segunda-feira, 14 de setembro de 2015

OPINIÃO - ANO XXI - Nº 233 - SETEMBRO 2015

Memória: 150 anos de Espiritismo no Brasil

O Primeiro Centro Espírita
A data de 17 de setembro de1865 tornou-se marco inicial do espiritismo no Brasil, com a fundação do Grupo Familiar Espírita, em Salvador, Bahia.

Espiritismo à moda brasileira
Luiz Olympio Telles de Menezes
A fundação do primeiro centro espírita no Brasil deveu-se à iniciativa do jornalista e intelectual baiano Luiz Olympio Telles de Menezes (1828/1893). De formação católica, e defendendo expressamente que “Espiritismo e Catolicismo são a mesma Igreja de nosso Senhor Jesus Cristo” e que o espiritismo seria “o tradutor fiel, pelos enviados de Deus, das Doutrinas do Evangelho” (carta ao arcebispo de Salvador, Manoel Joaquim da Silveira), Luiz Olympio fundou, na capital baiana, em 17.9.1865, o Grupo Familiar Espírita.
Luiz Olympio, que era professor de latim e versado em francês, conhecera as obras de Allan Kardec no original e fez delas uma interpretação adaptada às suas crenças pessoais de católico militante. Em 1869, o intelectual baiano protagonizaria outro acontecimento de pioneirismo para a história do espiritismo no Brasil, lançando seu primeiro jornal espírita, “O Écho d’Alêm-Túmulo”. A publicação mereceu, inclusive, registro na Revista Espírita, em novembro daquele ano. Ali, Kardec destacou a coragem de Luiz Olympio por lançar “num país refratário como o Brasil”, onde o catolicismo era religião oficial, uma publicação de teor espírita. Classificou como “bastante satisfatória” a forma como o intelectual baiano tratou da questão da comunicação dos espíritos. Ao final de seu comentário, entretanto, aduziu Kardec: “Outras passagens, referentes mais especialmente à questão religiosa, dão-nos ocasião para algumas reflexões críticas.”.

A primeira comunicação
O caráter marcadamente cristão e católico imprimido por Luiz Olympio Telles de Menezes ao centro por ele fundado, como não poderia deixar de ser, atraiu ao Grupo Familiar Espírita espíritos afinados com suas respectivas crenças. Assim, na própria sessão inaugural das atividades do núcleo, uma entidade espiritual que se identificou como Anjo de Deus, ditou mensagem impregnada de valores teológicos de nítido sentido católico. A mensagem psicográfica falava em “redenção” das almas, antes condenadas pelo ”pecado”, e aludia à “salvação” de todos os espíritos que se arrependessem e praticassem o bem “pelo amor de Deus e de sua Mãe, a Virgem Santíssima, sofrendo os males da vida corpórea com resignação e paciência.”.
A íntegra dessa mensagem pode ser vista em:

No centenário, um carimbo postal
Há 50 anos, quando do centenário de fundação do Grupo Familiar do Espiritismo, por iniciativa da Federação Espírita Brasileira, Telles de Menezes foi homenageado pelo então Departamento de Correios e Telégrafos, com um carimbo postal, relembrando sua atuação pioneira na implantação do espiritismo no Brasil. O carimbo foi aplicado na cidade de Salvador, em 17 de setembro de 1965.





Anjos e homens
Na historia das religiões, anjos são, comumente, os portadores das revelações vindas dos céus para a Terra. Antes deles, eram as próprias divindades que se comunicavam com os homens. As religiões monoteístas, no entanto, terminaram por colocar Deus em um trono cercado de aparato burocrático de complexidade e suntuosidade tais que a Ele já não mais competiria realizar esse intercâmbio. Que ficasse isso a cargo dos anjos, seus porta-vozes devidamente credenciados a falar com os homens!
Nem Deus, nem anjos - proclamaria, corajosamente, em seu tempo, Allan Kardec, distanciando-se das religiões e dessacralizando o que chamaria de comunicação mediúnica. A proposta era revolucionária. Ao invés de anjos trazendo revelações dos céus à Terra, homens – encarnados ou desencarnados, mas nada mais que homens – aprimorariam o diálogo entre as múltiplas dimensões da vida nas quais se movimenta o espírito. A racionalidade humana, atributo divino presente no espírito, daria conta dessa tarefa.
Pena que nem todos os espíritas entenderam assim. Para dar legitimidade a uma comunicação espiritual realmente “superior” teria ela que ser trazida e sustentada por um anjo.
Do anjo de Deus ao anjo Ismael, foi-se, dessa forma, construindo a “religião espírita”, respeitável, sem dúvida; compatível, talvez, com a índole de um povo de fortes tradições católicas; um passo a frente, com certeza, na compreensão dos ensinos de Jesus... Mas distante da concepção filosófica e humanista do pedagogo francês, autor de O Livro dos Espíritos.
Decorridos 150 anos desde que o espiritismo aqui aportou com jeito e verbo angelicais, o grande desafio é humanizá-lo. É reinseri-lo ao âmbito da lei natural de onde a sacralidade e a sobrenaturalidade religiosas insistem em arrancá-lo. É fazer dele efetivo meio de comunicação entre a humanidade encarnada e a humanidade desencarnada, e, mais do que isso, instrumento eficiente de dignificação da vida humana, em harmonia e cooperação com os movimentos dispostos a produzir conhecimento e gerar felicidade, nesta e em outras dimensões. 
É tempo, enfim, de construirmos um espiritismo autenticamente humanista. (A Redação)



O bem sempre triunfa
“Há quedas que servem de partida para escaladas mais altas”.Shakespeare
Ao oferecer denúncia contra dois importantes parlamentares federais, no último mês de agosto, o Procurador-Geral da República, a título de epígrafe à peça acusatória, transcreveu esta sentença de Mahatma Gandhi:
“Quando me desespero, eu me lembro de que, durante toda a história, o caminho da verdade e do amor sempre ganharam. Têm existido tiranos e assassinos, e por um tempo eles parecem invencíveis, mas no final sempre caem. Pense nisto: sempre.”.
Tempos de crise ética, como este que o Brasil vive, são mesmo propícios à reflexão sugerida pelo eminente chefe do Ministério Público Federal. Allan Kardec e as entidades espirituais por ele entrevistadas em O Livro dos Espíritos ofereceram semelhantes argumentos no sentido de que o amor e a verdade são valores sempre aptos a triunfar sobre o ódio, a mentira e todos aqueles ingredientes de que se valem os usurpadores dos bens da vida em prejuízo da sociedade. Tudo será uma questão de tempo e de compreensão de que o mal causa sofrimento e o bem produz felicidade.
 Entretanto, advertiram os espíritos ser necessário “que o mal chegue ao excesso para que se compreenda a necessidade do bem e das reformas” (O.L.E. questão 784). Na pergunta, Kardec buscara interpretar a angústia dos justos ao presenciarem o aparente triunfo dos réprobos, em um mundo que, paradoxalmente, os espíritos afirmavam ser regido por uma lei de progresso.
Ocorre que o progresso moral, mesmo sendo inexorável na caminhada de um indivíduo ou de uma coletividade, não se dá de forma linear. A prática do bem e da justiça, garantias da prosperidade e da paz, são conquistas paulatinas do espírito, e nem todos chegam a ela por idênticos trajetos. Segundo Confúcio, três são os caminhos pelos quais se chega à virtude: “o da reflexão, que é o mais nobre; o da imitação, que é o mais fácil; e o da experiência, que é o mais amargo”.
O espiritismo abona a observação do pensador chinês da Antiguidade. A história tem demonstrado que, via de regra, os avanços éticos dos povos, resultam da última das três alternativas: a experiência, a mais amarga delas, mas, tanto quanto as outras, eficiente.
Teria o Brasil, na quadra em que vivemos, chegado ao “excesso do mal”, apontado pelos espíritos, como estágio anterior à conquista “do bem e das reformas”?
É possível, sim, que um ciclo esteja se fechando com a explosão de tantos acontecimentos com conotações políticas, criminais e sociais, a repercutirem fortemente também no campo moral. A inusual citação do Procurador-Geral da República, em peça habitualmente revestida apenas de formulações técnico-jurídicas, parece sinalizar isso. Aquela autoridade, ao expressar sua fé no triunfo da honestidade sobre a vilania, da verdade sobre a mentira, da transparência sobre a hipocrisia, está propondo a institucionalização do bem, como valor fundamental de toda e qualquer atividade pública ou privada.
Há que se reconhecer a existência de uma cultura de corrupção que não se duvide pudesse também envolver a cada um de nós, caso estivéssemos no ambiente e na posição de alguns dos investigados. Por isso, tanto quanto os formalmente denunciados, aos quais costumamos atribuir a culpa pela totalidade dos males da nação, cabe-nos igualmente purgar os erros coletivamente construídos ou imprudentemente assumidos e que acabamos por assimilar como procedimentos normais.
Quase sempre nos tem faltado a capacidade de reflexão ou a disposição de nos mirarmos nos bons exemplos, caminhos preferenciais na aquisição das virtudes, segundo Confúcio. Que, pelo menos, pois, saibamos transformar o amargor da experiência em salutar medicamento, capaz de devolver ao enfermiço organismo político-social de que somos células a revitalização e o renascimento. É tempo de se ensejar o advento de um novo ciclo de crescimento, firmemente ancorado em padrões éticos que já somos capazes de sonhar, mas ainda não introjectados em nossa cultura.
Teria o Brasil chegado ao “excesso do mal” que se antecede à conquista “do bem e das reformas”?






