quarta-feira, 4 de setembro de 2013

OPINIÃO - ANO XX - Nº 211 - SETEMBRO 2013



As tênues fronteiras
entre a vida e a morte
Cientistas do Projeto Aware já não falam em “experiências de quase morte”, preferindo a expressão “experiências depois da morte”, convencidos de que algumas pessoas submetidas a processos de ressuscitação de fato morreram e foram novamente trazidas à vida física.



Projeto Aware: um passo adiante
na compreensão do fenômeno
Depois do sucesso em todo o mundo das obras do médico e pesquisador americano Raymond Moody Jr., que, na década de 70 do século passado, popularizou o conceito de “experiências de quase morte”, o Projeto Aware (sigla da expressão AWAreness during REsuscitation – consciência durante a ressuscitação), iniciado na Universidade de Southampton, na Inglaterra, em 2008, oferece novas bases para o fascinante estudo da consciência e dos indícios de sua sobrevivência após a morte.
O projeto foi concebido e é desenvolvido pela Horizon Research Foundation, liderado pelo Dr. Sam Parnia (foto). Conta com a colaboração de outros cientistas como Stephen Holgate, Peter Fenwick e Robert Peveler. Trata-se de um conjunto de investigações sobre estados de consciência durante a morte clínica e experiências fora do corpo. Envolve pesquisas colhidas em hospitais europeus e americanos e utiliza equipamentos avançados para analisar as reações do cérebro dos pacientes pesquisados.

“Apagando a morte” – uma obra
que lança luz sobre o tema
Decorridos cinco anos desde o início do trabalho, o Dr. Sam lançou o livro “Erasing Death - The Science That Is Rewriting the Boundaries Between Life and Death” – “Apagando a Morte – A ciência que está reescrevendo as fronteiras entre a vida e a morte”, onde defende a ideia de que questões antes pertinentes à religião e à filosofia agora precisam ser abordadas e explicadas pela ciência. Para ele, uma das últimas questões que a ciência tem definitivamente de investigar é o que acontece com a consciência após a morte. Por suas experiências, diz já poder afirmar que a consciência subsiste, mesmo que seja por algumas horas, depois da completa cessação da vida física.
Parnia fez sua formação no Guy e St Thomas, em Londres, mas, hoje, é chefe de cuidados intensivos do Hospital Stony Brook University, em Nova York. Ali, graças a técnicas que incluem o resfriamento do cérebro para retardar a deterioração neuronal e manter sua oxigenação, um paciente vítima de parada cardíaca, mesmo que considerado “clinicamente morto”, terá 33% de chance de ser trazido de volta. O índice dos demais hospitais americanos é de 16%. Aplicando os métodos lá empregados, os Estados Unidos, segundo Parnia, poderiam salvar cerca de 40 mil vidas ao ano e a Inglaterra em torno de 10 mil. A especialização do Dr. Parnia terminou por convencê-lo da falsidade de que a morte leva a um lugar do qual nenhum viajante retorna. Para ele, o processo acontece em momentos em que, de fato, a morte já ocorreu, não sendo correta a expressão “fenômeno de quase morte”. Além de salvar inúmeras vidas, o Projeto Aware, no qual está integrado o trabalho de Parnia e seus colegas, vem oferecendo elementos que comprovariam a sobrevivência da consciência após a morte física, apoiados em depoimentos de pacientes, logo após a ressuscitação. Os cientistas envolvidos no Projeto Aware defendem ser mais eficiente a entrevista logo após a reanimação, já que a tendência é o esquecimento depois de alguns dias. Por isso, também, Parnia supõe que muito mais pessoas tiveram esse tipo de experiências, mas elas terminaram sendo eliminadas pela memória: “há uma ruptura dos circuitos da memória, pelo mesmo mecanismo que deixamos de recordar nossos sonhos”.

Para saber mais:
Uma entrevista sobre o novo livro de Sam Parnia: http://www.npr.org/2013/02/21/172495667/resuscitation-experiences-and-erasing-death .

Reprodução de entrevista do Dr.Sam Parnia ao jornal “The Guardian”, de Londres:
http://www.theguardian.com/society/2013/apr/06/sam-parnia-resurrection-lazarus-effect .







Um enigma chamado vida
O Projeto Aware está sugerindo uma nova forma de tratar o até aqui chamado fenômeno da quase morte. Seus integrantes preferem qualificar os episódios ali desenvolvidos e documentados como “fenômenos depois da morte”. Utilizando-se de tecnologia avançada e monitorando todo o processo que resulta na ressuscitação de pacientes e na coleta de seus relatos, cientistas envolvidos no projeto concluem que, sob o aspecto clínico, aconteceu, em tais episódios, efetivamente, a morte, revertida graças às tecnologias empregadas. Dr. Sam Parnia, na entrevista a “The Guardian”, diz-se impressionado com o número de mortes desnecessárias no mundo, por paradas cardíacas. Muitas seriam facilmente evitáveis, desde que utilizadas essas tecnologias. Relativiza, assim, crenças populares do tipo: “Morreu porque era sua hora”, “Deus quis que ele se fosse agora”, etc. Ele está convencido de que a ciência pode e deve interferir mais no processo da vida e da morte.
Parnia confessa seu agnosticismo em matéria religiosa. Ele não é um crente. Mas, de uma coisa mostra-se convicto: neurônios não geram pensamentos. A consciência não é um produto do cérebro. Parece-lhe devidamente comprovado que o indivíduo, depois de morto, mantém-se como uma individualidade inteligente, capaz de viver experiências e emoções, de comunicar-se, agir e interagir. Reanimado o corpo, a “alma” pode outra vez conectar-se a ele.  Mesmo sem ser um religioso, o médico britânico não tem qualquer constrangimento em utilizar a palavra “alma”, para designar o agente do pensamento, da inteligência e das emoções. Na entrevista, defende ser um erro partir do pressuposto de que todos os cientistas acreditam que o cérebro produz a mente. Muitos duvidam disso, diz, dando por exemplo John Eccles, Prêmio Nobel Fisiologia/Medicina 1963, um cientista de nosso tempo que contrariou a tese materialista e reducionista.
Se quisermos reduzir a proposta espírita à sua mais sintética expressão, diríamos que é exatamente a de conferir à alma real concretude e significado, retirando-lhe o caráter de mistério e sobrenaturalidade a ela conferido pelas religiões. No estágio até aqui atingido por experiências científicas de ponta, como é o caso do Projeto Aware, já se tem como confirmado que, mesmo com a cessação da atividade cerebral, a consciência sobrevive e pode relatar episódios vividos naquele ínterim. É lógico, é sensato, é racional avançar um pouco mais sustentando-se, como o faz o espiritismo, que, na hipótese do não retorno - como acontece com a maioria das pessoas cujo coração e o cérebro pararam -, o espírito, ou a consciência também sobrevivam e possam igualmente se comunicar.
Não se está simplesmente diante de fenômenos estranhos e misteriosos, como a cultura contemporânea ainda os trata. Estamos, sim, no limiar de um novo paradigma científico, capaz de oferecer uma visão mais ampla acerca desse enigma chamado vida. 
(A Redação).










