e outros aspectos desse mesmo tema não são iniciativas isoladas de O Evangelho segundo o Espiritismo, pois que estão amparadas na obra básica – O Livro dos Espíritos. Não é possível, pois, questionar aquele sem reconhecer a primazia deste e sem atingi-lo, da mesma forma que não é coerente desconsiderar os laços que unem as partes fundamentais da doutrina, como a comunicabilidade dos espíritos, as leis da reencarnação e da evolução, entre outras, laços que, eventualmente desfeitos, isolariam as partes e as lançariam à orfandade.
Em suma, a perspectiva de um outro livro implica um outro conjunto de ideias. Fora disso, não é possível refletir.

Nota do Editor: Leia também o editorial “E por falar em lógica”, na página 2






Ecos de Salou no CCEPA
Na tarde do dia 21 de maio, quarta-feira, dia de reunião de Grupos de Estudos do CCEPA, a convite do Diretor do Departamento Doutrinário, Salomão Jacob Benchaya, o presidente da instituição, Milton Medran Moreira, e o secretário, Rui Paulo Nazário de Oliveira, fizeram amplo relato acerca do II Encontro Espírita Ibero-Americano, do qual participaram, em Salou, Tarragona, Espanha, de 1º a 4 de maio último. Os integrantes dos Grupos aproveitaram para discutir, a partir dos temas do evento, as perspectivas do espiritismo no presente século. A temática – O Espiritismo e os Desafios do Século XXI – será também o pano de fundo do VI Fórum do Livre-Pensar Espírita, promoção da Associação Brasileira de Delegados e Amigos da CEPA, CEPABrasil, que acontece, na sede do CCEPA, de 5 a 7 de setembro próximo.

A Hitória do ESDE contada em Osório
A Sociedade Espírita Amor e Caridade, de Osório/RS, por iniciativa de seu presidente Jerri Almeida, promoveu, dia 28 de março último, o Seminário “O Estudo do Espiritismo no Cenário Contemporâneo”. No evento, Aureci Figueiredo Martins resgatou a história do Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita, cuja campanha de lançamento completou 30 anos em 2013, lançada que foi pela Federação Espírita do Rio Grande do Sul, quando era seu presidente Maurice Herbert Jones, tendo como Diretor Doutrinário Salomão Jacob Benchaya.

Na segunda parte do Seminário realizado em Osório, o pensador espírita Vinicius Lousada, abordou o tema “Estudar Kardec numa Perspectiva Problematizadora”, destacando, especialmente, o caráter livre-pensador da proposta espírita, que deve ser levada em conta no estudo das obras do fundador do espiritismo.
Os pensadores espíritas Jerri Almeida (Osório/RS) e Vinicius Lousada (Bento Gonçalves/RS) participarão como expositores do VI Fórum do Livre-Pensar Espírita, que acontece na sede do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, com o tema “Os Desafios do Espiritismo no Século XXI”.

O Seminário realizado em Osório está gravado em vídeo que pode ser acessado em http://seacosorio.wordpress.com/palestras-e-seminarios/ .






Le Journal Spirite
Por favor, envie-me cópia da edição 96 de “Le Journal Spirite” (referido na edição de maio do boletim América Espírita). Como espírita religioso, sou agradecido pela imensa contribuição dos espíritas laicos.
Fraternalmente
Gilberto Guimarães da Silva - gilbertoguima@uol.com.br
(Revista em PDF enviada ao leitor, e poderá sê-lo igualmente a todos os interessados).

“Opinião” na Venezuela
Informo que “Opinião” sigue  llegando regularmente a CIMA, Venezuela, aunque com um atraso de dos a três meses. Leo la version digital, pero sigo disfrutando más del papel. Realmente “Opinião” es nuestra voz, nuestra referencia, nuestra mejor carta de presentación. Espero que nunca deje de editarse. Cumple uma función isustituible. 
Jon Aizpúrua – Caracas, Venezuela.

“Opinião” em Cuba
Estimados amigos:
Mis mayores saludos para vosotros, esperando se encuentren bien. Por esta estoy tratando de comunicarme para dicir que “Opinião” y el boletin “América Espírita” estan llegando sin dificuldad. Por eso quisiera agradecer por su apoyo. Um abrazo fuerte.
Justo Pastor – La Havana – Cuba.

Espíritas: Um pequeno contingente.
Já tive oportunidade de acompanhar os dados divulgados pela ARDA (Association of Religion Data Archives) citada por Guillermo Reyes Pozo, do Centro Barcelonês de Cultura Espírita, no Encontro de Salou, (matéria de CCEPA Opinião de maio). A informação divulgada pela ARDA provoca confusão ao afirmar que existem aproximadamente 13 milhões de espíritas no mundo, pelo fato de que classificam como "Spiritists" não apenas os kardecistas, mas também os seguidores da santeria, da mesa blanca, do vudu, da umbanda, do culto marioloncero, dentre outras expressões religiosas animistas, muito comuns em todo o continente americano.
Herivelto Carvalho – Ibatiba/ES).

(Trecho de manifestação na Lista da CEPA, na Internet. CCEPA Opinião convidou Herivelto a desenvolver mais amplamente o tema em artigo a ser publicado numa de nossas próximas edições).

terça-feira, 20 de maio de 2014

OPINIÃO - ANO XX - Nº 218 - MAIO 2014

A queda do catolicismo
na América Latina
Pesquisa do Instituto Latinobarometro registra queda de 80% para 67%do catolicismo entre a população da América Latina, no período de 1995 a 2013. Na maioria dos países, católicos migram para as igrejas evangélicas ou para o grupo dos “sem religião”.
         
