terça-feira, 11 de abril de 2017

OPINIÃO - ANO XXIII - Nº 250 ABRIL 2017

160 anos de O Livro dos Espíritos

O Espiritismo está de aniversário
Com o lançamento, em Paris, de O Livro dos Espíritos, em 18 de abril de 1857, Allan Kardec (1804/1869) fundava um movimento de ideias revolucionário, cujas abrangência e significação ainda carecem de estudo, compreensão e aprimoramento.

O livro
A primeira edição de O Livro dos Espíritos, lançada por Allan Kardec, no Palais Royal, em 18/4/1857, era composta de 501 perguntas e respostas. Ao alto, como subtítulo, a expressão “Filosofia Espiritualista”, sinalizava seu conteúdo filosófico e não religioso. O livro era o resultado das experiências e de uma vasta documentação recolhidas pelo pedagogo francês. Nos três anos que antecederam o lançamento, o Professor Hyppolite Léon Denizard Rivail – que passou a ser conhecido pelo pseudônimo de Allan Kardec -, atraído pelos episódios das “mesas girantes”, investigou metodicamente o fenômeno da comunicação com os espíritos. Qualificando seletivamente esse tipo de comunicação, e com o concurso de médiuns por ele convidados, entrevistou personalidades que haviam vivido na Terra, em diferentes épocas, e que acorreram a colaborar com seu trabalho pioneiro.

A publicação da primeira edição de Le Livre des Esprits (foto) marcava o nascimento de uma doutrina filosófica deísta e espiritualista, fundada nos princípios da imortalidade e comunicabilidade do espírito, bem como sua contínua evolução mediante o processo das vidas sucessivas (reencarnação), e com profundas características éticas, racionais e humanistas. Uma verdadeira revolução paradigmática.

Três anos após, em 1860, Kardec lançava nova edição da obra. Segundo justificou na Revista Espírita de março de 1860, nessa nova publicação, ampliada, com 1019 perguntas e respostas, cuidou de dar à distribuição das matérias uma ordem mais metódica. Ali, buscou suprimir tudo o que tivesse duplo sentido e inseriu notas explicativas às respostas dadas pelos espíritos. Era a edição definitiva, tal como a conhecemos.

A repercussão
Por seu ineditismo, O Livro dos Espíritos alcançou, já na edição primeira, significativa repercussão na França e em outros países da Europa. A Igreja, por diversos de seus clérigos, tratou de promover campanhas de combate às ideias expostas na obra. Diziam tratar-se de uma nova e falsa religião, deturpadora da fé cristã.
Mas, nos círculos intelectuais, surgiam manifestações de apreço ao livro, especialmente pelos princípios éticos que defendia, em plena consonância com os ideais de liberdade de pensamento e de humanismo, herdados do Iluminismo europeu.

Entusiasmado com a obra, o teatrólogo Victorien Sardou, de grande prestígio nos meios intelectuais franceses, escreveu carta a Kardec, declarando que aquele era o livro mais “interessante e instrutivo” de todos quantos lera: “É impossível” – dizia – “que ele não tenha grande repercussão”, pois “todas as grandes questões da metafísica, da moral, ali estão elucidadas de maneira satisfatória; todos os grandes problemas ali são resolvidos, mesmo aqueles que os mais ilustres filósofos não resolveram”. Sardou assim concluía a missiva: “É o livro da vida, é o livro da humanidade”.

Um ano depois, em 1858, Kardec fundaria a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas”, um centro de estudos que reunia pessoas interessadas no avanço do conhecimento espírita, médiuns e estudiosos dos diferentes aspectos da doutrina. Dali se irradiaria todo o restante de sua vasta obra, incluindo a edição mensal da Revista Espírita, que dirigiu até o ano de sua desencarnação, 1869.





Não é um livro sagrado
Nem O Livro dos Espíritos, nem qualquer das demais obras de Allan Kardec podem ser classificadas como livros sagrados.

Aí começa a distinção entre o espiritismo e as religiões. Estas, sempre se escoram na pretensa sacralidade de seus livros fundadores, invariavelmente apresentados como a própria palavra de Deus. E palavra de Deus não se discute
.
O Livro dos Espíritos, embora se ocupando de valores perenes, porque integrantes da “lei natural, eterna e imutável como o próprio Deus” (questão 615), admite que os conteúdos doutrinários inspirados naqueles princípios são  “de elaboração humana”, segundo o magistério do próprio Allan Kardec, na obra A Gênese (1868), capítulo “Caracteres da Revelação Espírita”.

Nessa mesma linha de raciocínio, e segundo, ainda, A Gênese, a própria expressão “revelação”, aplicada à doutrina espírita, diferentemente do sentido religioso, expressa a ideia da busca da verdade, mediante a retirada do “véu” de mistério e de sobrenaturalismo que, historicamente, envolveu  mitos e crenças religiosas.

Por isso mesmo, a doutrina espírita é progressiva e sempre inconclusa. Fruto do contínuo intercâmbio entre a humanidade encarnada e a humanidade desencarnada, requer permanente atualização, na medida em que o espírito humano melhor desenvolve o intelecto e a moralidade, aprimorando sua capacidade de compreender e vivenciar a lei divina ou natural.

Em uma palavra: o espiritismo, cujo marco de nascimento completa, este mês, 160 anos, é um processo em contínuo evoluir. Todos, encarnados e desencarnados, que nos interessamos por seu desenvolvimento, somos seus construtores, porque ele é um projeto humano. E, como tal, sujeito a todas as humanas contingências. (A Redação).
           



Um outro Brasil é possível
Não há nada oculto que não venha a ser revelado, e nada escondido que não venha a ser conhecido e trazido à luz – Jesus de Nazaré.


Postagens nas redes sociais são bons parâmetros para se aferir sentimentos e percepções da média do povo brasileiro sobre o momento histórico que vivemos. Em meio às paixões políticas, ideológicas, religiosas, desportivas e todas aquelas provindas de diferentes estilos comportamentais que se expressam na rede, também é possível encontrar pensamentos sensatos como este: “Eu não quero viver em outro país, quero viver em outro Brasil”, como desabafou alguém em mensagem bastante compartilhada.

Historicamente, o brasileiro sempre alimentou orgulho e esperança em relação ao destino de sua pátria. É de supor que tais sentimentos não tenham morrido, mesmo diante de tantas decepções com importantes setores de nossa sociedade afundados, hoje, em deprimentes condutas antiéticas.

Mas é de se reconhecer também que, por largo tempo, muito se escondeu, varrendo-se o lixo para baixo do tapete. Vivíamos, então, embalados por crenças míticas de que nosso país abrigava um povo dotado de predestinação histórica, privilegiado por Deus e pela natureza. Governos totalitários e visões religiosas totalizantes vendiam a ideia de que aqui estava prestes a florescer uma civilização modelo para toda a humanidade. No meio espírita, “Brasil, Coração do Mundo e Pátria do Evangelho”, do espírito Humberto de Campos pela psicografia de Chico Xavier, abonou essa tese que, de resto, reproduz velha tradição judaico-cristã da existência de um “povo de Deus”, por Ele eleito para promover a regeneração mundial.

Bem visto, o espiritismo não se compatibiliza com essa visão de mundo e de universo. Allan Kardec, ao analisar a questão dos chamados “mundos superiores e mundos inferiores”, asseverou que “Deus não usa de parcialidade”, e concede “a todos os mesmos direitos e as mesmas facilidades para chegarem até lá” (à condição de mundos felizes). Nos mundos habitados, e, por idêntico princípio, nas nações de um mesmo mundo, “os primeiros lugares são acessíveis a todos: cabe-lhes conquistá-los pelo trabalho, atingi-los o mais cedo possível, ou abandonar-se durante séculos e séculos no meio da escória humana”. (ESE – Cap.III).

