segunda-feira, 19 de outubro de 2015

OPINIÃO - ANO XXI - Nº 234 - OUTUBRO 2015


Os altos índices de suicídio no mundo levaram a Associação Internacional de Prevenção do Suicídio a desfechar a campanha Setembro Amarelo estimulando a discussão do assunto e a divulgação de ações preventivas. O espiritismo talvez possa contribuir mais do que tem feito até aqui.
           
Índices assustadores
No mundo, quase um milhão de pessoas se suicidam por ano. Segundo a Organização Mundial de Saúde - OMS, a cada 40 segundos alguém se mata em algum lugar do Planeta. No Brasil, ocorrem cerca de 10 mil suicídios anualmente. No último mês de setembro foi desfechada ampla reflexão sobre o tema, com a campanha Setembro Amarelo. Ficou instituída a data de 10 de setembro como Dia Mundial de Prevenção do Suicídio.

Suicídio: tema recorrente na obra de Allan Kardec
A pedagoga espírita Dora Incontri (Bragança Paulista/SP) ao ensejo do Setembro Amarelo publicou em seu site artigo com excelente análise do tema à luz do espiritismo. Destaca as várias entrevistas na obra O Céu e o Inferno publicadas por Kardec com espíritos suicidas, e a ideia central de que o suicídio é uma grave infração às leis divinas. As mesmas entrevistas, já naquela época, cogitavam das múltiplas causas que levam ao suicídio, como “a solidão, o abandono, o alcoolismo aliado à mendicância, a perda de entes queridos, a perda de fortuna, o amor não correspondido e o tédio existencial”. A pedagoga se reporta ainda a artigo da Revista Espírita (julho 1862), intitulado “Estatística dos Suicídios”, onde Kardec reconhece entre as causas do suicídio “doenças mentais, problemas sociais, e, sobretudo, o avanço do materialismo e a falta de perspectiva existencial”. Para Incontri, “Kardec procurava abordar as questões, abrangendo todos os seus aspectos e procurando soluções educativas e preventivas”. Ela destaca que Allan Kardec apontava o conhecimento da vida pós-morte como a mais importante, eis que: “Demonstrada a imortalidade, de maneira clara e racional, o suicídio perde sua razão de ser”.

Literatura mediúnica: pesada, determinista, condenatória
Dora Incontri estabelece um contraste entre o tom equilibrado de Kardec e a abordagem dura da literatura mediúnica posterior, especialmente no Brasil. Destaca Memórias de um Suicida, de Yvone Pereira, onde “os suicidas são chamados o tempo inteiro de criminosos, réprobos, condenados”, causando espécie “a descrição pavorosa daquele vale nas trevas profundas, para onde foram arrastados e aprisionados, como se fosse uma espécie de campo de concentração de suicidas”. Assim, “outras narrativas, por médiuns brasileiros seguem trilhas parecidas”, tudo, segundo a analista, “muito pesado, determinista, condenatório”.
O artigo tem o título de “Suicídio – a visão espírita revisitada”. Nele, Dora Incontri chama a atenção para as pesquisas que apontam hoje como causa importante do suicídio a depressão: uma “doença psíquica que requer cuidados, amparo, terapia e, às vezes, remédios”. Lembra que, em pleno século XIX, Kardec assinalava que a doença mental isentaria ou atenuaria a responsabilidade do suicida.





Espíritas ante o suicídio
Recomendamos a leitura do artigo da Professora Dora Incontri (foto). Ele pode ser acessado em:
Com ele concordamos inteiramente. Em outra oportunidade, neste mesmo periódico (“Opinião em Tópicos”, edição de julho/2011), consignamos que Allan Kardec, mesmo sob a premissa de que o suicídio, em tese, se constituía em grave violação às leis divinas, abordou com alguma profundidade o tema, nas questões 943 a 957 de O Livro dos Espíritos. A tônica das respostas dos espíritos às diversificadas situações levantadas por Kardec é de condenação ao suicídio e ao auxílio ao mesmo. Mas as questões ali suscitadas deixam espaço para uma discussão sobre a atenuação ou exclusão da responsabilidade em casos de perturbação mental ou ante a iminência da morte. É oportuno, a propósito, reler as questões 944-a e 953.
O espiritismo, doutrina de elaboração humana, e não revelação divina pronta, acabada e insuscetível de discussão, precisa estar permanentemente atento à evolução do pensamento humano e às contribuições oferecidas pelas diferentes áreas do conhecimento. 
Não é de se crer que o número elevado de suicídios no mundo esteja apenas ligado ao materialismo e ao doloso desrespeito às leis da vida. Estudos indicam que, em apreciável quantidade, decorrem eles de graves perturbações mentais, provavelmente incontornáveis sem o precioso contributo da assistência e da solidariedade humana.
O espiritismo não pode ser visto como um estatuto penal condenatório, a que o reduzem alguns espíritos arrependidos, diante da surpresa da continuidade da vida, quando reingressam no mundo espiritual. Antes de tudo, a doutrina espírita deve ser tratada como elevado instrumental pedagógico, capaz de prevenir dores e aprimorar valores de conduta. Sob essa perspectiva, poderemos fazer mais e melhor também ante esse doloroso quadro do suicídio no mundo. (A Redação)




Sabedoria e Virtude na Política
“É necessário que os princípios de uma política 
sejam justos e verdadeiros”. Demóstenes

Ademar Arthur Chioro dos Reis
Platão, em “A República”, sonhava com nações governadas por filósofos. Allan Kardec anteviu povos administrados por homens e mulheres cujos atributos intelectuais e morais houvessem atingido qualidade tal que os governados consentissem em ser guiados “por suas luzes e justiça”. Esta seria, segundo o fundador do espiritismo, a última das aristocracias: a “aristocracia intelecto moral”. (“Obras Póstumas”), marcando uma era nova para a humanidade.
A sociedade moderna, no entanto, preferiu o caminho da democracia, superando qualquer forma de poder aristocrático, inclusive aquela conformada pela sabedoria e pela moral. Deu-se corpo e forma à democracia sonhada na Grécia antiga, na convicção de que os anseios populares nela encontrassem mecanismos de plena e justa realização. Apesar, contudo, de tantos e sempre apreciáveis esforços na busca de soluções de desenvolvimento e progresso por meio do chamado regime de “governo do povo para o povo”, este, pelo menos em nosso país, ainda não produziu todos os frutos dele esperados.
A caminhada democrática tem se revelado longa e dolorosa. O aprimoramento da democracia requer além de governantes sábios e virtuosos, eleitores e organismos políticos detentores de iguais qualidades. Enquanto a tanto não se chega, o que temos, sob a formal aparência de democracia, são meras e pragmáticas acomodações de interesses pessoais e partidários. Ainda que se ensaiem e se efetivem ações de governo com nítido direcionamento ao bem comum, logo ali adiante poderão elas experimentar retrocessos, na medida em que esbarrem em interesses de grupos cujo perfil não prime nem pelos melhores dotes de inteligência e educação, nem por atributos éticos compatíveis com os ideais republicanos.
No início deste mês, deixou o governo um cidadão respeitável cuja competência profissional e dignidade pessoal o haviam guindado, 19 meses antes, à titularidade de uma das mais importantes pastas do Governo Federal, o Ministério da Saúde. Sua saída, de acordo com manifestações da própria Presidente da República, e muito bem analisadas e repercutidas por toda a imprensa especializada, só aconteceu porque aquele cargo, o da administração de um dos mais sensíveis setores ligados ao bem-estar da população, fora exigido por uma determinada agremiação partidária, como requisito para emprestar seu apoio político ao governo. Moeda de troca utilizada em nome da propalada governabilidade, a alteração ministerial, diga-se de passagem, parece, sequer haver atingido seus pragmáticos objetivos, a se julgar por algumas derrotas políticas governamentais registradas no momento em que é escrito este editorial.
A instituição que edita este jornal e a comunidade de espíritas laicos e livre-pensadores com a qual este órgão interage conhecem de perto as qualidades intelecto-morais do Doutor Ademar Arthur Chioro dos Reis. O ex-vice-presidente da Confederação Espírita Pan-Americana, médico sanitarista e professor cujo dinamismo, amor à causa pública e capacidade de trabalho puderam, agora, ser postos em prática em favor de um Brasil, ainda tão carente de políticas públicas de saúde, honrou, no período em que esteve à frente do Ministério da Saúde, o conceito de que já gozava em nosso meio, assim como perante os organismos de saúde pública em que já atuara.
Em editorial que publicamos logo após sua posse (CCEPA Opinião n. 216, março 2014), reproduzimos palavras pronunciadas por Chioro em seu discurso de posse: “Não abrirei mão dos valores, princípios e ideais que forjaram o que sou”, declarou na oportunidade. Neste momento em que, por ingerências políticas tão opostas àqueles mesmos valores, princípios e ideais, é ele levado a deixar o alto cargo que dignamente exerceu, renovamos nosso sonho de que, em algum dia, atinja este país condições sócio-político-culturais de ser administrado por cidadãos tão honrados como ele. Que eleitores e homens públicos desta nação ainda tão sofrida cresçam, juntos, em sabedoria e moralidade, a ponto de readquirirmos a fé de sermos guiados pelas “luzes e justiça” de nossos governantes




