quinta-feira, 10 de julho de 2014

OPINIÃO - ANO XX - Nº 220 - JULHO 2014

O aniversário de uma imprensa não tão espírita

“O Écho d’Alêm-Tumulo”-145 anos
Há 145 anos, em julho de 1869, saía a edição número um do periódico que passou à História como o primeiro jornal espírita do Brasil. “O Eco”, entretanto, tinha como expresso propósito resgatar o cristianismo primitivo dentro da estrutura da Igreja Católica. Era essa leitura que Olympio Telles de Menezes e outros intelectuais brasileiros da época faziam do espiritismo.

Um espiritismo de “dóceis católicos”
A história da imprensa espírita e do próprio espiritismo no Brasil está intimamente ligada à vida do intelectual baiano Luis Olympio Telles de Menezes, jornalista, professor de latim e francês, em Salvador, autor do opúsculo “Filosofia Espiritualista” (1866) e fundador do primeiro centro espírita brasileiro, o Grupo Familiar de Espiritismo (1865). Católico fervoroso, Telles de Menezes, impressionou-se com a leitura das obras de Allan Kardec. Lendo-as no original francês, vislumbrou nelas o futuro do próprio catolicismo, então religião oficial do Império.
A Igreja, entretanto, receberia as ideias ali divulgadas como “um golpe” à religião. O livro “Os Intelectuais e o Espiritismo”, de Ubiratan Machado (Publicações Lachâtre) registra “a resposta ácida e imediata” da Igreja Católica à ação de Telles de Menezes. Em uma Pastoral, Dom Manuel Joaquim Silveira, bispo de Salvador, tratou de orientar os católicos acerca das “perniciosas doutrinas” e das “superstições perigosas e reprovadas” que ameaçavam “a salvação” de seus “amados filhos”. Mas, a reação da Igreja não abateu o jornalista baiano que, em carta dirigida ao bispo, ratificaria sua “fé católica” e sua “obediência” ao prelado, como “humilde ovelha de seu rebanho”. Entretanto, dizia, sua fé lhe impunha “o sagrado dever de patentear a razão” de sua adesão à “salutar e evangélica doutrina do espiritismo”.
Registrando o episódio, o autor de “Os Intelectuais e o Espiritismo”, consigna: “Os espíritas brasileiros continuavam dóceis católicos, apenas discordando de alguns dogmas, Faltava coragem para abandonar o regaço da mãe Igreja”.

O surgimento de “O Eco de Além-Túmulo”
Foi com o mesmo espírito expresso na carta ao bispo que o jornalista baiano, acompanhado de outros intelectuais da época, todos de origem e tradição católicas, publicou o primeiro jornal “espírita” brasileiro. Na edição inaugural, o articulista Ignacio José da Cunha, membro do Grupo, reportava-se a comunicações mediúnicas de um espírito que jurara “pelo sagrado nome de Maria Santíssima, e por Deus Todo Poderoso” ser efetivamente o “Anjo de Deus”. No mesmo artigo, Cunha assegurava que, segundo as comunicações recebidas, “a religião católica é a verdadeira religião de Deus” e que “o espiritismo faz com que todos se cheguem à religião católica”.
O jornal dirigido por Telles de Menezes ocupava-se destacadamente com assuntos relativos à mediunidade e à reencarnação, identificando esta com o dogma da “ressurreição da carne”, mas, em vários trechos ratificava dogmas católicos como os da Santíssima Trindade e da divindade de Jesus.

A opinião de Kardec
Na “Revista Espírita” de junho de 1869, Allan Kardec saudou o aparecimento de “O Eco de Além Túmulo”, elogiando a “grande coragem” de Olympio Telles de Menezes, ao lançar “num país refratário como o Brasil um órgão destinado a popularizar nossos ensinamentos”. Mas, acrescentava Rivail: “Para nós, o Espiritismo não deve tender para nenhuma forma religiosa determinada”, devendo “permanecer como uma filosofia tolerante e progressiva, abrindo seus braços a todos os deserdados, qualquer que seja a nacionalidade e a crença a que pertençam”.

Para conhecer melhor: As edições de “O Echo d’ Alêm Tumulo”, publicadas bimestralmente nos anos de 1869 e 1870, estão digitalizadas e disponibilizadas no site da hemeroteca da Biblioteca Nacional do Brasil:






O Regaço Materno
A ninguém é fácil deixar o regaço materno. Para Luis Olympio e seus companheiros, em pleno Século XIX, em um país onde a “mãe Igreja” detinha a condição de religião oficial, haveria de ser muito mais difícil. Allan Kardec reconheceu isso e até elogiou a coragem do jornalista baiano, convencido de sua necessidade de “contornar certas suscetibilidades”. (R.E.junho/69). Mesmo assim, não compactuou com o perfil religioso, no caso católico, que era imprimido ao nascente espiritismo brasileiro, e preferiu ratificar seu caráter filosófico, universal e progressista.
Decorridos 145 anos, no entanto, parece oportuno recordar memorável lição de outro cristão, verdadeiro fundador, aliás, do movimento que se constituiria na maior religião do Ocidente. Paulo de Tarso, em epístola aos coríntios, comparou os primeiros ensinamentos espirituais que a eles levara com o leite materno dispensado a crianças ainda inaptas a ingerir alimentos sólidos. Concitava, assim, os destinatários de sua carta a se tornarem adultos capazes de receber as novas verdades que lhes pretendia agregar.
Lastimavelmente, amplos setores da imprensa e do próprio movimento espírita comportam-se e induzem seus seguidores a pensar e agir e, também, a interpretar as leis da vida, como se na infância espiritual permanecessem. Na abordagem dos grandes temas doutrinários, na linguagem empregada, ou guardando postura de distanciamento das questões de nosso tempo, demonstram disposição de permanecer estacionados em patamares culturalmente superados. Desprezam, dessa forma, a essencial condição progressiva e progressista do espiritismo, sem a qual, segundo Kardec, ele se condenaria ao próprio suicídio.
Seria injusto dizer que não avançamos relativamente a algumas abordagens infantilmente primárias do assim chamado primeiro jornal espírita brasileiro. Mas, o espiritismo exige mais de nós. Convida a deixarmos o regaço materno e renascermos para um novo mundo de ideias e seus consequentes desafios. Em outras palavras: é tempo de dispensar o doce leite da religião e alimentarmos o espírito com a sólida realidade da vida, que exige profundidade de pensamento e concretude de ação em favor do progresso científico, intelectual e ético da humanidade. O espiritismo, parece-nos, é ferramenta poderosa, apta a contribuir com esse objetivo. (A Redação).
         




Um encontro nos jardins do Vaticano
“É preciso coragem para dizer sim ao encontro e não ao confronto”. Papa Francisco

Um dado histórico instigante: as guerras religiosas, as perseguições por motivo de crença, o fundamentalismo e a intolerância religiosa são fenômenos bem mais comuns nas religiões monoteístas que naquelas de matriz politeísta.
A História, da Antiguidade à Modernidade e desta à contemporaneidade, está pontilhada de conflitos entre judeus e cristãos, cristãos e muçulmanos, muçulmanos e judeus e, mesmo, entre diferentes vertentes dessas mesmas crenças, como, por exemplo, católicos e protestantes, xiitas e sunitas. Judaísmo, cristianismo e islamismo se constituem nas três grandes religiões monoteístas do Planeta. A divindade que cultuam têm características comuns: é um deus pessoal, voluntarioso, que privilegia a fé sobre todas as demais virtudes. Seguros de a terem recebido como revelação, cada um desses três grupos religiosos se entende detentor da verdade. A gênese do direito e dos costumes desses povos parte de algumas “verdades” fundamentais que, por serem de “origem divina”, deverão reger suas relações internas e externas. A partir daí, organizaram-se comunidades, povos e nações que, diante da suposta posse da “verdade eterna”, tendem a menosprezar as demais, dando lugar à discriminação, ao ódio racial e religioso, aos conflitos e às guerras, que se estendem, às vezes, por séculos.
A modernidade laica e secular, com toda a razão, diante das características acima resumidas, vislumbrou nas religiões monoteístas um significativo fator de intolerância.
O atual chefe da Igreja Católica, um humanista, parece também ter percebido isso e está envidando esforços no sentido de estender pontes de diálogo entre as três grandes religiões monoteístas e os povos que as cultivam. Notadamente, busca aliviar a tensão política entre dois povos que, há décadas, sustentam graves conflitos com origens ligadas a questões raciais e religiosas: israelenses e palestinos.
Após visita à Palestina, no mês último, Francisco reuniu nos jardins do Vaticano, dia 8 de junho, os presidentes da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, e de Israel, Shimon Peres, convidando-os a orar juntos em favor da paz. Foi um ato carregado de simbolismo e de ideias generosas, perceptíveis no semblante dos quatro líderes mundiais participantes, eis que presente, ainda, o patriarca de Constantinopla, Bartolomeu I, da Igreja Cristã Ortodoxa.
O acontecimento tem profundo significado político, plenamente sintonizado com os ideais modernos em favor da paz, do igual respeito a todas as culturas e etnias e de cooperação entre todos os povos. Mais do que isso, entretanto, a humanidade espera daqueles que governam as nações onde persistam conflitos com essas conotações históricas: que suas eventuais crenças e tradições religiosas não sejam, jamais, empecilhos ao pleno exercício dos direitos fundamentais do ser humano, independentemente de credo, ideologia ou etnia.
É possível que o processo para se atingir esse estágio político, tanto no âmbito interno das nações, como no das relações internacionais, passe pela necessidade de se repensar conceitos teológicos arraigados em algumas culturas de tradição monoteísta. Fez bem o Papa em promover esse encontro nos jardins do Vaticano, ambiente neutro, laico, embora situado nos domínios da Santa Sé. É tempo de crentes, politeístas ou monoteístas, compreenderem que valores como dignidade humana, fraternidade, respeito ao pensamento alheio, alteridade, autonomia das pessoas e autodeterminação dos povos, não são inerentes a uma crença ou produtos de revelações divinas exclusivistas. São expressões da lei natural, paulatinamente assimilável e exercitável pelo espírito em sua caminhada evolutiva.
Nós, espíritas, defendemos ser a lei natural compatível com uma visão não pessoal ou antropomórfica de divindade, harmônica com a razão, fagulha emanada de uma Inteligência Suprema, causa primária de todas as coisas, que ilumina, igualmente, infinidade de inteligências, cooperadoras e ativas, que povoam o Universo. Essa concepção, espiritualista, racionalista e plural, conduz aos mesmos valores civilizatórios da sociedade moderna, secular e laica. Leva, especialmente, à convicção de que a Humanidade é constituída de uma única família e de que somos todos irmãos, independentemente de raças, credos e culturas.


