sábado, 18 de abril de 2015

OPINIÃO - ANO XXI - Nº 228 - ABRIL 2015

  Espiritualidade e Ateísmo 
  É possível conciliar?
Com o livro “O Espírito do Ateísmo”, o filósofo francês André Comte-Sponville busca consolidar tese compartilhada por outros filósofos pós-modernos que defendem uma espiritualidade desvinculada da crença em Deus.

O espírito situa-se no domínio do absoluto, do atemporal
O subtítulo do livro de Comte-Sponville é “Introdução a uma espiritualidade sem Deus”, o que deixa clara sua proposta. A obra trilha caminho diferente de outros livros ateístas contemporâneos que adotam postura agressiva a toda a forma de espiritualidade, vinculando como indissociáveis a crença em Deus e o espiritualismo. É o caso do best-seller de Richard Dawkins, “Deus, um Delírio”. André Comte-Sponville defende a possibilidade de ser ateu e, ao mesmo tempo, cultivar valores que atribui ao espírito. Em sua obra, o filósofo francês admite ser a religião uma forma de espiritualidade, mas “nem toda a espiritualidade é religiosa”, afirma. Dizendo ser a religião “uma crença que aponta para o sobrenatural, para o transcendente, para o sagrado e para o divino”, sublinha não crer em nada disso. Espiritualidade para ele, “é a vida do espírito, especialmente em sua relação com o infinito, com a eternidade e com o absoluto”. Isso não é uma crença, mas, basicamente “uma experiência” que submete “nosso aspecto finito ao infinito, nosso aspecto temporal à eternidade, nosso aspecto relativo ao absoluto”.
Antes de lançar “O Espírito do Ateísmo”, sua mais arrojada obra, André Comte-Sponville defendeu que a prática da virtude não é incompatível com o ateísmo e nem a fonte primordial da virtude é a religião. Em seu livro “Pequeno Tratado das Grandes Virtudes” (*) cita Spinoza, para quem “a virtude é a própria essência ou a natureza do homem enquanto ele tem o poder de fazer certas coisas que se podem conhecer pelas leis de sua natureza.”.
Toda a obra do autor francês gira em torno de um ateísmo que não prescinde dos chamados “valores cristãos”, como a comunhão e a fidelidade. Rejeita o que chama de “niilismo bárbaro”: “tão nocivo e incivilizado à sociedade quanto os piores fundamentalismos religiosos”.

Ateu também tem espírito
A obra de Comte-Sponville sustenta que “ateu também tem espírito”, ou seja, um lado espiritual. Isso é o que distingue o ser humano dos demais animais. Segundo ele, quando contemplamos uma bela paisagem ou gozamos uma sinfonia de Mozart, é precisamente o espírito que está a vivenciar uma experiência envolvendo o absoluto e o ilimitado.
O autor francês não está sozinho nessa corrente de pensamento que alguns denominam “espiritualismo ateu”. Seu precursor foi outro pensador francês, Alain de Botton, autor de “Religião para Ateus”, obra que recomenda se busque na religião elementos de agregação grupal e de força simbólica, dispensando Deus, a magia e a irracionalidade, mas enfatizando a ética do bem-estar. Mais ou menos na mesma linha, Luc Ferry tem trabalhado insistentemente com ideias de uma ética laica, a ser assumida pela sociedade pós-moderna.

*O livro “Pequeno Tratado das Grandes Virtudes” pode ser baixado em:
http://www.pfilosofia.pop.com.br/03_filosofia/03_03_pequeno_tratado_das_grandes_virtudes/pequeno_tratado_das_grandes_virtudes.htm -





Conversa para livre-pensadores
O espiritismo não prescinde da ideia de Deus, conceituado na questão número 1 de “O Livro dos Espíritos” como “Inteligência suprema e causa primária de todas as coisas”. Assim, não seria teoricamente correto admitir a existência de um “espiritismo ateu”.
Apesar disso, é crescente o número de pensadores genuinamente espíritas que se mostram inconformados com a cristalização, em nosso meio, do deus pessoal das religiões, notadamente o deus bíblico, “criador de todas as coisas” e cuja vontade e interferências na vida de cada um terminam por tornar nulos o livre-arbítrio humano ou a autovigência das leis naturais, definidas na questão 614 de O Livro dos Espíritos como sendo as próprias leis divinas, sob cuja regência há um permanente criar e recriar na natureza.
Mesmo filiando-se à corrente filosófica deísta, não é na crença em Deus, mas na realidade do ESPÍRITO e suas manifestações que se funda a filosofia espírita. Quando a questão 23 da obra basilar do espiritismo define o Espírito – grafado em inicial maiúscula - como “o princípio inteligente do universo” está aproximando esses dois grandes conceitos – Deus e Espírito – para dar margem a uma concepção de vida que pressupõe o absoluto, o infinito, e extrapola as contingências relativas e finitas da matéria.
A nova corrente filosófica que floresce na França – a mesma França do Professor Rivail - pode não estar preocupada com outros aspectos, para nós muito caros e, mesmo, fundamentais, que dizem com o espírito individualizado, aquele que nasce, vive, morre e renasce, sem perder sua individualidade. Mas, tanto quanto nós, aqueles pensadores veem o ser humano como espíritos, atribuindo justamente a essa sua condição essencial todo o cabedal ético e estético conquistado e a conquistar.
São, pois, posições que se complementam e se harmonizam, recomendando, mesmo, a busca da aproximação, do diálogo, da interlocução. Isto, no entanto, só será viável no dia em que o espiritismo, como aconselhou Kardec, deixar se “enfeitar” com um título que não lhe pertence, o de uma religião (Discurso na SPEE, em 1º.11.1868). Essa é uma conversa para livre-pensadores que, mesmo por caminhos diferentes, poderão conduzir o mundo a um novo e fulgurante patamar (A Redação).

Responsabilidade Penal
Uma reflexão espírita
“Redução da maioridade penal ataca efeitos e não a causa”.
(Tadeu AlencarDeputado Federal, membro da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania da Câmara Federal).