Dignidade e Indignação
A cultura do espírito aumenta os sentimentos
de dignidade e de independência. Herbert Spencer

A luta pela dignidade humana nasce da indignação. A capacidade de indignar-se diante da injustiça, da desigualdade, das violações à liberdade, da corrupção, é o combustível que move o indivíduo e as coletividades à efetiva ação por uma sociedade melhor.
É preciso ter isso presente ao se analisar os movimentos sociais que, neste momento, marcam as relações entre segmentos da sociedade e o poder. Eles são indício do amadurecimento dessa capacidade de indignação que explode, particularmente, na alma dos jovens e os conduz a ruidosas manifestações reivindicando mudanças. Quem é capaz de se indignar mostra crescimento de conscientização de seu próprio potencial transformador e se sente estimulado à  concreta ação transformadora.
Mas, afoitos, nem sempre e nem todos os jovens levam em conta um aspecto: a democracia, suada conquista que mal começa a se consolidar entre nós, também nasceu e se institucionalizou a partir da indignação e da ação destemida de gerações precedentes. Etapa recente de nossa história institucional, a democracia não será capaz de sobreviver sem a ordem que lhe é elemento indispensável.
Ao mesmo tempo em que assiste a uma saudável onda de manifestações em prol de inadiáveis melhorias no campo da educação, da saúde, da moralidade pública, a Nação também tem se deparado com lamentáveis cenas de invasões, depredações e vandalismo ao patrimônio público e privado. E esse não é um bom sinal. Retrata a presença entre nós de espíritos que se demoram em estágios de barbárie incompatível com os avanços éticos e sociais já conquistados. Sobra-lhes indignação, mas lhes falta civilidade. Educá-los é tarefa do Estado, da sociedade organizada e de cada um de nós mediante o exemplo e ações positivas em favor do bem.
A par da inserção social, no setor que melhor corresponda à capacidade individual de cada um, a nós, espíritas, cabe contribuir, fundamentalmente, com o que de melhor e mais genuíno tem o espiritismo: a sua filosofia, sua proposta de compreensão de homem e de mundo. A filosofia espírita é profundamente libertadora. Desperta no indivíduo a consciência de que ele é o primeiro agente da conquista de sua felicidade. E que esta é construção gradual que se estende vidas a fora, nas necessárias etapas do espírito rumo à plenitude. Essa visão gera sentimentos de solidariedade e de corresponsabilidade no progresso do mundo, de seus povos e instituições.
Impulsionar, pois, nossas momentâneas e circunstanciais indignações à busca da dignificação integral do espírito humano é a tarefa que nos impõe a vida. Mas, isso exige de cada um ordem, disciplina, obediência às leis, pois que, sem elas, ao invés de nos tornarmos agentes do progresso, estaremos dando margem ao retrocesso que atenta contra as sábias leis da natureza.


           





A mulher e o fuzil
Depois do que vi, junto a um terminal bancário, em área de estacionamento de supermercado em Porto Alegre, acho terem caído todas as barreiras que ainda diferenciavam profissões de homens e de mulheres. Enquanto era recarregado o terminal com dinheiro vindo do banco, uma moça segurando enorme fuzil - ou seja lá como se chamem essas armas normalmente exibidas por parrudos barbados, nas operações de transporte de valores - se mantinha postada junto ao equipamento.
A moça era bonita, simpática, e até esboçava um leve sorriso diante de quem demonstrasse estranheza em ver uma mulher naquela posição de alerta, pronta a usar a potente arma, em caso de assalto. No sorriso, parecia dizer: “Não se enganem, por de trás desta arma e deste fardamento, pulsa um coração de mulher, de mãe, de namorada”.

A conquista do mercado de trabalho
Lembro que quando fiz concurso para o Ministério Público, em 1975, não havia nenhuma Promotora no Rio Grande do Sul. A Magistratura, um ano antes, tinha aprovado duas ou três mulheres. Delegada de Polícia, nem pensar. Como poderia uma mulher enfrentar a bandidagem, manusear uma arma, subir morros para desbaratar quadrilhas? As mulheres, na época, já haviam conquistado muitos setores do mercado de trabalho. Mas, eram profissões, que a sociedade entendia como compatíveis com o “sexo frágil”. Elas eram enfermeiras (havia algumas poucas médicas), educadoras, secretárias. No Estado, existia uma deputada, e, nas redações dos jornais, talvez duas ou três redatoras para tratar de temas de etiqueta.