Eram católicos, agora são evangélicos.
O Instituto Latinobarometro (Santiago, Chile) divulgou, no último mês de abril, os resultados da sondagem feita em toda a América Latina sobre religiões. Trata-se, possivelmente, da mais importante pesquisa já feita sobre crenças na América Latina.  O dado mais enfatizado mostra a acentuada queda do catolicismo nos últimos 18 anos: de 80% para 67%. No Brasil, a queda é ainda mais expressiva: apenas 63% das pessoas entrevistadas se declararam seguidoras da Igreja Romana, quando, em 1995, o índice era de 78%. Enquanto isso, registra-se uma crescente migração de crentes para as igrejas pentecostais e neopentecostais, em toda a América Latina e, especialmente no Brasil, onde os evangélicos eram 8% (1995) e hoje representam 21% da população. A queda fica ainda mais dramática na Nicarágua, onde o catolicismo perdeu 30 pontos percentuais, e também em Honduras, país em que a comunidade católica caiu de 76% para 47%: menos da metade da população que, no início do século passado, era, praticamente, toda católica.
         
Eram católicos, agora não têm religião.
Confirmando outra tendência não apenas da América como, e especialmente, da Europa, o levantamento da Latinobarometro acusou crescimento no índice dos que se dizem sem religião. No Brasil, por exemplo, esse grupo passou de 6 para 11%. No Uruguai, outro país antes cem por cento católico, 38% dos entrevistados responderam à pesquisa declarando-se sem qualquer religião. No Chile, cuja população em 1995 era constituída de 74% de católicos, hoje25% se declaram sem religião e apenas 57% seguem se afirmando católicos romanos.

Religião espírita: um pequeno contingente no mundo.
Na pesquisa do instituto chileno, não há referências ao espiritismo. Entretanto, em trabalho apresentado por Guillermo Reyes Pozo, do Centro Barcelonês de Cultura Espírita, intitulado “Retos del Espiirtismo em el Siglo XXI”, no II Encuentro Espírita Iberoamericano (Tarragona, Espanha, 1º a 4 de maio), é reproduzida pesquisa sobre crenças no mundo inteiro, publicada por The Association of Religion Data Archives (ARDA) - http://www.thearda.com/QuickLists/QuickList_125.asp - Ali, a classificação “espiritistas” aparece com o percentual de 0,2% dos habitantes pesquisados no mundo inteiro. Pela mesma fonte, os “sem-religião”, no ano da pesquisa (2005) perfaziam 12,08% da humanidade.






Tempos de laicização
A grande disputa religiosa no mundo ocidental, e particularmente na América Latina, segue sendo entre católicos e evangélicos, com visível avanço destes últimos, para cujo rebanho migram, anualmente, milhares de ovelhas do aprisco romano. Mas a pesquisa da Latinobarometro salienta que, apesar disso, cresce a popularidade do Papa argentino, Francisco. A mesma sondagem concluiu que a Igreja Católica é, hoje, a instituição com maior nível de confiabilidade, ultrapassando 60%, na maioria dos países pesquisados, percentagem só superada pela confiança na família.
 Contradição? Não, na medida em que se analisar a atuação do cardeal Bertoglio, desde que assumiu o papado. Seu discurso e sua ação em momento algum se detiveram na defesa dos dogmas da fé católica. Ao contrário, quando tomou medidas contra a corrupção do Banco Ambrosiano, ao punir a ostentação e o luxo de alguns prelados, ao combater com veemência os escândalos da pedofilia na Igreja, ao expressar tolerância e a compreensão com os homossexuais, o Papa afinou a prédica e a prática da Igreja com os anseios e as demandas da sociedade civil. A Igreja Romana, pouco a pouco, se seculariza, e, nesse processo de laicização, se distancia do dogma e do miraculoso, pontos fortes dos movimentos evangélicos. Do milagre, do mitológico, do sobrenatural e do fantástico, vão se apropriando cada vez mais as novas crenças evangélicas, especialmente nos países latino-americanos, onde crescem adubadas pelas carências sociais e no vácuo do descaso estatal com a educação. Enquanto isso, a Igreja, hábil e atenta às tendências de nosso tempo, ganha espaço com a fórmula: menos crença e mais humanismo.
Entretanto, mesmo que a Igreja minimize ou subestime as velhas questões da fé religiosa, porque superadas, subsistem na alma humana os naturais anseios pela espiritualidade. Temas como sobrevivência do espírito, sua imortalidade e evolução, passíveis de enfoque racional e científico, sempre serão objeto de íntima indagação humana, tanto de crentes como de descrentes. Nesse terreno podem se encontrar os religiosos de ontem com aqueles que duvidam ou já não são movidos pela fé, segmento que cresce aceleradamente. Esse é o terreno do espiritismo. Deixa de ser, no entanto, na medida em que ele se apresente como mais uma religião. Em tempos de laicização, é mister laicizar igualmente o espírito, enfocando-o, como propôs originariamente Allan Kardec, como o princípio inteligente do universo. Só assim, poderemos avançar, superando a minguada cifra de 0,2 por cento de partícipes dessas ideias que reputamos libertadoras e capazes de oferecer melhor compreensão acerca de Deus, do homem e do mundo. (A Redação).




Espiritismo e “espiritismos”
“O Espiritismo não encerra mistérios nem teorias secretas. Tudo nele tem de estar patente.” Allan Kardec – “A Gênese”. Introdução.

