quinta-feira, 7 de agosto de 2014

OPINIÃO - ANO XX - Nº 221 - AGOSTO 2014

CCEPA Opinião – 20 anos!
Há exatos 20 anos, era publicada a edição número 1 do jornal do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre.

Fazendo e registrando a história
A princípio, ele se apresentou apenas como Opinião. Depois, marcando sua condição de intérprete do pensamento do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, passou a se identificar como CCEPA Opinião. Decorridos 20 anos, o pequeno mensário editado na capital gaúcha é apontado como o principal veículo do segmento espírita livre-pensador que, no Brasil e Exterior, sem pretensão de trabalhar com “verdades” prontas e acabadas, desenvolve reflexões, estudos e debates, com base nas propostas científicas, filosóficas, éticas e sociais do espiritismo. O labor criterioso desse segmento vem consolidando um movimento de ideias que elegeu como uma de suas metas primordiais a atualização do espiritismo. CCEPA Opinião teve o privilégio de registrar todos os episódios que marcaram as duas décadas em que esse movimento se consolidou, no Brasil. Em janeiro de 1999, passou a encartar em suas edições o boletim Cepa Brasil, substituído por América Espírita desde que o editor de Opinião assumiu a presidência da Confederação Espírita Pan-Americana. Concluídos os dois mandatos de Milton Medran (2000/2008) na presidência da CEPA, seu sucessor, o argentino Dante López, e atuais dirigentes, entenderam de manter o boletim da Confederação encartado neste jornal, que, assim, aqui segue redigido e editado.

Algumas incompreensões e muitos avanços
O nascimento de Opinião coincidiu com importante acontecimento da história do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre. No mesmo ano, atendendo a convite do então presidente da CEPA, Jon Aizpurua, o CCEPA aderia à Confederação Espírita Pan-Americana, organismo internacional que, como este grupo porto-alegrense, guarda perfil progressista, laico e livre-pensador, compatível com as ideias espíritas semeadas por Allan Kardec. A adesão do CCEPA à CEPA determinaria, no ano seguinte, sua suspensão dos quadros da Federação Espírita do Rio Grande do Sul, por ato unilateral da FERGS que alegou não concordar com seu “direcionamento ético e administrativo”. Mesmo suspenso dos quadros federativos, o CCEPA formulou convite à presidência da FERGS para o XVIII Congresso Espírita Pan-Americano que, em outubro de 2000, sob sua organização, a CEPA realizou em Porto Alegre, com o tema “Deve o Espiritismo Atualizar-se?”. A FERGS declinou do convite “por considerar inaceitável o tema proposto” e, em circular às casas federadas, seu então presidente, Nilton Stamm de Andrade, lhes recomendou “não mais cederem espaço em suas tribunas aos expositores vinculados ao Centro Cultural Espírita de Porto Alegre” e “não dar circulação ao boletim Opinião” em razão dos “conceitos revisionistas que ali sistematicamente são divulgados e que desconsideram o caráter religioso do Espiritismo”.
 Apesar da histórica posição assumida pela FERGS, “CCEPA Opinião” tem tido, nestes 20 anos, crescente aceitação em todo o movimento espírita. Também, alguns centros federados nunca deixaram de convidar os integrantes do CCEPA como seus palestrantes. São indícios de que as propostas doutrinárias da entidade, veiculadas em seu órgão oficial, encontram guarida em mentes progressistas, felizmente presentes em todos os segmentos espíritas. O CCEPA e este jornal têm defendido a possibilidade do diálogo e do trabalho conjunto entre os diversos segmentos que têm por base comum os princípios basilares da doutrina espírita. Só o estudo e o debate franco de ideias, numa perspectiva progressista, ausentes a censura e a discriminação, podem contribuir com o avanço das ideias semeadas por Kardec e seu legado de: “trabalho, solidariedade e tolerância”.




Um trabalho coletivo
Há quem pense que faço este jornal sozinho. Não é assim. Sou apenas intérprete das experiências e do pensamento de uma pequena instituição espírita quase octogenária, mas que, irrequieta, não para de se renovar. Sempre que redijo uma notícia ou um editorial, sou tocado por reflexões ali feitas e, especialmente, pela contribuição intelectual dos integrantes do Conselho Editorial: Jones, Salomão, Rui e, mesmo à distância, Néventon. O último, graças à instantaneidade da comunicação, interage conosco, numa comunhão de ideias e projetos.
Quando achávamos ter ficado sós e isolados, face aos episódios que marcaram o início da trajetória deste mensário, descobrimos um rico manancial de ideias progressistas, que regurgitavam em pontos diferentes dos continentes americano e europeu, apontando no rumo de um espiritismo renovado, fundado, sempre, nos alicerces kardecianos. No Brasil, Jaci Regis e o Grupo de Santos haviam sido pioneiros. Depois, a CEPA, e na sua esteira, a CEPABrasil: instituições que com memoráveis congressos, fóruns e encontros, oferecem subsídios às ideias aqui sintetizadas.
A fase atual de minha vida privilegiou-me com um de seus mais inestimáveis recursos: o tempo. A disponibilidade deste, e, ainda, o ânimo e a saúde, têm me permitido priorizar a atividade espírita. Vou a, praticamente, todos os eventos que nosso segmento promove, para, aqui, registrar seus históricos avanços. Assim, e às vezes sem o saber, os companheiros que compõem esse movimento de ideias, tornam-se parceiros do trabalho materializado nas escassas páginas deste jornal. A mim resta apenas dar forma a essa comunhão de pensamento. É um laço, estreitando-se, ano a ano, num grupo que se amplia e fortalece. Conto, além disso, com a inestimável colaboração de Maurice Herbert Jones que, diagramando-o, dá corpo ao CCEPA Opinião, tornando mais acessível seu espírito.
Obrigado, pois, a todos, por termos estado juntos nestes 20 anos! Especialmente aos articulistas e, também, à comunidade de espíritos que, sem a aura de “superiores”, porque tão humanos quanto nós, nos têm, nitidamente, apoiado nessa caminhada. (Milton R. Medran Moreira).
         



Reflexões Pós-Copa
“Duas coisas me enchem a alma de admiração: o céu estrelado sobre mim e a lei moral dentro de mim”. Immanuel Kant.

Passou a Copa do Mundo, sem o registro de qualquer ato de racismo, nos estádios. Foi uma festa de congraçamento entre nações, culturas e etnias. A seleção alemã ofereceu magnífico exemplo de convivência e integração com as culturas indígena e negra, que fazem a riqueza da Bahia. Foi lindo vê-los comemorando o título com dança ensinada pelos pataxós de Santa Cruz Cabrália. A integração germânica com os brasileiros fez com que a maioria de nossa gente torcesse e festejasse com eles a conquista, esquecendo a humilhação daqueles 7 a 1. E não era de esquecer?
Mas, empolgados com a Copa, poucos recordaram a efeméride do dia 2 de julho: o cinquentenário de marcante vitória da comunidade negra estadunidense. Naquele dia, em 1964, Lyndon Johnson sancionava a Lei dos Direitos Civis, proibindo a segregação racial no país. Em alguns Estados, vigoravam, até então, legislações vergonhosas amparando o racismo. Não foi fácil aos negros norte-americanos chegar até ali. Anos antes, em 1955, uma mulher negra, Rosa Parks, em Montgomery, no Alabama, embarcou num ônibus, sentando-se num dos lugares exclusivos para brancos. Isso mesmo: há apenas 50 anos ainda era assim, no Alabama. Os primeiros bancos dos coletivos destinavam-se exclusivamente a brancos. Negros só poderiam sentar-se nos dos fundos.  Rosa foi instada a levantar-se e se negou. Acabou presa por sua rebeldia. Começava ali uma luta que, na década seguinte, daria lugar à histórica lei que fez 50 anos.
Diante de cenas de vandalismo, depredações, por mascarados que protestam, sem que se saiba exatamente contra o quê, ultimamente comuns entre nós, recordem-se figuras como Mahatma Ghandi, Martin Luther King e Rosa Parks. Ativistas da não violência, valeram-se da desobediência civil pacífica para mudar a história, lutando contra a discriminação, as desigualdades e a prepotência dos poderosos, então amparados em leis flagrantemente injustas. Para protestar contra o racismo, Rosa Parks não se escondeu atrás de máscara, nem tomou de armas. Sequer fez passeatas. Limitou-se a ficar sentada.
Boa ótica para medir o avanço ético da humanidade - sistematicamente negado por muitos - é observar o avanço das leis em direção à justiça. É um movimento progressivo que ninguém consegue deter e que, cedo ou tarde, atinge todas as culturas. Quem apregoa o retrocesso moral da humanidade não percebe a presença de uma consciência coletiva de inestimável grandeza a reger a história. Ela está fadada a vencer o pior inimigo do ser humano, e que vive escondido em sua alma: o egoísmoA filosofia espírita identifica a justiça com a lei natural -”a única verdadeira para a felicidade do homem” (L.E.q.614) -, gravada “na consciência” deste e que, por isso, independe de “revelações”(621-a). Allan Kardec chegou a aventar a hipótese de a humanidade reger-se exclusivamente pela lei natural, sem “o concurso das leis humanas” (q.794). Immanuel Kant, falecido no ano em que Rivail nasceu, raciocinara na mesma linha, ao identificar a lei moral presente dentro de si, tão admiravelmente concreta e fascinante quanto o espetáculo natural de um céu estrelado. Crer em Deus e não acreditar na perfectibilidade de sua obra e na justiça de suas leis naturais é incompatível com a verdadeira espiritualidade.
Quem apregoa o retrocesso moral da humanidade não percebe a presença de uma consciência coletiva a reger a história.