         



A dúvida de Agostinho
Religião é certeza. Filosofia é dúvida. Fico, às vezes, a pensar na angústia de um Santo Agostinho, tão devotado à fé e, ao mesmo tempo, tão envolvido pela reflexão filosófica. Cristão convertido, devia obediência a Paulo que pregava a certeza de uma vida única, depois da qual viria o juízo. Mas, platônico, e conhecedor das ideias sobre a preexistência da alma, legadas por Orígenes, Plotino e outros neoplatônicos, “Padres da Igreja”, o bispo de Hipona, em suas “Confissões”, rogava a Deus: “Dizei se minha infância sucedeu a outra idade já morta, ou se tal idade foi a que levei no seio de minha mãe?”. E, angustiado, insistia: “E antes desse tempo, que era eu, meu Deus? Existi, porventura, em qualquer parte, ou era por acaso alguém?”.
Era o conflito entre a prisão da fé e os apelos libertários da filosofia.

A rebeldia de Bruno
Imagine-se um frade da ordem dos dominicanos, congregação religiosa que exige de seus membros, além dos votos de pobreza e de castidade, o da obediência. Era o Século XVI, e a Igreja vivia o período da Contrarreforma, buscando manter, a qualquer custo, seu poder sobre a sociedade europeia. Que chance poderia ter Giordano Bruno, conservando-se cristão, de sustentar coisas como pluralidade de mundos habitados e pluralidade de existências corporais do espírito? Mesmo abandonando o hábito, para se tornar, primeiramente, calvinista e, finalmente, livre-pensador, foi perseguido e processado pelo tribunal da Inquisição. Eram graves demais suas “heresias”, e, entre elas, particularmente perniciosa aquela que apregoava a “transmigração das almas”. O ex-frade, então excomungado, sustentou firmemente suas ideias, até ser calado pela infame execução, na fogueira, em praça pública, no “Campo dei Fiori”, em Roma, naquele 17 de fevereiro de 1600.

A certeza de Ford
Homem prático, inteligente, empreendedor, Henry Ford se tornaria um dos sujeitos mais ricos do mundo, desde que construiu seu primeiro automóvel. Mesmo com poder e dinheiro, segundo revelou, em 1929, em entrevista a um jornal americano, sentia-se, desde jovem, “aturdido”, diante de perguntas que fazia a si próprio, do tipo: “Para que estamos aqui?”. Sem resposta a essa indagação “a vida era vazia, inútil”. Foi quando, com a leitura de livro ofertado por um amigo, teve contato com as ideias reencanacionistas: “Isto mudou toda a minha vida”, declarou, que passou “do vazio e da inutilidade para uma existência de propósito e significação”. E acrescentou o grande industrial estadunidense: “Acredito que estamos aqui, e agora, e tornaremos a voltar. Disso eu tenho certeza”.

A coragem de Stevenson
Da Antiguidade aos dias de hoje, escritores, homens de ciência, poetas e filósofos aceitam a tese da existência do espírito e sua evolução através das vidas sucessivas. Hoje, não são poucos os intelectuais com essa íntima convicção. Mas, se veem frente a um impasse: a ciência acadêmica adotou paradigma materialista, reducionista. Ideias como imortalidade do espírito e reencarnação foram empurradas para o domínio da crença. Um professor universitário, um cientista, pode ter a fé que desejar. Mas, para estar inserido no “status quo” vigente, não deve “misturar” a “crença” com seu magistério ou atuação científica.  Por sorte, há exceções. O psiquiatra Ian Stevenson (1917/2007), professor da Universidade de Virginia, defendeu a hipótese da reencarnação e pesquisou faticamente sua ocorrência, deixando bem documentados os resultados na obra “Vinte Casos Sugestivos de Reencarnação”. Entretanto, esta frase dita por ele permite avaliar a coragem que precisou ter para realizar seu trabalho: “Se os hereges pudessem ser queimados vivos, nos dias de hoje, os cientistas – sucessores dos teólogos que queimavam qualquer um que negasse a existência das almas, no Séc.XVI – hoje queimariam aqueles que afirmam que elas existem”.





O suposto plágio de Allan Kardec
Eugenio Lara, arquiteto e designer gráfico; Membro-fundador do Centro de Pesquisa e Documentação Espírita, editor-fundador do site PENSE – Pensamento Social Espírita. E-mail: eugenlara@hotmail.com/ .