Para a doutrina espírita, sem o efetivo exercício do amor, da justiça e da caridade – síntese de todas as dez leis morais da 3ª parte de O Livro dos Espíritos – não há efetivo progresso.  A prática do amor e da caridade, dessa forma, não prescinde da rigorosa aplicação da justiça, como instrumento de equilíbrio nas relações entre Estado e cidadãos e destes entre si.

O momento difícil que vivemos, pelo menos, parece avançar na busca dessa equação. Poderosos que, ainda ontem, encastelados na impunidade garantida pelo poder político ou econômico, agiam na certeza de pairarem “acima da lei”, começam a ser atingidos. Esse é um processo difícil, não imune a erros pontuais e suscetível a distorções produzidas, inclusive, pela vaidade humana e pela ânsia da celebridade. Mesmo com suas falhas e limitações, contudo, o caminho tomado não deixa de apontar para a conquista de padrões éticos mais elevados.

A propósito dessa busca de novos padrões éticos a gerir a vida nacional, registre-se este conceito, igualmente compartilhado nas redes sociais, sem que se saiba de onde partiu: “Ética é o que você faz quando está todo mundo olhando. O que você faz quando não tem ninguém por perto se chama caráter”.

Diríamos que o reto caráter é, na verdade, a força geradora de uma verdadeira ética universal, capaz de tornar efetivos os perenes valores que conduzem à felicidade dos povos. Com certeza, um dia chegaremos lá. Sem privilégios a revelarem qualquer predestinação relativa ao nosso futuro, mas movidos pela sentida necessidade de nos ajustarmos às duras lições deixadas pelos erros de nosso passado.

Trabalho, honestidade, justiça e transparência é tudo aquilo de que necessitamos, neste momento, para, finalmente, merecermos viver em um outro Brasil.







A grande “sacada” de Kardec
Nos 160 anos do lançamento de O Livro dos Espíritos, é oportuno recordar: o fundador do espiritismo, em todo seu profícuo trabalho, sempre transitou bem longe daquele caminho que pudesse conduzir a doutrina por ele sistematizada para o campo do “sagrado”.

A grande “sacada” de Allan Kardec, desde seus primeiros contatos com as mesas girantes e mesas falantes foi a de tratar os espíritos simplesmente como homens e não como deuses, anjos, santos ou demônios.
Ele próprio deixou escrito em Obras Póstumas: “Um dos primeiros resultados que colhi de minhas observações foi de que os espíritos, nada mais sendo do que as almas dos homens, não possuíam nem a plena sabedoria, nem a ciência integral”. Ou seja, como escreveu logo adiante: os conceitos emitidos pelos espíritos, inclusive aqueles que fariam parte de sua obra, não passavam de “opiniões pessoais”.

A razão e a fé
Pergunte-se, então: como dar crédito aos conteúdos espíritas, se eles não passam de opiniões pessoais? Kardec sustenta que essa credibilidade se apoia, fundamentalmente, em dois pontos: o primeiro seria o que ele chamou de “critério da universalidade dos ensinos dos espíritos”.  Antes de publicar O Livro dos Espíritos, ele submeteu suas questões básicas a vários grupos espíritas, de países diversos, com diferentes médiuns confiáveis. Só depois de obter a concordância geral relativa aos temas expostos, incorporou-os à obra. O segundo ponto foi a submissão daqueles ensinos (ou opiniões) a rigorosos critérios de racionalidade.
Diferentemente, a revelação religiosa não tem compromisso com a razão. Ao contrário, Santo Agostinho, um dos grandes doutores da Igreja, proclamava: “Credo quia absurdum” (creio porque é absurdo). Com isso, a teologia cristã definiu que artigos de fé pertencem ao domínio do mistério; já, aquilo que à razão parece absurdo, aos olhos da fé faz-se verdade eterna.

Laicidade x dogmatismo
E foi assim que, em nome do sagrado a que pertencem as verdades eternas, chamadas por outro doutor da Igreja, São Tomás de Aquino, de “lex aeterna”, por séculos se justificaram crimes bárbaros como aqueles institucionalizados pelas Cruzadas e pela Inquisição. À luz da “lei eterna”, “imutável” porque “revelada pelo próprio Deus” e presente nos livros sagrados, torturaram e mataram “hereges” que pregavam coisas diferentes, discriminaram-se mulheres, homossexuais e livres-pensadores, e se erigiu a maior potência teocrática da História, herdeira do Império Romano e, como ele, dominadora e colonizadora.
]Os direitos fundamentais do ser humano, conquista da modernidade, só puderam ser reconhecidos quando a laicidade, fundada nos ditames da razão, se impôs vigorosamente sobre os dogmas da fé.

Razão divina x razão humana
Laicidade não exclui espiritualidade. Antes, qualifica-a. Arranca-a do nebuloso e irracional universo do sobrenatural trazendo-a para o domínio das leis naturais. O Livro dos Espíritos rompe com o sagrado e submete o conhecimento, seja ele atinente às leis físicas, morais ou espirituais, aos limites e às possibilidades humanas. Vale a “ratio humana”, em contraposição à “ratio divina”.
Será pretensiosa a proposta de se dar mais valor à razão humana do que àquilo definido pelas religiões como razão divina? Atente-se para o conceito presente na questão 614 de O Livro dos Espíritos, segundo o qual “a lei natural é a própria lei divina” e que esta se encontra escrita “na consciência” do espírito imortal (q.621).
E a quem supuser que sejamos ateus, por guardarmos essa posição, perguntamos: Onde melhor poderemos encontrar Deus? Nos chamados livros sagrados ou na admirável capacidade humana de raciocinar e, a partir da razão, progredir intelectual e moralmente?




Intercâmbio Cultural (II)

Por iniciativa do CCEPA e organizado pelo Grupo de Cultura Espírita Bageense (GCEB), liderado pela saudosa odontóloga Nóris dos Santos Paiva, estiveram reunidos, nos dias 26 e 27 de abril de 1997, na cidade de Bagé, a 380 km de Porto Alegre, cerca de 30 dirigentes e integrantes daquele grupo, do GEPDE-Grupo de Estudos, Pesquisa e Difusão Espírita de Rio Grande, do CCEPA  e representantes da CEPA, marcando o início, no Rio Grande do Sul, de um movimento de aproximação e intercâmbio entre espíritas, grupos e instituições identificados com a visão laica do espiritismo.

Na sequência, o CCEPA esteve em Pelotas no dia 7 de junho de 1997, em um novo encontro, articulado pelo psicólogo Octaviano Pereira das Neves, na S.E. Casa da Prece,  posteriormente em Santa Maria, e novamente em Pelotas, em 13 de dezembro de 1997, na Sociedade Pelotense de Estudos Espíritas, onde ficaram definidas as diretrizes para a realização, em 1998, nos moldes do SBPE, do I Simpósio Gaúcho do Pensamento Espírita, sendo sua Comissão Organizadora coordenada por Salomão Jacob Benchaya. O I SGPE teve como entidades promotoras, além do CCEPA, o GEPDE, de Rio Grande, o GCEB, de Bagé, a SPEE e a Casa da Prece, de Pelotas, e a S.E. Roberto Barbosa Ribas, de Santa Maria.

Nos dias 22, 23 e 24 de agosto de 1997, o psicólogo e escritor espírita catarinense Jaci Regis, esteve no RGS, a convite do CCEPA, participando das atividades da CEPA e fazendo o lançamento do seu livro “Introdução à Doutrina Kardecista”. De 21 a 23 de novembro desse ano, 12 integrantes do CCEPA participam, em Cajamar-SP, do V SBPE, onde é feita a apresentação do trabalho “Uma proposta pedagógica para a Educação Espírita da infância e da juventude”, por Fátima Canellas Benchaya.