Rubem Alves – 1934/2014
O mês de julho de 2014, que acaba de ficar para trás, assinalou a morte de três imortais. Partiram os escritores Ivan Junqueira, João Ubaldo Ribeiro e Ariano Suassuna, todos integrantes da Academia Brasileira de Letras. A literatura brasileira ficou mais pobre com essas perdas.
Mas, para mim, a perda mais sentida do mês foi a de Rubem Alves. Talvez a nenhum escritor da história recente do Brasil coubesse melhor o título de imortal do que a esse mineiro de alma doce e fala mansa, nascido na cidade de Boa Esperança, e que, por 80 anos, passeou pela Terra, tendo, como dizia, “um caso de amor com a vida”. Pediu que, quando morresse, fosse cremado: “as cinzas podem ser soltas ao vento ou colocadas como adubo na raiz de uma árvore. Assim, posso virar nuvem ou flor”. E que ninguém dissesse que ele foi para o céu: “o céu me dá calafrios”, escreveu.

Teólogo e educador inconformado
Teólogo e ex-pastor da Igreja Presbiteriana, após abandonar a religião, Rubem Alves foi por muitos definido como ateu. A quem, apressadamente, assim o classificava escreveu, certa vez: “Muitos pensam que eu não acredito em Deus. Como não acreditar em Deus se há jardins? Um jardim é a face visível de Deus, e essa face me basta”.  Liberto das amarras dos dogmas, afirmou, numa oportunidade: “Para pensar sobre Deus, deixei de ler os teólogos, leio os poetas”. Dizia que Deus nos deu as asas do pensamento para voar, mas os homens inventaram as religiões, gaiolas que nos aprisionam.
Educador, professor emérito da UNICAMP, Rubem Alves abandonou tudo para fundar um restaurante, onde servia a autêntica comida mineira e podia conviver com seus amigos. Disse, numa entrevista: “o mundo acadêmico é um lugar perigoso, onde se torna difícil cultivar o próprio pensamento”. Para ele, escolas deveriam existir não para ensinar respostas, mas perguntas: “Somente as perguntas nos permitem entrar pelo mar desconhecido”.
A alma
Rubem definia a alma como uma borboleta: “Há um instante em que uma voz nos diz que chegou o momento da grande metamorfose”.  Mas, identificava almas muito especiais, como a de seu conterrâneo Nelson Freire, por ele tido como “o maior pianista vivo”. Em memorável documentário que pode ser visto em http://www.youtube.com/watch?v=eBomNDrqn1s ,  Rubem relata um fato marcante na vida de ambos: certo dia, levado por sua mãe, Nelson, que tinha só três anos de idade, foi à casa dele, onde havia um piano, no qual estava aberta uma partitura de música erudita. O garoto sentou-se ao piano e, com dedinhos de feltro, executou aquela peça musical. Rubem, que não tinha respostas prontas, mas perguntas instigantes, questionava: “Donde vem aquela sabedoria sobre piano, de um menino de 3 anos?”. Para ele, almas assim, eram privilegiadas de Deus. Rubens que, em criança alimentara o sonho de ser pianista, lamentava que Deus não o privilegiara com essa aptidão, mas, em compensação, permitiu-lhe fazer música através da poesia.

Imortal
Em carta deixada com um amigo, lida em sua despedida, Rubem Alves escreveu que não tinha medo da morte, embora tivesse medo de morrer, porque “o morrer pode ser doloroso e humilhante”. Indagador que era, formulou, na carta, esta pergunta à morte: “Voltarei para o lugar onde estive sempre antes de nascer, antes do Big Bang?”. E complementou: “Durante esses bilhões de anos, não sofri e não fiquei aflito para que o tempo passasse. Voltarei para lá até nascer de novo”.
Palavras de um verdadeiro imortal.





Ao Opinião, com carinho e gratidão
Homero Ward da Rosa, Presidente da Associação Brasileira
de Delegados e Amigos da CEPA.

“Quando se vê, já se passaram ...”
Vinte anos!

O jornal Opinião, produzido no CCEPA- Centro Cultural Espírita de Porto Alegre está aniversariando, consolidado como um dos principais veículos de divulgação do Espiritismo genuinamente kardecista, livre-pensador, laico, plural e humanista.
 Um veículo de divulgação com as características do jornal Opinião enfrenta muitas dificuldades junto ao movimento espírita brasileiro, predominantemente religioso. Em sua breve trajetória, o jornal já transpôs muitos obstáculos e enfrentou corajosamente opositores poderosos. No momento mais tenso de sua história, foi alvo de censura ideológica. A Federação Espírita do Rio Grande do Sul expediu a circular nº. 66/99, direcionada às casas espíritas federadas, desaconselhando a leitura, assinatura, e mesmo a circulação do jornal entre os espíritas. Pior do que isto, só mesmo a atitude subserviente de alguns centros espíritas que, argumentando obediência à referida orientação, pediram ao CCEPA que não mais lhes enviasse o jornal.
Se por um lado atitudes lamentáveis como essas reafirmavam o sectarismo religioso do movimento espírita naquele momento, por outro lado fortaleceram a certeza de que o Opinião cumpria o seu papel, promovendo uma higiênica reflexão crítica das ideias kardecistas, voltadas ao esclarecimento do Espírito humano para a liberdade responsável. A fé raciocinada espírita é, de fato, inconciliável com o autoritarismo religioso que viceja na submissão fideísta.
A marcha do tempo é transformadora e se lá no início o jornal visava um pequeno público, uma reduzida tiragem, talvez situada regionalmente, hoje o seu conteúdo e o do encarte América Espírita não só conquistaram um razoável número de assinantes, como podem ser lidos em qualquer país do mundo, via Internet.
Quando próximo a completar 20 anos, o jornal passou a denominar-se CCEPA Opinião.  Alcança à maioridade, preservando uma característica marcante: divulgar o Espiritismo como uma obra humana e humanista, que liberta pelo conhecimento, pela consciência da complexa realidade evolutiva do Espírito.     
A CEPABrasil se regozija com a equipe do CCEPA Opinião por esse trabalho meritório,  liderado por Milton Rubens Medran Moreira, atual presidente do CCEPA, editor e colunista do jornal, a quem estendemos as palavras do nosso saudoso poeta Mário Quintana, em O Tempo: “A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa”.

Amigos, muita vida e longo tempo ao CCEPA Opinião!

Ainda sobre os 150 anos do E.S.E
Roberto Rufo – Tecnólogo, Licenciado em Filosofia, Santos/SP.

Ouso me intrometer em tão rico debate sobre os 150 anos de lançamento do livro O Evangelho Segundo o Espiritismo. (*)

Herculano Pires na explicação inicial da tradução feita por ele de O Evangelho Segundo o Espiritismo (LAKE Editora - 52ª edição) assinala claramente que “O Livro dos Espíritos nos apresenta a Filosofia Espírita em sua inteireza, O Livro dos Médiuns a Ciência Espírita em seu desenvolvimento e o Evangelho nos oferece a base e o roteiro da Religião Espírita".
Não me parece surpresa, portanto, que o livro tornou-se referência de um religiosismo exacerbado e infelizmente acabou resumindo em muitos casos o Espiritismo a esse único viés. Basta uma leitura atenta dos periódicos dos "meios oficiais espíritas".
Quanto à questão lógica se seria fruto de uma época ou corolário de uma obra inteira, sempre achei que a terceira parte de O Livro dos Espíritos dava conta plenamente do que poderíamos chamar de moral e ética espíritas, onde Jesus de Nazaré é, inclusive, apresentado como modelo nessas duas áreas.
Caso não existissem outros livros e sobrassem apenas no mundo O Livro dos Espíritos e O Livro dos Médiuns, qualquer leigo ao tomar contato com eles conheceria o que é o Espiritismo.
Lembremos que em 1.863 Kardec sofreu uma intensa campanha da Igreja, o que me parece fundamental para, em 1.864, publicar o Evangelho. Tomou para si uma tarefa de explicar e analisar versículos dos evangelhos canônicos para lhes dar uma contextualização espírita. Seu sucesso no Brasil foi estrondoso, por ser facilmente digerível pela mentalidade religiosa cristã. Tanto que o próprio Herculano Pires defendia como uma das metas do Espiritismo reviver o cristianismo.
Certa ocasião um meu professor de filosofia na Universidade Católica de Santos, padre José Lourenço D'Aragão Araújo, conhecedor de que eu era espírita, disse-me que, no começo da introdução do Espiritismo no Brasil, houve um certo temor da Igreja por parecer tratar-se de uma ideia racional-espiritualista. Quando, no entanto, com o passar dos anos, ao verificar que o Espiritismo nada mais era do que uma religião, passou o temor, pois segundo ele, em termos de religião o catolicismo seria imbatível.
            
