segunda-feira, 13 de junho de 2016

OPINIÃO - ANO XXII - Nº 241 JUNHO 2016

CEPA agora é internacional
Em histórico Congresso realizado na cidade argentina de Rosário, a Confederação Espírita Pan-Americana passou a denominar-se CEPA - Associação Espírita Internacional e elegeu a brasileira Jacira Jacinto da Silva sua presidente para o próximo quatriênio.

Consolida-se o caráter livre pensador da CEPA
O XXII Congresso da CEPA (25 a 28 de maio de 2016) marcou o 70º aniversário de fundação da instituição, nascida justamente em um Congresso Espírita, promovido pela Confederação Espírita Argentina, em Buenos Aires, no ano de 1946.

A efeméride foi celebrada em um painel do qual participaram Dante López (presidente: 2008/2016), Milton Medran Moreira (presidente: 2000/2008), Mario Molfino (filho do ex-presidente Romeu Molfino, gestão 1972/1975) e Gustavo Culzoni (filho do ex-presidente Hermas Culzoni, gestão 1975/1990).

A retrospectiva enfocou as diversas fases vividas pela CEPA, desde o sonho inicial de unir o espiritismo das Américas até a definição atual, incrementada na gestão Jon Aizpúrua (1993/2000), de conferir à instituição fortes características laicas, livre- pensadoras e progressistas, tendo por base o pensamento de Allan Kardec, e, por isso, genuinamente kardecistas. Com esse perfil, agora plenamente consolidado, a CEPA – Associação Espírita Internacional passa a congregar não apenas instituições, mas também pessoas que tenham essa visão de espiritismo. Sua abrangência deixa de ser pan-americana para tornar-se internacional, atendendo, assim, reivindicação do segmento laico e livre-pensador da Europa, que sedia uma de suas vice-presidências (veja o noticiário no boletim da CEPA, encartado nesta edição).

Jacira, a nova presidente

A Assembleia Geral, que antecedeu a abertura do Congresso, elegeu para o cargo de presidente para os próximos quatro anos, a juíza de Direito brasileira, Jacira Jacinto da Silva (São Paulo/SP). Em emocionado discurso de posse, compartilhado de breve intervenção de seu esposo, Mauro de Mesquita Spínola (que desempenhará as funções de Diretor Administrativo), Jacira destacou a eficiente gestão de seu antecessor, Dante López, que, juntamente com Mónica, sua esposa, “não poderiam ter dado mais do que deram à CEPA”. Registrou, igualmente, seu reconhecimento às administrações anteriores de Jon Aizpúrua e Milton Medran (com sua esposa Sílvia), em cujas gestões ela aprendeu a admirar o pensamento livre e progressista da CEPA, a par de conhecer e compartilhar amizades com gente da melhor qualidade, de diferentes partes do mundo. Apresentou seu plano de atividades, onde o desafio de desenvolver o espiritismo laico, livre pensador, progressista e kardecista, passa a ter mais ampla dimensão, exigindo a implementação de um processo de regionalização, a ser compartilhado com seus vice-presidentes.





Caminhando
Há formas diferentes de ver o espiritismo, como há formas distintas de ver e sentir a realidade universal. O espiritismo tem a dimensão do universo, porque seu objeto de estudo é o ESPÍRITO: “princípio inteligente do universo”.
O grande equívoco das religiões, ao curso da História, tem sido o de buscar aprisionar o espírito nos limitados “campos de concentração” do dogmatismo e das estruturas organizacionais fechadas e autoritárias.
Nessa caminhada de 70 anos, a CEPA aprendeu uma preciosa lição: impossível evitar a pluralidade de pensamento, num campo tão amplo e multidisciplinar como é o espiritismo. Querer unificá-lo é impor-lhe camisa de força, incompatível com sua natureza aberta e, como o universo, em expansão constante.
Por isso, não está nos planos da CEPA a hegemonia do pensamento espírita. Tampouco lhe é lícito limitar sua abrangência territorial. O livre pensamento não pode ter limites, embora guardando sempre o respeito à alteridade e a outras formas, igualmente legítimas, mesmo que limitantes, de ver, sentir e organizar o espiritismo e seu movimento.
Daí essa constante inquietação e essa transformabilidade que caracterizam os espíritas livre pensadores representados pela CEPA.

A CEPA está descortinando novos horizontes. Solidifica-se a união de um contingente de espíritas europeus com iguais ideias e propósitos. Momento que convida a refletir sobre a inexorabilidade do processo transformador e inovador, mesmo não sabendo exatamente a que futuro a levará a estrada agora tomada. Parece oportuno, a propósito, recordar famoso verso do grande poeta andaluz Antonio Machado: “Caminante, no hay camino, se hace camino al andar”. (A Redação)






Identidade espírita
“Todos falam de Espiritismo, bem ou mal. Mas poucos o conhecem.”
J.Herculano Pires, em “Curso Dinâmico de Espiritismo”.

No ato de abertura do XXII Congresso Espírita da CEPA, em sequência às palavras de boas-vindas do presidente da Comissão Organizadora, Raúl Drubich, e do então presidente da instituição, Dante López, foi dado espaço para o relato de uma significativa ação desenvolvida por nossos companheiros de Porto Rico.

Iván J. Figueroa Agrinsoni, presidente do Consejo de Relaciones Espirita Puertorriqueño, CREPU, detalhou, na oportunidade, os esforços desenvolvidos por aquela instituição junto à Real Academia Espanhola para corrigir o que entendiam uma grave distorção do significado da palavra “espiritismo” no dicionário da Academia.
O primeiro conceito vertido nos dicionários espanhóis, a partir do Dicionário da Real Academia Espanhola, definia espiritismo como “Doctrina de los que suponen que a través de un médium, o de otros modos, se puede comunicar con los espiritus de los muertos”.

O Conselho Espírita Porto-riquenho, em sucessiva troca de correspondência com a Real Academia, sustentou longa e insistentemente que aquela definição poderia servir para conceituar mediunismo, nunca o espiritismo, que, segundo seu fundador, é uma “ciência que trata da natureza, origem e destino dos espíritos e de sua relação com o mundo material”, dando lugar a uma doutrina filosófica de consequências morais.

Não caberia, aqui, descrever todos os episódios e esforços desenvolvidos pelos espíritas de Porto Rico para corrigir essa distorção. Finalmente, obtiveram parcial atendimento de sua reivindicação e, hoje, quem acessar a edição eletrônica do Dicionário da Real Academia Espanhola – http://die.rae.es/ -  e buscar o verbete “espiritismo”, vai encontrar estes dois conceitos:
            1.m. Creencia en que a través de um médium, o de otros modos, se puede comunicar con los espíritus de los muertos.
            2. m. Doctrina fundada por Allan Kardec, en 1857, que estudia la naturaleza, origen y destino de los espíritus, y sus relaciones con el mundo corporal.