Da teoria à prática
Terminada a palestra no centro espírita onde eu fora convidado a falar, uma senhora aproximou-se de mim, abraçou-me afetuosamente e disse: “Muito obrigada. O senhor falou exatamente o que eu estava precisando ouvir”. Agradeci-lhe e respondi: “Eu também estava precisando escutar. Foi para mim próprio que falei”.
É assim mesmo. Tem coisas na vida da gente que se é capaz de teorizar com razoáveis precisão e lógica, com bom potencial persuasivo, mas quando se trata de pôr em prática, vê-se que agir não é assim tão fácil como fora fácil dizer.
Mesmo assim, e ainda que a autocrítica nos faça reconhecermo-nos portadores de ranços de hipocrisia, convém repetirmos exaustivamente, muito mais para nós mesmos do que para os outros, a excelência daqueles valores teóricos que já fomos capazes de racionalmente aceitar e ainda não conseguimos exercitar. De tanto repetir a teoria, um dia seremos levados à efetiva prática.

Conhecer para transformar-se
Talvez o grande desafio do processo evolutivo no campo da ética individual resida no salto de qualidade exigível daquele que compreendeu, mas ainda não conseguiu agir de acordo com esse entendimento.
No meio espírita, cita-se com bastante frequência o conceito de Allan Kardec segundo o qual o verdadeiro espírita deverá ser reconhecido “por sua transformação moral e pelos esforços que faz para domar suas más inclinações”.
Diferentemente, entretanto, das religiões, que subordinam a transformação moral à fé, a proposta espírita de melhoria ética individual está fundada no conhecimento. Conhecer aquilo que a filosofia espírita chama de “lei natural” é o caminho mais seguro, embora nem sempre tão curto, para atingir padrões ético-morais compatíveis com o desenvolvimento intelectual alcançado pelo ser humano.

Conhecer para transformar o mundo
A transformação pela fé produz santos. A transformação pelo conhecimento da lei natural e de suas consequências habilita homens e mulheres contribuir com o progresso da humanidade.
Em “O Livro dos Espíritos”, as entidades entrevistadas por Kardec estabeleceram uma sutil diferença entre o conhecimento da lei natural e sua compreensão (questão 619). Conhecê-la, disseram, todos podem. Mas nem todos a compreendem. A mim parece que a compreensão está ligada justamente a este fator: capacidade de avaliar as consequências da não observância da lei natural, o que estimula o esforço para debelar as chamadas “más inclinações”. E isto caracterizaria o verdadeiro espírita.
Por isso mesmo, acho graça quando alguém diz: eu estou me esforçando para ser espírita, mas ainda não sou. Quem assim fala, julga que para ser espírita é preciso ser santo. Não é assim. O espiritismo não foi feito para os santos, mas para os homens: homens imperfeitos que querem conhecer, compreender, transformar-se e, com sua transformação, contribuir com as mudanças que deseja do mundo.

O caráter consolador do espiritismo
Compreender significa também aceitar nossas próprias dificuldades no processo de mudança. Aí é que entra a importância da reencarnação, como suporte fundamental da filosofia espírita.
A ideia da reencarnação, como instrumento indispensável à evolução e ao progresso, além de nos tornar mais tolerantes com os outros, nos faz, igualmente, mais tolerantes conosco mesmos.
É reconfortante a convicção de que aquelas metas que desejo atingir e, no entanto, não consigo durante esta experiência reencarnatória, poderei alcançá-las numa próxima etapa.
Nesse sentido, o espiritismo é, de fato, uma doutrina consoladora. Ou seja: a um espírito incomodado por suas falhas e defeitos nada consola mais do que poder dizer a si mesmo: Tranquiliza-te, logo ali adiante estarás livre disso!



O espiritismo e sua 
essência pedagógica

Jerri Almeida – Professor; autor, entre outros, do livro: “Kardec e a Revolução na fé”.

“O Espiritismo prende-se a todos os ramos da Filosofia, da Metafísica, da Psicologia e da Moral; é um campo imenso que não pode ser percorrido em algumas horas”. (Allan Kardec – “O Que é o Espiritismo”)

Ao apresentar, em 1857, a primeira edição de O Livro dos Espíritos, e ao longo do século XIX, o conjunto de sua obra, Allan Kardec desvelou um novo paradigma conceitual e filosófico para compreendermos um pouco melhor, a complexa dimensão do Ser.
O inquietante problema do futuro do Ser, com seus possíveis castigos e punições eternas, ou com sua consagração ao eterno ócio serviu para atemorizar ou tornar céticos os indivíduos: “Outra razão que amarra às coisas terrenas até mesmo as pessoas que acreditam firmemente na vida futura liga-se à impressão que conservam de ensinamentos recebidos na infância. O quadro apresentado pela religião, a esse respeito, temos de convir que não é muito sedutor nem consolador.” (Revista Espírita/1865).
O espiritismo representou uma verdadeira ruptura epistemológica tanto em relação aos mitos ancestrais das culturas agrárias, como com o discurso culpabilizador das teologias do medo. Kardec tem a coragem do investigador e a competência do pedagogo para examinar comparativamente os ensinos de alguns sistemas teológicos, com o espiritismo nascente.
Homem aberto ao diálogo, Kardec, por vezes, lembrou que: “As ideias falsas, postas em discussão mostram seu lado fraco e se apagam ante o poder da lógica.” (Idem)  Assinala, ainda, que o critério de análise para a aceitação de um conhecimento, dito espírita, está no controle do ensino universal dos espíritos.
Na prática, significa que nenhuma verdade aparece isoladamente. A análise do conteúdo e significado das manifestações mediúnicas, por exemplo foi realizada por ele através de diferentes médiuns em diferentes localidades. Tais manifestações, antes de serem aceitas como verdadeiras, eram submetidas a uma análise comparativa para que se evidenciasse ou não, o consenso e o caráter de universalidade do ensino. Kardec, utilizando-se de diferentes médiuns, propunha-lhes temas pertinentes a certos problemas filosóficos, científicos e morais, com o objetivo de colher esclarecimentos ou ensinamentos compatíveis com a natureza dos assuntos investigados. Por isso, sua ênfase na “observação” e “dedução dos fatos”, submetidos ao critério da “concordância” ou da “universalidade do ensino” para, assim, serem aceitos.
Há, naturalmente, uma busca incessante de conhecimentos e reflexões, iniciadas em O Livro dos Espíritos e que não para com ele, nem mesmo o esgota em seu potencial doutrinário. Isso oferece ao conjunto da obra kardequiana uma importante organicidade e convida ao estudo integrado de seus textos, de forma a evitarmos a fragmentação da teoria.
O espiritismo retifica todas as ideias equivocadas, construídas ao longo da história humana, sobre o futuro da alma, o céu, o inferno, as penas e as recompensas. Demonstra, tanto pelas comunicações mediúnicas, balizadas pelo método da concordância universal, como pelo viés da razão e da lógica, a impossibilidade das penas eternas e dos demônios, numa palavra: “descobre-nos a vida futura e no-la mostra racional e conforme à justiça de Deus”.(Idem)  Abre um novo campo à educação, numa perspectiva de pensarmos o presente e o futuro com menos temor, com mais lucidez diante de nossas possibilidades de ação e aprendizado.
Dissipando velhas ideias, Kardec asseverou: “...uma ciência nova, que dá tais resultados em menos de dez anos, não é acusada de nulidade, porque toca em todas as questões vitais da humanidade e traz aos conhecimentos humanos um contingente que não é para desdenhar.” (Idem) O espiritismo prende-se, como afirmou o insigne pedagogo, a todos os ramos da filosofia, da metafísica, da psicologia, da moral, e poderemos acrescentar, também, da educação.
A rigor, compreendemos que a doutrina espírita, por sua natureza dinâmica, racional e ética, é capaz de formular uma educação profunda, capaz de estimular uma nova concepção do homem e da vida, posto que depositária de uma ordem de ideias essencialmente humanista. Portanto, não seria demais afirmarmos que Kardec, na sua condição de pedagogo, imprimiu no espiritismo uma essência pedagógica com dimensões muito amplas.
Discutiu, por vezes, o impacto dessas novas ideias na formação infantil.