Em 1998, é promovido, em Porto Alegre, o I Simpósio Gaúcho do Pensamento Espírita (SGPE), no período de 21 a 23 de agosto, tendo por conferencistas Jon Aizpúrua e Maurice H. Jones cujos temas foram, respectivamente, “Manuel Porteiro e a Sociologia Espírita” e “Verdade e Liberdade”. Houve apresentação de sete trabalhos e a realização de um Painel sobre “Definição e Rumos da Cultura Espírita”.

O I SGPE constituiu, sem dúvida, um marco para a produção cultural espírita gaúcha. Seis dos sete trabalhos inscritos (um dos autores não compareceu) demonstraram que é possível melhorar o nível cultural e doutrinário do movimento espírita quando o estudo, a pesquisa e o debate são estimulados, justamente os objetivos centrais do evento que reuniu, na sede do CCEPA, 91 participantes de Porto Alegre, Bagé, Santa Maria e Pelotas, no RS, de Curitiba-PR, São Paulo-SP, Santa Rosa-Argentina e Caracas-Venezuela.

De 26 a 28 de maio de 2005, o CCEPA organiza o “I Encontro de Delegados e Amigos da CEPA – Região Sul”, evento promovido pela Associação Brasileira de Delegados e Amigos da CEPA – CEPAmigos – atual CEPABrasil, contando com a participação de companheiros argentinos, dirigentes da CEPA, então presidida pelo brasileiro Milton Medran.





                                                                                                                       
Manuel Porteiro
Pensador espírita argentino – 1881/1936.
As religiões têm ritos, rezas, templos, ídolos e dogmas. O Espiritismo dispensa tudo isso. As religiões têm santos, anjos e demônios. O Espiritismo fala somente de Espíritos mais ou menos evoluídos. As religiões nos falam de penas e castigos ou, em troca, de uma vida de monótona beatitude para depois da morte. O Espiritismo fala de justas consequências de nossos atos, de evolução e progresso espiritual eternamente. Quão notável é a diferença que existe entre ambos! Religião é sinônimo de sombra; Espiritismo de luz.
(Do livro “Espiritismo Doctrina de Vanguardia” – Ediciones CIMA – Venezuela)




“A religião é o ópio do povo”. E daí?

Thiago Lima da Silva - Professor universitário de Relações Internacionais, Membro da ASSEPE – João Pessoa/PB

Esse é um ditado muito utilizado pelos críticos das religiões. Mas o que ele significa? Para o senso comum, talvez ele passe a lição de que a religião é tão ruim quanto uma droga ilícita e alucinógena, que ilude as pessoas com prazeres efêmeros, viciantes e que tem como consequência a alienação em relação à realidade concreta. A vida passaria e a pessoa não perceberia o sistema econômico-político que a oprime e a explora para o benefício de uns poucos, pois estaria entorpecida pelas ilusões criadas por aqueles que dominam a sociedade, com o precioso auxílio de lideranças religiosas.

Não era bem isso o que Karl Marx (1818-1883) queria dizer quando escreveu essa frase. Segundo nos ensina o sociólogo brasileiro Michael Löwy (1938-), em seu curso online gratuito “Sociologia Marxista da Religião”, Marx usou a famosa frase no texto “Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel”, de 1844, em sua juventude – portanto, antes mesmo de desenvolver sua teoria... isto é, o marxismo não existia!

E o ópio? Naquela altura do século XIX o ópio ainda não era visto como uma droga indesejável e destrutível. Muitos poderiam pensar que o ópio sempre foi considerado uma substância socialmente combatida, mas a história demonstra que o sempre é algo muitíssimo raro. Segundo Löwy, o ópio era frequentemente utilizado para fins medicinais, como no caso da insônia e para aliviar dores, notadamente numa época de poucas alternativas farmacêuticas, sobretudo para os mais pobres.

Mas o que Marx escreveu, afinal? “A angústia religiosa é ao mesmo tempo a expressão da dor real e o protesto contra ela. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, tal como o é o espírito de uma situação sem espírito. É o ópio do povo” (Marx apud Löwy, 1998). Naquele contexto, Marx, ateu convicto, já era crítico da religião. Contudo, reconhecia seu papel ambíguo, de alívio para o sofrimento do povo.

Marx faz uma análise mais profunda do papel da religião sob o prisma materialista histórico no texto “A ideologia alemã”, de 1846. Posteriormente, desinteressa-se pela religião como algo fundamental para compreender a sociedade. Sua obra principal, “O Capital”, que começa a ser publicada em 1867, não faz da religião um eixo central de análise.

Alguns importantes autores marxistas, entretanto, estudaram seriamente o papel da religião na sociedade e o mais destacado naqueles primórdios era justamente o grande parceiro de Marx, o também alemão Friedrich Engels (1820-1895). Engels, sim, ocupou-se do estudo da religião como uma máscara para os interesses da burguesia. Löwy reconhece a importância seminal de Engels para esse tipo de análise nas ciências sociais, mas considera-o algo equivocado ao minimizar o papel sincero que a religião exercia na vida das pessoas. Não conseguia compreender como, após a Revolução Francesa, que fez de tudo para retirar a coisa divina dos assuntos políticos do Estado, líderes comunistas franceses se declaravam cristãos, e defendiam que o comunismo era o cristianismo moderno. O mesmo ocorria com importantes lideranças comunistas na Alemanha. Na Inglaterra, um dos principais criadores do 'socialismo utópico' era Robert Owen (1771-1858) que, apesar de crítico da religião, converteu-se ao espiritualismo no final de sua vida. Seu filho, Robert Dale Owen (1801-1877), radicado nos Estados Unidos, também era socialista e adepto do espiritualismo, um movimento com paralelos ao espiritismo surgido na França.

A religião exerce papel fundamental na vida das pessoas, nos mais variados tempos históricos e nos mais diversos cantos do planeta. Atualmente, assistimos a diferentes fundamentalismos religiosos no mundo e, no Brasil, a religião tem entrado de novas e perigosas formas no mundo político. É claro que a religião não é intrinsecamente ruim. Ela pode, sim, ao organizar princípios morais e introduzir o contato com a espiritualidade, contribuir para uma sociedade mais ética e solidária. O espiritismo religioso muitas vezes cumpre esse papel, promovendo consolo e oportunidade de renovação para muitas pessoas. Mas, pode também levar a um fanatismo eivado de dogmas e rituais, afastando as pessoas dos ensinamentos de tolerância, solidariedade e busca de esclarecimento deixados pelo próprio Cristo.

O tema é polêmico e pode-se refletir sobre ele por diversos ângulos. Pelo prisma das Ciências Sociais, o curso online “Sociologia Marxista da Religião”, de Michael Löwy, ajuda a compreender melhor algumas funções históricas da religião, como solidariedade, revolução e ópio do povo.


BIBLIOGRAFIA
Löwy, Michael. (1998). Marx e Engels como sociólogos da religião. Lua Nova: Revista de Cultura e Política, (43), 157-170. https://dx.doi.org/10.1590/S0102-64451998000100009. Acesso em 27/11/2016
Löwy, Michael. (2015). Sociologia Marxista da Religião. Editora Boitempo. https://blogdaboitempo.com.br/2015/11/11/confira-os-videos-do-curso-sociologia-marxista-da-religiao-de-michael-lowy-na-tv-boitempo/. Acesso em 27/11/2016.                                                                                                                                   





“Estudo e Caridade” – Santa Maria – 90 anos
A  Sociedade Espírita Estudo e Caridade – Lar de Joaquina – da cidade gaúcha de Santa Maria, completa, neste mês, 90 anos de fundação.

Na programação de aniversário da SEEC, o Diretor de Comunicação Social do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre e editor deste jornal, Milton Medran Moreira, proferirá palestra na sede daquela instituição, dia 29 de abril, às 17h, enfocando o tema “Moral e Ética – Uma Abordagem Espírita”.