Há sensíveis diferenças entre o espiritismo que temos e o espiritismo que queremos. A ideia tem sido frequentemente expressa pelo presidente da Confederação Espírita Pan-Americana, Dante López, que a ratificou em discurso pronunciado no II Encontro Espírita Ibero-americano, ao início do fluente mês, em Salou, Catalunha, Espanha.
Quando se fala em espiritismo, costuma-se estabelecer a distinção entre doutrina e movimento. Aquela compreenderia o corpo teórico da obra proposta por Allan Kardec e que, segundo seu fundador, deveria se ampliar ao curso do tempo, incorporando aqueles conhecimentos humanos capazes de corroborar os princípios fundamentais alusivos ao espírito, sua comunicabilidade e evolução. Já por movimento espírita compreende-se o conjunto das organizações humanas envolvidas na prática e difusão das ideias espíritas.
Quem, no entanto, visita um centro, grupo ou instituição que se afirme espírita nem sempre apreenderá a distinção. Para ele, espiritismo será o que ali ele presenciar e as ideias e práticas com as quais ali tomar contato. Há, assim, um espiritismo teórico, cognoscível por aqueles que dedicarem ao seu estudo sério e à vivência da ética por ele proposta. Mas, há, de outra parte, uma gama de “espiritismos”, nem sempre ou em tudo compatíveis com o primeiro e que se fragmentam em práticas e ideias, por vezes demasiadamente esdrúxulas e, algumas, totalmente contrárias à lúcida proposta kardeciana.
Na Europa, onde, em conjunto com a Associação Internacional para o Progresso do Espiritismo – AIPE -, a CEPA promoveu, recentemente, o II Encontro Espírita Ibero-Americano, o espiritismo que floresceu e se desenvolveu rapidamente ao curso do Século XIX, experimenta hoje um forte processo de reavivamento, após ter praticamente desaparecido, em razão de duas grandes guerras e da perseguição sofrida por sangrentas ditaduras, justamente nos países onde tinha maior representatividade.
Nesse contexto, é digno de nota o esforço de núcleos e pessoas que, no Velho Continente, buscam o intercâmbio de ideias com os segmentos mais progressistas e livre-pensadores do espiritismo pan-americano. Enfrentam, fruto do criminoso processo de desprestígio do espiritismo, movido pelo establishment religioso e político por tanto tempo ali dominante, dificuldades enormes para a difusão do espiritismo, tal como o entendem e querem. O “espiritismo” com o qual se defrontam e que reside no imaginário popular não passa de um simulacro de ideias e práticas prenhes de mistério e de magia, em sentido diametralmente oposto à racionalidade kardeciana.
O Século XXI, aqui como lá, pois, nos está a oferecer imensos desafios para que se ponha no devido lugar o espiritismo que queremos, diante da imensa gama de “espiritismos” que, de fato, ainda temos, aqui e alhures. Um trabalho que só pode ser enfrentado com a união de esforços, nos moldes daquilo que alguns segmentos espíritas ibero-americanos estão fazendo.

 


O novo santo                                  
Eufórica, diante da câmera de TV, a moça dizia: “Maravilha! Agora, este país vai pra frente. Teremos um santo rogando a Deus pelo Brasil!”. Ela vibrava com a canonização do Padre José de Anchieta que o Papa havia procedido por decreto, mesmo sem a comprovação de dois ou três milagres, tradicionalmente exigíveis pela Igreja, quando se trata de elevar alguém às honras do altar.
Para quem supõe a existência de um Paraíso, onde mora Deus, sentado em um trono, rodeado de anjos e santos que disputam oportunidades de audiência para lhe pedir favores, a euforia da jovem fazia todo o sentido. Como santo, Anchieta estaria, agora, mais perto do trono de Deus e com mais chance de falar com ele. Por que não rogar pelo Brasil, país que ele viu nascer?
Um deus criado pelos homens
Os homens criaram Deus a partir de velhos modelos terrenos de hierarquia e poder. Para agradá-lo, prostram-se diante de sua imagem, entoam hinos de louvor, fazem oferendas, ritos e sacrifícios. Mesmo assim, nem sempre são ouvidos. Por isso, elegem intermediários: anjos, santos e espíritos protetores. Mais próximos do Senhor, eles poderão lhe encaminhar seus preitos. Assim como a gente costuma fazer quando tem um amigo influente nas altas esferas do poder.

Mudando conceitos
Mesmo nos dizendo espíritas, quase sempre nos pegamos pensando em Deus ou estabelecendo nossas relações com ele, a partir desse velho modelo. Entretanto, a questão número 1 de O Livro dos Espíritos, ao definir Deus como “Inteligência suprema, causa primeira de todas as coisas”, nos sugere avançar sobre os conceitos judaico-cristãos para concluir que as coisas não funcionam assim. Que Deus não está exatamente sentado em um trono e não necessitamos de “pistolões” para chegar a ele. Já nos é possível o conceber Deus como a suprema Inteligência, um Pensamento, uma Energia a impregnar o Universo e a nós próprios. Manifesta-se aos homens através de leis naturais, gravadas na consciência da gente. Se observadas, essas leis trazem paz e felicidade. Nossa saúde, o êxito profissional, a harmonia familiar e social, a vida e a morte, o progresso de um povo, tudo é regido por esse conjunto de leis naturais.

Santos laicos
Quando da morte de Betinho, o grande sociólogo brasileiro que concebeu uma ampla campanha para reduzir a fome no Brasil, Carlos Heitor Cony sugeriu, numa crônica, que ele fosse canonizado. Seria o primeiro santo laico brasileiro. Acho que a sugestão do cronista não chegou ao Vaticano que, em tempos de pluralismo e de reformas do Papa Francisco, bem que poderia fazer isso com outras grandes figuras da humanidade, reconhecidamente virtuosas, mesmo não sendo católicas ou religiosas, como Mahatma Gandhi, Albert Shcweitzer, Martin Luther King e Albert Einstein.
Este último, aliás, definiu Deus como sendo “a lei e o legislador do Universo”, um conceito com o qual concorda o espiritismo. Se estivermos errados, com certeza, Deus há de perdoar Einstein e os espíritas também.

 


Nota do Editor:
Este espaço é, normalmente, destinado a artigos inéditos, escritos, quase sempre, por espíritas. Abrimos hoje uma exceção, reproduzindo excelente artigo do jornalista David Coimbra, publicado no jornal Zero Hora, do último dia 18.4 – Sexta-Feira Santa dos cristãos. A exceção se justifica diante dos conceitos plenamente coincidentes com a filosofia espírita acerca de Jesus de Nazaré.

O sal da terra
“Vós sois o sal da terra”, disse Jesus no Sermão da Montanha. “Vós sois a luz do mundo”, enfatizou, e era para os seres humanos que falava. Para nós.