A mulher em O Livro dos Espíritos
Recordo tudo isso, ao reler a questão 822 de O Livro dos Espíritos. Ali, Allan Kardec interroga seus interlocutores espirituais sobre a questão da igualdade de direitos entre homens e mulheres. Naquela época, a discriminação era expressa e taxativa. Mulher não tinha qualquer direito político. A lei lhe negava capacidade jurídica para gerir sua vida. Se solteira, era tutelada pelos pais; se casada, pelo marido. A filosofia espírita, na época, nascia totalmente engajada à luta em prol da emancipação feminina que, segundo expressava O L.E., “acompanha o progresso da civilização”, e asseverava que “a lei humana, para ser justa, deve consagrar a igualdade dos direitos do homem e da mulher”. Mas, a mesma resposta, fazia uma ressalva. Posicionava-se favoravelmente à igualdade de direitos, mas não de funções: “É preciso que cada um tenha um lugar determinado; que o homem se ocupe do exterior e a mulher do interior, cada um de acordo com sua aptidão”, afirmava a questão 822.

O interior e o exterior
A posição era compatível com os costumes da época. Abriam-se caminhos para a conquista de direitos sonegados à mulher, mas reconheciam-se diferenças, fossem culturais ou genéticas, que demarcavam as atividades de um e outro sexo.
Depois de ver a moça empunhando um fuzil, naquele terminal bancário, acho que já não existe profissão interditada à mulher. Isso não desqualifica o conceito emitido, em meados do Século 19, pela nascente doutrina espírita. Mas, sem dúvida, melhor qualifica o ser humano contemporâneo. A evolução está nos dotando de qualidades que, antes, não tínhamos. Há homens que trocam as fraldas de seus filhos. Há mulheres que dão duro a semana toda no exercício de atividades antes exclusivamente masculinas. Os costumes foram abrandando as diferenças. O exterior e o interior são melhor compartilhados nas parcerias de hoje. Aprendemos uns com os outros, sem a necessidade de a mulher perder a delicadeza que nasce no âmago da alma e sem que o homem precise renunciar ao vigor e à energia que lhe permitem encarar a dureza de um mundo em constante crise de mudança.








A Espiritualidade Espírita
Eugenio Lara, arquiteto e designer gráfico, é editor do site PENSE - Pensamento Social Espírita [www.viasantos.com/pense] e autor do livro Breve Ensaio Sobre o Humanismo Espírita. E-mail: eugenlara@hotmail.com .

Grande parte da intelectualidade ocidental vislumbrou que no século 20 veríamos o triunfo da racionalidade moderna sobre o pensamento dogmático. Todavia, o que vimos foi o crescimento e refortalecimento das religiões, especialmente as monoteístas. Muitas guerras, notadamente no Oriente Médio e Leste Europeu, são de origem religiosa.
O conflito ideológico entre os primeiros humanistas e teólogos cristãos no Quatrocento, prosseguiu em todo o Renascimento, no Século das Luzes com o Iluminismo e tornou-se, desde então, um conflito aparentemente insolúvel. Abriu-se um abismo entre a ciência e a religião no século 19. Ainda que criacionistas tentem maquilar suas teorias dogmáticas com o aparato científico atual e alguns físicos quânticos proponham teses que aproximam a Ciência de temas transcendentais, o conflito entre a mentalidade científica e a mentalidade religiosa prossegue sem tréguas.

Esse conflito também ocorre no meio espírita. De um lado, segmentos de espíritas que rejeitam o suposto caráter religioso do Espiritismo e de outro, espíritas de mentalidade dogmática, religiosista, extremamente influenciados pelo cristianismo. Para este último segmento, a satisfação da religiosidade na busca do sagrado é o que há de essencial no Espiritismo Cristão, tido como o Cristianismo redivivo, a Terceira Revelação, o Consolador prometido por Jesus Cristo. Para essa gente, o que importa mesmo é evangelizar. É o Espiritismo segundo o Evangelho.

Já para o segmento laico, a ideia de religiosidade no contexto espírita é algo bastante incômodo, causa um certo mal-estar. Sim, devemos respeitar a manifestação e diversidade religiosas, no entanto, há uma distância razoável entre o respeito necessário, a vivência e aplicação da religião em nossa vida pessoal.

Considerar a religiosidade como algo desprezível e descartável em nosso dia-a-dia não significa que a religião e os religiosos mereçam desprezo e todo o nosso despeito. Também não significa que sejamos ateus, descrentes ou niilistas. Afinal, a ideia de Deus, alma, imortalidade e tantos outros conceitos, de “propriedade” das religiões, fazem parte do conteúdo filosófico do Espiritismo.

O diferencial está no tratamento experimental e filosófico que o Espiritismo oferece na análise dessas questões consideradas transcendentais. Por se tratar de uma filosofia espiritualista “racional, isenta dos preconceitos do espírito de sistema”, seu caráter nada tem de religioso. O poder do Espiritismo está “na sua filosofia, no apelo que dirige à razão, ao bom senso”. E também na linguagem: “clara, sem ambiguidades. Nada há nele de místico, nada de alegorias susceptíveis de falsas interpretações. Quer ser por todos compreendido. (...) Longe de se opor à difusão da luz, deseja-a para todo o mundo. Não reclama crença cega; quer que o homem saiba por que crê. Apoiando-se na razão, será sempre mais forte do que os que se apoiam no nada”. (Allan Kardec, O Livro dos Espíritos - Conclusão, item VI).

Rejeitar a religiosidade não significa ser antirreligioso, um iconoclasta de plantão no combate às instituições religiosas e no desprezo de sua importância histórica e cultural. A religião é também uma forma de conhecimento, objeto de estudo de sociólogos e antropólogos. Como se diz, “não se deve jogar a água da bacia junto com a criança”. Ser a-religioso não quer dizer antirreligioso.

O que o Espiritismo Kardecista propõe é o aprimoramento da espiritualidade ao invés da renovação ou reafirmação da religiosidade, seja ela cristã ou outra qualquer. A moral espírita é uma superação histórica e filosófica da moral cristã, apesar de verossímeis. Ou seja, a proposta kardecista neste aspecto é a da superação do religiosismo cristão mediante o uso da razão e do bom senso.