Ele (o espiritismo) já prova sua eficácia pela maneira mais racional pela qual são educadas as crianças nas famílias verdadeiramente espíritas. Os novos horizontes que abre o Espiritismo fazem ver as coisas de modo bem diverso; sendo o seu objetivo o progresso moral da Humanidade, forçosamente deverá projetar luz sobre a grave questão da educação moral, fonte primeira da moralização das massas. (Revista Espírita – fev/1864).

 A teoria espírita lançando significativos esclarecimentos sobre o mistério da existência agrega, inevitavelmente, novos elementos na estrutura familiar, especialmente na educação de pais e filhos. A dimensão educacional do espiritismo, segundo Kardec, teria efeitos na composição de novos elementos culturais através das gerações. Não se trata apenas de limitarmos os efeitos dessa filosofia ao aspecto moral, mas de ampliarmos tais efeitos para o universo da própria cultura. 
Desde a infância, o ser começa a absorver a herança cultural que assegura sua formação e orientação ao longo do tempo. Quando essa herança é limitada ao pensamento materialista ou aos elementos mítico-religiosos, ela fecha o sujeito para voos mais amplos de compreensão e inserção mais plena na vida. Nesse sentido, o espiritismo, em sua perspectiva educacional, abre a cultura para os aspectos mais profundos da identidade espiritual e para o aperfeiçoamento integral do Ser.
Assim como, no dizer do sociólogo francês Edgar Morin, o patrimônio hereditário do indivíduo está inscrito no código genético, o patrimônio cultural está inscrito, primeiro, na memória (individual e coletiva) e, depois, na cultura formal (leis, literatura, artes, religião, educação, etc). Segundo Morin, a cultura é fechada e, ao mesmo tempo, aberta, pois enquanto o dogmatismo do pensamento enclausura o conhecimento, o dinamismo cultural o abre para novas possibilidades.
Nesse sentido, percebemos uma valiosa contribuição do espiritismo no campo educacional do espírito humano, abrindo a cultura para novas possibilidades de ver o mundo num contínuo dinamismo conceitual. Dessa ação pedagógica profunda (não formal), emergem novos significados sobre as leis da natureza, a felicidade humana, a morte, o complexo familiar, os conflitos e sofrimentos humanos, individuais e coletivos. A essência pedagógica do espiritismo, sem nenhuma pretensão proselitista ou salvacionista, estabelece uma ação educativa no momento em que nos desafia para uma mudança de percepção sobre nós mesmos, nos oferecendo horizontes mais amplos de compreensão sobre a admirável estrutura das leis naturais e morais da vida, garantidoras de felicidade e paz.





O que pensam os espíritas sobre o espiritismo
O orador e pesquisador espírita Ivan Franzolim (São Paulo) acaba de divulgar o resultado de pesquisa por ele realizada, entre espíritas, sobre alguns aspectos doutrinários a respeito dos quais pairam divergências.
Ouvido por CCEPA Opinião, Franzolim, que é pós graduado em Marketing e Comunicação, informou que, entre os pesquisados, 37% “não concordam com a doutrina espírita em alguns pontos ou vários”.
Acerca de alguns pontos polêmicos, bastante discutidos no Brasil, a pesquisa traz resultados até certo ponto surpreendentes. Por exemplo: mais da metade dos espíritas pesquisados (57%) não conhecem a tese de Roustaing sobre o corpo fluídico de Jesus. A tese, no entanto, é historicamente defendida pela mais importante instituição espírita do país, a FEB, e já foi contestada por ilustres pensadores espíritas, por sua discordância com a proposta kardeciana. Também contrariamente à posição da Federação Espírita Brasileira, 30,3% dos entrevistados afirmaram que o espiritismo não é religião, possuindo, no entanto, consequências morais.
Interpretando a questão da lei de causa e efeito, 59,4% dos pesquisados entenderam que as pessoas terão de passar por idênticos sofrimentos que impuseram a outros.
Jesus teve uma evolução reta, sem grandes erros para 42,3% dos espíritas, somando com a resposta “Não Sei” o total chega a 63,5%. Jesus foi o "Espírito de Verdade" que auxiliou Kardec para 49,1%, somando com a alternativa “Não Sei” o alcança 77,5%. Em ambas as questões o sexo feminino tem um indicador maior de aceitação do que o masculino. Quem tem a escolaridade de Ensino Fundamental e Médio registrou maior aceitação do que quem estudou o Ensino Superior ou acima
Sobre ser o Brasil a “Pátria do Evangelho” e o “Coração do Mundo”, 73,3% dos espíritas ouvidos concordam parcial ou totalmente com essa afirmação. Mas, segundo Franzolim, “quanto maior é o grau de estudo do pesquisado, menor a aceitação dessa afirmação”.
A pesquisa foi realizada de forma independente, em formulário eletrônico com 40 questões e distribuída pela Internet. Foram recebidas 1204 respostas válidas de 23 estados e 232 cidades do Brasil. Estatisticamente, a amostra permite tirar conclusões do universo de 2% de espíritas segundo o Censo 2010. O leitor poderá ver a pesquisa na íntegra no link: http://franzolim.blogspot.com.br/.

 Milagres – uma interpretação espírita
   Registramos o recebimento de um exemplar do livro “Milagre – fato natural ou sobrenatural?”, do escritor paranaense José Lázaro Boberg. A obra, lançada pela Editora EME, fundamentada em conceitos de Allan Kardec, especialmente extraídos do livro “A Gênese” discorre sobre a imutabilidade das leis de Deus, demonstrando que fatos comumente tidos como milagres são resultado de mudanças de comportamento e da vontade ativa, capazes de verdadeiros prodígios, inclusive curas.
O novo livro de Boberg está à venda na livraria do CCEPA.







Saudação e saudade
Juntamente com o cheque para quitar minha assinatura de CCEPA Opinião, esse valoroso jornal espírita, cumprimento-os pelo trabalho que realizam. Leio-o sempre com muito carinho e, frequentemente, divulgo temas que me parecem mais relevantes.
Aos companheiros de ideal, peço a compreensão por já não poder estar junto a todos, nesta fase de minha vida quando me aproximo dos 80 anos. Recordo sempre, entretanto, com muito carinho esses batalhadores da causa espírita, entre os quais os integrantes do CCEPA, Salomão, Milton, Jones e Rui, assim como todos aqueles com quem andei por tantas cidades e localidades de diferentes países, a serviço da divulgação doutrinária.
Saudosíssimas saudações!
Dorival Alves Fêo – Mogi das Cruzes/SP.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

OPINIÃO - ANO XXI - Nº 232 - AGOSTO 2015

O Céu e o Inferno – 150 anos

Um livro contra o niilismo

e a fé cega

Há um século e meio, Allan Kardec lançava “O Céu e o Inferno ou A Justiça Divina Segundo o Espiritismo”. Na obra, o fundador do espiritismo aborda, na teoria e na prática, a questão da sobrevivência à morte física e as sensações – boas ou más – experimentadas pelo espírito, após a desencarnação.

O lançamento
“Le Ciel et l’Enfern” chegou às livrarias de Paris no dia 1º de agosto de 1865. Na edição de setembro da Revista Espírita, mensário por ele dirigido, Allan Kardec assim resumiu o conteúdo da obra: “o exame comparado das doutrinas sobre a passagem da vida corporal à vida espiritual, as penas e recompensas futuras, os anjos e os demônios, as penas eternas, etc.; seguido de numerosos exemplos sobre a situação real da alma durante e após a morte”.

Combate ao materialismo
Desde seu capítulo inicial, “O Porvir e o Nada”, “O Céu e o Inferno” deixa claro seu objetivo essencial: o combate ao materialismo. Sustentando não haver nada mais desesperador do que “o pensamento da destruição absoluta”, Kardec vê o niilismo como “uma doutrina insensata e antissocial”, pois que “rompe os verdadeiros laços de solidariedade e fraternidade em que se fundam as relações sociais”. Para ele, o espiritismo “vem opor um dique à difusão da incredulidade, não somente pelo raciocínio, não somente pela perspectiva dos perigos que ela acarreta, mas pelos fatos materiais, tornando visíveis e tangíveis a alma e a vida futura”.