Durante o processo de desenvolvimento do Espiritismo, o pedagogo francês Denizard Rivail percebeu a necessidade de lançar mão de novas palavras, seja a partir das informações dos espíritos ou de seu conhecimento do grego e latim, línguas-mãe que dão origem a quase todas as palavras latinas. Criou uma nova terminologia, as palavras espiritismo, espírita e espiritista para designar o novo conjunto de ideias que havia estruturado em parceria com os espíritos.
No entanto, desde 1853, tais palavras já existiam no inglês, empregadas no francês com o lançamento de O Livro dos Espíritos (1857). Obviamente que para os inimigos do Espiritismo, velados, enrustidos ou declarados, este seria mais um motivo para espinafrar e desqualificar Denizard Rivail e todo seu legado. Ora, se já existia a palavra, então foi plágio, foi cópia descarada. Rivail seria um intelectual desonesto por conta deste fato e outras acusações mais, dando suposta razão a desertores e dissidentes precipitados, imprudentes e levianos.
Rivail era poliglota e conhecia o inglês. Lembremos que ele foi amigo íntimo da jornalista e tradutora inglesa Anna Blackwell, que foi correspondente da Revista Espírita, na Inglaterra. Não sabemos o grau de fluência que ele possuía desse idioma e menos ainda se teve acesso às obras inglesas contendo as “palavras novas”, os “neologismos” espírita e espiritismo no início de suas pesquisas.
Podemos observar a incidência do termo spiritism no livro raro Spirit Rapping Unveiled! escrito em 1853 pelo norte-americano Rev. Hiram Mattison (1811-1868). Há também a obra de Leonard Marsh (1800-1870), Apocatastasis, or Progress Backwards, editada em Burlington, por Chauncey Goodrich e o livro The Spirit-Rapper: an Autobiography (Boston, Little, Brown & Company, 1854), de Orestes Augustus Brownson (1803-1876). Spiritism era um termo comumente usado de modo pejorativo entre os espiritualistas, adeptos do New Spiritualism.
Certamente, Rivail não teve acesso a esses livros, ao menos na época em que lançou O Livro dos Espíritos. Isto porque a obra de Orestes Augustus Brownson é citada no opúsculo Catálogo Racional das Obras para se Fundar uma Biblioteca Espírita (1869). Temos de considerar que o contexto histórico era bem outro. Hoje, com a internet e as redes sociais, as informações fluem e não há mais desculpa a não ser a ignorância e preguiça em acessa-las. Isso não era possível na época.
Quando faz referência aos neologismos espiritismo, espírita e espiritista, Rivail deixa claro que foram criados por ele, devido à necessidade de dar uma identidade toda própria à filosofia espírita em seu nascedouro, a fim de não confundir com o Spiritualism norte-americano e inglês.
Na introdução de O Livro dos Espíritos, Rivail tece esclarecimentos sobre o tema:
“Em lugar das palavras espiritual e espiritualismo empregaremos, para designar esta última crença, as palavras espírita e espiritismo, nas quais a forma lembra a origem e o sentido radical e que por isso mesmo tem a vantagem de ser perfeitamente inteligíveis, deixando para espiritualismo a sua significação própria.” (item I, trad. Herculano Pires, LAKE).
Se Rivail criou ou não esses neologismos, tal dúvida se desfaz na leitura de uma pequena nota de rodapé escrita por ele em O Livro dos Médiuns, a respeito da terminologia utilizada nesta obra:
“Vemos que, quando se trata de exprimir uma ideia nova, para qual a língua não possui termo, os Espíritos sabem perfeitamente criar neologismos. Estas palavras: eletro-medianímico, perispirítico, não são nossas. Aqueles que nos criticaram por havermos criado as palavras espírita, espiritismo, perispírito, que não tinham termos análogos, poderão agora fazer a mesma crítica aos Espíritos.” (cap. V, item 98, trad. Herculano Pires, LAKE).
Para ideias novas, palavras novas foi o princípio, hoje semiótico, que Rivail adotou para criar a terminologia espírita, condição sine qua non à existência de qualquer ciência, por mais pretensiosa que seja.
Sem dúvida, foi uma sacada genial a criação de neologismos, principalmente os que definem e identificam a Doutrina Espírita. Desde seu início, por conta deste fato, o Espiritismo surge em meio a todo aquele movimento espiritualista e esotérico, com identidade própria, com suas especificidades, notadamente pelo fato de aderir à reencarnação, rejeitada por espiritualistas ingleses e norte-americanos. Se as palavras que criou tinham inicialmente no inglês sentido pejorativo, na medida em que o Espiritismo foi mostrando à sociedade suas finalidades e objetivos sérios, os termos ganharam outra conotação, outro significado.
Diante daquele conjunto de ideias que estruturou, faltava um nome e uma conceituação. E isso Rivail o fez como observamos nestas palavras: “Como especialidade o Livro dos Espíritos contém a Doutrina Espírita; como generalidade liga-se ao Espiritualismo, do qual representa uma das fases. Essa a razão porque traz sobre o título as palavras: Filosofia Espiritualista.” (O Livro dos Espíritos, introdução).
De certa forma, dar o nome a alguma coisa é quase o mesmo que inventar, criar ou fundar essa mesma coisa. A significação e o sentido conceitual que Kardec atribuiu às novas palavras reafirmam o fato de que foi ele quem fundou o Espiritismo, portanto, coube-lhe a responsabilidade e o mérito de organizar o conjunto terminológico adequado à nova ciência.
Se as palavras espírita, espiritismo já existiam, mesmo que em outro idioma, isso não tem a menor importância epistemológica diante do contexto histórico bastante diferenciado. Afinal, até 1857, o Espiritismo não existia e passou, desde então, a ter o status de uma nova filosofia espiritualista. E os termos usados no inglês não correspondem conceitualmente às designações futuramente criadas pelo fundador do Espiritismo.
Pode-se dizer que, sem o saber, Rivail se apropriou de termos existentes, imaginando tê-los criado, sem que houvesse aí algum tipo de desonestidade, de leviandade intelectual ou simplesmente plágio. Historicamente falando, as palavras espírita, espiritismo tornaram-se propriedade do Espiritismo, são o seu trademark, ficaram registradas para a posteridade com novas significações e acepções. Quando são pensadas, citadas e proferidas, tais palavras estão associadas historicamente a Denizard Rivail, sob o pseudônimo de Allan Kardec. Quem é que irá lembrar dos autores ingleses citados no início deste artigo? Quem os conhece? Quem são eles? Tiveram o mérito de usar a palavra spiritism pela primeira vez, mas sem seu significado vindouro, específico e bem definido que foi por Rivail. Foi ele quem fez a diferença e delimitou campos de conhecimento a partir dessas palavras. Se já existiam, isso não faz a menor diferença.





Signates e a Ciência da Religião
Um dos mais qualificados intelectuais espíritas brasileiros, Luiz Signates(foto) (Goiânia/GO), doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo, com pós-doutorado em epistemologia da comunicação, pela Unisinos, está iniciando importante atividade na Pontifícia Universidade Católica de Goiás. A partir do segundo semestre letivo deste ano de 2014, Signates passa a ser docente efetivo do Programa de Pós-Graduação (Mestrado e Doutorado) em Ciências da Religião daquela universidade.
Segundo informou a este jornal, o Prof. Signates vai se integrar à linha de pesquisas em “Cultura e Sistemas Simbólicos” daquele programa, onde se dedicará a estudos do espiritualismo brasileiro, em suas diferentes formas, “inclusive as suas formas laicas e de pretensão científica”. Acrescentou Signates: “Em meus últimos trabalhos, apresentados aos eventos desse programa, com o qual venho me relacionando nos últimos quatro anos, tenho citado a CEPA como um aspecto do espiritismo que merece uma atenção específica, por suas características antropológicas”. Ele entrevê nessa oportunidade profissional “também a possibilidade de contribuir, com apoio institucional, à consolidação de uma tradição de pesquisas sobre a temática espírita/espiritualista, em suas diferentes modalidades, tanto pela interlocução que possamos passar a ter, quanto pela formação, em níveis de mestrado e doutorado, de docentes e pesquisadores nessa área”.

Estudo Analítico de “O Livro dos Espíritos”
Sempre com boa frequência, segue se desenvolvendo, às sextas-feiras, a partir das 3 horas da tarde, no Centro Cultural Espírita de Porto Alegre (Rua Botafogo, 678), o chamado estudo analítico de O Livro dos Espíritos. A iniciativa e coordenação é do diretor do Departamento Doutrinário do CCEPA, Salomão Jacob Benchaya. O grupo, que conta com a participação de Maurice Herbert Jones, como provocador dos temas em debate, pode ser visitado, livremente, e sem compromisso de frequência, por todos os interessados, espíritas ou não.






A Consciência de um novo tempo
Estimados companheiros do CCEPA:
Em primeiro lugar parabenizo-os pela qualidade do Jornal Opinião e suas relevantes matérias, cujos conteúdos fazem a diferença no movimento espírita brasileiro e, quiçá, mundial, já que representam, literalmente, um movimento e refletem uma dinâmica progressista, em contraposição ao tradicional e estagnado modelo da esmagadora maioria das instituições espíritas brasileiras.
A propósito, confesso que muito refleti sobre a frase final de “Nossa Opinião”: “... porque afinado com a consciência de um novo tempo.” (edição n.219, de junho). Ficou martelando em minha mente a pergunta: o que seria a “consciência de um novo tempo”? Não tenho a resposta, mas sim a convicção sobre a pertinência do tema “O Espiritismo e os Desafios do Século XXI” para o VI Fórum do Livre-Pensar Espírita, em que tal consciência poderá ser intensamente debatida.
Grande abraço.

Néventon Vargas - João Pessoa-PB.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

OPINIÃO - ANO XX - Nº 219 - JUNHO 2014

Temas de vanguarda

O Espiritismo do Século XXI
A abordagem de temas como meio ambiente, sexualidade, justiça social, ética e ideologias, no II Encontro Espírita Ibero-Americano, realizado na Espanha, pode estar sinalizando para um novo período a ser vivido pelo espiritismo internacional: a melhor integração com outros movimentos mundiais voltados ao humanismo e ao progresso ético, político e social da humanidade.