Talvez o encadeamento das obras de Kardec possa parecer lógico e necessário, mas penso que a partir do Evangelho, as obras kardequianas  foram uma sequência de respostas a condições de pressões e temperaturas da época (segunda metade do século XIX). A nova ideia incomodava o poder religioso.

Finalizo com uma parte do texto inserido no prefácio de O Evangelho Segundo o Espiritismo, transmitida pelo Espírito da Verdade:
- "As grandes vozes do céu ressoam como o toque da trombeta, e os coros dos anjos se reúnem. Homens, nós vos convidamos ao divino concerto: que vossas mãos tomem a lira, que vossas vozes se unam, e, num hino sagrado, se estendam e vibrem, de um extremo do Universo ao outro". É o cântico da vitória pela meta alcançada da publicação do livro. No O Livro dos Espíritos não se viu tamanho júbilo. Dali em diante o Espiritismo se viu invadido por esse tipo de linguagem.

*Ver edições 218 e 219 deste jornal.





Os termos Espiritismo e Espírita no blog de Herivelto
Herivelto Carvalho
Recente manifestação do intelectual espírita Herivelto Carvalho (Ibatiba/ES), na coluna “Opinião do Leitor” (“Espíritas: Um pequeno contingente”, junho/2014), motivou convite do editor de CCEPA Opinião para que ele produzisse artigo a ser publicado neste jornal. O trabalho enviado por Herivelto, entretanto, com o título de “A Complexidade da Acepção dos Termos Espiritismo e Espírita” excede o espaço destinado à publicação de artigos. Por isso, convidamos os leitores a lerem essa interessante matéria no blog do autor: http://oespiritismoanalisado.blogspot.com.br/2014/07/a-complexidade-da-acepcao-dos-termos_21.html.
Segundo Herivelto Carvalho “há grande dificuldade para se chegar a um consenso sobre uma definição mais precisa do que seja o Espiritismo”, pois, “geralmente as definições são dadas por grupos que já tem estabelecidas suas ideologias, e assim, buscam definir o Espiritismo de forma a adequá-lo às suas próprias convicções. Falta, portanto, uma definição isenta e imparcial, mais centrada nas dimensões histórica e sociológica da cultura espírita. A perspectiva livre-pensadora do Espiritismo pode contribuir para a ampliação de uma pesquisa nessa área, pois evitando o aparecimento de dogmas de qualquer natureza, pode estabelecer, sem obstáculos, o desenvolvimento de uma análise mais nítida de sua natureza e fundamentação”.

“Amo, logo existo” – Tema de Semana Espírita
Com o sugestivo tema “Amo, logo existo! O desafio do amor no mudo contemporâneo”, a S.E. Amor e Caridade, de Osório/RS, realiza, de 20 a 25 de outubro próximo, sua XV Semana Espírita.

Quatro conferencistas convidados, tratarão do amor, sob diferentes ângulos:
Moacir Costa de Araújo Lima: “Amor, a Arte de Viver” (20/10, às 20h);
Milton R. Medran Moreira: “A Filosofia Espírita e o Amor” (22/10, às 20h);
Diógenes Camargo: “Fronteiras entre Amor e Ódio” (23/10, às 20h);
Luiz Carlos May Jr. : “Os Desafios do Amor na Vida Familiar” (25/10, às 15h).

Jerri Ameida
O presidente da Sociedade Espírita Amor e Caridade, de Osório, Jerri Almeida, organizador da XV Semana Espírita, será um dos expositores do VI Fórum do Livre-Pensar Espírita, que acontece de 5 a 7 de Setembro, no Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, onde abordará o tema: O Espiritismo e o Mundo Líquido Moderno.





O Echo d’Alêm Tumulo – 145 anos
Prezado Milton, lendo interessante matéria no Opinião no. 220, de julho de 2014, intitulada: "'O Écho de'Além-Túmulo' - 145 anos.", no que tange ao importante comentário de Kardec, somente desejo ponderar que o referido texto encontra-se na Revista Espírita de "Novembro" de 1869 e não na de junho conforme consta na matéria. 
Abraços!
Jerri  Almeida – Osório/RS. - www.jerrialmeida.blogspot.com.br/

Nota do editor: Agradecemos a colaboração de Jerri Almeida. Registramos, entretanto, que a coleção da “Revista Espírita” publicada no Brasil pela Edicel,  abrangeu, as edições dos meses de janeiro a junho de 1869, como sendo “Os escritos finais de Kardec” (pags. 1 e 2). É na edição de junho que consta a notícia do aparecimento do “Eco”, embora reproduzida ali como tendo sido publicada “no número de outubro de 1869” (pag. 199).

A Reencarnação e os grandes pensadores
Maravilhoso o texto em Opinião em Tópicos de julho (CCEPA Opinião n.220). Grandes pensadores só fortificam minha fé na reencarnação. Muita luz!
Bethania Amaral Emmerich – Cariacica/ES.


quinta-feira, 10 de julho de 2014

OPINIÃO - ANO XX - Nº 220 - JULHO 2014

O aniversário de uma imprensa não tão espírita

“O Écho d’Alêm-Tumulo”-145 anos
Há 145 anos, em julho de 1869, saía a edição número um do periódico que passou à História como o primeiro jornal espírita do Brasil. “O Eco”, entretanto, tinha como expresso propósito resgatar o cristianismo primitivo dentro da estrutura da Igreja Católica. Era essa leitura que Olympio Telles de Menezes e outros intelectuais brasileiros da época faziam do espiritismo.

Um espiritismo de “dóceis católicos”
A história da imprensa espírita e do próprio espiritismo no Brasil está intimamente ligada à vida do intelectual baiano Luis Olympio Telles de Menezes, jornalista, professor de latim e francês, em Salvador, autor do opúsculo “Filosofia Espiritualista” (1866) e fundador do primeiro centro espírita brasileiro, o Grupo Familiar de Espiritismo (1865). Católico fervoroso, Telles de Menezes, impressionou-se com a leitura das obras de Allan Kardec. Lendo-as no original francês, vislumbrou nelas o futuro do próprio catolicismo, então religião oficial do Império.
A Igreja, entretanto, receberia as ideias ali divulgadas como “um golpe” à religião. O livro “Os Intelectuais e o Espiritismo”, de Ubiratan Machado (Publicações Lachâtre) registra “a resposta ácida e imediata” da Igreja Católica à ação de Telles de Menezes. Em uma Pastoral, Dom Manuel Joaquim Silveira, bispo de Salvador, tratou de orientar os católicos acerca das “perniciosas doutrinas” e das “superstições perigosas e reprovadas” que ameaçavam “a salvação” de seus “amados filhos”. Mas, a reação da Igreja não abateu o jornalista baiano que, em carta dirigida ao bispo, ratificaria sua “fé católica” e sua “obediência” ao prelado, como “humilde ovelha de seu rebanho”. Entretanto, dizia, sua fé lhe impunha “o sagrado dever de patentear a razão” de sua adesão à “salutar e evangélica doutrina do espiritismo”.
Registrando o episódio, o autor de “Os Intelectuais e o Espiritismo”, consigna: “Os espíritas brasileiros continuavam dóceis católicos, apenas discordando de alguns dogmas, Faltava coragem para abandonar o regaço da mãe Igreja”.

O surgimento de “O Eco de Além-Túmulo”
Foi com o mesmo espírito expresso na carta ao bispo que o jornalista baiano, acompanhado de outros intelectuais da época, todos de origem e tradição católicas, publicou o primeiro jornal “espírita” brasileiro. Na edição inaugural, o articulista Ignacio José da Cunha, membro do Grupo, reportava-se a comunicações mediúnicas de um espírito que jurara “pelo sagrado nome de Maria Santíssima, e por Deus Todo Poderoso” ser efetivamente o “Anjo de Deus”. No mesmo artigo, Cunha assegurava que, segundo as comunicações recebidas, “a religião católica é a verdadeira religião de Deus” e que “o espiritismo faz com que todos se cheguem à religião católica”.
O jornal dirigido por Telles de Menezes ocupava-se destacadamente com assuntos relativos à mediunidade e à reencarnação, identificando esta com o dogma da “ressurreição da carne”, mas, em vários trechos ratificava dogmas católicos como os da Santíssima Trindade e da divindade de Jesus.

A opinião de Kardec
Na “Revista Espírita” de junho de 1869, Allan Kardec saudou o aparecimento de “O Eco de Além Túmulo”, elogiando a “grande coragem” de Olympio Telles de Menezes, ao lançar “num país refratário como o Brasil um órgão destinado a popularizar nossos ensinamentos”. Mas, acrescentava Rivail: “Para nós, o Espiritismo não deve tender para nenhuma forma religiosa determinada”, devendo “permanecer como uma filosofia tolerante e progressiva, abrindo seus braços a todos os deserdados, qualquer que seja a nacionalidade e a crença a que pertençam”.