Religião – causa da incredulidade
Na parte inicial da obra, Kardec também faz dura crítica à religião e seus dogmas sobre céu, inferno e penas ou recompensas eternas, “apropriadas, no seu começo, aos conhecimentos limitados do homem”. Argumenta, entretanto, que se a religião “tivesse acompanhado sempre o movimento progressivo do espírito humano, não haveria incrédulos, porque está na própria natureza do homem a necessidade de crer, e ele crerá desde que se lhe dê o pábulo espiritual de harmonia com as suas necessidades espirituais”.
Após o enfoque doutrinário sobre temas como céu, inferno, anjos e demônios, numa perspectiva filosófica espírita, Kardec ocupou-se, na segunda parte da obra, de comunicações mediúnicas ditadas por diferentes categorias de espíritos (felizes, infelizes, medianos, arrependidos, suicidas, etc.), depondo acerca das condições em que chegaram ao mundo espiritual.




Materialismo – um combate gradual
Crítico do materialismo que, em seu século, ganhou foros de ciência e de ideologia política, Allan Kardec, no entanto, guardava sérias dúvidas de que alguém, honestamente, pudesse interpretar o universo e a vida a partir de um viés inteiramente materialista.
O autor de “O Céu e o Inferno”, no primeiro capítulo da obra, registrou que “na maioria dos incrédulos, há mais jactância do que verdadeira incredulidade, mais dúvida que convicção”, e que “incrédulos absolutos se contam por ínfima minoria”.
Atribuindo à própria religião a causa do materialismo, por não haver esta acompanhado o progresso do conhecimento, Kardec reservava ao espiritismo a tarefa de sintetizar “as opiniões divergentes ou flutuantes”, trazendo gradualmente “a unidade de crenças sobre esse ponto (a sobrevivência do espírito), não já baseada em simples hipótese, mas na certeza”. Antevia nessa síntese espírita “a unificação relativamente à sorte futura das almas”, e que isso seria “um passo imenso para a tolerância religiosa, em primeiro lugar, e, mais tarde, para a completa fusão”.
Teria o espiritismo falhado nessa tarefa que lhe atribuiu seu fundador? Provavelmente sim, na medida que optou em se apresentar como mais uma religião, contrariando a expressa recomendação de seu criador. Provavelmente não, na medida em que se capacite a sintetizar as múltiplas, e cada vez mais polifacetadas experiências, no campo da ciência, da filosofia e das emoções humanas, extraindo delas as bases de um novo paradigma de conhecimento, realmente revolucionário e inovador, dotado de método e linguagem a todos acessíveis.
O desafio é imenso. Mas, um século e meio depois, continua sendo este o grande objetivo do espiritismo: demonstrar ao ser humano sua condição essencial de espírito imortal. Debelando de forma gradual o materialismo, meta não atingida pela religião, o espiritismo estaria dando cumprimento a seu verdadeiro e fundamental papel histórico. Parece pouco, mas disso pode resultar uma nova era para a humanidade. (A Redação)




Religião – para o bem e para o mal
“A democracia requer que pessoas motivadas religiosamente traduzam suas preocupações para valores universais, não determinados pela religião.” (Barack Obama, em “A Audácia da Esperança”)

Ao fim da longa audiência pública do Supremo Tribunal Federal, em 15 de junho, o ministro Luís Roberto Barroso, em tom bem-humorado, e no mesmo clima de cordialidade que envolvera o ato reunindo entidades religiosas e laicas, fez o seguinte registro: “A religião pode ser usada para o bem e pode ser usada para o mal. Constantino converteu-se ao cristianismo, deixou de adorar o deus sol, mas matou o filho mais velho, matou o cunhado, e ferveu a mulher em água quente”.
A audiência houvera sido convocada por Barroso como relator da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI 4439) na qual a Procuradoria Geral da República questiona o ensino religioso confessional nas escolas públicas. A decisão do STF ainda não proferida, no momento em que é escrito este editorial, por certo levará em conta subsídios oferecidos, na audiência, pelas entidades que ali se manifestaram.
O tema já foi objeto de outro editorial deste mensário (edição n. 230). Consignamos, ali, que da Federação Espírita Brasileira, uma das entidades convidadas para a audiência, era de se esperar “posição firme de apoio à demanda do Ministério Público Federal”, em consonância com a postura histórica adotada desde o Século XIX pelo espiritismo em favor da laicidade do Estado e a da não ingerência da fé religiosa em temas da esfera pública.
Por dever de justiça, estamos retornando ao assunto para louvar a impecabilidade da manifestação da FEB, na audiência pública. Representada, no ato, pelo professor Álvaro Chrispino, a chamada “casa mater” do espiritismo brasileiro defendeu o ensino não confessional nas escolas públicas, sustentando que o “ensino religioso, de matrícula facultativa”, previsto no artigo 210,§ 1º, da Constituição Federal, deve, na verdade, focar-se no ensino da moral, da ética e na formação do indivíduo social.
Com esse posicionamento, a FEB ratificou, aliás, histórica decisão de seu Conselho Federativo Nacional, de janeiro de 1951, onde, expressamente, aconselhava os espíritas “a se absterem de pleitear a inclusão do ensino do Espiritismo nas escolas oficiais”. Observe-se, a propósito, que a resolução acima, aparentemente, adotava postura contrária àquela sugerida pelo livro “Religião”, de Carlos Imbassahy, editado pela própria FEB. A obra, recorde-se, defendia ardorosamente a condição de religião do espiritismo e fora escrita em resposta a decisão do Diretor de Ensino do Estado de São Paulo, em 1938, que, por não considerar o espiritismo uma religião, escudado em conceitos retirados das obras de Allan Kardec, negava o pleito de um grupo de pais espíritas que requeriam fosse a doutrina espírita ministrada nas escolas públicas, como o eram outras crenças, à luz da então vigente Carta Magna de 1934.
Embora siga defendendo ser o espiritismo uma religião, a FEB, diferentemente das igrejas cristãs, não pleiteia espaço de difusão de suas crenças em escolas públicas, e o faz em respeito ao princípio da laicidade do Estado. Trata-se de posicionamento correto, especialmente nesta quadra de nossa história política, onde se observa, com preocupação, uma exagerada ingerência religiosa nas questões do Estado, num retrocesso em sentido claramente oposto às ideias republicanas da modernidade. Religião, reafirme-se, é questão de foro íntimo. Como muito bem sinalizou o ilustre ministro do STF, a quem caberá relatar a ADI 4439, às religiões a História debita ou credita a responsabilidade por abomináveis crimes ou por contribuições moralmente importantes. Entretanto, de há muito superamos o tempo em que a fé, frequentemente irracional, se sobrepunha ao Estado e à cidadania. Estes, necessariamente, devem ter suas políticas fundadas na racionalidade a que estão vinculados valores como educação, direito e justiça.






Laranja-do-céu
Sabe aquela laranja muito doce, conhecida em outras partes do Brasil como laranja-lima ou laranja-serra-d’água? Cá no Sul, nós a chamamos de laranja-do-céu. Costumo comprá-la na feira livre que frequento, aqui em Porto Alegre. Dias atrás, escolhi algumas, coloquei-as na sacola e as entreguei para pesar. Para identificá-las melhor em relação a outras de preços diferentes, fui avisando o vendedor: “É daquelas para onde a gente vai depois de morrer”. Bem humorado, como são geralmente os feirantes, ele foi logo respondendo: “Não sei não, se a gente vai pra lá. É que as leis tão sempre mudando. Só esperando pra ver”.

O Céu e o Inferno
O livro de Allan Kardec, “O Céu e o Inferno”, que completa 150 anos de lançamento, se outras qualidades não tivesse, esta já o distinguiria: abordou a questão da sobrevivência do espírito e as diferentes sensações por este vivenciadas, a partir da transição do mundo material para o espiritual, com grau de racionalidade nunca utilizado pelas religiões. Na base de tudo, está a lei de causa e efeito.
O principal mérito da obra lançada em 1865 foi o de deslocar o tema do âmbito das religiões - cujas regras são instáveis no tempo e no espaço, além de contraditórias entre si - para o domínio da consciência individual do sujeito. Ou seja: se algo sobrevive ao corpo físico e, em outra dimensão, recebe o que as religiões chamaram de recompensas ou castigos, essa responsabilização não há de se dar pela crença nestes ou naqueles dogmas de fé, mas, fundamentalmente, pelo bem ou pelo mal que o indivíduo praticou em sua passagem terrena.