Razão e religião no Século XIX
O cenário do Século XIX, época do surgimento do espiritismo na Europa, já não era mais de credulidade religiosa. A consolidação das ideias iluministas do Século XVIII, especialmente na França de Allan Kardec, aliada ao positivismo e à inquietação científica provocadora das teses evolucionistas, deixara de dar suporte ao dogmatismo religioso e à própria ação do deus bíblico na criação e na condução do Universo.
O que ainda salvava a religião, naquele tempo, era uma espécie de acordo tácito que a sociedade fizera com a Igreja para obter a separação entre ela e o Estado. À religião caberia cuidar do sobrenatural, enquanto que o estado laico e a sociedade civil se preocupariam com o conhecimento científico, com a educação e seus efeitos no campo do intelecto e da moral.

O natural e o sobrenatural
Essa divisão entre o natural e o sobrenatural, o profano e o sagrado, o humano e o divino, deu sobrevida à religião. Preservou-lhe a autoridade e a respeitabilidade fundadas na crença que ainda podia subsistir ao lado e à margem da razão e do conhecimento. O indivíduo passou a representar dois papéis diferentes: nos atos da vida civil, pensava e se comportava laicamente; quando na igreja ou participando dos rituais sociais que a cultura e a tradição haviam preservado para a religião, agia como crente. Um personagem não interferia no domínio do outro, e, assim, ambos conviviam pacificamente. O real e o mitológico se alternavam na vida do cidadão e da sociedade.
Até quando?

Teísmo e Deísmo
Allan Kardec e o espiritismo emergiram desse caldo cultural com o propósito de dar cabo àquela incômoda dicotomia. No fundo, ela era responsável pela hipocrisia religiosa, incompatível com a razão, condutora da modernidade.
O propósito era de estabelecer a aliança entre a ciência e a religião, buscando fundamentos comuns capazes de compatibilizar uma com a outra. Foi nesse terreno que Kardec se moveu.
A questão número 1 de O Livro dos Espíritos, “O que é Deus?”, abriu esse caminho, propondo um conceito naturalista de divindade: “inteligência suprema e causa primeira de todas as coisas”. Nele estava refletido o deísmo filosófico que se contrapõe ao teísmo religioso.

O fator Deus no espiritismo
Tudo estaria definido se abordagens subsequentes não tivessem mantido, e vigorosamente, o Deus pessoal cristão em paralelo com o Deus naturalista expresso na questão inaugural da obra prima kardeciana.
No XIV Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita (Santos/SP, 30/10 a 1º/11/2015), com o trabalho “O Pai, o Filho e o Espírito”, vou abordar esse intrincado tema: afinal qual o Deus que o espiritismo adota: o Deus-Pai dos cristãos, amoroso e voluntarista, criador de todas as coisas (teísmo) ou o Deus inteligência suprema e causa primária de todas as coisas (deísmo) sugerido pela questão número 1 de O Livro dos Espíritos?  Ou há espaço para que ambos convivam sem conflitos, no âmbito espírita?
Não será mais que uma singela provocação, início de uma reflexão, convite ao aprofundamento de um tema que ainda não está bem resolvido entre nós: o fator Deus.
             



A CEPA e a Espiritualidade
Eugenio Lara - arquiteto e designer gráfico, é editor do site PENSE – Pensamento Social Espírita [www.viasantos.com/pense e membro-fundador do CPDoc - Centro de Pesquisa e Documentação Espírita [www.cpdocespirita.com.br]. Autor de Breve Ensaio Sobre o Humanismo Espírita e dos livros em edição digital: Os Celtas e o Espiritismo, Conceito Espírita de Evolução, Os Quatro Espíritos de Kardec, Milenarismo e Espiritismo, Amelie Boudet, uma Mulher de Verdade - Ensaio Biográfico e Racismo e Espiritismo.

Tema instigante esse do próximo congresso da Confederação Espírita Pan-Americana (CEPA): A Espiritualidade no Século 21 — a se realizar em maio de 2016 na bela cidade de Rosario, Argentina. Digo instigante, especialmente pelo fato da CEPA ainda ser vista como uma entidade contrária à religião, ao Cristo, ao Evangelho, suposta inimiga da Federação Espírita Brasileira (FEB), do Chico Xavier, Emmanuel etc. etc. Ao menos é isso que pode-se deduzir acerca de manifestações das federações e da imprensa espírita, notadamente a centenária revista Reformador, órgão de divulgação da FEB.
Todavia, nunca foi objetivo dessa confederação combater qualquer tipo de manifestação religiosa, inclusive o Espiritismo Cristão, religião consolidada e hegemônica no meio espírita, ao menos no Brasil. Falo isso não como delegado ou integrante dos quadros da CEPA, algo que nunca fui, mas como alguém que observa o comportamento das instituições espíritas. Aquele surrado e decrépito discurso de que existe algum tipo de conspiração das trevas para tirar Jesus e seu Evangelho do Espiritismo não se sustenta mais.
Porque se há um tema premente e fundamental para ser debatido é esse: a espiritualidade. O que seria bem diferente se fôssemos discutir a religiosidade, componente menor, pontual, um simples momento no processo de crescimento do espírito. Pensar a espiritualidade no contexto kardecista significa pensar a transcendência do princípio inteligente em sua imanência natural e interexistencial, cuja abrangência extrapola os limites ideológicos e comportamentais impostos pelas seitas e religiões.
Apesar da acepção da palavra espiritualidade estar associada à religiosidade, ao misticismo, ela também tem outro sentido, bem mais abrangente. Tem a ver com sublimidade, com elevação espiritual. Tanto os dicionários Houaiss como o Aurélio definem assim essa palavra, um substantivo feminino: “qualidade do que é espiritual” (Houaiss) ou “tudo o que tem por objeto a vida espiritual” (Aurélio). A espiritualidade parece estar “na moda”, todos falam dela, mas poucos sabem o que realmente significa.
Por sua vez, misticismo, religiosismo, religiosidade etc. etc. deveriam ser coisas estranhas no meio espírita, já que seu fundador, Denizard Rivail, mais conhecido como Allan Kardec, sempre nos desaconselhou a seguir por essa trilha. “O poder do Espiritismo está em sua filosofia”, afirmou com muita propriedade. É a partir daí que temos de pensar ou talvez repensar a questão da espiritualidade, ao invés de persegui-la em esquemas hermenêuticos, teológicos ou revelatórios.
Acadêmicos e estudiosos vinculados ao Espiritismo Cristão preferem trilhar o caminho teológico, mais próximo do misticismo, da intuição contaminada, do que da compreensão do legado kardequiano, pois interpretam o Espiritismo à luz do Evangelho, e não o inverso, como seria natural numa atitude de bom senso, racional, concorde com a autêntica natureza do pensamento kardecista.
Pois é justamente esse mesmo bom senso que parece orientar os quadros da CEPA, ao somarem esforços na discussão de um tema essencial para os dias de hoje, momento tão marcado pelo hedonismo exacerbado e desenfreado, pela desigualdade, a miséria digital e não-digital, enfim, uma época ainda dominada pela violência e o egoísmo, seja individual ou coletivo.
A proposta de uma perspectiva espiritualista para a humanidade, em contraponto à visão materialista e mecanicista, passa necessariamente pelo debate do significado e da importância da espiritualidade nos dias atuais. Como definir e conceituar essa espiritualidade? Ela é natural ou é fruto da cultura, do meio social? De que modo essa pretensa espiritualidade, sob a ótica do kardecismo, pode ser útil ao homem contemporâneo? Pode ela funcionar como bússola, como o farol que apontará caminhos possíveis de serem trilhados, sempre sob a inspiração de uma ética vigorosa, de valores temperados pelo humanismo, pelo amor e respeito à vida e ao mundo?
A resposta a essas prementes questões somente surgirá do processo de produção do conhecimento espírita, de estudos e pesquisas sérias, do debate franco e aberto, sempre disposto a absorver novas ideias, sem perder, contudo, a referência da tradição religiosa, ou melhor dizendo, da tradição espiritualista que antecede o Espiritismo e lhe dá sustentação. Afinal, o Espiritismo se desenvolveu no seio do espiritualismo e é nele que sua contribuição filosófica se insere.
Essa espiritualidade, portanto, deverá necessariamente se balizar numa perspectiva humanista, libertária, independente de qualquer credo religioso, de qualquer ideologia política, seja de direita ou de esquerda, cristã ou não-cristã. O que sugere um modo de pensar a espiritualidade sem as amarras do cristianismo ou outra ideologia similar. Sem sectarismos religiosos ou políticos, sem moralismos e teologismos mirabolantes, sem cair no lugar comum da condenação à religião como simples “ópio do povo” ou “instrumento de dominação”. A religião é muito mais do que isso. O estudo da espiritualidade sob a ótica kardecista correlacionada com o conhecimento contemporâneo irá nos oferecer, necessariamente, uma compreensão mais clara e abrangente do fenômeno religioso e do papel das religiões no mundo atual.