Nós somos o sal da terra.
Mas não vou em frente antes de falar do meu medo. Tenho medo de religiões e ideologias, porque umas e outras são matéria de fé. São dogma. No momento em que você se torna dogmático, você tem um lado e do seu lado está o Bem, enquanto o Mal está do lado de lá. Pessoas mataram e morreram, matam e morrem por causa de religiões e ideologias. Além do mais, aquelas certezas tantas e tão sólidas fazem com que as pessoas deixem de pensar. Não precisa, já está tudo pensado, basta seguir o prescrito e dividir o mundo em dois hemisférios, sem ponderações: aqui estão os certos, lá estão os errados.

Dito isso, que fique claro: não estou falando do Jesus religioso, nesta Sexta-Feira Santa; não estou falando do Jesus cristão. Estou falando de um dos mais revolucionários filósofos morais da História, e da peça central do seu pensamento, que foi aquele Sermão.

A filosofia de Jesus é tão inovadora que nenhuma de suas igrejas compreendeu ou aplicou o seu principal ensinamento. Ninguém entendeu essa passagem:

“Não oponhais resistência ao mau; se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra. E se alguém quiser pleitear contigo para te tirar a túnica dá-lhe também a capa. (...) Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem”.

Olhando assim, você pode achar humilhante tamanha resignação. Mas Jesus não está sugerindo submissão. Ele se põe acima disso. Está dizendo, simplesmente, que não vale a pena. Ou, como já disseram os Beatles, a vida é muito curta para perder tempo com brigas e confusões. Life is very short.

O Sermão da Montanha é surpreendente. O trecho do qual Erico Verissimo colheu o título de um de seus livros “olhai os lírios do campo”, é de rara sabedoria e de construção preciosa. Jesus dizia que o homem não deve se preocupar com acumulação de riquezas. Não deve se preocupar nem com seu sustento: “A cada dia basta o seu cuidado”. Que frase! O que ele queria dizer com isso? O mesmo que falou a respeito de brigas e confusões: que se preocupar não vale a pena. Ou, usando outro clássico dos Beatles, deixe estar. Let it be.

Mas não, não vou fazer uma exegese do Sermão da Montanha a partir dos Beatles. Não seria tão superficial. O Sermão da Montanha é profundo. Algumas nesgas dele você pode levar como regra. Como quando Jesus diz que cada um julga os outros com sua própria medida. Com essa sentença, ele diz o mais importante sobre a alma humana. Diz que o Mal é o que sai da boca do homem. E é.

Não são palavras santas. São palavras sábias. Mas, de todas elas, as que mais me intrigam foram as que citei lá em cima, na abertura do texto. Como o homem pode ser a luz do mundo, se há tanta crueldade, se pais que matam filhos, como se suspeita acerca daquele pai de Três Passos?

Vinha pensando nisso, vinha intrigado com isso toda a semana, até que, na quinta-feira, minha mulher me contou um caso prosaico. Ela é arquiteta. Naquele dia, havia ligado para o eletricista com quem trabalha, um homem muito sério, muito compenetrado. Assim que atendeu, ele se desculpou: não poderia falar, porque seu filho tinha caído na escola, machucara a boca e precisava ser levado ao hospital. E então, antes que ela conseguisse perguntar como estava o menino, aquele homem sisudo começou a chorar.

Ela me relatou essa história por telefone. Eu estava na redação. Desliguei com o coração apertado, pensando naquele pai, no quanto ele deve amar seu filho e em como devia estar sofrendo com o sofrimento do menino. E, ainda na redação, fechei os olhos e roguei em silêncio para que o pequeno estivesse bem, para que em breve os dois estejam de novo sorrindo, e pensei que é por causa de pais como esse, por causa de amores como esse que, sim, vós sois a luz do mundo. Vós sois o sal da terra.
              




Antropólogo faz pesquisa de Doutorado no CCEPA
O antropólogo Gustavo Ruiz Chiesa esteve durante vários dias do mês de abril acompanhando as atividades do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, tendo participado de suas reuniões de estudo, conferências públicas e sessões mediúnicas.
Gustavo (foto) defende tese sobre Ciência, Saúde e Espiritualidade na Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde reside, e, entre outras instituições espíritas de todo o Brasil, nas quais colhe material para seu trabalho acadêmico, escolheu o CCEPA para algumas de suas pesquisas.

Nossa experiência em Salou
O Centro Cultural Espírita de Porto Alegre se fez representar no II Encuentro Espírita Iberoamericano (Salou, Tarragona, Espanha - 1º a 4 de maio), por seu Presidente, Milton Medran Moreira, acompanhado da esposa Sílvia; do Secretário de sua Diretoria Executiva, Rui Paulo Nazário de Oliveira e esposa, Raquel, e também do colaborador da instituição, Moacir Costa de Araújo Lima e esposa, Lúcia Helena (na foto, a delegação de Porto Alegre).
Medran participou do Painel de abertura, juntamente com o Presidente da CEPA, Dante López, e Guillermo Reyes, do Centro Barcelonês de Cultura Espírita. Os três, durante duas horas, responderam perguntas formuladas pelo auditório sobre o tema “O Espiritismo no Século XXI”.
Moacir, juntamente com Medran e David Estany, da Associação Espírita Otus y Neran, de Tárraga, Espanha, participou do Painel “Motores del Espiritismo”, onde desenvolveu o tema “Amor, el Arte de Vivir”. No mesmo painel, Medran abordou “La Ética Espírita en el Siglo XXI”.

CCEPA Opinião – Uma referência
do espiritismo laico e livre-pensador
Diversos expositores do “Encuentro” fizeram referência ao jornal CCEPA Opinião, destacando-se Yolanda Clavijo (de CIMA-Venezuela) que expôs o tema “Vigencia del Pensamiento de Amalia Domingo Soler”. Em sua exposição, Yolanda leu trechos de editoriais do periódico editado pelo CCEPA e destacou a sintonia de sua linha editorial com as ideias de Amalia.  Também a brasileira Jacira Jacinto da Silva (São Paulo, CPDoc), no trabalho “Criminalidad y Derechos Humanos”, fez a leitura de artigo do editor deste jornal, defendendo posições humanistas no campo do direito criminal. Por sua vez, o português José Carlos Miranda Lucas (da ADESP), que, pela primeira vez participou de um evento da CEPA, disse que tomou contato com o pensamento “espírita laico”, lendo matérias aqui publicadas por Milton Medran e Jon Aizpurua. Por fim, Jacques Peccatte (Cercle Spirite Allan Kardec, Paris) recordou ter conhecido a CEPA a partir de um contato com o Diretor deste jornal.
Para o presidente do CCEPA, “o mais importante foi a rica troca de experiências com pensadores espíritas de diferentes regiões do Planeta e a plena sintonia de ideias e propósitos”.