O (bom) exemplo de Salou
Os segmentos mais progressistas do movimento espírita da Europa e das Américas, embora minoritários relativamente ao tradicional movimento religioso, revelam a tendência de se inaugurar um novo período na abordagem de temáticas em eventos espíritas. No II Encontro Espírita Ibero-Americano, que aconteceu na cidade de Salou, Tarragona, Espanha, no início de maio último, painéis como “Espiritismo e Sociedade”, “Espiritismo e Problemática Social” e “Espiritismo e Consciência” abriram espaço para temas de palpitante atualidade, vistos a partir de fundamentos espíritas. No primeiro desses painéis, Gustavo Molfino (Rafaela, Argentina) abordou “Responsabilidade social e ambiental do espírito na sociedade atual”; Mauro de Mesquita Spínola (São Paulo, Brasil) enfocou “O espiritismo combate as injustiças sociais”; e Jacques Peccatte (Paris, França) falou sobre “O papel do espiritismo moderno em nossas sociedades”.
No painel “Espiritismo e Problemática Social”, desfilaram temas como: “Sexualidade e Espiritismo” (Alcione Moreno – São Paulo/Brasil); “Criminalidade e Direitos Humanos” (Jacira Jacinto da Silva – São Paulo/Brasil) e “A essência da mensagem do espiritismo como resposta aos desafios atuais do ser humano” (Oscar Garcia – La Palma, Espanha).
A partir do tema “Espiritismo e Consciência”, Maria Cristina Zaina (Curitiba/Brasil) abordou conceitos modernos distinguindo “Pecado e Erro”. No mesmo painel, Mauro Barreto (La Palma, Espanha) enfocou “Espiritualidade e Consciência” e Nieves Granero (Valencia/Espanha) fez atualizada reflexão sobre “Ser Consciente”. Já o painel “Motores do Espiritismo” oportunizou que se discutissem temas como amor, ética e ideologias, a partir dos vetores do pensamento contemporâneo. Assim, Moacir Araújo Lima (Porto Alegre/Brasil) abordou “Amor, a arte de viver”; Milton Medran Moreira (Porto Alegre/Brasil) enfocou “A ética espírita no Século XXI” e David Estany (Tárrega/Espanha): “A crise do materialismo”.
O papel do centro espírita no mundo moderno foi tema do painel “Inserção Social do Espiritismo”, onde José Carlos Miranda Lucas (Óbidos, Portugal) tratou do “Centro Espírita no Século XXI”; José Arroyo (Porto Rico) reportou-se a históricas inserções espíritas em temas políticos e sociais de seu país e o engajamento atual na campanha contra a implantação da pena de morte; e Victor da Silva (Caracas/Venezuela) abordou “O grande objetivo do espiritismo”, a partir de uma visão laica e livre-pensadora.
O próprio enfoque de temas clássicos, como a mediunidade, mereceu, em Salou, uma abordagem voltada ao desafio das mudanças: Dante López (Rafaela, Argentina) falou sobe “Os desafios da mediunidade frente ao Século XXI”; Gláucia Lima (Lisboa, Portugal) tratou de aspectos psiquiátricos relacionados à mediunidade, em “Mediunidade: caminho ou transtorno?”; e Leonor Leal (Alcoçaba, Portugal) trouxe “Provas científicas da fluidoterapia”.

Homenagens e Caminhada pela Paz
Três figuras importantes do espiritismo latino-americano e espanhol que, em seu respectivo tempo, contribuíram para a atualização doutrinária e a inserção do espiritismo na cultura foram recordadas: Jaci Régis, teve sua vida e obra exposta por Alexandre Cardia Machado (Santos/Brasil); Josep Casanovas Llardent, fundador do Centro Barcelonês de Cultura Espírita, recebeu a homenagem de David Santamaría; e Amalia Domingo Soler foi recordada por Yolanda Clavijo (Caracas, Venezuela), que sustentou a plena vigência do pensamento da grande dama do espiritismo espanhol.  
Ao final do Encontro, os participantes fizeram uma Caminhada pela Paz que se estendeu pela linda orla marítima da cidade mediterrânea da Catalunha. 

   




Um Novo Tempo
Muitos dos temas apresentados no II Encontro Espírita Ibero-Americano já o haviam sido no XXI Congresso Espírita Pan-Americano, de Santos, em 2012. Reprisá-los ou ampliá-los no cenário espírita europeu é indicativo de que há, lá e aqui, segmentos interessados em dar um passo a frente na abordagem da teoria espírita e suas consequências.
No artigo “Período de Luta” (Revista Espírita, dezembro/1863), Allan Kardec prognosticava que, após um período religioso, seguido de uma fase intermediária, as ideias espíritas tenderiam a ganhar o mundo, propiciando o que denominou “Período de Regeneração”.  
Para o fundador do espiritismo, esse processo haveria de ser mais rápido e seria alcançado já nos primórdios do Século XX, por conta do avanço da compreensão mundial acerca da proposta espírita. Percalços como duas grandes guerras mundiais, o incremento de regimes de força, o consequente sufocamento de liberdades individuais, fizeram dessa caminhada algo bem mais lento. O próprio espiritismo, na sua feição mais conhecida, resignou-se em se apresentar ao mundo apenas como uma nova religião, estratégia que já não faz sentido, num mundo pluralista, laico e livre-pensador.
Mais do que se desejar a expansão do espiritismo como uma doutrina religiosa ou moral regeneradora da humanidade, quase messiânica, a melhor estratégia, neste momento, parece ser a de harmonizar suas propostas com as tantas tendências progressistas de um mundo em transformação.
Cabe demonstrar a quem de nós se aproxima que estamos de acordo com os grandes movimentos em favor da paz, da democracia, das liberdades, do avanço das ciências, do pluralismo e, enfim, da felicidade humana. E que nossos fundamentos filosóficos, todos eles, dão suporte racional a esses objetivos. Parece ser esta, hoje, a melhor estratégia, felizmente bem compreendida por um segmento espírita, ainda pequeno, mas com enorme potencial de expansão, porque afinado com a consciência de um novo tempo. (A Redação).
                    
         



E por falar em lógica
“Todas as escrituras sagradas(...) ‘encerram os germens de grandes verdades’. Nos livros do Cristianismo, que incluem os livros fundamentais do Judaísmo, esses germens aparecem de maneira mais acessível a nós, por se dirigirem especialmente ao nosso tempo, através do processo histórico da evolução cristã”.  (J.Herculano Pires, em “O Espírito e o Tempo”) ]

Com o título de “A interpretação que excede a lógica”, o artigo de WGarcia, em “Enfoque” – pag.4 -, tece algumas críticas ao texto “Contextualizar é preciso”, de nossa edição de maio, mês do 150º aniversário do livro “O Evangelho Segundo o Espiritismo”.
Como é da política deste mensário, acolhemos e, na medida em que o permita seu exíguo espaço, publicamos opiniões divergentes das nossas, desde que bem fundamentadas e capazes de contribuir com o debate espírita, características sempre presentes nos textos do ilustre subscritor do aludido artigo.
Permitimo-nos, entretanto, convidá-lo, e a nossos demais leitores, para uma releitura daquele pequeno editorial, não para que se concorde ou se deixe de concordar com ele, mas apenas com a pretensão de refutar a crítica central a ele lançada: a de ausência de lógica.
Não será demais recordar a velha lição aristotélica a partir da qual identificamos em um raciocínio a presença ou a ausência de lógica. A velha fórmula “Todo o homem é mortal; Sócrates é homem; Logo, Sócrates é mortal” propõe desdobrarmos o raciocínio em duas premissas - a maior e a menor - das quais resulte uma conclusão.
O artigo “Contextualizar é preciso” pode, perfeitamente, ser submetido ao esquema proposto. Senão, vejamos: Partiu da premissa de que todas as grandes tradições religiosas contêm princípios de uma moral universal, classificada pelo espiritismo como “lei natural” (premissa maior).  Complementou considerando que o cristianismo é uma das grandes tradições religiosas, na qual estavam Kardec e muitos de seus interlocutores espirituais mergulhados (premissa menor). E finalizou por dizer que o cristianismo, como outras tantas, é uma tradição religiosa na qual estão contidos importantes elementos constitutivos da lei natural (conclusão). É possível, pois, que Aristóteles vislumbrasse alguma lógica na argumentação exposta.
Mais do que isso, o que afirmou o pequeno artigo? Que “O Evangelho Segundo o Espiritismo” deve ser visto e analisado no contexto cultural em que viveram Kardec e aqueles espíritos de forte impregnação cristã e católica que contribuíram para sua publicação. Em momento algum se afirmou que “a figura de Jesus, as ligações com o cristianismo e outros aspectos desse mesmo tema” sejam iniciativas isoladas de “O Evangelho Segundo o Espiritismo” ou que não estejam “amparadas na obra básicas”, que é “O Livro dos Espíritos”.
Sem a menor dúvida, a França do Século 19, berço de Kardec e ambiente cultural de todo o conjunto de sua obra, estava impregnada de ideias cristãs e, especialmente, católicas. Sem qualquer dúvida, também, o lúcido espírito de Kardec delas partiu, no planejamento e execução de sua obra, para dali extrair os valores permanentes que compõem a moral universal apregoada pelo espiritismo. Sem querer fazer da proposta espírita uma religião, buscou no cristianismo aqueles valores éticos identificados como “eternos e imutáveis”.
Subsiste, no entanto, a indagação: se em outra cultura estivesse, ou se, mesmo nos dias de hoje, e no próprio Ocidente, se dispusesse a reescrever as obras fundamentais do espiritismo, Allan Kardec escreveria “O Evangelho Segundo o Espiritismo”? E se o escrevesse, seria com as mesmas impregnações culturais ali presentes? Pensamos que não. As premissas que colocaria em seu silogismo bem que poderiam ser outras. Que, no entanto, levariam às mesmas conclusões. Porque estas tendem a ser universais.
Mas, isso é apenas uma opinião. A nossa opinião. Que, aqui, ratificamos inteiramente. E o fazemos como mero exercício intelectual, pois que a História está posta e não há como modificá-la. Podemos, entretanto, interpretá-la, seguindo a lógica que nos pareça a melhor.