Benchaya fala sobre o ESDE em Congresso on-line
O Diretor do Departamento de Estudos e Eventos do Centro Cultural Espírita, Salomão Benchaya (foto), foi convidado a participar como palestrante do 1º Congresso On-Line de Transformação Através do Estudo Espírita (COLTAEE), um evento totalmente transmitido pela internet organizado pelo publicitário Lúcio Maier, de Mongaguá-SP. Cerca de 12 palestrantes se apresentaram no evento.

Na sua palestra, transmitida por streaming para centenas de inscritos, no dia 12 de setembro último e reprisada  no dia 13/9, Benchaya abordou “O Estudo Sistematizado do Espiritismo” historiando a criação e o lançamento do ESDE, em 1978, pela Federação Espírita do Rio Grande do Sul, na gestão de Maurice Herbert Jones e seu posterior lançamento, em 1983, pela FEB. As resistências e dificuldades encontradas, as características do estudo sistematizado, seus objetivos, sua fundamentação no projeto de Allan Kardec e suas consequências para o futuro do movimento espírita foram destacadas num vídeo de 40 minutos que pode ser acessado em: 

Intercâmbio do CCEPA com Espíritas do Maranhão
Após conferência pronunciada na Assembleia Legislativa do Estado do Maranhão (veja notícia em América Espírita), no dia 1º de outubro, em comemoração ao Dia Estadual do Espiritismo, o presidente do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, Milton R. Medran Moreira, fez palestras em três centros espíritas da capital, São Luís, em programação elaborada pelo presidente do Instituto do Pensamento Espírita do Maranhão, Herbertt Morais. As palestras de Medran foram realizadas respectivamente: no C.E. Ismael, sede da Federação Espírita do Maranhão – FEMAR - (“Direito e Justiça na Filosofia Espírita”), onde o palestrante foi apresentado pelo presidente da Federativa estadual, Osmir Freire; no Centro Espírita Eurípedes Barsanulfo (“Allan Kardec, um Humanista”); e no Centro Espírita Francisco de Assis (“O Direito à Vida no Livro dos Espíritos”).

Herbertt Morais e Milton Medran na Assembleia Legislativa do Maranhão
              





Estímulo ao debate e à reflexão
Há bastante tempo recebemos em nosso Centro o periódico "CCEPA Opinião", do qual gosto muito por trazer sempre artigos que inserem o Espiritismo num contexto histórico e cultural amplo, estimulando o debate e a reflexão em torno da doutrina. Cumprimentos.
Crisanto Amantea Pereira – Presidente do  CIPE - Círculo Interno de Preparação Espiritual - Travessa do Carmo, 126 - Porto Alegere - RS

Apelo que vem de Cuba
Escrevo desde Cuba. Sou dentista e eu tenho 33 anos de idade. Cerca de três anos atrás eu comecei a visitar um centro espírita chamado Amor e Humildade e encontrei muitas
coisas boas e da assistência espiritual que por muito tempo eu tinha precisado. Além disso, eu gosto do Português. Estudei a língua numa escola de línguas perto da minha casa e sempre encontro uma maneira de ler toda a literatura possível em português. Eu gostaria de ter comunicação com vocês, saber como desenvolvem o trabalho espírita em sua comunidade ou centro e saber se vocês podem enviar por correio algum tipo de literatura que possa me ajudar a aprender mais. Obrigado pelo seu tempo. Deus lhes abençoe muito.
Na espera da sua resposta,
 Dr. Rómell Lazo Nodarse  - Cuba.

Nota da Redação – Interessados em comunicar-se com Rómell, podem fazê-lo pelo e-mail romell@finlay.cmw.sld.cu .

Novo endereço da Aliança Espírita Evangélica
Gostaríamos de agradecer ao Departamento de Comunicação Social do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, pelo envio mensal de CCEPA Opinião, cumprimentando-os pelo belo trabalho que desenvolve esse conceituado jornal.
Aproveitamos para informar nosso novo endereço, para o qual o jornal poderá continuar a ser remetido. 
Rua Humaítá, 569 - Bela Vista - Cep 01321-010 - São Paulo / SP
Fraternalmente.
Aliança Espírita Evangélica – Secretaria
Renata Pires  Tel.: (11) 3105-5894  Fax: (11) 3107-9704

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

OPINIÃO - ANO XXI - Nº 233 - SETEMBRO 2015

Memória: 150 anos de Espiritismo no Brasil

O Primeiro Centro Espírita
A data de 17 de setembro de1865 tornou-se marco inicial do espiritismo no Brasil, com a fundação do Grupo Familiar Espírita, em Salvador, Bahia.

Espiritismo à moda brasileira
Luiz Olympio Telles de Menezes
A fundação do primeiro centro espírita no Brasil deveu-se à iniciativa do jornalista e intelectual baiano Luiz Olympio Telles de Menezes (1828/1893). De formação católica, e defendendo expressamente que “Espiritismo e Catolicismo são a mesma Igreja de nosso Senhor Jesus Cristo” e que o espiritismo seria “o tradutor fiel, pelos enviados de Deus, das Doutrinas do Evangelho” (carta ao arcebispo de Salvador, Manoel Joaquim da Silveira), Luiz Olympio fundou, na capital baiana, em 17.9.1865, o Grupo Familiar Espírita.
Luiz Olympio, que era professor de latim e versado em francês, conhecera as obras de Allan Kardec no original e fez delas uma interpretação adaptada às suas crenças pessoais de católico militante. Em 1869, o intelectual baiano protagonizaria outro acontecimento de pioneirismo para a história do espiritismo no Brasil, lançando seu primeiro jornal espírita, “O Écho d’Alêm-Túmulo”. A publicação mereceu, inclusive, registro na Revista Espírita, em novembro daquele ano. Ali, Kardec destacou a coragem de Luiz Olympio por lançar “num país refratário como o Brasil”, onde o catolicismo era religião oficial, uma publicação de teor espírita. Classificou como “bastante satisfatória” a forma como o intelectual baiano tratou da questão da comunicação dos espíritos. Ao final de seu comentário, entretanto, aduziu Kardec: “Outras passagens, referentes mais especialmente à questão religiosa, dão-nos ocasião para algumas reflexões críticas.”.

A primeira comunicação
O caráter marcadamente cristão e católico imprimido por Luiz Olympio Telles de Menezes ao centro por ele fundado, como não poderia deixar de ser, atraiu ao Grupo Familiar Espírita espíritos afinados com suas respectivas crenças. Assim, na própria sessão inaugural das atividades do núcleo, uma entidade espiritual que se identificou como Anjo de Deus, ditou mensagem impregnada de valores teológicos de nítido sentido católico. A mensagem psicográfica falava em “redenção” das almas, antes condenadas pelo ”pecado”, e aludia à “salvação” de todos os espíritos que se arrependessem e praticassem o bem “pelo amor de Deus e de sua Mãe, a Virgem Santíssima, sofrendo os males da vida corpórea com resignação e paciência.”.
A íntegra dessa mensagem pode ser vista em:

No centenário, um carimbo postal
Há 50 anos, quando do centenário de fundação do Grupo Familiar do Espiritismo, por iniciativa da Federação Espírita Brasileira, Telles de Menezes foi homenageado pelo então Departamento de Correios e Telégrafos, com um carimbo postal, relembrando sua atuação pioneira na implantação do espiritismo no Brasil. O carimbo foi aplicado na cidade de Salvador, em 17 de setembro de 1965.





