quinta-feira, 13 de dezembro de 2018
sábado, 24 de novembro de 2018
quarta-feira, 8 de novembro de 2017
OPINIÃO 257 - ANO XXIV - NOVEMBRO 2017
Vítimas da Intolerância
As chamadas “religiões de matriz
africana” têm sido, de longe, as maiores vítimas da intolerância religiosa no
Brasil. Escalada de atentados a adeptos e locais onde realizam seus cultos põe
em alerta os praticantes daquelas religiões.
No Rio, os piores índices
Matéria assinada pelo jornalista Danilo Molina, em Carta Capital de 10 de outubro último - https://www.cartacapital.com.br/diversidade/a-intolerancia-religiosa-nao-vai-calar-os-nossos-tambores
- traz dados preocupantes sobre a intolerância sofrida por pessoas e templos
ligados às religiões de matriz africana, especialmente umbanda e candomblé. Só
este ano, no Rio de Janeiro, foram contabilizados, até o final de setembro, 79
ataques a terreiros ou adeptos daquelas religiões.
Na Baixada Fluminense, onde têm
sido mais frequentes esses ataques, um vídeo que ganhou repercussão nas redes
sociais e foi exibido no programa Fantástico,
da Rede Globo, mostra uma “mãe de santo” sendo intimidada por invasores.
Armados, eles a obrigam a quebrar imagens e objetos litúrgicos, ao mesmo tempo
em que proclamam: “o sangue de Jesus tem poder”, “Da próxima vez, eu mato”.
Estatísticas atestam que do
universo de registros de casos policiais de intolerância religiosa, 25% têm
como vítimas pessoas ou entidades ligadas aos cultos afro. Um dado alarmante,
considerando-se que o censo de 2010 mostra que apenas 1,6% da população se diz
adepta daquelas religiões.
A matéria de Carta Capital traz dados relativos também a outros Estados, como a
Bahia, que, embora guarde histórica tradição ligada ao candomblé e às práticas
religiosas africanas, é cenário de crescentes casos de intolerância. Também há
dados sobre São Paulo e Santa Catarina.
O espiritismo
A história do espiritismo no
Brasil registra inúmeros casos de intolerância de que foi vítima. O preconceito
era inspirado pelo próprio Estado, na medida em que, no Brasil Império, o
catolicismo era a religião oficial, e o espiritismo aqui entrou como uma nova
religião. Até nos primórdios da República, o Código Penal de 1890 definia a
“prática do espiritismo” como crime, punível com prisão e multa. O artigo 157
daquele diploma legal, que vigorou nas primeiras décadas da República, inseria
o espiritismo como similar às práticas de “magia, sortilégio, talismãs e
cartomancia”.
Mesmo com o avanço da compreensão
do verdadeiro caráter do espiritismo, graças à posição sustentada por muitos de
seus segmentos no sentido de que não se trata de religião, mas de uma ciência
de consequências filosóficas, o espiritismo ainda sofre o preconceito,
especialmente de parte de alguns setores religiosos que o veem como uma heresia
a ser combatida ou como “obra do demônio”.
Na secção “Registros da Grande
Imprensa” deste jornal (pag.5), consignamos a repercussão na imprensa
brasileira de um possível atentado ao túmulo do médium espírita Francisco
Cândido Xavier.
Intolerância, Religião e Laicismo
Intolerância religiosa é fenômeno
presente na história de todas as religiões monoteístas e salvacionistas. Quando
se crê e se apregoa que um deus e uma religião, somente eles, são detentores de
toda a verdade e da missão exclusiva de salvar o ser e a humanidade, tudo passa
a ser válido no presumível combate ao erro e na busca da salvação das almas.
O pluralismo religioso, adotado
pelo Estado e pelas sociedades democráticas, ameniza os riscos da intolerância,
mas com ela nem sempre consegue acabar. Mesmo no cenário das democracias,
segmentos mais ou menos numerosos e, às vezes, com forte respaldo político,
alimentam aqueles dogmas exclusivistas e os querem impor a todos os demais. A
religião se reveste, então, de um caráter opressor, desumano e irracional.
A História tem demonstrado que o
laicismo é o grande antídoto contra a intolerância religiosa. Laicismo não é
sinônimo de materialismo. Para nós, espíritas laicos e livres-pensadores, o
laicismo admite a espiritualidade e com ela se harmoniza.
Já, espiritualidade não é sinônimo de
religião. Diferente desta, abre campo a uma visão plural da vida, onde espírito
e matéria se interligam, aquele como consciência condutora do progresso do ser
e esta como instrumento indispensável à consecução de tal objetivo.
A espiritualidade não tem verdades prontas e
acabadas, mas permite a cada ser e a cada agrupamento humano, aproximações com
a verdade, compatíveis com sua história, sua cultura, seu estágio evolutivo e
suas necessidades em cada etapa.
No dia em que cultivarmos mais
espiritualidade e nos libertarmos dos dogmatismos religiosos, estaremos,
concomitantemente, nos libertando dessa prática tão contrária ao humanismo: a
intolerância religiosa. (A Redação)
“Quando
os homens dessa categoria forem bastante numerosos, para formarem uma maioria
imponente, será a eles que a massa confiará os seus interesses”. (Allan
Kardec – “As Aristocracias” – “Obras Póstumas”)
Democracia é conquista que
pressupõe duras experiências. Que o digam os brasileiros, mesmo em momentos de
tanto desencanto com seus políticos. Mas, democracia não se faz sem política e
sem que prática política se submeta, pela contribuição de todos, a um constante
aprimoramento, mediante exatamente seu efetivo exercício.
É bom que se recorde essa lição
primordial legada pela história da democracia, neste momento em que algumas
vozes se levantam pregando a ruptura do estado de direito e defendendo que, ao
invés deste, a supremacia da força, outra vez, se instaure na condução dos
destinos da nação.
Há sempre um retrocesso quando a
força substitui o direito. Mesmo se pressupondo eventuais boas intenções dos
candidatos ao uso da força. Boas intenções e arroubos moralistas, quando não
submetidos ao sistema de freios e contrapesos do estado de direito,
invariavelmente descambam para o arbítrio, para o desmando, para a violação dos
direitos e garantias individuais arduamente conquistados. Todas as ditaduras da
história comprovaram isso.
“Todo o poder emana do povo e em
seu nome será exercido” é norma assente hoje nas Cartas Magnas de todos os
povos livres. Sua razão é translúcida e nasce de um princípio que, inclusive, é
base doutrinária espírita: o de que a evolução e o progresso são frutos da
experiência. Ao povo, em seu processo de evolução histórica, deve-se sempre
conceder o direito de errar e de acertar tantas vezes quantas necessárias à
consecução dos melhores fins do Estado, tais como: o bem-estar, a paz, a
justiça social, a felicidade material e espiritual de seus cidadãos.
Na visão filosófica espírita,
dois fatores devem se conjugar para que os integrantes de um povo, vocacionados
para tal, ocupem posições de poder sobre seus concidadãos: inteligência e
moralidade. Desenvolver, no seio de uma comunidade, esses dois fatores,
democratizando os meios de aquisição do saber que conduz à virtude, será o
caminho para se chegar àquela que Allan Kardec qualificou como a suprema etapa
do desenvolvimento sociocultural de um povo.
Um povo verdadeiramente educado
saberá identificar, em meio à “maioria imponente” de seus concidadãos
detentores de sabedoria e probidade, aqueles a quem, democraticamente,
“confiará seus interesses”.
Mas, só a educação pode levar a
esse estágio. Só a educação nos há de livrar definitivamente dos riscos da ditadura,
com a qual alguns acenam, sempre que se agudizam, como agora, nossas crises
políticas.
