quarta-feira, 9 de outubro de 2013

OPINIÃO - ANO XX - Nº 212 - OUTUBRO 2013



Um resgate histórico
Religião e Espiritismo
O Pensamento de Kardec
Trabalho que mudou a história do movimento espírita no Rio Grande do Sul, contendo a antologia do pensamento de Allan Kardec sobre religião e espiritismo, agora está disponível na Internet.

Revista “A Reencarnação”
Há exatos 27 anos, em outubro de 1986, a Federação Espírita do Rio Grande do Sul, então presidida por Salomão Jacob Benchaya, lançava uma edição histórica de “A Reencarnação”, sua revista oficial, na época dirigida por Milton Medran Moreira, com o título de capa “Espiritismo: Ciência e Filosofia. Até que Ponto é Religião?”. Naquela publicação, destacava-se um minucioso trabalho de Maurice Herbert Jones, ex-presidente da FERGS, intitulado “O Espiritismo é uma religião? Uma antologia kardequiana.”. Reunindo uma seleção de textos do fundador do espiritismo, escritos durante toda sua trajetória espírita, de 1857 a 1869, a antologia deixava clara a posição de Allan Kardec que recusava fosse o espiritismo definido como religião.
A edição, que deixou de ser comercializada pela gestão seguinte do órgão federativo, só subsiste nas mãos de antigos assinantes ou colecionadores. O Centro Cultural Espírita de Porto Alegre tem impresso, em separata, o trabalho de Jones, mas só agora o texto foi digitalizado, podendo ser feito seu download no site da CEPABrasil: http://www.cepabrasil.org.br/index.php/download/viewdownload/3-obras/49-maurice-jones-o-que-e-o-espiritismo-textos-de-allan-kardec.


Algumas frases
O trabalho agora disponibilizado na rede web reproduz as afirmações de Kardec em tópicos que permitem ao leitor avaliar o contexto em que foram pronunciadas ou escritas. Neste breve espaço, transcrevemos algumas frases extraídas da matéria constante em sete páginas da histórica edição n.402 de “A Reencarnação”:

“O Espiritismo não é, pois, uma religião. Do contrário teria seu culto, seus templos, seus ministros.” (Revista Espírita, maio/1859);
“O Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica.” (O que é o Espiritismo/1859);
“O Espiritismo é uma doutrina puramente moral que não se ocupa absolutamente dos dogmas.” (Revista Espírita, Outubro/1861);
“O Espiritismo fortifica os sentimentos religiosos e se aplica a todas as religiões.” (Revista Espírita, Fevereiro/1862);
“O Espiritismo será o traço de união que permitirá Ciência e Religião olharem-se face a face.” (Revista Espírita, Julho/1864);
“Não é religião porque senão todas as filosofias seriam religiões, ao discutirem Deus e a alma.” (Revista Espírita, Março/1865);
“A palavra religião é inseparável de culto, de forma, o que o Espiritismo não tem.” (Revista Espírita, dezembro/1868).





O Legado de Kardec
A edição n.402 de A Reencarnação pretendeu submeter ao debate o aspecto religioso do espiritismo. Quem ainda puder ter acesso àquela histórica publicação observará que nenhum de seus articulistas, na época, ousou se posicionar claramente contra o aspecto religioso. Alguns, inclusive, o defenderam vigorosamente. Outros, e a própria matéria não assinada da revista, refletindo sua linha editorial, preferiram administrar o conflito então existente, optando por uma posição conciliatória, possivelmente resolvível a partir das diferentes acepções semânticas da palavra religião. Era a política que convinha à instituição, em respeito à arraigada cultura religiosa vigente no sistema federativo.
Só uma matéria poderia, ali, ser lida como indicativo de uma clara posição negando o aspecto religioso. Seu autor não era ninguém mais que o próprio fundador do espiritismo, Allan Kardec. Sequer o organizador da antologia, Maurice Jones, emitiu qualquer opinião a respeito, cingindo-se à publicação da matéria exaustivamente pesquisada, sem nenhum comentário pessoal. Assim mesmo, a revista desencadearia sério conflito ideológico no meio espírita, culminando com o afastamento do grupo então dirigente, substituído, mediante legítimo processo sucessório eleitoral, por outros dirigentes, estes claramente comprometidos com a visão religiosa e evangélica do espiritismo.
O episódio deixou marcas, mas serviu para abrir espaço a uma visão laica, livre-pensadora e progressista de espiritismo, mostrando que ela tem sustentação no pensamento de seu fundador, mesmo que, na chamada codificação, também estejam presentes elementos fortemente impregnados do religiosismo cristão. Sem aquele fio condutor de nossa civilização, aliás, dificilmente haveria de prosperar o espiritismo no seio de uma cultura historicamente católica, como é a do Brasil.
Passados quase trinta anos, no âmbito de uma sociedade muito mais laica e de um movimento espírita culturalmente melhor qualificado, o tema pode ser estudado e debatido sem as paixões e os melindres de ontem. Para tanto, contudo, é imprescindível não perder de vista que a base do pensamento espírita está em Kardec, ainda que não concordemos com tudo o que ele disse ou escreveu. O profícuo legado de Allan Kardec autoriza e recomenda uma postura crítica envolvendo sua própria obra e dos espíritos que com ele a produziram.
 No fundo, isso é o que nos distingue das religiões. (A Redação).