Anjos e homens
Na historia das religiões, anjos são, comumente, os portadores das revelações vindas dos céus para a Terra. Antes deles, eram as próprias divindades que se comunicavam com os homens. As religiões monoteístas, no entanto, terminaram por colocar Deus em um trono cercado de aparato burocrático de complexidade e suntuosidade tais que a Ele já não mais competiria realizar esse intercâmbio. Que ficasse isso a cargo dos anjos, seus porta-vozes devidamente credenciados a falar com os homens!
Nem Deus, nem anjos - proclamaria, corajosamente, em seu tempo, Allan Kardec, distanciando-se das religiões e dessacralizando o que chamaria de comunicação mediúnica. A proposta era revolucionária. Ao invés de anjos trazendo revelações dos céus à Terra, homens – encarnados ou desencarnados, mas nada mais que homens – aprimorariam o diálogo entre as múltiplas dimensões da vida nas quais se movimenta o espírito. A racionalidade humana, atributo divino presente no espírito, daria conta dessa tarefa.
Pena que nem todos os espíritas entenderam assim. Para dar legitimidade a uma comunicação espiritual realmente “superior” teria ela que ser trazida e sustentada por um anjo.
Do anjo de Deus ao anjo Ismael, foi-se, dessa forma, construindo a “religião espírita”, respeitável, sem dúvida; compatível, talvez, com a índole de um povo de fortes tradições católicas; um passo a frente, com certeza, na compreensão dos ensinos de Jesus... Mas distante da concepção filosófica e humanista do pedagogo francês, autor de O Livro dos Espíritos.
Decorridos 150 anos desde que o espiritismo aqui aportou com jeito e verbo angelicais, o grande desafio é humanizá-lo. É reinseri-lo ao âmbito da lei natural de onde a sacralidade e a sobrenaturalidade religiosas insistem em arrancá-lo. É fazer dele efetivo meio de comunicação entre a humanidade encarnada e a humanidade desencarnada, e, mais do que isso, instrumento eficiente de dignificação da vida humana, em harmonia e cooperação com os movimentos dispostos a produzir conhecimento e gerar felicidade, nesta e em outras dimensões. 
É tempo, enfim, de construirmos um espiritismo autenticamente humanista. (A Redação)



O bem sempre triunfa
“Há quedas que servem de partida para escaladas mais altas”.Shakespeare
Ao oferecer denúncia contra dois importantes parlamentares federais, no último mês de agosto, o Procurador-Geral da República, a título de epígrafe à peça acusatória, transcreveu esta sentença de Mahatma Gandhi:
“Quando me desespero, eu me lembro de que, durante toda a história, o caminho da verdade e do amor sempre ganharam. Têm existido tiranos e assassinos, e por um tempo eles parecem invencíveis, mas no final sempre caem. Pense nisto: sempre.”.
Tempos de crise ética, como este que o Brasil vive, são mesmo propícios à reflexão sugerida pelo eminente chefe do Ministério Público Federal. Allan Kardec e as entidades espirituais por ele entrevistadas em O Livro dos Espíritos ofereceram semelhantes argumentos no sentido de que o amor e a verdade são valores sempre aptos a triunfar sobre o ódio, a mentira e todos aqueles ingredientes de que se valem os usurpadores dos bens da vida em prejuízo da sociedade. Tudo será uma questão de tempo e de compreensão de que o mal causa sofrimento e o bem produz felicidade.
 Entretanto, advertiram os espíritos ser necessário “que o mal chegue ao excesso para que se compreenda a necessidade do bem e das reformas” (O.L.E. questão 784). Na pergunta, Kardec buscara interpretar a angústia dos justos ao presenciarem o aparente triunfo dos réprobos, em um mundo que, paradoxalmente, os espíritos afirmavam ser regido por uma lei de progresso.
Ocorre que o progresso moral, mesmo sendo inexorável na caminhada de um indivíduo ou de uma coletividade, não se dá de forma linear. A prática do bem e da justiça, garantias da prosperidade e da paz, são conquistas paulatinas do espírito, e nem todos chegam a ela por idênticos trajetos. Segundo Confúcio, três são os caminhos pelos quais se chega à virtude: “o da reflexão, que é o mais nobre; o da imitação, que é o mais fácil; e o da experiência, que é o mais amargo”.
O espiritismo abona a observação do pensador chinês da Antiguidade. A história tem demonstrado que, via de regra, os avanços éticos dos povos, resultam da última das três alternativas: a experiência, a mais amarga delas, mas, tanto quanto as outras, eficiente.
Teria o Brasil, na quadra em que vivemos, chegado ao “excesso do mal”, apontado pelos espíritos, como estágio anterior à conquista “do bem e das reformas”?
É possível, sim, que um ciclo esteja se fechando com a explosão de tantos acontecimentos com conotações políticas, criminais e sociais, a repercutirem fortemente também no campo moral. A inusual citação do Procurador-Geral da República, em peça habitualmente revestida apenas de formulações técnico-jurídicas, parece sinalizar isso. Aquela autoridade, ao expressar sua fé no triunfo da honestidade sobre a vilania, da verdade sobre a mentira, da transparência sobre a hipocrisia, está propondo a institucionalização do bem, como valor fundamental de toda e qualquer atividade pública ou privada.
Há que se reconhecer a existência de uma cultura de corrupção que não se duvide pudesse também envolver a cada um de nós, caso estivéssemos no ambiente e na posição de alguns dos investigados. Por isso, tanto quanto os formalmente denunciados, aos quais costumamos atribuir a culpa pela totalidade dos males da nação, cabe-nos igualmente purgar os erros coletivamente construídos ou imprudentemente assumidos e que acabamos por assimilar como procedimentos normais.
Quase sempre nos tem faltado a capacidade de reflexão ou a disposição de nos mirarmos nos bons exemplos, caminhos preferenciais na aquisição das virtudes, segundo Confúcio. Que, pelo menos, pois, saibamos transformar o amargor da experiência em salutar medicamento, capaz de devolver ao enfermiço organismo político-social de que somos células a revitalização e o renascimento. É tempo de se ensejar o advento de um novo ciclo de crescimento, firmemente ancorado em padrões éticos que já somos capazes de sonhar, mas ainda não introjectados em nossa cultura.
Teria o Brasil chegado ao “excesso do mal” que se antecede à conquista “do bem e das reformas”?






Da teoria à prática
Terminada a palestra no centro espírita onde eu fora convidado a falar, uma senhora aproximou-se de mim, abraçou-me afetuosamente e disse: “Muito obrigada. O senhor falou exatamente o que eu estava precisando ouvir”. Agradeci-lhe e respondi: “Eu também estava precisando escutar. Foi para mim próprio que falei”.
É assim mesmo. Tem coisas na vida da gente que se é capaz de teorizar com razoáveis precisão e lógica, com bom potencial persuasivo, mas quando se trata de pôr em prática, vê-se que agir não é assim tão fácil como fora fácil dizer.
Mesmo assim, e ainda que a autocrítica nos faça reconhecermo-nos portadores de ranços de hipocrisia, convém repetirmos exaustivamente, muito mais para nós mesmos do que para os outros, a excelência daqueles valores teóricos que já fomos capazes de racionalmente aceitar e ainda não conseguimos exercitar. De tanto repetir a teoria, um dia seremos levados à efetiva prática.

Conhecer para transformar-se
Talvez o grande desafio do processo evolutivo no campo da ética individual resida no salto de qualidade exigível daquele que compreendeu, mas ainda não conseguiu agir de acordo com esse entendimento.
No meio espírita, cita-se com bastante frequência o conceito de Allan Kardec segundo o qual o verdadeiro espírita deverá ser reconhecido “por sua transformação moral e pelos esforços que faz para domar suas más inclinações”.
Diferentemente, entretanto, das religiões, que subordinam a transformação moral à fé, a proposta espírita de melhoria ética individual está fundada no conhecimento. Conhecer aquilo que a filosofia espírita chama de “lei natural” é o caminho mais seguro, embora nem sempre tão curto, para atingir padrões ético-morais compatíveis com o desenvolvimento intelectual alcançado pelo ser humano.