O incremento da violência no Brasil provoca, uma vez mais, debate em torno da redução da maioridade penal, constitucionalmente fixada em 18 anos. Reconheçam-se algumas verdades que fundamentam os argumentos dos defensores da ideia. A primeira delas: as estatísticas atestam a crescente escalada de violência entre adolescentes, na faixa dos 15, 16 e 17 anos. A segunda, e particularmente relevante para quem, como nós, espíritas, defende a condição evolutiva humana: cada vez mais cedo a criança atinge condições biopsicológicas de entender o caráter delituoso de fatos definidos como crime. A tradição cristã admite, de há muito, que a criança aos sete anos alcança a “idade da razão” e, teologicamente, já se lhe pode imputar o cometimento do pecado, até dos chamados “mortais”, passíveis de punição eterna. Um modelo, diga-se de passagem, anacrônico e nada compatível com o espiritualismo humanista e minimamente racional.
De qualquer sorte, sustentam os defensores da redução da maioridade penal que um jovem na faixa de 16 anos, aliás, hoje muito bem informado, graças ao avanço das comunicações, e a quem já se faculta, inclusive, participar, pelo voto, dos destinos da nação, deveria, necessariamente, ser responsabilizado pela prática de delitos, muitas vezes de enorme gravidade.
Estão equivocados. A responsabilização existe. O Brasil dispõe de uma legislação modelar prescrevendo a menores inimputáveis medidas socioeducativas que vão da mera advertência, para infrações de baixo potencial danoso, até a supressão da liberdade, retirando-se o menor do convívio social para submetê-lo, teoricamente, a rigorosos processos educativos em estabelecimentos especializados.
O espírito da lei, observe-se, para o menor de 18 anos, não é de punição, mas de reabilitação. Em perfeita consonância, aliás, com preceito expresso na questão 796 de O Livro dos Espíritos onde se deplora a existência de leis que “mais se destinam a punir o mal depois de feito do que a lhe secar a fonte”, acrescentando: “só a educação poderá reformar os homens que então não precisarão mais de leis tão rigorosas.”. Mostra-se correta, pois, a posição de alguns parlamentares brasileiros que se opõem à redução da maioridade penal, sob o argumento de que isto apenas atacaria os efeitos, quando, o que a lei deve buscar é reduzir a prática do crime. 
É equivocada a ideia de que a criminalidade infantojuvenil decorra da lei ou da falta dela. O fenômeno, antes, é fruto das graves distorções educativas de nossa sociedade. Famílias desestruturadas, ausência de valores éticos motivadores do agir pessoal, exemplos danosos partindo de autoridades públicas, descaso com o ensino e com a educação no lar e na escola, contribuem, sabidamente, para uma cultura criminógena. Na quadra da vida em que o espírito encarnado é mais suscetível à aquisição de hábitos a nortearem sua existência, tais distorções muito provavelmente o impelirão a rumos nefastos para si e para os que o rodeiam.
Não será aplicando-lhes as mesmas sanções de pessoas adultas e, muito menos, fazendo-os cumprir suas penas junto a experientes e empedernidos criminosos que se irá resolver o grave problema da criminalidade de jovens de 16 a 18 anos. Há, sim, que se aprimorar o sistema, dotando os meios hoje existentes - tão precários, ainda -, de efetivos recursos materiais e humanos, voltados à sua educação e recuperação. Sempre é tempo para isso, especialmente a partir da premissa de que espírito algum é irrecuperável.






A queda do airbus
Escrevo a coluna sob o impacto da queda do Airbus sobre os Alpes franceses, no dia 24 de março. Este não foi o primeiro, nem será o último. Desastres aviatórios acontecem desde que Santos Dumont aventurou-se a fazer voar artefatos mais pesados que o ar. Mas este não foi um simples acidente. Ao jogar o avião sobre as montanhas geladas de Seyne-les-Alpes, Andreas Lubitz, 28 anos, deliberou tirar sua própria vida e a de 149 outras pessoas, incluindo aí bebês e adolescentes.

A fragilidade humana
A primeira reflexão sugerida pela tragédia desnuda a fragilidade da vida humana. Nada garante que, a qualquer momento, não seja ela extinta por um acontecimento fortuito, rotineiro, ou por um ato insano ou violento. E, então, perplexos, nos perguntamos: Como pode ser frágil assim um ente de tão riquíssimos atributos como o ser humano? Por milhões de anos, a natureza foi construindo esse complexo biológico dotado de aguçados sentidos, racionalidade, sensibilidade e aptidão de transformara si e a seu meio. O que há de errado nas leis da natureza que permitem a destruição de pessoas em condições tão flagrantemente injustas? Em cada uma sintetizam-se todas as conquistas evolutivas da espécie e se fazem presentes elementos personalíssimos que a tornam única, singular. Destruída, resta a frustração, talvez a negação de que possa, realmente, haver um sentido para a vida. A vida humana e o próprio universo seriam regidos pelo caos.

A natureza e a morte
Arthur Schopenhauer sustentava que a natureza não tem a menor preocupação com a morte: “Contempla a partida com ar indiferente, não se preocupa com a morte ou a vida do indivíduo”, entregando-o “a todos os acasos” e “não fazendo o mínimo esforço para salvá-lo”.    Mas, paradoxalmente, segundo o filósofo alemão do Século XIX, é justamente com essa sua indiferença que a natureza nos dá a grande lição da imortalidade, eloquentemente presente em suas leis.
Allan Kardec elencou entre as dez leis fundamentais da natureza a de destruição: “É preciso que tudo se destrua para renascer e se regenerar”. O que chamamos destruição, “é apenas transformação que tem por objetivo a renovação e o melhoramento dos seres vivos”, disseram-lhe seus interlocutores espirituais.

Na morte, o sentido da vida
Então, por aí, podemos divisar na morte o sentido da vida, mesmo quando flagrantemente injusta e ainda que resulte de ato cruel ou insano, capaz de produzir indignação. A propósito, um raciocínio raso aconselharia o conformismo diante de episódios assim, porque eles estariam previamente marcados e integrariam um mapa de reajuste individual, necessário ao progresso do espírito. Fosse assim, também aí estariam a crueldade e a insanidade, contrárias à natureza que não quer o caos, mas busca a harmonia. Mesmo indiferente à morte, por não ver nesta mais que um episódio da vida, a natureza oferece meios mais nobres de regeneração e crescimento.
Nego-me a aceitar que acontecimentos da dramaticidade e da estupidez daquele dos Alpes possam encerrar qualquer forma de justiça. Compreendo o sentido da morte, o que não me obriga a sempre me conformar com ela.








“O princípio vital é a força motriz dos corpos orgânicos“ (Allan Kardec em comentário à pergunta 67 de O Livro dos Espíritos).

“Atrás de cada usuário de drogas existe um ser humano“ (Ana Regina Noto – Coordenadora da Campanha Nacional sobre Drogas).


O Centro de Integração Empresa Escola (CIEE) promoveu no dia 08 de dezembro o seminário “A educação, prevenção às drogas e tabagismo”, onde foram apresentados alguns números que merecem destaque: um levantamento nacional entre universitários das 27 capitais brasileiras, realizado em 2010 aponta que 86% dos universitários já utilizaram álcool; 47% consumiram produtos de tabaco e 49% já usaram alguma substância ilícita.  Como de costume, encerraram o seminário conclamando por parte da sociedade um forte engajamento no grande combate contra as drogas .

O objetivo, nobre por sinal, é preparar as novas gerações formando cidadãos mental e fisicamente sadios, pois eles são o melhor legado para o futuro do país. É um chavão muito batido, mas que, em outras palavras, significa que a educação é o melhor remédio.

Na pergunta 68 do Livro dos Espíritos, Kardec indaga qual a causa da morte entre os seres orgânicos, tendo como resposta dos espíritos ser “o esgotamento dos órgãos a causa da morte entre os seres orgânicos“. Na teoria espírita se dá muita importância à ação do espírito sobre a matéria e que a vida é um efeito produzido pela ação de um agente sobre a matéria.

Percebe-se, então, a enorme importância desse equilíbrio matéria/espírito durante toda a nossa encarnação. Cuidar do nosso corpo passa a ser, pois, de suma importância para uma encarnação produtiva.

Segundo o CIEE, algumas ações de prevenção têm resultado em efeitos positivos, como, por exemplo, o número de fumantes que corresponde hoje a 11,5% da população entre 12 e 65 anos. No começo da década passada eram mais de 30%. Essa redução se deve a medidas de restrição e ao aumento, de cerca de 108%, na taxação. A campanha também se baseou na apresentação dos efeitos colaterais desagradáveis causados pelo uso intensivo do cigarro.
No mesmo seminário, ficou evidente que a porta de entrada hoje de todas as drogas é o uso abusivo do álcool, notadamente entre os mais jovens.
A se destacar na apresentação dos trabalhos é, a meu ver, a carga enorme de trabalho preventivo dada às escolas e à prática de esportes no sentido da prevenção contra as drogas. Mesmo assim, alertam: “os traficantes já estão nas escolas”. Preocupa-me a pouca citação, ou quase nenhuma, na verdade, do papel da família e da educação no lar. A importância de uma espiritualidade sadia sequer é mencionada, pois, por força da laicidade do estado, espiritualidade passa a ser encarada como uma questão de foro íntimo.
                                                                                                              
 Quanto a nós, espíritas, sempre acreditei que temos a obrigação de apresentar aos nossos filhos a riqueza do Espiritismo no desenvolvimento de nossas vidas, pois trata-se de uma filosofia espiritualista isenta de preconceitos, que exige estudo e cultura de seus adeptos e vê na vida futura o seu paradigma para atuação vibrante na vida presente.  Daí a relevante importância que a doutrina espírita dá à fase da infância na formação de valores, aperfeiçoamento moral e eliminação de vícios de caráter.