Para conhecer melhor: As edições de “O Echo d’ Alêm Tumulo”, publicadas bimestralmente nos anos de 1869 e 1870, estão digitalizadas e disponibilizadas no site da hemeroteca da Biblioteca Nacional do Brasil:






O Regaço Materno
A ninguém é fácil deixar o regaço materno. Para Luis Olympio e seus companheiros, em pleno Século XIX, em um país onde a “mãe Igreja” detinha a condição de religião oficial, haveria de ser muito mais difícil. Allan Kardec reconheceu isso e até elogiou a coragem do jornalista baiano, convencido de sua necessidade de “contornar certas suscetibilidades”. (R.E.junho/69). Mesmo assim, não compactuou com o perfil religioso, no caso católico, que era imprimido ao nascente espiritismo brasileiro, e preferiu ratificar seu caráter filosófico, universal e progressista.
Decorridos 145 anos, no entanto, parece oportuno recordar memorável lição de outro cristão, verdadeiro fundador, aliás, do movimento que se constituiria na maior religião do Ocidente. Paulo de Tarso, em epístola aos coríntios, comparou os primeiros ensinamentos espirituais que a eles levara com o leite materno dispensado a crianças ainda inaptas a ingerir alimentos sólidos. Concitava, assim, os destinatários de sua carta a se tornarem adultos capazes de receber as novas verdades que lhes pretendia agregar.
Lastimavelmente, amplos setores da imprensa e do próprio movimento espírita comportam-se e induzem seus seguidores a pensar e agir e, também, a interpretar as leis da vida, como se na infância espiritual permanecessem. Na abordagem dos grandes temas doutrinários, na linguagem empregada, ou guardando postura de distanciamento das questões de nosso tempo, demonstram disposição de permanecer estacionados em patamares culturalmente superados. Desprezam, dessa forma, a essencial condição progressiva e progressista do espiritismo, sem a qual, segundo Kardec, ele se condenaria ao próprio suicídio.
Seria injusto dizer que não avançamos relativamente a algumas abordagens infantilmente primárias do assim chamado primeiro jornal espírita brasileiro. Mas, o espiritismo exige mais de nós. Convida a deixarmos o regaço materno e renascermos para um novo mundo de ideias e seus consequentes desafios. Em outras palavras: é tempo de dispensar o doce leite da religião e alimentarmos o espírito com a sólida realidade da vida, que exige profundidade de pensamento e concretude de ação em favor do progresso científico, intelectual e ético da humanidade. O espiritismo, parece-nos, é ferramenta poderosa, apta a contribuir com esse objetivo. (A Redação).
         




Um encontro nos jardins do Vaticano
“É preciso coragem para dizer sim ao encontro e não ao confronto”. Papa Francisco

Um dado histórico instigante: as guerras religiosas, as perseguições por motivo de crença, o fundamentalismo e a intolerância religiosa são fenômenos bem mais comuns nas religiões monoteístas que naquelas de matriz politeísta.
A História, da Antiguidade à Modernidade e desta à contemporaneidade, está pontilhada de conflitos entre judeus e cristãos, cristãos e muçulmanos, muçulmanos e judeus e, mesmo, entre diferentes vertentes dessas mesmas crenças, como, por exemplo, católicos e protestantes, xiitas e sunitas. Judaísmo, cristianismo e islamismo se constituem nas três grandes religiões monoteístas do Planeta. A divindade que cultuam têm características comuns: é um deus pessoal, voluntarioso, que privilegia a fé sobre todas as demais virtudes. Seguros de a terem recebido como revelação, cada um desses três grupos religiosos se entende detentor da verdade. A gênese do direito e dos costumes desses povos parte de algumas “verdades” fundamentais que, por serem de “origem divina”, deverão reger suas relações internas e externas. A partir daí, organizaram-se comunidades, povos e nações que, diante da suposta posse da “verdade eterna”, tendem a menosprezar as demais, dando lugar à discriminação, ao ódio racial e religioso, aos conflitos e às guerras, que se estendem, às vezes, por séculos.
A modernidade laica e secular, com toda a razão, diante das características acima resumidas, vislumbrou nas religiões monoteístas um significativo fator de intolerância.
O atual chefe da Igreja Católica, um humanista, parece também ter percebido isso e está envidando esforços no sentido de estender pontes de diálogo entre as três grandes religiões monoteístas e os povos que as cultivam. Notadamente, busca aliviar a tensão política entre dois povos que, há décadas, sustentam graves conflitos com origens ligadas a questões raciais e religiosas: israelenses e palestinos.
Após visita à Palestina, no mês último, Francisco reuniu nos jardins do Vaticano, dia 8 de junho, os presidentes da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, e de Israel, Shimon Peres, convidando-os a orar juntos em favor da paz. Foi um ato carregado de simbolismo e de ideias generosas, perceptíveis no semblante dos quatro líderes mundiais participantes, eis que presente, ainda, o patriarca de Constantinopla, Bartolomeu I, da Igreja Cristã Ortodoxa.
O acontecimento tem profundo significado político, plenamente sintonizado com os ideais modernos em favor da paz, do igual respeito a todas as culturas e etnias e de cooperação entre todos os povos. Mais do que isso, entretanto, a humanidade espera daqueles que governam as nações onde persistam conflitos com essas conotações históricas: que suas eventuais crenças e tradições religiosas não sejam, jamais, empecilhos ao pleno exercício dos direitos fundamentais do ser humano, independentemente de credo, ideologia ou etnia.
É possível que o processo para se atingir esse estágio político, tanto no âmbito interno das nações, como no das relações internacionais, passe pela necessidade de se repensar conceitos teológicos arraigados em algumas culturas de tradição monoteísta. Fez bem o Papa em promover esse encontro nos jardins do Vaticano, ambiente neutro, laico, embora situado nos domínios da Santa Sé. É tempo de crentes, politeístas ou monoteístas, compreenderem que valores como dignidade humana, fraternidade, respeito ao pensamento alheio, alteridade, autonomia das pessoas e autodeterminação dos povos, não são inerentes a uma crença ou produtos de revelações divinas exclusivistas. São expressões da lei natural, paulatinamente assimilável e exercitável pelo espírito em sua caminhada evolutiva.
Nós, espíritas, defendemos ser a lei natural compatível com uma visão não pessoal ou antropomórfica de divindade, harmônica com a razão, fagulha emanada de uma Inteligência Suprema, causa primária de todas as coisas, que ilumina, igualmente, infinidade de inteligências, cooperadoras e ativas, que povoam o Universo. Essa concepção, espiritualista, racionalista e plural, conduz aos mesmos valores civilizatórios da sociedade moderna, secular e laica. Leva, especialmente, à convicção de que a Humanidade é constituída de uma única família e de que somos todos irmãos, independentemente de raças, credos e culturas.


         



A dúvida de Agostinho
Religião é certeza. Filosofia é dúvida. Fico, às vezes, a pensar na angústia de um Santo Agostinho, tão devotado à fé e, ao mesmo tempo, tão envolvido pela reflexão filosófica. Cristão convertido, devia obediência a Paulo que pregava a certeza de uma vida única, depois da qual viria o juízo. Mas, platônico, e conhecedor das ideias sobre a preexistência da alma, legadas por Orígenes, Plotino e outros neoplatônicos, “Padres da Igreja”, o bispo de Hipona, em suas “Confissões”, rogava a Deus: “Dizei se minha infância sucedeu a outra idade já morta, ou se tal idade foi a que levei no seio de minha mãe?”. E, angustiado, insistia: “E antes desse tempo, que era eu, meu Deus? Existi, porventura, em qualquer parte, ou era por acaso alguém?”.
Era o conflito entre a prisão da fé e os apelos libertários da filosofia.

A rebeldia de Bruno
Imagine-se um frade da ordem dos dominicanos, congregação religiosa que exige de seus membros, além dos votos de pobreza e de castidade, o da obediência. Era o Século XVI, e a Igreja vivia o período da Contrarreforma, buscando manter, a qualquer custo, seu poder sobre a sociedade europeia. Que chance poderia ter Giordano Bruno, conservando-se cristão, de sustentar coisas como pluralidade de mundos habitados e pluralidade de existências corporais do espírito? Mesmo abandonando o hábito, para se tornar, primeiramente, calvinista e, finalmente, livre-pensador, foi perseguido e processado pelo tribunal da Inquisição. Eram graves demais suas “heresias”, e, entre elas, particularmente perniciosa aquela que apregoava a “transmigração das almas”. O ex-frade, então excomungado, sustentou firmemente suas ideias, até ser calado pela infame execução, na fogueira, em praça pública, no “Campo dei Fiori”, em Roma, naquele 17 de fevereiro de 1600.