O que está mudando
Ouvindo de meu vendedor de laranjas a observação de que as leis estão mudando, e que, por causa disso, já não tem certeza da conquista do céu, imaginei-o atravessando uma crise religiosa. Talvez tenha alimentado por muito tempo crenças hoje não mais sustentadas sequer pela própria religião que, no passado, as proclamava. Artigos de fé, ontem credenciais para o céu, se esfumaram em lendas, mitos, ou meras alegorias.
Quando ouço do atual Papa conceitos sobre a imprescindibilidade da aceitação do diferente, revogando anátemas ontem lançados contra o homossexual, o divorciado, o crente de outra fé, o descrente, etc., ou quando ele chama a atenção para a responsabilidade individual e coletiva em temas como solidariedade, meio-ambiente, distribuição de renda, igualdade e justiça social, anima-me a esperança de que, finalmente, as religiões, todas, concluam que o céu nada mais é do que a sensação pelo cumprimento do bem, e o inferno não passa do remorso pela prática do mal.

O imutável
Imutável mesmo só é o conceito de que a prática do bem produz felicidade e que o mal traz sofrimento. As religiões inventaram rituais, prescreveram penitências e pregaram a necessidade da fé, para o espírito livrar-se do inferno e ganhar o paraíso. A sesquicentenária obra de Kardec que se ocupou do tema aponta um caminho de três etapas ao espírito atormentado pela culpa: o arrependimento, a expiação e a reparação. Arrepender-se é ato subjetivo que ninguém pode delegar a ninguém, nem a Deus, nem a anjos, a santos ou espíritos superiores. Expiar é aceitar e administrar, conscientemente, o sofrimento como consequência natural do erro praticado. Reparar é atuar objetivamente em favor das pessoas ofendidas ou dos valores violados.
“O Céu e o Inferno”, valendo-se da própria terminologia das religiões, dessacraliza o céu e “dessataniza” o inferno, situando-os no único lugar onde eles realmente existem: a consciência íntima do ser.





Grave Equívoco Doutrinário
Aureci Figueiredo Martins – espírita, bacharel em Direito/UFRGS, Porto Alegre.
No movimento espírita, especialmente no brasileiro, construiu-se um viés deformador do verdadeiro caráter da doutrina espírita, codificada por Allan Kardec. Com efeito, o chamado “aspecto religioso” é uma distorção doutrinária nascida por influência de adeptos que trazem, para dentro dos arraiais espíritas, resquícios das crenças dogmáticas que professaram em suas vivências pregressas, recentes ou remotas.
Este grave desvio doutrinário tem origem no equívoco de considerar-se Jesus um líder religioso, fundador das chamadas “religiões cristãs”, quando, na verdade, o Mestre foi um filósofo peripatético, possuidor de grande sabedoria e admiráveis dotes mediúnicos, e que teve, como inimigos e perseguidores, os religiosos de sua época, afeitos a cultos e rituais espetaculosos (e lucrativos). A estes falsos profetas, Jesus se referiu como “sepulcros caiados” ou “cegos que guiam cegos”...
Por oportuno, cabe lembrar, que, justamente na introdução d’O Evangelho segundo o Espiritismo, Kardec assim intitulou o cap. IV: “Sócrates e Platão, precursores da ideia cristã e do Espiritismo” e, a seguir, os ensinos morais de Jesus são analisados, comentados e interpretados racionalmente à luz dos postulados espíritas.
Fica, assim, evidente que o Espiritismo faz uma abordagem filosófica, crítica e epistemológica dos fundamentos doutrinários das religiões em geral, fato que o torna inconfundível com nenhuma delas. Com efeito, não possuindo dogmas, sacerdotes ou pastores remunerados, e tampouco adotando rituais ou cultos exteriores, cobrança de dízimo ou aceitação de quaisquer outros tipos de remuneração pelos serviços que presta aos que o procuram, as instituições realmente espíritas constituem-se como escolas de assuntos espirituais.
 Evolucionista, a doutrina espírita defende a tese reencarnacionista, que esclarece os porquês das diferenças biopsicossociais existentes entre os indivíduos, aclarando o entendimento da infinita misericórdia do Criador, que não condena suas criaturas a penas infernais, irremissíveis ou eternas, pois que, ao contrário, viabiliza-lhes a evolução ascendente mediante múltiplas vidas sucessivas, tantas quantas se lhes fizerem necessárias à conquista do nível de expansão consciencial que, um dia, nos liberará da necessidade de animar corpos carnais.
Quanto à fé cega propriamente dita, mãe de históricos mandos e desmandos sectários, aquela que manda crer cegamente em dogmas que não resistem ao crivo de uma análise lógica, além de considerá-la falta de respeito à própria inteligência, vemo-la tipificada como solerte obsessão no item 239 d’O Livro dos Médiuns, de Allan Kardec.
Com efeito, o sábio filósofo galileu, a partir do quarto século da chamada “era cristã”, passou a ser mitificado e endeusado desde que o Imperador Constantino I conclamou o Concílio de Nicéia (325 d.C.) e nele se estabeleceram as bases de uma religião, dogmática e ritualística, para substituir o culto aos deuses do então já decadente paganismo romano. Essa crença em dogmas irracionais, antítese do “conhecimento que liberta” preconizado por Jesus, foi imposta a ferro e fogo durante séculos pelos autoproclamados “representantes de Deus na Terra” no que hoje se estuda como “cristianismo histórico”, expressão caricata da doutrina amorosa e libertária ensinada e vivenciada por Jesus.
Excetuadas algumas (poucas) denominações religiosas, as religiões “cristãs” ainda hoje prescrevem a crença cega, bem como a salvação pela fé ou pela graça, esquecidas de que Jesus declarou que cada um recebe “conforme suas obras”, ou seja, pelo que faz ou deixa de fazer.
Apegadas ao Antigo Testamento, muitas religiões ainda pregam o temor a Deus e a crença no demônio, em franco confronto com o “amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo” do excelso Mestre. 
A bem da clareza, cabe frisar que não menoscabamos a figura excelsa de Jesus, pois que entendemos a consoladora filosofia espírita como o próprio Evangelho do Mestre, restaurado e interpretado em espírito e verdade. Igualmente, lembremos o que consta do item 625 d’O Livro dos Espíritos, no qual Kardec formula a seguinte indagação aos Espíritos Superiores: “Qual o tipo mais perfeito que Deus tem oferecido ao homem, para lhe servir de guia e modelo?”, e a resposta deles é direta e incisiva: “Vede Jesus”. E Kardec acrescenta: “Para o homem, Jesus constitui o tipo da perfeição moral a que a Humanidade pode aspirar na Terra (...)”.
Por estas e outras razões aqui omitidas, ficamos com Kardec, que esclarece no seu terceiro diálogo do livro “O que é o Espiritismo”: "O Espiritismo é, antes de tudo, uma ciência e não se ocupa de questões dogmáticas. Esta ciência tem consequências morais, como todas as ciências filosóficas. (...) Seu verdadeiro caráter é, portanto, o de uma ciência e não o de uma religião”.





Um olhar sobre “O Céu e o Inferno”
Durante o presente mês de agosto, em homenagem aos 150 anos de lançamento de “O Céu e o Inferno” (Allan Kardec, Paris/1865), os grupos de estudos do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre dedicarão um espaço especial, em suas reuniões, para o estudo daquela obra à qual Kardec deu o subtítulo de “A Justiça Divina Segundo o Espiritismo”.
Na foto, em uma de suas reuniões de todas as quartas-feiras (15h), o Grupo de CIBEE – Ciclo Básico de Estudos Espíritas -, coordenado por Marcelo Cardoso Nassar e Dirce Terezinha de Carvalho Leite. O mais novo grupo de estudos do CCEPA resultou de um Curso Básico de Espiritismo, ministrado na instituição, em março último. Interessados em estudar regularmente a doutrina espírita permaneceram na instituição, formando o grupo que segue aberto a novas adesões.

Sexta é dia de “O Livro dos Espíritos”
Em reunião inteiramente aberta ao público, mesmo sem o compromisso de comparecimento regular, todas as sextas-feiras, às 15h, acontece no Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, um estudo analítico, questão por questão, de “O Livro dos Espíritos” (Allan Kardec, Paris/1857), obra fundamental da filosofia espírita.
O trabalho é coordenado por Salomão Jacob Benchaya, diretor do Departamento Doutrinário do CCEPA, e tem a participação de Maurice Herbert Jones, como debatedor das questões estudadas, sempre numa perspectiva atualizada, livre-pensadora e aberta a contribuições de outras áreas do pensamento.