Conhecer para transformar o mundo
A transformação pela fé produz santos. A transformação pelo conhecimento da lei natural e de suas consequências habilita homens e mulheres contribuir com o progresso da humanidade.
Em “O Livro dos Espíritos”, as entidades entrevistadas por Kardec estabeleceram uma sutil diferença entre o conhecimento da lei natural e sua compreensão (questão 619). Conhecê-la, disseram, todos podem. Mas nem todos a compreendem. A mim parece que a compreensão está ligada justamente a este fator: capacidade de avaliar as consequências da não observância da lei natural, o que estimula o esforço para debelar as chamadas “más inclinações”. E isto caracterizaria o verdadeiro espírita.
Por isso mesmo, acho graça quando alguém diz: eu estou me esforçando para ser espírita, mas ainda não sou. Quem assim fala, julga que para ser espírita é preciso ser santo. Não é assim. O espiritismo não foi feito para os santos, mas para os homens: homens imperfeitos que querem conhecer, compreender, transformar-se e, com sua transformação, contribuir com as mudanças que deseja do mundo.

O caráter consolador do espiritismo
Compreender significa também aceitar nossas próprias dificuldades no processo de mudança. Aí é que entra a importância da reencarnação, como suporte fundamental da filosofia espírita.
A ideia da reencarnação, como instrumento indispensável à evolução e ao progresso, além de nos tornar mais tolerantes com os outros, nos faz, igualmente, mais tolerantes conosco mesmos.
É reconfortante a convicção de que aquelas metas que desejo atingir e, no entanto, não consigo durante esta experiência reencarnatória, poderei alcançá-las numa próxima etapa.
Nesse sentido, o espiritismo é, de fato, uma doutrina consoladora. Ou seja: a um espírito incomodado por suas falhas e defeitos nada consola mais do que poder dizer a si mesmo: Tranquiliza-te, logo ali adiante estarás livre disso!



O espiritismo e sua 
essência pedagógica

Jerri AlmeidaProfessor; autor, entre outros, do livro: “Kardec e a Revolução na fé”.

“O Espiritismo prende-se a todos os ramos da Filosofia, da Metafísica, da Psicologia e da Moral; é um campo imenso que não pode ser percorrido em algumas horas”. (Allan Kardec – “O Que é o Espiritismo”)

Ao apresentar, em 1857, a primeira edição de O Livro dos Espíritos, e ao longo do século XIX, o conjunto de sua obra, Allan Kardec desvelou um novo paradigma conceitual e filosófico para compreendermos um pouco melhor, a complexa dimensão do Ser.
O inquietante problema do futuro do Ser, com seus possíveis castigos e punições eternas, ou com sua consagração ao eterno ócio serviu para atemorizar ou tornar céticos os indivíduos: “Outra razão que amarra às coisas terrenas até mesmo as pessoas que acreditam firmemente na vida futura liga-se à impressão que conservam de ensinamentos recebidos na infância. O quadro apresentado pela religião, a esse respeito, temos de convir que não é muito sedutor nem consolador.” (Revista Espírita/1865).
O espiritismo representou uma verdadeira ruptura epistemológica tanto em relação aos mitos ancestrais das culturas agrárias, como com o discurso culpabilizador das teologias do medo. Kardec tem a coragem do investigador e a competência do pedagogo para examinar comparativamente os ensinos de alguns sistemas teológicos, com o espiritismo nascente.
Homem aberto ao diálogo, Kardec, por vezes, lembrou que: “As ideias falsas, postas em discussão mostram seu lado fraco e se apagam ante o poder da lógica.” (Idem)  Assinala, ainda, que o critério de análise para a aceitação de um conhecimento, dito espírita, está no controle do ensino universal dos espíritos.
Na prática, significa que nenhuma verdade aparece isoladamente. A análise do conteúdo e significado das manifestações mediúnicas, por exemplo foi realizada por ele através de diferentes médiuns em diferentes localidades. Tais manifestações, antes de serem aceitas como verdadeiras, eram submetidas a uma análise comparativa para que se evidenciasse ou não, o consenso e o caráter de universalidade do ensino. Kardec, utilizando-se de diferentes médiuns, propunha-lhes temas pertinentes a certos problemas filosóficos, científicos e morais, com o objetivo de colher esclarecimentos ou ensinamentos compatíveis com a natureza dos assuntos investigados. Por isso, sua ênfase na “observação” e “dedução dos fatos”, submetidos ao critério da “concordância” ou da “universalidade do ensino” para, assim, serem aceitos.
Há, naturalmente, uma busca incessante de conhecimentos e reflexões, iniciadas em O Livro dos Espíritos e que não para com ele, nem mesmo o esgota em seu potencial doutrinário. Isso oferece ao conjunto da obra kardequiana uma importante organicidade e convida ao estudo integrado de seus textos, de forma a evitarmos a fragmentação da teoria.
O espiritismo retifica todas as ideias equivocadas, construídas ao longo da história humana, sobre o futuro da alma, o céu, o inferno, as penas e as recompensas. Demonstra, tanto pelas comunicações mediúnicas, balizadas pelo método da concordância universal, como pelo viés da razão e da lógica, a impossibilidade das penas eternas e dos demônios, numa palavra: “descobre-nos a vida futura e no-la mostra racional e conforme à justiça de Deus”.(Idem)  Abre um novo campo à educação, numa perspectiva de pensarmos o presente e o futuro com menos temor, com mais lucidez diante de nossas possibilidades de ação e aprendizado.
Dissipando velhas ideias, Kardec asseverou: “...uma ciência nova, que dá tais resultados em menos de dez anos, não é acusada de nulidade, porque toca em todas as questões vitais da humanidade e traz aos conhecimentos humanos um contingente que não é para desdenhar.” (Idem) O espiritismo prende-se, como afirmou o insigne pedagogo, a todos os ramos da filosofia, da metafísica, da psicologia, da moral, e poderemos acrescentar, também, da educação.
A rigor, compreendemos que a doutrina espírita, por sua natureza dinâmica, racional e ética, é capaz de formular uma educação profunda, capaz de estimular uma nova concepção do homem e da vida, posto que depositária de uma ordem de ideias essencialmente humanista. Portanto, não seria demais afirmarmos que Kardec, na sua condição de pedagogo, imprimiu no espiritismo uma essência pedagógica com dimensões muito amplas.
Discutiu, por vezes, o impacto dessas novas ideias na formação infantil.

Ele (o espiritismo) já prova sua eficácia pela maneira mais racional pela qual são educadas as crianças nas famílias verdadeiramente espíritas. Os novos horizontes que abre o Espiritismo fazem ver as coisas de modo bem diverso; sendo o seu objetivo o progresso moral da Humanidade, forçosamente deverá projetar luz sobre a grave questão da educação moral, fonte primeira da moralização das massas. (Revista Espírita – fev/1864).

 A teoria espírita lançando significativos esclarecimentos sobre o mistério da existência agrega, inevitavelmente, novos elementos na estrutura familiar, especialmente na educação de pais e filhos. A dimensão educacional do espiritismo, segundo Kardec, teria efeitos na composição de novos elementos culturais através das gerações. Não se trata apenas de limitarmos os efeitos dessa filosofia ao aspecto moral, mas de ampliarmos tais efeitos para o universo da própria cultura. 
Desde a infância, o ser começa a absorver a herança cultural que assegura sua formação e orientação ao longo do tempo. Quando essa herança é limitada ao pensamento materialista ou aos elementos mítico-religiosos, ela fecha o sujeito para voos mais amplos de compreensão e inserção mais plena na vida. Nesse sentido, o espiritismo, em sua perspectiva educacional, abre a cultura para os aspectos mais profundos da identidade espiritual e para o aperfeiçoamento integral do Ser.
Assim como, no dizer do sociólogo francês Edgar Morin, o patrimônio hereditário do indivíduo está inscrito no código genético, o patrimônio cultural está inscrito, primeiro, na memória (individual e coletiva) e, depois, na cultura formal (leis, literatura, artes, religião, educação, etc). Segundo Morin, a cultura é fechada e, ao mesmo tempo, aberta, pois enquanto o dogmatismo do pensamento enclausura o conhecimento, o dinamismo cultural o abre para novas possibilidades.
Nesse sentido, percebemos uma valiosa contribuição do espiritismo no campo educacional do espírito humano, abrindo a cultura para novas possibilidades de ver o mundo num contínuo dinamismo conceitual. Dessa ação pedagógica profunda (não formal), emergem novos significados sobre as leis da natureza, a felicidade humana, a morte, o complexo familiar, os conflitos e sofrimentos humanos, individuais e coletivos. A essência pedagógica do espiritismo, sem nenhuma pretensão proselitista ou salvacionista, estabelece uma ação educativa no momento em que nos desafia para uma mudança de percepção sobre nós mesmos, nos oferecendo horizontes mais amplos de compreensão sobre a admirável estrutura das leis naturais e morais da vida, garantidoras de felicidade e paz.