Reencarnação e justiça
Tenho dito sempre: uma das questões que me aproximou do espiritismo e de sua filosofia, quando já adulto e já nas lides do Direito, foi a relação que percebi entre reencarnação e justiça. De formação cristã e católica, nunca conseguira aceitar racionalmente o dogma das penas eternas. Talvez meu “eureka” tenha se dado no momento em que, pela primeira vez, li a questão 171 de O Livro dos Espíritos, apontando como base racional da reencarnação o que os espíritos classificavam como “justiça divina”. Da resposta dos espíritos, chamou-me especial atenção esta frase: “Não te diz a razão que seria injusto privar, para sempre, da felicidade eterna todos aqueles cujo aprimoramento não dependeu deles próprios?” Vislumbrei na sentença um toque de humanismo que percebia ausente da teologia cristã: a de que a vida de relação é bem mais complexa do que o mero sentido de “certo e errado” adotado pelas religiões. E que decretar a bem-aventurança ou a danação eternas de um espírito a partir de um presumível acerto ou erro seria a mais ignóbil expressão de injustiça.

A primeira palestra
A primeira palestra que fiz num centro espírita, quando ainda sequer me declarava seguidor do espiritismo, teve por tema “A justiça divina e a justiça humana”. Foi na Cruzada dos Militares Espíritas da cidade de Bagé, onde eu era Promotor de Justiça, na década de 70 do século passado. Decorridos tantos anos, minhas reflexões já não mais se fundam nessa visão dicotômica e maniqueísta: justiça divina x justiça humana. Busco perscrutar nas leis sábias da vida um sentido de justiça que se aperfeiçoa, etapa após etapa, por força da evolução dos seres. É certo que, num mundo desigual como o nosso, provisoriamente, podem triunfar as injustiças. Mas, nossa capacidade de indignação, que também se aprimora, etapa após etapa, é o combustível que nos leva a agir no sentido da redução gradativa das injustiças. Numa perspectiva reencarnacionista, pois, não é justo que se tome como errado um comportamento individual alheio, atribuindo-lhe uma pena matematicamente proporcional à lesão praticada. Como sugerem as entidades entrevistadas na questão 171, a consciência acerca do mal cometido nem sempre depende do próprio agente. Frequentemente deriva do entorno em que vive e de erradas estruturas sociais à sua volta. Seu aprimoramento não está a depender dele próprio. Logo, puni-lo não faz sentido.

A justiça cósmica
A justiça cósmica deve ser mais inteligente que os mecanismos crime-castigo por nós adotados e que, numa primeira e equivocada visão palingenésica, terminamos por atribuir também à reencarnação. Em uma palavra, a primeira tendência – que foi também a minha e devo tê-la explicitado na palestra de Bagé – é de substituirmos as penas eternas da teologia cristã por um rigoroso “olho por olho, dente por dente” reencarnatório. Mas, reencarnação, mais que tudo, é instrumento de progresso. O progresso, é certo, não se opera sem alguma dor. A dor do aprendizado, também é certo, é fruto de nossas deficiências. Tudo o que fazemos em sentido contrário à lei natural produz sofrimento. Entretanto, os mecanismos inteligentes da justiça natural não se comprazem com a vingança. Se, no mundo espiritual há espíritos vingativos, como gostam de mostrar certos “romances espíritas”, é equivocado chamarmos isso de justiça divina. Serão eles tão carentes de educação quanto os que, aqui, cometem crimes inspirados na vindita.

O esquecimento
Para quem visualiza na justiça uma função meramente retributiva, a memória do mal feito é essencial: “Estou sofrendo esta pena porque fiz aquilo”. As almas que penam no inferno de Dante são lembradas disso a cada instante. Já a reencarnação, porque instrumento de educação e progresso, e não de castigo, apaga da lembrança do espírito os fatos que, eventualmente, tenham contribuído para seu sofrimento. Não apaga, contudo, as intuições trazidas no íntimo da consciência a inspirarem a tomada do caminho retificador. Enfim, não se faz justiça sem amor. O humanismo espírita se nutre da tríade justiça/amor/caridade. Se não formos capazes de “humanizar” nossa visão de justiça, seguiremos tendo também da reencarnação um conceito distorcido. Muito próximo das penas eternas da teologia cristã.

        




Equívocos - A interpretação
que excede a lógica
WGarcia - Recife, PE

A propósito da publicação no “Opinião”, do CCEPA, mas, também, da ideia que a matéria representa, cabe um reparo amparado na lógica da doutrina que Kardec organizou e produziu, denominada Espiritismo.
A matéria diz respeito aos 150 anos de lançamento de O Evangelho segundo o Espiritismo, tão amplamente comemorados neste Brasil de nosso tempo, mas pouco, muito pouco mesmo analisada fora desse lugar comum que é o campo da religião, visto que sua lógica está para além do mero consolo e da simples aplicação da moral cotidiana.
A matéria do “Opinião” – Contextualizar é preciso – padece de um equívoco argumentativo, uma vez que deduz houvesse Kardec sido filho de uma outra cultura que não a cristã, ao seu tempo, teria escrito livro diferente para o aspecto religioso do Espiritismo. Esquece-se, contudo, da visão de conjunto necessária para compreender a posição de O Evangelho segundo o Espiritismo na doutrina de Kardec.
Talvez, ninguém melhor do que Herculano Pires tenha tido essa visão e deduzido dela a lógica do livro mencionado, lógica essa que o insere num contexto de uniformidade de vistas, de forma a constituir não apenas uma parte do conjunto, mas parte que não pode ser excluída porque deforma o todo e parte que não possui finalidade em si mesma, pois existe por conta do conjunto.
O argumento de que em outra cultura o livro seria outro exige do raciocínio um complemento: em outra cultura os Espíritos-autores seriam outros, logo as ideias também. Então, a dúvida: aquilo que é universal na doutrina seria defendido ou colocado por estes outros emissores? Os princípios fundamentais, como imortalidade, reencarnação, comunicabilidade dos espíritos, evolução, as leis naturais seriam todos integrantes elementares da obra? Haveria espaço em outras culturas para os princípios e a lógica que os une?
A questão não pode ser resumida a uma vontade de Kardec decorrente de sua submissão relativa à cultura na qual estava inserido. É o que reza Herculano Pires. A vontade de Kardec decorre do conjunto das ideias que o levou a optar por escrever um livro como sequência natural da obra iniciada em O Livro dos Espíritos e desenvolvida em O Livro dos Médiuns.
Herculano vai além: vê toda a Doutrina Espírita como sequência do conhecimento construído pela humanidade, através das civilizações. E a toma como um conjunto harmônico em que as partes se enlaçam de forma precisa, cada uma delas assumindo uma parcela da obra e a desenvolvendo, sem que haja qualquer tipo de choque com aquela que aparece na base do edifício: O Livro dos Espíritos.
Se os espíritas fizeram de O Evangelho segundo o Espiritismo o livro de maior destaque e lhe aplicaram uma importância que minimiza absurdamente o valor de O Livro dos Espíritos, numa ação irremediavelmente incoerente; e se O Evangelho segundo o Espiritismo tornou-se referência de um religiosismo exacerbado, como se o Espiritismo se resumisse a isso é uma questão para ser discutida. Outra, diferente, é ver o terceiro livro de Kardec como resultado apenas de uma situação cultural do autor, o que nos lança a um reducionismo obtuso.
Dizer que O Livro dos Espíritos é a fonte dos demais livros de Kardec é repetir o lugar-comum. Mas enfatizar que ele é o gerador dos demais para indicar que forma com eles um conjunto e que neste conjunto, independentemente de qualquer outra coisa, impera a lógica e a coerência interna é uma necessidade.
Diz o bom senso que o conjunto em referência não se refere apenas aos livros e às ideias que defendem, mas inclui, também, os autores (invisíveis e visíveis), o contexto, o tempo e o espaço dos acontecimentos. E, evidentemente, um olhar epistemológico. Qualquer conjectura, por mais legítima que seja, feita com o objetivo de apontar outras possibilidades, como essa levantada pelo “Opinião”, deveria, portanto, levar em consideração o conjunto e não uma obra isolada.
Dentro deste raciocínio, a figura de Jesus, as ligações com o cristianismo e outros aspectos desse mesmo tema não são iniciativas isoladas de O Evangelho segundo o Espiritismo, pois que estão amparadas na obra básica – O Livro dos Espíritos. Não é possível, pois, questionar aquele sem reconhecer a primazia deste e sem atingi-lo, da mesma forma que não é coerente desconsiderar os laços que unem as partes fundamentais da doutrina, como a comunicabilidade dos espíritos, as leis da reencarnação e da evolução, entre outras, laços que, eventualmente desfeitos, isolariam as partes e as lançariam à orfandade.
Em suma, a perspectiva de um outro livro implica um outro conjunto de ideias. Fora disso, não é possível refletir.