A certeza de Ford
Homem prático, inteligente, empreendedor, Henry Ford se tornaria um dos sujeitos mais ricos do mundo, desde que construiu seu primeiro automóvel. Mesmo com poder e dinheiro, segundo revelou, em 1929, em entrevista a um jornal americano, sentia-se, desde jovem, “aturdido”, diante de perguntas que fazia a si próprio, do tipo: “Para que estamos aqui?”. Sem resposta a essa indagação “a vida era vazia, inútil”. Foi quando, com a leitura de livro ofertado por um amigo, teve contato com as ideias reencanacionistas: “Isto mudou toda a minha vida”, declarou, que passou “do vazio e da inutilidade para uma existência de propósito e significação”. E acrescentou o grande industrial estadunidense: “Acredito que estamos aqui, e agora, e tornaremos a voltar. Disso eu tenho certeza”.

A coragem de Stevenson
Da Antiguidade aos dias de hoje, escritores, homens de ciência, poetas e filósofos aceitam a tese da existência do espírito e sua evolução através das vidas sucessivas. Hoje, não são poucos os intelectuais com essa íntima convicção. Mas, se veem frente a um impasse: a ciência acadêmica adotou paradigma materialista, reducionista. Ideias como imortalidade do espírito e reencarnação foram empurradas para o domínio da crença. Um professor universitário, um cientista, pode ter a fé que desejar. Mas, para estar inserido no “status quo” vigente, não deve “misturar” a “crença” com seu magistério ou atuação científica.  Por sorte, há exceções. O psiquiatra Ian Stevenson (1917/2007), professor da Universidade de Virginia, defendeu a hipótese da reencarnação e pesquisou faticamente sua ocorrência, deixando bem documentados os resultados na obra “Vinte Casos Sugestivos de Reencarnação”. Entretanto, esta frase dita por ele permite avaliar a coragem que precisou ter para realizar seu trabalho: “Se os hereges pudessem ser queimados vivos, nos dias de hoje, os cientistas – sucessores dos teólogos que queimavam qualquer um que negasse a existência das almas, no Séc.XVI – hoje queimariam aqueles que afirmam que elas existem”.





O suposto plágio de Allan Kardec
Eugenio Lara, arquiteto e designer gráfico; Membro-fundador do Centro de Pesquisa e Documentação Espírita, editor-fundador do site PENSE – Pensamento Social Espírita. E-mail: eugenlara@hotmail.com/ .

Durante o processo de desenvolvimento do Espiritismo, o pedagogo francês Denizard Rivail percebeu a necessidade de lançar mão de novas palavras, seja a partir das informações dos espíritos ou de seu conhecimento do grego e latim, línguas-mãe que dão origem a quase todas as palavras latinas. Criou uma nova terminologia, as palavras espiritismo, espírita e espiritista para designar o novo conjunto de ideias que havia estruturado em parceria com os espíritos.
No entanto, desde 1853, tais palavras já existiam no inglês, empregadas no francês com o lançamento de O Livro dos Espíritos (1857). Obviamente que para os inimigos do Espiritismo, velados, enrustidos ou declarados, este seria mais um motivo para espinafrar e desqualificar Denizard Rivail e todo seu legado. Ora, se já existia a palavra, então foi plágio, foi cópia descarada. Rivail seria um intelectual desonesto por conta deste fato e outras acusações mais, dando suposta razão a desertores e dissidentes precipitados, imprudentes e levianos.
Rivail era poliglota e conhecia o inglês. Lembremos que ele foi amigo íntimo da jornalista e tradutora inglesa Anna Blackwell, que foi correspondente da Revista Espírita, na Inglaterra. Não sabemos o grau de fluência que ele possuía desse idioma e menos ainda se teve acesso às obras inglesas contendo as “palavras novas”, os “neologismos” espírita e espiritismo no início de suas pesquisas.
Podemos observar a incidência do termo spiritism no livro raro Spirit Rapping Unveiled! escrito em 1853 pelo norte-americano Rev. Hiram Mattison (1811-1868). Há também a obra de Leonard Marsh (1800-1870), Apocatastasis, or Progress Backwards, editada em Burlington, por Chauncey Goodrich e o livro The Spirit-Rapper: an Autobiography (Boston, Little, Brown & Company, 1854), de Orestes Augustus Brownson (1803-1876). Spiritism era um termo comumente usado de modo pejorativo entre os espiritualistas, adeptos do New Spiritualism.
Certamente, Rivail não teve acesso a esses livros, ao menos na época em que lançou O Livro dos Espíritos. Isto porque a obra de Orestes Augustus Brownson é citada no opúsculo Catálogo Racional das Obras para se Fundar uma Biblioteca Espírita (1869). Temos de considerar que o contexto histórico era bem outro. Hoje, com a internet e as redes sociais, as informações fluem e não há mais desculpa a não ser a ignorância e preguiça em acessa-las. Isso não era possível na época.
Quando faz referência aos neologismos espiritismo, espírita e espiritista, Rivail deixa claro que foram criados por ele, devido à necessidade de dar uma identidade toda própria à filosofia espírita em seu nascedouro, a fim de não confundir com o Spiritualism norte-americano e inglês.
Na introdução de O Livro dos Espíritos, Rivail tece esclarecimentos sobre o tema:
“Em lugar das palavras espiritual e espiritualismo empregaremos, para designar esta última crença, as palavras espírita e espiritismo, nas quais a forma lembra a origem e o sentido radical e que por isso mesmo tem a vantagem de ser perfeitamente inteligíveis, deixando para espiritualismo a sua significação própria.” (item I, trad. Herculano Pires, LAKE).
Se Rivail criou ou não esses neologismos, tal dúvida se desfaz na leitura de uma pequena nota de rodapé escrita por ele em O Livro dos Médiuns, a respeito da terminologia utilizada nesta obra:
“Vemos que, quando se trata de exprimir uma ideia nova, para qual a língua não possui termo, os Espíritos sabem perfeitamente criar neologismos. Estas palavras: eletro-medianímico, perispirítico, não são nossas. Aqueles que nos criticaram por havermos criado as palavras espírita, espiritismo, perispírito, que não tinham termos análogos, poderão agora fazer a mesma crítica aos Espíritos.” (cap. V, item 98, trad. Herculano Pires, LAKE).
Para ideias novas, palavras novas foi o princípio, hoje semiótico, que Rivail adotou para criar a terminologia espírita, condição sine qua non à existência de qualquer ciência, por mais pretensiosa que seja.
Sem dúvida, foi uma sacada genial a criação de neologismos, principalmente os que definem e identificam a Doutrina Espírita. Desde seu início, por conta deste fato, o Espiritismo surge em meio a todo aquele movimento espiritualista e esotérico, com identidade própria, com suas especificidades, notadamente pelo fato de aderir à reencarnação, rejeitada por espiritualistas ingleses e norte-americanos. Se as palavras que criou tinham inicialmente no inglês sentido pejorativo, na medida em que o Espiritismo foi mostrando à sociedade suas finalidades e objetivos sérios, os termos ganharam outra conotação, outro significado.
Diante daquele conjunto de ideias que estruturou, faltava um nome e uma conceituação. E isso Rivail o fez como observamos nestas palavras: “Como especialidade o Livro dos Espíritos contém a Doutrina Espírita; como generalidade liga-se ao Espiritualismo, do qual representa uma das fases. Essa a razão porque traz sobre o título as palavras: Filosofia Espiritualista.” (O Livro dos Espíritos, introdução).
De certa forma, dar o nome a alguma coisa é quase o mesmo que inventar, criar ou fundar essa mesma coisa. A significação e o sentido conceitual que Kardec atribuiu às novas palavras reafirmam o fato de que foi ele quem fundou o Espiritismo, portanto, coube-lhe a responsabilidade e o mérito de organizar o conjunto terminológico adequado à nova ciência.
Se as palavras espírita, espiritismo já existiam, mesmo que em outro idioma, isso não tem a menor importância epistemológica diante do contexto histórico bastante diferenciado. Afinal, até 1857, o Espiritismo não existia e passou, desde então, a ter o status de uma nova filosofia espiritualista. E os termos usados no inglês não correspondem conceitualmente às designações futuramente criadas pelo fundador do Espiritismo.
Pode-se dizer que, sem o saber, Rivail se apropriou de termos existentes, imaginando tê-los criado, sem que houvesse aí algum tipo de desonestidade, de leviandade intelectual ou simplesmente plágio. Historicamente falando, as palavras espírita, espiritismo tornaram-se propriedade do Espiritismo, são o seu trademark, ficaram registradas para a posteridade com novas significações e acepções. Quando são pensadas, citadas e proferidas, tais palavras estão associadas historicamente a Denizard Rivail, sob o pseudônimo de Allan Kardec. Quem é que irá lembrar dos autores ingleses citados no início deste artigo? Quem os conhece? Quem são eles? Tiveram o mérito de usar a palavra spiritism pela primeira vez, mas sem seu significado vindouro, específico e bem definido que foi por Rivail. Foi ele quem fez a diferença e delimitou campos de conhecimento a partir dessas palavras. Se já existiam, isso não faz a menor diferença.