Opinião do Leitor   

O Evangelho Segundo o Espiritismo
Como sempre brilhante o artigo de Milton Medran, agora sobre o Evangelho Segundo o Espiritismo (CCEPA Opinião – abril) "O espiritismo propõe um novo olhar sobre Deus, a vida e o universo,sem, para isso, se valer do mistério e do sobrenatural . Inserimo-nos entre os crescentes segmentos culturais que, hoje, distinguem espiritualidade de religião " .
O texto fala de forma clara e distinta , como dizia Descartes , sobre a nossa posição diante da sociedade e do mundo. Entristece-me quando leio o Reformador e em vários editoriais está escrito Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas felicito-me de caminhar em companhia como a de Medran quando se trata de pensar o espiritismo.
Roberto Rufo -Santos/SP.

O golpe militar de 64
Prezado companheiro de ideal Medran,
Preciso parabenizá-lo quanto ao valor ético do editorial apresentado no Opinião de março a respeito do golpe civil-militar de 64, fundador de anos sombrios para a nossa Pátria. Anos de necrofilia, negação de direitos civis e de legitimação do desamor entre as gentes. Ansiava ver algum periódico espírita se manifestar com a lucidez e serenidade ali registrada.
Na Revista Espírita de abril de 1860, o sr. Allan Kardec teve ensejo de publicar profunda e sintética página do Espírito Abelardo (será aquele intelectual da Idade Média que protagonizou com Eloísa uma bela história de amor negada pelo dogmatismo de antes?) onde encontramos exarado algo bem em sintonia com o editorial escrito. Ali é dito: ”O reino do constrangimento e da opressão acabou; começa o da razão, da liberdade, do amor fraterno. Não é mais pelo medo e pela força que os poderes da Terra adquirirão, de agora em diante, o direito de dirigir os interesses morais, espirituais e físicos dos povos, mas pelo amor à liberdade.”.
Vinícius Lima Lousada – Bento Gonçalves/RS.


quarta-feira, 16 de abril de 2014

OPINIÃO - ANO XX - Nº 217 - ABRIL 2014

O Evangelho Segundo o Espiritismo – 150 anos.

O Livro Número Um dos Espíritas
Cronologicamente, não foi o primeiro livro de Allan Kardec,  nem é sua mais importante obra, mas “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, que completa 150 anos, é, para a maioria dos espíritas, o principal e, às vezes, o único livro conhecido e referenciado nos Centros Espíritas.

A obra e seu contexto histórico
Desde que o espiritismo, contra a expressa vontade de seu fundador, Allan Kardec, se tornou uma religião, O Evangelho Segundo o Espiritismo tem sido visto quase como uma nova bíblia. Muito mais lido do que O Livro dos Espíritos, principal obra de Kardec, o ESE é proclamado como a base da “religião espírita”.         Por outro lado, lembra o escritor espírita Eugenio Lara (São Vicente, SP), há pensadores espíritas de mentalidade não-religiosa que contestam a obra, achando que nem deveria ter sido escrita. Para Eugenio, nenhuma dessas posições é a melhor: “O livro deve ser visto em seu contexto histórico e no conjunto da obra kardequiana. Nem bíblia, nem concessão, mas uma visão de Kardec dos ensinamentos evangélicos, a visão que ele tinha do cristianismo”. Eugenio Lara sustenta que “o contexto histórico exigiu de Kardec uma resposta à demanda do movimento espírita nascente”, e que “numa França católica, a posição espírita em relação ao cristianismo era uma necessidade, o que não faz do espiritismo uma nova religião ou teologia cristã”.
Também para o Delegado da CEPA no Rio de Janeiro, Rinaldo Paulino de Souza, o contexto histórico não só da França, mas de todo o mundo ocidental foi relevante, pois o ceticismo trazido pelo Iluminismo levava o Ocidente a perder a crença no mundo extramaterial e em Deus. Além disso, “era importante destacar as evidências da reencarnação nos livros sagrados cristãos, reforçando tal conexão com as explicações morais”, sustenta Souza.
Dentre os pensadores espíritas que entendem que O Evangelho Segundo o Espiritismo nem precisaria ter sido escrito está o pesquisador Mauro Quintella (Brasília/DF): “No lugar do OESE, eu teria feito um livro com uma coletânea das melhores proposições éticas da história da Humanidade, onde, evidentemente, poderia entrar o que é aproveitável nos Evangelhos”, disse Quintella, acrescentando que o nome desse livro teria sido “A Ética do Espiritismo”.

Consolador Prometido? Terceira Revelação Divina?
Licenciado em Filosofia, e também Delegado da CEPA, Ricardo de Moraes Nunes (Santos/SP), concorda que as circunstâncias históricas justificavam a publicação da obra, mas lhe parece que Kardec e os espíritos foram tomados de um exagerado entusiasmo ao classificarem o espiritismo como “o consolador prometido por Jesus”. Para ele, trata-se de tese “bastante ideológica, fugindo do campo das ideias práticas tão apreciadas por Kardec”.
Já o pesquisador Augusto Araujo (Campina Grande/PB) Doutor em Ciência da Religião, vê o ESE justamente como o livro que “inaugura o período religioso do espiritismo, previsto por Kardec em 1863”. Araujo identifica ali “uma curva em direção aos temas cristãos”, o que se deve a uma razão externa: “a perseguição do espiritismo principalmente pela Igreja Católica”; e outra interna: “Kardec defende que o espiritismo seja o sucessor histórico e profético do cristianismo”.
A pensadora espírita Glória Vetter (Petrópolis/RJ) sustenta que Allan Kardec não quis um espiritismo “igrejista”, mas “cristocêntrico”. Ela não vê problema que Kardec tenha proposto que os espíritas se apoiem nos ensinamentos de Jesus ou de outros mestres: “São contributos éticos que fortalecem os espíritos, mormente daqueles carentes de força e direção”, diz.