Lições de Nairóbi e de Roma
O humanismo não é a nossa religião; é a nossa razão de viver.
                                                                                      Otto Maria Carpeaux

Primeiro, eles mandaram que saíssem todos os muçulmanos. Depois, e para confirmar que ali permaneciam apenas “infiéis”, os fanáticos terroristas do shopping center de Nairóbi foram perguntando a cada um como se chamava a mãe do profeta Maomé. Não sabê-lo, pela tábua de valores deles, era a plena justificativa para a morte de todos.
Não existe pior tirania que a da fé. Quando e onde se a coloca como instância mais importante da vida, todo o restante, inclusive a vida, deixa de ter qualquer significado. Por isso, fé e liberdade, democracia e fé, assim como fé e igualdade ou fraternidade e fé, são incompatíveis, desde que o objeto da fé extrapole os valores humanos.
Repetir com Protágoras que “o homem é a medida de todas as coisas” não implica, necessariamente, em inadmitir a existência de uma ordem superior ou uma inteligência suprema às quais todo o universo se conforme. Entretanto, dicotomizar a vida entre o natural e o sobrenatural, sacralizando este e a ele subordinando a natureza humana é, em qualquer circunstância, sobrepor a barbárie à civilização. É investir na perpetuidade do império do fanatismo em detrimento do reinado da razão e dos sentimentos, conquistas que fomos amealhando, aprimorando e consolidando no processo evolutivo.
Quando o Papa Francisco afirma não ser de sua competência ou da Igreja que preside julgar ou condenar os homossexuais, quando acena para atitudes de compaixão em vez de condenação a quem pratica o aborto, quando dá mostras da possibilidade de revisão de temas como divórcio, celibato clerical, pluralismo religioso, diálogo com não crentes, ou quando sugere que mulheres, tanto como os homens, participem da hierarquia eclesiástica, o bispo de Roma se despe dos paramentos que o ligam a uma hipotética ordem sobrenatural para revestir seu espírito da concretude humana. É somente nesse terreno que podemos, todos, nos reconhecer verdadeiramente irmãos e, nessa condição, buscarmos caminhos, por certo plurais, de transcendência dessa provisória, mas natural, realidade para outros estágios sonháveis e possíveis, mas sempre naturais. Espiritualidade, para ser genuína, não pode se apartar da natureza, porque o espírito é sua parte integrante.
Toda a realidade até aqui conhecida pelo ser humano tem a exata dimensão do homem. Todos os valores éticos até aqui construídos, assimilados e normatizados são obra humana, conquistas às vezes duramente obtidas apesar da religião e, mesmo, contra ela. Religião que não se dobra à primazia da razão humana se faz desumana, no sentido que a modernidade conferiu a esse adjetivo, dando-lhe a sinonímia de cruel. Escudar-se em presumíveis razões divinas contrárias à razão assimilável pela inteligência humana para legislar, julgar, sentenciar e executar pessoas é confiscar o poder divino. É que a única forma de pensarmos e sentirmos o divino é perscrutando-o na razão e nos sentimentos humanos, medida de que dispomos para auscultar o bom e o belo.
Quando todos formos verdadeiramente humanos, como, reconheça-se, está buscando Francisco sê-lo, não mais haverá lugar para tragédias como a do Westgate Mall de Nairóbi. E, então, talvez, ninguém mais precise de religião, porque esta terá se conformado aos autênticos anseios humanos, reflexos da presença divina na natureza inteira.

Espiritualidade não pode se apartar da natureza, 
porque o espírito é sua parte integrante.
         






Amnésia temporária
A história circulou no You Tube - http://www.youtube.com/watch?v=IqebEymqFS8 - com milhões de acessos. O americano Jason Mortensen estava sendo filmado por sua mulher no momento em que despertava de uma cirurgia, no hospital. Acontece que o procedimento médico lhe acarretou uma amnésia temporária. Daí que ele não reconheceu a mulher. Pensou tratar-se de uma enfermeira: “O doutor mandou você aqui?”, perguntou a ela. “Você é um verdadeiro colírio para meus olhos, é a mulher mais linda que eu já vi!”, acrescentou. Surpreendida, a mulher foi dizendo: “Você não me reconhece? Sou Candice, sua esposa. Somos casados há mais de seis anos”. Perturbado, Jason custou a acreditar que estava paquerando sua própria mulher. Diante da insistência dela, terminou admitindo que, tinha acertado na loteria ao se casar com tão linda mulher.

Esquecimento e reencarnação
A história levou-me de fazer uma analogia com o fenômeno da morte e do renascimento. Um dos aspectos mais fascinantes da reencarnação é, justamente, o de descer o véu do esquecimento sobre o passado daqueles que retornam para uma nova jornada. Mas esquecer não significa arrancar da alma as sensações e os sentimentos, bons ou maus produzidos em anteriores relacionamentos de espíritos que se reencontram. Lembrar nem sempre é bom. É da essência da vida o esquecimento para que se dê a renovação. A mesma Natureza que nos faz nascer, viver, morrer e renascer em novo corpo, para que nos renovemos, é suficientemente zelosa preservando em nós as conquistas já obtidas. Amores também são conquistas. Acho que foi esse o sentimento de Jason ao saber que a linda Candice por quem se sentia, ali, fortemente atraído, já havia sido por ele conquistada. Pouco importa que não recordasse

Amor e ódio
Mas, tanto quanto o amor, também o ódio cria liames capazes de amarrar almas. São grilhões pesados que não se desfazem com a morte. Que atravessam dimensões de tempo e espaço para, de novo, se materializarem em laços consanguíneos ou em uniões marcadas pela ambivalência do amor e do ódio. Também aí a lei natural – ou divina, para quem assim prefere chamá-la – mostra direcionamento inteligente. A vida em comum, em tantas dessas experiências, seria insuportável sem a barreira do esquecimento. Graças a este, é possível o recomeço, transformando algemas em alianças, desencontros em reencontros, antipatias em simpatias, que somarão para o progresso dos espíritos envolvidos.
Particularmente, não consigo conceber o fenômeno da sobrevivência do espírito após a morte, crença comum a quase todas as religiões, sem a reencarnação. Tampouco, reencarnação sem o esquecimento.