Daí a proposta kardequiana da fé raciocinada, o que é bem diferente de fé racional, um tremendo paradoxo, algo impossível de se imaginar na prática, no dia-a-dia.

A religião não é proprietária da espiritualidade.A espiritualidade derivada do Espiritismo é laica, secular, agnóstica e humanista.

A Espiritualidade Espírita é laica porque não se alimenta da fé, do pensamento teológico, dogmático e nem se vincula a determinada religião.

É secular porque sua origem e formulação são históricas, não admitindo, portanto, a intervenção divina, metafísica, sobrenatural ou algum tipo de deferência pelo sagrado, pois a filosofia espírita mostra-se como uma ruptura entre o sagrado e o profano.

É também agnóstica porque não aceita a fé dogmática como forma de conhecimento, sustenta-se na razão, na experiência e também no conhecimento científico.

É humanista, porque tem no ser humano o centro e o sentido de sua práxis, onde ele estiver, no mundo físico ou no extrafísico. Isto segundo os parâmetros da ética espírita e todo seu conjunto de valores morais, de profundo respeito aos direitos humanos, dos seres e das coisas. Para o Espiritismo, liberdade-igualdade-fraternidade não é apenas um slogan ou brasão tríplice, representa todo um programa moral, ético, voltado para o bem-estar, individual e coletivo.

E por fim, não se trata de mera substituição semântica. O conteúdo espírita nos oferece uma concepção que extrapola os limites da experimentação e da interpretação filosófica. O Espiritismo é uma doutrina “eminentemente moral e racional” e não se opõe à religião. Ao contrário. Para Kardec, o Espiritismo é o grande auxiliar das religiões porque lhes dá a base racional e filosófica necessária à compreensão de seus dogmas e do argumento de autoridade. Espiritualidade sim, religiosidade não! 







CPDoc – 25 anos
Fundado em 1988, em Santos, SP, o Centro de Pesquisa e Documentação Espírita – CPDoc - , completou, no último mês de agosto, 25 anos de existência. Fruto do sonho de jovens espíritas interessados em incrementar os estudos espíritas mediante a inserção da crítica coletiva como prática estimuladora do aperfeiçoamento dos trabalhos produzidos por seus integrantes, o CPDoc já publicou sete livros (conheça seus títulos e autores no site http://www.cpdocespirita.com.br/ ).
Em reuniões periódicas, os temas que se tornarão livros são discutidos previamente por seu autor com o grupo. Ativos participantes do movimento da CEPA e da CEPABrasil, os integrantes do CPDoc têm participado de todos os congressos e encontros dessas entidades.
O grupo, neste momento presidido pelo 3º vice-presidente da CEPA, Mauro de Mesquita Spínola, comemorou de maneira muito informal seus 25 anos de existência, na sede do Centro Espírita Allan Kardec, de Santos, no dia 17 de agosto último. Na comemoração, foi rememorada a história da entidade e, por iniciativa de Sandra Regis, aconteceu um descontraído “show de talentos”.
Um relato da festa, feito pela presidente da CEPABrasil, Alcione Moreno, pode ser visto no blog http://cepabrasil.blogspot.com.br/ .

Le Journal Spirite
A edição n. 93 de “Le Journal Spirite”, revista trimestral do Cercle Spirite Allan Kardec, da França, publicada em julho último, tem como conteúdo principal, intitulado “Dossier”, uma ampla matéria contendo biografia e apreciação da obra de Léon Denis, sob o título de “Léon Denis – l’apôtre du spiritisme”.
“Le Journal Spirite”, publicado em francês, tem edição eletrônica em espanhol, gentilmente enviada à redação deste jornal, por seu Diretor, Jacques Peccatte. Os interessados que desejem receber a edição em pdf poderão solicitar a nosso editor Milton Medran, pelo e-mail medran@via-rs.net .


Palestras Públicas no CCEPA
A tradicional palestra da primeira segunda-feira do mês (2 de setembro, 20h30), está a cargo da psicóloga Maria da Graça Serpa, “Obsessão e Transtornos Mentais”.
Também na terceira quarta-feira de cada mês, na parte da tarde (15h), o CCEPA oferece uma conferência pública, com entrada franca a todos os interessados. Dia 18/09 será a vez do advogado Lauro Borba nos brindar com sua fala.







ESDE e CCEPA Opinião
Amigos do CCEPA; quero parabenizá-los por esses dois eventos: os 35 anos do ESDE (reportagem de capa da edição de julho) e o início do Ano 20 do Jornal “CCEPA Opinião” (editorial de agosto). Parabéns a todos, e, em especial, ao meu amigo Milton Medran, editor do jornal.
Nazareth Coelho - do CEAK, Santos/SP.

Espíritas de Porto Rico contra a pena de morte
En Puerto Rico, gracias en buena parte a los esfuerzos de los espiritistas militantes de los años 20 del pasado siglo, se abolió la pena de muerte, y quedó ratificada dicha abolición en nuestra Constitución del 52. Desafortunadamente, el gobierno federal, de los Estados Unidos, quiere imponerla a convictos de crímenes violentos, a pesar de nuestra prohibición constitucional. Esto, debido a la relación existente entre nuestros gobiernos, ya que Puerto Rico es un territorio no incorporado de los Estados Unidos. Por esto es tan importante para nosotros re-tomar la militancia en contra de un tema que debió quedar resuelto durante el siglo pasado.
Agradecemos el apoyo que nos puedan brindar con su divulgación, para que muchos amigos espíritas del mundo sepan que hay múltiples maneras en las que la filosofía espiritista nos llama a la acción social y el trabajo por el progreso de los individuos  y sus sociedades.
José E. Arroyo - Escuela Espírita Allan Kardec – Puerto Rico.