Signates e a Ciência da Religião
Um dos mais qualificados intelectuais espíritas brasileiros, Luiz Signates(foto) (Goiânia/GO), doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo, com pós-doutorado em epistemologia da comunicação, pela Unisinos, está iniciando importante atividade na Pontifícia Universidade Católica de Goiás. A partir do segundo semestre letivo deste ano de 2014, Signates passa a ser docente efetivo do Programa de Pós-Graduação (Mestrado e Doutorado) em Ciências da Religião daquela universidade.
Segundo informou a este jornal, o Prof. Signates vai se integrar à linha de pesquisas em “Cultura e Sistemas Simbólicos” daquele programa, onde se dedicará a estudos do espiritualismo brasileiro, em suas diferentes formas, “inclusive as suas formas laicas e de pretensão científica”. Acrescentou Signates: “Em meus últimos trabalhos, apresentados aos eventos desse programa, com o qual venho me relacionando nos últimos quatro anos, tenho citado a CEPA como um aspecto do espiritismo que merece uma atenção específica, por suas características antropológicas”. Ele entrevê nessa oportunidade profissional “também a possibilidade de contribuir, com apoio institucional, à consolidação de uma tradição de pesquisas sobre a temática espírita/espiritualista, em suas diferentes modalidades, tanto pela interlocução que possamos passar a ter, quanto pela formação, em níveis de mestrado e doutorado, de docentes e pesquisadores nessa área”.

Estudo Analítico de “O Livro dos Espíritos”
Sempre com boa frequência, segue se desenvolvendo, às sextas-feiras, a partir das 3 horas da tarde, no Centro Cultural Espírita de Porto Alegre (Rua Botafogo, 678), o chamado estudo analítico de O Livro dos Espíritos. A iniciativa e coordenação é do diretor do Departamento Doutrinário do CCEPA, Salomão Jacob Benchaya. O grupo, que conta com a participação de Maurice Herbert Jones, como provocador dos temas em debate, pode ser visitado, livremente, e sem compromisso de frequência, por todos os interessados, espíritas ou não.






A Consciência de um novo tempo
Estimados companheiros do CCEPA:
Em primeiro lugar parabenizo-os pela qualidade do Jornal Opinião e suas relevantes matérias, cujos conteúdos fazem a diferença no movimento espírita brasileiro e, quiçá, mundial, já que representam, literalmente, um movimento e refletem uma dinâmica progressista, em contraposição ao tradicional e estagnado modelo da esmagadora maioria das instituições espíritas brasileiras.
A propósito, confesso que muito refleti sobre a frase final de “Nossa Opinião”: “... porque afinado com a consciência de um novo tempo.” (edição n.219, de junho). Ficou martelando em minha mente a pergunta: o que seria a “consciência de um novo tempo”? Não tenho a resposta, mas sim a convicção sobre a pertinência do tema “O Espiritismo e os Desafios do Século XXI” para o VI Fórum do Livre-Pensar Espírita, em que tal consciência poderá ser intensamente debatida.
Grande abraço.

Néventon Vargas - João Pessoa-PB.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

OPINIÃO - ANO XX - Nº 219 - JUNHO 2014

Temas de vanguarda

O Espiritismo do Século XXI
A abordagem de temas como meio ambiente, sexualidade, justiça social, ética e ideologias, no II Encontro Espírita Ibero-Americano, realizado na Espanha, pode estar sinalizando para um novo período a ser vivido pelo espiritismo internacional: a melhor integração com outros movimentos mundiais voltados ao humanismo e ao progresso ético, político e social da humanidade.

O (bom) exemplo de Salou
Os segmentos mais progressistas do movimento espírita da Europa e das Américas, embora minoritários relativamente ao tradicional movimento religioso, revelam a tendência de se inaugurar um novo período na abordagem de temáticas em eventos espíritas. No II Encontro Espírita Ibero-Americano, que aconteceu na cidade de Salou, Tarragona, Espanha, no início de maio último, painéis como “Espiritismo e Sociedade”, “Espiritismo e Problemática Social” e “Espiritismo e Consciência” abriram espaço para temas de palpitante atualidade, vistos a partir de fundamentos espíritas. No primeiro desses painéis, Gustavo Molfino (Rafaela, Argentina) abordou “Responsabilidade social e ambiental do espírito na sociedade atual”; Mauro de Mesquita Spínola (São Paulo, Brasil) enfocou “O espiritismo combate as injustiças sociais”; e Jacques Peccatte (Paris, França) falou sobre “O papel do espiritismo moderno em nossas sociedades”.
No painel “Espiritismo e Problemática Social”, desfilaram temas como: “Sexualidade e Espiritismo” (Alcione Moreno – São Paulo/Brasil); “Criminalidade e Direitos Humanos” (Jacira Jacinto da Silva – São Paulo/Brasil) e “A essência da mensagem do espiritismo como resposta aos desafios atuais do ser humano” (Oscar Garcia – La Palma, Espanha).
A partir do tema “Espiritismo e Consciência”, Maria Cristina Zaina (Curitiba/Brasil) abordou conceitos modernos distinguindo “Pecado e Erro”. No mesmo painel, Mauro Barreto (La Palma, Espanha) enfocou “Espiritualidade e Consciência” e Nieves Granero (Valencia/Espanha) fez atualizada reflexão sobre “Ser Consciente”. Já o painel “Motores do Espiritismo” oportunizou que se discutissem temas como amor, ética e ideologias, a partir dos vetores do pensamento contemporâneo. Assim, Moacir Araújo Lima (Porto Alegre/Brasil) abordou “Amor, a arte de viver”; Milton Medran Moreira (Porto Alegre/Brasil) enfocou “A ética espírita no Século XXI” e David Estany (Tárrega/Espanha): “A crise do materialismo”.
O papel do centro espírita no mundo moderno foi tema do painel “Inserção Social do Espiritismo”, onde José Carlos Miranda Lucas (Óbidos, Portugal) tratou do “Centro Espírita no Século XXI”; José Arroyo (Porto Rico) reportou-se a históricas inserções espíritas em temas políticos e sociais de seu país e o engajamento atual na campanha contra a implantação da pena de morte; e Victor da Silva (Caracas/Venezuela) abordou “O grande objetivo do espiritismo”, a partir de uma visão laica e livre-pensadora.
O próprio enfoque de temas clássicos, como a mediunidade, mereceu, em Salou, uma abordagem voltada ao desafio das mudanças: Dante López (Rafaela, Argentina) falou sobe “Os desafios da mediunidade frente ao Século XXI”; Gláucia Lima (Lisboa, Portugal) tratou de aspectos psiquiátricos relacionados à mediunidade, em “Mediunidade: caminho ou transtorno?”; e Leonor Leal (Alcoçaba, Portugal) trouxe “Provas científicas da fluidoterapia”.

Homenagens e Caminhada pela Paz
Três figuras importantes do espiritismo latino-americano e espanhol que, em seu respectivo tempo, contribuíram para a atualização doutrinária e a inserção do espiritismo na cultura foram recordadas: Jaci Régis, teve sua vida e obra exposta por Alexandre Cardia Machado (Santos/Brasil); Josep Casanovas Llardent, fundador do Centro Barcelonês de Cultura Espírita, recebeu a homenagem de David Santamaría; e Amalia Domingo Soler foi recordada por Yolanda Clavijo (Caracas, Venezuela), que sustentou a plena vigência do pensamento da grande dama do espiritismo espanhol.  
Ao final do Encontro, os participantes fizeram uma Caminhada pela Paz que se estendeu pela linda orla marítima da cidade mediterrânea da Catalunha. 

   




Um Novo Tempo
Muitos dos temas apresentados no II Encontro Espírita Ibero-Americano já o haviam sido no XXI Congresso Espírita Pan-Americano, de Santos, em 2012. Reprisá-los ou ampliá-los no cenário espírita europeu é indicativo de que há, lá e aqui, segmentos interessados em dar um passo a frente na abordagem da teoria espírita e suas consequências.
No artigo “Período de Luta” (Revista Espírita, dezembro/1863), Allan Kardec prognosticava que, após um período religioso, seguido de uma fase intermediária, as ideias espíritas tenderiam a ganhar o mundo, propiciando o que denominou “Período de Regeneração”.  
Para o fundador do espiritismo, esse processo haveria de ser mais rápido e seria alcançado já nos primórdios do Século XX, por conta do avanço da compreensão mundial acerca da proposta espírita. Percalços como duas grandes guerras mundiais, o incremento de regimes de força, o consequente sufocamento de liberdades individuais, fizeram dessa caminhada algo bem mais lento. O próprio espiritismo, na sua feição mais conhecida, resignou-se em se apresentar ao mundo apenas como uma nova religião, estratégia que já não faz sentido, num mundo pluralista, laico e livre-pensador.
Mais do que se desejar a expansão do espiritismo como uma doutrina religiosa ou moral regeneradora da humanidade, quase messiânica, a melhor estratégia, neste momento, parece ser a de harmonizar suas propostas com as tantas tendências progressistas de um mundo em transformação.
Cabe demonstrar a quem de nós se aproxima que estamos de acordo com os grandes movimentos em favor da paz, da democracia, das liberdades, do avanço das ciências, do pluralismo e, enfim, da felicidade humana. E que nossos fundamentos filosóficos, todos eles, dão suporte racional a esses objetivos. Parece ser esta, hoje, a melhor estratégia, felizmente bem compreendida por um segmento espírita, ainda pequeno, mas com enorme potencial de expansão, porque afinado com a consciência de um novo tempo. (A Redação).
                    