Reencarnação e progresso
Aqueles que só veem o processo reencarnatório como instrumento de punição costumam combatê-lo sob este argumento: é da essência da punição a lembrança do crime cometido. Inútil aplicar uma pena a quem não mais se recorda do fato pelo qual é punido, dizem. Mas, o objetivo da lei moral não é a punição, é o progresso. O mal praticado, por si só, gera sofrimento. A dor, racionalmente administrada, leva à retificação. Reencarnar faz parte do processo retificatório. Nos escaninhos cerebrais, instrumento do novo corpo, pode não haver registro para lembranças de outras vidas. Entretanto, na memória profunda da alma, subsistem os propósitos de reequilíbrio e de mudanças, alimentados por intuições e sutis direcionamentos psíquicos a indicar o caminho do progresso.
Algum dia, com o espírito mais depurado, lembraremos de tudo. A amnésia da alma é temporária. Só persiste enquanto durar nossa perturbação. A propósito, passados os efeitos pós-operatórios, Jason já pode recordar que a bela Candice é sua mulher há mais de seis anos.





Breve olhar sobre o Potencial Filosófico de O Livro dos Espíritos
Jerri Almeida - Historiador e Dirigente Espírita.

O Livro dos Espíritos é a obra fundadora da Doutrina Espírita e, portanto, do que chamamos de filosofia espírita. Gonzáles Soriano em seu ensaio intitulado: “El Espiritismo es la Filosofia”, mesmo sem ser espírita, assevera que o Espiritismo é: “...a síntese essencial dos conhecimentos humanos aplicados à investigação da verdade.”¹  Ora, a longa tradição filosófica do Ocidente, buscou na razão as interpretações que se julgavam “lógicas” e “aceitáveis”, para explicar o mundo.
A filosofia, no seu nascedouro, buscou romper com a explicação mitológica da realidade, muito comum nas sociedades agrárias antigas. Embora, ainda hoje, se aceitar a definição de Pitágoras, num sentido mais etimológico, de que a filosofia signifique: “amor à sabedoria”, num sentido amplo, o que existe são “filosofias”, ou seja, concepções diferentes sobre a realidade. Nos vinte e cinco séculos de tradição filosófica ocidental os inúmeros filósofos e suas escolas conceberam filosofias distintas e, muitas, conflitantes.
Quer se afirme que a filosofia seja um conjunto de saberes, uma visão de mundo ou um modelo explicativo da vida, é importante lembrarmos o pensamento do filósofo Sexto Empírico, do século II-III, ao afirmar que em toda investigação temos três resultados possíveis: acreditamos ter encontrado toda a resposta; acreditamos ser impossível encontrar a resposta, ou continuamos buscando. Para ele, a filosofia deveria repousar nessa última questão, ou seja, de que o conhecimento não é algo pronto, acabado, fechado, mas, sobretudo, progressivo. Nada é sagrado, pois tudo é objeto de crítica e análise. Esse é um caráter intrínseco do discurso filosófico: a liberdade de pensamento aberto à reflexão e ao progresso das ideias. 
O Espiritismo, portanto, na medida em que busca explicar a realidade através da razão e da lógica utiliza-se de um discurso filosófico. Todavia, a filosofia espírita, inaugurada em O Livro dos Espíritos, não traduz uma simples reflexão intelectual para criar sentidos ou significados, Ao contrário, a filosofia espírita é um saber que se justifica com base nos fatos. Ao analisar o conjunto de sua obra, veremos que Kardec não partiu da “crença”, mas da sólida pesquisa científica, no campo da mediunidade, para, num segundo momento, enveredar pelos caminhos da interpretação dos fatos, com base no crivo da razão. Disso surgiu a filosofia espírita inserida, inicialmente, em O Livro dos Espíritos.
Para Marcondes: “A contribuição da filosofia tem sido, portanto, desde o seu nascimento na Grécia antiga, a interrogação, o questionamento, a pergunta. Para a filosofia não há nada que não possa ser posto em questão. Deve ser possível discutir tudo.”² Sob esse aspecto, O Livro dos Espíritos, em suas 1019 perguntas ou questionamentos, se afirma no discurso filosófico. Kardec indagou os espíritos sobre um universo de questões que sempre inquietaram o pensamento humano: Deus, a alma, a origem da vida, a morte, os problemas sociais e familiares, a liberdade, o sofrimento, o destino e a felicidade, entre outros.  Dessa forma, a Obra Primeira da Doutrina Espírita avança, no seu modelo explicativo da vida, por onde outras filosofias se calaram, vítimas dos preconceitos ou do orgulho de seus formuladores.
Um estudo atento de O Livro dos Espíritos evidencia a busca constante de Kardec por explicações plausíveis, que possam atender à coerência e ao bom senso. Ele interroga os espíritos com firmeza, cercado de boa argumentação, mas – ao mesmo tempo – buscando libertar-se de preconceitos e atavismos culturais de sua época, muito embora, seria ingenuidade pensar numa “neutralidade absoluta”.
Há uma busca incessante de conhecimentos e reflexões, iniciadas em O Livro dos Espíritos e que, evidentemente, não para com ele, nem mesmo o esgota em todo o seu potencial doutrinário. Isso oferece, ao conjunto das Obras Básicas, um dinamismo inesgotável, uma vez que a experiência da evolução espiritual vai oportunizando ao Ser, uma ampliação de seus horizontes intelectuais.
Portanto, uma vez estabelecida a base estrutural do conhecimento espírita, em 18 de abril de 1857, o seu núcleo passa a ser a análise do homem na condição de espírito imortal e pluriexistencial. Define-se uma ontologia integrando a filosofia espírita no conjunto da tradição filosófica dualista: pitagórica, socrática, platônica, entre outras.
Os estudiosos da Doutrina Espírita, utilizando-se dos recursos da hermenêutica, empenham esforços para aproximarem-se, o máximo possível, da essência dos conhecimentos transmitidos pelos espíritos à Kardec. Não se trata de caminharmos pelo território livre da “opinião”, ou da doxologia, representada nos famosos “achismos”, mas nos referimos à análise responsável e fundamentada.
Sendo que o conhecimento espírita é dinâmico, ele não foi dado por completo ou “acabado”, cabe ao ser humano, à luz da lei do trabalho, buscar compreendê-lo racionalmente. Interpretar não significa, necessariamente, modificar os seus fundamentos. Na verdade, a “interpretação” é um esforço da inteligência por “encontrar um sentido escondido”, que não está necessariamente claro. Logo, a capacidade de interpretação é inerente ao ser humano.
É preciso considerar, também, que O Livro dos Espíritos apresenta dois outros componentes importantes da reflexão filosófica: o diálogo e a dialética. Kardec, em todo o conjunto da Obra, dialoga com os espíritos através de inúmeros médiuns. Esse diálogo é uma relação dialética, de um conhecimento que não é uma simples “revelação” hierarquicamente estabelecida, mas que se opera pela via do debate e da discussão. A partir de uma pergunta, e de sua resposta, surgem outras perguntas e outras respostas que, ao longo do trabalho, são sistematicamente ordenadas.
 Essa relação dialética deveria, igualmente, se processar no diálogo crítico do leitor com a obra. Mas é preciso que esse diálogo se distancie das leituras simplistas, onde, muitas vezes, se busca afirmar o conteúdo doutrinário através de posturas acríticas, influenciadas pela teologia tradicional ou pelo imaginário religioso. Através de sua metodologia, Kardec nos ensinou, por óbvias razões, a dialogar com a fonte das informações, os espíritos, de forma racionalista sem, no entanto, perder o viés dos sentimentos. A racionalidade empregada aos estudos deve servir para que os seus conteúdos nos levem a uma compreensão mais profunda da vida, estimulando o melhoramento humano de forma mais consciente e realizadora.