Apreciações sobre a Normose
Agradeço a acolhida da singela reflexão que propus no “Apreciações sobre a Normose” (CCEPA Opinião, n.210). Somente alerto que no texto publicado faltou a fonte da obra da Joanna de Ângelis (FRANCO, Divaldo. O despertar do espírito. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: Leal, 2000, p. 20.)
Prof. Dr. Vinícius Lima Lousada - IFRS – PROEN - www.ifrs.edu.br

NR – A autoria da frase constou como de Joanna de Ângelis. Por lapso da edição, faltou a referência à obra, no rodapé. Falha nossa.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

OPINIÃO - ANO XX - Nº 210 - AGOSTO 2013



Igreja em baixa, Papa em alta
Apesar de sua Igreja, por aqui, amargar fortes índices de queda, Papa Francisco chega ao Brasil prestigiado por multidões e com um discurso afinado com as mais importantes questões da atualidade.

A queda do catolicismo
Às vésperas da chegada do Papa Francisco ao Brasil para participar da Jornada Mundial da Juventude (22 a 28 de julho último), o Instituto Datafolha publicou resultados de pesquisa mostrando que o catolicismo caiu ao menor nível da história no país.
Segundo a sondagem, feita no último mês de junho, apenas 57% dos brasileiros maiores de 16 anos se declararam católicos. A tendência de queda se acentua pesquisa após pesquisa. Há menos de 20 anos, em 1994, 75% dos brasileiros se declaravam católicos. O índice caiu para 64% em 2007, chegando, no ano da visita de Francisco, a pouco mais da metade da população.
Confirmando dados do Censo de 2010, são os segmentos evangélicos que mais atraem ovelhas do rebanho católico. A pesquisa Datafolha apurou que 19% dos entrevistados são da ala pentecostal evangélica e 9% integram igrejas protestantes mais tradicionais. O espiritismo, tratado sempre como uma religião nas pesquisas, mantém o mesmo índice da anterior: 3% dos brasileiros afirmam serem seus adeptos.

O Papa da esperança
Apesar do quadro nada otimista em relação à sua Igreja que perde fiéis para outras denominações, o Papa Francisco encantou os brasileiros com sua simplicidade, seu despojamento e, especialmente, por sua inserção em relevantes questões sociais de nosso tempo.     Sua programação privilegiou visitas a obras sociais e redutos onde grassam a pobreza e carências nas áreas do saneamento, da educação e saúde. Teve também um encontro com adolescentes infratores que cumprem medidas socioeducativas.
No Santuário de Aparecida, onde celebrou missa de abertura da Jornada, o Pontífice recebeu carinhosamente dirigentes de outras religiões. Em sua homilia e em quase todos os pronunciamentos, evitou questões teológicas, preferindo dar ênfase a valores universais e ações humanitárias. Em cerimônia de inauguração de um centro para dependentes químicos no Hospital São Francisco, bairro da Tijuca, Rio de Janeiro, o Papa enfatizou a importância da ajuda ao próximo, concitando todos a serem “portadores da esperança”. Naquele ato, também, condenou vigorosamente o tráfico de entorpecentes e tomou posição contra a legalização do uso de drogas, ao afirmar: “Não é deixando livre o uso das drogas, como se discute em várias partes da América Latina, que se conseguirá reduzir a influência da dependência química”. Dirigindo-se aos dependentes em tratamento, enfatizou: “Não deixem que lhes roubem a esperança”.
Em visita à favela de Varginha, onde entrou na casa de uma família, apelou às autoridades públicas, aos mais ricos e à sociedade em geral para que não se cansem de trabalhar por um mundo mais justo e solidário. Novamente, concitou os jovens a terem esperança no fim da corrupção e das injustiças: “Não deixem que se apague a esperança. A realidade pode mudar. O homem pode mudar. Sejam vocês os primeiros a procurar o bem”, disse.






Os filhos de Francisco
Há um aparente contraste entre os índices de queda do catolicismo e as entusiásticas manifestações das massas humanas, especialmente de jovens, por onde passasse o Papa, na sua recente visita ao Brasil. Poucos dias antes, a revista Veja (edição2331) comentava recente pesquisa entre moças e rapazes de 16 a 24 anos analisando as causas da debandada católica e atribuindo-a à “desconexão entre o que prega a Igreja e o que querem e no que acreditam os jovens de hoje”. Na pesquisa, 68% disseram aprovar o divórcio, 88% manifestaram-se a favor da pílula anticoncepcional e 97% do uso de preservativos. São posições que guardam sentido diametralmente oposto ao reiterado magistério da Igreja Romana.
         
O que pensariam a respeito desses temas tão atuais e já bem definidos no seio da sociedade moderna os “filhos de Francisco” que o receberam de forma tão entusiasmada, e, em alguns momentos, com manifestações só comparáveis àquelas prestadas a seus mais festejados popstars?
Claro que, no meio da multidão havia pessoas inteiramente comprometidas com todos os ensinamentos da Igreja: Freirinhas saídas diretamente de seus claustros e ascéticos monges que deixaram seus mosteiros para participar dos ruidosos espetáculos de fé nas areias de Copacabana. Por voto de obediência, por compromisso com a castidade, pela radicalidade de sua fé, estes, sublimando mesmo os próprios apelos vitais, abdicaram do direito de questionar ou agir de forma diversa àquela recomendada por sua crença. Para eles, os cânones da Igreja se constituem em mananciais únicos da verdade e da vida. Uma opção pessoal que merece respeito. Mas, afora estes, os jovens participantes do evento estão suscetíveis a outras formas de interlocução consigo mesmos e com o mundo que os cerca. Suas próprias experiências pessoais, a vivência em núcleos familiares arejados, o contato com formadores de opinião, educadores, pensadores ou trabalhadores comprometidos com as causas sociais e políticas de nosso tempo, por certo lhes oferecem outras visões, mais plurais e abrangentes que aquelas aprisionadas na dogmática religiosa.