Em resposta à pergunta 383 (Livro dos Espíritos), de qual seria a utilidade para o Espírito em passar pelo estado de infância, os nossos amigos espirituais asseveram que “o Espírito encarnando para se aperfeiçoar, é mais acessível durante esse período às impressões que recebe e que podem ajudar o seu adiantamento, para o qual devem contribuir aqueles que estão encarregados da sua educação“ .  Sábias palavras.





Depois do Curso Básico, um novo CIBEE
Com programação de cinco módulos, sempre às quartas-feiras, à tarde, teve início dia 25 de março, o Curso Básico de Espiritismo, ministrado no Centro Cultural Espírita. Após a saudação feita pelo presidente do CCEPA, Milton Medran Moreira, aos cerca de 40 participantes do curso, foi desenvolvido o primeiro módulo – “O Que é o Espiritismo”, por Salomão Jacob Benchaya. Seguiram-se, nas quartas-feiras subsequentes, os módulos “Imortalidade, Sobrevivência e Evolução do Espírito”, “Comunicação Mediúnica” e “Pluralidade das Existências e dos Mundos Habitados”, todos eles expostos pela pedagoga Dirce Teresinha Habkost de Carvalho Leite (foto).
O último módulo, com a temática “Consequências Morais do Espiritismo”, no dia 22 deste mês de abril, estará a cargo de Milton Medran Moreira.
Os participantes do Curso que desejarem permanecer vinculados às atividades do Centro Cultural Espírita poderão participar de um novo grupo regular de CIBEE (Ciclo Básico de Estudos Espíritas) que, coordenado por Dirce, deverá se desenrolar também às quartas-feiras e no mesmo horário, em caráter permanente. O novo grupo está aberto a todos os interessados.

CCEPA presente no Fórum do Espírito Santo
Cerca de dez integrantes do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre já confirmaram presença no VII Fórum do Livre-Pensar Espírita, promoção da CEPABrasil, que acontece dias 28, 29 e 30 de maio, na cidade de Domingos Martins, região serrana do Espírito Santo.
Com o tema “Contribuição da Filosofia Espírita para o Desenvolvimento Ético da Sociedade”, o presidente do CCEPA, Milton Medran Moreira, será um dos painelistas do evento que tem como temática central “A Contribuição Livre-Pensadora para o Desenvolvimento da Natureza do Espiritismo”. Para coordenar um dos painéis do Fórum, também foi convidado o ex-presidente do CCEPA, Rui Paulo Nazário de Oliveira.

Salomão e caravana do CCEPA em Osório
No próximo dia 21/4, o Diretor do Departamento Doutrinário do CCEPA, Salomão Jacob Benchaya (foto), a convite da Sociedade Espírita Amor e Caridade, de Osório/RS, profere palestra, ali, com o tema “Natureza, Caráter e Objetivo do Espiritismo” (20h). Um grupo de colaboradores do CCEPA acompanhará Salomão a Osório, para um encontro com os trabalhadores da instituição anfitriã.





Pena de morte
Excelente o comentário do colunista Milton Medran Moreira em “Opinião em Tópicos” de março. Se, para quem é materialista, o bom senso indica que pena de morte é algo errado (afinal, seria tentar resolver um crime cometendo outro), imagina para nós, que conhecemos o lado espiritual.
Paulo Roberto Daguer Rubin – Porto Alegre/RS.

Por uma nova ética
A análise feita pelo editorialista deste jornal me fez lembrar a comunicação de um espírito coletada por Kardec na qual ele (o espírito) fala que os homens dão extrema importância às questões e paixões políticas, mas esquecem e enxergam com  menosprezo as questões morais. Nesta comunicação, o espírito fala que devemos voltar a nos empolgar com as questões ditas morais. Não serei eu que irei desprezar as questões políticas, mas realmente devo concordar, como espírita que sou, que o individual reflete poderosamente no social.
Homem e mundo e mundo e homem influenciam-se reciprocamente. Neste sentido, além de nossos problemas políticos e institucionais, penso que nosso país passa por uma crise de valores éticos tremenda. Temos até uma frase paradigmática da formação ética brasileira: "o negócio é levar vantagem em tudo, certo?"
Estamos vivendo em um país em que um importante Senador da República fala que quer ver  a Presidente sangrar até o fim de seu mandato, para o seu partido, ao final de tudo, tomar o poder.
Vivemos em um país em que setores da população não têm vergonha de ir à rua com uma faixa pedindo a volta da ditadura militar, esquecendo das dores e lágrimas de todas as vítimas deste período negro de nosso país.
Por outro lado, de que adianta sairmos às ruas batendo panelas pedindo mudanças coletivas, se somos incapazes de ser gentis, humanos e éticos  no trânsito, em nosso condomínio, nas ruas, em nosso trabalho etc?
RIcardo de Moraes Nunes – Guarujá/SP.


quarta-feira, 18 de março de 2015

OPINIÃO - ANO XXI - Nº 227 - MARÇO 2015

A fé que mata
O ano de 2015 iniciou com o recrudescimento do fundamentalismo religioso no mundo, uma ameaça aos esforços humanos em prol da laicidade do Estado e da espiritualidade livre, humanista e progressista
.
O massacre do Charlie Hebdo
Embora sem resultar no mesmo e expressivo número de mortes do episódio de 11 de setembro de 2001, em Nova York, o atentado ao jornal Charlie Hebdo, de Paris, perpetrado no último dia 7 de janeiro, passa à História como forte expressão de uma das mais angustiantes tragédias da atualidade internacional: o danoso avanço do fundamentalismo religioso e de sua capacidade de espalhar terror no mundo civilizado.
O ataque feito pelos irmãos Said e Chérif Kouachi, somado a outro contra um mercado de alimentos judaicos, na capital francesa, terminou por vitimar 17 pessoas. Extremistas religiosos ligados ao Estado Islâmico logo reivindicaram a autoria dos atentados, em represália ao fato de o jornal francês publicar charges satirizando o profeta Maomé e em face das divergências históricas entre a fé muçulmana e as crenças cristãs e judaicas.
         
A fé justificando o crime
Tanto quanto o cristianismo e o judaísmo, o islamismo admite diferentes formas de interpretação, gerando oposições internas entre umas a outras. Por ocasião dos atentados, a Liga dos Estados Árabes condenou aqueles atos, e a Universidade Al-Azhar publicou manifesto rechaçando a violência, segundo ela, sempre contrária aos ensinamentos do Corão, independente do “crime cometido contra os sagrados sentimentos muçulmanos”. Entretanto, diferentes setores radicais islâmicos comemoraram as mortes dos “infiéis", ratificando a crença de que a fé islâmica está destinada a dominar e redimir o planeta. O extremismo islâmico prega a legitimidade da luta “contra aqueles que não creem em Alá e que não adotam a religião da verdade”, segundo texto literal nos versos 9:5 e 9:29 do Corão.