Nota do Editor: Leia também o editorial “E por falar em lógica”, na página 2






Ecos de Salou no CCEPA
Na tarde do dia 21 de maio, quarta-feira, dia de reunião de Grupos de Estudos do CCEPA, a convite do Diretor do Departamento Doutrinário, Salomão Jacob Benchaya, o presidente da instituição, Milton Medran Moreira, e o secretário, Rui Paulo Nazário de Oliveira, fizeram amplo relato acerca do II Encontro Espírita Ibero-Americano, do qual participaram, em Salou, Tarragona, Espanha, de 1º a 4 de maio último. Os integrantes dos Grupos aproveitaram para discutir, a partir dos temas do evento, as perspectivas do espiritismo no presente século. A temática – O Espiritismo e os Desafios do Século XXI – será também o pano de fundo do VI Fórum do Livre-Pensar Espírita, promoção da Associação Brasileira de Delegados e Amigos da CEPA, CEPABrasil, que acontece, na sede do CCEPA, de 5 a 7 de setembro próximo.

A Hitória do ESDE contada em Osório
A Sociedade Espírita Amor e Caridade, de Osório/RS, por iniciativa de seu presidente Jerri Almeida, promoveu, dia 28 de março último, o Seminário “O Estudo do Espiritismo no Cenário Contemporâneo”. No evento, Aureci Figueiredo Martins resgatou a história do Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita, cuja campanha de lançamento completou 30 anos em 2013, lançada que foi pela Federação Espírita do Rio Grande do Sul, quando era seu presidente Maurice Herbert Jones, tendo como Diretor Doutrinário Salomão Jacob Benchaya.

Na segunda parte do Seminário realizado em Osório, o pensador espírita Vinicius Lousada, abordou o tema “Estudar Kardec numa Perspectiva Problematizadora”, destacando, especialmente, o caráter livre-pensador da proposta espírita, que deve ser levada em conta no estudo das obras do fundador do espiritismo.
Os pensadores espíritas Jerri Almeida (Osório/RS) e Vinicius Lousada (Bento Gonçalves/RS) participarão como expositores do VI Fórum do Livre-Pensar Espírita, que acontece na sede do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, com o tema “Os Desafios do Espiritismo no Século XXI”.

O Seminário realizado em Osório está gravado em vídeo que pode ser acessado em http://seacosorio.wordpress.com/palestras-e-seminarios/ .






Le Journal Spirite
Por favor, envie-me cópia da edição 96 de “Le Journal Spirite” (referido na edição de maio do boletim América Espírita). Como espírita religioso, sou agradecido pela imensa contribuição dos espíritas laicos.
Fraternalmente
Gilberto Guimarães da Silva - gilbertoguima@uol.com.br
(Revista em PDF enviada ao leitor, e poderá sê-lo igualmente a todos os interessados).

“Opinião” na Venezuela
Informo que “Opinião” sigue  llegando regularmente a CIMA, Venezuela, aunque com um atraso de dos a três meses. Leo la version digital, pero sigo disfrutando más del papel. Realmente “Opinião” es nuestra voz, nuestra referencia, nuestra mejor carta de presentación. Espero que nunca deje de editarse. Cumple uma función isustituible. 
Jon Aizpúrua – Caracas, Venezuela.

“Opinião” em Cuba
Estimados amigos:
Mis mayores saludos para vosotros, esperando se encuentren bien. Por esta estoy tratando de comunicarme para dicir que “Opinião” y el boletin “América Espírita” estan llegando sin dificuldad. Por eso quisiera agradecer por su apoyo. Um abrazo fuerte.
Justo Pastor – La Havana – Cuba.

Espíritas: Um pequeno contingente.
Já tive oportunidade de acompanhar os dados divulgados pela ARDA (Association of Religion Data Archives) citada por Guillermo Reyes Pozo, do Centro Barcelonês de Cultura Espírita, no Encontro de Salou, (matéria de CCEPA Opinião de maio). A informação divulgada pela ARDA provoca confusão ao afirmar que existem aproximadamente 13 milhões de espíritas no mundo, pelo fato de que classificam como "Spiritists" não apenas os kardecistas, mas também os seguidores da santeria, da mesa blanca, do vudu, da umbanda, do culto marioloncero, dentre outras expressões religiosas animistas, muito comuns em todo o continente americano.
Herivelto Carvalho – Ibatiba/ES).

(Trecho de manifestação na Lista da CEPA, na Internet. CCEPA Opinião convidou Herivelto a desenvolver mais amplamente o tema em artigo a ser publicado numa de nossas próximas edições).

terça-feira, 20 de maio de 2014

OPINIÃO - ANO XX - Nº 218 - MAIO 2014

A queda do catolicismo
na América Latina
Pesquisa do Instituto Latinobarometro registra queda de 80% para 67%do catolicismo entre a população da América Latina, no período de 1995 a 2013. Na maioria dos países, católicos migram para as igrejas evangélicas ou para o grupo dos “sem religião”.
         
Eram católicos, agora são evangélicos.
O Instituto Latinobarometro (Santiago, Chile) divulgou, no último mês de abril, os resultados da sondagem feita em toda a América Latina sobre religiões. Trata-se, possivelmente, da mais importante pesquisa já feita sobre crenças na América Latina.  O dado mais enfatizado mostra a acentuada queda do catolicismo nos últimos 18 anos: de 80% para 67%. No Brasil, a queda é ainda mais expressiva: apenas 63% das pessoas entrevistadas se declararam seguidoras da Igreja Romana, quando, em 1995, o índice era de 78%. Enquanto isso, registra-se uma crescente migração de crentes para as igrejas pentecostais e neopentecostais, em toda a América Latina e, especialmente no Brasil, onde os evangélicos eram 8% (1995) e hoje representam 21% da população. A queda fica ainda mais dramática na Nicarágua, onde o catolicismo perdeu 30 pontos percentuais, e também em Honduras, país em que a comunidade católica caiu de 76% para 47%: menos da metade da população que, no início do século passado, era, praticamente, toda católica.
         
Eram católicos, agora não têm religião.
Confirmando outra tendência não apenas da América como, e especialmente, da Europa, o levantamento da Latinobarometro acusou crescimento no índice dos que se dizem sem religião. No Brasil, por exemplo, esse grupo passou de 6 para 11%. No Uruguai, outro país antes cem por cento católico, 38% dos entrevistados responderam à pesquisa declarando-se sem qualquer religião. No Chile, cuja população em 1995 era constituída de 74% de católicos, hoje25% se declaram sem religião e apenas 57% seguem se afirmando católicos romanos.

Religião espírita: um pequeno contingente no mundo.
Na pesquisa do instituto chileno, não há referências ao espiritismo. Entretanto, em trabalho apresentado por Guillermo Reyes Pozo, do Centro Barcelonês de Cultura Espírita, intitulado “Retos del Espiirtismo em el Siglo XXI”, no II Encuentro Espírita Iberoamericano (Tarragona, Espanha, 1º a 4 de maio), é reproduzida pesquisa sobre crenças no mundo inteiro, publicada por The Association of Religion Data Archives (ARDA) - http://www.thearda.com/QuickLists/QuickList_125.asp - Ali, a classificação “espiritistas” aparece com o percentual de 0,2% dos habitantes pesquisados no mundo inteiro. Pela mesma fonte, os “sem-religião”, no ano da pesquisa (2005) perfaziam 12,08% da humanidade.