Esses jovens, em sua maioria, amanhã ou depois já não estarão engajados na religião e nem a terão trocado por outra. Assumirão a postura laica, característica da pós-modernidade. Mas, sem dúvida, todos os que viram e ouviram Francisco terão levado consigo uma experiência muito positiva dessa histórica experiência. O líder religioso a quem vieram saudar é um homem sensível, carismático e bem intencionado. Adotou uma postura condescendente com o pluralismo, voltada ao diálogo com a sociedade laica. Desde sua investidura, tem se mostrado disposto a combater vícios e atitudes criminosas dentro de sua própria Igreja, até aqui jogados para baixo do tapete. É, tudo indica, um homem corajoso, justo, afinado com os mais elevados anseios da sociedade contemporânea.
Por certo, assim o viram os milhares de jovens no Rio e em Aparecida. E isso conjuga sua fé com esperança, a palavra mais pronunciada por Francisco em sua visita. Esperança em um destino melhor para todos, crentes ou não. Enfim, a crença nos dogmas pode estar em queda, mas os valores humanos, alguns dos quais também compartilhados por pessoas de fé, sempre estarão em alta, porque conquistas legítimas do Espírito, centelha divina que alumia a vida. (A Redação).


           



 A Terra é a morada da opinião – Pitágoras.

A princípio, ele se apresentou apenas como “Opinião”. Com isso, o pequeno mensário cujo número 1 era publicado há exatos 19 anos não tinha nenhuma pretensão de trabalhar com verdades, mas, simplesmente, com opiniões. Alguns anos depois, passou a se qualificar como “CCEPA Opinião”. Com isso, deixava claro seu objetivo primordial: interpretar ideias que se discutem, se elaboram e se busca consensualizar neste pequeno núcleo de estudiosos do espiritismo, o Centro Cultural Espírita de Porto Alegre.
O nascimento deste modesto periódico, entretanto, coincidiu com uma das fases mais ricas da história desta quase octagenária instituição. Naquele mesmo ano, 1994, o grupo decidia pela adesão à Confederação Espírita Pan-Americana, um organismo internacional que, como nós, guarda um perfil progressista, laico e livre-pensador, totalmente compatível com o ideário de Allan Kardec.
Inserido que está o espiritismo, notadamente no Brasil, em um enclave predominantemente, senão quase que exclusivamente, religioso, não se desenhou fácil a tarefa de levar ao movimento espírita ideias livre-pensadoras, laicas e progressistas. Já em nosso editorial de número 1, destacávamos ser “uma das características mais marcantes da postura religiosa”, a de rejeitar que temas de “estudo, reflexão, debate, questionamentos, teses inovadoras, pesquisas, etc.” venham a invadir “o mundo sagrado e bem delimitado de suas crenças religiosas”, porque estas estariam no âmbito exclusivo da “revelação”. A visão livre-pensadora do espiritismo, naquele momento já plenamente assumida pela CEPA que, como o CCEPA, entende inadequado classificar o espiritismo como “religião”, era ainda compartilhada por poucas pessoas dentro do movimento. Tratava-se, assim, de estabelecer com essas pessoas e com muitas outras que, fora do movimento, comungavam com nossa visão, vínculos de relacionamento. Este periódico contribuiu em boa medida com a busca dessas aproximações e do intercâmbio. Na época, a Internet começava também a se popularizar e, logo, se revelaria valiosíssima ferramenta para esse trabalho. Afora isso, e graças à CEPA, passamos a participar ativamente de um rico movimento de ideias progressistas espíritas, cultivadas por pessoas e instituições sediadas nas Américas e na Europa.
Mesmo com o avanço da mídia eletrônica, insistimos em manter o jornal no velho formato de papel, além de sua inserção virtual. Até quando poderemos fazê-lo? Não sabemos. Os altos custos editoriais e postais que, praticamente, consomem nossa receita social, poderão, no futuro, inviabilizar esta publicação. Contamos com um discreto número de assinantes e com a generosidade algumas pessoas anônimas que contribuem com o projeto. Graças a isso, ele segue avante.
Ratificamos, aqui, outra ideia expressa em nosso primeiro editorial: “Dessacralizar os temas por tanto tempo aprisionados no mundo das religiões é a proposta revolucionária do espiritismo”.  Buscamos ser fiéis a esse objetivo. Avançamos um pouco nestes 19 anos, com uma mensagem hoje melhor compreendida por espíritas e não espíritas, num mundo cada vez mais laico e, nem por isso, divorciado da espiritualidade. Estamos dispostos a seguir em frente. Animam-nos alguns sinais de que, ao ingressarmos em nosso ano 20, já tenhamos atravessado os momentos mais difíceis dessa caminhada. Quem se der ao trabalho de reler algumas de nossas primeiras edições, poderá aquilatar o quanto de incompreensões e agruras tivemos de enfrentar nesta jornada que mal cumpriu sua primeira etapa.
Avançamos um pouco nestes 19 anos, com uma mensagem melhor compreendida por espíritas e não espíritas.