Opinião do Leitor
Parabenizamos o nobre escritor Medran, pela clareza de raciocínio nos textos de Opinião em Tópicos (edição maio/2015).
“Cada espírito permanece exatamente no patamar construído por seu próprio psiquismo. Está na hora de exorcizarmos da reflexão espírita um pouco da culpa judaico-cristã, substituindo-a por noção de responsabilidade”, conclui o texto.
Na realidade, somos os construtores de nosso destino, num processo infinito. Nada de céu e inferno –  com suas fantasias – e tantas outras ‘propagandas enganosas’ elaboradas pela Teologia. Tudo ocorre no foro íntimo da consciência. “O Universo e a vida têm complexidade suficiente. Não precisamos importar a complexidade inventada da teologia” (Dawkins: Veja 27 de maio, 2015). Em nosso livro O Código Penal dos Espíritos – a justiça do Tribunal da consciência, no qual citamos, em vários momentos, o articulista, dizemos: Somos os nossos próprios juízes, promotores e advogados, diante das Leis do Universo. Pela nossa ótica, o julgamento se dá no plano da consciência, sempre em consonância com o despertar do entendimento, e ocorre no foro íntimo de cada criatura, de acordo com o grau de evolução. Independe, portanto, de local especial ou de tempo determinado, para que esta justiça funcione, quer o Espírito esteja no corpo físico quer fora dele, pois cada um é julgado por si mesmo, mediante a consciência de seus erros. No dizer de Emmanuel (Fonte Viva, lição 160): “Não é preciso atravessar a sombra do túmulo para encontrar a justiça face a face. Nos princípios de causa e efeito, achamo-nos incessantemente sob a orientação dela, em todos os instantes de nossa vida”.
Com nosso abraço, agradecido.
José Lázaro Boberg – Jacarezinho/PR.


sábado, 11 de julho de 2015

OPINIÃO - ANO XXI - Nº 231 - JULHO 2015


CCEPA - 20 anos com a CEPA
Há 20 anos, em 8 de julho de 1995, oficializava-se o ingresso do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre nos quadros da Confederação Espírita Pan-Americana, dando início a uma nova etapa da histórica atuação do CCEPA no campo do estudo e da difusão do pensamento kardecista.

Antecedentes históricos
A Confederação Espírita Pan-Americana, fundada na Argentina, em 1946, já havia exercido forte influência em alguns meios espíritas brasileiros nos primórdios de suas atividades. Sob os auspícios da Liga Espírita do Brasil (LEB), a CEPA realizou no Rio de Janeiro, em 1949, seu II Congresso Espírita Pan-Americano, evento secretariado por Deolindo Amorim (1906/1984), jornalista, escritor e sociólogo, presidente do Instituto de Cultura Espírita do Brasil (ICEB), que integrava a LEB. Por ocasião do Congresso do Rio de Janeiro, um brasileiro foi eleito para presidir a CEPA, Pedro Delfino Ferreira, que esteve frente à entidade pan-americana de 1949 a 1952.
Entretanto, o movimento de “unificação” do espiritismo brasileiro, iniciado no Rio de Janeiro, naquele mesmo ano, com o chamado “Pacto Áureo”, sob o lema “Deus, Cristo e Caridade”, da Federação Espírita Brasileira, iria redundar no fechamento da Liga Espírita do Brasil. Sedimentava-se o perfil evangélico do espiritismo brasileiro, inspirado na obra mediúnica “Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho”. Por alguns anos, assim, a visão laica e livre-pensadora de espiritismo, característica da CEPA, foi muito pouco conhecida no Brasil.

O ressurgimento da CEPA no Brasil
Em 1994, o venezuelano Jon Aizpúrua, que no ano anterior havia assumido a presidência da Confederação Espírita Pan-Americana, inicia contatos de intercâmbio com instituições brasileiras que guardassem o mesmo perfil da CEPA. Em circular às casas espíritas brasileiras, Aizpúrua manifestou seu respeito ao movimento espírita brasileiro que, em seus mais amplos segmentos, optara “por uma definição religiosa, particularmente evangélica da Doutrina Espírita”, com as quais a CEPA desejava continuar mantendo relações de amizade e fraternidade. Entretanto, diante da existência de numerosas instituições que não aceitavam a conceituação do espiritismo como religião, preferindo tomá-lo numa concepção científica, filosófica e moral, com sentido progressista e livre-pensador, a circular convidava essas instituições a aderirem à Confederação Espírita Pan-Americana. Em atenção a esse convite, centros espíritas de relevante tradição no meio espírita brasileiro, como o C.E.Allan Kardec (Santos), o Ângelo Prado (Santos), a S.E.E.Herculano Pires (São Paulo) e também o Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, entre outros, pediram adesão à CEPA. No caso do CCEPA, sua adesão formal deu-se em 8 de julho de 1995, após visita de Aizpúrua à instituição, registrada na foto onde aparece, ao centro, juntamente com Medran (E) e Jones.

A presença do CCEPA na CEPA
No ano seguinte (1996), uma numerosa delegação do CCEPA compareceria ao XVII Congresso Espírita Pan-Americano, evento no qual, um de seus membros, Milton Rubens Medran Moreira, foi eleito para a 2ª vice-presidência da CEPA. No Congresso seguinte, realizado em Porto Alegre, quando presidia o CCEPA Maurice Herbert Jones, Medran foi conduzido à presidência da CEPA que, assim, passou a ter, por dois mandatos consecutivos (de 2000 a 2008) o Centro Cultural Espírita de Porto Alegre como sede, sob a secretaria geral de Salomão Jacob Benchaya, exercendo a tesouraria Tereza Samá, todos integrantes da tradicional instituição gaúcha.
O laço a unir CEPA e CCEPA só tem se fortalecido, nesses 20 anos. Em todos os Congressos realizados pela Confederação, assim como nos Encontros e Fóruns promovidos pela Associação Brasileira de Delegados e Amigos da CEPA, CEPABrasil (entidade fundada em 2003), o Centro Cultural Espírita tem se feito presente, oferecendo sua contribuição intelectual e com numerosas delegações de associados e simpatizantes.





Mudanças que trazem riscos
Narrada linear e cronologicamente, a história do vínculo CCEPA/CEPA aparenta ter se dado de forma serena e indolor. Afinal, nada mais normal do que uma instituição espírita, de tradição e postura genuinamente espíritas, postular e obter adesão a um organismo igualmente espírita, destinado a congregar entidades de todo o continente americano reconhecidamente espíritas.
Uma palavra, no entanto, trazia embaraços a esse tipo de vinculação: religião. Por uma tendência nascida já em suas origens, e, especialmente, por construção coletiva de ideias, a Confederação Espírita Pan-Americana, em sua trajetória, consolidara o entendimento de que não convinha ao espiritismo definir-se como uma religião. Ao invés disso, ao lado de seus aspectos científicos e filosóficos, a CEPA sempre defendeu a presença de um aspecto moral a caracterizá-lo. Apreendera isso da própria obra de Allan Kardec. Esse detalhe, porém, nunca fora uma questão fechada no âmbito da CEPA, que sempre buscou preservar vínculos afetivos e mesmo institucionais com organismos do chamado espiritismo religioso, em respeito aos princípios comuns que os deveriam unir. Exatamente para preservar essa união ela fora fundada, em 1946.
Em contrapartida, por força de uma ideologia de profundas raízes católico/cristãs, adotada pelo movimento espírita brasileiro, negar ao espiritismo a condição de religião afigurava-se como algo tão grave quanto negar os próprios postulados básicos do espiritismo. Não aceitar o espiritismo como religião era o mesmo que não ser espírita. Diante da rigidez desse conceito, não seria fácil a decisão do CCEPA de aderir à CEPA, especialmente por força de seus vínculos históricos com o movimento federativo, tendo dois de seus membros presidido, em época recente, o órgão unificador estadual: Maurice H. Jones e Salomão J.Benchaya. 
As dificuldades internas e externas, que precisamos superar a partir da decisão de integrar os quadros da CEPA, por conta da visão laica e livre-pensadora por esta adotada, não caberiam neste exíguo espaço. Benchaya relatou-as com propriedade no livro “Da Religião Espírita ao Laicismo”: https://drive.google.com/file/d/0B9CFzVtKHMeYWVRFcUJvUVZOenM/edit?usp=drive_web – onde se reporta às reações advindas do movimento espírita religioso que nos baniu da convivência espírita local, rompendo, unilateralmente, os históricos laços institucionais por tantos anos construídos e preservados.
Passados 20 anos, tem-se a sensação de que esse quadro sofreu mudanças. Não de parte das instituições matrizes do espiritismo religioso. Neste momento, por exemplo, comenta-se a guinada sofrida pela Federação Espírita Brasileira ao resgatar conceitos roustainguistas que parecia haver abandonado, mas que voltaram a definir seu perfil místico-religioso (veja-se, a propósito, artigo de Wilson Garcia em http://www.expedienteonline.com.br/no-de-marinheiro/). Inegavelmente, porém, há, no meio espírita não institucionalizado, um número cada vez maior de autênticos livre-pensadores. Estes, naturalmente, superaram a fase religiosa e, lucidamente, contemplam a proposta espírita com o mesmo olhar crítico, progressista e atualizador por nós adotado.  Por trás dessas mudanças, está, sem dúvida, uma forte contribuição da CEPA, bem maior do que seu próprio crescimento institucional, pois que este implica em obstáculos e dificuldades que nem todos estão dispostos a enfrentar. (A Redação)