1 Citado por J. Herculano In. Introdução à Filosofia Espírita. 2ª. ed. São Paulo: FEESP, 1993. p. 20.
2 MARCONDES, Danilo. Para que serve a filosofia? (Prefácio) In. Café Philo: As grandes indagações da filosofia.  Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor,  1999. Prefácio.





XIII SBPE – Ainda dá tempo de se inscrever!
Acontece de 25 a 27 de outubro, em Santos, SP, o XIII Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita, importante legado de Jaci Regis que se renova de dois em dois anos. O evento, inteiramente aberto à participação de todos os interessados, contará, este ano, com a contribuição intelectual dos seguintes autores e respectivos temas:

Ademar Arthur Chioro dos Reis (Santos/SP): “Políticas Públicas para Álcool e Drogas e o Papel dos Espíritas”;
Alcione Moreno (São Paulo/SP): “Sexualidade e Espiritismo”;
Alexandre Cardia Machado (Santos-SP): “O Desenvolvimento do Espírito até o Surgimento da Vida na Terra – Uma hipótese livre pensadora kardecista”;
Eugenio Lara (São Vicente-SP): 1) “Os Desertores de Kardec”; 2) “Uma Análise Kardecista da Desobediência Civil”;
Grupo Livre Pensador (São Paulo-SP): “Pesquisa Mediúnica sobre Reencarnação”;
Herivelto Carvalho (Ibatiba-ES): “A Filosofia Espírita de Torres-Solanot”;      
ICKS - Grupo de Estudos (Santos-SP): “Pode o Espiritismo ser Considerado Ciência da Alma? - Uma análise epistemológica da proposta do pensador espírita Jaci Régis”;
Mocidade Espírita Estudantes da Verdade(Santos-SP):”Direito à Vida”;
Reinaldo di Lucia – (Santos-SP): “Livre Arbítrio”;
Ricardo Nunes – (Guarujá-SP): “Jaci Regis e o Jardim de Epicuro”;
Roberto Rufo(Santos-SP) “O Livre Arbítrio e os seus inimigos”.

Ainda é tempo de se inscrever. Interessados podem conferir em: http://icksantos.blogspot.com.br/2012/12/voce-ja-pode-se-inscrever-no-xiii-sbpe.html .
Palestras Públicas no CCEPA
Dia 7/10, 2a. feira, às 20h30 e 16/10, 4a. feira, às 15h, “A profilaxia do suicídio”, com Salomão Jacob Benchaya.







Homem/Mulher
Sobre “Opinião em Tópicos”, coluna de Milton Medran Moreira que enfoca a questão de direitos e deveres de homens e mulheres em O Livro dos Espíritos: interior e exterior, posição homem e mulher, fuzis e fraldas, fardas e esmalte. A verdade é que ainda vivemos mentalmente separados. Ainda subjugamos a vida embutidos em velhos conceitos de certo/errado, homem/mulher, delicadeza/coragem, moral/imoral. Nos veremos na próxima encarnação.
Marta Valéria – Niterói, RJ (comentário no portal Espiritbook que transcreve a coluna).


quarta-feira, 4 de setembro de 2013

OPINIÃO - ANO XX - Nº 211 - SETEMBRO 2013



As tênues fronteiras
entre a vida e a morte
Cientistas do Projeto Aware já não falam em “experiências de quase morte”, preferindo a expressão “experiências depois da morte”, convencidos de que algumas pessoas submetidas a processos de ressuscitação de fato morreram e foram novamente trazidas à vida física.