A segunda acepção foi acrescida ao dicionário, justamente, a partir da longa negociação com os espíritas porto-riquenhos. Uma vitória que não contemplou inteiramente a demanda do CREPU, mas que atestou a capacidade de ação de um movimento de ideias bem estruturado.
Ações dessa natureza contribuem eficazmente para que o espiritismo seja melhor conhecido e respeitado. Em cada país, dos tantos onde o espiritismo tem alguma presença social, registram-se idiossincrasias que, ora se afastam, ora se aproximam da verdadeira identidade kardecista. Cabe àqueles estudiosos sérios, que realmente conhecem a obra de Allan Kardec, o dever de zelar por sua correta conceituação identitária

 Nessa tarefa, é preciso ter sempre presente que, mesmo com os avanços conceituais que o processo de atualização vai incorporando, os lineamentos básicos do espiritismo estão solidamente contidos na monumental obra de Allan Kardec. E este, lastimavelmente, segue sendo o grande desconhecido, mesmo de muitos que se declaram espíritas.







Casualidade e Causalidade
No trajeto de casa para o centro, em semáforo de bastante movimento, tenho me deparado com um pedinte muito estranho. Ele abre diante dos carros enorme cartaz com os dizeres: “Nada é por acaso. Você foi escolhido. Colabore com o meu lanche.”.
Às vezes, dá o acaso de o sinal ficar vermelho bem em frente de meu carro. Outras, vejo que o sinal está verde e, sigo em frente, pensando no verso dos Titãs: “o acaso vai me proteger...”, título, aliás, escolhido pelo Reinaldo Di Lucia, num Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita, para sustentar que acasos acontecem sim e podem ser responsáveis por importantes episódios da vida gente. É uma ideia que se contrapõe àquela da causalidade absoluta, muito sustentada no meio espírita, e segundo a qual tudo na vida está previamente escrito. Dela justamente é que se vale o rapaz do semáforo, cara simpático e inteligente, que a todos sorri indistintamente, inclusive para mim. Mesmo assim, nunca sucumbi à doutrinação dele querendo me fazer crer predestinado a lhe dar um troquinho, sabe-se lá para quê.

Dar ou não esmola
Mas não é sobre a intrincada questão fatalismo x acaso ou determinismo x livre- arbítrio que quero falar. É das dúvidas que sempre nos atormentam sobre dar ou não esmola a essa verdadeira multidão de pedintes que toma conta de nossas ruas. Penso que o melhor mesmo é destinar eventuais ajudas ao nosso alcance àquelas entidades sérias, também numerosas em todo o país, voltadas à promoção social.
Não são poucos os apelos de entidades reconhecidamente benemerentes que, muitas vezes, mais não pedem do que um agasalho para seus idosos, um litro de leite para suas crianças, uma cesta básica para seus internos incapacitados de trabalhar e abandonados pelos familiares. Muito do que para nós sobra é indispensável à sobrevivência deles. Entre nós, o Estado já avançou um pouco na adoção de políticas sociais integrativas. Mas, muito ainda resta a ser feito. E essa, aliás, é uma tarefa da sociedade como um todo e de cada um individualmente.

Contrastes
Vivemos num país ainda socialmente injusto, mas também rico em almas generosas que se preocupam com seu semelhante e que dedicam grande parte de seu tempo e de seus recursos materiais e espirituais ao socorro dos mais necessitados. É um contraponto às estruturas sociais viciadas por privilégios e injustiças engendradas no curso da história. O egoísmo, o individualismo, tão próprios de nosso tempo, são obstáculos que precisamos vencer, alargando o sentimento de solidariedade, escondido no fundo da alma da gente.
Aí cabe sim a inserção da lei de causa e efeito. O Livro dos Espíritos afirma, na questão 930, que, numa sociedade regida pelas leis de Jesus, não haveria lugar para a fome. A lei de Jesus, no caso, é a da prática da justiça social, da garantia de oportunidades iguais para todos e o suprimento pela sociedade das necessidades daqueles que estão impossibilitados de produzir.

Causas e efeitos
A violação sistemática às leis de igualdade, de justiça e de solidariedade, quando se torna prática contumaz, contamina e deteriora a cultura de um povo. Gera a violência, a revolta e o desequilíbrio, cujos efeitos terminam por atingir todo o tecido social. Tempos de crise, como o que estamos vivendo, no Brasil, não podem ser interpretados como meros episódios políticos. Nem tampouco é justo atribuir a culpa de tudo à classe política.  O quadro é a resultante mais dramática do atraso moral em que nos encontramos.
É preciso remover esse gigantesco entulho feito de desamor e indiferença para que todos sejamos mais felizes. Sem isso, acaso algum nos vai proteger. A crise, frequentemente, não é mais que efeito de causas que, num esforço conjunto, podemos estancar.
    




O diálogo entre fé, 
razão e dúvida!
Jerri Almeida  -  Professor, autor, entre outros, do livro: “Kardec e a revolução na fé”.

A fé não exclui a dúvida! No espiritismo, a dúvida dialoga filosoficamente com a fé. O argumento da “verdade absoluta”, em qualquer área do conhecimento, é um “erro absoluto”. No exercício intelectual, na busca do conhecimento e da construção da fé, não se deve desconsiderar os limites naturais de cada um, e a possibilidade de autoengano. Certezas e dúvidas fazem parte desse percurso!
A dúvida pode ser um instrumento, como foi para Descartes na filosofia, capaz de conduzir para a análise e rejeição de certas opiniões ou conhecimentos instituídos pelas tradições. A dúvida parte de uma incerteza sobre determinado assunto. Se esse assunto diz respeito às questões religiosas e existenciais, então, essa “dúvida” poderá carregar certas angústias.
Nesse caso, poderá ser considerada uma “dúvida natural”, quando vem acompanhando o indivíduo em sua caminhada existencial, ou uma “dúvida despertada”, quando gerada por uma situação externa. Por exemplo, o defrontar-se com a morte de uma pessoa querida, poderá despertar no sujeito dúvidas sobre a existência de Deus e o sentido da vida. O evento “morte”, por vezes, gerador de “angústias”, torna-se capaz de desencadear dúvidas.
Dúvidas e angústias poderão motivar um processo de busca por respostas mais consistentes. Nessa jornada pessoal, percorrerá o sujeito inúmeras possibilidades explicativas, sintonizando-se com aquela que melhor apaziguar suas angústias emocionais e inquietações intelectuais.

A relação ou a proximidade entre fé e razão sempre representou uma fronteira de difícil diálogo no território do conhecimento. Aparentemente, fé e razão são elementos divergentes, pois a fé carrega consigo uma profunda carga religiosa, por vezes, associada ao mistério, enquanto a razão apresenta-se no âmbito do saber aberto, próprio da filosofia e da ciência.