 


Corrupção e Justiça
“A justiça consiste em dar a cada um o que é seu”.Ulpiano

O Brasil vive período singular de sua história. Bom ou mau? Depende do ângulo pelo qual se veja.
Seria, há bem pouco tempo, inimaginável a presença de tantos grandes empresários, políticos, ex-governantes e parlamentares presos, ou para cumprir penas já aplicadas ou, preventivamente, como garantia de investigações em curso.
Uma forma de ver a questão pode conduzir à conclusão de que nunca houve tanta corrupção e que vivemos período de degradação moral em níveis jamais registrados. Outra, contudo, permite vislumbrar transformações, inspiradas justamente na melhor capacitação de parte do cidadão e da sociedade, de cobrar do poder estatal mais eficiência e efetividade na apuração e responsabilização de seus agentes e daqueles com os quais, em nome do estado, eles se relacionam, diante de práticas moralmente reprocháveis. Práticas, aliás, historicamente toleradas ou mantidas impunes. Muitos dos delitos ora levantados apontam exatamente para essa realidade: o estado até aqui foi leniente com alguns tipos de corrupção, presentes em sua cultura desde os primórdios da história pátria. Ou, no mínimo, manteve-se desaparelhado para essa delicada função, que exige o refinamento da virtude republicana da independência dos poderes e do reconhecimento da igualdade entre seus cidadãos.
Essa última interpretação, mais consentânea com o refletir espírita, sinaliza avanços institucionais e, logo, morais. A indignação, hoje claramente expressa pela sociedade, começa a operar transformações que vão desde o aprimoramento da legislação, ou da efetiva aplicação de estatutos legais já existentes, ao melhor aparelhamento dos organismos públicos na persecução criminal, atingindo a todos, sejam quem forem os transgressores.
A filosofia espírita, nascida em período histórico em que se estruturaram concretamente conquistas do chamado estado de direito, vê o processo civilizatório como evidência de avanço moral da humanidade. Assim, a 3ª parte de O Livro dos Espíritos arrola a lei do progresso, a lei de igualdade e a lei de justiça como leis morais presentes na natureza e incrustadas na própria consciência do ser humano, mas só desenvolvidas e convenientemente aplicadas mediante o avanço civilizatório e na medida em que, no ser humano, “a moral estiver tão desenvolvida como a inteligência.” (questão 791).
O exercício da justiça, numa perspectiva filosófica espírita, alinha-se a antigas tradições humanistas. A clássica figura de uma deusa grega trazendo os olhos vendados e portando em uma das mãos a espada e, na outra, a balança, símbolo milenar da equidade e da isonomia, evoca o ideal ético de se tratar a todos com igualdade, independentemente de seu poderio econômico, de sua posição social ou política. A consciência coletiva de que a justiça, necessariamente, deva ser aplicada cegamente é indício do atingimento de um status civilizatório do qual estivemos distantes, em anteriores períodos.
Há sinais de que temos avançado nessa caminhada, com ênfase para fatos ocorridos nesta última década. A uma coisa, entretanto, devemos estar atentos: é imprescindível vigiarmos para que nossas preferências ou comprometimentos políticos ou ideológicos não incidam no julgamento pessoal que fazemos acerca dos cidadãos envolvidos em todos esses escândalos que vêm à tona. Somos também, de certa forma, como integrantes de uma sociedade que, cada vez mais, se utiliza de mecanismos massivos de comunicação, juízes de cada uma dessas causas. A opinião pública também pesa na balança da deusa grega que simboliza a justiça. Tanto quanto ela, devemos manter os olhos vendados àqueles fatores político-partidários, ideológicos ou corporativos, tendentes a nos levar a juízos discriminatórios, impeditivos de uma justiça que cumpra o preceito universal de se dar a cada um o que é seu.
Nossos posicionamentos pessoais, assim como o justo agir de cada cidadão, são fatores importantes a ditar e a estruturar os padrões de justiça da nação. Todos somos responsáveis.
A figura da deusa grega com os olhos vendados evoca o ideal ético de se tratar a todos com igualdade.







A missa e o passe
De passagem, ouvi a conversa entre duas mulheres: “Não, eu agora não estou mais indo à missa. Vou ao centro espírita todas as semanas tomar um passe.”.
Pelo visto, ela havia trocado de religião. Mas, ao que tudo indica, não teria removido as estruturas mentais que sustentam sua visão de homem e de mundo. E aí é que a coisa pega. Trocar de religião implica, quase sempre, na simples busca de novos fatores externos de ajuda para resolver problemas pessoais. Troca-se a eucaristia católica pelo passe espírita, ou este pela unção de óleos sagrados trazidos de Jerusalém por um pastor evangélico. Há, também, quem aposte em se utilizar de todos, ao mesmo tempo. “Mal não faz”, argumentam. “Todas as religiões são boas”, costumam sustentar.

O espiritismo e as religiões
Qualquer um desses recursos, dependendo das crenças e condicionamentos psicológicos internos do indivíduo, pode, sim, fazer bem. Os tarôs, as runas, os incensos e as ervas, também. Nada é condenável. Crença nenhuma é condenável. Como assinalou Durkheim, todas as religiões respondem, ainda que de maneiras diferentes, a determinadas condições da vida humana. E, por isso, ele afirmava que todas eram verdadeiras.
Mas, o espiritismo está fora desse mundo das crenças e dos favores divinos dispensados a seus fiéis. Allan Kardec escreveu que o espiritismo não se dirigia àqueles que tinham sua religião e estavam com ela satisfeitos. Como novo paradigma de conhecimento, seu objetivo era propor, especialmente, uma nova visão de homem, a partir da realidade e da essencialidade do espírito, sua imortalidade, evolução e comunicabilidade, fatores capazes, igualmente, de gerar uma nova visão de Deus, de mundo e de universo.

Troca de religião  
Os centros espíritas estão cheios de gente que simplesmente trocou de religião. Adotaram a religião espírita ou a praticam concomitantemente com outras religiões, mas se mantêm distanciados da filosofia espírita que é, justamente, o que o identifica e qualifica.
Antes do que oferecer novos sucedâneos de práticas religiosas àqueles que o buscam, o centro espírita deve estar preparado para demonstrar que o espiritismo se destina a libertá-los dessas práticas. Foi também Kardec quem escreveu, e mais de uma vez, que o espiritismo “é uma questão de fundo e não de forma”. Argumenta-se que através da forma se chegará ao fundo. O problema é que quem privilegia a forma dificilmente terá coragem de dispensá-la para optar pelas questões de fundo. Os centros espíritas – dizem – se esvaziariam.

Templo, hospital ou escola?
A mulher que deixou de ir à missa para, semanal e religiosamente, tomar um passe no centro espírita, provavelmente passe o resto da vida sem se dar conta disso. Mas, é possível, que o maior número de autênticos espíritas esteja lá fora, e não no interior dos assim chamados templos espíritas.
A efetiva vivência espírita se dá no interior e não do exterior. Dispensa, inclusive, a frequência ao centro espírita.
Então, é de se perguntar: mas, essa visão não terminaria por fechar todos, ou a maioria dos centros espíritas?
Negativo, desde que houvesse um esforço de fazer do centro espírita não um templo, não um hospital, não um ambulatório, mas uma escola, um ambiente capaz de estimular o debate de ideias e o aprimoramento das virtudes éticas reclamadas pela condição espiritual e humana, um local de convivência fraterna e solidária. Esses fatores, com certeza, são mais eficientes que o passe ou a água fluidificada. E não criam nenhuma dependência. Libertam.