Projeto Aware: um passo adiante
na compreensão do fenômeno
Depois do sucesso em todo o mundo das obras do médico e pesquisador americano Raymond Moody Jr., que, na década de 70 do século passado, popularizou o conceito de “experiências de quase morte”, o Projeto Aware (sigla da expressão AWAreness during REsuscitation – consciência durante a ressuscitação), iniciado na Universidade de Southampton, na Inglaterra, em 2008, oferece novas bases para o fascinante estudo da consciência e dos indícios de sua sobrevivência após a morte.
O projeto foi concebido e é desenvolvido pela Horizon Research Foundation, liderado pelo Dr. Sam Parnia (foto). Conta com a colaboração de outros cientistas como Stephen Holgate, Peter Fenwick e Robert Peveler. Trata-se de um conjunto de investigações sobre estados de consciência durante a morte clínica e experiências fora do corpo. Envolve pesquisas colhidas em hospitais europeus e americanos e utiliza equipamentos avançados para analisar as reações do cérebro dos pacientes pesquisados.

“Apagando a morte” – uma obra
que lança luz sobre o tema
Decorridos cinco anos desde o início do trabalho, o Dr. Sam lançou o livro “Erasing Death - The Science That Is Rewriting the Boundaries Between Life and Death” – “Apagando a Morte – A ciência que está reescrevendo as fronteiras entre a vida e a morte”, onde defende a ideia de que questões antes pertinentes à religião e à filosofia agora precisam ser abordadas e explicadas pela ciência. Para ele, uma das últimas questões que a ciência tem definitivamente de investigar é o que acontece com a consciência após a morte. Por suas experiências, diz já poder afirmar que a consciência subsiste, mesmo que seja por algumas horas, depois da completa cessação da vida física.
Parnia fez sua formação no Guy e St Thomas, em Londres, mas, hoje, é chefe de cuidados intensivos do Hospital Stony Brook University, em Nova York. Ali, graças a técnicas que incluem o resfriamento do cérebro para retardar a deterioração neuronal e manter sua oxigenação, um paciente vítima de parada cardíaca, mesmo que considerado “clinicamente morto”, terá 33% de chance de ser trazido de volta. O índice dos demais hospitais americanos é de 16%. Aplicando os métodos lá empregados, os Estados Unidos, segundo Parnia, poderiam salvar cerca de 40 mil vidas ao ano e a Inglaterra em torno de 10 mil. A especialização do Dr. Parnia terminou por convencê-lo da falsidade de que a morte leva a um lugar do qual nenhum viajante retorna. Para ele, o processo acontece em momentos em que, de fato, a morte já ocorreu, não sendo correta a expressão “fenômeno de quase morte”. Além de salvar inúmeras vidas, o Projeto Aware, no qual está integrado o trabalho de Parnia e seus colegas, vem oferecendo elementos que comprovariam a sobrevivência da consciência após a morte física, apoiados em depoimentos de pacientes, logo após a ressuscitação. Os cientistas envolvidos no Projeto Aware defendem ser mais eficiente a entrevista logo após a reanimação, já que a tendência é o esquecimento depois de alguns dias. Por isso, também, Parnia supõe que muito mais pessoas tiveram esse tipo de experiências, mas elas terminaram sendo eliminadas pela memória: “há uma ruptura dos circuitos da memória, pelo mesmo mecanismo que deixamos de recordar nossos sonhos”.

Para saber mais:
Uma entrevista sobre o novo livro de Sam Parnia: http://www.npr.org/2013/02/21/172495667/resuscitation-experiences-and-erasing-death .

Reprodução de entrevista do Dr.Sam Parnia ao jornal “The Guardian”, de Londres:
http://www.theguardian.com/society/2013/apr/06/sam-parnia-resurrection-lazarus-effect .







Um enigma chamado vida
O Projeto Aware está sugerindo uma nova forma de tratar o até aqui chamado fenômeno da quase morte. Seus integrantes preferem qualificar os episódios ali desenvolvidos e documentados como “fenômenos depois da morte”. Utilizando-se de tecnologia avançada e monitorando todo o processo que resulta na ressuscitação de pacientes e na coleta de seus relatos, cientistas envolvidos no projeto concluem que, sob o aspecto clínico, aconteceu, em tais episódios, efetivamente, a morte, revertida graças às tecnologias empregadas. Dr. Sam Parnia, na entrevista a “The Guardian”, diz-se impressionado com o número de mortes desnecessárias no mundo, por paradas cardíacas. Muitas seriam facilmente evitáveis, desde que utilizadas essas tecnologias. Relativiza, assim, crenças populares do tipo: “Morreu porque era sua hora”, “Deus quis que ele se fosse agora”, etc. Ele está convencido de que a ciência pode e deve interferir mais no processo da vida e da morte.
Parnia confessa seu agnosticismo em matéria religiosa. Ele não é um crente. Mas, de uma coisa mostra-se convicto: neurônios não geram pensamentos. A consciência não é um produto do cérebro. Parece-lhe devidamente comprovado que o indivíduo, depois de morto, mantém-se como uma individualidade inteligente, capaz de viver experiências e emoções, de comunicar-se, agir e interagir. Reanimado o corpo, a “alma” pode outra vez conectar-se a ele.  Mesmo sem ser um religioso, o médico britânico não tem qualquer constrangimento em utilizar a palavra “alma”, para designar o agente do pensamento, da inteligência e das emoções. Na entrevista, defende ser um erro partir do pressuposto de que todos os cientistas acreditam que o cérebro produz a mente. Muitos duvidam disso, diz, dando por exemplo John Eccles, Prêmio Nobel Fisiologia/Medicina 1963, um cientista de nosso tempo que contrariou a tese materialista e reducionista.
Se quisermos reduzir a proposta espírita à sua mais sintética expressão, diríamos que é exatamente a de conferir à alma real concretude e significado, retirando-lhe o caráter de mistério e sobrenaturalidade a ela conferido pelas religiões. No estágio até aqui atingido por experiências científicas de ponta, como é o caso do Projeto Aware, já se tem como confirmado que, mesmo com a cessação da atividade cerebral, a consciência sobrevive e pode relatar episódios vividos naquele ínterim. É lógico, é sensato, é racional avançar um pouco mais sustentando-se, como o faz o espiritismo, que, na hipótese do não retorno - como acontece com a maioria das pessoas cujo coração e o cérebro pararam -, o espírito, ou a consciência também sobrevivam e possam igualmente se comunicar.
Não se está simplesmente diante de fenômenos estranhos e misteriosos, como a cultura contemporânea ainda os trata. Estamos, sim, no limiar de um novo paradigma científico, capaz de oferecer uma visão mais ampla acerca desse enigma chamado vida. 
(A Redação).