Laicidade do ensino em escolas públicas
Prezado Salomão. Agradeço a
remessa do jornal Opinião (nº 256,
outubro/2017), contendo várias abordagens interessantes, a começar pelo
Editorial sobre o ensino laico. Abraços.
Cesar Perri – São Paulo/SP. (mensagem enviada por e-mail
ao presidente do CCEPA, Salomão Jacob Benchaya).
Temas do Opinião
Fiquei honrado com a publicação
de alguns comentários meus (Opinião do Leitor, edição 256) sobre reencarnação e
o papel desempenhado por Karl Muller. Um detalhe curioso que poucos conhecem é
que Muller viveu em Caracas por uns três anos, e, então, entrou em contato com
alguns espíritas venezuelanos, entre eles o saudoso Pedro Barboza de la Torre
(Presidente da CEPA de 1990 a 1993).
Jon Aizpúrua – Caracas, Venezuela.
O Evangelho de Maria Madalena
Agradeço pela divulgação de meu
livro O Evangelho de Maria Madalena e
pelos comentários sempre lúcidos e racionais do editor desse jornal, Milton
Medran (Opinião em Tópicos, edição 255). A obra está alcançando muito sucesso,
com divulgação em todo o Brasil.José Lázaro Boberg – Jacarezinho/PR.
Identidade
Os espíritas venezuelanos
apreciamos muito o conteúdo e a qualidade desse jornal. Felicitamos a equipe
pelo grande trabalho que realizam em prol da difusão do espiritismo laico,
kardecista, livre-pensador, progressista e humanista. Sentimo-nos plenamente
identificados e sensibilizados com as reflexões expostas em cada edição.
Adiante sempre!
Yolanda Clavijo – Caracas, Venezuela.
A nova estética religiosa
De repente, a religião, antes
solene e sisuda, descobriu que podia ser descontraída e festiva. E com danças,
cânticos e mil recursos de mis-en-scène,
atrai multidões. Gente que pula, canta, dança, chora e ri em barulhentos
cultos.
Padres e pastores, com mensagens
ligeiramente distintas, por conta de suas divergências doutrinárias, são os
astros que animam essa nova estética religiosa. Alguns deles projetam-se como
grandes artistas ou hábeis comunicadores. São requisitados por programas de
televisão que tratam de comportamento ou exploram a área do entretenimento.
Essa nova safra de pregadores pop tem
espaço sempre assegurado nas revistas que falam de novelas, shows e gente
famosa.
Estarei exagerando ou este é o retrato da
religião que subiste entre nós, nestas primeiras décadas do terceiro milênio da
era cristã?
Buscando as origens
Se formos buscar as origens dessa
tendência nos arraiais da fé, parece razoável admitir tenha ela nascido nos
Estados Unidos, com o boom do
pentecostalismo evangélico, um modelo que promoveu o sincretismo dos ritos e
práticas animistas, trazidos da África pelos escravos, com as tradições
primitivas cristãs inspiradas no Pentecostes.
Aqui, o chamado neopentecostalismo, versão
tupiniquim do evangelismo americano, substituiu os negro spirituals das igrejas batistas por canções sertanejas.
Misturou-as com rocks, pagodes, hinos e gestos de louvor ao Senhor Jesus que,
segundo a pregação, credenciam seus fieis ao recebimento de bênçãos de saúde,
prosperidade e sorte no amor.
Criou-se, assim, um modelo de culto festivo e
ruidoso que se espalhou por todo o país, das grandes metrópoles aos povoados
interioranos. Daqui o modelo é exportado para muitos países latino americanos,
com crescente sucesso.
A virada católica
A Igreja Católica, antes tão
ciosa de seus clássicos rituais herdados das pompas romanas, não ficou imune a
essa onda de popularização. Foi o jeito encontrado para sobreviver, diante da
nova estética religiosa imposta pelo evangelismo. A virada começou há cerca de
55 anos com o Concílio Vaticano II. Introduziram-se mudanças significativas nas
liturgias católicas. Do hermetismo do latim com fórmulas que eram repetidas de
costas para o público e respondidas mecanicamente por um coroinha compenetrado,
a práticas mais compatíveis com a alma de cada povo. Do canto gregoriano a canções populares,
compostas e cantadas no meio do público por padres pop, sem batina, sem tonsura, trajando moda fashion ou casual, quando
não vestidos de caubóis.
O laicismo europeu e a sobrevida
religiosa das Américas
Sempre que vejo um culto
religioso, seja ele revestido dos padrões clássicos que subsistem em lugares
como o Vaticano, ou nessas versões populares, uma pergunta invariavelmente me
assalta: até que ponto o ritual (meio) pode conduzir à transformação moral do
indivíduo (fim)? Depois de um culto, seus participantes tornam-se mais
solidários com seus semelhantes? Mais empenhados na erradicação de suas
imperfeições e na aquisição de virtudes? Mais estimulados, enfim, à própria transformação
pessoal?
O rito, a liturgia, as fórmulas
exteriores, que despertam emoções, contribuem, de algum modo, para a
espiritualização do ser? E será
suficiente mudar a linguagem? Numa palavra: a estética do culto exterior leva à
transformação ética interior?
Os europeus, cada vez mais
distanciados da religião, estão concluindo que não. Que o avanço ético da
humanidade independe das práticas religiosas.
É de se perguntar, por fim: essa
sobrevida da religião, por aqui, estará, acaso, nos fazendo melhores que eles?
Os Espíritas e as Colônias Espirituais (I)
Há uma interessante e velha
divisão entre os espíritas a respeito da existência de vida social e de
colônias no mundo dos espíritos. Com a publicação da obra “Nosso Lar”, de André
Luiz, em 1943, psicografada pelo Chico Xavier, descrevendo a vida organizada e
as edificações na dimensão extrafísica, estabeleceu-se a divergência. O
movimento espírita, de maneira geral, assimilou a ideia, tal a confiabilidade
do médium e a chancela da FEB. Essa concepção ficou tão popularizada que, no
imaginário religioso, “Nosso Lar” tornou-se sucedâneo do Céu, tanto quanto o
Umbral equivale ao Inferno católico.
Os que se opõem à narrativa de
André Luiz, posteriormente, acrescida de livros de outros espíritos e médiuns,
argumentam que Kardec não tratou disso na codificação onde não há referência a
cidades espirituais, muralhas, hospitais, templos, etc. Há vagas referências ao
lugar, ao espaço onde os espíritos habitam. A vida espiritual seria uma vida de
reflexões, totalmente divorciada de formas e impressões do mundo físico. Alguns
opositores chegam a afirmar tratar-se de uma fantasia anímica do médium ou mais
uma influência da tradição católica onde, também, se encontram descrições de
esferas espirituais.
Sabe-se que a originalidade desse
tipo de informação não é de André Luiz. O sábio e vidente místico sueco Emanuel
Swedenborg (1688-1772), em suas incursões no mundo espiritual, fez descrições
pormenorizadas sobre a vida social, paisagens e construções ali existentes.
Anteriormente, a obra “Vida dos
Santos Padres de Mérida” datada do século VII, cita o caso do menino Augusto
que, antes de morrer, enfermo, afirmou que esteve num lugar maravilhoso,
repleto de flores perfumadas, rosas, lírios, grama verde, coroas de pedras
preciosas, véus de seda e onde soprava uma leve brisa perfumada. Viu também
santos resplandecentes e participou de um banquete, além de outras descrições.
Outra visão do além, na Alemanha
do século XII, é a produzida pela monja Hildegarda de Bingen, nascida em 1098,
cujas visões ocorreram desde cedo. Em 1141, uma voz ordenou-lhe escrever tudo o
que lhe fosse dito e mostrado. Em uma de suas visões, conforme sua obra
“Scivias”, ela descreve uma cidade quadrada, numerosos edifícios, igrejas,
palácios, colunas e casas comuns.