Nas suas nove décadas de atividade, A Sociedade Espírita Estudo e Caridade prestou relevantes serviços ao estudo e à prática do espiritismo, tendo, também, marcante atuação no campo da ação social e educativa, com a manutenção do Lar de Joaquina, obra social que granjeou o respeito e a admiração da comunidade santa-mariense.

Centro de Estudos Espíritas José Herculano Pires: uma Diretoria composta só de mulheres!
Em Assembleia realizada no dia 3-3-2017 em sua sede (Rua Alicante 389, Penha, São Paulo), o Centro de Estudos Espíritas José Herculano Pires elegeu a nova Diretoria Executiva e o Conselho Deliberativo para o biênio março de 2017 a março de 2019.
Pela primeira vez em sua história o tradicional centro do bairro da Penha terá uma diretoria totalmente formada por mulheres. Foram eleitas:

Presidente                    Camila Oliveira Amorim Campos (foto)
Secretária Geral           Elisabete de Oliveira Martins
Secretária Adjunta       Angélica Castilho Alonso
1ª Tesoureira                Paula de Mesquita Spinola
2ª Tesoureira                Roseli Alves de Oliveira

O Conselho Deliberativo será formado por: Mauro de Mesquita Spinola (Presidente), Maria Helena Fratuce Lacerda (Secretária), Armando Bega, Gildemar José Sant’Ana Rodrigues, Jacira Jacinto da Silva, José Maria Marquesi, Leon Denis dos Santos, Nilci Novelo e Renata Alves de Oliveira.

Homenagem aos fundadores

Os fundadores, Geraldo de Souza Spinola (foto), que também é Delegado da CEPA em São Paulo, e Irene de Souza Ferreira, foram homenageados e receberam o reconhecimento como Conselheiros Honoríficos Vitalícios da casa.

Conforme destacou Mauro de Mesquita Spínola, antigo dirigente da instituição, a nova Presidente Camila tem 29 anos. Apesar de jovem, já atua há vários anos na entidade. Ela reafirmou o compromisso histórico da casa com a difusão do espiritismo kardecista. Seu principal objetivo para os próximos dois anos é o de consolidar os estudos e as atividades da infância e da mocidade espírita.

O Centro de Estudos Espíritas José Herculano Pires é unido à USE – União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo e filiado à CEPA – Associação Espírita Internacional.


Baixada Santista confirma
tradição livre-pensadora
Pelo 12º ano consecutivo, os centros espíritas ligados à CEPA, realizam, conjuntamente, neste mês de abril – mês do lançamento de O Livro dos Espíritos - , o já tradicional Fórum do Livre-Pensar da Baixada Santista. Este ano, o tema é “A Contribuição do Espiritismo para um Mundo em Crise”.
Veja, abaixo, os conferencistas e seus temas, nesse evento que acontece de 18 a 21 deste mês:




Conheça o pensamento da CEPA
lendo seu boletim

Acaba de ser publicado CEPA Newsletter número 3, o boletim eletrônico da CEPA – Associação Espírita Internacional.

Neste número, a secção A Palavra da CEPA esteve a cargo de seu ex-presidente, Milton Medran Moreira, com o artigo Unificação e União não são Sinônimos. Na matéria, Medran evoca o pensamento de Allan Kardec acerca da liberdade que deveriam ter os centros e uniões espíritas de diferentes partes do mundo para traçar suas formas organizacionais e seus métodos de pesquisa e estudo. A ideia não sugere a unificação mas estimula a união, que se daria pela “comunhão de pensamento” relativamente aos princípios básicos da doutrina.

Em Memória da CEPA, uma resenha biográfica de Luiz di Cristóforo Postiglioni, o pensador espírita que entendia a reencarnação como uma lei natural e que assim deveria ser tratada pela ciência.

CEPA Newsletter também reproduz na íntegra a entrevista feita pela gazeta eletrônica Kardec Ponto Com com a presidente da CEPA, Jacira Jacinto da Silva, juíza de Direito, sobre o momentoso tema das execuções penais e da situação dos presídios no Brasil. Uma visão humanista e compatível com a filosofia espírita.
Você pode acessar o boletim da CEPA em:


Os Caminhos Éticos do Espiritismo
levam a CEPA à Bahia

Com o tema “Caminhos Éticos do Espiritismo – Reflexões sob uma perspectiva humanista e livre-pensadora, o VIII Fórum do Livre-Pensar Espírita, realização da CEPA Brasil em colaboração com o TELMA – Teatro Espírita Leopoldo Machado, acontece de 26 a 28 de maio, em Salvador/BA.

Medran fará conferência de abertura
Duas conferências e vários painéis  e mesas redondas com a participação de pensadores espíritas  de diferentes Estados brasileiros fazem parte da programação.
O ex-presidente da CEPA e editor deste jornal, Milton Medran Moreira, fará a conferência de abertura, abordando o tema “A Dimensão Laica, Humanista e Livre-Pensadora da CEPA”. O outro conferencista será Paulo Henrique de Figueiredo (São Paulo), escritor, autor de “Revolução Espírita”. Seu tema: “A Teoria Esquecida de Allan Kardec”.

Outros expositores confirmados
A presidente da CEPA, Jacira Jacinto da Silva (São Paulo/SP) e o presidente da Federação Espírita do Estado da Bahia, André Luiz Peixinho estão entre os expositores. Diversas oficinas tratarão de temas relevantes e atuais à luz da filosofia espírita. Participarão das mesmas, ainda, nomes como Ademar Arthur Chioro dos Reis (São Paulo/SP), ex-Ministro da Saúde, e também integrante da CEPA; Mauro de Mesquita Spínola (São Paulo/SP), Diretor Administrativo  da CEPA; Alcione Moreno  (São Paulo/SP), Júlio Nogueira (Salvador/BA), Rodrigo Almeida (Salvador/BA), Djalma Motta Argollo (Salvador/BA); Marcel Mariano (Salvador/BA), Sérgio Maurício (Brasília/DF) e outros que ainda deverão confirmar. Na próxima edição, informaremos a programação integral, com temas e expositores.

Inscrições já estão abertas
As inscrições, abertas a todos os interessados, podem ser feitas através do site do TELMA - http://www.telma.org.br/viii-forum-do-livre-pensar-espirita.html - que estará atualizando as informações acerca desse importante evento .







Afinal, é possível ouvir os mortos?

A reportagem da jornalista Sílvia Lisboa, de 17.6.2016, começa por referir Chico Xavier que “doou todos os direitos autorais dos mais de 400 livros que escreveu em vida”. Mas, o gesto não seria apenas “generosidade do médium”, pois ele dizia não haver escrito nenhum livro: “Eles escreveram”, repetia o médium de Uberaba.

A partir daí, a matéria expõe a posição da ciência segundo a qual “Chico não poderia falar com os mortos” e que “tudo teria sido produzido pelo seu próprio cérebro”. A consciência seria “fabricada pelo cérebro e está confinada nele. Ou seja, quando o corpo morre, a consciência desaparece”.

Apesar dessa posição da ciência, a reportagem levanta a objeção de alguns cientistas contemporâneos que, diante de casos como os de Chico Xavier, onde não há indícios de fraude, estão decidindo “questionar a ciência – e não os médiuns”. A conclusão desses pesquisadores está manifestada no livro “Irreducible Mind” (“Mente Irredutível”, sem tradução para o português).

A obra (foto), coordenada pelo psiquiatra da Universidade da Virgínia (EUA) Edward Kelly, parte da lógica de que “fenômenos como a mediunidade, a telepatia e experiências de quase-morte são indícios de que o modelo teórico vigente nos meios científicos é incompleto. A ciência estaria ignorando um princípio científico básico, o da “falseabilidade”, defendido pelo filósofo Karl Popper: “Popper dizia que era muito fácil – e perigoso – ficar catando evidências favoráveis para defender uma tese. Difícil era encontrar o argumento que a desmontaria de vez. Para Popper, todo cientista sério deveria estar sempre procurando um furo na sua tese – e não o contrário”.