Dignidade e Indignação
A cultura do espírito aumenta os sentimentos
de dignidade e de independência. Herbert Spencer

A luta pela dignidade humana nasce da indignação. A capacidade de indignar-se diante da injustiça, da desigualdade, das violações à liberdade, da corrupção, é o combustível que move o indivíduo e as coletividades à efetiva ação por uma sociedade melhor.
É preciso ter isso presente ao se analisar os movimentos sociais que, neste momento, marcam as relações entre segmentos da sociedade e o poder. Eles são indício do amadurecimento dessa capacidade de indignação que explode, particularmente, na alma dos jovens e os conduz a ruidosas manifestações reivindicando mudanças. Quem é capaz de se indignar mostra crescimento de conscientização de seu próprio potencial transformador e se sente estimulado à  concreta ação transformadora.
Mas, afoitos, nem sempre e nem todos os jovens levam em conta um aspecto: a democracia, suada conquista que mal começa a se consolidar entre nós, também nasceu e se institucionalizou a partir da indignação e da ação destemida de gerações precedentes. Etapa recente de nossa história institucional, a democracia não será capaz de sobreviver sem a ordem que lhe é elemento indispensável.
Ao mesmo tempo em que assiste a uma saudável onda de manifestações em prol de inadiáveis melhorias no campo da educação, da saúde, da moralidade pública, a Nação também tem se deparado com lamentáveis cenas de invasões, depredações e vandalismo ao patrimônio público e privado. E esse não é um bom sinal. Retrata a presença entre nós de espíritos que se demoram em estágios de barbárie incompatível com os avanços éticos e sociais já conquistados. Sobra-lhes indignação, mas lhes falta civilidade. Educá-los é tarefa do Estado, da sociedade organizada e de cada um de nós mediante o exemplo e ações positivas em favor do bem.
A par da inserção social, no setor que melhor corresponda à capacidade individual de cada um, a nós, espíritas, cabe contribuir, fundamentalmente, com o que de melhor e mais genuíno tem o espiritismo: a sua filosofia, sua proposta de compreensão de homem e de mundo. A filosofia espírita é profundamente libertadora. Desperta no indivíduo a consciência de que ele é o primeiro agente da conquista de sua felicidade. E que esta é construção gradual que se estende vidas a fora, nas necessárias etapas do espírito rumo à plenitude. Essa visão gera sentimentos de solidariedade e de corresponsabilidade no progresso do mundo, de seus povos e instituições.
Impulsionar, pois, nossas momentâneas e circunstanciais indignações à busca da dignificação integral do espírito humano é a tarefa que nos impõe a vida. Mas, isso exige de cada um ordem, disciplina, obediência às leis, pois que, sem elas, ao invés de nos tornarmos agentes do progresso, estaremos dando margem ao retrocesso que atenta contra as sábias leis da natureza.


           





A mulher e o fuzil
Depois do que vi, junto a um terminal bancário, em área de estacionamento de supermercado em Porto Alegre, acho terem caído todas as barreiras que ainda diferenciavam profissões de homens e de mulheres. Enquanto era recarregado o terminal com dinheiro vindo do banco, uma moça segurando enorme fuzil - ou seja lá como se chamem essas armas normalmente exibidas por parrudos barbados, nas operações de transporte de valores - se mantinha postada junto ao equipamento.
A moça era bonita, simpática, e até esboçava um leve sorriso diante de quem demonstrasse estranheza em ver uma mulher naquela posição de alerta, pronta a usar a potente arma, em caso de assalto. No sorriso, parecia dizer: “Não se enganem, por de trás desta arma e deste fardamento, pulsa um coração de mulher, de mãe, de namorada”.

A conquista do mercado de trabalho
Lembro que quando fiz concurso para o Ministério Público, em 1975, não havia nenhuma Promotora no Rio Grande do Sul. A Magistratura, um ano antes, tinha aprovado duas ou três mulheres. Delegada de Polícia, nem pensar. Como poderia uma mulher enfrentar a bandidagem, manusear uma arma, subir morros para desbaratar quadrilhas? As mulheres, na época, já haviam conquistado muitos setores do mercado de trabalho. Mas, eram profissões, que a sociedade entendia como compatíveis com o “sexo frágil”. Elas eram enfermeiras (havia algumas poucas médicas), educadoras, secretárias. No Estado, existia uma deputada, e, nas redações dos jornais, talvez duas ou três redatoras para tratar de temas de etiqueta.

A mulher em O Livro dos Espíritos
Recordo tudo isso, ao reler a questão 822 de O Livro dos Espíritos. Ali, Allan Kardec interroga seus interlocutores espirituais sobre a questão da igualdade de direitos entre homens e mulheres. Naquela época, a discriminação era expressa e taxativa. Mulher não tinha qualquer direito político. A lei lhe negava capacidade jurídica para gerir sua vida. Se solteira, era tutelada pelos pais; se casada, pelo marido. A filosofia espírita, na época, nascia totalmente engajada à luta em prol da emancipação feminina que, segundo expressava O L.E., “acompanha o progresso da civilização”, e asseverava que “a lei humana, para ser justa, deve consagrar a igualdade dos direitos do homem e da mulher”. Mas, a mesma resposta, fazia uma ressalva. Posicionava-se favoravelmente à igualdade de direitos, mas não de funções: “É preciso que cada um tenha um lugar determinado; que o homem se ocupe do exterior e a mulher do interior, cada um de acordo com sua aptidão”, afirmava a questão 822.