Um Estado contra o Estado de Direito
O recrudescimento do radicalismo islâmico ganhou maior significação no contexto internacional contemporâneo, a partir da fundação do Estado Islâmico. Consolidando movimentos terroristas da facção jihadista, a mais radical das concepções muçulmanas, um potente califado com governo e pretenso território, este tomado da Síria e do Iraque, foi proclamado em 2014. A organização afirma autoridade religiosa sobre todos os muçulmanos do mundo. Aspira ao controle político sobre todo o Islã. Prega abertamente a eliminação dos “hereges” e “infiéis”. Suas ações terroristas não poupam sequer muçulmanos de outras correntes, mas são especialmente direcionadas a pessoas e povos do Ocidente. Nos últimos meses, inúmeras execuções foram perpetradas contra reféns de diferentes países cuja política se opõe a seus métodos violentos. Extremamente cruéis, exibem, pelas redes sociais do mundo inteiro, vídeos onde suas vítimas são decapitadas ou queimadas vivas, depois de submetidas às piores torturas psicológicas.





O conhecimento que liberta
A história de povos e comunidades onde viceja a crença no monoteísmo – judaísmo, cristianismo e islamismo - está repleta de capítulos de barbárie, desfechados ou apoiados, inclusive, por suas hierarquias religiosas. A fé em um Deus pessoal a cuja palavra se credita, cega e literalmente, a autoria do conteúdo dos ”livros sagrados”, acaba por se sobrepor aos valores humanos. A autoridade, a onipresença, o domínio pessoal atribuídos àquela entidade e a sacralidade de sua “palavra” tendem a produzir um tipo de crente de mentalidade retrógrada, subserviente e intolerante. Daí à violação dos mais fundamentais direitos do homem é um passo, capaz mesmo de levar às piores atrocidades.
Todas as culturas, notadamente o monoteísmo, experimentam o embate entre o conhecimento e a fé. No Ocidente, mesmo enquanto a religião açambarcou o poder civil e administrou as fontes formais do conhecimento, espíritos corajosos rebelaram-se contra o dogmatismo religioso, sempre que atentasse contra a razão. O Iluminismo abriu caminho ao cultivo da razão sobre a fé. Assim mesmo, guardamos marcas dos séculos em que nos foi vedado raciocinar livremente.
Nesse contexto, reconheça-se a contribuição do espiritismo, em países onde sua filosofia é conhecida e assimilada. Sem qualquer menosprezo às tradições religiosas, notadamente à cristã em cujo seio nasceu e se desenvolve, sua proposta é a contextualização de toda e qualquer revelação religiosa. Reconhecendo valor cultural e moral nos chamados livros sagrados, a nenhum considera, entretanto, detentor infalível de verdades eternas.
Toda a revelação só se convalida na medida em que for abonada pela razão e se conformar àquilo que O Livro dos Espíritos classificou como lei natural, gravada na consciência do espírito imortal. Isto revoluciona o conceito de fé, como, aliás, propõe Allan Kardec, em lapidar sentença: “Fé inabalável somente é aquela capaz de encarar a razão, face a face, em qualquer época da humanidade”.
Só a plena adequação da fé ao conhecimento poderá superar as grandes e pequenas intolerâncias ainda existentes nos meios religiosos. (A Redação)




Brasil em busca
de nova ética pública
À medida que a civilização se aperfeiçoa, faz cessar alguns dos males que gerou, e esses males desaparecerão com o progresso moral (Allan Kardec, comentário à q.793, L.E.).

Discute-se, academicamente, no campo da psicologia social, se é o ser humano o agente transformador da sociedade ou se, ao contrário, é a sociedade que transforma o indivíduo.
No meio espírita, costuma-se afirmar que toda a transformação da sociedade resulta do esforço do próprio homem, na busca de sua transformação pessoal. As mudanças sociais seriam, dessa forma, o somatório das qualidades humanas. Transformando-se o homem, individualmente, por via de consequência, a sociedade estaria transformada. Não por outra razão, consagrou-se, em nosso meio, a expressão “reforma íntima”, atribuindo-se a esta a capacidade de se mudar o meio em que vivemos.
Se considerarmos a sociedade simplesmente como um aglomerado de pessoas, destituída de uma consciência coletivamente construída, a fórmula acima seria de todo inquestionável. Mas, sociedade é um pouco mais do que isso. Ela é produto de uma cultura. Cultura, sabemos, é construção que se faz ao curso do tempo. Resulta de crenças, de valores, de experiências coletivas, de costumes arraigados, adquiridos no processo inter-relacional. Nós, espíritas, levamos em conta, inclusive, as prováveis múltiplas experiências encarnatórias coletivas na formação da cultura de um povo. A cultura exerce sobre o indivíduo enorme influência. Não raro, o modifica radicalmente.
Talvez por isso mesmo, muitos daqueles valores que construímos a partir do esforço de transformação individual, mas que ainda não integram a cultura da sociedade a que pertencemos, pareçam-nos tão difíceis de se impor.  Mais do que isso: difíceis mesmo de serem vivenciados por nós próprios, diante de circunstâncias onde os hábitos sociais abonam comportamento diverso daquele que, intimamente, já aprendemos a entender como correto.
Felizmente, entretanto, a cultura não é estática. Há um dinamismo natural que, às vezes, em muito pouco tempo, opera enormes transformações sociais, políticas e éticas. Allan Kardec utilizava-se da expressão “força das coisas” para nominar esse processo de transformação de valores e de costumes que se impõem a uma sociedade.
O Brasil vive, hoje, indubitavelmente, um choque ético de considerável dimensão. Afortunadamente, várias de suas instituições republicanas despertaram para a necessidade de uma ação enérgica no sentido de investigar, coibir e punir velhas práticas incrustadas em sua cultura política e cujos resultados vinham, ultimamente, assumindo proporções devastadoras.
Não resta dúvida de que isso é resultado do amadurecimento de uma consciência social e política capaz de influir decisivamente não apenas no futuro político da nação, mas também no procedimento de seus cidadãos.
Isso não invalida aqueles esforços que sejamos capazes de realizar, intimamente, no sentido de domar nossas imperfeições. São forças que se complementam. O cultivo pessoal da virtude, além de nos gratificar com a paz de consciência, gera o exemplo, capaz de iluminar outras consciências, notadamente na convivência familiar. Mas, no macro espaço social, as grandes iniciativas inspiradas pela consciência coletiva são, igualmente, forças decisivas que impulsionam a melhoria ética do ser humano.
Enfim, ninguém é uma ilha. Convivemos, interagimos, influenciamos e somos influenciados. Como nos assegura a doutrina espírita, somos espíritos imortais em processo de evolução. Responsáveis que somos por nossa própria transformação moral, dispomos também, seja qual for o meio em que estivermos inseridos, de maior ou menor capacidade de transformação dos costumes, rumo a uma ética coletiva superior.


         


Pena de morte?
Recente pesquisa feita por aqui apontou: mais de 55% dos gaúchos se declararam a favor da pena de morte. A medida, embora inviável constitucionalmente – a não adoção da pena capital é cláusula pétrea da Carta Magna de 1988 –, vem ganhando espaço em todos os segmentos sociais, no país.
 Em meus tempos de faculdade de Direito, nos anos 70, a oposição à pena de morte era praticamente unânime, nos meios jurídicos. Em sentido contrário, recordo da luta de um certo deputado federal carioca,  Amaral Netto. Elegeu-se por oito mandatos consecutivos, tendo como único programa de campanha a introdução da pena capital. Morreu sem atingir seu objetivo. A consciência jurídica nacional rejeitava a pena de morte. Hoje, há, entre nós, muitos juristas favoráveis à sua introdução. Por que será?