Contextualizar é preciso
É possível que se Kardec tivesse vivido em um país árabe e, ali, fosse atraído pelos fenômenos espíritas, houvesse escrito “O Corão Segundo o Espiritismo”. Se tivesse encarnado na Índia, poderia muito bem ter publicado “O Baghavad Gita Segundo o Espiritismo” ou “Os Vedas Segundo o Espiritismo”. Os ensinos morais que deduziu dos fenômenos das mesas girantes e de seu intercâmbio com “reveladores” desencarnados estão presentes também nas grandes tradições religiosas da humanidade. Tais ensinos, mais do que meros preceitos religiosos, são expressões daquilo que Allan Kardec tratou como “lei natural”, por ele tão bem analisadas na 3ª Parte de “O Livro dos Espíritos”.
Também é possível que se viesse a encarnar na mesma França ou em outro país europeu de hoje, Rivail não sentisse a menor necessidade de publicar qualquer interpretação cristã do espiritismo. Simplesmente porque as ideias religiosas, hoje, não têm, no Ocidente cristão, o mesmo peso que ainda detinham no Século XIX.
Isso tudo submete o livro de Kardec , que completa, este mês, 150 anos, à imprescindível necessidade de contextualização. Que seja ele entendido como produto da época e, também, como depositário de certas ideias exageradamente impregnadas do catolicismo de alguns espíritos comunicantes e do próprio entusiasmo de Allan Kardec frente à nova ordem de ideias a serem desbravadas.
Escoimá-lo de certas idiossincrasias da época, do próprio autor e das entidades por ele entrevistadas é tarefa que nos cabe hoje, como imperativo mesmo da racionalidade, do bom-senso e do caráter progressivo e progressista do espiritismo. Aliás, essa é a melhor forma de nos mantermos fiéis a Kardec. Até porque, no caso do ESE, ele próprio, em sua Introdução recomendou que o tomássemos apenas como uma interpretação dos ensinos morais de Jesus, desprezando todos os restantes e míticos aspectos dos evangelhos cristãos. 
(A Redação).      





Para além das ideologias
A harmonia social não pode se estabelecer senão
obre a justiça, a bondade, a solidariedade.
Léon Denis, em “Socialismo e Espiritismo”.

A liberdade guiando o povo.  Delacroix
A passagem, em 31 de março último, do cinquentenário do golpe de Estado de 1964 oportunizou ao Brasil uma reflexão mais madura sobre aquele acontecimento e seus desdobramentos históricos.
É certo que ainda se ensaiaram pífias reencenações das “Marchas da Família com Deus pela Liberdade” que antecederam o golpe e lhe conferiram apoio de parcela da sociedade civil de então. Também é certo que, em restritos grupos, ainda se tentam justificar como necessárias à ordem ao progresso do país, coisas como a tortura, as perseguições e assassinatos políticos, a censura e todas as graves violações aos direitos humanos perpetrados por agentes do poder, naquele período.
Por outro lado, meios de comunicação, abertamente comprometidos com o grave episódio de ruptura institucional de 64 e com o prolongamento do estado exceção, apressaram-se, meio século decorrido, a reconhecer como um equívoco o apoio dado ao regime. De igual sorte, pessoas e agrupamentos políticos que, ao curso do regime de força, lhe deram suporte, contribuindo para a manutenção de um simulacro de democracia, juntam agora suas vozes àquelas da grande maioria que defende a plena transparência democrática e a soberana e inderrogável vigência do estado de direito.
Mesmo com essas contradições e com algumas tentativas de retrocesso, pode-se afirmar que a Nação brasileira está segura de que fora da democracia e do respeito aos direitos humanos não há progresso verdadeiro. Democracia é uma conquista à qual não se logra chegar sem luta a anteriores estados de barbárie e de práticas da usurpação do poder por grupos que se valeram, para tal, da força bruta ou do poderio econômico.
Os cinco séculos de história do Brasil estão marcados por duras experiências das quais se presume tenhamos emergido para um estágio onde a democracia ganha status de valor inquestionável e inatacável. Dessa última quadra de usurpação do poder por uma elite, fardada ou não, conseguimos sair graças a um bem engendrado processo de pacificação. Para tanto, foi necessária a formalização de uma anistia ampla e irrestrita que alcançou não somente aqueles que se rebelaram contra os usurpadores do poder – por eles, então, denominados “subversivos” -, como também os próprios agentes da repressão, incluindo aí torturadores e assassinos. Uma solução, sobretudo, política.
A anistia, instrumento jurídico que sepultou naturais pretensões punitivas e atitudes de revanche, não condena, entretanto, a Nação a esquecer-se de sua História. É preciso, mais do que nunca, cultivar a memória de que a experiência foi amarga e que não convém, sob inspiração ideológica de nenhum matiz, retornar a ela.
A nós, porque cidadãos, pelo fato de sermos espíritas, não é vedado simpatizar com uma ou outra ideologia e fazermos dela legítimo instrumento de atuação política. Mas, o espiritismo, que paira acima das ideologias para se caracterizar como genuína filosofia, não recomenda a radicalização, a polarização ideológica, e se opõe à crença de que numa ou noutra ideologia residam, com exclusividade, a verdade, a virtude e o progresso.
Em nossa atuação como cidadãos espíritas, devemos, pois, acima de tudo, zelar para que, em nome de qualquer ideologia, não se violem os princípios de dignidade humana, de honradez, de solidariedade e de respeito que devemos uns aos outros. Esses valores são patrimônio do espírito, conquistas por ele obtidas num lento processo evolutivo que trouxe nossa espécie da barbárie à civilização, despertando em nós, na contemporaneidade, a consciência da cidadania.
Cidadania e espiritismo são genuínos valores da modernidade que não podem se contrapor.