Mediunidade seria o “furo” a ser desvendado.
Nos fenômenos chamados paranormais, para os responsáveis pela tese apresentada na obra, “a mediunidade pode ser um desses furos capaz de desvendar o mistério da consciência, que instiga filósofos e cientistas há mais de 2 mil anos”.

Para sustentarem sua tese, os autores de “Irreducible Mind”, segundo a reportagem de Exame, recorrem a experiências realizadas pela Universidade da Pensilvânia com dez médiuns brasileiros que se utilizam da psicografia. Quando em transe, os médiuns apresentavam significativa redução na atividade do lobo frontal, que está associado à razão, à linguagem e ao planejamento. Já quando fora de transe, escrevendo textos próprios, não psicografados, e com plena atividade cerebral, os mesmos sujeitos escreviam textos mais pobres e menos complexos do que aqueles atribuídos aos espíritos.
A experiência levaria a indícios de que a consciência não é, necessariamente, produto do cérebro, dele se dissociando para ter natureza que possivelmente sobreviva ao fenômeno de morte.





Ambulatório ou Escola?
Acabo de ler Opinião em Tópicos, coluna de Milton Medran Moreira, em CCEPA Opinião de março de 2017, tratando da necessidade de o centro espírita ser menos ambulatório e mais espaço de convivência e de debate de ideias. Gostei muito.
Aldinha Rodrigues (via Facebook), Lavras do Sul/RS
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Espiritismo, essa loucura do Século XIX
Excelente o artigo “Espiritismo, essa loucura do Século XIX” de Salomão Jacob Benchaya (Enfoque – CCEPA Opinião de março de 2017). A propósito, o livro de Augusto Araújo sob esse título finalmente se tornou disponível na Livraria Saraiva. Não conferi ainda em outras livrarias, mas vou checar na Cultura.
Mauro Quintella – Brasília/DF.

Delinquentes de ocasião
Parabéns pelo belo texto “Delinquentes de Ocasião” que serviu de editorial .para o número 249 desse mensário. Segundo velho ditado popular, “a ocasião faz o ladrão”, mas quando se tem educação e caráter, ocasião nenhuma pode justificar cenas como aquelas dos saques ocorridos no Estado do Espírito Santo.
Tereza Ramirez B.Santos – Passo Fundo/RS


sábado, 11 de março de 2017

OPINIÃO - ANO XXIII - Nº 249 MARÇO 2017


Nova estatística da fé no Brasil
Evangélicos e sem religião os que mais crescem
Em dezembro de 2016, pesquisa da Datafolha traçou novo retrato do Brasil em matéria de religião: apenas 50% se dizem católicos, evangélicos sobem para 29%, enquanto 14% dos brasileiros se declaram sem religião.

Evangélicos em alta, católicos seguem caindo
Em 1994, quando o Instituto Datafolha, um dos mais credenciados em matéria de pesquisas no Brasil, iniciou suas sondagens sobre a fé da população, 75% dos brasileiros se declaravam católicos, 10% evangélicos pentecostais e 4% evangélicos não pentecostais.
Nas últimas duas décadas, em sucessivas pesquisas realizadas pelo mesmo Instituto, duas tendências foram se consolidando: o crescimento das religiões evangélicas pentecostais e neopentecostais e a redução do rebanho católico. A fé católica, em 1994, era declarada por 75% da população brasileira, reduzindo-se, na sondagem de dezembro último, para 50%. Já o contingente de evangélicos subiu para 29% (22% de pentecostais e neopentecostais e 7% de protestantes tradicionais).

Espiritualidade sem religião
Na década de 90 do século passado, somente 5% da população se afirmavam sem religião (pesquisa de 1994). O terceiro milênio da era cristã, no entanto, passou a ser cenário de incremento dessa tendência. Em dezembro de 2016, Datafolha registrou o percentual de 14% de brasileiros declarando não praticar qualquer religião. Sobre esse fenômeno, a Folha de São Paulo, em 24/12 último, ouviu Reginaldo Prandi, professor de sociologia da USP, para quem “no mundo todo é cada vez mais comum que as pessoas não se prendam a uma instituição religiosa” e que “exerçam a espiritualidade sem pertencer a uma igreja”. Para ele, “a religião deixou de ser uma condição para ser um bom cidadão”, e hoje, “socialmente, a religião não tem mais papel algum”.

“Religião espírita” também em queda
A recente pesquisa de Datafolha revela igualmente um dado que deve servir de reflexão ao movimento espírita: o universo de pesquisados que respondem praticar a “religião espírita” também experimenta sucessivas quedas. Na primeira pesquisa de 1994, eles eram 4% da população brasileira. Uma década depois, em 2005, caíram para 3%. Na pesquisa de dezembro último, o percentual encontrado foi de 2% apenas.

Para acessar a íntegra da pesquisa de Datafolha:





Saindo da gaiola
Rubem Alves escreveu que “Deus nos deu asas, mas as religiões inventaram a gaiola”. Para o pensador mineiro, o homem voluntariamente se deixa aprisionar na gaiola das religiões.
As pesquisas de Datafolha vêm mostrando que muitos brasileiros não têm feito mais do que trocar de gaiola. O engorde dos rebanhos evangélicos se deve à migração majoritária de católicos, mas se registra também nelas a presença de antigos praticantes da “religião espírita”. Afinal, lá também tem água e óleos que curam, se fazem rezas e ritos para mandar embora espíritos impuros e, por acréscimo, se promete uma vida próspera àqueles que creem, sem necessidade de questionamentos filosóficos. Basta fazer o que lhes recomendam os “guias”, investidos da condição de pastores, missionários ou apóstolos.

De outra parte, as mesmas pesquisas revelam um dado animador: cada vez mais brasileiros, sejam eles católicos, espíritas e, mesmo, evangélicos, resolvem abandonar as gaiolas e alçar voos livres. Passam a se declarar sem religião. A maioria deles preserva e segue cultivando a espiritualidade de forma livre e consciente. São os livres pensadores, entre os quais, segundo Allan Kardec, devem estar os espíritas. A estes não preocupa o esvaziamento dos templos antes frequentados. Interessa-lhes, contudo, o desenvolvimento de uma cultura fundada nos valores do espírito, capaz de contribuir com o progresso, a paz e a convivência fraterna e solidária entre toda a humanidade.

Esta é a tendência dos novos tempos, felizmente bem compreendida por alguns setores progressistas do espiritismo. Registre-se, a propósito, o esforço nesse sentido desenvolvido pela CEPA – Associação Espírita Internacional, que, notadamente nas duas últimas décadas, tem investido fortemente no inadiável processo de superação da fase religiosa que segue, engaiolando o pensamento espírita e obstaculizando os espíritas de alçar o voo no rumo da liberdade. (A Redação)





Delinquentes de ocasião
Age de tal modo que a máxima de tua ação possa sempre valer como princípio universal de conduta.  (Immanuel Kant)

Os acontecimentos do Estado do Espírito Santo, no último mês de fevereiro, convidam a refletir sobre o papel do Estado, da sociedade e do cidadão, no grave momento social e político que atravessa o Brasil.

Uma paralisação da Polícia Militar, incumbida do policiamento ostensivo e preventivo da população, gerou onda de violência sem precedentes, ali, com graves atentados ao patrimônio público e privado, e, bem pior, à integridade física e à própria vida das pessoas. Resultaram disso cerca de uma centena e meia de mortes e incalculável passivo patrimonial.
Chamou especial atenção a quantidade enorme de pessoas, muitas das quais de boas condições sociais e econômicas, saqueando estabelecimentos comerciais e  apropriando-se de valiosos bens de consumo.