A posição de vanguarda de O Livro dos Espíritos
Diante da sofisticação da criminalidade, agora formando cartéis organizados, movidos especialmente pelo tráfico de drogas - talvez, o maior dos males de nosso tempo -, pessoas de boa formação dão mostras de capitulação: só a pena de morte poderia reverter o quadro. Errado. A experiência civilizatória e a evolução do Direito Penal têm demonstrado que a barbárie não se reduz com o emprego de penas de caráter meramente retributivo. Retribuir o mal com outro mal de idêntica graduação causa à sociedade mais danos do que aqueles provocados pelo mal que se quer punir. Incita o espírito de emulação entre Estado e criminalidade. A sociedade torna-se ainda mais violenta, mergulhando em infindável guerra entre o “bem” e o “mal”. Quando O Livro dos Espíritos, em sua questão 760, prognosticou a abolição da pena capital das legislações humanas, antecipava a existência de organismos políticos internacionais nos moldes da atual União Europeia, que só tem como integrantes países onde não há a pena capital. Ao tempo do nascimento da doutrina espírita, praticamente todas as nações europeias adotavam a pena de morte.

Direitos humanos
Qual, então, a solução? Deixar de punir? Absolutamente. O Estado tem o dever de zelar pela ordem. E o exercício da justiça punitiva é atribuição que o contrato social lhe outorgou. Entretanto, a pena perde inteiramente seu sentido se não estiver movida pelo escopo da educação e da reabilitação do delinquente. É nesse contexto que se devem entender os direitos humanos, tão vilipendiados e pouco compreendidos pela maioria das pessoas. Não se trata de concessão, a delinquentes, de direitos que os cidadãos de bem não possuem. Trata-se de lhes garantir o direito de viver com o mínimo de dignidade humana, mesmo que segregados da sociedade, para a qual deverão, um dia, retornar, reeducados e convencidos de que não vale a pena delinquir. Todos, assim, “bons” ou “maus”, ganharemos com esse tipo de política. Custa dinheiro? Custa. Mas, um dia o Estado terá que adotar políticas com esse embasamento filosófico, se deseja frear mesmo a criminalidade.

Uma grande família chamada humanidade
Manuel Porteiro, admirável pensador argentino, via a sociedade humana como uma grande família. A reencarnação, nesse contexto familiar, não seria mero instrumento de retribuição punitiva, mas, fundamentalmente, de reeducação, através da disciplina, da solidariedade e do amor.
Um argumento que me parece definitivo contra a pena de morte para quem adota a filosofia espírita: o delinquente eliminado de forma violenta tende a voltar para essa mesma sociedade, revoltado e com sentimentos de vingança. A pena capital apenas adia e agrava os problemas que deseja extinguir.





O diálogo entre fé, razão e dúvida 
Jerri Almeida  -  Professor, autor, entre outros, do livro: “Kardec e a revolução na fé”.
                                       

A fé não exclui a dúvida! No espiritismo, a dúvida dialoga filosoficamente com a fé. O argumento da “verdade absoluta”, em qualquer área do conhecimento, é um “erro absoluto”. No exercício intelectual, na busca do conhecimento e da construção da fé, não se deve desconsiderar os limites naturais de cada um, e a possibilidade de autoengano. Certezas e dúvidas fazem parte desse percurso!
A dúvida pode ser um instrumento, como foi para Descartes na filosofia, capaz de conduzir para a análise e rejeição de certas opiniões ou conhecimentos instituídos pelas tradições. A dúvida parte de uma incerteza sobre determinado assunto. Se esse assunto diz respeito às questões religiosas e existenciais, então, essa “dúvida” poderá carregar certas angústias.
Nesse caso, poderá ser considerada uma “dúvida natural”, quando vem acompanhando o indivíduo em sua caminhada existencial, ou uma “dúvida despertada”, quando gerada por uma situação externa. Por exemplo, o defrontar-se com a morte de uma pessoa querida, poderá despertar no sujeito dúvidas sobre a existência de Deus e o sentido da vida. O evento “morte”, por vezes, gerador de “angústias”, torna-se capaz de desencadear dúvidas.
Dúvidas e angústias poderão motivar um processo de busca por respostas mais consistentes. Nessa jornada pessoal, percorrerá o sujeito inúmeras possibilidades explicativas, sintonizando-se com aquela que melhor apaziguar suas angústias emocionais e inquietações intelectuais.
A relação ou a proximidade entre fé e razão sempre representou uma fronteira de difícil diálogo no território do conhecimento. Aparentemente, fé e razão são elementos divergentes, pois a fé carrega consigo uma profunda carga religiosa, por vezes, associada ao mistério, enquanto a razão apresenta-se no âmbito do saber aberto, próprio da filosofia e da ciência.
O filósofo Erich Fromm observou que: “Enquanto a fé racional é o resultado da atividade interior da pessoa, em pensamento ou sentimento, a fé irracional é a submissão à determinada coisa que se aceita como verdadeira, independentemente de sê-la ou não”(¹).
Kardec realizou a crítica da fé irracional, dogmática ou cega. Em sessão na Sociedade Parisiense(²) , ele tem a oportunidade de dialogar com o espírito de um padre que desencarnara adversário do espiritismo. O diálogo é muito esclarecedor, pois aborda o problema da crença e da fé racional. Enfatiza o discípulo de Pestalozzi, que o espiritismo deixa a cada um a inteira liberdade de exame de seus princípios. Qualquer princípio baseado no erro cai pela força mesma das coisas. Assim, as ideias falsas postas em discussão mostram seu lado fraco e se apagam ante o poder da lógica e dos fatos.
Não raras vezes nos deparamos com estudos espíritas distantes do que preconizava Kardec, pois aos participantes é vedada a análise e discussão dos textos. Qualquer estudo sério da filosofia espírita deve permitir o espaço do debate fundamentado, da análise estruturada em argumentos lógicos e responsáveis, ao invés de leituras intermináveis e cansativas sem nenhum aproveitamento. Dogmatizar os estudos é colaborar para o enraizamento de crenças, que já deveriam estar superadas no meio espírita.
Kardec foi um defensor da dialética, do argumento, do debate de ideias, necessários à construção do conhecimento e da própria fé. O espiritismo, dizia ele, não impõe uma crença cega, pois deseja que a fé se apoie na compreensão. Por isso, deixa a cada um inteira liberdade de examinar seus princípios e aspectos. Sem a pretensão de colocar um ponto final em tudo, por não se tratar uma macro teoria salvacionista, o espiritismo, postulando a fé racional, enfatiza o papel da dúvida como elemento humano e natural, na busca por um saber quase sempre relativo, consubstanciado na progressividade do conhecimento.

[1] FROMM, Erich. A Revolução da Esperança. 5ª. Ed. Trad. Edmond Jorge. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1984. Pág. 31-32.
2 KARDEC, Allan. Partida de um adversário do Espiritismo para o mundo dos espíritos. Revista Espírita. Outubro de 1865. P. 295. Edicel.





No mês do livro espírita, os intercâmbios do CCEPA
No mês de abril, tradicionalmente comemorado como o mês do livro espírita, serão realizados alguns intercâmbios do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, com outras instituições e pensadores espíritas brasileiros. Assim:

Medran em Balneário Gaivota, dia 4
A convite do Centro Espírita Allan Kardec, de Balneário Gaivota/SC, o presidente do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, Milton Medran Moreira, proferirá palestra, naquela instituição, no dia 4 de abril, sábado, às 19h, abrindo ciclo de palestras comemorativas aos 150 anos do livro “O Céu e o Inferno”. Abril assinalará também o 8º aniversário daquela instituição. Tema da palestra de Medran: “Anjos e demônios – um enfoque espírita”.