Em obra literária de 1148,
conhecida como “A Visão de Túndalo”, o monge Marcos descreve uma experiência
fora do corpo do personagem Túndalo que, na companhia de um anjo, visita
regiões de sofrimento e de felicidade. Nesse desdobramento vê lírios, rosas e
outras plantas perfumadas e habitações para os que defenderam a Igreja. À
semelhança da “Divina Comédia”, poema que Dante Alighieri escreveria, mais
tarde, no século XIV.
No próximo número, vou citar
outros relatos favoráveis à existência das tais colônias espirituais.
“O que é a morte? No que consiste esse fenômeno, que muitos
julgam ser o aniquilamento da vida? Como se produz ela?
Quem poderá responder a estas terríveis interrogações?
Qual a ciência, a filosofia, a religião capaz de enfrentar
essa questão? Qual nos dá, positivamente, a solução para este mistério?
O Espiritismo, mas tão somente o Espiritismo, exclusivamente
o Espiritismo!”
(Do livro “A Vida no
Outro Mundo” – Casa Editora O Clarim.)
Jacira e Mauro participam
de Feira Cultural da USE
| Jacira expondo no evento |
A presidente da CEPA, Jacira Jacinto da Silva e Mauro de Mesquita Spínola, diretor
administrativo da entidade, participaram, em 7 de outubro último, da 15ª
FEICULTE – Feira Cultural Espírita 2017, evento da União das Sociedades
Espíritas – USE – Vila Maria, São Paulo. O tema central, em homenagem aos 160
anos de O Livro dos Espíritos, foi “Livros mudam pessoas. Pessoas mudam o
mundo”.
O site da USE Vila Maria - http://usevilamaria.wixsite.com/usevilamaria
- assim noticiou a participação de ambos:
“Levando em conta o tema central,
a juíza Jacira da Silva – Presidente da CEPA – fez uma brilhante palestra tendo
como tema ‘Sociedade, instrui-vos – o papel da educação para uma sociedade
melhor’. Os presentes foram convidados a refletir sobre a necessidade da
educação para termos uma sociedade mais justa e igualitária e de como a
Doutrina Espírita tem a capacidade de auxiliar nesse processo a partir de sua
mensagem esclarecedora”.
“Mauro Spínola, professor da USP
e também integrante da CEPA, brindou o público com uma exposição de altíssimo
nível sobre ‘O Livro dos Espíritos, há 160 anos mudando pessoas’, como
homenagem às 16 décadas da publicação do livro que deu origem ao Espiritismo”.
CEPABrasil elege nova Diretoria
A Associação Brasileira de
Delegados e Amigos da CEPA – CEPABrasil – realiza, durante o XV Simpósio
Brasileiro do Pensamento Espírita (Santos/SP 2 a 4 de novembro), Assembleia
Geral para eleger sua nova Diretoria Administrativa.
Por duas gestões seguidas, Homero Ward da Rosa (Pelotas/RS), como
presidente, e Néventon Vargas (João
Pessoa/PB), como vice, dirigiram a instituição que reúne amigos e pessoas
vinculadas ao pensamento da CEPA – Associação Espírita Internacional -, no
Brasil. A entidade promove atividades culturais espíritas em todo o território
brasileiro (fóruns, encontros de debate, etc.), estimulando o estudo da
doutrina espírita numa perspectiva progressista e livre-pensadora.
Na próxima edição, noticiaremos a
composição de sua nova Diretoria Administrativa.
“Le Journal Spirite” em espanhol
Recebemos de Jacques Peccatte, presidente do Cercle Spirite Allan Kardec (Nancy,
França), a edição número 110 de Le
Journal Spirite, em espanhol.
Com matéria de capa “Gustave
Geley, um precursor científico do espiritismo”, a bem editada revista espírita
francesa traça amplo relato da vida e obra do médico francês que fundou e
dirigiu o Instituto de Metapsíquica Internacional, além de trazer muitas outras
matérias sobre as relações ciência/espiritismo e sobre as atividades do Cercle.
Os interessados em receber Le Journal Spirite número 110 em
espanhol, por e-mail, podem entrar em contato com o editor deste jornal,
e-mail: medran@via-rs.net . Ali também
há informações de como assinar a revista em sua edição física, no original em
francês.
Evento para provocar “dúvidas e
reflexões”
Cumprida a programação da 18ª Semana Espírita de Osório (RS), o
presidente da S.E. Amor e Caridade, Jerri
Almeida, assim se manifestou pelas redes sociais:
“Abordando os 160 anos de O Livro dos Espíritos, a 18ª Semana
Espírita de Osório, com seus palestrantes convidados, buscou oferecer e
aprofundar conhecimentos sobre as quatro partes dessa obra fundamental do
Espiritismo. Esperamos que os conteúdos apresentados e discutidos tenham gerado
reflexões e dúvidas, para que o entusiasmo e os questionamentos gerem a
continuidade do estudo por parte de todos os que assim desejarem.
Agradecemos a contribuição dos palestrantes
convidados: Moacir Costa de Araújo Lima, Milton Rubens Medran Moreira, Gladis
Pedersen de Oliveira e Arivelto Fialho, e ao público que prestigiou o evento”.
O Diretor de Comunicação Social
do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, Milton Medran Moreira (foto), abordou, na noite de 25/10, o tema “O
Ser: sua imortalidade e comunicabilidade”.
Prof. Moacir faz palestra no CCEPA
Na tarde de 25/10, o prof. Moacir Costa de Araújo Lima proferiu
palestra no CCEPA sobre o tema “Da heteronomia à autonomia: um conceito
espírita de liberdade” para um público formado, predominantemente, por
integrantes dos grupos de estudo da Casa. Na sequência, autografou livros de
sua autoria, entre os quais o último lançamento “Corta a corda: um voo para a
liberdade”.
Atentado ao túmulo de Chico Xavier
Repercutiu em toda a imprensa
brasileira, dia 2 de outubro último, a notícia de um possível atentado ao
túmulo do médium espírita Chico Xavier.
O fato teria acontecido no sábado anterior (30/9). A Folha de São Paulo assim noticiou, em reportagem de João Pedro
Pitombo:
“O vidro que protege o busto do
médium Chico Xavier foi alvo de pedradas na manhã deste sábado (30) em Uberaba
(418 km de Belo Horizonte).
O monumento fica no cemitério de
Uberaba, ao lado do túmulo onde o médium foi enterrado em 2002. O vidro, que é
blindado, ficou trincado com as pedradas”.
A reportagem ouviu o filho do
médium, Higino Reis que disse não
acreditar tenha sido “só vandalismo”. “De alguma forma queriam atingi-lo”,
afirmou Higino que atribui o fato a uma onda de intolerância religiosa que
acontece na cidade, onde, na mesma semana, três terreiros de umbanda tinham
sido atacados.
CEPABrasil divulga Nota de Repúdio
Tão logo divulgada a notícia do
possível atentado ao monumento de Chico Xavier, a Associação Brasileira de
Delegados e Amigos da CEPA – CEPABrasil – em nota firmada por seu presidente Homero Ward da Rosa (foto?), repudiou o ato, ressaltando: “É grave
e preocupante o número de denúncias diárias sobre manifestações de intolerância
de todo o gênero em nosso País, acirrando o ódio e a violência”.
A manifestação, cuja íntegra pode
ser lida em http://cepabrasil.blogspot.com.br/,
salienta: “A CEPABrasil, como associação espírita laica, livre-pensadora e
humanista repudia firmemente todo o tipo de intolerância e desrespeito movidos
pelo fanatismo, fundamentalismo, racismo, sexismo, xenofobia ou quaisquer
outras visões preconceituosas ou estereotipadas.”