Muitos, a maioria, talvez, desses “delinquentes de ocasião” não tinham qualquer antecedente criminal e, provavelmente, jamais haviam sequer imaginado cometer um crime contra o patrimônio. Dentre eles, quantos não seriam críticos severos dos atos de corrupção atribuídos a políticos e agentes econômicos que têm trazido tanta vergonha ao Brasil!

Sob uma perspectiva fundada na concepção evolucionista, adotada pelo espiritismo, vale lembrar que a caminhada do espírito é lenta e se faz num gradual processo de superação do egoísmo. Tido, juntamente com o orgulho, como matriz de todos os demais vícios, o egoísmo é a tendência primária do espírito humano de agir apenas em proveito próprio, sem atentar para o bem do próximo.

Foi a necessidade de conviver com os outros (Lei de Sociedade – 3ª Parte de O Livro dos Espíritos) o fator condutor da normatização de procedimentos capazes de priorizar o coletivo sobre o individual, preservando-se o respeito aos direitos naturais de cada um, para que todos  vivam em ordem e harmonia.
Está aí, aliás, a própria origem do Estado moderno. O chamado Pacto Social estabeleceu regras de convivência, tuteladas pela lei e pela autoridade por ela constituída. A ausência do Estado na aplicação da ordem gera o caos, induz ao retorno da barbárie, estimula a revivescência do egoísmo que a civilização buscara controlar, mas que ainda dormita nos escaninhos da alma.

No entanto, a verdadeira cidadania, entendida esta como a soma de predicados éticos amealhados pelo indivíduo, no seu processo de convivência com o semelhante, exige dele, justamente em momentos de graves crises sociais, como este, a tomada de posições compatíveis com o estado civilizatório conquistado. É a oportunidade de demonstrar que cumprir ou não cumprir a lei, delinquir ou não delinquir, exercitar ou não a verdadeira cidadania, não estão subordinados a fatores externos ou meramente de fachada, tampouco ao temor da repressão, mas à íntima retidão de caráter.

Cidadania é via de duas mãos. Seu exercício exige prestação e contraprestação de direitos e deveres entre cidadão e Estado. A ausência do Estado, é certo, produz a derrocada de uma sociedade. Em contrapartida, sem a integridade moral do indivíduo, base ética da verdadeira cidadania, inviabiliza-se a própria ação do Estado no contexto social.

Estado de Direito e cidadania só se sustentam sobre firmes bases ético-morais. E estas só se solidificam quando a prática da virtude deixa de ser imposta pelo medo à repressão ou pelo desejo de recompensa, para fruir naturalmente dos valores amealhados pelo espírito.








Ambulatório
Experiente e respeitada trabalhadora de uma casa espírita comentava, em uma roda de amigos: “Nossa instituição conta com centenas de trabalhadores que se doam o tempo todo às pessoas que a procuram. Doentes do corpo e da alma ali acorrem em busca de lenitivo às suas dores. Procuram-nos achando que, num passe de mágica, poderemos acabar com seus sofrimentos. Mas nós não temos esse poder e nem somos, como talvez suponham, melhores do que elas. Somos também almas enfermas, buscando resgatar, mediante o serviço na casa espírita, erros de ontem dos quais se originaram os males de que hoje padecemos”.

Pensei cá comigo, sem nada comentar: está aí talvez o melhor retrato do modelo geralmente vigente de centro espírita, entre nós. Ele é um ambulatório. Mas um ambulatório sui generis. Ali, pessoas que se julgam doentes, e que, justamente por isso, chegaram à casa espírita, buscam sua cura tratando de outros doentes.

Baixa autoestima
Não há nada de errado no fato de uma casa espírita se auto organizar também como prestadora de serviços de socorro a pessoas aflitas ou doentes. O espiritismo, graças à sua filosofia libertadora, pode muito contribuir para o equilíbrio bio/físico/espiritual do ser humano.

Mas, sempre que ouço afirmações como as daquela trabalhadora, recordo da observação feita por um psicólogo amigo segundo o qual os espíritas, de maneira geral, cultivam uma baixíssima autoestima. A partir do sentimento da culpa, introjetam a ideia de que só são espiritas porque, em vidas passadas, cometeram faltas muito graves: somente a frequência ou o trabalho na casa espírita lhes oportunizarão “resgatar” essas faltas, pela prática da “caridade”.

Mudança de paradigma
Vamos combinar que: a) não é só no centro espírita que se podem realizar eficientes serviços em prol do ser humano e da sociedade, capazes igualmente de guindar o agente desse trabalho a patamares mais elevados de progresso espiritual; e b) o espiritismo é, mais do que qualquer outra coisa, uma proposta de mudança de paradigma de conhecimento, tendo por base a essencialidade do espírito, sua imortalidade, sua vocação à evolução e ao progresso, capacitando-o a contribuir com o processo de transformação do mundo via o desenvolvimento da inteligência e do amor.

Conhecimento e convivência
Visto nesse contexto, o centro espírita será, sobretudo, uma escola de conhecimento e um rico espaço de convivência. Conhecimento e convivência que qualificam e diferenciam seus frequentadores e ampliam seu leque de opções como organização humana e social. Uma sociedade para atender às necessidades de seus membros não pode dispor apenas de ambulatórios ou hospitais, em sua rede de serviços. O universo espírita, pelo potencial transformador que lhe dá sustentação, também deve ter como meta o desenvolvimento integral do ser humano, compreendendo todos os seus aspectos: sociais, culturais e, especialmente, filosófico-espirituais.

Foi, com certeza, a partir dessa visão que o filósofo espírita brasileiro J. Herculano Pires deixou escrita essa afirmação que pode parecer pretensiosa, mas que dá a dimensão do centro espírita ideal: “Se os espíritas soubessem o que é o Centro Espírita, quais são realmente a sua função e a sua significação, o Espiritismo seria hoje o mais importante movimento cultural e espiritual da Terra”.





INTERCÂMBIO CULTURAL (I)

A partir de 1988, com a criação do Departamento Centro Cultural Espírita, assume importância na casa a realização de eventos culturais. Expositores de renome nacional e internacional são convidados para realizar conferências e coordenar seminários e cursos. Entre eles, merecem destaque Alexandre Sech, Ney Paulo de Meira Albach, André Luiz Peixinho, Djalma Motta Argolo, Adenáuer Marcos Ferraz de Novaes, Henrique Rodrigues, Ney Prieto Peres, Jaci Regis, Jon Aizpúrua, Bárbara Ivanova, Carlos Augusto Perandréa, Moacir Araújo Lima e Divaldo Pereira Franco.

Em 1992, é criado o Departamento de Eventos Externos com a função de organizar eventos abertos ao público espírita e não-espírita. Em 1994, com a realização do I ESPE, os eventos assumem caráter reflexivo e questionador dos rumos do movimento espírita e passam a incentivar a produção cultural, inspirados na experiência paulista do SBPE.

O I ESPE – Encontro Estadual do Pensamento Espírita, ocorreu nos dias 17 e 18 de setembro de 1994, do qual participaram 116 pessoas, sendo as principais delegações procedentes da Capital, de Santa Maria, Pelotas e Bagé. Estiveram presentes os confrades Jaci Régis e Roberto Rufo, da redação do jornal “Abertura” de Santos-SP. O I ESPE, que teve caráter de prévia do IV Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita (SBPE), ocorrido em Porto Alegre, em 1995, fixou os seguintes objetivos: a) analisar as tendências do movimento espírita frente à cultura; b) discutir o modelo atual do Centro Espírita face ao pensamento kardequiano; c) subsidiar o IV SBPE.