A matéria plástica
Pertenço à geração que assistiu ao nascimento e apogeu do plástico, e, agora, não acha jeito de se libertar dele. Ele está em quase tudo que portamos e utilizamos, em forma de roupas, calçados, utilidades domésticas e industriais e, principalmente, em embalagens. Quem não viveu a época de minha infância talvez não saiba que a vida, antes da “matéria plástica” –  assim a gente a chamava no início de sua revolucionária utilização -, era muito diferente. De minha meninice, recordo, por exemplo, que quando era mandado ao açougue, davam-me um gancho no qual seria pendurado o naco de carne que lavaria para casa (Um dia, retornei com alguns gramas a menos do pedaço comprado, abocanhado que foi por um cachorro de rua). Nos armazéns de secos e molhados, em vez das sacolas plásticas de hoje, os mantimentos eram acondicionados em sacos de papel pardo, cuidadosamente confeccionados ali mesmo e colados com goma arábica.
Se cada um fizer sua parte
Lembrei-me disso quando, ao atravessar uma rua, um senhor de idade aproximada à minha, curvou-se para recolher uma sacola plástica, atirada ali no canteiro central da avenida, depositando-a numa lixeira da calçada. Centenas de pessoas, e, talvez, eu próprio, já haviam pisado no material ali irresponsavelmente jogado, sem se dar ao mesmo trabalho. Como todos nós, cidadãos razoavelmente informados, aquele homem devia saber que a charmosa matéria plástica de sua infância é, hoje, uma das grandes responsáveis pela poluição de nossos rios e oceanos. Toneladas dela estão depositadas nos fundos dos mares e dos rios, onde degradarão o meio ambiente para sempre, pois que insolúveis na água. Naturalmente, meu desconhecido contemporâneo também há de ter consciência de que a simples retirada de uns poucos gramas de polietileno da rua não alterará o dramático quadro da poluição mundial. Mesmo assim, preferiu agir como o beija-flor da lenda: diante do incêndio da floresta onde vivia com muitos outros animais, a avezinha pôs-se a levar em seu bico gotinhas de água retiradas do rio para apagar o fogo. Da mesma forma como o passarinho respondeu ao leão, nosso amigo teria dito a quem o alertasse da aparente inutilidade de sua ação: “Fiz a minha parte”. 
Protesto e transformação
Em tempos de tantas e tão justas gritas, de passeatas e protestos motivados por sinceros desejos de mudanças, não é demais recordar que a avalanche de problemas políticos e sociais cuja solução é exigida também deriva de uma clara poluição de nosso agir ético como cidadãos e coletividade. Não é que sejamos hoje moralmente mais atrasados que ontem. Nunca, como na atualidade, fomos tão conscientes da necessidade de uma vida moralmente digna, saudável e honesta. Nossos ordenamentos jurídicos, em contínua transformação, provam isso. A complexidade da vida exige, hoje, rápidas mudanças diante de desafios ontem inexistentes.  Talvez já não sejamos capazes de, como indivíduos, acompanhar a rapidez com que se desenham e ganham forma as grandes aspirações coletivas de nosso tempo. Por isso, reclamamos de quem detém o poder.  E, no exercício do justo direito de reclamar, esquecemos ou desleixamos de nossas responsabilidades pessoais no processo de mudança.
Seja você a mudança
Mahatma Ghandi esculpiu esta genial sentença: “Seja você a mudança que deseja para o mundo”. A grande reforma que todos estamos a desejar é moral. Depois de extraordinários progressos científicos e institucionais que marcaram o último século, após a conquista das liberdades sociais e individuais, com a consolidação da democracia e da relativa paz mundial, o grande desafio, hoje, está no campo da ética. E esse apelo, diferentemente do que pregavam as religiões que apontavam para a renúncia da felicidade e o sofrido recolhimento, parte, justamente, dos anseios coletivos em prol de um mundo mais feliz. A alma coletiva de todos os povos institucionalmente desenvolvidos plasma modelos ideais que são permanente convite a que, individualmente, façamos por merecer as sonhadas transformações.
O homem que recolheu do canteiro a sacola plástica sabe disso.






Apreciações sobre a Normose

Vinicius Lousada, Educador e pesquisador,
editor do blog www.saberesdoespirito.blogspot.com .

Estabelecer técnicas e ética de comportamento psicológico assentadas na experiência com alguns biótipos é conspirar contra a saúde emocional, porquanto os valores que a uns preenchem as carências, para outros, passam sem qualquer significativa emoção. – Joanna de Ângelis¹

No campo dos estudos orientados pelo paradigma holista – que procura compreender ao mesmo tempo o todo e as partes da realidade – nas últimas décadas, um conceito sobre o caráter patológico da adesão cega de indivíduos a uma concepção hegemônica de normalidade, causadora de sofrimento, passou a ser elaborado por alguns pensadores de forma sincrônica (simultaneamente ou não, sem nexo causal comum), trata-se do termo normose.
A normose pode ser compreendida como uma gama de normas, conceitos, valores, estereótipos, hábitos de pensar ou de agir, aprovados consensualmente por um grupo social, provocando sofrimento, doença ou morte. “Em outras palavras é algo patogênico e letal, executado sem que seus autores e seus atores tenham consciência de sua natureza patológica.”2
A característica marcante da normose é a reprodução comportamental de normas sociais e valores negativos de modo automático e inconsciente. O normótico ignora essa enfermidade moral e crê piamente que quem não se enquadra no conjunto da coletividade nos padrões pré-estabelecidos, mesmo que sejam absurdos, é anormal e infeliz.
         
Entretanto, o normótico vive de modo inautêntico. Seu jeito de ser e estar no mundo e com os outros é escravizado pelo que reza o grupo que pertence ou por aquilo que a mídia apregoa, permitindo-se ser docilmente norteado pela lógica do consumismo e pela ilusão do fundamentalismo materialista ou espiritualista ofertado.
A pessoa normótica não tem pensamento, opinião e gosto próprio, segue o “rebanho”, faz como todo mundo faz ou ao menos tenta. Quando não consegue ser igualzinha aos outros se frustra e passa a viver ansiosa em suas tentativas de ser apenas mais uma engrenagem ajustada ao mecanismo da sociedade, entregando-se a uma vida pouco reflexiva e nada criativa.
O problema não é procurar seguir num pensamento e conduta reta, mas, sim, em ser sal insípido3, conforme nos alertava Jesus, deixando de fazer a diferença quando o propósito mais amplo da existência é multiplicar os talentos que somos portadores, superando as emoções que causam do sofrimento, numa conviviabilidade pautada no bem.
A normose é uma normalidade doentia e se diferencia da normalidade saudável porque ela impede o sujeito de ser mais, é um interdito externo assumido internamente, psicologicamente.
Podemos aproximá-la do conceito de auto-obsessão segundo a escritora espírita Suely Schubert4 onde, no comportamento normótico, o indivíduo é obsessor de si mesmo, impondo-se uma ideia fixa, um comportamento cristalizado, optando por viver num círculo vicioso que é necrófilo em suas consequências.
Manifestada de maneira geral ou em suas versões específicas, estudadas por especialistas no tema, a normose provoca a atitude invejosa, a baixa autoestima, a ansiedade e outros tantos transtornos psicológicos.
A principal ferramenta profilática que temos é o conhecimento de si mesmo que leva à lucidez mental e ao refinamento do livre-arbítrio, de tal forma que o sujeito que se conhece pode ter um olhar mais acurado das possibilidades criativas de que é portador.
No campo da crença cabe o cultivo da liberdade de pensar que significa na definição kardeciana “livre exame, liberdade de consciência, fé raciocinada. Simboliza a emancipação intelectual, a independência moral, complemento da independência física.”5  O hábito de pensar livremente edifica a autonomia espiritual do indivíduo.
Nesse sentido, aquele que pensa livremente não se permite escravizar pelo pensamento alheio, pois, assume uma posição crítica, uma atitude filosófica no seu cotidiano e previne-se contra o automatismo nas ações.
Aliás, essa parece ser a questão central de nossa busca espiritual: assumir-se instituindo um significado maior ao que fazemos todos os dias, nas diversas áreas em que produzimos a nossa existência.
Somos seres transcendentes com sede de espiritualidade, não de uma espiritualidade rasa, presa a ritos e dogmas ininteligíveis (normose religiosa), mas de um nível mais profundo de realidade em que, como lembra o filósofo Mário Cortella6, passamos ver as coisas que fazemos não como um fim em si mesmas, mas, com razões para além do plano imediato.