CCEPA – ‘O Jeito da Casa”
A revista digital “GentE
Espírita”, editada e distribuída pela Agência KPC (João Pessoa/PB), em sua
edição de setembro/outubro 2017 publica entrevista com Salomão Jacob Benchaya, presidente do Centro Cultural Espírita, sob
o título de “o Jeito da Casa”. Na matéria, Salomão enfatiza as características
do CCEPA que fogem do conhecido padrão “socorrista” ou de “casa de oração” ou
de passes, marcantes no movimento espírita brasileiro.
Segundo Salomão, ninguém, ali, “é
chamado de ‘irmão’, mas “a cordialidade é marca dos relacionamentos”.
Na mesma revista – edição nº 9 –
pode-se ler uma reportagem sobre os 13 anos da ASSEPE – Associação de Estudos e
Pesquisas Espíritas de João Pessoa, outra entidade filiada à CEPA e presidida
por Néventon Vargas, onde é
destacada a história e os objetivos de um pequeno grupo de espíritas locais
dedicados ao estudo e à pesquisa espírita.
“GentE Espírita” tem como
editora-chefe Carmen de Barros Paiva e
como jornalista responsável Carlos
Antônio de Barros, e pode ser acessada em:
Em 2018, o III Encontro Espírita Ibero Americano
Pela terceira vez, a Espanha
sediará um encontro de espíritas europeus e pan-americanos, organizado
conjuntamente pela CEPA – Associação Espírita Internacional, e AIPE –
Associação Internacional para o Progresso do Espiritismo. É o III
Encontro Espírita Íbero-Americano, que terá como sede a cidade de Vigo,
na região da Galícia, entre 28 de abril a 1º de maio.
O evento terá como tema central “Cultura Espírita – Uma contribuição ao
progresso da humanidade” e já tem local definido: o Hotel Tryp Los Galeones
4 (Av. Madrid, 21, Vigo).
Reservas podem ser feitas para maxi@viajescalifal.com e para maiores
informações, os interessados podem entrar em contato com o coordenador da
comissão organizadora, Juan Antonio
Torrijo, e-mail jtorrijolatorre@gmail.com
Néventon
Vargas, Militar da reserva, graduado em Engenharia Civil.
Presidente da ASSEPE – Associação de Estudos e Pesquisas Espíritas de João
Pessoa. João Pessoa/PB.
“Estar
diante das próprias contradições e conflitos nunca é fácil, mas permite um
olhar mais empático, mais humano, sem perder de vista a produção de um
conhecimento sistematizado. É retomar a relação cognição e afetividade/subjetividade.” (VARGAS,
2014) (1)
Ao ler a frase acima,
imediatamente me reportei às reflexões que faço sobre as próprias contradições
e esforços que se produzem, na ASSEPE (2), para manter a coerência com as
ideias ali defendidas. Qualquer dos atributos com os quais se autodenomina (espírita,
pluralista, progressista e livre-pensadora) é de extrema complexidade e, mesmo
a adjetivação de “espírita” ou o significado de “espiritismo”, não possuem
unanimidade fora ou dentro de cada uma das correntes existentes hoje no
movimento espírita global e, especialmente, no brasileiro. Cada uma
considera-se a “autêntica”! Aliás, algumas nem reconhecem as outras como
“espíritas”.
Ser espírita, entretanto, não
requer o reconhecimento de qualquer entidade externa. É convicção íntima,
embora esteja cada vez mais difícil para alguns identificarem-se com o perfil
extremamente religioso da maioria das pessoas e instituições espíritas.
Poder-se-ia dizer que o
verdadeiro espírita é o que segue Allan Kardec, já que ele é o fundador do
Espiritismo, com o lançamento de O Livro
dos Espíritos em 1857. Mas, seguir ao pé da letra tudo o que está em sua
obra seria um fundamentalismo incoerente com sua postura ao longo da sua
trajetória, além de ser o oposto do que ele mesmo recomendou.
Dilemas semelhantes fazem
aumentar gradativamente o número de espíritas que rejeitam a adjetivação de
cristão, uma vez que, nas palavras de Herculano Pires (foto), “há um abismo entre o
Cristo e o Cristianismo, tão grande quanto o abismo existente entre Jesus de
Nazaré, filho de José e Maria, nascido em Nazaré, na Galileia, e Jesus Cristo,
nascido da Constelação da Virgem, na Cidade do Rei Davi em Belém da Judéia,
segundo o mito hebraico do Messias.”(3).
Por mais que Herculano tenha
defendido uma “Revisão do Cristianismo”, é forçoso reconhecer que o mito do
Salvador venceu sua “batalha” com o Jesus histórico e, ao ser o indivíduo
adjetivado como “cristão”, o reconhecimento é àquele e não a este último. Por essa mesma razão as religiões não
reconhecem como cristãos os espíritas.
Num momento delicado da vida
brasileira, em que o Estado tende ao teocraticismo e recrudescem em vários
pontos do país manifestações de intolerância religiosa, multiplicam-se as
responsabilidades dos espíritas laicos. Estes, de forma independente e em nome
da coerência, têm a obrigação de refletir sobre sua responsabilidade no combate
a todos os tipos de intolerância e no firme posicionamento na defesa dos
direitos dos cidadãos, sejam religiosos ou não, deístas ou ateus,
espiritualistas ou materialistas, etc.”
O pluralismo e o livre-pensar se
impõem diante da diversidade, em tácita aceitação do contraditório, de tese e
antítese, como instrumento de cognição, em cujo processo dialético é
indispensável o componente afetivo para permitir a perenidade das complexas
relações humanas.
Isto não requer abdicação de
nossos princípios. Ao contrário, cada vez mais devemos expor nossas ideias sem
nos importar com os rótulos que, porventura, venhamos a receber. Mas muito mais
do que isso, precisamos todos nos libertar das amarras do tradicionalismo
religioso arraigado em nossa consciência profunda. Urge abandonar
definitivamente a leitura teológica das obras básicas do espiritismo. Faça-se
isso sem temores injustificados, estimulando-se, assim, o livre-pensamento,
para, enfim, processarmos uma revisão em nós próprios, calcados na ciência e na
filosofia. Dessa forma, estaremos abrindo caminhos para contribuirmos, em
alguma medida, para o progresso do ideário espírita.
Melhor avançarmos, confrontando o
contraditório e arriscando cometer erros, do que nos condenarmos à eterna
estagnação.
1 – VARGAS, Geovana Camargo. Produção de
sentidos e significados por professores em formação continuada. Tese de
doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia Cognitiva.
Universidade Federal de Pernambuco. Recife, 2014.
2 – Associação de Estudos e Pesquisas Espíritas de
João Pessoa, entidade que se define como instituição espírita, pluralista,
progressista e livre-pensadora – www.assepe.org.br .
3 – Do livro “Revisão do Cristianismo” – J.Herculano
Pires – Introdução – Editora Paideia, 1977.
segunda-feira, 9 de outubro de 2017
OPINIÃO 256 - ANO XXIV - OUTUBRO 2017
(e a importância!) de Kardec
No mês em que se completam 213 anos do nascimento (Lyon, França, 3/10/1804) de Hyppolyte Léon Denizard Rivail, que passaria a ser conhecido sob o pseudônimo de Allan Kardec, algumas anotações sobre vida e obra desse personagem cuja história vem ganhando melhor conhecimento e mais profunda análise.
Infância em Lyon?