O filósofo Erich Fromm observou que: “Enquanto a fé racional é o resultado da atividade interior da pessoa, em pensamento ou sentimento, a fé irracional é a submissão a determinada coisa que se aceita como verdadeira, independentemente de sê-lo ou não.”¹ 
Kardec realizou a crítica da fé irracional, dogmática ou cega. Em sessão na Sociedade Parisiense² ele tem a oportunidade de dialogar com o espírito de um padre que desencarnara adversário do espiritismo. O diálogo é muito esclarecedor, pois aborda o problema da crença e da fé racional. Enfatiza o discípulo de Pestalozzi, que o espiritismo deixa a cada um a inteira liberdade de exame de seus princípios. Qualquer princípio baseado no erro cai pela força mesma das coisas. Assim, as ideias falsas postas em discussão mostram seu lado fraco e se apagam ante o poder da lógica e dos fatos.
Não raras vezes nos deparamos com estudos espíritas distantes do que preconizava Kardec, pois aos participantes é vedada a análise e discussão dos textos. Qualquer estudo sério da filosofia espírita deve permitir o espaço do debate fundamentado, da análise estruturada em argumentos lógicos e responsáveis, ao invés de leituras intermináveis e cansativas sem nenhum aproveitamento. Dogmatizar os estudos é colaborar para o enraizamento de crenças, que já deveriam estar superadas no meio espírita.
Kardec foi um defensor da dialética, do argumento, do debate de ideias necessárias à construção do conhecimento e da própria fé. O espiritismo, dizia ele, não impõe uma crença cega, pois deseja que a fé se apoie na compreensão. Por isso, deixa a cada um inteira liberdade de examinar seus princípios e aspectos. Sem a pretensão de colocar um ponto final em tudo, por não se tratar uma macro teoria salvacionista, o espiritismo postulando a fé racional, enfatiza o papel da dúvida como elemento humano e natural, na busca por um saber quase sempre relativo, consubstanciado na progressividade do conhecimento.

[1] FROMM, Erich. A Revolução da Esperança. 5ª. Ed. Trad. Edmond Jorge. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1984. Pág. 31-32.
2KARDEC, Allan. Partida de um adversário do Espiritismo para o mundo dos espíritos. Revista Espírita. Outubro de 1865. P. 295. Edicel.






A Delegação do CCEPA ao Congresso da CEPA
O Centro Cultural Espírita de Porto Alegre se fez representar no XXII Congresso da CEPA (Rosario/Argentina) pelos seus ex-presidentes Donarson Floriano Machado e esposa Loanda, e Milton Rubens Medran Moreira e esposa Sílvia, e, também, por seus colaboradores Margarida da Silva Nunes e Marcelo Cardoso Nassar.

Donarson representou a instituição na Assembleia Geral que modificou o estatuto da CEPA e elegeu seus novos dirigentes. Medran integrou dois painéis: o primeiro, comemorativo aos 70 anos da CEPA (reportagem de capa deste periódico), e o segundo, discorrendo sobre “O Caráter Humanista do Espiritismo”


Moacir e o Perdão
O Centro Cultural Espírita de Porto Alegre recebeu grande público, em palestra especial do dia 1º de junho último, proferida pelo Prof. Moacir Costa de Araújo Lima, sob o título de “Refletindo sobre o Perdão”. O tema é do livro “Perdão – Crônicas para uma vida plena”, de autoria do conferencista, que, na oportunidade, autografou a obra.
O mais recente livro do Prof. Moacir está à venda no Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, ao preço de R$ 35,00.







Congresso na Espanha
Queridos amigos y compañeros de camino.   Tengo el placer de invitaros al "II Congreso Internacional de Espiritismo" que organiza A.I.P.E. (Asociación Internacional para el progreso del espiritismo) en la cual ejerzo el cargo de presidenta y cuyo evento celebramos los días 16, 17 y 18 de Septiembre en Torrejón de Ardoz.
El lema que presentamos en este Congreso es "Un Mundo Nuevo",  considerando la necesidad del momento actual de hacer un cambio de conciencia personal para constituir un Nuevo mundo con valores morales y espirituales, de los que carecemos en este momento.
 Os agradecemos la divulgación  a vuestros contactos, siendo una oportunidad para compartir y enriquecernos  de los conocimientos que de serios y renombrados ponentes, que de diferentes países,  nos ofrecen su sabiduría de una forma altruista.
Programa: http://www.progresoespiritismo.com/
 Un abrazo fraterno
 Rosa Díaz Outeiriño – San Cibrao de Viñas, Ourense, España.

Recebimento de “CCEPA Opinião”    
Caros amigos e irmãos espíritas do CCEPA. A ACADE recebe CCEPA OPINIÃO como cortesia há longos anos. Somos uma instituição sem recursos materiais e gostaríamos de continuar recebendo esse jornal que nos é muito importante para elucidação de assuntos pertinentes à Doutrina Espírita. Somos imensamente gratos pela atenção que nos dispensam. Um abraço.
João Artur Cardoso – Presidente da ACADE – Associação Cultural Artística e Divulgadora Espírita – Pelotas/RS.







sábado, 14 de maio de 2016

OPINIÃO - ANO XXII - Nº 240 MAIO 2016

XXII Congresso da CEPA, Rosario/AR:

Um Olhar sobre a Espiritualidade do Século XXI
De 25 a 28 deste mês de maio, acontece na cidade de Rosario, Argentina, o XXII Congresso Espírita Pan-Americano, com a temática central “A Espiritualidade no Século XXI”.

O tópico do momento
Raúl Drubich
Em mensagem publicada no boletim América Espírita, encartado neste jornal, o presidente da Comissão Organizadora do XXII Congresso da CEPA, Raúl Drubich (Rafaela, Argentina) faz um comentário sobre as diferentes vertentes de práticas espirituais da atualidade. Defendendo a necessidade de que essas manifestações sejam estudadas pelo espiritismo, justifica a decisão tomada pela Confederação Espírita Pan-Americana de eleger a “Espiritualidade do Século XXI” como “tópico do momento” e tema central de seu congresso de 2016. Um dos objetivos é contribuir no sentido de que “experiências vivenciais”, presentes nos mais diversos segmentos do espiritualismo, possam ajudar “a resolver questões existenciais atuais e, com isso, melhorar a qualidade de vida da população, elevando-lhe o olhar e restituindo os valores éticos intrínsecos do ser humano”.

Intercâmbio com outros saberes e experiências
O presidente da CEPA, o argentino Dante López (foto), que, no Congresso de Rosario, encerra seu segundo mandato frente à instituição e transmitirá o cargo a quem for eleito na Assembleia Geral do dia 25 próximo, também se manifestou sobre o assunto. Em artigo publicado no boletim do mês passado, destaca que, no evento, a CEPA irá pôr em prática o que sempre sustentou: “Vamos expor nossos pontos de vista, abrindo-nos ao intercâmbio com a Ciência e outras disciplinas que possam trazer aportes ao espiritismo, sem que este perca sua identidade”. Para tanto, mais de quarenta expositores, espíritas ou não, apresentarão trabalhos, todos versando sobre a espiritualidade e os respectivos rumos, no século em que vivemos.