 
1 NOVAES, Adenauer. Mito Pessoal e Destino Humano. Salvador: Fundação Lar Harmonia, 2005, p. 69
2 WEIL, Pierre. Normose: a patologia da normalidade. Pierre Weill, Jean-Yves Leloup, Roberto Crema. Campinas, SP: Verus Editora, 2003, p. 22.
3 Mateus 5:13.
4 SCHUBERT, Suely Caldas. Obsessão/desobsessão: profilaxia e terapêutica espíritas. 16a ed. Rio de Janeiro: FEB, 2004.
5 Revista Espírita, fevereiro de 1867 - Livre-Pensamento e Livre-Consciência.
6 CORTELLA, Mário Sérgio. Qual é a tua obra?: inquietações propositivas sobre gestão, liderança e ética.3.ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008, p. 13.


       


Um bom livro sobre Leis Morais
A Editora EME está lançando mais uma obra do jurista e escritor paranaense José Lázaro Boberg que tem se destacado como autor de importantes livros que fazem a conexão entre questões filosóficas e de Direito com a Doutrina Espírita. Entre suas obras, nessa área, destacam-se “Código Penal dos Espíritos” e “Leis de Deus, Eternas e Imutáveis”.
O novo livro de Boberg tem por título “Da Moral Social às Leis Morais” e seu lançamento, na cidade do autor, Jacarezinho/PR, se dará no Centro Espírita “João Batista”, às 20h do dia 24 deste mês de agosto.
Convidado para prefaciar “Da Moral Social às Leis Morais”, Milton Medran Moreira destacou: “Poucos autores fizeram interpretações assim tão ricas em torno, justamente, do aspecto mais revolucionário do espiritismo, aquele que enseja a aplicação prática do conhecimento como fator de transformação pessoal e coletiva”, acrescentando: “Pode-se mesmo afirmar que nenhum autor, antes de José Lázaro Boberg, analisou de forma tão sistemática e detalhada, cada uma das dez leis morais arroladas e comentadas na 3ª parte de O Livro dos Espíritos”.
O novo livro de Boberg poderá ser ótima fonte de consulta para grupos de estudos que desejem aprofundar o conhecimento das leis morais à luz do espiritismo.
A Editora EME atende pedidos pelo site www.editoraeme.com.br
ou vendas@editoraeme.com.br .

Conferências no CCEPA
Na tarde do dia 21 de agosto, como em todas as quartas-feiras, haverá palestra pública no Centro Cultural Espírita de Porto Alegre. O tema a ser desenvolvido pela psicóloga Maria da Graça Serpam (foto) será: “Obsessão e Transtornos Mentais”, às 15h.
O mesmo tema, com Maria da Graça, será abordado na primeira segunda-feira de setembro, dia 2, às 20h30, no auditório da Rua Botafogo 678. Entrada franca.








Lançamento do ESDE em 1978
Acabo de ler Opinião n.209, com a reportagem de capa “O ESDE socializou o estudo das obras básicas”, lembrando as ações de vocês no ano de 1978.
Lembrei-me, então, que, nessa ocasião eu presidia o Departamento de Mocidades do 1º C.R.E. (Conselho Regional Espírita da USE). Na época, apenas se iniciava o processo de redemocratização do Brasil. Em 1976 e 1977, os estudantes de São Paulo foram para as ruas pela primeira vez após a Ditadura Militar. E nós nos rebelávamos contra as tentativas de nos tutelarem ideologicamente. Tínhamos como um absurdo e uma forma de intervenção na autonomia juvenil.
Por que lembrar disso? Porque o desenvolvimento do Movimento Espírita segue paralelo ao desenvolvimento da sociedade na qual está inserido.
Paulo Cesar Fernandes – Santos, SP -  pcfernandes1951@bol.com.br - www.portalfernandes.blogspot.com - www.pourkardec.blogspot.com

Longevidade
O assunto enfocado na coluna Opinião em Tópicos de julho é muito interessante. Porém, a vida física eterna é e sempre será impossível. Desde a publicação de O Livro dos Espíritos e de outras obras básicas, no Século XIX, ficou exposto logicamente e de forma muito clara, que o ser humano jamais irá controlar e criar, pois que o Espírito, que somos nós mesmos, foi criação de Deus, a inteligência suprema. Com certeza, a longevidade aumentará, mas o homem jamais terá o controle total sobre isso, apenas Deus “a inteligência suprema e causa primária de todas as coisas”, segundo a questão n.1 de O Livro dos Espíritos.
Alberto Silva Morais Neto – Araraquara/SP
(Em Espiritbook- Rede Social Espiritualista, na Internet).