W Garcia no CCEPA, dia 10
O escritor espírita Wilson Garcia proferirá palestra no CCEPA, aberta ao público, e especialmente destinada aos colaboradores e estudiosos do espiritismo do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre. Tema: “Chico, você é Kardec?”, título de obra do conferencista, que é um dos mais importantes escritores espíritas da atualidade. W Garcia autografará várias de suas obras, por ocasião da palestra no Centro Cultural Espírita de Porto Alegre.



Salomão em Osório, dia 21
O Diretor do Departamento Doutrinário do CCEPA, Salomão Jacob Benchaya, abrirá, em Osório/RS o Ciclo de Estudos Kardecistas, promovido pela Sociedade Espírita Amor e Caridade, com a palestra “Reflexões acerca da Natureza, Caráter e Objetivo do Espiritismo”, a ser proferida às 20h do dia 21 de abril. Antecederá à palestra um encontro para troca de ideias entre trabalhadores do CCEPA, que acompanharão Salomão, e do Centro anfitrião.

Começa este mês o Curso Básico de Espiritismo
Inicia no próximo dia 25 de março o Curso Básico de Espiritismo, a ser ministrado às quartas-feiras, às 15h, no CCEPA, pelo Diretor Doutrinário Salomão Jacob Benchaya e a pedagoga e colaboradora da instituição, Dirce Teresinha Carvalho Leite. As inscrições são gratuitas. Informações pelo fone 3209 3092 ou ccepars@gmail.com .
O curso estende-se por cinco quartas-feiras consecutivas, no mesmo horário.







Lento e doloroso progresso
Senhor editor: Penso que deveria republicar o artigo “Lento e Doloroso Progresso”, da edição de dezembro de 2005, com algumas observações adicionais referentes à imensa corrupção política do momento. Aquele artigo continua atualíssimo, apesar de nove anos passados.
Abraços.        
Gilberto Guimarães Silva – gilbertoguima@uol.com.br

Nota da Redação – O artigo referido pelo leitor apareceu como “Nossa Opinião”, na matéria “A corrupção que nos envergonha”, capa da edição n. 126 do jornal CCEPA Opinião. O editorial que publicamos nesta página faz novas considerações sobre o tema.  
A edição 126 pode ser buscada em: http://www.espiritnet.com.br/Opiniao/Ano2005/opiniao12.htm

Qualidade editorial
Me puse a revisar los últimos números que tenía de CCEPA Opinião/América Espírita sobre mi escritorio y me llena de orgullo participar de una Revista Espírita de tanta calidad. Es excelente la parte editorial que siempre escribe el edictor Milton Medran Moreira, con artículos tambien reproducidos por Abertura, de Instituto Cultural Espírita de Santos. También la selección de artículos y los temas son excelentes, así como la diagramación. Quisiera hacerte llegar, Milton, mis felicitaciones por tanta dedicación y esmero puestos al servicio de la difusión de “nuestro” ideal espírita. Un abrazo grande, agradecido y afectuoso, por la excelente labor de todo el equipo de CCEPA, especialmente de mi amigo Maurice Herbert Jones, a quien deseo lo mejor siempre.
Dante López – Rafaela/Argentina.

Fanatismo
“Quando o fanatismo, seja ele religioso, político ou ideológico, passa a habitar a alma humana, sua mente se fecha para a razão”. Destaco esta frase da coluna “Opinião em Tópicos” (janeiro/fevereiro de CCEPA Opinião) para lamentar que nosso querido Brasil, ultimamente, também está sendo cenário de muito fanatismo, tanto no campo religioso (pastores que incutem crenças ultrapassadas para extorquirem dinheiro de pessoas despreparadas), quanto ideológico (políticos que se vestem de ovelhas, mas que são lobos muito perigosos). Até quando?
Josemara C. Soremar – Porto Alegre.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

OPINIÃO - ANO XXI - Nº 226 - JAN-FEV 2015


Pesquisa científica feita por núcleo da Universidade Federal de Juiz de Fora concluiu que informações contidas em lote de cartas psicografadas pelo médium Chico Xavier, na década de 70, eram verídicas.

Pesquisa ganha repercussão internacional
Um lote de 13 cartas atribuídas a Jair Presente, jovem morto por afogamento, na cidade de Americana/SP, psicografadas pelo médium Francisco Cândido Xavier, no período de 1974 a 1979, foi objeto de minuciosa pesquisa acadêmica realizada pelo psiquiatra Alexander Moreira de Almeida, diretor do Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde (NUPES-UFJF0) em parceria com o Departamento de Psiquiatria da Universidade de São Paulo, a partir de tese de pós-doutorado dos pesquisadores Denise Paraná e Alexandre Rocha.
O objeto da pesquisa não era comprovar a autenticidade do fenômeno mediúnico (comunicação entre “vivos” e “mortos”), mas cingia-se a apurar se os dados presentes nas cartas conferiam com a realidade. O estudo terminou por concluir que os dados eram críveis: “As informações comunicadas nas cartas eram precisas (nomes, datas e descrições de fatos acontecidos na vida da família) e verídicas (nenhuma informação comunicada nas cartas estava incorreta ou era falsa”, afirmou Moreira-Almeida em entrevista ao site UOL. Vários órgãos da imprensa nacional repercutiram a notícia, após destaque internacional obtido pelo trabalho publicado, em setembro do ano passado, pela revista científica “Explore”, da Editora Elservier, de Amsterdã, Holanda, e que pode ser conferido em http://www.journals.elsevier.com/explore-the-journal-of-science-and-healing/ .

Metodologia buscou blindar fraudes
Ao examinar a autenticidade dos fatos revelados nas cartas psicografadas, o estudo levou em conta, inclusive, a probabilidade de Chico Xavier ter tido acesso às informações por outros meios. Essa possibilidade terminou por se revelar extremamente remota. Em vários casos eram informações privativas da família, algumas delas, até desconhecidas dos familiares que recorreram a Chico na busca de comunicação com Presente. Foi o caso de informação trazida pelo suposto espírito comunicante sobre o falecimento de sua madrinha, episódio até então desconhecido da família.
Na metodologia empregada pela pesquisa, selecionaram-se 99 informações objetivas e passíveis de verificação. Para apurar sua veracidade, foram feitas entrevistas em profundidade com familiares e pessoas que tiveram acesso aos fatos. Também se recorreu a recortes de jornais e outros documentos.

Para saber mais: entrevista realizada pelo site uol, na Internet, pode ser acessada em:
http://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/redacao/2014/12/26/estudo-analisa-veracidade-de-cartas-psicografadas-por-chico-xavier.htm .