O que pensam os espíritas sobre o espiritismo
O orador e pesquisador espírita Ivan Franzolim (São Paulo) acaba de divulgar o resultado de pesquisa por ele realizada, entre espíritas, sobre alguns aspectos doutrinários a respeito dos quais pairam divergências.
Ouvido por CCEPA Opinião, Franzolim, que é pós graduado em Marketing e Comunicação, informou que, entre os pesquisados, 37% “não concordam com a doutrina espírita em alguns pontos ou vários”.
Acerca de alguns pontos polêmicos, bastante discutidos no Brasil, a pesquisa traz resultados até certo ponto surpreendentes. Por exemplo: mais da metade dos espíritas pesquisados (57%) não conhecem a tese de Roustaing sobre o corpo fluídico de Jesus. A tese, no entanto, é historicamente defendida pela mais importante instituição espírita do país, a FEB, e já foi contestada por ilustres pensadores espíritas, por sua discordância com a proposta kardeciana. Também contrariamente à posição da Federação Espírita Brasileira, 30,3% dos entrevistados afirmaram que o espiritismo não é religião, possuindo, no entanto, consequências morais.
Interpretando a questão da lei de causa e efeito, 59,4% dos pesquisados entenderam que as pessoas terão de passar por idênticos sofrimentos que impuseram a outros.
Jesus teve uma evolução reta, sem grandes erros para 42,3% dos espíritas, somando com a resposta “Não Sei” o total chega a 63,5%. Jesus foi o "Espírito de Verdade" que auxiliou Kardec para 49,1%, somando com a alternativa “Não Sei” o alcança 77,5%. Em ambas as questões o sexo feminino tem um indicador maior de aceitação do que o masculino. Quem tem a escolaridade de Ensino Fundamental e Médio registrou maior aceitação do que quem estudou o Ensino Superior ou acima
Sobre ser o Brasil a “Pátria do Evangelho” e o “Coração do Mundo”, 73,3% dos espíritas ouvidos concordam parcial ou totalmente com essa afirmação. Mas, segundo Franzolim, “quanto maior é o grau de estudo do pesquisado, menor a aceitação dessa afirmação”.
A pesquisa foi realizada de forma independente, em formulário eletrônico com 40 questões e distribuída pela Internet. Foram recebidas 1204 respostas válidas de 23 estados e 232 cidades do Brasil. Estatisticamente, a amostra permite tirar conclusões do universo de 2% de espíritas segundo o Censo 2010. O leitor poderá ver a pesquisa na íntegra no link: http://franzolim.blogspot.com.br/.

 Milagres – uma interpretação espírita
   Registramos o recebimento de um exemplar do livro “Milagre – fato natural ou sobrenatural?”, do escritor paranaense José Lázaro Boberg. A obra, lançada pela Editora EME, fundamentada em conceitos de Allan Kardec, especialmente extraídos do livro “A Gênese” discorre sobre a imutabilidade das leis de Deus, demonstrando que fatos comumente tidos como milagres são resultado de mudanças de comportamento e da vontade ativa, capazes de verdadeiros prodígios, inclusive curas.
O novo livro de Boberg está à venda na livraria do CCEPA.







Saudação e saudade
Juntamente com o cheque para quitar minha assinatura de CCEPA Opinião, esse valoroso jornal espírita, cumprimento-os pelo trabalho que realizam. Leio-o sempre com muito carinho e, frequentemente, divulgo temas que me parecem mais relevantes.
Aos companheiros de ideal, peço a compreensão por já não poder estar junto a todos, nesta fase de minha vida quando me aproximo dos 80 anos. Recordo sempre, entretanto, com muito carinho esses batalhadores da causa espírita, entre os quais os integrantes do CCEPA, Salomão, Milton, Jones e Rui, assim como todos aqueles com quem andei por tantas cidades e localidades de diferentes países, a serviço da divulgação doutrinária.
Saudosíssimas saudações!
Dorival Alves Fêo – Mogi das Cruzes/SP.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

OPINIÃO - ANO XXI - Nº 232 - AGOSTO 2015

O Céu e o Inferno – 150 anos

Um livro contra o niilismo

e a fé cega

Há um século e meio, Allan Kardec lançava “O Céu e o Inferno ou A Justiça Divina Segundo o Espiritismo”. Na obra, o fundador do espiritismo aborda, na teoria e na prática, a questão da sobrevivência à morte física e as sensações – boas ou más – experimentadas pelo espírito, após a desencarnação.

O lançamento
“Le Ciel et l’Enfern” chegou às livrarias de Paris no dia 1º de agosto de 1865. Na edição de setembro da Revista Espírita, mensário por ele dirigido, Allan Kardec assim resumiu o conteúdo da obra: “o exame comparado das doutrinas sobre a passagem da vida corporal à vida espiritual, as penas e recompensas futuras, os anjos e os demônios, as penas eternas, etc.; seguido de numerosos exemplos sobre a situação real da alma durante e após a morte”.

Combate ao materialismo
Desde seu capítulo inicial, “O Porvir e o Nada”, “O Céu e o Inferno” deixa claro seu objetivo essencial: o combate ao materialismo. Sustentando não haver nada mais desesperador do que “o pensamento da destruição absoluta”, Kardec vê o niilismo como “uma doutrina insensata e antissocial”, pois que “rompe os verdadeiros laços de solidariedade e fraternidade em que se fundam as relações sociais”. Para ele, o espiritismo “vem opor um dique à difusão da incredulidade, não somente pelo raciocínio, não somente pela perspectiva dos perigos que ela acarreta, mas pelos fatos materiais, tornando visíveis e tangíveis a alma e a vida futura”.

Religião – causa da incredulidade
Na parte inicial da obra, Kardec também faz dura crítica à religião e seus dogmas sobre céu, inferno e penas ou recompensas eternas, “apropriadas, no seu começo, aos conhecimentos limitados do homem”. Argumenta, entretanto, que se a religião “tivesse acompanhado sempre o movimento progressivo do espírito humano, não haveria incrédulos, porque está na própria natureza do homem a necessidade de crer, e ele crerá desde que se lhe dê o pábulo espiritual de harmonia com as suas necessidades espirituais”.
Após o enfoque doutrinário sobre temas como céu, inferno, anjos e demônios, numa perspectiva filosófica espírita, Kardec ocupou-se, na segunda parte da obra, de comunicações mediúnicas ditadas por diferentes categorias de espíritos (felizes, infelizes, medianos, arrependidos, suicidas, etc.), depondo acerca das condições em que chegaram ao mundo espiritual.