Tempos de laicização
A grande disputa religiosa no mundo ocidental, e particularmente na América Latina, segue sendo entre católicos e evangélicos, com visível avanço destes últimos, para cujo rebanho migram, anualmente, milhares de ovelhas do aprisco romano. Mas a pesquisa da Latinobarometro salienta que, apesar disso, cresce a popularidade do Papa argentino, Francisco. A mesma sondagem concluiu que a Igreja Católica é, hoje, a instituição com maior nível de confiabilidade, ultrapassando 60%, na maioria dos países pesquisados, percentagem só superada pela confiança na família.
 Contradição? Não, na medida em que se analisar a atuação do cardeal Bertoglio, desde que assumiu o papado. Seu discurso e sua ação em momento algum se detiveram na defesa dos dogmas da fé católica. Ao contrário, quando tomou medidas contra a corrupção do Banco Ambrosiano, ao punir a ostentação e o luxo de alguns prelados, ao combater com veemência os escândalos da pedofilia na Igreja, ao expressar tolerância e a compreensão com os homossexuais, o Papa afinou a prédica e a prática da Igreja com os anseios e as demandas da sociedade civil. A Igreja Romana, pouco a pouco, se seculariza, e, nesse processo de laicização, se distancia do dogma e do miraculoso, pontos fortes dos movimentos evangélicos. Do milagre, do mitológico, do sobrenatural e do fantástico, vão se apropriando cada vez mais as novas crenças evangélicas, especialmente nos países latino-americanos, onde crescem adubadas pelas carências sociais e no vácuo do descaso estatal com a educação. Enquanto isso, a Igreja, hábil e atenta às tendências de nosso tempo, ganha espaço com a fórmula: menos crença e mais humanismo.
Entretanto, mesmo que a Igreja minimize ou subestime as velhas questões da fé religiosa, porque superadas, subsistem na alma humana os naturais anseios pela espiritualidade. Temas como sobrevivência do espírito, sua imortalidade e evolução, passíveis de enfoque racional e científico, sempre serão objeto de íntima indagação humana, tanto de crentes como de descrentes. Nesse terreno podem se encontrar os religiosos de ontem com aqueles que duvidam ou já não são movidos pela fé, segmento que cresce aceleradamente. Esse é o terreno do espiritismo. Deixa de ser, no entanto, na medida em que ele se apresente como mais uma religião. Em tempos de laicização, é mister laicizar igualmente o espírito, enfocando-o, como propôs originariamente Allan Kardec, como o princípio inteligente do universo. Só assim, poderemos avançar, superando a minguada cifra de 0,2 por cento de partícipes dessas ideias que reputamos libertadoras e capazes de oferecer melhor compreensão acerca de Deus, do homem e do mundo. (A Redação).




Espiritismo e “espiritismos”
“O Espiritismo não encerra mistérios nem teorias secretas. Tudo nele tem de estar patente.” Allan Kardec – “A Gênese”. Introdução.

Há sensíveis diferenças entre o espiritismo que temos e o espiritismo que queremos. A ideia tem sido frequentemente expressa pelo presidente da Confederação Espírita Pan-Americana, Dante López, que a ratificou em discurso pronunciado no II Encontro Espírita Ibero-americano, ao início do fluente mês, em Salou, Catalunha, Espanha.
Quando se fala em espiritismo, costuma-se estabelecer a distinção entre doutrina e movimento. Aquela compreenderia o corpo teórico da obra proposta por Allan Kardec e que, segundo seu fundador, deveria se ampliar ao curso do tempo, incorporando aqueles conhecimentos humanos capazes de corroborar os princípios fundamentais alusivos ao espírito, sua comunicabilidade e evolução. Já por movimento espírita compreende-se o conjunto das organizações humanas envolvidas na prática e difusão das ideias espíritas.
Quem, no entanto, visita um centro, grupo ou instituição que se afirme espírita nem sempre apreenderá a distinção. Para ele, espiritismo será o que ali ele presenciar e as ideias e práticas com as quais ali tomar contato. Há, assim, um espiritismo teórico, cognoscível por aqueles que dedicarem ao seu estudo sério e à vivência da ética por ele proposta. Mas, há, de outra parte, uma gama de “espiritismos”, nem sempre ou em tudo compatíveis com o primeiro e que se fragmentam em práticas e ideias, por vezes demasiadamente esdrúxulas e, algumas, totalmente contrárias à lúcida proposta kardeciana.
Na Europa, onde, em conjunto com a Associação Internacional para o Progresso do Espiritismo – AIPE -, a CEPA promoveu, recentemente, o II Encontro Espírita Ibero-Americano, o espiritismo que floresceu e se desenvolveu rapidamente ao curso do Século XIX, experimenta hoje um forte processo de reavivamento, após ter praticamente desaparecido, em razão de duas grandes guerras e da perseguição sofrida por sangrentas ditaduras, justamente nos países onde tinha maior representatividade.
Nesse contexto, é digno de nota o esforço de núcleos e pessoas que, no Velho Continente, buscam o intercâmbio de ideias com os segmentos mais progressistas e livre-pensadores do espiritismo pan-americano. Enfrentam, fruto do criminoso processo de desprestígio do espiritismo, movido pelo establishment religioso e político por tanto tempo ali dominante, dificuldades enormes para a difusão do espiritismo, tal como o entendem e querem. O “espiritismo” com o qual se defrontam e que reside no imaginário popular não passa de um simulacro de ideias e práticas prenhes de mistério e de magia, em sentido diametralmente oposto à racionalidade kardeciana.
O Século XXI, aqui como lá, pois, nos está a oferecer imensos desafios para que se ponha no devido lugar o espiritismo que queremos, diante da imensa gama de “espiritismos” que, de fato, ainda temos, aqui e alhures. Um trabalho que só pode ser enfrentado com a união de esforços, nos moldes daquilo que alguns segmentos espíritas ibero-americanos estão fazendo.

 


O novo santo                                  
Eufórica, diante da câmera de TV, a moça dizia: “Maravilha! Agora, este país vai pra frente. Teremos um santo rogando a Deus pelo Brasil!”. Ela vibrava com a canonização do Padre José de Anchieta que o Papa havia procedido por decreto, mesmo sem a comprovação de dois ou três milagres, tradicionalmente exigíveis pela Igreja, quando se trata de elevar alguém às honras do altar.
Para quem supõe a existência de um Paraíso, onde mora Deus, sentado em um trono, rodeado de anjos e santos que disputam oportunidades de audiência para lhe pedir favores, a euforia da jovem fazia todo o sentido. Como santo, Anchieta estaria, agora, mais perto do trono de Deus e com mais chance de falar com ele. Por que não rogar pelo Brasil, país que ele viu nascer?
Um deus criado pelos homens
Os homens criaram Deus a partir de velhos modelos terrenos de hierarquia e poder. Para agradá-lo, prostram-se diante de sua imagem, entoam hinos de louvor, fazem oferendas, ritos e sacrifícios. Mesmo assim, nem sempre são ouvidos. Por isso, elegem intermediários: anjos, santos e espíritos protetores. Mais próximos do Senhor, eles poderão lhe encaminhar seus preitos. Assim como a gente costuma fazer quando tem um amigo influente nas altas esferas do poder.

Mudando conceitos
Mesmo nos dizendo espíritas, quase sempre nos pegamos pensando em Deus ou estabelecendo nossas relações com ele, a partir desse velho modelo. Entretanto, a questão número 1 de O Livro dos Espíritos, ao definir Deus como “Inteligência suprema, causa primeira de todas as coisas”, nos sugere avançar sobre os conceitos judaico-cristãos para concluir que as coisas não funcionam assim. Que Deus não está exatamente sentado em um trono e não necessitamos de “pistolões” para chegar a ele. Já nos é possível o conceber Deus como a suprema Inteligência, um Pensamento, uma Energia a impregnar o Universo e a nós próprios. Manifesta-se aos homens através de leis naturais, gravadas na consciência da gente. Se observadas, essas leis trazem paz e felicidade. Nossa saúde, o êxito profissional, a harmonia familiar e social, a vida e a morte, o progresso de um povo, tudo é regido por esse conjunto de leis naturais.

Santos laicos
Quando da morte de Betinho, o grande sociólogo brasileiro que concebeu uma ampla campanha para reduzir a fome no Brasil, Carlos Heitor Cony sugeriu, numa crônica, que ele fosse canonizado. Seria o primeiro santo laico brasileiro. Acho que a sugestão do cronista não chegou ao Vaticano que, em tempos de pluralismo e de reformas do Papa Francisco, bem que poderia fazer isso com outras grandes figuras da humanidade, reconhecidamente virtuosas, mesmo não sendo católicas ou religiosas, como Mahatma Gandhi, Albert Shcweitzer, Martin Luther King e Albert Einstein.
Este último, aliás, definiu Deus como sendo “a lei e o legislador do Universo”, um conceito com o qual concorda o espiritismo. Se estivermos errados, com certeza, Deus há de perdoar Einstein e os espíritas também.

 


Nota do Editor:
Este espaço é, normalmente, destinado a artigos inéditos, escritos, quase sempre, por espíritas. Abrimos hoje uma exceção, reproduzindo excelente artigo do jornalista David Coimbra, publicado no jornal Zero Hora, do último dia 18.4 – Sexta-Feira Santa dos cristãos. A exceção se justifica diante dos conceitos plenamente coincidentes com a filosofia espírita acerca de Jesus de Nazaré.

O sal da terra
“Vós sois o sal da terra”, disse Jesus no Sermão da Montanha. “Vós sois a luz do mundo”, enfatizou, e era para os seres humanos que falava. Para nós.