O Método e os Fatos
Sempre que se apresentam elementos de provas, como o desta notícia, sobre temas espíritas, há quem alegue que a pesquisa não seguiu rigorosamente o “método científico”. No grupo de debate da CEPA, na Internet, o tema foi discutido, a partir das experiências realizadas por William Crookes, recordadas em nossa última edição.
Vale registrar o que escreveu, ali, Ricardo Nunes, licenciado em filosofia: “O objeto de estudo do espiritismo não é passível de reprodução como em um laboratório de química”. Daí, segundo ele, os limites reconhecidos por pensadores modernos como Popper, Khun e outros, do que se chama “método científico”. Lembrou Ricardo que “as condições de harmonia entre médium e espíritos são únicas, e isto deve ser levado em conta, sob pena de querermos deitar o fenômeno espírita em um leito de Procusto”.
Àquele comentário, outro integrante do grupo, Homero Ward da Rosa, também formado em filosofia, acresceu: “O objeto de estudos do espiritismo, como diria Descartes é uma coisa que pensa, e, além disso, tem livre-arbítrio, vontade, intenção. Apresenta-se quando pode e a quem quer, e, por isso, não há como ser observado, estudado, analisado, dissecado, unicamente pelo método científico, acadêmico tradicional, o que não implica que este não possa ser utilizado”.
Poderíamos resumir esses lúcidos comentários, recordando que, para o espiritismo, espírito é gente como a gente. Médium, idem. Mais do que os métodos científicos com que se medem fenômenos físicos ou químicos, a essas manifestações se devem aplicar as interpretações, bem mais complexas e nunca matematicamente previsíveis e inteiramente esclarecedoras, da psiquiatria, da psicologia, da sociologia, da antropologia e do direito, ciências humanas que veem o ser humano como uma inteligência movida por saberes, crenças, interpretações, emoções e experiências díspares, e nem sempre enquadráveis em esquemas de previsibilidade.
De qualquer sorte, fatos são fatos. Em outras experiências comprovadamente sérias, já se fotografaram espíritos; já se analisaram suas comunicações escritas pelas mãos de um médium, identificando seus traços grafoscópicos com os de quando encarnado; já se gravaram suas vozes diretas; já se compararam estilisticamente seus ditados com a respectiva produção literária na vida física.
São manifestações factuais que, um dia, por certo, se hão de impor, não mais como elementos de crença, mas como expressões de uma realidade que, para ser devidamente reconhecida, está a reclamar a adoção de um novo paradigma científico, com coragem suficiente para romper com o materialismo em que se acabou enredando a cultura contemporânea. (A Redação).






Vergonha e esperança
“A morte não apresenta tabela de preço. Não premia delatores. Não adianta trazer dinheiro grudado ao corpo com fita crepe, o vexame será inútil.” (Martha Medeiros – Z.H. 7.1.2015).

Como todos os brasileiros de bem, a cronista gaúcha Martha Medeiros diz ter começado o ano “sentindo vergonha do país e, ao mesmo tempo, com esperança”. Expressou esse duplo sentimento em sua festejada coluna do jornal Zero Hora. A vergonha, obviamente, justificada pelos crimes contra o erário público, cometidos por agentes do governo e empresários. A esperança, esboçada na capacidade que hoje demonstra a Nação de apurar os ilícitos e punir os culpados.
Mas, o mesmo artigo, “Ela, a incorruptível”, adentra um tema de particular relevância para nós, espíritas: “Por mais que roubem” - escreveu Martha referindo-se a corruptores e corrompidos – “nunca poderão subornar a morte”, pois que “ela está logo ali em frente, aguardando seres humanos de todos os escalões, tanto os donos de jatinhos quanto os que puxam carroça”.
A inexorabilidade da morte seria, por si só, um estímulo à vida digna. Viver dignamente - atesta a experiência -, conduz à morte igualmente digna. Para quem, no entanto, admite a sobrevivência do espírito e da consciência após o decesso físico, os males antes dele praticados geram consequências que precisarão ser enfrentadas pelo agente.
Embora condutora de nossa cultura, a religião, com sua pregação de recompensas e castigos eternos, revelou-se incapaz de gerar uma ética apta à formação de uma sociedade livre da corrupção. Esta, infelizmente, impregna o Estado, os organismo sociais, suas mais caras instituições e, inclusive, a Igreja.
A filosofia espírita propõe uma visão mais ampla acerca da responsabilização do agente após a morte. Acrescendo à questão da sobrevivência individual do espírito a sua condição evolutiva admite que a busca dos valores imperecíveis é meta de todo o ser consciente. Erros e acertos fazem parte desse processo. Mas o erro, em qualquer circunstância, gera sofrimento. Deste, só se libera o espírito na medida em que a experiência e o aprendizado lhe inspirarem mudanças efetivas de conduta em direção do bem.
Indivíduos e sociedades humanas, mais do que o temor pelos castigos prescritos pelos sistemas penais e pelas religiões, precisam aprender a ler as leis da natureza e agir em sua conformidade. Quando convictos de que o mal praticado contra outros é a causa primordial de seus sofrimentos, serão, inexoravelmente, conduzidos a mudanças. O progresso, este é, efetivamente, inexorável. E a morte, como elemento intrínseco da vida, torna-se, nessa visão, mais um degrau galgado na escada que leva à responsabilidade individual e ao equilíbrio social.
Vida após vida, morte após morte, vamos, assim, aprendendo a administrar nossas vergonhas e a ampliar nossa esperança em prol de tempos melhores.







William Crookes
Na obra de Crookes sobre espiritualismo tudo o que falta é rigor científico, pela absoluta falta de descrição metódica e pela presença de conclusões infundadas. Uma pessoa habituada ao trato científico não conseguiria reproduzir os experimentos ilustrados e muito menos chegar às mesmas conclusões.
Sim, Crookes foi genial, mas em sua área de pesquisa. Já nos estudos espiritualistas apenas reproduziu a falácia do "espiritualismo científico" tão comum entre aqueles que creem. Ou seja, nada mais do que pseudociência.
Sergio Mauricio - Brasília, DF.

Nota da Redação: a manifestação acima foi feita na Lista de Debates da CEPA, pela Internet, onde se discutiu a matéria de capa de CCEPA Opinião de dezembro. Veja em “Nossa Opinião”, na página anterior, a posição de outros debatedores e a deste jornal.

Apenas um Pedagogo (1)
Com prazer republiquei em meu blog artigo do amigo Eugênio Lara, cuja versão original saiu na edição de dezembro último do jornal Opinião, do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, Brasil. Digo prazer porque se trata de um excelente artigo sobre o codificador Allan Kardec e porque revela o amadurecimento seguro do pensamento de um batalhador pelas ideias espíritas, que está atento a tudo o que se passa alhures e no interior de um movimento cada vez mais pluralizado e cada vez mais distante do foco original. Vejo o título – Apenas um Pedagogo – na sua duplicidade de significado, ou seja, um Pedagogo com P maiúsculo está anos luz à frente do homem comum, como o revela o autor neste artigo que vale a pena ler.
Wilson Garcia – Recife/PE. (Blog: http://www.expedienteonline.com.br/

Apenas um Pedagogo (2)
Gostei de ver Kardec em pauta no artigo do Eugênio do Opinião. Lendo a Revista Espírita lhe damos o devido valor. Mais que nunca, vejo isto.
Paulo Cesar Fernandes – Santos/SP.


As crises da fé e da religião
Interessantes considerações (Opinião em Tópicos/dezembro). Acontece que o ser humano moderno quer, ou deveria querer, compreender tudo, e não acreditar ou ter crença ou fé. No entanto, as religiões não se dirigem à compreensão, e sim à crença e ao dogma (que ninguém quer, ou deveria querer, aceitar sem compreender seus fundamentos e considerá-lo justo). A dúvida de Madre Teresa é bem típica de quem quer compreender e não aceita mais ter fé cega; no entanto, ela também deveria ter expressado a dúvida sobre o que é ou significa Deus, pois perdeu-se totalmente a noção do que essa entidade é e significa - aliás, por culpa das religiões! Interessante também, no caso dela, que o amor altruísta não depende de fé, e sim de espiritualidade (pois ele não faz sentido de um ponto de vista materialista, que deve necessariamente levar ao egoísmo).
Valdemar W. Setzer – São Paulo.






Loucos ou covardes?
Como classificar pessoas como os autores dos atos de terrorismo contra jornalistas do “Charlie Hebdo”, de Paris, em 7 de janeiro último?
Crentes ou dementes?      É difícil admitir que algum tipo de fé religiosa possa justificar tanta barbárie.
Como entender a alma e a mente de indivíduos assim?
Quando o fanatismo, seja religioso, ideológico ou político, passa a habitar a alma humana, sua mente se fecha para a razão. Renunciar à razão é negar o divino que está em nós. Nada identifica melhor a presença de Deus no interior da alma humana do que o cultivo da razão. Raciocinar é aprender a ler o grande livro da Natureza. Nenhum livro sagrado é mais rico do que o repertório de leis naturais gravadas na consciência imortal do ser humano.