Ainda é tempo de inscrever-se
O site oficial da CEPA - http://cepainfo.org/- oferece todas as informações para quem deseja participar do XXII Congresso Espírita Pan-Americano, nos dias 25 a 28 deste mês no Centro de Convenções do Hotel Puerto Norte, em Rosario.





O histórico papel da CEPA
A CEPA, que nasceu em um Congresso Espírita (Buenos Aires, 1946), tem toda sua trajetória de 70 anos orientada por tendências e consensos discutidos e obtidos justamente em eventos dessa natureza. Seus Congressos marcam o norte a ser percorrido no período seguinte. E esses períodos nunca são iguais. Nem poderiam ser. A vida é dinâmica, e o Espírito, princípio inteligente que rege a vida, convida-nos a incessantes processos de renovação.
O ato de renovar-se exige capacidade de interagir. O espiritismo, vertente moderna de um espiritualismo racional, livre-pensador e comprometido com o progresso do homem e do mundo, precisa manter-se permanentemente atento a todos os esforços humanos que visam esse mesmo objetivo.
No Congresso de Rosario, a CEPA, que tem firme base kardecista, fará um amplo exercício de intercâmbio com outras correntes espiritualistas. E isso não implicará em qualquer desvio de suas bases, pois, prioritariamente, reconhece na obra de Allan Kardec, na qual se inspira, uma forte vocação de síntese abarcando todos os esforços atinentes ao estudo do espírito e de sua essencialidade no processo da vida e da História. Mas, essa mesma vocação sintética restará inoperante se não souberem os espíritas dialogar com outras vertentes onde, igualmente, se semeiam ideias e valores capazes de contribuir com a busca dessa síntese.
Só um movimento de ideias maduro e consciente da necessidade do diálogo pode realizar essa tarefa. A CEPA, pensamos, nessa trajetória de 70 anos, habilitou-se a cumprir esse papel histórico, plenamente compatível com os tempos modernos. (A Redação).





Por um Brasil inteligente e ético
A união dessas duas faculdades, inteligência e moralidade, é, pois, necessária para criar uma preponderância legitima. -  Allan Kardec, em “Obras Póstumas”.

Um dos aspectos mais comentados, em meio aos episódios relativos ao impeachment presidencial das últimas semanas, foi o baixo nível cultural revelado pela média dos parlamentares, ao se manifestarem nas votações, especialmente da Câmara Federal.
Houve de tudo. Desde inflamadas rezas pedindo a misericórdia de Deus, às vezes proferidas por deputados sobre os quais pairam sérias acusações de atos de corrupção, a xingamentos dos mais baixos a opositores e, até, cusparadas, em plenário, direcionadas a adversários políticos. Foram cenas deploráveis, incompatíveis com a seriedade que se exige de homens públicos, chamados a debater e decidir sobre um dos mais graves momentos da história política do país.

“Eles não me representam”, disseram em coro, brasileiros de todos os quadrantes, reprovando cenas verdadeiramente circenses, ora carregadas de humor, ora trágicas, quando não reveladoras de clara hipocrisia religiosa. Mesmo, no entanto, que a pessoas sensatas e politizadas reste essa sensação de não se sentirem representadas naquele colegiado, diante de tantas distorções, inegável que os agentes daqueles disparates lá não caíram de paraquedas e ali se encontram respaldados pelos votos de consideráveis parcelas do povo brasileiro. Há, sim, quem aplauda a violência, quem se compraza com manifestações homofóbicas, quem prestigie a corrupção e quem torça, inclusive, para que o Parlamento caia em absoluto descrédito, situação que justificaria, pensam, a adoção de regimes de força, de onde a representação popular esteja ausente.

Mesmo com tantas distorções, a democracia, conquista da Modernidade, continua se impondo como indispensável ao progresso dos povos. Ela é o caminho do aprendizado. Um povo é, naturalmente, gerido por seus valores culturais. Estes são adquiridos, amadurecidos, mantidos ou desprezados e, sucessivamente, cultivados e substituídos, exatamente pelos frutos que produzem. Experiências boas ou más, entretanto, coletivamente construídas, fazem a história da comunidade de espíritos que constitui um povo ou uma nação. A prática da democracia é justamente o instrumento a possibilitar esse exercício.

Na visão filosófica espírita, inteligência e moralidade são os valores que aprimoram o gerenciamento de uma sociedade. Na medida em que, juntos e na mesma intensidade, se desenvolvam esses dois atributos do espírito, estará se assegurando o êxito da atividade político-administrativa. Allan Kardec previu o advento do estágio mais avançado desse processo com a fase por ele denominada “aristocracia intelecto-moral”.
Com certeza – e os últimos episódios de nossa vida institucional bem o demonstraram – estamos distantes dessa meta. Mas, não é de se esmorecer o ânimo. Experiências amargas como as que estamos vivendo no Brasil nos conduzirão à necessidade de mais se investir na integral educação de nossos cidadãos. Não há civilização sem inteligência, mas também não ocorre efetivo progresso humano sem que o iluminem a ética individual e coletiva.









No Jardim da Infância
Há alguns anos, um escritor muito popular dos Estados Unidos, Robert Fulghum, produziu um texto que percorreu seu país e o mundo todo, fazendo grande sucesso. Nada de muito profundo. Por demais singelo, aliás. Porém de extrema sabedoria.
Ele afirmava: “Tudo aquilo que hoje necessito saber, eu aprendi no Jardim da Infância”. E, a partir disso, Fulghum arrola atitudes fundamentais e algumas experiências primárias de vida que lhe foram transmitidas na pré-escola. Como, por exemplo, a do feijãozinho colocado em meio ao algodão molhado, trazendo a lição de que tudo morre, e nós também. E de que a palavra mais importante é “olhe”. Porque, segundo ele, tudo o que precisamos mesmo saber está em algum lugar. Sempre ao nosso alcance. É só procurar em volta.

Lições
Mas foi principalmente no Jardim de Infância que o autor norte americano também diz ter aprendido coisas como: “Não pegue nada que não for seu”. “Reparta o que tem com os outros”. “Quando magoar um coleguinha, peça-lhe desculpas”. “Limpe a bagunça que você fez”. “Puxe sempre a descarga”. “Ponha as coisas no lugar de onde as tirou”. “Jogue limpo”. “Não bata nos outros”.
O famoso texto complementa convidando-nos a imaginar como o mundo seria melhor se, à semelhança das crianças do Jardim da Infância, todos tirassem uma sonequinha depois do almoço e fizessem um lanchinho com leite e biscoitos às 3 da tarde. E que, enfim, todos se dessem as mãos e permanecessem juntos, brincando e dançando o restante do tempo.