Nós somos o sal da terra.
Mas não vou em frente antes de falar do meu medo. Tenho medo de religiões e ideologias, porque umas e outras são matéria de fé. São dogma. No momento em que você se torna dogmático, você tem um lado e do seu lado está o Bem, enquanto o Mal está do lado de lá. Pessoas mataram e morreram, matam e morrem por causa de religiões e ideologias. Além do mais, aquelas certezas tantas e tão sólidas fazem com que as pessoas deixem de pensar. Não precisa, já está tudo pensado, basta seguir o prescrito e dividir o mundo em dois hemisférios, sem ponderações: aqui estão os certos, lá estão os errados.

Dito isso, que fique claro: não estou falando do Jesus religioso, nesta Sexta-Feira Santa; não estou falando do Jesus cristão. Estou falando de um dos mais revolucionários filósofos morais da História, e da peça central do seu pensamento, que foi aquele Sermão.

A filosofia de Jesus é tão inovadora que nenhuma de suas igrejas compreendeu ou aplicou o seu principal ensinamento. Ninguém entendeu essa passagem:

“Não oponhais resistência ao mau; se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra. E se alguém quiser pleitear contigo para te tirar a túnica dá-lhe também a capa. (...) Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem”.

Olhando assim, você pode achar humilhante tamanha resignação. Mas Jesus não está sugerindo submissão. Ele se põe acima disso. Está dizendo, simplesmente, que não vale a pena. Ou, como já disseram os Beatles, a vida é muito curta para perder tempo com brigas e confusões. Life is very short.

O Sermão da Montanha é surpreendente. O trecho do qual Erico Verissimo colheu o título de um de seus livros “olhai os lírios do campo”, é de rara sabedoria e de construção preciosa. Jesus dizia que o homem não deve se preocupar com acumulação de riquezas. Não deve se preocupar nem com seu sustento: “A cada dia basta o seu cuidado”. Que frase! O que ele queria dizer com isso? O mesmo que falou a respeito de brigas e confusões: que se preocupar não vale a pena. Ou, usando outro clássico dos Beatles, deixe estar. Let it be.

Mas não, não vou fazer uma exegese do Sermão da Montanha a partir dos Beatles. Não seria tão superficial. O Sermão da Montanha é profundo. Algumas nesgas dele você pode levar como regra. Como quando Jesus diz que cada um julga os outros com sua própria medida. Com essa sentença, ele diz o mais importante sobre a alma humana. Diz que o Mal é o que sai da boca do homem. E é.

Não são palavras santas. São palavras sábias. Mas, de todas elas, as que mais me intrigam foram as que citei lá em cima, na abertura do texto. Como o homem pode ser a luz do mundo, se há tanta crueldade, se pais que matam filhos, como se suspeita acerca daquele pai de Três Passos?

Vinha pensando nisso, vinha intrigado com isso toda a semana, até que, na quinta-feira, minha mulher me contou um caso prosaico. Ela é arquiteta. Naquele dia, havia ligado para o eletricista com quem trabalha, um homem muito sério, muito compenetrado. Assim que atendeu, ele se desculpou: não poderia falar, porque seu filho tinha caído na escola, machucara a boca e precisava ser levado ao hospital. E então, antes que ela conseguisse perguntar como estava o menino, aquele homem sisudo começou a chorar.

Ela me relatou essa história por telefone. Eu estava na redação. Desliguei com o coração apertado, pensando naquele pai, no quanto ele deve amar seu filho e em como devia estar sofrendo com o sofrimento do menino. E, ainda na redação, fechei os olhos e roguei em silêncio para que o pequeno estivesse bem, para que em breve os dois estejam de novo sorrindo, e pensei que é por causa de pais como esse, por causa de amores como esse que, sim, vós sois a luz do mundo. Vós sois o sal da terra.
              




Antropólogo faz pesquisa de Doutorado no CCEPA
O antropólogo Gustavo Ruiz Chiesa esteve durante vários dias do mês de abril acompanhando as atividades do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, tendo participado de suas reuniões de estudo, conferências públicas e sessões mediúnicas.
Gustavo (foto) defende tese sobre Ciência, Saúde e Espiritualidade na Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde reside, e, entre outras instituições espíritas de todo o Brasil, nas quais colhe material para seu trabalho acadêmico, escolheu o CCEPA para algumas de suas pesquisas.

Nossa experiência em Salou
O Centro Cultural Espírita de Porto Alegre se fez representar no II Encuentro Espírita Iberoamericano (Salou, Tarragona, Espanha - 1º a 4 de maio), por seu Presidente, Milton Medran Moreira, acompanhado da esposa Sílvia; do Secretário de sua Diretoria Executiva, Rui Paulo Nazário de Oliveira e esposa, Raquel, e também do colaborador da instituição, Moacir Costa de Araújo Lima e esposa, Lúcia Helena (na foto, a delegação de Porto Alegre).
Medran participou do Painel de abertura, juntamente com o Presidente da CEPA, Dante López, e Guillermo Reyes, do Centro Barcelonês de Cultura Espírita. Os três, durante duas horas, responderam perguntas formuladas pelo auditório sobre o tema “O Espiritismo no Século XXI”.
Moacir, juntamente com Medran e David Estany, da Associação Espírita Otus y Neran, de Tárraga, Espanha, participou do Painel “Motores del Espiritismo”, onde desenvolveu o tema “Amor, el Arte de Vivir”. No mesmo painel, Medran abordou “La Ética Espírita en el Siglo XXI”.

CCEPA Opinião – Uma referência
do espiritismo laico e livre-pensador
Diversos expositores do “Encuentro” fizeram referência ao jornal CCEPA Opinião, destacando-se Yolanda Clavijo (de CIMA-Venezuela) que expôs o tema “Vigencia del Pensamiento de Amalia Domingo Soler”. Em sua exposição, Yolanda leu trechos de editoriais do periódico editado pelo CCEPA e destacou a sintonia de sua linha editorial com as ideias de Amalia.  Também a brasileira Jacira Jacinto da Silva (São Paulo, CPDoc), no trabalho “Criminalidad y Derechos Humanos”, fez a leitura de artigo do editor deste jornal, defendendo posições humanistas no campo do direito criminal. Por sua vez, o português José Carlos Miranda Lucas (da ADESP), que, pela primeira vez participou de um evento da CEPA, disse que tomou contato com o pensamento “espírita laico”, lendo matérias aqui publicadas por Milton Medran e Jon Aizpurua. Por fim, Jacques Peccatte (Cercle Spirite Allan Kardec, Paris) recordou ter conhecido a CEPA a partir de um contato com o Diretor deste jornal.
Para o presidente do CCEPA, “o mais importante foi a rica troca de experiências com pensadores espíritas de diferentes regiões do Planeta e a plena sintonia de ideias e propósitos”.

Opinião do Leitor   

O Evangelho Segundo o Espiritismo
Como sempre brilhante o artigo de Milton Medran, agora sobre o Evangelho Segundo o Espiritismo (CCEPA Opinião – abril) "O espiritismo propõe um novo olhar sobre Deus, a vida e o universo,sem, para isso, se valer do mistério e do sobrenatural . Inserimo-nos entre os crescentes segmentos culturais que, hoje, distinguem espiritualidade de religião " .
O texto fala de forma clara e distinta , como dizia Descartes , sobre a nossa posição diante da sociedade e do mundo. Entristece-me quando leio o Reformador e em vários editoriais está escrito Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas felicito-me de caminhar em companhia como a de Medran quando se trata de pensar o espiritismo.
Roberto Rufo -Santos/SP.

O golpe militar de 64
Prezado companheiro de ideal Medran,
Preciso parabenizá-lo quanto ao valor ético do editorial apresentado no Opinião de março a respeito do golpe civil-militar de 64, fundador de anos sombrios para a nossa Pátria. Anos de necrofilia, negação de direitos civis e de legitimação do desamor entre as gentes. Ansiava ver algum periódico espírita se manifestar com a lucidez e serenidade ali registrada.
Na Revista Espírita de abril de 1860, o sr. Allan Kardec teve ensejo de publicar profunda e sintética página do Espírito Abelardo (será aquele intelectual da Idade Média que protagonizou com Eloísa uma bela história de amor negada pelo dogmatismo de antes?) onde encontramos exarado algo bem em sintonia com o editorial escrito. Ali é dito: ”O reino do constrangimento e da opressão acabou; começa o da razão, da liberdade, do amor fraterno. Não é mais pelo medo e pela força que os poderes da Terra adquirirão, de agora em diante, o direito de dirigir os interesses morais, espirituais e físicos dos povos, mas pelo amor à liberdade.”.
Vinícius Lima Lousada – Bento Gonçalves/RS.