Homens ou feras?
Foram necessários alguns séculos de civilização para que inteligência e ética se encontrassem, dando lugar ao reconhecimento dos direitos fundamentais do homem. Valores como igualdade e liberdade, frutos da fraternidade que, por sua vez, nascera da sociabilidade, levaram à conquista da dignidade humana.
Por todo o tempo em que fomos governados por nossos deuses tribais, desconhecemos os atributos de dignidade da alma humana. A ruptura com o sagrado e o resgate do natural abriram caminho à emancipação do espírito.
Respeito à vida, à integridade, às ideias, às crenças e sentimentos do outro é o que define o ser humano. É o que nos distingue da fera que já fomos e nos liberta do atavismo religioso em que permanecemos encarcerados, por longo tempo.

Furor sagrado?
Por tempos, o domínio do sagrado sobre o profano justificou a vingança e se sobrepôs à própria vida humana. Esta nada valia, quando em confronto com o universo sacro. Os novos tempos trouxeram para o mesmo nível o laico e o religioso. A crítica e a sátira a um e a outro restaram balizadas por idênticos regramentos: aqueles prescritos pelo moderno estado de direito. Mesmo para segmentos como o nosso, que defendem o respeito a todas as crenças, cultos e simbologias religiosas, é repulsiva e absolutamente injustificável a vindita, o furor sagrado em nome do qual se atenta contra a vida e a liberdade.

Desencanto ou esperança?
Episódios assim geram mais perguntas do que respostas.
Mas o tempo age sempre em favor do homem. Ele transmuda ignorância em aprendizado, vingança em tolerância, tolerância em alteridade, e ódio em amor.





2015 – Ano de Simpósio
Como acontece de dois em dois anos, 2015 é ano do Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita, criação de Jaci Regis para o Instituto Cultural Kardecista de Santos. Na oportunidade, haverá também Assembleia Geral da CEPABrasil, com eleição de dirigentes para a próxima gestão. Veja as informações abaixo sobre o Simpósio:


Curso Básico de Espiritismo no CCEPA
O Departamento Doutrinário do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre promove, a partir de 25 de março próximo, um Curso Básico de Espiritismo, inteiramente aberto ao público. As aulas, em número de cinco, serão ministradas por Salomão Jacob Benchaya (Diretor do Departamento) e a pedagoga espírita, integrante do CCEPA, Dirce Teresinha Carvalho Leite.
As inscrições, gratuitas, já estão abertas. Veja os detalhes no cartaz no topo da página.





Sobre o futuro do Espiritismo

Vinícius Lima Lousada – vlousada@hotmail.com - Educador – Bento Gonçalves/RS


“O Espiritismo é a grande niveladora que avança para aplainar todas as heresias. Ele é conduzido pela simpatia; ele é seguido pela concórdia, pelo amor e pela fraternidade; ele avança sem abalos e sem revolução; ele nada vem destruir, nada derrubar na organização social; ele vem a tudo renovar”.    Um filósofo do outro mundo (*).                                                                             

Que será do Espiritismo nesses dias de pós-modernidade desvairada, de afetos líquidos, de certezas nada certas, de fidelidades transitórias à epistemologia espírita? Como se portará essa filosofia diante de escassez de sabedoria no copo transbordante de tanta informação veiculada, não raramente, superficial?
Como lidará a Doutrina dos Espíritos, no século XXI, com tamanha mídia a seu serviço nem sempre apresentando o pensamento lúcido de Allan Kardec, forjando um caráter de religião nacionalista – que o Espiritismo com Kardec nunca teve – com pregações, cânticos e rezas que parecem configurar um novo evangelismo, pouco identificado com a tradição filosófica em que o mestre inseriu a Doutrina, desde O Evangelho segundo o Espiritismo, ao apresentar como seus precursores Sócrates e Platão?
Que serão dos colóquios naturais com os desencarnados em tempos que um novo moisaísmo parece ecoar nas mentes e proibir, sem chancela alguma do ensino coletivo dos Espíritos, a arte de dialogarmos com os supostos mortos, apesar das instruções de Kardec sobre as evocações?
As pessoas solitárias não poderão chamar seus amados, domiciliados no além, para um abraço a mais, uma conversa a mais, uma elucidação sobre as leis da vida e suas consequências? Não poderá o coração em dúvida rogar ao seu benfeitor espiritual aconselhamentos enobrecedores? Até quando indagar os Espíritos sobre temas sérios, a despeito do ensino kardequiano, vai ser algo visto como coisa permitida somente para gente de nível evolutivo inencontrável na Terra?
E os médiuns, terão de esquecer que o são e recalcarão as suas potencialidades psíquicas para se ajustarem ao adestramento conduzido por alguns agentes que ignoram a pedagogia da mediunidade proposta por Kardec ou não guardam na alma qualquer vivência mais profunda com o fenômeno espírita?
Como se comportará a filosofia composta pelos Espíritos e Kardec diante da negação do diálogo e do debate que se coloca para dar lugar aos discursos “iluminados” que não suportam a dúvida e a inquietação filosófica?
O Espiritismo suportará aqueles que se creem com credenciais maiores que as de Kardec ao ponto de ignorarem a sua obra para criarem sistemas de ideias particulares e exóticas?
Mesmo que a arrogância não ouça o pensamento crítico, se faça excludente com os que se dedicam a pensar filosoficamente e venha a se dedicar a um discurso obscurantista – que promova a ignorância como virtude e achincalhe a inteligência em nome da fé cega, estigmatizando-a de vaidade –, o Espiritismo prosseguirá no ar, fazendo vibrar as fibras íntimas dos que se sentiram tocados no coração por sua filosofia, adotando-a como referência existencial.
O Espiritismo independe dos homens e das mulheres ou das instituições. É mensagem dos Espíritos à humanidade domiciliada na carne e, mesmo que o seu ensino seja proibido – algo que seus adversários desistiram, faz tempo - ele ainda existirá.
O Espiritismo está na Natureza, está no Espírito, nas leis que a vida encerra e revela em sua majestade, delineando uma ideia, a nós outros, acerca da Inteligência Suprema e de nossa própria pequenez ante a Sapiência Divina.
Será uma lástima se o saber espírita, com todo o seu potencial transdisciplinar, como ciência do infinito em permanente diálogo criativo com as leis naturais, seja encarcerado nas nossas referências religiosas do passado.
O futuro, diz o adágio popular, a Deus pertence. Mas, quero crer que os limitantes impostos ao Espiritismo pela falta de lucidez em voga se dissiparão ante o ensino progressivo e coletivo dos Espíritos que se apresentam diuturnamente à grande família humana, independente de credo, partido, questões étnicas, religião, condições econômicas ou posições ocupadas na sociedade.
O Espiritismo, com Kardec, prossegue. E o seu futuro? O mesmo dos grandes ideais: como uma fênix mitológica ressurgirá sempre das cinzas a que fora reduzido para, em novas possibilidades, renovar tudo à sua volta.
Queiram as mentes estreitas ou não, o Espiritismo prosseguirá em sua tarefa de renovação, apesar delas, sendo que os Espíritos são os seus maiores propagadores, como um dia ensinou Allan Kardec.
Construamos, enfim, uma convicção espírita na base sólida da fé raciocinada e estudemos Kardec, na fonte e em profundidade, para que através de nós o Espiritismo seja Espiritismo, com os seus princípios, desdobramentos e a lucidez que o caracteriza desde as bases kardequianas.


 (*) Revista Espírita, junho de 1863. O futuro do Espiritismo.