Como cidadãos espíritas, zelemos para que, em nome de qualquer ideologia, não se violem os princípios de dignidade humana.
  
                   




O Evangelho Segundo o Espiritismo
Confesso que não é a obra de Kardec que mais aprecio. De longe, minha preferência é por O Livro dos Espíritos. Mas, sou muito reconhecido ao Evangelho Segundo o Espiritismo, a primeira das obras básicas que li, estimulando-me a conhecer todas as demais e outras muitas publicações complementares. Foi um longo parto de ideias que, alguns anos depois, fez nascer em mim a identidade espírita.
Acho que já contei esta história aqui: Uma senhora, já desencarnada, cujo nome costumo citar com particular respeito, Clementina Benson, presenteou-me, há cerca de 40 anos, com um exemplar do ESE, acompanhado de carinhosa dedicatória. Guardo-o até hoje, com carinho, em minha biblioteca. O livro teve o mérito inicial de me encaminhar ao “espiritismo cristão”, categoria em que, então se classificava – e ainda hoje, creio, com ela se identifica – a maioria dos espíritas brasileiros.

A fé cristã
Penso, agora, que nós, espíritas, não temos o direito de nos declararmos cristãos. Fazendo-o, usurpamos um qualificativo que  foi sendo gestado ao curso de 2.000 e que conformou um conjunto de crenças religiosas totalmente distanciadas da proposta filosófica espírita. Especialmente após o esforço desenvolvido durante o Século XX pelas igrejas cristãs, denominado ecumenismo cristão, alguns dogmas religiosos passaram a delimitar, com clareza, o que significa ser cristão. O principal desses dogmas é o da divindade de Jesus Cristo e sua condição de Salvador da humanidade, antes condenada pelo pecado original. Está aí a essência do cristianismo. E isso nos coloca à margem desse movimento religioso que chegou ao Século XXI fragmentado em milhares de igrejas e seitas, mas preservando uma fé básica comum da qual não compartilhamos.

Religião e espiritualidade
 Perdemos com o fato de sermos excluídos do rebanho cristão? Penso que não. Ganhamos. Em tempos de prevalência da razão sobre a fé, do laicismo sobre o fideísmo, do secular sobre o eclesiástico, a proposta espírita tende a ganhar espaço na medida em que se distancia do campo religioso. Defendemos o advento de um novo paradigma de conhecimento a partir da existência do espírito, sua imortalidade e evolução. Isso está no campo da filosofia. Foge inteiramente dos mistérios da fé e busca conexões com diversificadas áreas do conhecimento humano que podem ir da física à psicologia, das ciências da saúde à ética, da astronomia ao direito. O espiritismo propõe um novo olhar sobre Deus, a vida e o universo, sem, para isso, se valer do mistério e do sobrenatural. Inserimo-nos entre os crescentes segmentos culturais que, hoje, distinguem espiritualidade de religião.

ESE – 150 anos
O fato de nos situarmos fora do cristianismo e não constituirmos uma religião não nos afasta de Jesus de Nazaré, que, diga-se de passagem, não é o mesmo Jesus Cristo, terceira pessoa da Santíssima Trindade dos cristãos. O livro que Dona Clementina me doou, naquele longínquo ano de 1974, começou a me ensinar a distinguir um do outro. Tempos depois, ao mergulhar na leitura da 3ª parte de O Livro dos Espíritos, obra fundamental da filosofia espírita, eu iria identificar nos ensinos e nas parábolas do jovem carpinteiro de Nazaré, lidas no ESE, uma interpretação, apropriada a seu tempo, daquilo que Allan Kardec denominaria simplesmente leis naturais.
O Evangelho Segundo o Espiritismo, que neste mês completa 150 anos, foi, para mim, o primeiro passo de uma caminhada que sigo percorrendo. Como não apreciá-lo?





Espiritismo: o consolador prometido?
Amely B. Martins – Bióloga – Membro da ASSEPE, João Pessoa/PB.

Tudo é relativo!
O conceito da relatividade proposto por Einstein trouxe um grande avanço não apenas no âmbito científico, através do abalo ao mecanicismo de Newton, mas também trouxe e ainda traz avanço para a humanidade e para o homem.
Através da relatividade nada é absoluto, nada é único, nenhum conceito é estático. E, desta forma, os paradigmas tendem a ser menos engessados e, mais facilmente, ampliados ou substituídos.
É justamente neste sentido relativo que devemos entender a palavra consolador, bem como todo o seu significado.
Segundo o dicionário Aurélio, consolar é aliviar ou suavizar a aflição, o sofrimento ou o padecimento, é dar lenitivo, suavizar, mitigar, além de proporcionar sensação agradável ou de prazer a algo ou alguém.
A partir da própria definição já podemos perceber o quanto é relativa a aplicação do termo. Afinal, diferentes pessoas, em diferentes situações, se sentem consoladas, também, de formas diferentes.
Não é possível haver, portanto, um consolador absoluto para toda a humanidade, visto que a grande diversidade de necessidades, opiniões e anseios dos homens faz com que estes precisem também de consolação diversa.
Atribuem a Jesus a promessa de enviar um consolador para a humanidade, e muitos homens se utilizam desta suposta promessa para dogmatizar suas próprias crenças e excluir outras. Mas aí está um grande equívoco. Afinal, tudo o que consola alguém verdadeiramente, levando a uma evolução e melhora interior, tem o consentimento de Jesus e de todos os espíritos bons que querem o bem da humanidade.
Não importa a origem, e sim o efeito consolador que determinado conhecimento ou ação proporcionam. Como exemplo, podemos citar a lei de amor ao próximo, defendida por quase todas as correntes religiosas ocidentais e orientais. Quando aplicada, a lei de amor traz consolo para quem a pratica ou está envolvido nela, e isto independe da crença religiosa do praticante.
Crer que o espiritismo é “o consolador prometido por Jesus”, se é que Jesus realmente prometeu um consolador, é restringir o espiritismo, pelo fato de julgá-lo tão completo que pode consolar a toda a humanidade. É cair na falsa pretensão de que o espiritismo é a doutrina salvadora que irá consolar a todos os homens, é dogmatizar, é engessar seus princípios, negando sua própria evolução.
Realmente, os princípios espíritas são capazes de trazer consolo às pessoas que se interessarem por eles. Realmente, a doutrina espírita traz conhecimentos relativamente novos, principalmente para o ocidente, e, por muitas vezes, uma discussão mais aprofundada sobre assuntos há muito existentes. Mas isso não faz da doutrina o único agente de consolação da humanidade.
Desta forma, voltamos ao início da discussão, através da percepção de que o consolo é relativo, assim como é relativo também o agente consolador, e que o espiritismo é sim uma doutrina consoladora, mas não o único agente consolador da humanidade.