Materialismo – um combate gradual
Crítico do materialismo que, em seu século, ganhou foros de ciência e de ideologia política, Allan Kardec, no entanto, guardava sérias dúvidas de que alguém, honestamente, pudesse interpretar o universo e a vida a partir de um viés inteiramente materialista.
O autor de “O Céu e o Inferno”, no primeiro capítulo da obra, registrou que “na maioria dos incrédulos, há mais jactância do que verdadeira incredulidade, mais dúvida que convicção”, e que “incrédulos absolutos se contam por ínfima minoria”.
Atribuindo à própria religião a causa do materialismo, por não haver esta acompanhado o progresso do conhecimento, Kardec reservava ao espiritismo a tarefa de sintetizar “as opiniões divergentes ou flutuantes”, trazendo gradualmente “a unidade de crenças sobre esse ponto (a sobrevivência do espírito), não já baseada em simples hipótese, mas na certeza”. Antevia nessa síntese espírita “a unificação relativamente à sorte futura das almas”, e que isso seria “um passo imenso para a tolerância religiosa, em primeiro lugar, e, mais tarde, para a completa fusão”.
Teria o espiritismo falhado nessa tarefa que lhe atribuiu seu fundador? Provavelmente sim, na medida que optou em se apresentar como mais uma religião, contrariando a expressa recomendação de seu criador. Provavelmente não, na medida em que se capacite a sintetizar as múltiplas, e cada vez mais polifacetadas experiências, no campo da ciência, da filosofia e das emoções humanas, extraindo delas as bases de um novo paradigma de conhecimento, realmente revolucionário e inovador, dotado de método e linguagem a todos acessíveis.
O desafio é imenso. Mas, um século e meio depois, continua sendo este o grande objetivo do espiritismo: demonstrar ao ser humano sua condição essencial de espírito imortal. Debelando de forma gradual o materialismo, meta não atingida pela religião, o espiritismo estaria dando cumprimento a seu verdadeiro e fundamental papel histórico. Parece pouco, mas disso pode resultar uma nova era para a humanidade. (A Redação)




Religião – para o bem e para o mal
“A democracia requer que pessoas motivadas religiosamente traduzam suas preocupações para valores universais, não determinados pela religião.(Barack Obama, em “A Audácia da Esperança”)

Ao fim da longa audiência pública do Supremo Tribunal Federal, em 15 de junho, o ministro Luís Roberto Barroso, em tom bem-humorado, e no mesmo clima de cordialidade que envolvera o ato reunindo entidades religiosas e laicas, fez o seguinte registro: “A religião pode ser usada para o bem e pode ser usada para o mal. Constantino converteu-se ao cristianismo, deixou de adorar o deus sol, mas matou o filho mais velho, matou o cunhado, e ferveu a mulher em água quente”.
A audiência houvera sido convocada por Barroso como relator da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI 4439) na qual a Procuradoria Geral da República questiona o ensino religioso confessional nas escolas públicas. A decisão do STF ainda não proferida, no momento em que é escrito este editorial, por certo levará em conta subsídios oferecidos, na audiência, pelas entidades que ali se manifestaram.
O tema já foi objeto de outro editorial deste mensário (edição n. 230). Consignamos, ali, que da Federação Espírita Brasileira, uma das entidades convidadas para a audiência, era de se esperar “posição firme de apoio à demanda do Ministério Público Federal”, em consonância com a postura histórica adotada desde o Século XIX pelo espiritismo em favor da laicidade do Estado e a da não ingerência da fé religiosa em temas da esfera pública.
Por dever de justiça, estamos retornando ao assunto para louvar a impecabilidade da manifestação da FEB, na audiência pública. Representada, no ato, pelo professor Álvaro Chrispino, a chamada “casa mater” do espiritismo brasileiro defendeu o ensino não confessional nas escolas públicas, sustentando que o “ensino religioso, de matrícula facultativa”, previsto no artigo 210,§ 1º, da Constituição Federal, deve, na verdade, focar-se no ensino da moral, da ética e na formação do indivíduo social.
Com esse posicionamento, a FEB ratificou, aliás, histórica decisão de seu Conselho Federativo Nacional, de janeiro de 1951, onde, expressamente, aconselhava os espíritas “a se absterem de pleitear a inclusão do ensino do Espiritismo nas escolas oficiais”. Observe-se, a propósito, que a resolução acima, aparentemente, adotava postura contrária àquela sugerida pelo livro “Religião”, de Carlos Imbassahy, editado pela própria FEB. A obra, recorde-se, defendia ardorosamente a condição de religião do espiritismo e fora escrita em resposta a decisão do Diretor de Ensino do Estado de São Paulo, em 1938, que, por não considerar o espiritismo uma religião, escudado em conceitos retirados das obras de Allan Kardec, negava o pleito de um grupo de pais espíritas que requeriam fosse a doutrina espírita ministrada nas escolas públicas, como o eram outras crenças, à luz da então vigente Carta Magna de 1934.
Embora siga defendendo ser o espiritismo uma religião, a FEB, diferentemente das igrejas cristãs, não pleiteia espaço de difusão de suas crenças em escolas públicas, e o faz em respeito ao princípio da laicidade do Estado. Trata-se de posicionamento correto, especialmente nesta quadra de nossa história política, onde se observa, com preocupação, uma exagerada ingerência religiosa nas questões do Estado, num retrocesso em sentido claramente oposto às ideias republicanas da modernidade. Religião, reafirme-se, é questão de foro íntimo. Como muito bem sinalizou o ilustre ministro do STF, a quem caberá relatar a ADI 4439, às religiões a História debita ou credita a responsabilidade por abomináveis crimes ou por contribuições moralmente importantes. Entretanto, de há muito superamos o tempo em que a fé, frequentemente irracional, se sobrepunha ao Estado e à cidadania. Estes, necessariamente, devem ter suas políticas fundadas na racionalidade a que estão vinculados valores como educação, direito e justiça.






Laranja-do-céu
Sabe aquela laranja muito doce, conhecida em outras partes do Brasil como laranja-lima ou laranja-serra-d’água? Cá no Sul, nós a chamamos de laranja-do-céu. Costumo comprá-la na feira livre que frequento, aqui em Porto Alegre. Dias atrás, escolhi algumas, coloquei-as na sacola e as entreguei para pesar. Para identificá-las melhor em relação a outras de preços diferentes, fui avisando o vendedor: “É daquelas para onde a gente vai depois de morrer”. Bem humorado, como são geralmente os feirantes, ele foi logo respondendo: “Não sei não, se a gente vai pra lá. É que as leis tão sempre mudando. Só esperando pra ver”.

O Céu e o Inferno
O livro de Allan Kardec, “O Céu e o Inferno”, que completa 150 anos de lançamento, se outras qualidades não tivesse, esta já o distinguiria: abordou a questão da sobrevivência do espírito e as diferentes sensações por este vivenciadas, a partir da transição do mundo material para o espiritual, com grau de racionalidade nunca utilizado pelas religiões. Na base de tudo, está a lei de causa e efeito.
O principal mérito da obra lançada em 1865 foi o de deslocar o tema do âmbito das religiões - cujas regras são instáveis no tempo e no espaço, além de contraditórias entre si - para o domínio da consciência individual do sujeito. Ou seja: se algo sobrevive ao corpo físico e, em outra dimensão, recebe o que as religiões chamaram de recompensas ou castigos, essa responsabilização não há de se dar pela crença nestes ou naqueles dogmas de fé, mas, fundamentalmente, pelo bem ou pelo mal que o indivíduo praticou em sua passagem terrena.

O que está mudando
Ouvindo de meu vendedor de laranjas a observação de que as leis estão mudando, e que, por causa disso, já não tem certeza da conquista do céu, imaginei-o atravessando uma crise religiosa. Talvez tenha alimentado por muito tempo crenças hoje não mais sustentadas sequer pela própria religião que, no passado, as proclamava. Artigos de fé, ontem credenciais para o céu, se esfumaram em lendas, mitos, ou meras alegorias.
Quando ouço do atual Papa conceitos sobre a imprescindibilidade da aceitação do diferente, revogando anátemas ontem lançados contra o homossexual, o divorciado, o crente de outra fé, o descrente, etc., ou quando ele chama a atenção para a responsabilidade individual e coletiva em temas como solidariedade, meio-ambiente, distribuição de renda, igualdade e justiça social, anima-me a esperança de que, finalmente, as religiões, todas, concluam que o céu nada mais é do que a sensação pelo cumprimento do bem, e o inferno não passa do remorso pela prática do mal.

O imutável
Imutável mesmo só é o conceito de que a prática do bem produz felicidade e que o mal traz sofrimento. As religiões inventaram rituais, prescreveram penitências e pregaram a necessidade da fé, para o espírito livrar-se do inferno e ganhar o paraíso. A sesquicentenária obra de Kardec que se ocupou do tema aponta um caminho de três etapas ao espírito atormentado pela culpa: o arrependimento, a expiação e a reparação. Arrepender-se é ato subjetivo que ninguém pode delegar a ninguém, nem a Deus, nem a anjos, a santos ou espíritos superiores. Expiar é aceitar e administrar, conscientemente, o sofrimento como consequência natural do erro praticado. Reparar é atuar objetivamente em favor das pessoas ofendidas ou dos valores violados.
“O Céu e o Inferno”, valendo-se da própria terminologia das religiões, dessacraliza o céu e “dessataniza” o inferno, situando-os no único lugar onde eles realmente existem: a consciência íntima do ser.