Esquecidos
Cada vez que vem a público – e isso acontece praticamente todos os dias - mais uma notícia que trata de propinas, envolvendo milhões, dadas por grandes empreiteiras a políticos e governantes, ou de empresários que fraudam as finanças públicas, corrompendo agentes que deveriam zelar pelos bens de todos nós, recordo do texto de Fulghum. Será que essa gente toda, a maioria muito sabida, nunca frequentou o Jardim da Infância? Ou nunca olhou em seu redor para entender que tudo aquilo de que necessitamos para viver está em nossa volta? Que o melhor mesmo, para sermos felizes, é tratarmos sempre os outros de forma justa, solidária e responsável? E tratarmo-nos a nós próprios, enfim, na estrita medida da satisfação daquelas necessidades que, à semelhança do feijãozinho no algodão molhado, a vida requer de nós, nesta breve passagem pelo mundo? Se frequentaram o Jardim da Infância, teriam esquecido as lições lá recebidas?

As duas alternativas
Nego-me a pensar igual a J.J.Rousseau, para quem o homem nasce bom e é pela sociedade corrompido. Claro que a vida em sociedade oferece desafios: “O inferno é o outro”, dizia Sartre. Mas é justamente enfrentando os desafios da convivência que o indivíduo cresce.
O Jardim da Infância, na perspectiva filosófica espírita, é o desabrochar da consciência vivido pelo espírito, ao ser “criado” “simples e ignorante”.  A inteligência nele se desenvolve gradativamente e, teoricamente, deveria fazê-lo melhor compreender a lei natural, na base da qual estão todos aqueles valores apontados no texto do autor americano como ao alcance do olhar de cada um. Mas, a mesma inteligência capaz de apreender as excelências da virtude é, pelo orgulho, o egoísmo e a ganância, fustigada a postergar sua prática para gozar de prazeres bem mais imediatos, igualmente a seu alcance.
Chega o dia, na trajetória do espírito e de uma sociedade, que essas duas alternativas se põem em confronto. E, então, é tempo de mudar. Terá chegado esse tempo para o Brasil?




Aporia e Identidade
no Espiritismo
Eugenio Lara, arquiteto, membro-fundador do Centro de Pesquisa e Documentação Espírita (CPDoc), editor do site PENSE - Pensamento Social Espírita e autor dos livros Breve Ensaio Sobre o Humanismo Espírita, Os Celtas e o Espiritismo, Racismo e Espiritismo, dentre outros. E-mail: eugenlara@hotmail.com

O debate acerca da natureza e da identidade do Espiritismo, exclusivamente no contexto kardequiano, da obra kardequiana, é o que se pode denominar de uma autêntica aporia.
Entendo aporia no sentido filosófico mesmo, kantiano, de que para certas questões, para certos debates não existe solução racional. Pode-se afirmar uma coisa e se (re)afirmar o contrário, a partir da mesma fonte, do mesmo fato. No caso da histórica questão da identidade do Espiritismo, nos vemos diante de um certo impasse filosófico, um beco sem saída. Não tem escapatória. Isso é aporia. É como se fosse no jogo de xadrez, o xeque perpétuo: fatalmente apontando para o empate forçado.
De modo que o velho jargão: "da discussão nasce a luz", não sei bem se no caso se aplicaria. Porque, por ser aporia, tal contenda é faísca, é relâmpago, é a energia radioativa que pode embolar o meio de campo, produzir confusão mental, moral, um embate aparentemente desnecessário e sobejamente apaixonado.

Gosto dessa palavra: aporia. Normalmente, a meu ver, as palavras portuguesas de origem grega são muito bonitas, sonoras. Aporia tem uma acepção interessante. Fui consultar primeiramente em meu dicionário predileto de língua portuguesa, o Caldas Aulete. Lá diz (no campo da filosofia) que se trata da “dificuldade de escolher entre duas opiniões igualmente racionais, mas contrárias”. Tem também, na retórica, o sentido de dúvida: “figura pela qual o orador parece hesitar acerca do que há de dizer”. Recurso, aliás, costumeiramente empregado pelos oradores oficiais do movimento espírita brasileiro, a exemplo do personagem shakespeariano Hamlet (to be or not to be).

No Houaiss, aporia é a “dificuldade ou dúvida racional decorrente da impossibilidade objetiva de obter resposta ou conclusão para determinada indagação filosófica”.  Aporia significa uma “situação insolúvel, sem saída”.

Já no Aurélio, aporia é a “dificuldade de ordem racional, aparentemente sem saída”.
Como se vê, o significado de aporia nos três dicionários citados é semelhante, com duas acepções básicas, uma no campo da retórica e outra, da filosofia.

Esse debate sobre a identidade do Espiritismo nos remete a essas duas acepções citadas. De um lado o incerto, a hesitação em relação ao caminho epistemológico a ser seguido. E de outro, por ser questão aparentemente insolúvel, carrega o estigma de visões contrárias entre si, contraditórias, inconciliáveis.

O alemão Immanuel Kant e o grego Zenão de Eleia foram os filósofos que mais se interessaram por esse desafio da lógica, da racionalidade, bem mais do que o enigma, porque não tem solução aparente.

Afinal, aporia tem a ver com paradoxo, com enigmas mentais insolúveis e contraditórios. E disso o Espiritismo é bem servido. A começar pela tese kardequiana da fé raciocinada, uma das muitas aporias espíritas que, no caso, está mais para um paradoxo do que qualquer outra coisa, porque intuição e razão operam por vias distintas, a subjetividade e a objetividade, respectivamente. Não tem como conciliar. Amor racional? Razão amorosa? Isso não tem sentido algum.

Todo esse histórico debate acerca da natureza e identidade do Espiritismo virou uma aporética doutrinária, porque é inconclusivo, indeterminado, impossível de se chegar ao consenso porque não é questão “política”, mas sim, filosófica. E consenso, em filosofia, é palavra pouco usual.
Coloco política em aspas porque é esse o tratamento que os vários segmentos de espíritas têm dado a tal questão, notadamente o segmento hegemônico, o chamado movimento unificacionista, ao agir como aparelho repressor, tentando expelir o suposto vírus kardecista que possa comprometer o sistema de pensamento religioso montado, sob a bênção da Federação Espírita Brasileira. Os fatores socioeconômicos são determinantes, mas não são os únicos agentes desse processo.

Por ser aporia então não deve ser abordado, criticado, debatido? De modo algum. Ao saber que a definição da identidade e da natureza do espiritismo é algo quase difícil de ser consensual, não significa que devamos evitar a abordagem de tal questão. Trata-se apenas de se ter consciência das condições teóricas que iremos enfrentar, sem ter o receio de rever conceitos, de redimensionar nossa concepção acerca da natureza e da identidade do Espiritismo.