Reflexão acerca da aceitação
Paulo Cesar Fernandes – Santos/SP.

 Estava em prece, bem agora.
 E durante esse processo, um número imenso de pessoas passou por minha lembrança. De início, os familiares, passando por amigos dos mais diversos locais. Inclusive da primeira empresa da área de informática em que trabalhei, onde aprendi muita coisa com um gerente paciente e bom, não apenas comigo, mas com todos.
Ao pensar em todas essas pessoas de quem gosto, e cuja ausência já se perde no tempo, uma frase do Pai Nosso me veio à mente, e definiu de forma clara a postura correta diante dessas perdas naturais da vida: "Seja feita a tua vontade/Assim na Terra..."
Pois a saudade bate. E bate forte. Principalmente lembrando de tantos benfeitores, no curto espaço desta encarnação. Saudade e gratidão a todos.
Hoje, eu não vejo a frase ensinada por Jesus, se assim o foi, como um elemento de submissão. A nada e a ninguém. Mas, muito pelo contrário, uma postura de compreensão da Vida e das Leis Naturais regentes de cada momento dessa mesma Vida.
Compreender os fenômenos existenciais é estar cada vez mais em conformidade com essas Leis. E o fato de não nos aborrecermos ou revoltarmos ante cada novo fato, cada novo desafio, ou cada nova perda é um elemento engrandecedor da nossa forma de viver.
Aonde nos leva a revolta?
Em todas as circunstâncias da vida, a revolta apenas promove a perda de nossa energia. Uma energia capaz de ser positivamente utilizada.
Revolta, ódio, inveja, orgulho, vaidade são fenômenos interiores capazes de nos roubar muita, mas muita energia mesmo. E na economia existencial vale a pena pensar um pouco mais nisso. Dotar nosso viver de uma  outra forma de encarar cada um dos problemas.
Nem tudo é tão feio quanto nos parece no primeiro momento. Se algo novo se apresenta, e o medo faz menção de chegar, aguardemos.
O tempo, se mantivermos a serenidade, tem a capacidade de abrir novas perspectivas de um momento para outro. O impossível, num estalo, acaba possível, viável e de fácil ordenamento.
“Por que não pensei logo nisso?” Quem nunca usou essa expressão?
Seja por uma solução por nós mesmo encontrada, ou trazida por uma pessoa amiga.
Dado o conhecimento do espírito e de sua imortalidade, nem a morte é capaz de destruir o equilíbrio de nosso viver.
Sabemos. Nossos corpos são finitos. Mas nós já viemos de outras, e seguiremos para outras oportunidades de aperfeiçoamento através da encarnação.
Assim. Peito aberto para a Vida. Confiança. Positividade.
A nossa trajetória é ascensional. E todos somos inacabados. Todo novo desafio, tão somente nos acrescentará. Essa é a Lei.





Estudo e Caridade – 87 anos
A Sociedade Espírita Estudo e Caridade, tradicional instituição espírita da cidade de Santa Maria/RS, mantenedora da obra social “Lar de Joaquina” completa, dia 13 de abril, 87 anos de existência.
Como parte das comemorações alusivas ao aniversário da SEEC, o presidente do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, Milton Medran Moreira, foi convidado a proferir palestra, na tarde de sábado, 12/4, naquela instituição sobre o tema “Consequências Sociológicas da Reencarnação”, trabalho apresentado por Medran, por ocasião do Congresso Espírita Pan-Americano de Santos, SP, em 2012.
A palestra é pública e inicia às 18h.

A Presença do CCEPA
em Tarragona, Espanha
O Centro Cultural Espírita de Porto Alegre estará representado no II Encuentro Espírita Iberoamericano, em Salou, Tarragona, Espanha, que acontece de 1º a 4 de maio, sob os auspícios da Asociación Internacional para el Progreso del Espiiritismo – AIPE – e Confederação Espírita Pan-Americana (CEPA).
O presidente do CCEPA, Milton Medran Moreira, que viaja à Espanha, ao final deste mês, acompanhado de sua esposa Sílvia, será um dos integrantes do painel de abertura do evento. No painel inaugural do “Encuentro”, se abordará o tema “Las Instituciones Espíritas em el Siglo XXI”. Deste mesmo painel participarão: Dante López (Argentina), Presidente da CEPA, e Guillermo Reyes (Espanha), do Centro Barcelonês de Cultura Espírita.
Medran terá uma segunda participação no “Encuentro”, abordando o tema “A Ètica Espírita no Século XXI”, no sábado, 3 de maio. Deste mesmo painel, participará o colaborador do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, Moacir Costa de Araújo Lima, com o tema “Amor, a Arte de Viver”.
Também o ex-presidente do CCEPA, e seu atual Secretário, Rui Paulo Nazário de Oliveira, acompanhado da esposa, Raquel, participará do II Encuentro Espirita Iberoamericano, de Salou, Tarragona, cuja temática central será “El Espiritismo del Siglo XXI”.






Civilização e barbárie
Sobre a análise feita em “Opinião em Tópicos” de Milton Medran Moreira (“Civilização e Barbárie), na edição de março, gostei muito. É assim mesmo que penso.
Maria Rosa Soares – Praia Grande, SP.

(comentário feito no site Espiritbook, que reproduz a coluna)