Se você já leu que Rivail passou sua infância na cidade de
Lyon, de onde era sua família, pode ir esquecendo. Até aqui, seus biógrafos
mais conhecidos tinham isso como certo. Henri
Sausse, em famosa conferência, depois transformada em livro, pronunciada em
Lyon, em 31 de março de 1896, quando os espíritas da cidade relembravam os 27
anos da desencarnação de Kardec, registrou: “Rivail fez em Lyon seus primeiros
estudos e completou em seguida sua bagagem
escolar em Yverdum (Suíça), com o célebre professor Pestlozzi..”. A
informação é abonada, também, por Zêus
Wantuil e Francisco Thiesen, na
obra em três volumes Allan Kardec –
Pesquisa Bibliográfica e Ensaios de Interpretação (FEB -1979), dando como
fonte a biografia feita por Sausse.
A festejada obra “Revolução Espírita – A teoria esquecida de
Allan Kardec” (Editora MAAT/2016), do escritor paulista Paulo Henrique de Figueiredo, minucioso
trabalho de pesquisa sobre a vida e, principalmente, a obra e o legado de
Kardec, apurou que a família de Rivail era, na verdade, de Bourg-en-Bresse, a
cerca de 80 quilômetros de Lyon. Kardec nasceu em Lyon apenas pela
circunstância de ali existir uma estação de águas minerais, recomendada para a
saúde fragilizada de sua mãe, Jeanne,
grávida de Rivail, depois de haver perdido outros dois filhos, em
circunstâncias muito dolorosas. Figueiredo classifica como “falsa” a informação
presente na maioria das biografias de Kardec de que teria ele passado a
infância em Lyon. Os autores foram “levados ao erro por acreditarem que o local
de seu nascimento era a residência de família”.
Resgatar Kardec é o desafio espírita de
hoje
O detalhe de a infância de Kardec
não ter se passado em Lyon pode ser de menor significado. O livro, mais do que
tudo, resgata aspectos culturais do tempo e da vida de Allan Kardec,
indispensáveis à correta valorização do legado espírita produzido por aquele
valoroso discípulo de Pestalozzi. Do pedagogo suíço, Rivail hauriu como
transmitir aos educandos “a capacidade libertadora de aprender pelo próprio
esforço”, ou seja, o sentido da “autonomia”. Seguiu construindo suas ideias à
luz do pensamento de Rousseau, de Kant, de Victor Cousin e de todos os
pensadores que o precederam com o “espiritualismo racional”, cenário cultural
que possibilitou o surgimento do espiritismo.
Hoje, quando o conhecimento
acadêmico terminou aprisionado por um incrível reducionismo materialista, obras
como “Revolução Espírita” estimulam os pensadores espíritas da atualidade a um
resgate coletivo dos ricos aspectos culturais que propiciaram o nascimento ao
espiritismo. No âmbito da CEPA essa tem sido uma preocupação constante. Foi
esse, aliás, o tom do VIII Fórum do Livre
Pensar Espírita, promoção conjunta da CEPA Brasil e do Teatro Espírita
Leopoldo Machado, TELMA, em maio último, em Salvador/BA, que teve, justamente,
como um de seus expositores Paulo
Henrique Figueiredo. A foto abaixo mostra o autor de “Revolução Espírita”
(1º, a partir da esquerda), juntamente com André
Luiz Peixinho, Wilson Garcia e Milton Medran Moreira, após mesa
redonda compartilhada pelos quatro.
Ao tempo de Kardec, como mostra o escritor
Paulo Henrique de Figueiredo, subsistiam duas interpretações acerca do homem,
da vida e do universo: a do dogmatismo religioso, que já não podia se sustentar
perante o conhecimento moderno; e a do materialismo, combatente ardoroso de
todas as ideias religiosas. Pode-se afirmar que esse ambiente de extremismos
radicais, graças a um processo dialético, acabou por gerar a síntese do
espiritualismo racional, corrente que propiciou o advento do espiritismo.
Como fruto da razão, o
espiritismo, não poderia se apresentar como religião. Esta reproduzia os mitos
antigos da pré-ciência e, no campo da ética, aferrara-se a uma moral
conservadora, autoritária, contrária e contestadora da autonomia conquistada
pela modernidade. Ainda que fosse possível ler claramente na proposta de seu
fundador o caráter laico do espiritismo, correntes majoritárias, desavisadas ou
desatentas, terminaram por fazer dele uma nova religião.
É tempo de se corrigir esse
desvio de rota. É, aliás, o único caminho possível de conduzir o espiritismo ao
diálogo com a ciência e com a filosofia, como era propósito de seu ilustre
fundador, aniversariante do mês. Mesmo que se credite ao caráter pacifista e
tolerante do espiritismo, a ausência, até aqui, de um esforço maior nesse
sentido, ele agora é inadiável, ante a clara falência das religiões de nosso
tempo e a total incompatibilidade de seus dogmas com o conhecimento moderno.
Resgatar o pensamento de Kardec e
inseri-lo na cultura de nosso tempo, com as atualizações que ele próprio nos
recomendou fazer, passa a ser, assim, a melhor homenagem que lhe podemos
prestar. (A Redação)
Uma religião não pode pretender apropriar-se do espaço público para
propagar a sua fé. Ministro Luís Roberto Barroso, do STF.
O Supremo Tribunal Federal perdeu
uma grande oportunidade de referendar o caráter laico do Estado brasileiro. A
Procuradoria-Geral da República, mediante ação direta de inconstitucionalidade,
questionou dispositivo da Lei de Diretrizes e Bases da Educação que permite o
ensino obrigatório, embora de matrícula facultativa, do ensino religioso nas
escolas públicas. Por interpretação que se tem dado àquela lei, ministros de
confissões religiosas passaram a ministrar ensino confessional de religião nas
escolas públicas. Para a PGR atenta contra a laicidade do Estado a docência por
ministros de uma religião de seus dogmas em escolas públicas. Pretendia
substituir o ensino confessional por conteúdos históricos das religiões,
ministrados por professores públicos.
Apesar da forma brilhante com que
o relator da ADI, Ministro Luís Roberto Barroso, acolhia, em seu voto, a
pretensão do Ministério Público Federal, a ação acabou julgada improcedente
pelo escore final de 5 a 6.
Mas fica para a História o lúcido
voto de Barroso para quem ”cada família e
cada igreja podem expor seus dogmas e suas crenças para seus filhos e seus
fiéis sem nenhum tipo de embaraço. Da mesma forma, as escolas privadas podem
estar ligadas a qualquer confissão religiosa, o que igualmente é legítimo. Mas
não a escola pública. A escola pública fala para o filho de todos, e não para
os filhos dos católicos, dos judeus, dos protestantes. E ela fala para todos os
fiéis, portanto uma religião não pode pretender apropriar-se do espaço público
para propagar sua fé”.
Acompanharam o voto do relator os
ministros Luiz Fux, Rosa Weber, Marco Aurélio e Celso Mello. Este, o decano do
STF, apresentou um verdadeiro libelo contra o ensino confessional nas escolas
públicas e referendando o caráter laico do Estado.
Entretanto, falaram mais alto do
que a moderna razão laica e livre-pensadora vetustas tradições que teimam em
manter amarrados entre si Estado e religião. Ministros que se posicionaram
contra o voto do relator, reconheça-se, não tiveram qualquer dificuldade em encontrar
em velhas e surradas tradições que, antanho, se fizeram leis ou se converteram
em doutrina e jurisprudência, razões para fundamentar seus votos.
Convalidou-se, inclusive, acordo firmado entre a Santa Sé e o Brasil, no qual o
estado brasileiro se compromete com “o ensino religioso católico e de outras
confissões religiosas” nas escolas públicas.
Onde se poderia avançar, por força de decisão
soberana da mais alta Corte do país, retrocedeu-se.