CCEPA comemorou 80 anos
Mesa redonda rememorando a história do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, que completou 80 anos de existência, no último dia 23 de abril, foi realizada na sede da instituição, na tarde de 22 do mesmo mês.

Com a presença de dirigentes, colaboradores, associados e amigos, usaram da palavra: o presidente do CCEPA, Salomão Jacob Benchaya que recordou importantes realizações da instituição, destacando o projeto da Campanha de Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita, ideia ali nascida e que foi levada, posteriormente, à Federação Espírita do Rio Grande do Sul e, dali, estendida ao Brasil; Milton Medran Moreira, ex-presidente da CEPA, que se referiu à integração CCEPA/CEPA, irmanados em prol de uma visão laica e livre-pensadora de espiritismo; Maurice Herbert Jones, ex-presidente, e mais antigo colaborador da Casa, que rememorou a trajetória da antiga S.E.Luz e Caridade, o centro espírita de práticas sincréticas, onde aportou coma esposa Elba, há 50 anos, até o atual Centro Cultural Espírita em que se transformou a instituição; Dirce Maria H. de Carvalho Leite, dirigente de grupos de estudos, que recentemente se integrou à instituição, destacando valores que ali encontrou, tais como, acolhimento, generosidade, respeito às ideias alheias e preocupação com atualização; Marcelo Cardoso Nassar, também membro recente do CCEPA, que se disse atraído à instituição justamente por seus aspectos inovadores e progressistas, criticados em outros setores.

O ato contou com a presença de Homero Ward da Rosa, presidente da CEPABrasil, e sua esposa, Maria Regina. Na oportunidade, Homero saudou a instituição aniversariante, destacando, especialmente, a histórica ligação do CCEPA com a S.E.Casa da Prece, de Pelotas, a que pertence, e a importância do CCEPA e de seus integrantes no âmbito da CEPABrasil.
Em ato de confraternização, Jones foi convidado a apagar as velas do bolo comemorativo dos 80 anos do CCEPA.

Homero, Salomão e Medran na abertura do encontro.

Pronunciamento da pedagoga Dirce H. der Carvalho Leite

Jones e o bolo



























CCEPA oitenta anos (I)
Parabéns ao CCEPA!!  Que o trabalho desenvolvido por essa Casa continue firme e que se alardeie, que lance chamas de amor pela HUMANIDADE e pelas descobertas infinitas do ESPIRITISMO! Saudações calorosas à toda valorosa Equipe!
Maria Salete Silva – C.E.Anjo da Guarda – Itajaí/SC

CCEPA oitenta anos (II)
Parabéns ao Centro Cultural Espírita De Porto Alegre - Ccepa, esta instituição forte e progressista. Vida longa! Abraços a todos.
Jailson Mendonça – Centro Espírita Beneficente Ângelo Prado, Santos/SP.




segunda-feira, 11 de abril de 2016

OPINIÃO - ANO XXII - Nº 239 ABRIL 2016

CCEPA - 80 anos de renovação!
O Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, CCEPA, completa 80 anos de fundação. Uma história marcada por sucessivas mudanças impulsionadas por sua vocação livre-pensadora e inspiradas no caráter progressista da filosofia espírita.
Do sincretismo religioso ao kardecismo

Fundado em 23.4.1936, com o nome de Centro Espírita Luz e Caridade, mudado, após, para Sociedade Espírita Luz e Caridade, o atual Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, assim se denomina desde 1991. Na década de 60, com a chegada à instituição de Maurice Herbert Jones e sua esposa Elba (foto) seriam lançadas as sementes de sua singular história no cenário espírita do Rio Grande do Sul e do Brasil. No livro Da Religião Espírita ao Laicismo – A Trajetória do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, Salom ão Jacob Benchaya identifica 1968, ano em que, pela primeira vez, Jones assumiu sua presidência, como um “divisor histórico que marca o início de uma nova fase da vida institucional” da então SELC. De acordo com o autor, a partir daí, “Jones imprime nova dinâmica de trabalho na busca de maior identificação com o espiritismo kardecista”. Disso resultaria o afastamento de considerável parte de antigos colaboradores, habituados, segundo Benchaya, “a práticas de sincretismo religioso”, até ali marcante da na antiga instituição do bairro Menino Deus.
Um laboratório para o estudo sistematizado do espiritismo
Seria, entretanto, nas décadas 70/80 que a antiga SELC assumiria seu importante papel histórico, como protagonista de um programa de estudos sistematizados do espiritismo. Elaborado, inicialmente, para seus trabalhadores, internamente, o programa serviu de laboratório para a memorável Campanha de Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita, lançada pela Federação Espírita do Rio Grande do Sul, em 1978, quando Maurice Jones presidia aquela instituição, e Benchaya ocupava a direção de seu Departamento Doutrinário. Posteriormente, a Federação Espírita Brasileira, lançaria a campanha, até hoje existente, para todo o movimento espírita brasileiro. O período entre 1978 a 1987 foi de forte influência exercida pela ação e pelo pensamento da antiga SELC no movimento espírita gaúcho. Quatro administrações consecutivas, duas de cada um, tiveram a presidência, respectivamente de Maurice Herbert Jones e Salomão Jacob Benchaya.
Da religião ao laicismo
O amadurecimento de uma visão marcadamente laica e livre-pensadora, desenvolvida no hoje Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, iria redundar, nos anos seguintes, em seu afastamento dos quadros da Federação Espírita do Rio Grande do Sul e adesão, em 1995, à Confederação Espírita Pan-Americana. Posteriormente, um integrante do CCEPA, Milton Rubens Medran Moreira, seria conduzido à presidência da CEPA, cargo exercido por Medran, em dois períodos consecutivos, entre 2000 e 2008.
 CEPA e CCEPA comungam, hoje, de ideais e programas marcados por uma plena integração, o que permite à octogenária instituição porto-alegrense seguir trilhando, juntamente com espíritas de vários países, tanto na América, como na Europa, onde cresce a visão laica e livre-pensadora de espiritismo, a consciência e a ação em favor do progresso e da permanente atualização das propostas lançadas, em abril de 1857, por Allan Kardec, ao publicar sua obra fundamental: O Livro dos Espíritos.
Para saber mais: O livro Da Religião Espírita ao Laicismo – A Trajetória do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre está disponível na internet em:
https://drive.google.com/file/d/0B9CFzVtKHMeYWVRFcUJvUVZOenM/edit