Grave Equívoco Doutrinário
Aureci Figueiredo Martins – espírita, bacharel em Direito/UFRGS, Porto Alegre.
No movimento espírita, especialmente no brasileiro, construiu-se um viés deformador do verdadeiro caráter da doutrina espírita, codificada por Allan Kardec. Com efeito, o chamado “aspecto religioso” é uma distorção doutrinária nascida por influência de adeptos que trazem, para dentro dos arraiais espíritas, resquícios das crenças dogmáticas que professaram em suas vivências pregressas, recentes ou remotas.
Este grave desvio doutrinário tem origem no equívoco de considerar-se Jesus um líder religioso, fundador das chamadas “religiões cristãs”, quando, na verdade, o Mestre foi um filósofo peripatético, possuidor de grande sabedoria e admiráveis dotes mediúnicos, e que teve, como inimigos e perseguidores, os religiosos de sua época, afeitos a cultos e rituais espetaculosos (e lucrativos). A estes falsos profetas, Jesus se referiu como “sepulcros caiados” ou “cegos que guiam cegos”...
Por oportuno, cabe lembrar, que, justamente na introdução d’O Evangelho segundo o Espiritismo, Kardec assim intitulou o cap. IV: “Sócrates e Platão, precursores da ideia cristã e do Espiritismo” e, a seguir, os ensinos morais de Jesus são analisados, comentados e interpretados racionalmente à luz dos postulados espíritas.
Fica, assim, evidente que o Espiritismo faz uma abordagem filosófica, crítica e epistemológica dos fundamentos doutrinários das religiões em geral, fato que o torna inconfundível com nenhuma delas. Com efeito, não possuindo dogmas, sacerdotes ou pastores remunerados, e tampouco adotando rituais ou cultos exteriores, cobrança de dízimo ou aceitação de quaisquer outros tipos de remuneração pelos serviços que presta aos que o procuram, as instituições realmente espíritas constituem-se como escolas de assuntos espirituais.
 Evolucionista, a doutrina espírita defende a tese reencarnacionista, que esclarece os porquês das diferenças biopsicossociais existentes entre os indivíduos, aclarando o entendimento da infinita misericórdia do Criador, que não condena suas criaturas a penas infernais, irremissíveis ou eternas, pois que, ao contrário, viabiliza-lhes a evolução ascendente mediante múltiplas vidas sucessivas, tantas quantas se lhes fizerem necessárias à conquista do nível de expansão consciencial que, um dia, nos liberará da necessidade de animar corpos carnais.
Quanto à fé cega propriamente dita, mãe de históricos mandos e desmandos sectários, aquela que manda crer cegamente em dogmas que não resistem ao crivo de uma análise lógica, além de considerá-la falta de respeito à própria inteligência, vemo-la tipificada como solerte obsessão no item 239 d’O Livro dos Médiuns, de Allan Kardec.
Com efeito, o sábio filósofo galileu, a partir do quarto século da chamada “era cristã”, passou a ser mitificado e endeusado desde que o Imperador Constantino I conclamou o Concílio de Nicéia (325 d.C.) e nele se estabeleceram as bases de uma religião, dogmática e ritualística, para substituir o culto aos deuses do então já decadente paganismo romano. Essa crença em dogmas irracionais, antítese do “conhecimento que liberta” preconizado por Jesus, foi imposta a ferro e fogo durante séculos pelos autoproclamados “representantes de Deus na Terra” no que hoje se estuda como “cristianismo histórico”, expressão caricata da doutrina amorosa e libertária ensinada e vivenciada por Jesus.
Excetuadas algumas (poucas) denominações religiosas, as religiões “cristãs” ainda hoje prescrevem a crença cega, bem como a salvação pela fé ou pela graça, esquecidas de que Jesus declarou que cada um recebe “conforme suas obras”, ou seja, pelo que faz ou deixa de fazer.
Apegadas ao Antigo Testamento, muitas religiões ainda pregam o temor a Deus e a crença no demônio, em franco confronto com o “amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo” do excelso Mestre. 
A bem da clareza, cabe frisar que não menoscabamos a figura excelsa de Jesus, pois que entendemos a consoladora filosofia espírita como o próprio Evangelho do Mestre, restaurado e interpretado em espírito e verdade. Igualmente, lembremos o que consta do item 625 d’O Livro dos Espíritos, no qual Kardec formula a seguinte indagação aos Espíritos Superiores: “Qual o tipo mais perfeito que Deus tem oferecido ao homem, para lhe servir de guia e modelo?”, e a resposta deles é direta e incisiva: “Vede Jesus”. E Kardec acrescenta: “Para o homem, Jesus constitui o tipo da perfeição moral a que a Humanidade pode aspirar na Terra (...)”.
Por estas e outras razões aqui omitidas, ficamos com Kardec, que esclarece no seu terceiro diálogo do livro “O que é o Espiritismo”: "O Espiritismo é, antes de tudo, uma ciência e não se ocupa de questões dogmáticas. Esta ciência tem consequências morais, como todas as ciências filosóficas. (...) Seu verdadeiro caráter é, portanto, o de uma ciência e não o de uma religião”.





Um olhar sobre “O Céu e o Inferno”
Durante o presente mês de agosto, em homenagem aos 150 anos de lançamento de “O Céu e o Inferno” (Allan Kardec, Paris/1865), os grupos de estudos do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre dedicarão um espaço especial, em suas reuniões, para o estudo daquela obra à qual Kardec deu o subtítulo de “A Justiça Divina Segundo o Espiritismo”.
Na foto, em uma de suas reuniões de todas as quartas-feiras (15h), o Grupo de CIBEE – Ciclo Básico de Estudos Espíritas -, coordenado por Marcelo Cardoso Nassar e Dirce Terezinha de Carvalho Leite. O mais novo grupo de estudos do CCEPA resultou de um Curso Básico de Espiritismo, ministrado na instituição, em março último. Interessados em estudar regularmente a doutrina espírita permaneceram na instituição, formando o grupo que segue aberto a novas adesões.

Sexta é dia de “O Livro dos Espíritos”
Em reunião inteiramente aberta ao público, mesmo sem o compromisso de comparecimento regular, todas as sextas-feiras, às 15h, acontece no Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, um estudo analítico, questão por questão, de “O Livro dos Espíritos” (Allan Kardec, Paris/1857), obra fundamental da filosofia espírita.
O trabalho é coordenado por Salomão Jacob Benchaya, diretor do Departamento Doutrinário do CCEPA, e tem a participação de Maurice Herbert Jones, como debatedor das questões estudadas, sempre numa perspectiva atualizada, livre-pensadora e aberta a contribuições de outras áreas do pensamento.

Opinião do Leitor
Parabenizamos o nobre escritor Medran, pela clareza de raciocínio nos textos de Opinião em Tópicos (edição maio/2015).
“Cada espírito permanece exatamente no patamar construído por seu próprio psiquismo. Está na hora de exorcizarmos da reflexão espírita um pouco da culpa judaico-cristã, substituindo-a por noção de responsabilidade”, conclui o texto.
Na realidade, somos os construtores de nosso destino, num processo infinito. Nada de céu e inferno –  com suas fantasias – e tantas outras ‘propagandas enganosas’ elaboradas pela Teologia. Tudo ocorre no foro íntimo da consciência. O Universo e a vida têm complexidade suficiente. Não precisamos importar a complexidade inventada da teologia” (Dawkins: Veja 27 de maio, 2015). Em nosso livro O Código Penal dos Espíritos – a justiça do Tribunal da consciência, no qual citamos, em vários momentos, o articulista, dizemos: Somos os nossos próprios juízes, promotores e advogados, diante das Leis do Universo. Pela nossa ótica, o julgamento se dá no plano da consciência, sempre em consonância com o despertar do entendimento, e ocorre no foro íntimo de cada criatura, de acordo com o grau de evolução. Independe, portanto, de local especial ou de tempo determinado, para que esta justiça funcione, quer o Espírito esteja no corpo físico quer fora dele, pois cada um é julgado por si mesmo, mediante a consciência de seus erros. No dizer de Emmanuel (Fonte Viva, lição 160): “Não é preciso atravessar a sombra do túmulo para encontrar a justiça face a face. Nos princípios de causa e efeito, achamo-nos incessantemente sob a orientação dela, em todos os instantes de nossa vida”.
Com nosso abraço, agradecido.
José Lázaro Boberg – Jacarezinho/PR.