É verdade que a lei não obriga o
aluno a assistir às aulas de religião, cuja matrícula é facultativa. Mas, como
se infere do voto de Barroso, a simples presença de ministro de uma entre
tantas religiões em escola pública, ensinando seus dogmas, implica em
privilégio atentatório à liberdade de crer ou de deixar de crer. Questões que
dizem com crenças devem ser construídas autonomamente no íntimo do educando. A
religião, ainda que respeitáveis seus propósitos, há de se circunscrever ao
espaço privado do lar ou dos templos. A educação, a partir de pressupostos de validade
universal, deve ter seus parâmetros regulados e fiscalizados pelo Estado. Só
assim se há de tornar efetivo o princípio vigente nas Constituições de todos os
países democráticos, inclusive o nosso.
A separação entre Estado e religião (ou
religiões, que, cá, proliferam tentando teocratizar o Estado), é fruto do
Iluminismo, conquista que não pode sofrer retrocessos. Aqui, sofreu, com o
julgamento da ADI 4439.
Temas de Opinião
Nós do TELMA queremos agradecer
aos editores de OPINIÃO do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre que sempre
nos encaminham exemplares do jornal para distribuição aos nossos
colaboradores. São atenciosos e também
muito competentes na escolha dos temas presentes nas edições de cada mês.
Merecem nossos permanentes aplausos.
Júlio Nogueira – Presidente do TELMA Teatro Espírita
Leopoldo Machado, Salvador/BA.
Temas de Opinião (2)
Gostaria de comentar sobre a
coluna de Salomão Jacob Benchaya em OPINIÃO enfocando a história e as ideias
que conformam o Centro Cultural Espírita de Porto Alegre. Sinto-me
absolutamente identificado com esse modelo de instituição kardecista concebida
como um cenário de estudo, de reflexão e de diálogo aberto, e não como uma casa
de oração, de passes ou de curas psíquicas ou físicas. Enfim, uma entidade
cujos membros e amigos reúnem-se em um ambiente grato, amável, sem ostentações
e fingimentos.
Oportuna também a homenagem a Ian
Stevenson (Opinião 254), um nome indispensável na galeria dos mais sérios e
respeitáveis investigadores da reencarnação. De igual maneira, a referência a
Karl Muller, personalidade notável do espiritismo do Século XX, pouco referido
nas publicações espíritas, apesar de ter cumprido uma obra estupenda como
estudioso e como ativo militante. Ele, mesmo tendo participado da Spiritualist
Federation Internacional, sempre defendeu a tese da reencarnação e impulsionou
seu reconhecimento entre os espiritualistas anglo-saxões.
Jon Aizpúrua – Caracas, Venezuela.
Parceiros espirituais
A presença este mês do beatle
Paul McCartney no Brasil me faz recordar entrevista por ele concedida, lá por
2005, à revista Time sobre
“conversas” que dizia manter com John Lennon desencarnado. Mais do que
conversas, teriam ocorrido verdadeiras parcerias na composição de músicas entre
os dois famosos artistas. McCartney revelou que, às vezes, quando está a
compor, escuta a voz de John, falecido em 1980, “dentro de sua cabeça”. Chegam
a trocar ideias mentalmente: “Eu penso: ok, o que faríamos aqui?” – relata – “e
escuto a sua aprovação ou reprovação” aos versos ou acordes que compõe.
Aliás, um famoso compositor
nosso, o gaúcho Lupicínio Rodrigues, também declarou, numa entrevista a jornal
de Porto Alegre, que fazia apenas a letra de suas músicas. A melodia ele a
escutava como se uma orquestra tocasse em sua cabeça.
O sonho de Yesterday
A possível paranormalidade de
McCartney no processo de criação artística também estaria na origem de uma de
suas mais lindas canções: Yesterday.
Ele conta que a música lhe veio inteirinha num sonho. Ao acordar, sem qualquer
esforço intelectual que não o da memória, viva e fresca, simplesmente a
transpôs à partitura. Ele chega a afirmar não ter certeza de que a música seja
sua. Logo após o episódio, saiu a perguntar a outros músicos se conheciam
aquela canção que lhe chegara em sonho.
Escritores e o intercâmbio espiritual
Escritores famosos admitiram o
relacionamento com inteligências invisíveis no processo da criação literária.
Alfred de Musset escreveu: “Há
muitos anos que tenho visões e ouço vozes...Parece, no momento em que essa
comunhão se opera, que meu espírito se desprende do corpo para falar com os
espíritos que me inspiram”.
Já Coelho Neto associava seu
processo de criação a experiências vividas outrora: “De quando em quando -
escreveu - rompem-me na mente lembranças de outras vidas, como em vasos que
contiveram essências servindo a outras, posteriormente. Aparece, por vezes, o
aroma das primitivas”.
Goethe, Augusto dos Anjos,
François Coppé, Olavo Bilac... Todos eles admitiram a interface espiritual no
âmbito da produção literária
.
A sutileza da intuição
A mediunidade não é uma
exclusividade do espiritismo e nem seu cenário único são as chamadas “sessões
mediúnicas”. Ela está presente no dia-a-dia de todos. Os artistas, porque
portadores de maior sensibilidade, são mais propensos ao fenômeno, e, com
frequência, o admitem expressamente. Mas, as grandes conquistas da humanidade,
no campo da ciência, da tecnologia, do avanço do pensamento e dos costumes,
antes de se constituírem em ideias pessoais de seus inventores ou proponentes,
resultam do sutil intercâmbio entre encarnados e desencarnados.
Para mim, a intuição é a mais
genuína das múltiplas modalidades de intercâmbio espiritual. A sutileza de que
se reveste, entretanto, nem sempre possibilita que dela se apercebam seus
próprios médiuns. Muitos deles negam peremptoriamente o fenômeno do qual são
autênticos agentes.
Os Vales
Umbralinos
![]() |
| O inferno de Dante |
Essa ideia de um Deus controlador
e punitivo alimentada pela tradição judaico-cristã acabou sendo transferida,
atavicamente, para o espiritismo.
A narrativa do espírito André
Luiz, pela psicografia de Chico Xavier, acerca do Umbral encaixou-se
perfeitamente como um inferno espírita, felizmente transitório, diante do
pluralismo das existências que orienta para a necessidade do retorno do
espírito a novas experiências corpóreas.
Em 1954, a FEB lançou a obra
“Memórias de um Suicida”, psicografado pela médium Yvonne do Amaral Pereira,
descrevendo os atrozes sofrimentos do autor-personagem Camilo Cândido Botelho,
pseudônimo do poeta suicida português Camilo Castelo Branco, numa região do
mundo espiritual chamada “Vale dos Suicidas”.
Posteriormente, em 2005, o livro
“Mais Além do meu Olhar”, de autoria do Espírito Luiz Sérgio, entre diversos
temas relacionados à juventude, revela a existência do “Vale dos Tatuados” (!?)
que acolhe a turma que danificou o perispírito com tatuagens aplicadas no corpo
físico.
Finalmente, em 2015, outra obra
psicografada – O Vale dos Espíritas – ditada pelo Espírito Atanagildo, descreve
os sofrimentos de espiritualistas que, embora conhecedores de verdades
espirituais, negligenciaram seus deveres e, após a desencarnação, são recebidos
em uma comunidade de sofrimento e regeneração que dá o nome à obra.
Presumo que, nessa marcha – se é
que já não o foram -, logo serão descobertos os “vales” de abortistas, de
prostitutas, de estupradores, de traficantes e de políticos corruptos,
denotando uma estranha política punitivo-segregacionista das leis divinas.