Há 20 anos, exatamente em 08.07.1995, o CCEPA ingressava oficialmente nos quadros da CEPA-Confederação Espírita Pan-Americana.
Alguns fatos que antecederam esse momento histórico merecem ser lembrados.
Desde 1986, quando eu ainda presidia a FERGS, a SELC-Sociedade Espírita Luz e Caridade (depois CCEPA), sob a direção de Maurice Herbert Jones, vinha acelerando um processo de mudança institucional, dentro do chamado “Projeto: Kardequizar”, afastando-se do modelo religiosista, predominante no espiritismo brasileiro.
Em 1991, um novo estatuto transformava a SELC em Centro Cultural Espírita de Porto Alegre e, em 1995, era elaborada a sua Carta de Princípios, depois complementada, em 1999, com novos itens. Um dos princípios dessa Carta estabelece que os trabalhos sejam orientados “exclusivamente para as atividades de estudo, debate, pesquisa e divulgação do espiritismo, objetivos essenciais de um centro cultural espírita.”
Desde a realização do ENSASDE-Encontro Nacional sobre o Aspecto Social da Doutrina Espírita (Santos-SP), em 1985, e da criação do SBPE-Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita por Jaci Régis, em 1989, vínhamos mantendo contato com o chamado “Grupo de Santos” e com o seu Projeto de Espiritização.
Foi no SBPE de 1993 que eu e o Milton Medran tivemos nosso primeiro contato com o recém-eleito presidente da CEPA, o psicólogo venezuelano Jon Aizpúrua, dele recebendo o convite para que o CCEPA aderisse à CEPA.
Nosso pedido de adesão, no ano seguinte, aliado ao fato de havermos organizado, em Porto Alegre, em outubro/95, o IV SBPE, em sua única edição fora de São Paulo, nos custou a suspensão do quadro de filiadas à FERGS, que até hoje perdura.
O CCEPA teve grande importância para a consolidação da presença da CEPA no Brasil, após meio século de ausência. Paulistas e gaúchos formaram a base de sustentação das ideias e ofereceram o apoio logístico necessário ao retorno da Confederação, não sem a resistência e ataques das federações espíritas, notadamente a brasileira e algumas do Sul.
Em um dos primeiros encontros de Jon Aizpúrua com delegados e amigos da CEPA, ocorrido em São Paulo, em outubro/97, o CCEPA recebeu a incumbência de centralizar a coordenação das atividades cepeanas, no Brasil, contando, para isso, com o seu órgão de divulgação OPINIÃO que logo passaria a incluir um encarte – Brasil Espírita, atualmente América Espírita.
Em 1996, no congresso que a CEPA realizava em Buenos Aires, Milton Medran era eleito 2º vice-presidente da CEPA, na chapa de Jon Aizpúrua, e eu era indicado para coordenar a realização do XVIII Congresso Espírita Pan-americano que o CCEPA organizou, no ano 2000.
Nesse histórico evento, cujo tema central “Deve o Espiritismo atualizar-se?” provocou reações e controvérsias, Milton Medran Moreira é eleito presidente da CEPA e sua sede transfere-se para o Brasil até o ano de 2008.
Nos eventos patrocinados pela CEPA e pela CEPABrasil-Associação Brasileira de Delegados e Amigos da CEPA a presença dos membros do CCEPA é sempre expressiva. Nos eventos da CEPABrasil realizados sob a nossa responsabilidade – o II Encontro Nacional, em Bento Gonçalves (2010) e o VI Fórum do Livre-Pensar Espírita, em Porto Alegre (2014) tivemos, em contrapartida, elevado número de participantes. Documentos importantes como os Estatutos da CEPA e da CEPABrasil, bem como a Carta de Posicionamentos da CEPABrasil, foram elaborados a partir de textos propostos pelo CCEPA.
Nessa trajetória, o CCEPA sofreu profundas modificações. A laicização de suas atividades provocou o afastamento de grande parte de seus integrantes, mais identificados com  práticas e posturas religiosas.
Abandonamos práticas socorristas e investimos na cultura espírita. Através de cursos básicos de espiritismo, abertos à comunidade, atraímos um novo tipo de frequentador, interessado no conhecimento espírita. No próximo ano, quando o CCEPA completará 80 anos, será realizado um Curso de Mediunidade no Espiritismo, findo o qual, certamente, se constituirá um novo grupo de estudos na instituição.
Aos poucos, reduzimos o número de reuniões públicas. A única restante é, na verdade, um grupo de conversação que, nas 6as. Feiras, à tarde, realiza o estudo analítico de “O Livro dos Espíritos”, numa perspectiva de atualização. Junto com os três outros grupos de estudo, o CCEPA tem um total de meia centena de integrantes associados.
Com esse pequeno contingente, conseguimos estruturar uma equipe de trabalhadores afinada e uma perfeita identidade ideológica com o projeto da CEPA, num clima harmonioso e alegre, possibilitando a abordagem dos mais diversos temas sob a ótica espírita, sem nenhuma sacralização e, até, com alguma irreverência.
Hoje o programa do CCEPA observa, à risca, finalmente, o estabelecido no tópico de sua Carta de Princípios que destaquei acima.
Um bom exemplo – acredito - dos pequenos grupamentos preconizados pelo fundador do espiritismo, inspirado nos ideais do livre pensamento, da laicidade, do humanismo e do pluralismo da CEPA.








Uma tarde de integração no CCEPA
A tarde de 1º de julho, no Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, foi reservada para uma atividade de integração entre novos estudiosos e colaboradores da instituição com seus dirigentes e colaboradores mais antigos.
Desde maio deste ano, um novo grupo de CIBEE – Ciclo Básico de Estudos Espíritas, está em atividade no CCEPA, coordenado por Dirce Teresinha de Carvalho Leite e Marcelo Cardoso Nassar, após a conclusão de um Curso Básico de Espiritismo, aberto ao público, composto de cinco módulos. Findo o curso, os interessados em permanecer na Casa constituíram um novo grupo de estudos regulares, que continuam se reunindo às quartas-feiras, a partir das 15 horas, sob a coordenação de Dirce e Marcelo.
Com uma breve exposição sobre a história do CCEPA e sua integração à Confederação Espírita Pan-Americana, CEPA, o presidente Milton Medran Moreira e o diretor do Departamento Doutrinário, Salomão Jacob Benchaya, fizeram, naquela tarde, uma mesa redonda com os novos integrantes da instituição, onde expuseram a linha de pensamento que une a tradicional instituição espírita da Rua Botafogo ao movimento internacional coordenado pela CEPA.
Depois dessa atividade, os participantes da reunião confraternizaram com um chá, acompanhado de salgadinhos e doces, servido nas dependências da Casa.
Medran, Benchaya e Marcelo Nassar e à direita parte do auditório com os novos integrantes
   
CCEPA prepara delegação para o SBPE
Um grupo de integrantes do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre está formando delegação que participará do XIV Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita (Santos/SP – 31/10 a 1º/11). Interessados em integrar o grupo podem se informar com Milton ou Eloá. Informações sobre o evento, no encarte América Espírita.







Ensino religioso em escolas públicas
Perfeita a análise do editorial de junho. A LDB produz ambiguidade porque prevê certa modalidade “confessional” de ensino religioso, o que contraria o princípio constitucional da laicidade do Estado. Também apresenta a LDB, a meu ver, um problema que só poderá ser solucionado com a regulamentação da profissão de professor de ciência da religião. Já existem licenciaturas na área em algumas universidades. Necessita-se, agora, uma modificação na lei, para que o conteúdo de “ensino religioso”, permanecendo facultativo, seja obrigatoriamente lecionado por quem possuir habilitação e não por “representantes de tradições religiosas”. Outro ponto é que a legislação precisa se estender para as escolas privadas confessionais: escolas católicas protestantes, católicas, etc. E não se restringir apenas à escola pública.
Augusto Araujo - Campina Grande PB.
           
Ensino religioso em escolas públicas (2)
Muito esclarecedor o editorial do CCEPA-Opinião. Mas, o assunto é complexo, o que certamente motivou a ação da PGR, principalmente tendo em vista o “Acordo entre a República Federativa do Brasil e a Santa Sé, relativo ao Estatuto Jurídico da Igreja Católica no Brasil, assinado em 13.11.2008, reconhecendo acordos e concessões esparsos já existentes entre as partes.
Espero que no fim o Estado brasileiro vencerá qualquer demanda no sentido de assegurar o caráter laico em seu território, mas entendo que essas questões religiosas são sempre complexas, por envolverem (no caso dos católicos) inclusive aspectos diplomáticos, além dos políticos. Penso que a Procuradoria Geral da República, com a ação proposta, quer uma definição relativamente a tais dificuldades, prevenindo futuros impasses e até demandas, tanto da Igreja quanto dos fiéis.

Homero Ward da Rosa – Pelotas/RS.