Mensagem do Presidente, nos 80 anos do CCEPA
Compromisso
com o laicismo
Ao reassumir, no início deste 2016, a presidência desta Casa, destaquei, em meu pronunciamento, o papel que o CCEPA desempenhou na volta do debate acerca do caráter laico do Espiritismo, iniciado pelo jornalista e psicólogo catarinense Jaci Régis e o chamado “Grupo de Santos”, no final da década de 70, e o compromisso que, desde então, a nossa Instituição assumiu junto ao segmento não religioso do movimento espírita.
O processo de laicização do CCEPA, então Sociedade Espírita Luz e Caridade (SELC), inicia-se quando, na Federação Espírita do Rio Grande do Sul, durante as consecutivas gestões de Maurice Herbert Jones e Salomão Jacob Benchaya – período de 1978/87 – bafejados pelas ideias dos companheiros paulistas, a FERGS lança, ao início do meu 2º mandato, o “Projeto: Kardequizar”, uma análise crítica dos rumos do movimento espírita e uma convocação à comunidade espírita gaúcha para um esforço de “kardequização”, à semelhança do que Jaci Régis propunha com sua campanha de “espiritização”. O Projeto suscitaria controvérsias que se acentuaram após uma palestra de Maurice Herbert Jones na S.E. Paz e Amor, de Porto Alegre onde, através da projeção de textos de Allan Kardec, reproduzia as afirmações do codificador contrárias à natureza religiosa do espiritismo, e com o lançamento, em outubro/86, da revista “Reencarnação”, da FERGS, trazendo na capa uma afirmativa e uma pergunta: “Espiritismo – Ciência e Filosofia. Até que ponto Religião?”. A forte reação da comunidade espírita e uma nova eleição redundaram no afastamento do nosso pequeno grupo da FERGS, em 1987.
A partir daí, com o andamento do projeto de kardequização adotado desde 1986, a SELC se transformaria em CCEPA, em 1991. Em 1993, Milton Medran e eu tivemos contato com o recém-eleito presidente da CEPA, Jon Aizpúrua, durante o III Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita, em Santos-SP, quando o CCEPA é convidado a se filiar à CEPA. Tal convite é aceito formalmente em 25.11.1994, pela A. Geral do CCEPA, decisão que motivou o nosso desligamento da FERGS, por decisão unilateral desta, em 25.03.1995.
Desde então, os laços do CCEPA com a Confederação Espírita Pan-americana tornam-se cada vez mais estreitos. Expressivas delegações de integrantes do CCEPA participam dos eventos internacionais, nosso companheiro Milton Medran Moreira assume uma das vice-presidências da confederação, o CCEPA passa a encartar no OPINIÃO um Boletim Informativo das atividades cepeanas, organiza e promove, em 2000, o XVIII Congresso Espírita Pan-americano onde Medran é eleito novo presidente da CEPA e esta passa a ter sede no Brasil, até 2008. Dois livros – “A CEPA e a Atualização do Espiritismo” e “O Pensamento Atual da CEPA” – são organizados e publicados pelo CCEPA.
Todos esses fatos, sem desconsiderar o trabalho coletivo que os delegados e demais instituições vinculados à CEPA realizam por todo o Brasil, sob a liderança da CEPABrasil-Associação Brasileira de Delegados e Amigos da CEPA, destacam, todavia, o importante papel de nossa Casa na consolidação dos ideais e do projeto da CEPA, inclusive na sua modernização institucional, com as propostas encaminhadas por ocasião da reforma estatutária de 2004 e da que se avizinha, com a realização do XXII Congresso da CEPA, no próximo mês de maio, em Rosario-AR.
Isso talvez seja suficiente para qualificar o CCEPA, que no dia 23 deste mês completa 80 anos de fundação, como um importante baluarte da CEPA no Brasil, papel que pretendemos levar em frente, ainda por muito tempo.
Salomão Jacob Benchaya
Presidente do CCEPA







Coxinhas” e “petralhas”
Em meio à turbulência vivida pelo país, só reivindico meu direito de pensar livremente. Assisto com preocupação a essa polarização política que cega “coxinhas” e “petralhas”. Ouvindo uns e outros, fico com a impressão de que, no universo interior de cada um deles, não está sobrando lugar para o pensamento livre, o exame isento e o reconhecimento de que há acertos e erros em quaisquer posições políticas ou ideológicas a que viermos a aderir.
As coisas realmente se complicam quando sobrevém a convicção de que a verdade está num lado apenas. E assumem trágica condição no instante em que, em nome da defesa de uma posição ideológica, se justificam coisas como a corrupção política, a violência, o ódio e o desprezo a conquistas institucionais históricas como a democracia, a justiça e a igualdade de todos perante a lei.
Isenção e justiça
Vejo que baixa sobre a sociedade brasileira uma nuvem cinzenta esculpindo no céu da Nação esta sentença: “É proibido ser isento”. Ser isento não significa ficar em cima do muro. É perfeitamente legítimo escolher uma ideologia política e, para instrumentalizar a ação social dela derivada, aderir a uma agremiação partidária. Ideologias estão distantes de representarem verdades absolutas. São alternativas válidas para traçarem políticas de ação em favor da sociedade. Partidos são, no sistema vigente, instrumentos a serviço da viabilização dessas idealizações. Ao cidadão honesto e bem-intencionado cabe, no entanto, seja qual for sua ideologia, e para além de seus compromissos partidários, rechaçar todo e qualquer comportamento que atente contra o objetivo central da política: a busca do bem comum.
Sobrepor ideologia política ou compromisso partidário ao interesse público é grave violação ao bem comum de uma nação. É renunciar à isenção, sem a qual não se contribui com a justiça.
Partidos amorfos
O mais trágico do momento que vivemos é, porém, o fato de os partidos políticos terem deixado escoar pelo ralo do fisiologismo aqueles princípios ideológicos que lhes deram origem. O aspecto mais fascinante das ideologias era a sua capacidade de luta pelos valores programáticos nelas contidos. Por eles, ia-se ao sacrifício pessoal, e até a vida se poderia dar.  O que vemos, hoje, são agrupamentos partidários totalmente amorfos. Seus mentores são capazes até de produzir um discurso doutrinariamente coerente. Mas, na prática, não passam os partidos, em sua maioria, de aparelhamentos calculadamente voltados a projetos de poder, muito distantes de autênticos e bem-intencionados projetos políticos. Estamos carentes de estadistas, substituídos que foram por ídolos. E estes passarão.
A verdadeira Política
Allan Kardec sustentava que o orgulho e o egoísmo eram as grandes chagas da humanidade. Orgulho e egoísmo conduzem à ganância. Esta, em nosso tempo, se traveste de partidos que manipulam ideais políticos, de igrejas que mercantilizam a fé, ou de conglomerados empresariais que fraudam a economia pública. Tudo com o objetivo da obtenção de fortunas ardilosamente desviadas de suas verdadeiras finalidades sociais ou da cobertura de necessidades básicas de cidadãos oprimidos pela ignorância. O fenômeno não é exclusivo da política. É claro sintoma da ausência de compreensão do que verdadeiramente somos, do genuíno sentido da vida. Sem a virtude, que emana, naturalmente, dessa compreensão não estaremos aptos a fazer verdadeira Política.