         



E por falar em lógica
“Todas as escrituras sagradas(...) ‘encerram os germens de grandes verdades’. Nos livros do Cristianismo, que incluem os livros fundamentais do Judaísmo, esses germens aparecem de maneira mais acessível a nós, por se dirigirem especialmente ao nosso tempo, através do processo histórico da evolução cristã”.  (J.Herculano Pires, em “O Espírito e o Tempo”) ]

Com o título de “A interpretação que excede a lógica”, o artigo de WGarcia, em “Enfoque” – pag.4 -, tece algumas críticas ao texto “Contextualizar é preciso”, de nossa edição de maio, mês do 150º aniversário do livro “O Evangelho Segundo o Espiritismo”.
Como é da política deste mensário, acolhemos e, na medida em que o permita seu exíguo espaço, publicamos opiniões divergentes das nossas, desde que bem fundamentadas e capazes de contribuir com o debate espírita, características sempre presentes nos textos do ilustre subscritor do aludido artigo.
Permitimo-nos, entretanto, convidá-lo, e a nossos demais leitores, para uma releitura daquele pequeno editorial, não para que se concorde ou se deixe de concordar com ele, mas apenas com a pretensão de refutar a crítica central a ele lançada: a de ausência de lógica.
Não será demais recordar a velha lição aristotélica a partir da qual identificamos em um raciocínio a presença ou a ausência de lógica. A velha fórmula “Todo o homem é mortal; Sócrates é homem; Logo, Sócrates é mortal” propõe desdobrarmos o raciocínio em duas premissas - a maior e a menor - das quais resulte uma conclusão.
O artigo “Contextualizar é preciso” pode, perfeitamente, ser submetido ao esquema proposto. Senão, vejamos: Partiu da premissa de que todas as grandes tradições religiosas contêm princípios de uma moral universal, classificada pelo espiritismo como “lei natural” (premissa maior).  Complementou considerando que o cristianismo é uma das grandes tradições religiosas, na qual estavam Kardec e muitos de seus interlocutores espirituais mergulhados (premissa menor). E finalizou por dizer que o cristianismo, como outras tantas, é uma tradição religiosa na qual estão contidos importantes elementos constitutivos da lei natural (conclusão). É possível, pois, que Aristóteles vislumbrasse alguma lógica na argumentação exposta.
Mais do que isso, o que afirmou o pequeno artigo? Que “O Evangelho Segundo o Espiritismo” deve ser visto e analisado no contexto cultural em que viveram Kardec e aqueles espíritos de forte impregnação cristã e católica que contribuíram para sua publicação. Em momento algum se afirmou que “a figura de Jesus, as ligações com o cristianismo e outros aspectos desse mesmo tema” sejam iniciativas isoladas de “O Evangelho Segundo o Espiritismo” ou que não estejam “amparadas na obra básicas”, que é “O Livro dos Espíritos”.
Sem a menor dúvida, a França do Século 19, berço de Kardec e ambiente cultural de todo o conjunto de sua obra, estava impregnada de ideias cristãs e, especialmente, católicas. Sem qualquer dúvida, também, o lúcido espírito de Kardec delas partiu, no planejamento e execução de sua obra, para dali extrair os valores permanentes que compõem a moral universal apregoada pelo espiritismo. Sem querer fazer da proposta espírita uma religião, buscou no cristianismo aqueles valores éticos identificados como “eternos e imutáveis”.
Subsiste, no entanto, a indagação: se em outra cultura estivesse, ou se, mesmo nos dias de hoje, e no próprio Ocidente, se dispusesse a reescrever as obras fundamentais do espiritismo, Allan Kardec escreveria “O Evangelho Segundo o Espiritismo”? E se o escrevesse, seria com as mesmas impregnações culturais ali presentes? Pensamos que não. As premissas que colocaria em seu silogismo bem que poderiam ser outras. Que, no entanto, levariam às mesmas conclusões. Porque estas tendem a ser universais.
Mas, isso é apenas uma opinião. A nossa opinião. Que, aqui, ratificamos inteiramente. E o fazemos como mero exercício intelectual, pois que a História está posta e não há como modificá-la. Podemos, entretanto, interpretá-la, seguindo a lógica que nos pareça a melhor.






Reencarnação e justiça
Tenho dito sempre: uma das questões que me aproximou do espiritismo e de sua filosofia, quando já adulto e já nas lides do Direito, foi a relação que percebi entre reencarnação e justiça. De formação cristã e católica, nunca conseguira aceitar racionalmente o dogma das penas eternas. Talvez meu “eureka” tenha se dado no momento em que, pela primeira vez, li a questão 171 de O Livro dos Espíritos, apontando como base racional da reencarnação o que os espíritos classificavam como “justiça divina”. Da resposta dos espíritos, chamou-me especial atenção esta frase: “Não te diz a razão que seria injusto privar, para sempre, da felicidade eterna todos aqueles cujo aprimoramento não dependeu deles próprios?” Vislumbrei na sentença um toque de humanismo que percebia ausente da teologia cristã: a de que a vida de relação é bem mais complexa do que o mero sentido de “certo e errado” adotado pelas religiões. E que decretar a bem-aventurança ou a danação eternas de um espírito a partir de um presumível acerto ou erro seria a mais ignóbil expressão de injustiça.

A primeira palestra
A primeira palestra que fiz num centro espírita, quando ainda sequer me declarava seguidor do espiritismo, teve por tema “A justiça divina e a justiça humana”. Foi na Cruzada dos Militares Espíritas da cidade de Bagé, onde eu era Promotor de Justiça, na década de 70 do século passado. Decorridos tantos anos, minhas reflexões já não mais se fundam nessa visão dicotômica e maniqueísta: justiça divina x justiça humana. Busco perscrutar nas leis sábias da vida um sentido de justiça que se aperfeiçoa, etapa após etapa, por força da evolução dos seres. É certo que, num mundo desigual como o nosso, provisoriamente, podem triunfar as injustiças. Mas, nossa capacidade de indignação, que também se aprimora, etapa após etapa, é o combustível que nos leva a agir no sentido da redução gradativa das injustiças. Numa perspectiva reencarnacionista, pois, não é justo que se tome como errado um comportamento individual alheio, atribuindo-lhe uma pena matematicamente proporcional à lesão praticada. Como sugerem as entidades entrevistadas na questão 171, a consciência acerca do mal cometido nem sempre depende do próprio agente. Frequentemente deriva do entorno em que vive e de erradas estruturas sociais à sua volta. Seu aprimoramento não está a depender dele próprio. Logo, puni-lo não faz sentido.

A justiça cósmica
A justiça cósmica deve ser mais inteligente que os mecanismos crime-castigo por nós adotados e que, numa primeira e equivocada visão palingenésica, terminamos por atribuir também à reencarnação. Em uma palavra, a primeira tendência – que foi também a minha e devo tê-la explicitado na palestra de Bagé – é de substituirmos as penas eternas da teologia cristã por um rigoroso “olho por olho, dente por dente” reencarnatório. Mas, reencarnação, mais que tudo, é instrumento de progresso. O progresso, é certo, não se opera sem alguma dor. A dor do aprendizado, também é certo, é fruto de nossas deficiências. Tudo o que fazemos em sentido contrário à lei natural produz sofrimento. Entretanto, os mecanismos inteligentes da justiça natural não se comprazem com a vingança. Se, no mundo espiritual há espíritos vingativos, como gostam de mostrar certos “romances espíritas”, é equivocado chamarmos isso de justiça divina. Serão eles tão carentes de educação quanto os que, aqui, cometem crimes inspirados na vindita.

O esquecimento
Para quem visualiza na justiça uma função meramente retributiva, a memória do mal feito é essencial: “Estou sofrendo esta pena porque fiz aquilo”. As almas que penam no inferno de Dante são lembradas disso a cada instante. Já a reencarnação, porque instrumento de educação e progresso, e não de castigo, apaga da lembrança do espírito os fatos que, eventualmente, tenham contribuído para seu sofrimento. Não apaga, contudo, as intuições trazidas no íntimo da consciência a inspirarem a tomada do caminho retificador. Enfim, não se faz justiça sem amor. O humanismo espírita se nutre da tríade justiça/amor/caridade. Se não formos capazes de “humanizar” nossa visão de justiça, seguiremos tendo também da reencarnação um conceito distorcido. Muito próximo das penas eternas da teologia cristã.