Esse tema está a merecer mais
cuidadosas reflexões e pesquisas dos estudiosos espíritas, face às repercussões
geradas junto à coletividade. Talvez, a intenção dos Espíritos seja alertar os
leitores sobre as consequências de atos contrários à lei natural, mas o que acontece,
na prática, é uma generalização descabida e desarrazoada que beira a fantasia.
Narrativas de experiências
individuais se transformam em sentenças coletivas do tipo: todo suicida vai
para o vale dos suicidas; todo dirigente espírita faltoso vai para o vale dos
espíritas; todo tatuado, quando morrer, vai para o vale dos tatuados. Qual a
vantagem educativa da segregação para a reabilitação de espíritos? Um exagero e
um absurdo!
Há uma excessiva rigidez nas
punições impostas segundo essas descrições, como se o medo impingido aos
leitores pudesse levá-los a uma renovação de atitudes, tal como pretendido pelo
cristianismo das igrejas.
Uma falsa renovação, portanto.
Algo que o espiritismo não endossa.
“O fenômeno mediúnico não
acontece sem o componente anímico, que é da essência do processo. Para suas
manifestações, os espíritos precisam de certa espécie e quantidade de energia
de que somente o ser encarnado dispõe. A comunicação entre as duas faces da
vida, ou seja, entre espíritos (desencarnados) e seres humanos (encarnados),
transita por uma ponte psíquica que tem de apoiar uma cabeceira na margem de lá
do abismo e a outra no lado de cá, onde vivemos nós”.
(Do livro “Diversidade
dos Carismas – Teoria e Prática da Mediunidade”)
Alcione,
retornando de Rafaela/AR:
“4º Encuentro de CEPA en Argentina
foi um sucesso!”.
A presidente da CEPA, Jacira Jacinto da Silva, a
ex-presidente da CEPABrasil, Alcione
Moreno, compuseram a delegação brasileira que participou do “4º Encuentro
de CEPA en Argentina”, dias 15 e 16 de setembro, em Rafaela.
As duas brasileiras foram
responsáveis pela conferência conjunta de abertura (foto), na noite de 15,
quando desenvolveram o tema “Nuestra mirada sobre el adicto a las drogas”, com
base no trabalho que ambas realizam frente à Fundação Porta Aberta (São Paulo),
entidade que tem como foco a capacitação e a inserção social de dependentes
químicos e alcoólicos.
O trabalho de Jacira e Alcione
impactou fortemente o auditório (foto). O vice-presidente argentino da CEPA, Gustavo Molfino, classificou o trabalho
com dois adjetivos: “Excelente e comovente”. Espíritas argentinos, motivados
pelo trabalho, cogitam criar em seu país uma entidade nos mesmos moldes da
Fundação Porta Aberta.
O Encontro prosseguiu no sábado,
com duas oficinas, uma sobre Diversidade, e a outra sobre Imediatismo. O
trabalho foi conduzido por espíritas ainda jovens (de 30 a 40 anos). Segundo
Alcione, as oficinas estiveram “muito focadas na psicologia e no
autoconhecimento, a partir de experiências individuais e com base nos
pressupostos espíritas, e envolveu várias dinâmicas, durante todo o dia. Ao
final, os grupos elaboraram perguntas que foram respondidas pelos espíritos em
reunião mediúnica”.
Aureci em prosa e verso
Atuante trabalhador espírita
gaúcho, Aureci Figueiredo Martins (Instituto
Espírita 3ª Revelação Divina – Porto Alegre), acaba de lançar o livro “Bem-Aventurados os que duvidam”
(Editora Evangraf – Porto Alegre).
A obra, em 80 páginas, comenta,
com objetividade, aspectos fundamentais da doutrina espírita. Poeta, Aureci
abre cada capítulo do livro com uma quadrinha e acrescenta aos comentários em
prosa alguns poemas também de sua autoria, complementando as análises
doutrinárias, feitas sob rigorosos critérios de racionalidade e lógica.
“Bem-Aventurados os que duvidam” pode ser adquirido ao preço de 10
reais na livraria do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre – CCEPA
(Botafogo, 678)
CIMA em atividade plena, mesmo na crise
A difícil situação política e
social vivida pela Venezuela afetou, durante o último mês de agosto, as
atividades de CIMA Movimento Cultural Espírita, de Caracas, Venezuela. Graves
incidentes ocorridos no período obrigaram a tradicional instituição, presidida
nacionalmente pelo ex-presidente da CEPA, Jon
Aizpúrua, a suspender temporariamente suas reuniões, na Seccional Caracas,
por questões de segurança de seus participantes.
Mesmo perdurando a crise, o CIMA
Caracas está, agora, em plena atividade. Sua diretora, Yolanda Clavijo, enviou à redação de Opinião a seguinte programação de conferências que está sendo
cumprida durante este mês de outubro, pela instituição.
A
revista Aventuras na História, da
Editora Abril, em sua edição n.132 publicou como matéria de capa a reportagem “Allan Kardec e o espiritismo, uma religião
bem brasileira”.
“Às 22h30 de 17 de setembro de
1865, apenas oito anos depois da fundação oficial do espiritismo na França, foi
realizada em Salvador a primeira sessão da doutrina no Brasil, liderada por um
jornalista, Luís Olímpio Teles de Menezes. No mesmo ano, surgiu o primeiro
centro do país. Em pouco tempo, a visão científica, filosófica e religiosa de
Allan Kardec se transformaria em uma religião tipicamente brasileira, divulgada
por intelectuais nas nossas maiores cidades. Anos antes de ganhar as massas com
Chico Xavier, os seguidores de Kardec já tinham uma nova capital, nos
trópicos”.
Os bons índices socioeconômicos dos espíritas no
Brasil
A matéria destaca que, desde seus
primórdios no Brasil, o espiritismo se tornou uma “religião das classes média e
alta”, e acrescenta estes dados: “Atualmente, o trabalho iniciado por Kardec
tem 13 milhões de seguidores no mundo. A maioria, 3,8 milhões, está no Brasil.
Nossos espíritas têm os melhores indicadores socioeducacionais dentre os fiéis
de todas as religiões praticadas no país – 31,5% deles têm nível superior
completo, segundo o IBGE. Entre 2000 e 2010, eles saltaram de 1,3% da população
para 2%”.
Místicos x cientistas
A matéria reporta-se aos
objetivos buscados pelo fundador do espiritismo: “Kardec foi um dos pioneiros a
propor uma investigação científica, racional e baseada em fatos observáveis,
das experiências espirituais”. Faz longo histórico sobre as duas tendências
que, apesar da posição de Kardec, logo se apresentaram no desenvolvimento do
espiritismo, primeiramente na Europa: a dos que o interpretavam como uma
ciência e os que preferiam tomá-lo como religião.
No Brasil, especialmente, se
oporiam as duas correntes, dos místicos e dos cientistas. Destaca o esforço de Afonso Angeli Torteroli que, liderando
os científicos, organizou o I Congresso Espírita Brasileiro, em 1881. “Mas foi
o aspecto religioso que venceu” - registra a reportagem – “Por dois motivos: o
lado religioso funcionava melhor para uma população ligada a um cristianismo
que, em geral, convivia tranquilamente com curandeiros, benzedeiras e
cartomantes” e porque “a preocupação científica e filosófica não tem o mesmo
“appeal” para nós como tem o lado religioso-ritualístico”.
Para ler a íntegra da reportagem:
http://www.ameuberlandia.org.br/?p=7999
Debate sobre
Mediunidade
abre Congresso
Andaluz
A presidente da AIPE – Asociación
Internacional para el Progreso del Espiritismo, Rosa Diaz envia correspondência convidando para a XXI
Jornada-Debate, com o tema Sociedades
Espíritas e Mediunidade, a ocorrer em 27 deste mês, em Huelva, Espanha,
como atividade preliminar ao VIII
Congresso Andaluz de Espiritismo, a ser inaugurado em 28/10.