Wilson Garcia:
“Lamentável que a fragmentação do Espiritismo venha acompanhada da negação do diálogo.”
Em sua edição de janeiro/fevereiro últimos, CCEPA Opinião relembrou o pensamento de Deolindo Amorim, resgatando o artigo de sua autoria Desunião e Divergência. O escritor Wilson Garcia escreveu-nos dizendo haver gostado muito da matéria. Tanto assim que resolveu aplicar a tese de Deolindo, contextualizando uma pequena divergência. Leia, a seguir seu artigo:
Deolindo e os diversos espiritismos
WGarcia, Recife, PE.

CCEPA Opinião, a pílula do Dr. Ross do jornalismo espírita, republica em sua edição de jan./fev. 2016 interessante artigo do saudoso e respeitável Deolindo Amorim (foto), intitulado “Desunião e divergência”. Ali está todo o espírito conciliador, dialógico e acima de tudo humanista do grande amigo baiano de nascimento e carioca por opção.
A essência do artigo está centrada na percepção de que as divergências não podem ser argumento para a desunião e o diálogo é o fundamento das relações humanas. Era o que fazia e vivia Deolindo.
O último parágrafo do texto deolindando permite, contudo, exercer aquilo mesmo que transparece dos seus argumentos, isto é, divergir. Ali, Deolindo afirma que as divergências que estão no interior do movimento espírita desde o seu surgimento não quebraram a “unidade doutrinária, que é fundamental” (sic).
Por unidade doutrinária podemos entender dois aspectos: os princípios básicos em torno dos quais todo o edifício doutrinário está erguido, do que se conclui que um só desses princípios negados redunda em negação do todo. O segundo aspecto é o mundo da vida, onde os princípios são elevados ao nível das experiências e das ideias defesas.
Se considerarmos que a obra de Kardec mantém seu conteúdo e sua forma inalterados em todas as traduções, apesar das tentativas de modificar aqui e ali conceitos que imaginam ultrapassados, pode-se argumentar com segurança que a unidade doutrinária se mantém. Nesse campo de discussões e divergências os princípios básicos do Espiritismo prosseguem incólumes e passam de geração a geração.
Entretanto, é no mundo da vida que se encontra o nó da questão. É aqui que parte desses mesmos princípios são negados ou têm seu valor reduzido, constituindo-se em ameaça constante à obra física. Não custa recordar que muito do que se discutia até há pouco tempo sob o título de “pureza doutrinária” dizia respeito, exatamente, a esses dois aspectos.
Os fatos corroboram esta afirmação. Já nos círculos de Kardec as divergências se fizeram presentes, mas são alguns fatos marcantes que melhor revelam que a unidade doutrinária balança entre os registros textuais e o mundo da vida.
Fiquemos com alguns desses fatos.
A obra de Colignon e Roustaing deve ser vista como divergência de grande repercussão ainda no século XIX que no mundo da vida se coloca do lado oposto à obra de Kardec. Não são meros aspectos que fundamentam a divergência, mas, sim, negações de princípios básicos, que dizem respeito à reencarnação, à evolução etc. e que, apesar disso, marcam também a ambiguidade das instituições que promovem Kardec e Roustaing ao mesmo tempo, as quais contam com expressiva representatividade no Brasil.
Se nos ativermos ao nosso país apenas, podemos recordar os movimentos que ainda vigoram, com maior ou menor representatividade, cujas doutrinas derivam do Espiritismo mas negam também ou subvertem determinados princípios básicos, tais como o Racionalismo Cristão, de Luiz de Matos, o polidorismo, de Oswaldo Polidoro e, no limite – que ninguém fique pasmo – diversos dos movimentos em torno do médium Chico Xavier, que se ancoram na ideia de ter sido ele a reencarnação de Allan Kardec e, portanto, maximizam a noção da legitimação de sua obra como avanço em relação à do codificador, o que significa atribuir-lhe valor maior que a de Kardec. Aqui, não só o princípio da reencarnação é subvertido como, também, a razão espírita, que se apresenta quase que como um princípio básico doutrinário, desce ao nível do desprezo pelos assim auto reconhecidos chiquistas.
Deolindo tem plena razão no mais, a meu ver. Lamentável, apenas, que, cada vez mais, a fragmentação do Espiritismo vem acompanhada da negação do diálogo, empurrando cada grupo para o seu canto, o que, para ele, Deolindo, como para qualquer criatura humana no sentido lato dessa expressão, significa irrecuperável prejuízo ao progresso da sociedade e ao desenvolvimento do conhecimento.






Curso de Mediunidade, um êxito.
Ministrado por Salomão Jacob Benchaya e Donarson Floriano Machado (foto), começou, dia 23 de março, e se estenderá por todo o ano, até 14 de dezembro, sempre às quartas-feiras, o Curso Espírita de Mediunidade, gratuito e inteiramente aberto ao público. O curso marca a passagem do 80º aniversário de fundação do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, tendo atraído cerca de 50 inscrições e com o comparecimento médio de 40 participantes por aula. Segundo declarou Benchaya a CCEPA Opinião, “como é natural, diante da visão que o CCEPA tem de espiritismo, o curso está permeado pelo enfoque não religioso, livre-pensador, humanista, pluralista e progressista, o que não significa que haja um desprezo pelas diferentes maneiras como os participantes, oriundos de diversas áreas, percebem a doutrina”.


Medran em Osório: 
“Surge O Livro dos Espíritos”
Convidado pela Sociedade Espírita Amor e Caridade (Osório/RS), o Diretor do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, Milton Medran Moreira, proferirá conferência naquela instituição, no próximo dia 18 de abril (20h), com o título “Surge o Livro dos Espíritos”, alusiva à passagem, naquela data, dos 159 anos do lançamento, em Paris, da obra fundamental de Allan Kardec.




Desencarna Henrique Diegues
Desencarnou, dia 15 de março, Henrique Diegues, em Santos/SP, ex-dirigente do Centro Espírita Ângelo Prado. Integrante do chamado “Grupo de Santos”, Diegues teve histórica participação no movimento que, nas décadas de 70/80, lançou debate sobre a chamada “questão religiosa” do espiritismo. Figura estimada por sua amabilidade e pela dedicação à causa espírita, sua partida deixa imensa saudade.






Geraldo de Souza Spínola
Agradeço ao Medran e à equipe responsável por CCEPA Opinião e América Espírita, pela referência feita a meu pai, Geraldo de Souza Spínola, na matéria que reproduz sua declaração à revista “IntegrAÇÃO”: “a importância da união entre os espíritas é inegável” (América Espírita, março/2016).
A carinhosa referência deixou muito feliz meu pai, que acaba de completar 90 anos, tendo dedicado praticamente a vida toda à causa espírita, tanto na USE como na CEPA.
Paula de Mesquita Spínola – São Paulo/SP.

Espiritismo científico - parcerias
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