A programação teve início na tarde do sábado, dia 17 de setembro, com a exposição de José Dornelles Budó, dirigente espírita de Santa Maria-RS, fazendo uma análise Histórica do Movimento Espírita no Brasil. Seguiu-se o trabalho em grupos sobre o tema “A Cultura Espírita em Questão”, tendo como provocador Milton Medran Moreira. À noite, o jornalista e psicólogo Jaci Régis proferiu palestra sobre a “Evolução do Pensamento Espírita no Brasil”, seguindo-se debates com o público presente. No domingo, dia 18, pela manhã, novamente os grupos reuniram-se para discutir a questão “O modelo atual do Centro Espírita é fiel ao pensamento kardequiano?”, provocada por Salomão Benchaya.

No período de 12 a 15 de outubro de 1995, após mais de um ano de preparativos, realiza-se, nas amplas e confortáveis instalações do Centro Técnico de Aperfeiçoamento e Formação (CETAF), da Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE), do Rio Grande do Sul, o IV Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita (SBPE), patrocinado pela LICESPE e pelo Jornal ABERTURA, de Santos-SP, e organizado pelo CCEPA.

Com 180 participantes do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, S.Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Bahia, além de uma delegação Argentina, o Simpósio propiciou excelentes momentos de cultura e confraternização. Três conferências e quatorze trabalhos previamente inscritos foram apresentados.
Esteve presente no IV SBPE um grupo de espíritas argentinos da cidade de Rafaela, Província de Santa Fé, integrantes da CEPA, liderados pelo seu Vice-Presidente Alejandro Ruiz Diaz.





Zygmunt Bauman
(Filósofo e sociólogo polonês, falecido, na Inglaterra, em 9.1.2017)

Oh! É muito difícil encontrar uma pessoa feliz entre os ricos.
Uma pessoa pobre que consegue tomar café da manhã, almoçar e, com sorte, jantar... é automaticamente feliz. Nesse dia conseguiu seu objetivo.
O rico – cuja tendência obsessiva é enriquecer mais – costuma meter-se numa espiral de infelicidade enorme.
 A grande perversão do sistema dos ricos é que acabam sendo escravos. Nada os sacia, entram em colapso, uma catástrofe!”.
(Em entrevista concedida ao jornal espanhol “La Vanguardia”, publicada em 17/05/2014)







Agende-se:

O VIII Fórum do Livre Pensar Espírita será na Bahia

Tradicional evento da Associação Brasileira de Delegados e Amigos da CEPA – CEPA Brasil, o Fórum do Livre Pensar Espírita chega à sua 8ª edição abrindo parceria com o TELMA – Teatro Espírita Leopoldo Machado, em Salvador, Bahia.

O evento vai acontecer de 26 a 28 de maio próximo. Confira os dados abaixo e agende-se. É uma excelente oportunidade para conhecer o segmento espírita liderado pela CEPA – Associação Espírita Internacional: um espiritismo livre-pensador, laico, humanista e progressista. Vide cartaz do evento no topo da página.



Projeto sobre EQM em Universidade de Portugal
Em correspondência mantida com Maurice Herbert Jones, do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, o médico brasileiro Jorge Luiz dos Santos (foto), radicado em Portugal, informou sobre projeto que começa a desenvolver sobre Experiência de Quase-Morte - EQM.

Santos, que é porto-alegrense e, quando mais jovem, integrou os quadros da antiga Sociedade Espírita Luz e Caridade, da qual o CCEPA é sucessor, atualmente é professor na Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade da Beira Interior, naquele país. Ali, leciona para o Mestrado em Medicina, nas áreas de Sistemas Digestivo, Cárdiopulmonar e Pediatria, sendo também membro do Centro de Investigação em Ciências da Saúde da Universidade.

O projeto sobre EQM envolve aspectos neurofisiológicos, psicossociais, culturais e também paranormais. Integra a equipe um neurologista com especialização em ondas cerebrais, uma enfermeira oriunda da UFRGS e colaboradores da USP, além de “um brilhante investigador em fenômenos paranormais e parapsicologia daquela universidade, com uma formação invejável que inclui a Harvard”, informou Jorge Luiz.

O médico brasileiro, em sua correspondência, diz estarem “estruturando estratégias que vão desde a incidência do fenômeno na população portuguesa-brasileira, à narrativa da experiência com avaliação por EEG associada, etc”. “Vamos ver – acrescentou – se finalmente conseguimos produzir algo interessante nesse assunto, que é muito rico de métodos e também de polêmicas”.

Em seu contato com Jones, Santos reportou-se a estudos feitos por diversas universidades do mundo inteiro sobre o tema. A New York Academy of Science promoveu um simpósio para discutir o trabalho do cardiologista holandês Dr. Pim Van Lommel (foto)  sobre a memória, em episódios de quase-morte, em cujas experiências, os sujeitos investigados “não revelam uma memória de algo imaginado, mas sim uma memória de algo vivido”. É o caso “de um homem que reconheceu uma enfermeira que guardou sua dentadura no bolso durante a parada cardiorrespiratória, no momento em que seu eletroencefalograma já estava plano, sem atividade”.

Em contato pessoal mantido pelo médico brasileiro com o Dr. Pim, este ressaltou a importância de profissionais com formação médica envolverem-se na pesquisa desse tema.
Jorge sugere a assistência a um vídeo com o Dr. Pim Van Lommel, chefe de uma equipe de cardiologistas intensivistas, e que pode ser visto em:



       


Atriz afirma que se comunica
mediunicamente com Marília Pêra

O jornal Correio da Bahia, em sua edição de 19.07.2016 repercutiu entrevista concedida pela atriz Alessandra Maestrini, ao  talk show “Incitarte”, do jornalista Paulo Fernando Góes. Alessandra, que “há tempos vem escrevendo seu nome na história do teatro musical brasileiro em trabalhos cômicos da TV”, segundo o jornal baiano, disse que vem recebendo recados de Marília Pêra, desde sua morte em dezembro de 2015: “Sempre senti uma conexão forte com a Marília“, declarou Alessandra, acrescentando: “Depois que ela faleceu materialmente, recebi vários recados dela, muito claros”.

A presumível comunicação entre as duas estrelas, encarnada e desencarnada, teria, inclusive, se valido do que é denominado tecnicamente como “transcomunicação instrumental”, pois, segundo Alessandra, logo após o falecimento de Marília, apagou o nome desta em seu celular: “Apaguei o nome dela por três vezes, mas sempre aparecia de novo”. Segundo relatou, era a própria Marília Pêra que lhe aparecia, dizendo: “Vai apagar meu nome, é?”.

Alessandra Maestrini informou, na entrevista, que “Marília está fazendo isso com muita gente” e que esse tipo de comunicação “é algo espírita”, acrescentando: “Já senti ela no palco. Marília não vai parar, é maior que isso” (a morte física).

Alessandra e Marília Pêra trabalharam juntas em “Pé na Cova”, série humorística apresentada pela TV Globo, sob a direção de Miguel Falabella. Os três aparecem nesta foto de divulgação da emissora.

                
Reinício das atividades no CCEPA
O presidente do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, Salomão Jacob Benchaya, lembra que neste mês de março se reiniciam as atividades de estudos na instituição.
Dia 8, instala-se mais um grupo de estudos constituído pelos participantes do Curso Espírita de Mediunidade, realizado ano passado.
Dia 22/3, 4ª feira, às 19h30, se dará início a mais um Curso Básico de Espiritismo, sob a coordenação de Marcelo Nassar, diretor do Departamento de Estudos Espíritas.

Jacira: “A pena existe não só para punir,
mas também para ressocializar”

Recomendamos a leitura na gazeta eletrônica Kardec Ponto Com, de fevereiro último. Ali, uma esclarecedora entrevista da presidente da CEPA, a juíza de Direito Jacira Jacinto da Silva, sobre a atualíssima questão dos presídios e execução da pena, no Brasil. Confira no seguinte link: https://docs.google.com/viewer?a=v&pid=sites&srcid=ZGVmYXVsdGRvbWFpbnxlZHVrYXJhY2FvfGd4OjUzN2Q1YWNmMzU2ODYxMw

Justiça restaurativa – tema de reflexão no Barroso

O tema “Justiça Restaurativa e Cultura da Paz” será abordado no Centro Espírita José Barroso, domingo, dia 12/3, numa iniciativa do CPDOc, Centro de Pesquisa e Documentação Espírita e Associação Brasileira de Delegados e Amigos da CEPA.
O palestrante será o juiz de Direito paulista Egberto de Almeida Penido.