Nos dois dias seguintes, o
Congresso Andaluz desenvolverá temas ligados, todos eles, à reencarnação, sob o
lema “Nascer, Morrer, Renascer e Progredir”, com expositores de várias regiões
da Espanha e Portugal.
A programação completa e
informações sobre o evento podem ser acessados em: http://www.andaluciaespiritista.es/2017/05/viii-congreso-andaluz-de-espiritismo.html
XVIII Semana
Espírita de Osório
celebra O
Livro dos Espíritos
Os temas fundamentais de O Livro
dos Espíritos, no ano de seu 160º aniversário, serão abordados em quatro
conferências que compõem a XVIII Semana
Espírita de Osório, promovida pela Sociedade Espírita Amor e Caridade,
daquela cidade gaúcha:
Dia 23/10, 20h – Deus, o Universo e a estrutura da Natureza
- com Moacir Araújo Lima (Porto
Alegre);
Dia 25/10, 20h – O Ser: sua imortalidade e comunicabilidade
- com Milton Medran Moreira – Porto
Alegre;
Dia 26/10, 20h – As Leis Morais e as relações – com Gladis Pedersen de Oliveira – Porto
Alegre.
Dia 28/10 – 15h – O Inquietante problema do futuro do Ser – com
Arivelto B. Fialho – São Leopoldo.
Eugenio Lara, arquiteto e
designer gráfico – São Vicente/SP.
"Quando a lenda se torna realidade, publica-se a
lenda".
(Frase do editor do jornal
“Shinbone Star” ao senador Ransom Stoddard, personagens do filme “Quem Matou o
Facínora” (1961), de John Ford)
Há lendas de todos os tipos:
lendas urbanas, religiosas, folclóricas, históricas. Mas lenda espírita é algo
que não havia imaginado. Vejo que isso existe mesmo e, amiúde, surge e ressurge
na imprensa espírita, na internet, no cotidiano do movimento espírita.
Oradores, médiuns e dirigentes espíritas são os grandes mentores desse tipo de coisa.
Mas afinal, o que é uma lenda? E lenda espírita, existe isso?
Lenda é uma história fantasiosa,
algo bem próximo do mito, parte integrante da tradição de todos os povos. Da
lenda para a realidade, a distância é abissal, incomensurável. Quem convive com
o poder e o vivencia sabe muito bem disso. Criam-se lendas, mitos, coisa
folclórica a todo instante. A versão distorcida da realidade vira lenda. Uma
ideia errônea, uma interpretação deturpada, enviesada dos fatos, se for
sistematicamente repetida, de modo sutil ou insidioso, com o tempo acaba
adquirindo o status de verdade. A mídia mal-intencionada usa e abusa desse
recurso e os fofoqueiros de plantão sabem bem como isto funciona. A imprensa
marrom sobrevive às custas desse tipo de expediente.
O mito e a lenda, em seu sentido
mais nefasto, surgem quase como a fofoca, o mexerico, a maledicência, a
informação plantada, o factóide. É a filtragem criada pelo imaginário. Um
processo complexo que desafia antropólogos e historiadores.
Já a lenda legítima, que se
desenvolve ao longo do tempo, tanto quanto o mito, esta sim é coisa séria.
Historiadores, sociólogos e antropólogos, notadamente os estudiosos da
religião, procuram decifrar os mitos e lendas de determinada civilização. O
formato mitológico, mítico de interpretação da realidade, serve então de estudo
na montagem de um quebra-cabeça que os aproxime da verdade dos fatos. Trata-se
de um objeto de estudo fundamental para o entendimento de nossa própria
história.
Enquanto que a lenda inventada,
tatuada, concebida e gestada na mente de pessoas fascinadas, sedentas de poder
e de glória, de legitimidade, torna-se perigosa, desprezível, porque pouco tem
de inocência, de boa intenção. Desse tipo de gente, o umbral está cheio...
Há algum tempo, uma nova lenda
espírita ressurgiu no seio do espiritismo. A de que Chico Xavier tenha sido a
reencarnação de Allan Kardec, confirmando assim a profecia de seu então
protetor, o espírito Zéfiro, que afirmou ao fundador do espiritismo, em 1857,
que ele reencarnaria no século vindouro, o século 20.
Não há indícios de que Rivail
tenha reencarnado no século passado. Todavia, a quantidade de candidatos a esse
posto é enorme. Eu mesmo já conheci uma meia dúzia dessa gente mentirosa e
arrogante, que se acha o Druida de Lyon numa nova edição, a fim de granjear
para suas ideias obtusas o status de filosofia respeitável. E para não ficar
somente no lero-lero, cito duas personalidades não muito conhecidas. Uma delas
surgiu no ABC e chama-se Osvaldo Polidoro (1910-2000), o criador do chamado Espiritismo
Divinista. Toda sua doutrina se alicerça na lenda de que Polidoro tenha
sido a reencarnação de Kardec. O que Herculano Pires já escreveu sobre essa
personalidade atormentada foi suficiente. Não é necessário perder tempo com
ela. Cito apenas como informação.
Um outro caso, surgido em
Niterói-RJ, é o do filho de Kardec. Sim, isso mesmo, o filho de Allan Kardec
reencarnado. Sua primeira obra, dentre outras medíocres e inúteis, denomina-se Eu Conheci Allan Kardec Reencarnado.
Trata-se de Erasto de Carvalho Prestes, a quem certa vez recebi em minha casa e
participou de algumas edições do Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita.
Ele considera seu pai como o próprio Kardec, que deixou uma obra ainda por ser
publicada. E o será, segundo ele, lançada no momento propício, conforme a
vontade do “plano espiritual superior”...
Existem outros kardequinhos candidatos
à notoriedade, à legitimidade artificial, criadores de doutrinas, de sistemas e
que, acobertados por uma falsa humildade, se escondem por trás de supostas
revelações de espíritos tão confusos e pseudossábios quanto eles. Essa de que o
Chico seja Kardec é de doer. Se o jornalista Boris Casoy fosse espírita ele
bradaria o seu bordão: “isto é uma vergonha!”.Existem outros
Curiosamente, em torno dessa
polêmica, poucos ousaram perguntar ao Chico se ele era realmente o Kardec. E
quando perguntaram, negou veementemente: “Não, não sou. Não tenho nenhuma
semelhança com aquele homem corajoso e forte”. Esse testemunho encontra-se em
um livro escrito pelo estudioso e escritor espírita, Wilson Garcia, intitulado Chico, Você é Kardec? que praticamente
esgota o assunto e coloca uma pá de cal nessa contenda ridícula.
Nessas situações, pouco importam
os fatos. Pouco importa se Chico Xavier negou ser o Kardec reencarnado. Pouco importa
se a lenda é mais interessante do que o fato. Já que é assim, fiquemos com a
lenda. É o que essa gente faz.
Por ignorância ou interesse
suspeito, os espíritas foram, ao longo do tempo, abraçando lendas e mitos em
torno de Kardec, dos espíritos e do espiritismo. É um processo sociológico e
antropológico complexo de se apreender. Todavia, quando alguém tenta demonstrar
o contrário da lenda ou do mito, o que há é a marginalização, o despeito ou
mesmo a perseguição silenciosa e “fraterna”, tudo em nome da religião, do
evangelho, do amor e da caridade, e que assim seja...
Reconheço que as palavras nesse
breve artigo são incisivas. Mas para lidar com mitos e lendas inventadas é
necessário mesmo ser um pouco áspero. Senão essa coisa cria raiz, começa a germinar
e se não cortarmos a cabeça logo de cara, o que teremos é um novo Ovo da
Serpente. Aí então será tarde demais.
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