O interior e o exterior
A posição era compatível com os costumes da época. Abriam-se caminhos para a conquista de direitos sonegados à mulher, mas reconheciam-se diferenças, fossem culturais ou genéticas, que demarcavam as atividades de um e outro sexo.
Depois de ver a moça empunhando um fuzil, naquele terminal bancário, acho que já não existe profissão interditada à mulher. Isso não desqualifica o conceito emitido, em meados do Século 19, pela nascente doutrina espírita. Mas, sem dúvida, melhor qualifica o ser humano contemporâneo. A evolução está nos dotando de qualidades que, antes, não tínhamos. Há homens que trocam as fraldas de seus filhos. Há mulheres que dão duro a semana toda no exercício de atividades antes exclusivamente masculinas. Os costumes foram abrandando as diferenças. O exterior e o interior são melhor compartilhados nas parcerias de hoje. Aprendemos uns com os outros, sem a necessidade de a mulher perder a delicadeza que nasce no âmago da alma e sem que o homem precise renunciar ao vigor e à energia que lhe permitem encarar a dureza de um mundo em constante crise de mudança.








A Espiritualidade Espírita
Eugenio Lara, arquiteto e designer gráfico, é editor do site PENSE - Pensamento Social Espírita [www.viasantos.com/pense] e autor do livro Breve Ensaio Sobre o Humanismo Espírita. E-mail: eugenlara@hotmail.com .

Grande parte da intelectualidade ocidental vislumbrou que no século 20 veríamos o triunfo da racionalidade moderna sobre o pensamento dogmático. Todavia, o que vimos foi o crescimento e refortalecimento das religiões, especialmente as monoteístas. Muitas guerras, notadamente no Oriente Médio e Leste Europeu, são de origem religiosa.
O conflito ideológico entre os primeiros humanistas e teólogos cristãos no Quatrocento, prosseguiu em todo o Renascimento, no Século das Luzes com o Iluminismo e tornou-se, desde então, um conflito aparentemente insolúvel. Abriu-se um abismo entre a ciência e a religião no século 19. Ainda que criacionistas tentem maquilar suas teorias dogmáticas com o aparato científico atual e alguns físicos quânticos proponham teses que aproximam a Ciência de temas transcendentais, o conflito entre a mentalidade científica e a mentalidade religiosa prossegue sem tréguas.

Esse conflito também ocorre no meio espírita. De um lado, segmentos de espíritas que rejeitam o suposto caráter religioso do Espiritismo e de outro, espíritas de mentalidade dogmática, religiosista, extremamente influenciados pelo cristianismo. Para este último segmento, a satisfação da religiosidade na busca do sagrado é o que há de essencial no Espiritismo Cristão, tido como o Cristianismo redivivo, a Terceira Revelação, o Consolador prometido por Jesus Cristo. Para essa gente, o que importa mesmo é evangelizar. É o Espiritismo segundo o Evangelho.

Já para o segmento laico, a ideia de religiosidade no contexto espírita é algo bastante incômodo, causa um certo mal-estar. Sim, devemos respeitar a manifestação e diversidade religiosas, no entanto, há uma distância razoável entre o respeito necessário, a vivência e aplicação da religião em nossa vida pessoal.

Considerar a religiosidade como algo desprezível e descartável em nosso dia-a-dia não significa que a religião e os religiosos mereçam desprezo e todo o nosso despeito. Também não significa que sejamos ateus, descrentes ou niilistas. Afinal, a ideia de Deus, alma, imortalidade e tantos outros conceitos, de “propriedade” das religiões, fazem parte do conteúdo filosófico do Espiritismo.

O diferencial está no tratamento experimental e filosófico que o Espiritismo oferece na análise dessas questões consideradas transcendentais. Por se tratar de uma filosofia espiritualista “racional, isenta dos preconceitos do espírito de sistema”, seu caráter nada tem de religioso. O poder do Espiritismo está “na sua filosofia, no apelo que dirige à razão, ao bom senso”. E também na linguagem: “clara, sem ambiguidades. Nada há nele de místico, nada de alegorias susceptíveis de falsas interpretações. Quer ser por todos compreendido. (...) Longe de se opor à difusão da luz, deseja-a para todo o mundo. Não reclama crença cega; quer que o homem saiba por que crê. Apoiando-se na razão, será sempre mais forte do que os que se apoiam no nada”. (Allan Kardec, O Livro dos Espíritos - Conclusão, item VI).

Rejeitar a religiosidade não significa ser antirreligioso, um iconoclasta de plantão no combate às instituições religiosas e no desprezo de sua importância histórica e cultural. A religião é também uma forma de conhecimento, objeto de estudo de sociólogos e antropólogos. Como se diz, “não se deve jogar a água da bacia junto com a criança”. Ser a-religioso não quer dizer antirreligioso.

O que o Espiritismo Kardecista propõe é o aprimoramento da espiritualidade ao invés da renovação ou reafirmação da religiosidade, seja ela cristã ou outra qualquer. A moral espírita é uma superação histórica e filosófica da moral cristã, apesar de verossímeis. Ou seja, a proposta kardecista neste aspecto é a da superação do religiosismo cristão mediante o uso da razão e do bom senso.

Daí a proposta kardequiana da fé raciocinada, o que é bem diferente de fé racional, um tremendo paradoxo, algo impossível de se imaginar na prática, no dia-a-dia.

A religião não é proprietária da espiritualidade.A espiritualidade derivada do Espiritismo é laica, secular, agnóstica e humanista.

A Espiritualidade Espírita é laica porque não se alimenta da fé, do pensamento teológico, dogmático e nem se vincula a determinada religião.