Esta loucura do Século XIX
Salomão Jacob Benchaya - Economista, presidente do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, Secretário Adjunto da CEPA, ex-presidente da FERGS e ex-vice-presidente da CEPABrasil, autor do livro “Da Religião Espírita ao Laicismo” e organizador e coautor dos livros “A CEPA e a Atualização do Espiritismo” e “Espiritismo: o Pensamento Atual da CEPA”.

O título deste artigo refere-se ao livro “Espiritismo, esta loucura do século XIX: ciência, filosofia e religião nos escritos de Allan Kardec” (Fonte Editorial), que o mineiro Augusto César Dias de Araújo lançou, em 2016, como resultado de sua tese de doutorado apresentada, em 2014, ao   Programa   de   Pós-graduação em Ciência da Religião, da Universidade  Federal  de  Juiz  de  Fora-MG, sob a orientação do Prof. Volney José Berkenbrock que também prefacia a obra. Um dos membros da banca examinadora foi o nosso companheiro Luiz Signates.

Augusto Araújo (foto) não é espírita. Teve uma breve participação num centro espírita, por volta de 1990, que o levou a ler as obras de Kardec e outros autores espíritas. Talvez por isso, além de sua brilhante inteligência e lhaneza no tratamento com pessoas, tenha conduzido sua pesquisa com admirável isenção e produzido uma primorosa análise epistemológica da obra de Kardec. Muitos espíritas teriam  ficado incomodados com o fato de um não adepto conhecer tão profundamente a obra do Prof. Rivail e, mais ainda por, apesar disso, não haver se convertido, ainda, ao Espiritismo.

Por cerca de vários meses, Araújo participou como membro da lista de discussão da CEPA, na Internet, onde demonstrou um conhecimento incomum acerca da obra kardeciana, qualificando sobremaneira, com suas abalizadas intervenções, as discussões realizadas naquele fórum onde, também, recolheu preciosos subsídios para sua tese.
A obra tem 305 páginas, formato 16 x 23 e parte da problematização do chamado tríplice aspecto do espiritismo com base em pesquisa nos textos-fonte da Doutrina Espírita e fazendo, naturalmente, referência a outros autores que abordam a questão da identidade do espiritismo. Em seu trabalho de hermenêutica, Araújo leva em consideração o desenvolvimento de toda a obra de Kardec dentro da cronologia por este definida nos chamados “seis períodos da propagação do Espiritismo” – 1. De curiosidade; 2. Filosófico; 3. Período de luta; 4. Religioso; 5. Intermediário; e 6. De renovação social -, demonstrando que o próprio codificador modificou sua postura com relação à identidade da doutrina ao longo de seu trabalho.

Interessante o efeito dessa publicação no interminável debate sobre se o espiritismo é ou não religião já que o autor demonstra que, mesmo que Kardec não tenha se referido explicitamente a esses “três aspectos” em sua obra – a expressão tríplice aspecto do espiritismo surgiria mais tarde, no Brasil -, na verdade, os conceitos de Ciência, Filosofia e Religião nela são articulados de maneira a não poderem ser tratados separadamente. Outro ponto destacado por Araújo é a guinada no pensamento de Kardec a partir do lançamento de O Evangelho Segundo o Espiritismo. Se, durante a elaboração dos principais tratados doutrinários – O Livro dos Espíritos (1857) e O Livro dos Médiuns (1861) -, o codificador definiu o espiritismo como ciência e filosofia de consequências morais (período filosófico), com a publicação do “Evangelho” (1864), O Céu e o Inferno (1865) e A Gênese (1868), ele definitivamente enquadra o espiritismo como a Terceira Revelação divina e como o Consolador e o incorpora à tradição cristã (período religioso), estabelecendo uma nova religião.

Essa percepção epistemológica de Araújo não é exatamente nova, pois que bastante discutida pelo segmento espírita laico. Mas, o que torna impar sua tese é a vasculhagem minuciosa nos escritos kardecianos, infelizmente limitada pela falta dos textos originais sobre os quais Kardec se debruçou para a construção do edifício doutrinário do Espiritismo.
Em seus quatro capítulos, Araújo tece considerações gerais sobre o tríplice aspecto e aprofunda a análise e a discussão sobre cada um desses “aspectos”. Na Introdução, o autor declara “o desejo de que meu trabalho (...) se caracterizasse por uma tentativa de dar voz a  Kardec.  Em  meio  às  tantas  vozes  que  hoje falam em  nome  de  Kardec,  minha  intenção  era  a  de ouvir  Kardec.” Refere-se à estranheza que lhe causavam as afirmativas que ouvira em palestras espíritas de que o Espiritismo era simultaneamente ciência, filosofia e religião e, ao mesmo tempo, ser superior a essas formas de conhecimento, o que o teria motivado a confrontar esse posicionamento com o do próprio Kardec.

Nem por isso, Araújo deixa de oferecer sua crítica ao modo como o codificador se coloca frente aos conceitos de Ciência, Filosofia e Religião.
Face à limitação deste espaço, dispenso-me de comentar, em maiores detalhes, o qualificado conteúdo da obra e suas conclusões, exceto manifestar minha agradável surpresa em ver meu livro - aqui não resisto a uma oportunidade de autopromoção – “Da Religião Espírita ao Laicismo: a trajetória do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre” incluído nas Referências da obra em foco.

Minha percepção é que, malgrado a isenção que marca o trabalho do Augusto Araújo, seu livro avaliza a postura religiosa do segmento majoritário do movimento espírita, por tornar evidente a mutação sofrida pela trajetória do fundador do espiritismo ao longo de sua elaboração.

Em razão disso, uma questão restaria para ser discutida pelo segmento espírita laico e livre-pensador: Até que ponto este segmento pode se definir, verdadeiramente, como espírita kardecista?





CCEPA Opinião
Ao comunicar a transferência para a conta do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre do valor correspondente a duas anuidades de assinatura de CCEPA OPINIÃO, aproveito a oportunidade para informar que leio mensalmente com muito interesse as matérias publicadas nesse jornal. Mas, sinto falta do noticiário da CEPA que era antes nele encartado com o boletim América Espírita.
Neuton de Meira Albach – Curitiba/PR
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NOTA DA REDAÇÃO – O noticiário da CEPA, por decisão da nova administração da entidade, está sendo veiculado apenas em boletim eletrônico disponibilizado no seguinte endereço:
https://drive.google.com/file/d/0Bx_8eR8qT5b9RUhJQTVZSURuRE0/view

Confiança
Sobre o tema abordado pelo colunista Milton Medran Moreira, em Opinião em Tópicos, (edição 248), devo dizer que minha confiança no ser humano atualmente encontra-se tão fortemente abalada que, se por acaso, fosse viver numa sociedade isenta dessas perturbações, eu continuaria vivendo assustado. Síndrome de final de ciclo. Isto é, quando as qualidades opostas ao Bem se sobrepõem às boas ações.
Pessoas simples ou incautas que pela fé imaginam poder viver atualmente numa sociedade fraterna candidatam-se indubitavelmente a pagar um alto preço pela falta de discernimento. O mundo do futuro, porém, trará as mudanças que os espíritos tendentes ao Bem aspiram ansiosamente, enquanto se aproxima, inexorável, a explosão do raio.
Nizomar Sampaio Barros – Rio de Janeiro/RJ