        




Equívocos - A interpretação
que excede a lógica
WGarcia - Recife, PE

A propósito da publicação no “Opinião”, do CCEPA, mas, também, da ideia que a matéria representa, cabe um reparo amparado na lógica da doutrina que Kardec organizou e produziu, denominada Espiritismo.
A matéria diz respeito aos 150 anos de lançamento de O Evangelho segundo o Espiritismo, tão amplamente comemorados neste Brasil de nosso tempo, mas pouco, muito pouco mesmo analisada fora desse lugar comum que é o campo da religião, visto que sua lógica está para além do mero consolo e da simples aplicação da moral cotidiana.
A matéria do “Opinião” – Contextualizar é preciso – padece de um equívoco argumentativo, uma vez que deduz houvesse Kardec sido filho de uma outra cultura que não a cristã, ao seu tempo, teria escrito livro diferente para o aspecto religioso do Espiritismo. Esquece-se, contudo, da visão de conjunto necessária para compreender a posição de O Evangelho segundo o Espiritismo na doutrina de Kardec.
Talvez, ninguém melhor do que Herculano Pires tenha tido essa visão e deduzido dela a lógica do livro mencionado, lógica essa que o insere num contexto de uniformidade de vistas, de forma a constituir não apenas uma parte do conjunto, mas parte que não pode ser excluída porque deforma o todo e parte que não possui finalidade em si mesma, pois existe por conta do conjunto.
O argumento de que em outra cultura o livro seria outro exige do raciocínio um complemento: em outra cultura os Espíritos-autores seriam outros, logo as ideias também. Então, a dúvida: aquilo que é universal na doutrina seria defendido ou colocado por estes outros emissores? Os princípios fundamentais, como imortalidade, reencarnação, comunicabilidade dos espíritos, evolução, as leis naturais seriam todos integrantes elementares da obra? Haveria espaço em outras culturas para os princípios e a lógica que os une?
A questão não pode ser resumida a uma vontade de Kardec decorrente de sua submissão relativa à cultura na qual estava inserido. É o que reza Herculano Pires. A vontade de Kardec decorre do conjunto das ideias que o levou a optar por escrever um livro como sequência natural da obra iniciada em O Livro dos Espíritos e desenvolvida em O Livro dos Médiuns.
Herculano vai além: vê toda a Doutrina Espírita como sequência do conhecimento construído pela humanidade, através das civilizações. E a toma como um conjunto harmônico em que as partes se enlaçam de forma precisa, cada uma delas assumindo uma parcela da obra e a desenvolvendo, sem que haja qualquer tipo de choque com aquela que aparece na base do edifício: O Livro dos Espíritos.
Se os espíritas fizeram de O Evangelho segundo o Espiritismo o livro de maior destaque e lhe aplicaram uma importância que minimiza absurdamente o valor de O Livro dos Espíritos, numa ação irremediavelmente incoerente; e se O Evangelho segundo o Espiritismo tornou-se referência de um religiosismo exacerbado, como se o Espiritismo se resumisse a isso é uma questão para ser discutida. Outra, diferente, é ver o terceiro livro de Kardec como resultado apenas de uma situação cultural do autor, o que nos lança a um reducionismo obtuso.
Dizer que O Livro dos Espíritos é a fonte dos demais livros de Kardec é repetir o lugar-comum. Mas enfatizar que ele é o gerador dos demais para indicar que forma com eles um conjunto e que neste conjunto, independentemente de qualquer outra coisa, impera a lógica e a coerência interna é uma necessidade.
Diz o bom senso que o conjunto em referência não se refere apenas aos livros e às ideias que defendem, mas inclui, também, os autores (invisíveis e visíveis), o contexto, o tempo e o espaço dos acontecimentos. E, evidentemente, um olhar epistemológico. Qualquer conjectura, por mais legítima que seja, feita com o objetivo de apontar outras possibilidades, como essa levantada pelo “Opinião”, deveria, portanto, levar em consideração o conjunto e não uma obra isolada.
Dentro deste raciocínio, a figura de Jesus, as ligações com o cristianismo e outros aspectos desse mesmo tema não são iniciativas isoladas de O Evangelho segundo o Espiritismo, pois que estão amparadas na obra básica – O Livro dos Espíritos. Não é possível, pois, questionar aquele sem reconhecer a primazia deste e sem atingi-lo, da mesma forma que não é coerente desconsiderar os laços que unem as partes fundamentais da doutrina, como a comunicabilidade dos espíritos, as leis da reencarnação e da evolução, entre outras, laços que, eventualmente desfeitos, isolariam as partes e as lançariam à orfandade.
Em suma, a perspectiva de um outro livro implica um outro conjunto de ideias. Fora disso, não é possível refletir.

Nota do Editor: Leia também o editorial “E por falar em lógica”, na página 2






Ecos de Salou no CCEPA
Na tarde do dia 21 de maio, quarta-feira, dia de reunião de Grupos de Estudos do CCEPA, a convite do Diretor do Departamento Doutrinário, Salomão Jacob Benchaya, o presidente da instituição, Milton Medran Moreira, e o secretário, Rui Paulo Nazário de Oliveira, fizeram amplo relato acerca do II Encontro Espírita Ibero-Americano, do qual participaram, em Salou, Tarragona, Espanha, de 1º a 4 de maio último. Os integrantes dos Grupos aproveitaram para discutir, a partir dos temas do evento, as perspectivas do espiritismo no presente século. A temática – O Espiritismo e os Desafios do Século XXI – será também o pano de fundo do VI Fórum do Livre-Pensar Espírita, promoção da Associação Brasileira de Delegados e Amigos da CEPA, CEPABrasil, que acontece, na sede do CCEPA, de 5 a 7 de setembro próximo.

A Hitória do ESDE contada em Osório
A Sociedade Espírita Amor e Caridade, de Osório/RS, por iniciativa de seu presidente Jerri Almeida, promoveu, dia 28 de março último, o Seminário “O Estudo do Espiritismo no Cenário Contemporâneo”. No evento, Aureci Figueiredo Martins resgatou a história do Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita, cuja campanha de lançamento completou 30 anos em 2013, lançada que foi pela Federação Espírita do Rio Grande do Sul, quando era seu presidente Maurice Herbert Jones, tendo como Diretor Doutrinário Salomão Jacob Benchaya.

Na segunda parte do Seminário realizado em Osório, o pensador espírita Vinicius Lousada, abordou o tema “Estudar Kardec numa Perspectiva Problematizadora”, destacando, especialmente, o caráter livre-pensador da proposta espírita, que deve ser levada em conta no estudo das obras do fundador do espiritismo.
Os pensadores espíritas Jerri Almeida (Osório/RS) e Vinicius Lousada (Bento Gonçalves/RS) participarão como expositores do VI Fórum do Livre-Pensar Espírita, que acontece na sede do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, com o tema “Os Desafios do Espiritismo no Século XXI”.

O Seminário realizado em Osório está gravado em vídeo que pode ser acessado em http://seacosorio.wordpress.com/palestras-e-seminarios/ .






Le Journal Spirite
Por favor, envie-me cópia da edição 96 de “Le Journal Spirite” (referido na edição de maio do boletim América Espírita). Como espírita religioso, sou agradecido pela imensa contribuição dos espíritas laicos.
Fraternalmente
Gilberto Guimarães da Silva - gilbertoguima@uol.com.br
(Revista em PDF enviada ao leitor, e poderá sê-lo igualmente a todos os interessados).

“Opinião” na Venezuela
Informo que “Opinião” sigue  llegando regularmente a CIMA, Venezuela, aunque com um atraso de dos a três meses. Leo la version digital, pero sigo disfrutando más del papel. Realmente “Opinião” es nuestra voz, nuestra referencia, nuestra mejor carta de presentación. Espero que nunca deje de editarse. Cumple uma función isustituible. 
Jon Aizpúrua – Caracas, Venezuela.

“Opinião” em Cuba
Estimados amigos:
Mis mayores saludos para vosotros, esperando se encuentren bien. Por esta estoy tratando de comunicarme para dicir que “Opinião” y el boletin “América Espírita” estan llegando sin dificuldad. Por eso quisiera agradecer por su apoyo. Um abrazo fuerte.
Justo Pastor – La Havana – Cuba.

Espíritas: Um pequeno contingente.
Já tive oportunidade de acompanhar os dados divulgados pela ARDA (Association of Religion Data Archives) citada por Guillermo Reyes Pozo, do Centro Barcelonês de Cultura Espírita, no Encontro de Salou, (matéria de CCEPA Opinião de maio). A informação divulgada pela ARDA provoca confusão ao afirmar que existem aproximadamente 13 milhões de espíritas no mundo, pelo fato de que classificam como "Spiritists" não apenas os kardecistas, mas também os seguidores da santeria, da mesa blanca, do vudu, da umbanda, do culto marioloncero, dentre outras expressões religiosas animistas, muito comuns em todo o continente americano.
Herivelto Carvalho – Ibatiba/ES).

(Trecho de manifestação na Lista da CEPA, na Internet. CCEPA Opinião convidou Herivelto a desenvolver mais amplamente o tema em artigo a ser publicado numa de nossas próximas edições).