É secular porque sua origem e formulação são históricas, não admitindo, portanto, a intervenção divina, metafísica, sobrenatural ou algum tipo de deferência pelo sagrado, pois a filosofia espírita mostra-se como uma ruptura entre o sagrado e o profano.

É também agnóstica porque não aceita a fé dogmática como forma de conhecimento, sustenta-se na razão, na experiência e também no conhecimento científico.

É humanista, porque tem no ser humano o centro e o sentido de sua práxis, onde ele estiver, no mundo físico ou no extrafísico. Isto segundo os parâmetros da ética espírita e todo seu conjunto de valores morais, de profundo respeito aos direitos humanos, dos seres e das coisas. Para o Espiritismo, liberdade-igualdade-fraternidade não é apenas um slogan ou brasão tríplice, representa todo um programa moral, ético, voltado para o bem-estar, individual e coletivo.

E por fim, não se trata de mera substituição semântica. O conteúdo espírita nos oferece uma concepção que extrapola os limites da experimentação e da interpretação filosófica. O Espiritismo é uma doutrina “eminentemente moral e racional” e não se opõe à religião. Ao contrário. Para Kardec, o Espiritismo é o grande auxiliar das religiões porque lhes dá a base racional e filosófica necessária à compreensão de seus dogmas e do argumento de autoridade. Espiritualidade sim, religiosidade não! 







CPDoc – 25 anos
Fundado em 1988, em Santos, SP, o Centro de Pesquisa e Documentação EspíritaCPDoc - , completou, no último mês de agosto, 25 anos de existência. Fruto do sonho de jovens espíritas interessados em incrementar os estudos espíritas mediante a inserção da crítica coletiva como prática estimuladora do aperfeiçoamento dos trabalhos produzidos por seus integrantes, o CPDoc já publicou sete livros (conheça seus títulos e autores no site http://www.cpdocespirita.com.br/ ).
Em reuniões periódicas, os temas que se tornarão livros são discutidos previamente por seu autor com o grupo. Ativos participantes do movimento da CEPA e da CEPABrasil, os integrantes do CPDoc têm participado de todos os congressos e encontros dessas entidades.
O grupo, neste momento presidido pelo 3º vice-presidente da CEPA, Mauro de Mesquita Spínola, comemorou de maneira muito informal seus 25 anos de existência, na sede do Centro Espírita Allan Kardec, de Santos, no dia 17 de agosto último. Na comemoração, foi rememorada a história da entidade e, por iniciativa de Sandra Regis, aconteceu um descontraído “show de talentos”.
Um relato da festa, feito pela presidente da CEPABrasil, Alcione Moreno, pode ser visto no blog http://cepabrasil.blogspot.com.br/ .

Le Journal Spirite
A edição n. 93 de “Le Journal Spirite”, revista trimestral do Cercle Spirite Allan Kardec, da França, publicada em julho último, tem como conteúdo principal, intitulado “Dossier”, uma ampla matéria contendo biografia e apreciação da obra de Léon Denis, sob o título de “Léon Denis – l’apôtre du spiritisme”.
“Le Journal Spirite”, publicado em francês, tem edição eletrônica em espanhol, gentilmente enviada à redação deste jornal, por seu Diretor, Jacques Peccatte. Os interessados que desejem receber a edição em pdf poderão solicitar a nosso editor Milton Medran, pelo e-mail medran@via-rs.net .


Palestras Públicas no CCEPA
A tradicional palestra da primeira segunda-feira do mês (2 de setembro, 20h30), está a cargo da psicóloga Maria da Graça Serpa, “Obsessão e Transtornos Mentais”.
Também na terceira quarta-feira de cada mês, na parte da tarde (15h), o CCEPA oferece uma conferência pública, com entrada franca a todos os interessados. Dia 18/09 será a vez do advogado Lauro Borba nos brindar com sua fala.







ESDE e CCEPA Opinião
Amigos do CCEPA; quero parabenizá-los por esses dois eventos: os 35 anos do ESDE (reportagem de capa da edição de julho) e o início do Ano 20 do Jornal “CCEPA Opinião” (editorial de agosto). Parabéns a todos, e, em especial, ao meu amigo Milton Medran, editor do jornal.
Nazareth Coelho - do CEAK, Santos/SP.

Espíritas de Porto Rico contra a pena de morte
En Puerto Rico, gracias en buena parte a los esfuerzos de los espiritistas militantes de los años 20 del pasado siglo, se abolió la pena de muerte, y quedó ratificada dicha abolición en nuestra Constitución del 52. Desafortunadamente, el gobierno federal, de los Estados Unidos, quiere imponerla a convictos de crímenes violentos, a pesar de nuestra prohibición constitucional. Esto, debido a la relación existente entre nuestros gobiernos, ya que Puerto Rico es un territorio no incorporado de los Estados Unidos. Por esto es tan importante para nosotros re-tomar la militancia en contra de un tema que debió quedar resuelto durante el siglo pasado.
Agradecemos el apoyo que nos puedan brindar con su divulgación, para que muchos amigos espíritas del mundo sepan que hay múltiples maneras en las que la filosofía espiritista nos llama a la acción social y el trabajo por el progreso de los individuos  y sus sociedades.
José E. Arroyo - Escuela Espírita Allan Kardec – Puerto Rico.

Apreciações sobre a Normose
Agradeço a acolhida da singela reflexão que propus no “Apreciações sobre a Normose” (CCEPA Opinião, n.210). Somente alerto que no texto publicado faltou a fonte da obra da Joanna de Ângelis (FRANCO, Divaldo. O despertar do espírito. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: Leal, 2000, p. 20.)
Prof. Dr. Vinícius Lima Lousada - IFRS – PROEN - www.ifrs.edu.br

NR – A autoria da frase constou como de Joanna de Ângelis. Por lapso da edição, faltou a referência à obra, no rodapé. Falha nossa.